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Café: extra-forte

É muito difícil chegar à conclusão de que um relacionamento não está dando certo. Especialmente se não falta amor. É sempre doloroso buscar justificativas que fujam do tão conhecido – e justo se não fosse ilusão – se há amor, vale tudo. É sobre essa dificuldade em um imenso relacionamento de que trata Mon Roi.

Enquanto românticos, buscamos histórias de amor intensas. Sozinhos ou acompanhados, queremos (re)viver no cinema os romances, sofrer um pouco, nos apaixonar pelos personagens, por suas histórias. Terminando bem, saímos querendo aquilo para nós, o amor lindo, que se constrói e firma após algum desencontro e segue seu rumo de felizes para sempre. Dando errado, seguimos iguais, penosos porque acabou cedo demais o que tinha grandes chances. Muitos filmes acompanham as duas trajetórias, são feitos às dezenas e poucos acabam se destacando em nosso repertório. É aqui que entra a experiência da produtora-roteirista Etienne Comar e da atriz-roteirista-diretora Maïwenn.
Tony (Emmanuelle Bercot) e Giorgio (Vincent Cassel) se conhecem e em muito pouco tempo se apaixonam. É um amor pautado no cotidiano, com uma intimidade crescente entre uma advogada séria e eficiente, organizada, que trabalha em um escritório e ele, um dono de um restaurante, claramente um sedutor em todos os níveis, frequentando modelos e um grupo de amigos moderninhos. Os opostos parecem não ser um problema, o casal se equilibra numa sintonia fina e o amor se torna maior do que eles. Tony abre o filme se recuperando de uma grave lesão no joelho em um centro de reabilitação que a trata física e psicologicamente, enquanto se recorda do casamento com Giorgio. Nos flashbacks conhecemos a relação, onde amor é certeza e amálgama, ao passo que o cotidiano questiona se o para sempre pode ter um fim. O que parece um balde água fria nos transporta para o extremo oposto e não conseguimos sair imunes.

O roteiro intercala as terapias de uma mulher física e metaforicamente partida com o que a levou àquele momento. A fotografia tem uma relação especial com a história – ao passo que na clínica, há uma luz dourada de verão nos transmitindo tranquilidade, paciência e saúde, a transição para o passado é sutil e quase não se vê. As diferenças estão nos planos e enquadramentos inseridos em uma montagem mais atribulada condizente com o passado, contrastando com um presente mais tranquilo. Emmanuelle Bercot ultrapassa qualquer definição de grande atriz e entendemos todas as dores e alegrias de uma mulher que parece uma de nós – à exceção de alguns rompantes que nos dividem entre o exagero ou desespero. Giorgio é o rei de Tony, e seu personagem segue a vaidade, grandiosidade e galanteria de conquistador. Ao mesmo tempo, não é um personagem raso, mas um homem louco por sua mulher e essa sinceridade é percebida na experiência de Cassel. Louis Garrel é Solal, o irmão de Tony e é quem de longe sabe o tipo que ela escolheu. Ele quase nos irrita com suas certezas e deduções calmas, ao passo que conduz bem o papel alerta de irmão, com a falsa arrogância que encontramos em quem tem uma razão que não queremos aceitar.
O filme parece sintetizar: terminamos relacionamentos pelos mesmos motivos que os iniciamos. O que nos demanda uma retrospectiva matemática de nossas próprias histórias de alguma forma se confirma e é duro aceitar como verdade. Entregamos-nos e acreditamos estar vivendo o melhor. O problema é esta montanha russa parece não ter fim e, ao invés de ficarmos extasiados com o excesso de adrenalina, acontece o que sempre acontece quando exageramos na dose – enjoamos. Com sorte, tentaremos transformá-la em uma roda gigante, mais tranquila nos seus altos e baixos e, ainda assim, com acesso a grandes paisagens, que agora conseguimos enxergar melhor na velocidade de cruzeiro. Tony e Giorgio tentam, mas a roda gigante parece não chegar.

Ficamos sem saber se esse é um bom filme romântico ou realista. Parece com alguma coisa vivida por nós ou por alguém que conhecemos. O trunfo está em um final interessante, digno de uma direção cada vez mais experiente e um roteiro bem amarrado, que dá a voz à mulher, num perfil super humano para algo tão intenso. Talvez não fossem necessários os 130 minutos, mas, ainda assim, Maïwenn se reafirma na direção, nos felicitando com um cinema questionador, incômodo e honesto. Emmanuelle Bercot levou o prêmio de melhor atriz e o filme foi indicado a Palma de Ouro em Cannes este ano.

*Esta crítica e a cobertura do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
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Em 2008, mudei para o Rio de Janeiro para fazer uma pós-graduação em cinema documentário. Neste mesmo ano participei da oficina do Recine – o Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Cinema de arquivo é aquele que se vale de imagens fotográficas e cinematográficas de algum passado, criado ou real. Como resultado, entregaríamos um curta com imagens do Arquivo Nacional brasileiro que entraria em competição. Recebemos uma seleção aleatória de filmes históricos, políticos e de eventos cívicos e nos cabia criar uma narrativa. No meio disso, me encontrei em um filme sobre meu avô paterno, Walter Ferreira.

Meu avô não era uma personalidade da grande História, mas em nossa família foi a figura máxima masculina no lado paterno. Homem simples e do interior da Bahia, destes que pouca gente conhece, exerce sempre uma curiosidade em mim, já que ele morreu quando eu era criança e para mim, é a imagem de um homem calado, sentado num sofá. O curta simples, sem trilha sonora ou orçamento, levou o prêmio de melhor roteiro. A ideia era fazer das imagens do Arquivo Nacional um complemento às fotografias de família, numa simbiose entre os grandes políticos, suas famílias e a minha.

Passou ontem no Festival do Rio, Allende, meu avô Allende. A história é contada pela neta de Salvador Allende e diretora, Marcia Tambutti Allende, que busca informações sobre o avô que pouco conheceu. Apesar de termos histórias completamente distintas, a similaridade de objetivos não só despertou minha curiosidade sobre a forma que ela encontraria para o filme, como trouxe grande surpresa: o início é bastante parecido com o do meu avô. A sequência inicial de voz off da diretora, as imagens de arquivo, a intimidade com o material e a sensibilidade de quem fala sobre a família me despertaram para um documentário que eu parecia já ter visto.
Marcia vai além dos meus três minutos. Ela parte de uma investigação sobre seu avô, mas encontra algo muito maior. O fascínio pelo personagem não é à toa, Salvador Allende é reconhecida figura pública chilena, foi presidente socialista do país em 1970, sendo derrotado e morto no golpe militar de Pinochet em 1973, que instaurou uma das mais dolorosas e longas ditaduras na América Latina. Enquanto interroga sua avó Hortensia de 92 anos, investigando a profundidade doméstica do herói nacional que foi o avô, recorre também à sua mãe e tia, suas primas, primo e irmão. Marcia atropela a todos, se incomodando e sem perceber que o silêncio é a grande voz de uma família atravessada por tragédias. Ao mesmo tempo, por haver uma intimidade e franqueza dos personagens-testemunhas, as próprias discussões, interrupções e queixas são expostas, numa montagem que corre entre as fotos de família e campanhas políticas, filmes maravilhosos íntimos e outros segredos. A construção de Salvador Allende dá ao público uma dimensão mais humana, com suas falhas, peculiaridades e brincadeiras ali expostas.

