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Café: extra-forte


A semana vai ser longa e agora as famílias precisam se virar em quem pode trabalhar de casa e ainda cuidar das crianças. Será um desafio para nós todos, para uns muito mais difícil que para outros como eu, que vivem sozinhos. Em todo caso, o momento pede que sejamos conscientes e solidários – sejamos socialmente responsáveis, olhemos para o outro, cuidemos do outro como se pertencesse à nossa família.
Lembrei agora da exposição que fui em Luxemburgo, fui para lá ano passado para rever uma das melhores amigas e de presente, ela me levou a uma exposição incrível de Edward Steichen, chamada The Family of Man. Cliquem no link, para nos vermos um pouco como coletivo, como humanidade. Em todo caso, seguem as dicas para acalentar nossos corações e fazer o tempo passar mais rápido! 

Assunto de Família (2018)

Talvez com o sucesso repentino de Parasita (2019), passemos a ter mais atenção e carinho com as produções do leste asiático. Alguns filmes e diretores são impressionantes e suas formas de contar histórias não perdem em nada para os maiores diretores do ocidente. Assunto de Família, de Hirokazy Koreeda, é um desses filmes que vão te pegando aos poucos, pelas beiradas, que parece tudo simples e quase monótono, mas seus sentidos e significados vão entranhando em sua pele gradativamente, até te tomarem por inteiro. Eu assisti no cinema quando foi lançado e saí calada e impressionada com aquilo tudo. Não à toa o filme levou Cannes, César e Bafta e foi indicado a filme estrangeiro no Globo de Ouro, Oscar e mais não sei quantos festivais.
A história é sobre uma família japonesa que vive da forma que pode, como quando se vive à margem da sociedade. Neste ponto, dá para encontrar similaridades com Parasita (2019), mas há mais para ver e as semelhanças são sempre ganhos neste caso. O impressionante do filme é a sensação de intimidade, de naturalidade destes atores que, de fato, parecem constituir uma família, ao que tudo se desregra por razões que não comentarei. Não espere um filme corrido; como no sul-coreano, a tensão se constrói aos poucos e podemos aproveitar o momento para ver um filme com um 'tempo' diferente do nosso dia a dia. Com certeza, um dos melhores da Netflix do momento.
  
Klaus (2019)
O Natal já passou faz um tempinho, mas este desenho foge à regra de ‘filme besta’ e merece atenção. Também, em virtude das crianças e pais em casa, não custa indicar algo para ocupar o tempo desta turminha com um filme para toda a família.
Klaus conta a história de um jovem mimado que precisa aprender uma lição e é levado para o fim do mundo. Como os grandes filmes infantis, esse também tem aquele aprendizado, mas sem ser muito piegas. Então o jovem-que-virou-carteiro tem um enorme desafio que é conseguir fazer acontecer um tráfego de correspondências em uma cidade sem escolas, onde boa parte da população se odeia sem saber por que e não sabe escrever. A desinformação e a repetição irracional de comportamentos são temas importantes para as nossas vidas e aqui são trabalhados de forma brilhante. É, de fato ‘um filme para toda a família’, além de ser muito bem feito, lindo e engraçadinho. Vai ter o momento ‘Natal’ no filme, mas as ideias que ele traz, a construção dos personagens e desta vila no meio do nada, fazem valer a pena.

Peaky Blinders (2013)
Se tem uma coisa que eu adoro nessa vida, é a BBC. Como os grandes conglomerados de comunicação no mundo, ela deve ter mil defeitos, mas suas produções seriadas são impressionantes. Peaky Blinders é uma das minhas séries preferidas de muito tempo. Não é uma sitcom dessas de rever para sempre sem importar a ordem, mas uma produção de um drama como um imenso e maravilhoso filme.
Os Peaky Blinders são uma gangue-empresa familiar em Birmingham, na Inglaterra de 1919. Eles têm uma empresa de carvão mineral e fazem dinheiro às custas de violência e justiça social daquele jeito dos mafiosos. Cillian Murphy é Thomas Shelby, um ex-soldado da Primeira Guerra Mundial, sério e cheio de traumas. É o dono da empresa e chefe da família de ex-ciganos sem classe que a aristocracia inglesa tenta rejeitar. Além dele, há outros grandes nomes da dramaturgia inglesa e dá para perder umas boas horas nesta série de cinco temporadas sem nem se dar conta. A sexta estava em gravação, mas, como toda a produção audiovisual de quase todo o mundo, foi interrompida por conta da pandemia maldita. Aguardemos os próximos episódios.

What did Jack do? (2017)
What did Jack do? é um bônus na listinha de hoje. Zapeando o streaming, passei novamente por esse curta de David Lynch e lembrei o quanto achei divertido e estranho, como quase todas as coisas que o diretor faz. David Lynch é o mestre deste tipo de narrativa, ele tem diversos estudos sobre meditação transcendental e sonhos e grande parte de sua filmografia transita por esses caminhos.
Seus temas não são esses, diretamente, em suas histórias, mas o ambiente que ele cria, nos transporta para isso, algo entre o absurdo e uma sensação de estranhamento, que não é simplesmente surrealista, mas entra em nós como um sentimento de algo quase macabro que não se conclui nem se define tão claramente. E isso vale para muita coisa que ele fez, como as primeiras temporadas de Twin Peaks (1990, uma das melhores séries de todos os tempos) e os filmes Veludo Azul (1986), Coração Selvagem (1990), Cidade dos Sonhos (2001) e Império dos Sonhos (2006, esse é complicado). Eu sempre fico esperando o próximo longa dele, para assistir, absorver qualquer coisa, rir de umas ‘maluquices’ e tentar entender – e se não entender, tudo bem também.
David Lynch é profícuo na produção de curtas de ficção e documentário e este é um dos que a Netflix trouxe este ano para nós. É uma brincadeira com filmes de polícia – toda a história se passa em uma sala em uma delegacia e o próprio David Lynch faz perguntas a Jack, um macaquinho suspeito de ter cometido um crime. É um bônus, o filme é divertido e inusitado, que não quer ser nada além do que está ali. 17 minutinhos.  
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Ainda em ritmo de quarentena, além de ver filmes e séries, podemos aproveitar este tempo de reclusão para ler algumas coisas, algo que vá além de uma obrigação ou estudo. Ler por prazer. Por isso, começa agora uma pequena série com dicas de livros, para quem precisa de uma companhia para aquele café-delícia do fim da tarde.
Para começo de conversa, uma coisa rápida: quando estava buscando uma foto de Natalia Ginzburg, me deparei com imagens de uma mulher séria e isso contradisse a imagem que eu fazia dela. Talvez por realmente ter visto poucas fotos, esperava sorrisos. A questão é que os textos que conheço, ainda que alguns tratem de temas sérios, trazem uma leveza na forma de contar, que deixa até os pesares parecerem menos desesperadores, ainda que tristes.


