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Café: extra-forte


Rachaduras nas paredes e tremores no apartamento de Emad (Shadad Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti). O casal deixa o imóvel com risco do desmoronamento. Emad é um professor de literatura durante o dia e ator de teatro à noite. Rana é atriz. Juntos, ensaiam A morte do caixeiro viajante, de Arthur Miller. Com a ajuda de um colega do elenco teatral, se mudam para uma cobertura que requer alguns reparos. Sozinha em casa, Rana é atacada por um desconhecido e espancada. Esse é o início do que pode ser um dos filmes mais interessantes e inteligentes do próximo ano.

Shadad e Taraneh são frequentes no cinema de Asghar Farhadi, assim como a temática do comportamento, relacionamentos e sociedade. Além desta última, o diretor tem mais um ponto de convergência com outros cineastas iranianos: a direção dos atores. Há um naturalismo presente nas dramatizações e diálogos que remete ao dia a dia real, cria as possibilidades de histórias verdadeiras, que acontecem na frequência da vida de tal forma que seus filmes poderiam ser documentários. Esse paralelo é um ganho para o espectador: vivemos fragmentos de uma cultura pulsante, como se fosse possível viajar imediatamente para aquela cidade e encontrar aquelas pessoas. Talvez até mais do que isso, é também como se víssemos amigos na tela, seus temas atravessam fronteiras e, mesmo considerando grandes diferenças culturais, há semelhanças no assunto, na estrutura narrativa e mesmo na performance dos atores com relação ao que vivemos do lado de cá.

Aqui, a narrativa questiona os reflexos de uma cultura que reduz a mulher ao conceito de honra definido por e perante o homem. Asghar Farhadi a reforça de forma quase subliminar, instaurando uma ponta de desconfiança em suas tradições, a partir do que expõe em sua filmografia. Essa é a força do cinema do diretor, a consistência de um discurso que não rompe com seus valores, mas que os põe à prova quando a condição humana entra em conflito com regras de conduta; especialmente no que concerne a ser mulher no Irã, sem se ater exclusivamente à religião, um tema mais frequente da cultura local.

Em À procura de Elly (2009), uma mulher desaparece na praia, em um fim de semana na casa de pessoas que ela pouco conhece. Os homens e mulheres que conviveram com ela nesse tempo e que a buscam, preferem antes manter sua honra a colaborar com as investigações e isso é levado ao extremo. Com A Separação (2011), um casal entra em crise quando a mulher vê a necessidade de morar em outro país, dando melhores condições de vida para si e para sua filha, enquanto o marido precisa cuidar do pai idoso e enfermo e as quer a seu lado. Em O Passado (2013) outras situações que envolvem um casal em crise a partir de segredos do passado, reforçam e questionam a manutenção de um comportamento em oposição à própria existência.

O Apartamento (2016) reafirma suas ideias de maneira ainda mais contundente. Uma mulher casada, atriz, é atacada dentro de casa por um desconhecido. A palavra estupro ou violação não aparece uma só vez em todo o filme e sua suspensão é uma das grandezas do roteiro, criando uma tensão que cresce gradualmente, como se fosse ao mesmo tempo impossível e imperativo tratar das violências cometidas e da gravidade da intolerância do marido em aceitar que a mulher não denuncie o crime à polícia. Uma situação insustentável se instaura e Emad decide fazer justiça – e a tal honra – à mulher sofrida, sem entender completamente a amplitude do que lhe aconteceu e suas reações.


O que é interessante e ao mesmo tempo poderia ser um ponto de atenção é que o filme se volta a Emad e suas preocupações, cabendo à real vítima um papel secundário reativo, de quem se recusa a uma exposição devida a um detalhe que favoreceu o crime. A mulher quer esquecer e precisa reaprender a viver apesar do terror, e isso é um retrato cotidiano tanto no Irã quanto em muitos outros países, onde a violência contra a mulher é uma rotina, tal qual a vergonha em denunciá-la. O que acontece, e é tão sabido que talvez seja desnecessário por em texto, é que as mulheres violentadas sofrem muitas vezes mais agressões quando vão às delegacias. De alguma forma incoerente, há uma distorção da visão agravada pelo costume do machismo que argumenta em favor do criminoso, culpando a vítima, por exemplo, por um comportamento provocativo, por uma vestimenta sedutora. Assim, talvez Farhadi se destacasse mais e sua história tivesse um impacto ainda maior – entenda-se que o filme é ótimo do jeito que está – se pesasse a mão ainda mais na questão feminina, dando mais voz à Rana.