Apesar das invasões de privacidade em quedas de braço com os envolvidos, todos parecem querer contribuir para este complexo retrato do grande homem, que culmina num álbum familiar e essa construção é tanto metafórica quanto literal. Após o golpe de 73 que termina no suicídio de Allende, exílio de alguns e posterior suicídio de sua filha Beatriz em Cuba, a vida privada do núcleo entra em consonância com o passado nacional e é nítida a relevância deste filme familiar para o país e mundo.
Este é o primeiro documentário da diretora e é perceptível como funciona como uma necessidade, um conflito pessoal que precisava ser solucionado ou descoberto. Talvez por isso a insistência quase irritante e, em alguma maneira, a montagem reflete essa teimosia, que se resolve. As exposições familiares e relatos pessoais em filme correm o risco e garantem um retorno positivo com um final feliz, se for possível o adjetivo. Conhecemos outro Allende, mais humano, menos estampado em campanhas políticas e acabamos nos interessando até mais pelas mulheres da família – estas sim, sobreviventes e testemunhas de uma história que se confunde com aquela que aprendemos nos livros. De repente será esta, a próxima investigação da diretora que levou Cannes pra casa.

*O link pro curta sobre meu avô está aqui!
**Essa crítica e a cobertura do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
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Há menos de um mês saiu na mídia uma série fotográfica sobre europeus que resolveram viver de forma autossuficiente na natureza. O fotógrafo Antoine Bruy viajou sem rota definida pelo continente e com a ajuda da sorte e acaso, um personagem o levou a outro. As fotos refletem tanto uma necessidade de sair dos centros urbanos e viver de forma simples, quanto à adaptação e essa redefinição de ‘simples’ e isolamento. Profundo, elimina o romantismo desta alternativa e nos faz refletir, tanto nas escolhas dos fotografados, quanto na forma como vivemos. Após assistir In Natura, lembrei imediatamente das fotos, ainda que o filme exiba a relação com a natureza em outro contexto.

De Ole Giaever e Marte Vold, In Natura não cai na ideia já conhecida de tantos filmes de adentrar a natureza buscando um refúgio do caos das grandes metrópoles. Tampouco, é uma longa jornada após uma catástrofe na vida pessoal do protagonista. É simplesmente a história de um Martin, um homem casado e entediado, pai de um garotinho, que resolve passar um fim de semana em uma trilha próxima à sua cidade e reflete sobre as escolhas de vida. Não chega a ser um tratado existencialista hermético, pelo contrário, o filme é carregado de ideias sobre o cotidiano e, à medida que vamos conhecendo o personagem em sua intimidade, nos identificamos cada vez mais com sua história.
Já na primeira sequência, temos uma grata surpresa: Martin está em seu trabalho e ouvimos sua voz em off, seu pensamento sobre aquele momento, sobre escritório e sua decisão sobre o fim de semana. Este é um recurso que guiará todo o filme e dará a tônica cômica, dramática e reflexiva de suas ações. O mote, conforme o poster indica é: quem é você quando ninguém está olhando? E é essa descoberta que faremos aqui, não apenas sobre Martin, mas refletindo em nós, em quem somos em essência e no que pensamos. É apenas quando estamos a sós que temos essa liberdade e intimidade expostas para nos reencontrarmos.

Com 5 atores no elenco e 80 minutos de duração, Ole Giaever faz o protagonista, escreve, dirige e edita. Esse perfil enxuto de produção parece ser o costume do diretor, cujos filmes anteriores também lidavam com essa simplicidade e não reduzem em nada a qualidade do que vemos. O filme lançado ano passado foi premiado em Berlim e está fazendo o circuito dos maiores festivais. O fantástico da estrutura, da construção narrativa e do personagem é que todos se fundem na locução: ela trará o ritmo das cenas e aproximará Martin de nós. Com imagens deslumbrantes da Noruega, vemos a jornada de um homem comum que se transforma em herói justamente por sua humanidade.
Em exibição no Festival do Rio, este já pode ser um dos melhores filmes do ano. A necessidade de isolamento é comum a todos, especialmente quando não moramos sozinhos. O fato do ser humano ser gregário não o exclui da individualidade e, tanto a esposa de Martin compreende isso, que o deixa partir. Esta é uma grande surpresa para o marido, que esperava alguma resistência e se sente culpado. Ao mesmo tempo, ao estar só e se ver tentando encontrar uma solução para a sua vida, entende que apenas com uma atitude drástica, digna de um ponto de virada de roteiro, seria salvo. Esta associação de vida com a de uma narrativa clássica traz uma metalinguagem sutil e novamente honesta. Martin precisa chegar ao seu limite.

O próximo filme do diretor está sendo feito direto de sua varanda (From the Balcony – título provisório) e será uma ficção que dará continuidade a esta linha de pensamentos inusitados e quase absurdos do dia a dia, que nos arrancam gargalhadas justamente por sua naturalidade – por mais paradoxal que esta frase possa soar. É esperar que a leveza e inteligência de In Natura se perpetue na carreira de Ole Giaever. E mais uma vez, como a cinefilia aponta, é hora de buscar os outros filmes do diretor.

*Esta crítica e a cobertura completa do Festival do Rio estão no Blah Cultural! :)
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Quando pensamos em ver filmes sobre amizade, é sempre aquela coisa de grandes amigos que passam por experiências e sobrevivem pela união. A maioria é de filmes como Conta Comigo (1986) e Thelma & Louise (1991), que carregam na aventura e emoção, mas de forma crescente e positiva. Não é o que acontece em Rainha do Mundo.

Devastador, este filme conta a história de Cat (Elisabeth Moss) e Ginny (Katherine Waterston), duas amigas de sempre, hoje com trinta e poucos anos que resolvem passar uma semana numa casa de campo. Cat acaba de se separar e há menos de um ano perdeu o pai, com quem trabalhava e tinha como referência na vida. Ginny então traz a amiga para que se recupere enquanto o ex-namorado esvazia o apartamento. É neste reencontro que elas lembrarão o ano anterior, quando era Ginny quem estava em dificuldades, as diferenças entre elas e como sobreviver às duras perdas.

Elisabeth Moss era Peggy da série Mad Men (2007-2015). A reencontrei em Cala a Boca, Phillip Morris (2014), filme de Alex Ross Perry, diretor também deste, e lembrei de Garota, Interrompida (1999), mas nada do que foi visto antes dá a dimensão de grandeza desta atriz. Tanto na série como nos outros filmes já havia demonstrado um talento que a definiria como uma das grandes atrizes de sua geração, mas aqui, de alguma forma, consegue superar a si mesma. Cat segue um destino difícil rumo a uma séria depressão e vemos suas dores e delírios se aprofundarem de tal forma que nos contorcemos no cinema. Fica claro que o filme é muito mais do que um tratado sobre as separações e  perdas que precisamos viver, é uma análise honesta e dura da depressão enquanto doença.
Conhecemos Ginny como a boa amiga que vai resgatá-la, ajudá-la a se recompor das dores que começam a afligir Cat agora também fisicamente. Mas de cara há um estranhamento entre elas que cresce exponencialmente, intercalando confrontos e carinho. Se no passado Ginny era quem sofria por um cara que não a queria mais, foi incapaz de perceber que com Cat não era, necessariamente, a mesma coisa. Talvez seja essa a grande dificuldade de quem convive com uma pessoa clinicamente deprimida. Há uma névoa que impede de distinguir o que é doença do que é um sofrimento momentâneo e egoísta e enquanto esta nuvem não se dissipa, não conseguimos compreender o outro, entender o aprofundamento de um sentimento que se transforma em doença, que requer mais atenção, mais carinho, mais paciência – mais cuidado.