Eu me apaixonei por ela com As Pequenas Virtudes. É um livro curtinho, tem talvez 150 páginas e é fluido, fácil de ler. É uma seleção de ensaios e também algo como um livro de memórias. Natalia traz sempre histórias com temas que me interessam, como o registro familiar e cotidiano. Ao mesmo tempo, nada é frívolo, nada é gratuito. Através de uma escrita que parece falar de pouca coisa, vemos a história da Itália, o fascismo, as guerras, os exílios, a família, a morte e o amor. Ela também fala sobre a escrita, sobre o que significa para ela e como foi a única profissão que lhe dizia respeito e em que se sentia capaz. 

trecho do ensaio As Relações Humanas

Esta edição é da infelizmente finada Cosac Naify, de 2015 mas a Companhia das Letras fez uma edição novinha e linda lançada neste Janeiro de 2020, então é fácil de achar em qualquer livraria. Para continuar lendo Natalia, vale investir no Léxico Familiar e Caro Michele, outras obras também importantes e impressionantes.

Natalia Ginzburg sendo muito séria com seus amados gatinhos
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É tempo de coronavírus e a determinação para barrar o aumento da contaminação implica em cuidados básicos de higiene, bom senso e, o mais importante, ficar em casa. Ficar quieto mesmo, lidar com a ansiedade, com aquela vontade de ver que ‘há tanta vida lá fora’, curtir uma preguiça, ler um livro. É preciso entender o momento que estamos vivendo, pensar em nossos amigos e familiares mais velhos e preservá-los, não se tornando um vetor involuntário do vírus. Vamos aproveitar para buscar algo de positivo nesta desaceleração social. Eu, particularmente, tenho uma tendência a ficar em casa e também por isso, começo hoje uma série de dicas do que ver na Netflix, para ajudar os amigos e termos o que conversar em todas as redes sociais deste nosso mundo pandêmico e globalizado. Nunca a internet foi tão fundamental. Sem mais delongas:
 
O Profissional (1994)
Luc Besson dirigiu Nikita (1990), aquele clássico filme de ação com uma mulher incrível e assassina e depois lançou esse, que não envelhece. O Profissional e assassino da vez é Leon (Jean Reno) e é claro que, mesmo não sendo um santo, vamos gostar dele, principalmente depois que ele conhece a pré-adolescente Mathilda (Natalie Portman), que deseja vingar a morte da família. O filme está todo centrado no roteiro, ficamos presos nesta dupla e do lado inimigo há outro nome de peso, Gary Oldman (Stansfield). Filme que estaria na prateleira de ‘clássicos modernos’ da minha antiga locadora, vale ver e rever, para perceber como um filme de ação pode sim, ser muito bom.
 
Trapped (2015)
No quesito série, tem esta produzida na Islândia, um dos países com melhor qualidade de vida e quase nada de violência. A história é sobre um detetive que investiga um assassinato e é interessante porque, apesar da situação pacífica do país, os islandeses são fissurados em histórias de crimes – em livros e filmes. Vai ver é assim, enquanto aqui estamos saturados de violência policial, lá é só ficção. O fato é que a série é muito boa, este ano lançou sua segunda temporada e a primeira é bem impressionante. Vale ver pela construção da trama, pelos personagens principais e para conhecer um idioma diferente e paisagens deslumbrantes.
 
Jim & Andy (2017)
Todo mundo conhece Jim Carrey por O Máscara (1994) e outros filmes de comédia nem sempre incríveis – apesar de eu gostar muito de alguns. O que menos gente sabe é que ele era fissurado em um comediante americano que se tornou famoso em meados dos anos 70, Andy Kaufman, uma figura inusitada e brilhante, às vezes causando desconforto com sketches diferentes, às vezes tido como um gênio. Andy tinha não sei quantas particularidades e, depois de morto, Jim Carrey o interpretou em O Mundo de Andy (1999). O que o documentário mostra é o processo de incorporação do ator em seu personagem, que foi levado de uma forma e grau tais, que não sabemos se esta incorporação seria uma espécie de ‘reencarnação’, uma performance fora do comum ou um delírio. O documentário vale para os amantes do cinema e suas narrativas e também para conhecer um pouco mais sobre estes dois monstros do cinema americano. Dirigido por Cris Smith, o mesmo de Fyre (2019).
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Foram quinze dias no Chile em 2011. Separei sete para o Atacama. Em San Pedro, ganhei uma dica para ir à Uyuni, na Bolívia. O Deserto de Sal, que eu nunca tinha ouvido falar, me esperava. Foram poucos dias e essa viagem ainda mexe comigo. Talvez esteja na hora de voltar.


Antes de chegar a San Pedro de Atacama, eu esperava encontrar uma cidade rochosa e empoeirada, tudo meio amarronzado, aquela imagem clássica de deserto e céu limpo e seco. No norte do Chile, a cidade tem paisagens lunares e a quase ausência de umidade deixa tudo mais límpido, como se estivéssemos em uma imagem em alta definição, em 4k. A região tem um dos céus mais limpos do mundo. Estamos no deserto. É lindo e único, mas jamais como eu havia imaginado.