Levando o prêmio de melhor roteiro e melhor ator em Cannes, é muito fácil entender o porquê. O paralelo da casa ruindo no início do filme é uma metáfora para tudo o que se seguirá: o sofrimento da mulher, um suspense crescente a cada atitude do marido, as consequências de decisões graves, a crise no relacionamento que se torna quase abusivo e que também rui. Ainda, a relação entre a vida de Emad e Rana em contraposição com seus personagens na peça, uma sutileza a mais na obra, carrega o espectador para um novo patamar de enriquecimento e sofisticação de uma história sem afetação. Não é simplesmente uma obra refletindo outra, mas a justaposição de narrativas – as aulas de literatura, o roteiro cinematográfico e os diálogos e cenas de ensaio do Caixeiro Viajante – que culminam em uma construção dramática vertiginosa e brilhante.


Tão impactante quanto a atuação de Shadad, é a de Taraneh, digna de tantos prêmios quanto ele. A sequência final nos deixa sem fôlego, em um clímax com grandes resoluções e suspense. Tudo o que vemos são trocas de olhares intensas, expressando muito mais do que as falas. Como uma caneta de ponta porosa e tinta indelével, gradualmente a narrativa acentua seu drama em um suspense não só quase insuportável – ao vermos a agonia de Rana em se omitir e tentar superar seu drama – quanto permanente, a partir do momento em que se percebe estar em um caminho sem volta, espectador e personagens. Taraneh nos transporta para uma humanidade inesperada e sentimos vontade de gritar com as decisões de nossa heroína-vítima. Toda essa riqueza e complexidade moral lembram os filmes de Susanne Bier (Segunda Chance, Em um Mundo melhor) que nos deixam sempre entre a cruz e a espada, entre o que é certo, o que é necessário e o que queremos ou teríamos coragem de fazer. O Apartamento é, enfim, imperdível.
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Fará três anos no próximo fevereiro que estamos sem Eduardo Coutinho. Nosso documentarista favorito, um dos melhores que já houve no Brasil e no mundo, que conversava – ao invés de entrevistar – com seus sujeitos, protagonistas, convidados. Autor de Edifício Master – aquele que mostra a vida em um prédio de apartamentos de um cômodo em Copacabana, Cabra Marcado para Morrer – um dos filmes mais importantes de nosso cinema, histórico, proibido na ditadura e finalizado vinte anos depois e Canções – incrível e emocionante filme sobre as músicas populares brasileiras que marcaram as vidas de algumas (muitas) pessoas – para só citar três, Coutinho não extraía ou arrancava verdades, mas compartilhava histórias, relatos íntimos de seus brasileiros.

Este ano, o Brasil conheceu uma grande documentarista, na literatura. Svetlana Aleksiévitch, ucraniana, nascida em 1948 e laureada prêmio Nobel de literatura em 2015, começou a ter sua obra traduzida para nosso português, uma sorte e felicidade – e meus eternos agradecimentos a Lucas Simone, que traduziu direto do russo e à Companhia das Letras, que acaba de lançar o terceiro volume, O Fim do Homem Soviético.


Coutinho e Aleksiévitch poderiam ser parceiros de trabalho ou, no mínimo, grandes amigos. Essa senhora nascida na Ucrânia da União Soviética conversa com seus conterrâneos sobre temas caros às suas vidas, grandes assuntos de nossa história mundial. O primeiro que li, sobre o acidente nuclear em Tchernóbil em 1986 (Vozes de Tchernóbil), é um impressionante conjunto de relatos sobre a tragédia, a percepção do povo sobre ela, as estratégias do governo para omitir dados e estatísticas ao mundo, as trágicas consequências e, no meio disso tudo, um ideal socialista levado ao extremo, a cegueira e também a clarividência de quem viveu aquilo tudo.