Cala a boa, Phillip Morris (2014) é um filme pretensioso. Ou é um filme que fala de pessoas pretensiosas e muitas vezes temos vontade de socar a tela por nos fazer participar daqueles diálogos arrogantes e vazios. O filme esteve no Festival do Rio ano passado e tem Jason Schwartzmann fazendo o protagonista chato e engraçado ao mesmo tempo – grande ator – Elisabeth Moss e Jonathan Price. Alex Ross Perry consegue nos transportar para qualquer situação, nos manipulando, seja por irritação com os personagens de Phillip ou na tensão deste último filme. Aqui o transtorno remete diretamente aos delírios de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (Polanski, 1965) em interpretação nos seus pontos críticos.

O fato é que a história da amizade se constrói aos poucos e em silêncios que, como o clichê indica, acabam dizendo mais do que as palavras. Estamos tão entregues à dramaturgia das personagens – a chegada de Rich (Patrick Fugit), amigo de Ginny traz um tempero para a acidez dos diálogos e a discussão de Cat com ele é soberba – que ficamos aguardando o momento em que tudo vai explodir. Esta semana que passam juntas nos deixa ansiosos, curiosos pelo desfecho, apaixonados pela sincronia entre as amigas e fissurados por uma história em que a montagem do filme joga conosco ao entregar um passado em proporções desiguais e esporádicas regadas com um humor sombrio, trazendo momentos de uma leveza suspeita, inteligente e mordaz. As alterações de comportamento das personagens ganham tons à medida que se descortinam novas cenas de um passado que parecia cor de rosa.

A fotografia linda, granulada dentro de casa e clara com o cenário deslumbrante do lado de fora deveria nos deixar aconchegados numa confortável casa de campo. Mas este retiro em meio à natureza funciona como um isolamento de tudo e o exílio do mundo é também um catalisador da disputa de poder. Esta queda de braço é sutil, como a trilha sonora que delicadamente cria um suspense insuportável. Os enquadramentos remetem aos dramas de Bergman em seus personagens femininos, pautados neste mesmo silêncio que amplifica os sentimentos no olhar. Se Cat expressa melhor em palavras e tenta fazer Ginny entender minimamente o que acontece, ainda que não assuma ou sequer compreenda a gravidade, Ginny, por outro lado é um muro de apreensão, medo e ignorância. O fato é que esse filme tenso nos deixa sem piscar, crescendo junto com ele e tentando definir quem é, de fato, esta rainha. Com este filme, Alex Ross Perry confirma maturidade estética e narrativa, se tornando uma referência do cinema independente americano. 

Esta crítica está no Blah Cultural! :)
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Conversando com um colega no trabalho, falávamos sobre cinema e ele dizia que para um filme ser bom, precisava ficar na cabeça por alguns ou vários dias, para ser digerido, lembrado. Não precisaria ser por completo, mas alguma cena, alguma fala, a história, a fotografia, um elemento que fosse relevante o suficiente para se prender em nós. Concordo com essa ideia e sem pensar muito, este filme ficou comigo a semana inteira, em busca de conclusão.

Tribunal é o longa de estreia de Chaitanya Tamhane. Ele conta a história do julgamento de um cantor e ativista social, Narayan Kamble (Vira Sathidar), que se apresenta nos bairros pobres de Mumbai e é também professor, acusado de incitar ao suicídio com suas músicas um jovem que trabalhava nos esgotos e foi encontrado morto. Acompanhamos o vai e vem do tribunal, os argumentos do Estado contra os da defesa e a trajetória de pouca sorte deste homem persistente. Em paralelo, vemos as rotinas da promotora Nutan (Geetanjali Kulkarni) e do advogado de defesa Vinay Vora (Vivek Gomber), numa clara distinção entre tradição e globalização de uma nação em desenvolvimento.


À primeira vista, ficamos incomodados com o ritmo moroso do filme. As sequências parecem se estender além do necessário, como se fosse um problema de corte. Em determinado momento nos sentimos afundando na cadeira, frente àquele descompasso da rotina do tribunal em protelar um julgamento aparentemente simples, mas que é constantemente postergado por argumentos absurdos da promotoria com base em leis retrógradas e sem aplicação lógica na sociedade contemporânea. Em um paralelo com as discrepâncias do discurso tradicionalista no tribunal ir de encontro à exposição dos fatos por parte da defesa – que já resolveria o absurdo que é a acusação, vemos as rotinas pessoais dos advogados que corroboram seus argumentos quando estão em ação. Nutan atende aos costumes de uma sociedade patriarcal e machista de classe média, em que a mulher deve cumprir todas as atividades do lar e da família de forma submissa e ainda trabalhar. Ao mesmo tempo, Vinay Vora, que retruca a aplicação de leis vitorianas, frequenta bares e restaurantes onde toca música brasileira e internacional, compra em delicatessens caras, se veste e vive como nós e, neste sentido, é mais distante da cultura local.

A necessidade do Estado se eximir da culpa da morte de seu funcionário e imputá-la em um cantor de rua é justificada quando vemos as condições de trabalho da vítima, ao mesmo tempo em que reforça a manutenção da sociedade de castas com uma justiça de desigual proporção. A miséria é eviscerada em uma exposição crítica do sistema social indiano: um trabalho que já seria de difícil execução com todo o suporte e que, por ser destinado às classes mais inferiores de uma sociedade verticalizada, é feito de forma ainda pior, igualando estes homens a baratas. Com um curta no currículo e este longa, o diretor chamou atenção por onde passou. Tribunal levou 16 prêmios até agora e outras 5 indicações, ao mesclar atores e não atores em um cinema naturalista que nos faz questionar até onde é ficção o que está diante de nós. Essa dramaturgia é o trunfo de um filme que nos carrega para uma conclusão amarga e irônica. Um detalhe extra da produção: Usha Bane, a viúva Sharmila Pawar é também viúva na vida real de um homem que morreu nos esgotos.


Saí do filme pensando na última sequência e em como ela tinha deixado todos perplexos e alguns indignados. Depois de um tempo, ficou clara sua razão e o filme foi se fixando ainda mais, em suas nuances, interpretações, discursos e construções brilhantes. Os absurdos de uma justiça que se assemelha à nossa e nos faz ver uma miséria que talvez também pudesse – porque a Índia feliz ou infelizmente supera em descaso – nos ser comum, traz outras tantas questões sobre cultura, sociedade e tradição. Sair de uma Índia exótica e vê-la em seu dia a dia é o que nos aproxima e causa interesse. Um presente, esse filme.

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Eu deveria ter talvez 18 anos quando vi o filme Pink Floyd The Wall. Conhecia o disco e estava num bar que tocava rock em Salvador, o Café e Cultura, que nem existe mais. Bebia com uns amigos e conversávamos qualquer coisa, quando me distraí com uma televisão presa na parede. Passava o filme e dele eu nada sabia. O fato é que enquanto todos conversavam eu perdi o que hoje parecem ter sido muitos minutos na tela. O impacto das animações, o peso da narrativa, o muro em si e suas conotações, a música fantástica em muitos sentidos. Não tinha nada de especial acontecendo na minha vida, era adolescente indo pra vida adulta e estava tudo certo, mas ficou uma marca, da mesma forma.