Uma visão distópica de grandes telescópios plantados em um jardim eletrônico torna obrigatória a visita à noite. É um observatório astronômico, uma das grandes atrações da região. Antes de correr para os equipamentos, participamos de uma conversa em uma sala redonda, a céu aberto, com direito a chocolate quente e mantas para espantar o frio. Depois de viajar por alguns minutos, ouvindo curiosidades sobre o Universo, vamos nos encontrar com as constelações, os anéis de Saturno, Marte, Vênus e Mercúrio, nebulosas, Júpiter. Quando você viaja sozinho, todos os seus sentidos parecem mais ativos e as experiências, mais fortes.


Um colega de quarto no albergue, que se tornou amigo para a vida, havia me falado sobre Uyuni, um deserto de sal na Bolívia que eu jamais ouvira nada a respeito. Ele estava fazendo um roteiro parecido com o meu, mas estava sempre dois dias à minha frente e insistiu que eu não deixasse de ir, que eu não deveria perder uma experiência tão incomum – e eu só pensava que já estava vivendo algo diferente ali, no meio do deserto. Ele sorriu. Eu agendei o passeio e minha vida começava a mudar naquele momento.

Foi um tour de quatro dias em um jipe. Montei uma mochila pequena com a maior garrafa d’água que encontrei, óculos escuros, protetor solar. Roupas para o vento e as noites geladas – nós dormiríamos em abrigos simples e sem aquecimento. Todas as refeições incluídas.

Prepare-se para se impressionar. Deixamos San Pedro e depois de cruzar a fronteira cedinho, um café da manhã nos esperava na Bolívia. Café, suco, chocolate, pão, nada muito pesado, mas o suficiente para começar o dia. Voltamos para o carro, o motorista nos levava para um mundo de sonhos. Lagos vermelhos e em tons de coral, outros em ciano. Montanhas no horizonte, céu azul sem nuvens, aquele mesmo solo pedregoso marrom claro e imensas pedras, rochas em formatos diferentes, esculpidas por décadas de ventos e intempéries. Uma pausa para um banho em uma piscina natural de água quente - as águas sulfurosas de um território vulcânico. Não havia estradas ou muitas sinalizações e nosso guia sabia todos os caminhos desta vastidão.


À medida que andávamos, a distância do nível do mar aumentava e fui me sentindo um pouco estranha. Meu corpo estava se adaptando à altitude e precisava se recompor, mas não foi nada desesperador. Um enjôo e uma dor de cabeça leves, apenas. Depois da primeira noite de sono e de um chá com folhas de coca, tudo voltou ao normal. Muitas pessoas sequer percebem as mudanças. Antes de ir pra cama, fomos à porta do nosso abrigo olhar o céu. Um mar de estrelas clareava tudo ao horizonte, um céu como nunca vi antes e nem era noite de lua cheia. Nunca deixe de olhar o céu quando for a um deserto. Não há nada igual no mundo.

Na manhã seguinte, flamingos coloriam e davam relevo aos imensos lagos que dominavam a paisagem. Árvores de pedra pareciam ter sido instaladas estrategicamente entre os espaços vazios. A sensação era de estar em uma daquelas imagens de fundo de tela de computador. Saímos algumas vezes do carro para caminhar. Eu estava viajando sozinha e nestas circunstâncias, fazer amizades é ainda mais fácil, mas escolhi aqueles momentos para mim, para andar sozinha por uns instantes e sentir aquela natureza tão distinta da que temos no Brasil.

Cada minuto nos guiava a um novo e surreal cenário. A rota imaginária nos fazia entrar agora em uma tela branca como neve e já sabíamos que havíamos chegado. Olhando em toda e qualquer direção, era um tapete branco e um céu de azul pleno e nada mais. De repente, encontramos uma construção, parecia ser uma casa – era um hotel. Paredes e móveis feitos de sal. Mais adiante, fomos a uma pequena ilha com cactos de todos os tamanhos e lhamas nos morros, uma paisagem inusitada, literalmente no meio do nada. Tudo parecia um sonho, não fosse a alegria e surpresa nos nossos olhos a confirmar aquela realidade. Quando se trata de Natureza, não há limites para a criatividade.


Continuamos dirigindo. Agora não havia construções, ilhas ou lhamas. Paramos no meio do branco e azul, nada se via além disso, os olhos ardiam um pouco pela claridade seca daquele imenso vazio. Eu gostei daquele silêncio e caminhei por um tempo. Uma transformação íntima acontecia, eu me sentia parte do Universo em sua essência, como se fôssemos duas partes da mesma substância. Me permiti estar sozinha, me sentir como um indivíduo naquele espaço. Eu tinha certeza de que aquele momento eu levaria por toda a vida. E então, era hora de tirar fotos.

O cemitério de trens foi uma conclusão brilhante de nossa jornada. Suas estruturas de ferro velhas e corroídas pelo sal nos faziam entrar em um mundo de ficção científica. Tempos depois, chegamos na pequena cidade de Uyuni, que carrega o nome de seu deserto e todos juntos, tomamos uma cerveja de despedida. Alguns ficariam na Bolívia e outros, como eu, voltariam para San Pedro. O dia seguinte foi menos glamouroso, mas eu ainda estava imersa naquelas sensações, nas muitas definições de vazio e imensidão que acabara de aprender. Eu queria sempre ver mais e conhecer mais, mas, ao mesmo tempo, deixei nosso motorista nos levar por mais caminhos sem estradas e me perdi por horas olhando tudo pela janela do jipe. Alguma coisa mudara dentro de mim. 