O segundo, A Guerra não tem rosto de mulher é sobre a participação da mulher na Segunda Guerra Mundial entre 1941 e 1945. Este livro abre nossa percepção para um universo novo – eu, pelo menos, nunca havia pensado em uma perspectiva feminina para as guerras – e passamos a conhecer franco atiradoras, fuzileiras, paraquedistas, pilotas de avião, tanto quanto enfermeiras, médicas, cozinheiras, lavadeiras. É chocante da mesma forma que o anterior e também por não seguirmos ideais políticos como era feito décadas atrás, esta crença na necessidade do combate, na importância e orgulho em participar, na vontade política e, é claro, na própria natureza dolorosa e selvagem de uma guerra. Esses relatos, em sua maioria feito por mulheres, puxam também para o lado sensível do front, para o cuidado nos hospitais de campanhas e nos acampamentos, para a coragem absurda, camaradagem e parceria – sem omitir suas cruezas e crueldades.

Agora me encontro com o desmantelamento da União Soviética, já nos anos 1990 (O Fim do Homem Soviético), entendendo mais uma vez estas verdades individuais, a adaptação a uma nova realidade, a um novo sistema e economia, ao novo cotidiano das pessoas comuns, testemunhas, participantes que, se estivessem em um filme de ficção, seriam figurantes. Aqui, como em Coutinho, são protagonistas.


Svetlana entra na sala das pessoas ou em suas cozinhas e puxa uma cadeira. Ela inicia sua busca por alguns sujeitos e nessas pesquisas, outros aparecem e se convidam, querem dar seu testemunho, querem que seu parecer esteja ali, tão importante e fundamental quanto o da amiga, o do vizinho. São registros vivos da nossa História recente, que foi presente até pouco tempo atrás e cujos livros de história os contam priorizando datas, patentes e sobrenomes, sem o detalhe do olhar subjetivo, sem o brilho do sentimento. Quem dera a escritora tivesse uma câmera à mão e filmasse seus encontros – seria diferente, de fato, mas poderia ser tão bom quanto sua escrita.

A região do que era a União Soviética sempre me pareceu um imenso e nebuloso território que pouco se conhecia, não fossem as pinceladas da Guerra Fria na escola, alguns filmes, os estudos sobre cinema mundial, mas quase ou nenhuma literatura. A exceção, e para isso vale o parêntese, é o livro de John Steinbeck e Robert Capa, Um Diário Russo (Cosac Naify), em que Capa fotografa um tanto do que Steinbeck narra, o diário de viagens de dois imensos nomes da cultura mundial, no início da Guerra Fria, em 1947. Este olhar é do estrangeiro, de quem está habituado ao capitalismo, ao Ocidente, a outra forma de ver o mundo, suas polaridades e se confronta com uma realidade bastante diferente da anti-propaganda americana sobre aquela nação.

Agora um novo-velho mundo se abre e se apresenta da melhor forma, se descarnando, se entregando sob relatos ocultados por décadas de aprisionamento intelectual e político a essa voz  e ouvidos curiosos e acolhedores da escritora. Aleksiévitch se aproxima de Coutinho, caminha entre seus conterrâneos, revela os mais íntimos testemunhos, sobreviventes e viventes do mundo soviético. A voz, ainda que a guia seja a escritora, é dada para o outro e assim começamos a entender um pouco o que foi o pensamento, o modo de vida soviético, o ideal. É impossível parar de ler seus livros, seguimos com uma ânsia cada vez maior por novas histórias, por entrar na cozinha daquelas pessoas e dividir aquele café – ou chá se você preferir acompanhar a cultura local. Coutinho fazia o mesmo, mas sua caneta era a câmera.