A primeira sequencia do novo filme dirigido por Roger Waters e Sean Evans traz Liam Neeson contando uma experiência pessoal com o show The Wall na época do lançamento do disco, quando Pink Floyd ainda tinha Roger Waters. Liam fala em preto e branco, sem trilha sonora e sem corte,  sobre como estar ali foi fundamental naquele momento de sua vida e como o evento se transformou em um marco, um indicativo de um ponto de virada. Conta sobre o medo e o início de sua carreira, quando ainda não era conhecido e vivia a incerteza do sucesso.


O filme de 1982 é uma ficção dirigida por Alan Parker que conta a história de Pink (Bob Geldof), um cantor de rock que entra em colapso ao construir um muro simbólico para se isolar de todos que o oprimem – a mãe, a mulher, o sistema. Após um delírio em um show em que ele se transforma num ditador e violenta parte de sua plateia, é julgado e obrigado a quebrar o muro para retornar à sociedade. A obra é a representação audiovisual do álbum, descrito como ópera rock, um clássico do rock, sucesso absoluto no mundo. O roteiro do filme é de Roger Waters.

Este mês estreia Roger Waters The Wall, um filme que traz o show de 2012 – um espetáculo impressionante em qualquer nível – direção, som, músicas, jogo de luz, cenografia, efeitos visuais, equipe, banda, edição – cenas do filme de 82 e em paralelo, um pouco da história do próprio Roger. O conjunto nos deixa embasbacados e mesmo conhecendo o disco e tendo visto a ficção, essa também é uma experiência transformadora. Como se não bastasse, a turnê que originou o filme é dedicada a Jean Charles e todas as vítimas de violência por conflito armado – guerras ou urbanos. Roger Waters perdeu o pai aos sete meses de vida, na Segunda Guerra. Seu pai havia perdido o pai na Primeira Guerra. Ambos eram soldados.


O filme de 82 nos deixa um pouco pesados, remete a outros tantos filmes fundamentais, ainda que não seja este o objetivo – 1984, Metrópolis, Os Incompreendidos, Laranja Mecânica –  e em todo o delírio e narrativa fantasiosa há um realismo quase cotidiano. A expressão da TV que anestesia – como as drogas da faixa Comfortably Numb – as três partes de Another Brick in the wall, que trazem os marcos narrativos do filme e cada uma puxa um tema, todos convergindo para o medo, que nos isola e cega. O filme de hoje é magnífico, porque se aproveita deste medo e aí sim, o afasta do delírio de um personagem isolado e nos transporta para uma história que é a nossa própria, dos nossos medos, dos medos coletivos e de como as guerras são provocadas pelo mesmo sentimento e que dele se alimentam.

Ao contrário da ficção, este novo The Wall nos resgata e levanta, nos faz pensar sobre as guerras e nos faz viver aquele show nos deixando numa posição confortável e intrigante ao mesmo tempo: ficamos emocionados pelo espetáculo, ficamos querendo muito ir ao show e saímos envolvidos e reflexivos pelos assuntos, homenagens e provocações. Não suficiente, há a história pessoal entre as músicas; Roger Waters faz uma travessia de carro, do túmulo de seu avô ao de seu pai, exibindo uma triste coincidência – se é que podemos chamar assim – ou um destino trágico para esta família que perde os seus para uma violência inútil. Esta viagem do protagonista-diretor-cantor-roteirista é um recorte tanto ficcional quanto documental em sua construção e funciona bem, porque toda a sequência é complemento ao show, em significado. Há a verdade do relato e da forma como é exposto, fazendo do filme uma obra diferente e difícil de categorizar.


Saí dos 132 minutos querendo mais, esperando após os créditos o bônus da conversa de Roger com Nick Mason, baterista do Pink Floyd respondendo a perguntas dos fãs sobre a banda, o show, David Gilmour. Saí com vontade de ir ao show e de rever o filme no mesmo momento, que agora fica indo e vindo à memória. Saí feliz pela homenagem aos mortos por guerras e medos que levam tantos a tomar medidas extremas e até triste por ver que ainda precisam se fazer lembrar e homenagear, quando na verdade, não deveria haver tantas vítimas. O que fica é a certeza de que esse é um filme imenso, imperdível para fãs da banda e do cantor, surpreendente para quem pouco conhece e fundamental para qualquer pessoa que goste de cinema, grandes histórias e música. 

*Essa crítica está no Blah Cultural! :)
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A graça de ir a um festival de cinema é conhecer diretores e filmes que não chegariam a você de outra forma. Claro, hoje existe a internet e seu arsenal infinito de possibilidades, mas se não investigar nos sites dos festivais, nos blogs e revistas de quem estuda e escreve sobre o assunto, acabamos num limbo de inúmeros nomes, países, cinematografias e nenhum guia para se orientar.

Este ano, o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro traz uma mostra de Grandes Mestres. Dentre estes, está Hong Sang-soo, diretor sul coreano de A Visitante Francesa (2012), Ha Ha Ha (2010), entre outros. Para a minha sorte ou azar, não conhecia nada dele, nem mesmo estes citados e mais conhecidos e fui ver o mais recente, Right now, wrong then (2015), que já visitou os festivais de Toronto e Locarno. O diretor é um dos queridinhos dos festivais internacionais e por onde passa, causa um alvoroço do quilate de Woody Allen, Polanski ou Almodóvar.
O filme conta a história do encontro do diretor de cinema Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong), que visita uma cidade para exibir seu filme e comentá-lo, com uma pintora, Yoon Hee-jeong (Min-hee Kim), que cruza seu caminho. Passam um dia juntos em uma conversa que vai criando intimidade entre eles, até seu desfecho. E aí, acontece toda a graça, quando as sequências se repetem, como em Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) e não só vemos a transformação dos protagonistas, como suas mudanças de atitudes que convergem para um novo destino. Esse jogo narrativo é tão divertido quanto conciso e nós, por não termos amplo conhecimento da dramaturgia e cinematografia sul coreanas, somos pegos desprevenidos no jogo de cena. É muito divertido perceber as sutilezas entre as sequências – enquanto no filme americano elas são mais óbvias pelo número de repetições, aqui as variações quase passam despercebidas, a começar pelos títulos. Somos convocados para um jogo que se aprofunda e nos deixa pensando em nossas atitudes quando em novos encontros. Quem estamos mostrando para o outro? Somos nós ou uma versão mais ou menos agradável a depender do recebemos em troca?

O cinema estava cheio e se dividia entre silêncio e algumas gargalhadas, especialmente de dois vizinhos meus. Acabei sendo contagiada pelo riso deles, o filme saiu delicioso e me vi gargalhando junto. As interpretações dos atores parece estranha, especialmente no personagem do diretor, Ham. É algo como uma caricatura de um homem que encontra uma bela mulher e não sabe como reagir a ela nas duas sequências. Os exageros se traduzem tanto como a inocência, inibição frente a uma paixão recém-descoberta, quanto em um sentido de comédia quando tenta seduzi-la, em falas entrecortadas com expressões que nos parecem mais insegurança do que conquista. Já a pintora Min se equilibra entre uma personagem tímida, ingênua e, ao mesmo tempo, observadora, tentando entender com questionamentos diretos, qual a densidade de seu parceiro.
Acompanhando a crítica oficial de Locarno e Toronto, o que se confirma nesse filme é um cinema de autor, que repete as fórmulas com um adendo de inovação e criatividade narrativas, como em Woody Allen ou qualquer grande mestre. Alguma coisa na cinematografia, nos planos escolhidos – à exceção talvez do zoom, que não se vê tanto em comédias românticas – remete ao cinema francês, mais leve e sutil, deixando a cargo dos atores a ação, ao invés de fragmentá-la em uma montagem mais frenética. O fato é que esta inusitada e estranha surpresa nos resgata das histórias tragicômicas de nossos próprios quase relacionamentos para este novo, com cara de romance de um tempo que não existe mais.  Agora é correr para tentar ver o outro filme do diretor que está no Festival, A Montanha da Liberdade (2014). É, sem dúvida, um bom e divertido início para a maratona cinematográfica deste ano.