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Conheci uma moça no banco quando fui fechar a conta que abri por causa do último trabalho. Antes de chegar a minha vez de falar com o gerente, esperei perto dela, que estava cheia de documentos e uma aparência cansada. 

O banco estava vazio e tranquilo, mas ela tinha percorrido a cidade desde às seis da manhã. Teria saído às 5h, se não tivesse ouvido tiros na porta logo cedo. Fora do mercado de trabalho há cinco anos, pediu ao filho para procurar alguma vaga no computador e acharam uma de limpeza em um hospital. O pessoal da igreja ajudou com a xerox dos documentos, o filho checou o e-mail e confirmou a entrevista. Fizeram uma vaquinha, o dinheiro guardado para o transporte do filho ao campeonato de futebol da escola pública se converteu na chance de um emprego fixo e no pagamento da multa eleitoral. 

A moça do banco não tinha almoçado e eram quase quatro da tarde. Falamos sobre a água do Rio e ela disse que não via diferença. A água da casa dela sempre teve gosto forte. Ofereci chiclete e ela não aceitou – de estômago vazio só ia piorar as coisas. Ela estava animada, dentro do cansaço e da fome. Uma mulher de 34 anos, no segundo e finalmente feliz casamento com um homem bom – seu melhor amigo. O primeiro, um relacionamento abusivo e violento, terminou com seu braço quebrado. 

Conversei bastante com a moça do banco, contei que tinha ido fechar a conta que ela estava abrindo. Falei que também estava sem trabalho, que havia saído há poucos meses do meu e que estava procurando. Notamos nossas diferenças, mas isso não impediu a troca de experiências e esperanças que uma dava para a outra. Ela era jovem e tinha um rosto de menina. Sou mais velha um par de anos, mas ela tinha oito vidas à minha frente. Ela não me pediu nada e não quis aceitar o dinheiro que insisti muito que levasse. Tive medo de ofendê-la, mas acho que criamos ali um momento particular, uma construção improvisada em que, naquele instante, só existíamos nós nas cadeiras de um banco vazio, cheio de gerentes. Insisti um pouco mais e ela disse que usaria para pagar a passagem do dia seguinte. Ela não precisaria pedir a ninguém mais quando voltasse para casa e tinha certeza de que estaria pontualmente na empresa para assinar o contrato. 

Continuamos conversando, o gerente me chamou, insistindo que mantivesse a conta, me daria todos os benefícios que nunca pedi. Depois seria a vez dela e antes de eu ir embora, ela me pediu o número de telefone e eu lhe disse que me mandasse a foto quando estivesse contratada, de uniforme e tudo. O trabalho seria em plantões de 12 horas em dias alternados. Sua função seria limpar leitos e quartos do hospital depois que a vaga é liberada por falecimento. Um trabalho tão inimaginável quanto um texto fantástico de Gabriel García Márquez – o encerramento trágico de uma história de mentira. Nenhum peso nas palavras da moça do banco. Era um trabalho que alguém deveria fazer. O importante era acordar às 4h para chegar em Copacabana às 7h. Em sua casa, o jantar daquela noite era caldo de frango e arroz que a vizinha deixou para eles e a farinha de casa. No próximo mês comeriam melhor.  

Dias depois, a moça do banco me mandou uma mensagem de voz confirmando o sucesso, animada com um futuro melhor para sua família. Minutos depois, as fotos de uniforme e a promessa de que estava torcendo por mim, que logo eu ia conseguir um trabalho e seríamos, nós duas, vitoriosas. A moça do banco tentou trabalho em todos os lugares durante esses anos e fazia, para conseguir comprar comida, enfeites de doces para festas. Era o mínimo para seu sustento mínimo e, ainda assim, sofria calotes. Quisera ela ter conseguido ser a empregada doméstica da Disney de Paulo Guedes, mas a falta de referências pela falta de experiência não permitiu. 

Fiquei curiosa para conhecer as empregadas domésticas da Disney de Paulo Guedes. Que vida levam? Como conseguem juntar dinheiro para realizar os sonhos de seus filhos? As empregadas domésticas da Disney de Paulo Guedes trabalham até a exaustão, mas não se permitem o cansaço. Moram longe dos postos de trabalho, porque os vizinhos de Paulo Guedes não os querem por perto, então dificultam as construções de estações de metrô. As empregadas domésticas da Disney de Paulo Guedes, como a moça do banco, acordam às 4h e não chegam atrasadas se não houver tiroteio nas portas de suas casas. 

Talvez as empregadas domésticas da Disney de Paulo Guedes não mereçam a Disney mesmo. Por não merecerem, enfrentam o risco, trabalham 10h por dia e complementam a renda nos fins de semana ou fazem turnos alternados de 12h limpando leitos mortos. Passam mais tempo cuidando dos filhos da Disney de Paulo Guedes do que de seus próprios, que aprendem a cuidar de si. Mas, o amor e a coragem das empregadas domésticas da Disney de Paulo Guedes e da moça do banco são maiores do que isso – a moça do banco voltou pra escola e seu filho lhe ajuda nas tarefas e deveres de casa. A esperança agora é que mais empregadas domésticas e moças do banco apareçam de fato empregadas e menos domésticas, que busquem a EuroDisney, também de Paulo Guedes, que comam brioches, invadam o Louvre e tirem selfies com a Monalisa e na Torre Eiffel. Que encontrem Paulo Guedes e façam questão de lhe cumprimentar, agradecendo a lembrança no cenário econômico brasileiro. Que, por fim, lhe contem seu próximo destino: Londres, talvez? O enxoval do bebê em Miami? Dizem que lá é mais barato mesmo.

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Waad e Sama à esquerda, Amani, de The Cave à direita.
Os dois filmes sírios indicados ao Oscar de Melhor Documentário têm uma guerra em comum. Incomuns não por isso, e sim pela resistência e força de duas mulheres que insistiram e defenderam seu país por seu povo, famílias e pessoas que nunca haviam visto antes. Os dois filmes denunciam, através de um cotidiano impossível não fosse real, os horrores de uma guerra internacional e civil que ataca crianças, mulheres, homens, sírios. Por serem sírios.