*Esta crítica está no Blah Cultural! :)
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Enquanto assistia Um senhor estagiário – título em português que poderia ser “o estagiário” e entregaria menos a ideia para quem não viu o trailer – me perguntei onde está o ator de Taxi Driver, Touro Indomável e O Poderoso Chefão. Robert De Niro é imenso e do alto de seus 72 anos, a qualidade do seu trabalho não vale discussão. Aqui também está bem, aqueles filmes têm mais de 35 anos e muita água já passou por debaixo desta ponte. Anne Hathaway, outra atriz inquestionável, nos seus 32 anos, também parece ser maior do que Jules Ostin, chefe de Ben Whitaker (De Niro). Então, com grandes atores e uma diretora experiente, o que houve?

O filme não é ruim, deixando claro. É uma comédia leve, com alguns bons diálogos e é sempre um prazer rever De Niro e Hathaway, que todos adoram. O problema está no excesso de leveza, na ampla gama de clichês de uma comédia de verão que não vai muito além. Tenho uma predileção pelo gênero, então assisto a maioria dos filmes que aparecem pela frente – o que me dá algum senso de loucura, mas bastante base, por outro lado.  Jules é diretora de uma startup, que está fazendo um sucesso estrondoso. Como a maioria das marcas nascidas na internet, seu crescimento foi vertiginoso e o que era um blog, virou uma loja de roupas virtual com 200 funcionários. Como parte de um projeto comunitário, criam um programa de estágio para idosos, para que unam sua experiência de vida à ocupação do tempo livre – além de não se importarem com a renda, já que são aposentados. Com isso, De Niro surge e a primeira cena já nos passa o teor do que veremos: a apresentação de seu personagem indica um senhor agradável, otimista e pragmático.
O filme mostra a rotina da empresa e as relações de trabalho que os estagiários – idosos e jovens – têm com o restante da equipe, focando na relação de Jules com Ben. A crise se deflagra quando um assistente de Jules sugere a contratação de um CEO, alguém com maior experiência de gestão que comandaria a empresa e traria mais segurança aos investidores. Essa estratégia entregaria o poder de Jules a um candidato homem – todos os entrevistados eram homens – por uma sugestão de outro homem. Onde está o erro? Com problemas em casa e no trabalho, sem tempo para comer ou dormir – a velha imagem do workaholic de salto  – decide pelo processo seletivo. Neste meio tempo, Ben está sempre ao seu lado, pronto para atendê-la nas atividades mais diversas e sempre com a frase certa no momento preciso – benesses da experiência que a idade traz e alguma noção de timming.

O filme corre sem grandes solavancos e ganha força em algumas cenas, como na parceria com os outros estagiários e aí o elenco brilha, com Adam DeVine, Zack Pearlman e Jason Orley no hilário choque de gerações. Ao mesmo tempo, não há nada muito extraordinário e os protagonistas carecem de profundidade, ainda que estejam sustentados por grandes atores. É uma falha de roteiro que acaba atravessando a história toda num clima morno, com algumas tiradas inteligentes, mas os estereótipos acabam mais fortes do que a ideia que está pro trás da história.

Nancy Meyers é diretora deste e de, entre outros, Simplesmente Complicado, O Amor não tira férias e Alguém tem que ceder. Os três filmes são deliciosos, trazem temas e papeis onde a mulher tem destaque e as histórias são centradas nos pares que estão perdidos, tentando encontrar uma saída para suas relações, sejam com o passado, com as diferenças entre as gerações e sempre em relacionamentos amorosos. Neste último, ao menos, o foco está no trabalho, na carreira de uma mulher que almeja o sucesso e vida pessoal – e não há nada de errado nisso (estamos em 2015, vale lembrar) – mas, ainda tomamos susto ao descobrirmos que Jules é mãe de família. Talvez o que falta neste estagiário seja algo que ultrapasse o bom moço. Não há sarcasmo, quase não há ironia e a construção de alguém sempre centrado e correto parece irreal. Não esperamos grandes aventuras de um senhor de setenta anos que resolve voltar ao trabalho, mas a submissão condescendente também incomoda. Ainda assim, vale para uma tarde de domingo, sem esperar que este seja um dos melhores filmes deste grande elenco e equipe – mas por tê-los, vale como passatempo.

*Uma versão deste texto está no Blah Cultural. :)
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Há sempre uma segurança presumida em assistir os novos filmes dos grandes diretores. Não precisamos do trailer, ainda que a curiosidade seja grande. Basta saber que está lá o devido crédito, esperar alguns grandes atores e um filme, no mínimo, interessante. Às vezes damos azar e o diretor decepciona, mas é difícil. E Roman Polanski reafirmou sua qualidade.

Um diretor de teatro, Thomas (Mathieu Amalric) é convencido por uma atriz, Wanda (Emmanuelle Seigner) a fazer o teste para sua nova peça. É a adaptação do texto de Sacher-Masoch, A Vênus das Peles (1870) – cujo teor fez nascer o termo masoquismo. Os dois passam o texto juntos em um teatro fechado e isso será o filme. Há um grande risco em encerrar um longametragem em uma locação, mas não é novidade para Polanski. Muito já foi visto na Trilogia do Apartamento lá atrás, com Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O inquilino (1976). Havia outras locações, mas o grosso da ação era nos apartamentos. Os três filmes merecem atenção, os dois primeiros ainda mais – são perfeitos. Da mesma forma, o penúltimo filme – O Deus da Carnificina (2011) – é uma adaptação teatral voltada ao cinema. Aqui há um confinamento em apartamento – dois casais discutem sobre o comportamento de seus filhos e acabam reproduzindo os desvarios e intolerâncias que permeiam a educação das crianças com humor negro audacioso e grandes interpretações – reflexo do contexto social e familiar em que vivem, concluiremos.
Ao contrário dos três primeiros, cujas ações principais eram pensadas em isolamento, delírio e silêncio dos protagonistas, O Deus da Carnificina e A Pele de Vênus, por usarem o teatro, são pautados na palavra, em diálogos mordazes extremamente bem construídos – além de não focarem em apenas um personagem. Não há falação, mas uma troca de texto útil que constrói a dramaticidade dos assuntos ali abordados. Se com A Vênus das Peles, Sacher-Masoch nos trouxe o masoquismo, podemos no mínimo, esperar alguma diversão ali – em pitadas de humor e alguma crueldade, se a palavra não for pesada demais.

O diretor recebeu o texto de Masoch um ano antes de produzir e, por ver ali uma obra original em que o homem é desmoralizado por uma mulher numa relação incomum de inversão de poder, achou interessante, além do desafio de prender o espectador usando as restrições já citadas. Mathieu e Emmanuelle estão fascinantes e sustentam a dramaticidade em planos criativos, estudados para dar à Wanda, desde o início, uma malícia que vamos apreendendo aos poucos, enquanto Thomas vai se deixando seduzir e entra em um jogo que se torna gradualmente complexo e perigoso. Há os exageros de atuação pertencentes ao teatro que se intercalam na sutileza do cinema quando estão fora de cena, atendendo ao telefone, tomando café. Aí também há um jogo com o espectador, cuja atenção é mantida na metalinguagem da ficção: são dois atores (Mathieu e Emmanuelle) interpretando no teatro uma atriz Wanda e Thomas, seu diretor, interpretando outros personagens – a Wanda que domina e Severin, seu escravo.
Em um desenlace surpreendente, ficamos boquiabertos entre a entrega de Severin/Thomas às tramas de Wanda/Wanda e até o que nos parece ridículo funciona em cena, tamanho o hibridismo do que é a ficção do texto da peça com seu ensaio. A fotografia de cena, cara às duas artes visuais é reconhecida aqui com maestria e novamente vem a metalinguagem, quando a própria Wanda é quem maneja as luzes do palco. Esse conhecimento, que deveria ser estranho a Thomas, indica que aquela aspirante à atriz é um pouco mais do que isso – mas ainda é cedo para dizer. O fato é que o filme extrapola o entretenimento – nos dá margem para relacionar assuntos agora frequentes, das relações de poder entre os gêneros, das relações antes ditas como perversas e com a ajuda da literatura pop estão quase naturalizadas, da objetificação da mulher. Essa complexidade em textos corridos e adaptados ao cinema e ao teatro – o livro corre em outro ritmo – e a permanência de um humor ácido, reafirmam a qualidade esperada de Polanski e nos faz aguardar o próximo filme com alguma ansiedade.


*Essa crítica está também no Blah Cultural!
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Quando o cinema se volta à História, precisa dialogar em duas frentes: da memória e do fato. O segundo é mais fácil, parte de documentos, registros precisos do que aconteceu sem adjetivos, como as orações simples que definem lugar, hora, método, personagens. A memória, por outro lado, traduz os sentimentos, pois se vale da subjetividade, do que é individual, do que traz cores e nuances, personaliza e, paradoxalmente, torna o relato de registro mais real. Orestes traz o enfoque dos sujeitos – vítimas ou não – de violência no país, unindo as duas histórias, a do Brasil com a dos brasileiros. 

Rodrigo Siqueira (Terra Deu, Terra Come, 2010) traz mais uma abordagem original, agora com Orestes. Se a tragédia grega é de um o protagonista como o assassino da mãe Clitemnestra em vingança pelo assassinato do pai Agamenon, morto por ela e seu amante, aqui há um júri simulado de um novo Orestes que estrangula seu pai, assassino e delator de sua mãe, militante na ditadura. As duas tragédias fictícias se unem aos relatos verídicos do drama de Soledad e Cabo Anselmo, personagens reais da História do país e da vida de Ñasaindy, filha daquela e, com azar, talvez filha do mais famoso delator do Brasil. Cabo Anselmo foi um agente infiltrado da ditadura militar e suas ações culminaram na morte não apenas de Soledad, como de 6 outros militantes no que ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento, em 1973. Quando foi morta, Soledad já tinha Ñasaindy e estava grávida. Anselmo era seu namorado. 
Por si só, a história de Ñasaindy e a busca por sua origem – bem como o pânico da dúvida sobre sua paternidade – associada à tragédia grega já seria material suficiente para um filme, mas o diretor vai além. Experiente, amplia a violência histórica e traz José Roberto Michelazzo, torturado no ambiente em que visitam no filme, um prédio onde funcionou o Doi-Codi em São Paulo e mais: uma mulher cujo filho foi assassinado pela polícia, outro casal que perdeu o filho da mesma forma – sendo este um cara comum e o anterior, um dependente químico – Sandra Domingues, representante de uma organização que busca a justiça de um massacre infantil em Realengo, no Rio de Janeiro, uma enfermeira de hospital público, todos juntos em sessões de psicodrama, coordenadas por Marisa Greeb. Vemos um panorama da violência histórica e contemporânea no país, em encenações no júri e nestas sessões, além dos relatos da história de Ñasaindy, vítima desde o nascimento. 

O júri popular deu aos presentes o poder de decidir sobre a sorte do Orestes nacional. Os advogados de defesa e acusação – em oratórias brilhantes – deixam qualquer um na berlinda, entre a moral, a justiça – e todo o seu conceito subjetivo e objetivo ao mesmo tempo – e a lei. O mote traz de volta a Lei da Anistia e sua necessidade de revisão, já rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje, o que se mantém é o perdão indiscriminado de vítimas e algozes da ditadura, quase transformando todos em ‘farinha do mesmo saco’ – no que se refere a castigo e absolvição. Ao mesmo tempo, cada personagem no psicodrama é um representante da tragédia cotidiana. As discussões tomam fôlego, apertam o coração e nos posicionam como participantes, às vezes saindo do filme por não encontrar atores reais – e aí a dramaturgia da cena interrompida por observações de Marisa Greeb perde em narrativa cinematográfica – às vezes, nos remetendo a tudo o que vemos e ouvimos nas ruas e noticiários, como o posicionamento de Sandra, favorável à pena de morte, mas se dizendo contra a lei do talião, do olho por olho, dente por dente. Não há como não lembrar dos linchamentos frequentemente noticiados na mídia – a violência não é apenas policial. 
A edição acompanha os dois alicerces do filme e, em alguns momentos, as sessões parecem tomar muito tempo, mas é uma extensão necessária – é o reflexo das reações, dos sentimentos e para que ocorram, não há como cortar ou interromper. No júri o tempo é outro, da ordem da ficção e a montagem segue sem percalços, nos deixando divididos entre os olhares do público e os discursos dos advogados. Assim, no júri há planos fixos, para que a ação se concentre no espetáculo e oratória e, nas sessões de psicodrama, as câmeras precisam estar à mão, para que sejam fluidas e invisíveis. Ainda que a fotografia – lembrando o cinema direto, não usa luzes que não dos ambientes – saia um pouco escura e acinzentada, talvez o próprio tema favoreça a coloração em simbologia.   

O ritmo do filme funciona como um pêndulo variando entre emoção e razão, sempre caro à narrativa documental. A proposta parece ter sido esta: fazer pensar sobre os fatos, tanto sob a ótica da grande justiça, a que o Orestes deve ser submetido, quanto de sua relativização, da nossa posição como indivíduos, cujos sentimentos e ideias são levados em consideração. Nisso o filme brilha e realça sua importância, especialmente nos depoimentos de Ñasaindy, José Roberto Michelazzo e Sandra Domingues, cuja coragem e posicionamento – ainda que contraditório e até por sê-lo – representa grande parte da opinião pública. São as diversas verdades das histórias individuais e nossas tristes heranças da História nacional que moldam nossas leis e comportamentos, fazendo com que este filme seja um dos mais relevantes ao tratar da violência e mereça destaque e debates por onde passe – justamente por ser, também, ficção. 

*Essa crítica está no Blah Cultural! :)
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Procurando no dicionário o significado de maiden, cheguei em dois sentidos próximos ao que se refere o título do filme: um é mais direto e trata de algo feito pela primeira vez e o outro, indireto e poético, diz que maiden é mulher virgem, solteira, que nunca se casou. Eliminando o ‘virgem’ para evitar uma discussão sobre a sexualidade que não tem relação com a obra, seguiremos com estes dois: mulher solteira/que não se casou e/ou que faz algo pela primeira vez.