For Sama

Uma jornalista começa a registrar a insurgência contra a ditadura de Bashar Al-Assad em Aleppo, noroeste da Síria. Uma das cidades mais atacadas desde o início da guerra quase dez anos atrás, em 2013 festejava e lutava contra um regime de décadas de opressão. A ideia era guardar a transformação, um mundo novo por vir, com pensamento e vidas livres. O que aconteceu foi uma confluência de países que se interessam pelas reservas de petróleo e a Rússia e o Irã apoiam o regime, os Estados Unidos, o Estado Islâmico, a Turquia e os curdos lutam contra. Forças nacionais de oposição de apoio surgiram e o país é uma zona de guerra.

Ativistas, Waad Al-Kateab e seu marido médico Hamza Al-Kateab decidem ficar na cidade quando o cerco aperta e então eles já têm Sama, uma criança nascida no meio do conflito. Conseguindo manter o único hospital clandestino da região até 2017, ela filma e ele salva quantas pessoas pode, todas vítimas de tiros, bombas, ataques aéreos, armas químicas.

O registro pessoal vem acompanhado de sua voz, narrando para Sama o que acontece, na esperança de tudo mudar, na desesperança das desgraças cotidianas. O filme é triste e duro, muitas crianças sofrem e surgem no filme, o desespero delas é gritante, porque em seus olhares está um desconcerto, um atordoamento em que eles não entendem do que são culpados para serem alvos. Importante, forte e sensível, vivemos com ela a tensão de uma rotina imprevisível, em que os momentos de respiro são curtos e embalados pela presença de Sama, uma menininha que parece se habituar e não se assustar mais com os barulhos de bombas e tiros.


The Cave

No sudoeste sírio, em Al Ghouta, está outro hospital. A administradora e uma das médicas é a pediatra Amani Ballour e o lugar se chama A Caverna, porque foi a única forma de manter um hospital em uma cidade destruída pelas aeronaves russas – tornando-o subterrâneo.

Amani enfrenta com seus colegas uma resistência que a torna fundamental, é a segunda médica em um dos poucos, que se torna o único, hospital da região. Da mesma forma que em For Sama, aqui também o cerco se fecha e se aproxima cada vez mais deles. Além da luta por salvar vidas, Amani vive situações que deveriam ser impensáveis, não fosse a cultura e a tradição construídas muitas vezes à fórceps e sem raciocínio. Pais de crianças assaltadas por bombas não a querem cuidando de seus filhos ou sequer administrando o hospital – seria dever de homem, mulher não deve trabalhar. Para nós, um absurdo, há que respeitar a cultura e não a defender, mas questioná-la e é isso o que nossa heroína faz, com uma tolerância quase impensada.

Apesar de ter um ponto de vista um pouco distinto de For Sama, cuja câmera é sempre subjetiva e mais autoral, em The Cave é o outro que filma e, mesmo assim, as duas obras imprimem uma possível realidade de todo o país de forma bem próxima: cidades destruídas por um sem número de forças, hospitais bombardeados, cercos e restrição de comida e água, armas químicas e o esgotamento de uma nação por ganância. Os filmes trazem mulheres cuja coragem beira o martírio e que, saber que estão vivas hoje, nos deixa tranquilos ao mesmo tempo em que seguimos tristes, apreensivos e inúteis diante do horror.

**

Há outro filme na Netflix sobre os socorristas, civis que não veem outra forma de ajudar em Aleppo, que não atendendo às vítimas destes atentados terroristas: Capacetes Brancos. Levou o Oscar de Melhor Documentário de curta metragem em 2017.
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Fora do tempo e do espaço conhecidos por nós, vive uma mulher com sua mãe idosa em uma casa de pedra, sem água ou luz. Hatidze produz mel com suas abelhas de forma artesanal, tradicional e sustentável – com técnicas que lhe foram passadas através de gerações e é, hoje, a única mulher no mundo a praticá-las. O filme é sobre ela.

Documentários continuam sendo a forma mais criativa de lidar com o mundo. São filmes que trazem em seus processos, histórias que jamais saberíamos, culturas que nunca veríamos, vidas importantes e pessoas que jamais conheceríamos de outra maneira. Sua forma de produzir, às vezes como um blockbuster e outras com uma equipe enxuta, encontra nos melhores filmes novas buscas e aprendizados, muito mais do que a reafirmação de discursos estabelecidos. 


Hatidze vive neste lugar montanhoso e desértico, cuja cidade mais próxima está a 4h de caminhada, onde ela vende sua produção. De todo o mel que retira, metade permanece com as abelhas e com esta fórmula, este acordo com a natureza, a vida segue. Uma família nômade – pai, mãe e sete filhos – com seu gado, se avizinha e tudo se transforma. Este é o inesperado da vida que vira filme.

A família nômade encontra uma amiga em Hatidze, mas o pai – do típico patriarcado universal – ao saber da técnica e potencial local, decide também cultivar abelhas para sustentar sua família, como um extra além da produção de gado. O problema está no processo extrativista, que afeta a vida de nossa heroína drasticamente. Isolada do mundo e de todos, ela acompanha o processo desrespeitoso com a família dele, com a natureza e com ela mesma, e insiste algumas vezes em que se repense o cultivo, que só funciona se sustentável. Mulher, sozinha, com uma idosa acamada em casa, em uma terra em que só existe a lei da natureza, não há muito o que fazer.


O filme segue e a resistência e resiliência dessa mulher são uma fonte de força que vai nos contaminando, nos tomando por dentro sutilmente e então estamos naquela região montanhosa com ela e sua mãe, com as crianças, com o pai irritante e ignorante, e é uma situação difícil, de sobrevivência mútua, de tentar entender todos e de se apaixonar por Hatidze. Ela é a força da natureza em forma humana, o elo e equilíbrio, o contato primordial em que a partir da mulher, a humanidade deveria se entender como parte do Cosmos e não conquistador dele.