Isso porque Laura Dekker foi a pessoa mais jovem a cruzar num barco todo o planeta. Com 14 anos, após uma batalha judicial de 10 meses na Holanda que queria impedi-la de realizar seu sonho – não seria algo imprevisível, já que é uma menor que faria uma viagem arriscada e a justiça queria salvaguardar sua saúde e garantir sua educação formal – ela consegue o que queria e parte em sua jornada. Filmando a si e ao percurso enquanto está no mar e com o apoio de outros cinegrafistas por onde passa, vemos um perfil em transformação da adolescente teimosa a uma mulher em formação, se tornando independente e redefinindo seus objetivos.

Tomando um pouco de distância do filme, ele poderia muito bem se passar por ficção. Essa garota jovem demais, bonita, cheia de discursos e opiniões, ganhando cada vez mais espaço no mundo parece ter saído de uma história de aventura. O fato é que tudo aconteceu e vê-la se filmando, nos deixa dentro daquele barco, participando como observadores atentos e ansiosos. Apesar de nova, Laura estudou navegação e tinha experiência de tripulante desde criança, em família. O afinco em cuidar, preparar e ajudar a reformar o barco junto a seu pai e economizar cada centavo para a viagem já indicava uma obstinação e vocação que poucos têm tão cedo. Talvez tenha sido por esta postura que a justiça holandesa a autorizou.
Os pouco mais de 80 minutos são realmente muito poucos pro que estamos vendo. As observações de Laura enquanto está só sobre sua história de vida, família e criação, a relação com a escola, saem de uma imaturidade infantil para uma conclusão do que quer para si e um dos marcos é quando decide mudar a bandeira de seu veleiro, da Holanda – onde foi criada – para Nova Zelândia, onde nasceu. Este é um dos momentos mais emblemáticos do filme, junto com a longa permanência no Oceano Índico. Enquanto o barco se movimenta, vamos juntos com ela e os dias passam numa velocidade de filme de ação. Mas quando acaba o vento e ficamos a sós, como nos resolvemos? Em tempos de internet em todos os lugares, o tédio de 5 minutos é insuportável, imaginemos agora semanas quase à deriva no meio de uma imensidão azul. A valoração do tempo necessariamente se transforma e mais uma vez nos pegamos pensando em nossa própria trajetória.

Em filmes de viagens – documentário ou ficção – há sempre datas ou contagem de dias e desenhos de mapas, gráficos que determinam a duração do filme muito mais do que do percurso. Estas pontuações colaboram para a nossa orientação de tempo e espaço, a diegese fílmica. São marcações de tempo que, quando o filme é bom, quase nos angustiam, como um livro que gostamos tanto que não queremos terminá-lo e vamos alongando a leitura numa tortura, querendo sempre saber mais e com pena de saber tudo. Este filme tem o mesmo efeito: à medida que atravessamos os mares com Laura, suas tormentas e maravilhas, sabemos que em breve tudo aquilo terminará e nos deixará felizes, reflexivos e saudosos. Jornadas assim pegam sempre os apaixonados por viagens, são implacáveis. E por ser uma garota falante – claramente foi orientada para não emudecer e fazia da câmera seu interlocutor, como Wilson, do Náufrago – participamos de seu diálogo, anotando suas observações sobre a natureza, seus conhecimentos de mapas e navegação, numa fotografia que, mesmo sem querer, traz imagens magníficas da natureza quase em estado puro.

Enquanto tem a posse de sua imagem com a câmera na mão, a edição nos mostra uma menina de fibra, que até em tempo ruim enxerga beleza, compromisso e orientação. Ao mesmo tempo, quando em terra firme já é vista ao invés de se mostrar, quase não fala. Claro que há aí dois fatores preponderantes: um cansaço físico e psicológico de estar sempre como apresentadora de seu próprio programa  e, ao mesmo tempo, é o momento que precisa ter para conhecer o entorno, as pessoas, a natureza continental e se preparar para a nova saída. A edição de Maidentrip merece atenção, basta imaginar o tempo de seleção do que era útil ao filme e a imensidão que foi descartada. Se sentimos falta de mais histórias, mas conseguimos sair disso satisfeitos, curiosos e reflexivos é porque deu certo. O tempo do filme nos deixa sofrendo nos momentos finais, esperando que Laura, agora independentemente de que idade venha a ter, continue circulando por aí e nos trazendo um pouco mais da intimidade que tem com o mar, de encontrar aí sua casa e de ter a coragem para abandonar todo o resto e nos fazer pensar se a forma como vivemos é a que realmente queremos viver.
Maidentrip é um desses achados maravilhosos do Netflix. Está lá e você pode passar por ele diversas vezes como fiz e não dar trela para esta garota da capa. Confie, se uma menina de 14 anos resolveu viajar o mundo sozinha num barco e saiu ilesa, ela tem algo pra te contar.
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Lançado nos cinemas semana passada, Que horas ela volta chegou fazendo barulho por duas razões principais: a qualidade inquestionável do filme e a polêmica em torno do debate com a diretora Anna Muylaert após exibição em Recife. O mais interessante é que foi justamente por ser bom que todo o resto aconteceu.

O filme conta a história de Val (Regina Casé), uma empregada doméstica pernambucana que trabalha para uma família de classe alta em São Paulo. Há anos no serviço, Val mora onde trabalha, recebe a notícia de que sua filha Jéssica (Camila Márdila) irá à cidade prestar o vestibular e sua chegada rompe com o equilíbrio da casa. O filme promove um retrato fiel não apenas da classe alta, como um recorte amplificado das diferenças sociais e a delicada relação entre patrão e empregado. Frases como você é como se fosse da família são utilizadas de forma inócua, sem se perceber um preconceito gritante no quase, além de ser uma mentira descabida. Enquanto não há Jéssica, há o afeto maternal de Val com Fabinho (Michel Joelsas), filho adolescente da família que também fará a prova, o ciúme interesseiro da mãe Bárbara (Karine Teles) e o pai bon vivant (Lourenço Muterelli) que espera a vida passar, já que vive de renda e não tem muito o que fazer.
A posição da mulher aqui é vista sob diversas óticas – faz lembrar imediatamente o também bom Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2015), onde as relações de trabalho se confundem com um senso de superioridade explicado na diferença de classe. Aqui vemos uma mulher que receberá a filha que vem do Nordeste, sempre estigmatizado pelos sudestinos educados. Jéssica, ao contrário do que se espera, é letrada, impetuosa e com um caráter contestador, se surpreende e se incomoda com a submissão confundida na obediência da mãe na casa. Ela representa a quebra de paradigma, o esforço de alavancar a vida com o próprio suor e os estereótipos aqui muito bem construídos dos arquétipos nacionais não são gratuitos, mas representações de uma realidade que não é novidade para ninguém. Bárbara, cujo nome não poderia ser melhor, age brutalmente e expõe uma franqueza que nos envergonha, o comportamento de tantos que conhecemos bem.

Val é maravilhosa, porque se descobre em transformação a partir dos novos conflitos. As duas, num dueto orgânico, escancaram suas verdades e segredos, que a distância da sobrevivência impediu a convivência nos primeiros anos de mãe e filha. Val é aquela que sai da cidade em busca de trabalho, em prol de uma qualidade de vida para os seus, como o herói que sai para a aventura com uma missão cujo fracasso é imponderável. Ao mesmo tempo, ao reconhecer o tratamento familiar que recebia como uma esmola de afeição que ninguém pede, mas  aceita como um hábito ruim, mais uma vez se prova dona de seu destino e reconhece uma saída para ela e a filha. Regina Casé incorpora a personagem como se fizesse parte de si, da mesma forma que Camila Márdila, uma atriz jovem, traz maturidade de interpretação singular. As duas acabam de dividir o prêmio de melhor atriz em Sundance.
E então, aconteceu o debate com Anna Muylaert após a exibição e os cineastas Cláudio Assis (Amarelo Manga) e Lírio Ferreira (Sangue Azul), alcoolizados, não permitiram que se continuasse a conversa. A situação foi tão gritante que virou notícia. O ponto do machismo se fez presente, ao tempo que um filme cujo foco está na mulher, dirigido por outra que é interrompida continuamente por outros igualmente talentosos, mas que não estão naquele palanque. A necessidade de chamar a atenção e estragar o evento não esbanja outra razão que não aquela de ocupar um panteão que não lhes pertence. É necessário dar o tempo e espaço devidos à mulher, especialmente quando já são dela. Para quem discorde da visão machista, uma das observações de Assis foi sobre a protagonista estar acima do peso – numa clara atitude preconceituosa não apenas com o gênero, mas com a imagem, reduzindo uma grande atuação a um aspecto físico insignificante.

Após a repercussão vieram pedidos de desculpas dos dois, bem como a decisão da Fundação Joaquim Nabuco de proibir por um ano a exibição de trabalhos e presença dos dois diretores na instituição. Mais uma vez Cláudio Assis se fez presente em sua retratação, não apenas assumindo o que lhe é devido, mas invertendo a discussão ao se colocar como alguém sendo atacado por pessoas caretas – o termo que define os conservadores também define em grande parte o machismo, ironia maior não há. Talvez o comportamento destes diretores não tenha sido conscientemente para atrapalhar o evento, mas é um fato estabelecido que a provocação reafirmou a velha cartilha do comportamento brasileiro em que o homem tem que estar à frente – ainda que pra isso precise atropelar quem estiver passando ou, simplesmente, calar a mulher que fala. Que horas ela volta? desbancou os eleitos a concorrer à vaga para o Oscar 2016. Todos os filmes eram de diretores homens.
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Amor é um filme francês de 2013 que levou não sei quantos prêmios para casa e é uma das produções que fala mais honestamente sobre o sentimento, levado até o fim e extremo do que se espera dele. É um filme duro e difícil, mas ao mesmo tempo, terno, honesto, amoroso. Dói assistir.


Amor (Love 3D) é também o novo filme de Gaspar Noé que causou comoção em Cannes esse ano, agora em 3D. Polêmico como o outro, mas tendo no sentimento um olhar singular, o diretor buscou expô-lo através do sexo, porque essa conjugação produz a melhor sensação que se pode ter na vida, de acordo com seus personagens. Gaspar Noé é o criador também de Irreversível (2002), um filme de desespero e ódio de um homem que busca vingar a mulher estuprada. Tenso até o fim, violento e brutal, esse nos deixa sem piscar e nos provoca não sei quantos sentimentos.

Love 3D é um filme jovem. A história é sobre Murphy (Karl Glusman), entre seus 20 e tantos anos que recebe uma mensagem de voz da ex-sogra preocupada com a filha Electra (Aomi Muyock), de quem não tem notícias há 2 meses. A garota, após terminar o intenso relacionamento com o protagonista, pede que lhe deixe para sempre. Em sua casa, Murphy vive com o filho e Omi (Klara Kristin), a mulher que engravidou, enquanto vivia com Electra. Agora, Murphy relembra todo o relacionamento que teve com aquela que ainda ama e de quem hoje nada sabe.


O filme tem algumas considerações que tentam sustentar a trama, como o mito de Electra (ou o complexo de Édipo para a mulher) e Murphy com sua lei. Electra deixa claro sua posição com relação ao pai ao não querer apresentar o novo namorado, pois este não seria bom o suficiente e ela não queria passar a informação de um relacionamento com outro homem que não seu progenitor. Murphy então, literalmente nos abre a revelação que funciona apenas como um aposto à história, já que não é utilizada para nada mais que não a construção de uma personagem complicada, intensa e em formação, indicando que de fato há uma questão amorosa e complexa na relação de pai e filha, com e para Electra – que não nega e tampouco desenvolve o assunto no decorrer do filme. 

Murphy, por sua vez, é o reflexo da lei criada pelo dono do nome no fim dos anos 40 – quando se diz que se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará. Então, ele sofre com a ausência de Electra e a possibilidade de algo muito ruim ter lhe acontecido, devido ao seu caráter errante e descontrolado.

Uma história simples, sem grandes atores – talvez a que se destaque seja exatamente aquela que não vive mais ali – cuja polêmica é percebida pela quantidade de cenas de sexo explícito e em 3D na tela. O que no início pode nos deixar excitados como um filme pornô com grande fotografia e corpos lindos, nos anestesia gradualmente e toda a força das cenas perde impacto. 

Conhecendo Gaspar Noé, é clara a intenção de perturbar a plateia sempre que possível e essas cenas nos provocam em grande escala, desde o estímulo visual que aquece o sangue a um escândalo de violência como o filme anterior que nos leva na direção oposta, do asco e horror. Ao mesmo tempo, as cenas onde a intimidade surge – não falando de sexo aqui – são as mais bonitas e interessantes, que ajudam a construir o relacionamento deles como algo plausível que tenta corroborar aquele amor. Aqui sim, há a grande beleza, nos silêncios compartilhados, no companheirismo, no que há de extraordinário do convívio cotidiano – pena que não há um equilíbrio entre os dois pólos para trazer mais interesse e estrutura à trama.

Talvez o filme valha a pena para saciar nossa curiosidade na feitura das cenas de intimidade, pela beleza e sinceridade com que se apresentam e foram feitas – é sexo, é explícito e é 3D. Por outro lado, a ausência de aprofundamento e a longa duração, nos tiram um pouco desse prazer voyeur e quase entediam.


Talvez seja esse o ponto, então. Talvez a ideia seja essa mesmo de praticarmos juntos a experiência pura do cinema, traduzindo seu objeto de desejo primeiro – a satisfação do olhar – da forma mais conhecida que é a curiosidade pela volúpia, aqui traduzida literalmente neste voyeurismo de um filme erótico – quase uma redundância metafórica para os cinéfilos. Juntos numa sala de cinema – por sorte a minha estava vazia – haverá uma mistura de sensações, desde o acanhamento ao sentar-se ao lado de um desconhecido, até um prazer compartilhado que será manifestado no íntimo de cada espectador – um duplo do erótico pelo erótico e o prazer sentido como uma experiência compartilhada. Será sempre numa sala de arte, para um público específico – ou curioso simplesmente – e de fato, interessante. Os desavisados sairão da sala. 

Não fosse longo demais, talvez assistisse novamente neste contexto e observaria os olhares às primeiras cenas, enquanto ainda estamos atentos e animados. O fato é que a justificativa da obra – de que deveríamos ver mais sobre amor e sexo da forma como acontecem na vida real, ao invés de reforçar uma grande história, traz exatamente o oposto: apenas uma desculpa para trazer sexo bem filmado aos cinemas. Fosse um pouco mais desenvolvido narrativamente como o Amor anterior - de poucas palavras - ganharia nas discussões polêmicas que não se voltam apenas para a questão sexual, mas para a franqueza da intimidade tratada realisticamente numa tela grande.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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