É um filme de observação, que se aproxima por três anos dessa família de mulheres, que vive um pouco com elas, que vivem com quase nada. O que se vê é uma vida ancestral, que em duas mulheres há toda a História. O que sentimos é mérito dela e da equipe do filme, que nos trouxe tão sensivelmente uma obra de respeito e honra às mulheres, visíveis ou não, cujas vidas deveriam servir de modelo do que deveria ser humanidade, consciência de mundo e sustentabilidade. Um filme que deve ser visto por todos.  


Link para o site do filme.
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Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme Parasita, de Bong Joon Ho merece o reconhecimento máximo de público e crítica. Em sua fórmula, o filme coreano consegue unir cinema de arte a entretenimento de forma única e especial.

 
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Parasita, Bong Joon Ho

Ontem passei pela porta do cinema e vi que a sessão do filme Parasita (2019, Bong Joon Ho) estava esgotada. Vi o filme ano passado, em novembro e o impacto em mim foi suficiente para querer revê-lo e não tirar da cabeça. Não bastou Cannes; a nomeação para o Oscar alavancou novamente o público e essa insistência é mais do que justificada. Que se lotem as salas, o filme é fundamental.

Três filmes marcaram o cinema nos últimos anos, Moonlight (2016, Barry Jenkins), Roma (2018, Alfonso Cuarón) e agora, Parasita. Os três abordam questões sociais, cada um à sua maneira, de forma que nos sentimos imersos, mergulhamos em suas histórias e saímos dali outros, mudados, diferentes. Moonlight é uma obra de arte, um filme americano que fugiu do padrão e levou o Oscar para casa em um momento um pouco mais político para a Academia. 

Foi o ano em que vimos o morno La la land (2016, Damien Chazelle) concorrendo na mesma categoria, filmes tão díspares, com vertentes quase opostas e que se encontraram neste momento final. Moonlight foi cinema, comunicação, arte e engajamento em uma história de amor e sobrevivência. La la land era uma história de amor sofrível que trazia referências do clássico cinema estadunidense. Fez bonitinho, e só.

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Roma é um filme para ver sem pressa. É importante frisar que é um filme de arte na Netflix. Não é uma produção 'fast food', na melhor acepção do termo: gostosa e de rápido consumo. É um filme que trata de um período importante do México, sob a perspectiva de uma casa em Roma, bairro de classe média da capital federal nos anos 60. A década que carregou transformações nos dois hemisférios, como um vírus, mas necessário. 

Naquela casa, como no Brasil e em muitos outros países, a empregada ‘faz parte da família’ desde que não coma com os patrões, durma no quarto dos fundos e não tenha vida social. Uma jovem empregada doméstica lida com a diferença, vindo de uma cidade menor, com uma cultura específica e, por isso, tratada como qualquer outra coisa – carinhosamente. Cuarón acerta em cheio e encontramos similaridades e ressonâncias em toda casa que já teve empregada. No Brasil, lembremos dos últimos a tratar do assunto: Casa Grande (2014, Fellipe Barbosa), Que horas ela volta? (2015, Anna Muylaert) e Domingo (2018, Clara Linhart e Fellipe Barbosa).

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E agora, chega Parasita. Do outro lado do hemisfério, supostamente uma cultura completamente distinta à nossa e então, igual. Quando eu estudava cinema, um professor disse algo que nunca esqueci: para atingir o mundo, produza localmente. Não era bem isso, mas a ideia era de que precisávamos nos entender primeiro e produzir o que nos é conhecido, o que está em nós e se reflete em nós, porque é isso o que nos faz humanos e, portanto, universais. Essa ideia de local-global ficou em mim, porque ela é o espelho do mundo, por mais diferentes que sejamos nas entrelinhas e geografias. 

E então, Bong Joon Ho retoma o tema de classe e vida doméstica na Coréia do Sul, que acontece de se parecer muito com qualquer residência de classe média alta. Uma família habita uma casa grande em um bairro rico e precisa de suporte, empregados de toda ordem para se manter funcionando. Em paralelo, uma família pobre, morando em um bairro de subúrbio, precisa sobreviver, pagar suas contas e garantir, literalmente, o mínimo. Nenhuma surpresa, nenhuma novidade. Entretanto, quem assistiu Mother (Madeo, 2009, Bong Joon Ho), sabe que o diretor tem muito o que contar.  

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Com uma oportunidade para ajudar a família, o filho mais velho é chamado para dar aulas de inglês à filha mais velha na casa grande. Ao mesmo tempo, encontra ali uma chance de trabalho para a irmã, como professora de artes do filho menor. Em pouco tempo, a família pobre abarca todas as funções da casa, aproveitando qualquer motivo para alavancarem sua situação. Ou: a família rica não consegue viver sem o conforto de empregados diversos: motorista, governanta/empregada doméstica, professor de inglês, professora de arte. 

Há uma necessidade de manter status e organização em uma casa vazia e rica, onde o supérfluo é a rotina. Como o estereótipo parece o excesso à regra, mas não exceção, esta família representa a futilidade e o total descaso pelo outro; o tratamento íntimo, como 'família', é uma fachada para o distanciamento mútuo, onde cada um sabe o que lhe cabe. Esse filme atinge, portanto, a todos como uma chuva forte que limpa o ar, deixa os abastados felizes com a calma da água que tudo acalma e assola os pobres com inundações, prejuízos e riscos de vida. O importante é trabalhar no dia seguinte, pontualmente. 

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O Festival de Cannes tenta manter uma heterogenia na escolha de seus jurados e presidentes de júri e isso tem garantido uma seleção internacional de qualidade. Para além das festas e vestidos, os filmes que concorrem à Palma de Ouro costumam valer os ingressos. Então, Parasita levou a Palma esse ano e sabemos que a concorrência (Bacurau, Retrato de uma jovem em chamas, entre outros) não foi fácil. 

Além do roteiro brilhante, duro e sarcástico e de um jogo de cena impressionante com grandes atuações, o filme Parasita é genial em cinematografia. Enquadramentos que nos colocam na cena como pontos de vistas dos personagens, o aproveitamento das locações – a casa pobre em contraponto à rica e o uso dos espaços sob camadas nos prendem à história que se desenrola sem percebermos. Os tons sombrios se aproximam à medida que a trama avança e nos vemos atados, sem piscar, com um turbilhão de informações, críticas e percepções que vão se construindo em nós – tudo ao mesmo tempo. É como um soco no estômago que tomamos sem perceber e agradecemos, mesmo sentindo dor. Não será estranho sair desse filme sem saber direito o que lhe atingiu e um tanto sem fala, mas impressionados e com vontade de entrar na sala de cinema mais uma vez.
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Enquanto escrevo, ouço as batidas do sino da igreja aqui de perto. Não seria uma informação de grande relevância se o filme fosse outro, mas este, que levou a Palma de Ouro em 2019 encontra ressonância. Retrato de uma jovem em chamas é uma história de amor e arte em um cruzamento sensível e sofisticado. 


Século XVIII, mulheres usam corpetes para afinar a cintura e manter a coluna ereta. Falam baixo e têm diversas habilidades, como um portifólio para o casamento – além do dote e importância familiar. As relações entre sociedade e intimidade se encontram aqui, em que a primeira é como uma ameaça próxima ao mínimo de liberdade e a segunda é o que nos transforma e identifica como indivíduos singulares. 

Céline Sciamma é a diretora e quem conhece sua trajetória, espera um filme que traga assuntos como comportamento, sexualidade e gênero. Pauline (2010), Tomboy (2011) e Girlhood (2014) são grandes exemplos desta uma produção consistente e relevante. Os três carregam uma sutileza que fica entre a realidade de assuntos doloridos e a docilidade das ingenuidades da infância e adolescência. São filmes lindos, destes de rever e ter em casa para alguma emergência e boas conversas, especialmente os dois últimos. 


No filme deste ano, há menos inocência e mais garra. Marianne (Noémie Merlant) é uma pintora que segue para uma ilha remota com a missão de pintar o quadro de uma noiva. O noivo decidirá, a partir da obra, se esta imagem lhe apetece, se o casamento vai acontecer. A prometida é Heloise (Adéle Haenel), uma jovem atormentada por um passado familiar, cujo reconhecimento de si começará através desta amizade e de outras tantas descobertas. Mas, mais do que um filme sobre um romance, a obra carrega outros significados. É um drama que fala sobre ser mulher em, talvez, todo e qualquer aspecto possível. 

Recordo de uma sequência, em particular, com um grupo de mulheres – havia outras pessoas, mulheres isoladas na ilha, além das protagonistas, que se encontram em um descampado e, quase silenciosas, comungam suas relações de amizade, existência, resistência. Elas então cantam, entoam como bruxas ou corpos solidários, uma irmandade de mulheres que se reconhece e encontra ali, uma força inesgotável. Muitas outras imagens são pintadas além desta e das que Marianne produz, como o mito de Orfeu e Eurídice e a brilhante interpretação de seu desfecho, a coragem para nadar, a cena que remete ao O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957). São momentos comuns de nossas vidas, das vidas de nossas amigas e irmãs, primas, mães. São mulheres que abortam, curam e cuidam. São mulheres que carregam a responsabilidade do mundo sem mérito ou lucro. 


O filme é como uma pintura, os traçados, as cores, a fotografia. Os enquadramentos são como retratos, paisagens e natureza morta. É uma ode à pintura como é para o cinema. Não suficiente, a pertinência de um roteiro ambientado em séculos passados faz um paralelo com a contemporaneidade de tal forma que só precisaria de um novo figurino para trazer aos nossos dias. Seus assuntos, tão urgentes antes quanto o são agora, nos deixam entre a lembrança pesarosa de nosso retrocesso social e a esperança de ver que se pensa e se faz cinema como arte, entretenimento, sensibilidade e informação. Não é à toa que ganha prêmios por onde passa e que a carência de homens nesta história não é percebida como perda, mas mais importante, como significado.

*Links: crítica de Tomboy e o curta, Pauline, completo no youtube.


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Bacurau conseguiu tudo. Ovacionado em Cannes, ganhou relevância no Brasil, também aqui adorado pela crítica e público. Muita gente foi assistir na expectativa de conhecer um faroeste nacional, uma espécie de guerra no sertão nordestino, sem aquela ideia de miséria e sofrimento tradicionais. E Bacurau cumpre o prometido. Traz uma espécie de filme de ação brasileiro com humor, violência e crítica política. O filme passa tão rápido que saímos um pouco atordoados, sem sequer saber se entendemos tudo, se aceitamos, se gostamos. É uma obra complexa, que requer o tempo de digestão do espectador atento para que se processem as ideias, a narrativa, a produção.


"A cidade do povo colonizado (...) é um lugar de má fama, povoado por homens de má reputação. Lá eles nascem, pouco importa onde ou como; morrem lá, não importa onde ou como. É um mundo sem espaço; os homens vivem uns sobre os outros. A cidade do colonizado é uma cidade com fome, fome de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma vila agachada, com uma cidade sobre seus joelhos".[1]


A relevância, a coragem e a necropolítica.

O interessante deste filme não está na forma de contar, na estrutura do roteiro e diálogos, mas na estória. Uma cidade pequena, apagada do mapa, cuja importância renasce no interesse das campanhas eleitorais regionais e em seus habitantes, que insistem em tê-la para si. Por ser esquecida e escondida do mundo, Bacurau é o reflexo de quem mora ali, uma terra de gente com raça, cujo conservadorismo da teoria se sobrepõe a uma comunidade mais humana e, por isso, liberal e diversa. Nesta cidade, tudo se mistura e todos se conhecem. A fraqueza da falta de privacidade será a mesma força que unirá todos contra o que quer que venha de fora: o prefeito ocasional e usurpador, os motociclistas do sudeste que anunciam, ao instinto dos nativos, caos e destruição.

Kleber Mendonça Filho havia feito Aquarius (2016) e anos antes, O Som ao Redor (2012). Os três trazem em seus temas, o tom de crítica social de sempre, assunto que move o diretor. Neste último, toca numa ferida recém-aberta do brasileiro: o desgoverno. Rodado antes das eleições de Bolsonaro como um ato premonitório, o filme anuncia um passado-presente do Nordeste com a ameaça externa do extermínio imediato. Com um apelo de distopia em uma encruzilhada de comunidade em harmonia versus o invasor supremacista atroz, a primeira confusão e lucidez do filme é justamente essa: entender em que tempo estamos, quando o futuro da ficção parece um pouco com qualquer época.

“To create today is to create dangerously. Any publication is an act, and that act exposes one to the passions of an age that forgives nothing [2]”. 

Albert Camus nos introduz a ideia de impossibilidade da neutralidade daquele artista do século XIX no que vive o século XX em um discurso na Universidade de Uppsala em 57. Ele defende que o artista contemporâneo não pode se eximir da verdade de seu tempo e que, ainda que também não seja dele a função de permear um combate, é uma obrigação não ser neutro ou apático.

Camus insiste, indicando que a arte "is nothing without reality and without which reality is insignificant"[3] (não é nada sem a realidade, da mesma maneira que a realidade sem a arte é insignificante). Essa construção de sentido configura a produção artística: ela promove uma relação quase simbiótica entre um e outro e, em qualquer instância, manifestação ou obra, entre efeito e causa ou dependência. Essa assertiva não pretende, contudo, obrigar o artista a defender uma arte ‘realista’, que represente ou espelhe de alguma maneira o concreto, o que se absorve no cotidiano: art is neither complete rejection nor complete acceptance of what is [4].

A trajetória de Kleber Mendonça parece reafirmar as ideias de Camus, a constituição de seus filmes evidencia uma discussão constante sobre seu mundo, sua realidade sem perder a poesia. Ao mesmo tempo, reforça a soberania professada por Achille Mbembe e Bataille, essa recusa em aceitar os limites a que o medo da morte teria submetido o sujeito. O mundo da soberania, Bataille argumenta, "é o mundo no qual o limite da morte foi abandonado. A morte está presente nele, sua presença define esse mundo de violência, mas, enquanto a morte está presente, está sempre lá apenas para ser negada, nunca para nada além disso."[5]


Esta é a única saída para Bacurau, cidade que se nega a morrer e recorre a si própria, como numa guerra, quando as forças políticas desaparecem e sobreviver a qualquer custo se torna a solução para cidades invisíveis. O estrangeiro, o que vem de fora e se impõe como superior, hierarquiza a vida e transforma tudo em jogo de tiro ao alvo – no filme e na realidade dos drones no Rio de Janeiro, assassinos de comunidades pobres. A mira da ficção e do cotidiano estão, invariavelmente, apontadas para aqueles de outra classe social e, portanto, outra cor, como se comprova na história do país. A luta é com base na economia do biopoder, a função do racismo é regular a distribuição de morte e tornar possível as funções assassinas do Estado. Segundo Foucault, essa é "a condição para a aceitabilidade do fazer morrer".[6] A equipe vilã de Bacurau, os jogadores, vem, por fim, numa condição de contrato assinado com o poder local, que só vemos em tempos de festa e contenção – repressão – social.

O acerto na descrição de Mbembe é atroz e realista em uma obra distópica de ficção. Essa própria ideia de ficção científica no cinema traz sempre uma penumbra de passado ou presente. O futuro dos filmes é, no máximo, uma repaginação do presente sob os olhos da tecnologia e meio ambiente. No filme de Kleber, vem no desgoverno do presente e na desimportância dos locais, objetos, alvos do colonizador moderno, que faz das suas conquistas, jogos de azar e crueldade: "um elemento crítico a essas técnicas de inabilitação do inimigo é fazer terra arrasada (bulldozer): demolir casas e cidades; desenraizar as oliveiras; crivar de tiros tanques de água; bombardear e obstruir comunicações eletrônicas; escavar estradas; destruir transformadores de energia elétrica; arrasar pistas de aeroporto; desabilitar os transmissores de rádio e televisão (...)".[7]

Por isso, é difícil não entender Bacurau em todas as suas nuances. É coerente que o ponto de revolta ou defesa da cidade seja alguém procurado por crimes de morte. É realista, nesta estrutura ficcional, porque é do dia a dia do brasileiro de cidades esquecidas, de comunidades divididas entre os poderes da milícia, do tráfico e da polícia. É, sem dúvida, um tratado sobre biopoder como um teste de laboratório – não fosse tão realista e ameaçador. Por fim, a morte do outro não é nada, que não a satisfação de vencer um campeonato ou a sobrevivência; "(...) o horror experimentado sob a visão da morte se transforma em satisfação quando ela ocorre com o outro. É a morte do outro, sua presença física como um cadáver, que faz o sobrevivente se sentir único. E cada inimigo morto faz aumentar o sentimento de segurança do sobrevivente."[8] 

Na guerra do filme de mentira e da vida de verdade, nunca a assertiva fez tanto sentido e entender isso, é confirmar a existência de uma realidade triste.


[1] FANON, Frantz in MBEMBE, Achille. Necropolítica.
[2 a 4] CAMUS, Albert. Create Dangerously. Penguin Books. United Kingdom, 2018.
[5 a 8] MBEMBE, ACHILLE. Necropolítica.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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