Ainda não há um documentarista cineasta como Coutinho. Seus retratos do povo brasileiro a partir de suas conversas – mais do que entrevistas – descortinaram o maravilhoso universo das não celebridades, mostrando que as pessoas comuns são muito mais interessantes em qualquer aspecto do que aqueles modelos programados pela mídia. A diferença entre eles talvez resida na profundidade e no interesse, apenas. A profundidade em suas vozes, olhares e histórias, associada ao único interesse em dividir esse conhecimento que têm sobre si, sobre o tema que o diretor trouxe, ao contrário de um mercado, da valoração do corpo físico como suporte publicitário. Eduardo segue como uma perda irreparável e não há sequer substituto próximo; como não há outra Svetlana, a documentarista da palavra. Se fosse possível, sugeriria que ela fizesse uma série televisiva, se conseguisse convidar e deixar à vontade – como Coutinho fazia – seus protagonistas. É uma ideia de alguém carente por um cinema que não mais existe e que encontra na literatura dessa grande mulher um conforto. Seus livros são, sem dúvida, a melhor descoberta deste conturbado 2016.

Dois links importantes: a bibliografia de Svetlana e a filmografia de Coutinho. 
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Os filmes de Xavier Dolan não passam despercebidos. Para o espectador de primeira viagem, qualquer tipo de choque é esperado em pelo menos quatro, dos seis longas que vi. O que mais havia me impressionado até poucos dias atrás foi Mommy (2014), lançado ano passado no Brasil e que causou impacto com a qualidade técnica e narrativa. O filme centrado na relação entre um filho e mãe problemáticos nos leva a uma paixão crescente pelo que estamos vendo, até seu desfecho. Com este É apenas o fim do mundo, o jovem diretor reafirma sua qualidade e maturidade estilísticas, agora com elenco estelar.

Louis (Gaspard Ulliel), um escritor entre seus trinta anos tem uma doença terminal e viaja à casa da família para contar a trágica novidade. Ele parece bem, apesar de deprimido, e pretende passar por aquele dia o mais rápido possível. Na casa, encontrará o irmão Antoine (Vincent Cassel) e a esposa Catherine (Marion Cotillard), a mãe (Nathalie Baye) e a irmã mais nova Suzanne (Léa Seydoux) que o esperam para um almoço feliz. Tendo morado fora e dado poucas notícias por doze anos, imagina um retorno triste e com sorte, calmo.


Adaptação da peça homônima de Jean-Luc Lagarce, o filme se centra em poucas locações e atores, trabalhando a intensidade dos diálogos e interpretações, como Polanski fez em Deus da Carnificina. Enquanto no último, altas doses de humor negro e sarcasmo permeiam a trama, aqui é o drama, a tragédia iminente que se abaterá naquela casa, é o que nos prenderá até o fim. Hitchcock uma vez disse algo como – e é uma das melhores explicações para o suspense – que ele acontece quando é dito ao espectador ‘há um assassino atrás da cortina’ e os personagens não sabem, então ficamos atentos, ansiosos e quase angustiados, com a iminência do crime. Assim acontece aqui e a cada minuto que Louis posterga sua confissão, subimos pelas paredes da sala do cinema, em agonia.

Este sentimento é o cerne de todo o drama familiar. Os doze anos fora de casa criaram uma expectativa em seus familiares, talvez à exceção da cunhada Catherine, que nota algo de errado nessa visita aparentemente inócua. As trocas de olhares entre Louis e ela indicam uma postura de apreensão submissa da última, que comprovará mais de uma vez baixar a cabeça para o marido emocional, Antoine. Vincent Cassel explora seu personagem ao âmago de uma dor contida há tempos e explode ali, na mesa do almoço. A mãe remete às outras mães dos filmes do diretor – as relações entre suas mães e filhos são frequentes e provavelmente autobiográficas em certa medida – um tanto controlada em sua própria loucura evidenciada no figurino e maquiagem, parecendo sempre alheia e, neste caso, menos caricata e mais humana. Suzanne é a caçula que sofre sozinha, insatisfeita com a vida que leva e aguardando a atenção do irmão do meio, o pródigo, com quem sempre se identificou.


Todos os personagens carregam seus dramas pessoais, histórias fragmentadas que percebemos aos poucos e aquela visita parece despertar lembranças e expectativas em cada um. Fica evidente – e é uma das muitas qualidades do filme – que cada um explora uma questão com Louis, específica e individual. É óbvio tratar assim, se falamos sobre relacionamentos, mas é justamente essa troca que permite as manifestações diferentes de cada um, que parecem nervosos, ansiosos por saber o que traz aquele querido e também estranho parente de volta. Em cada ator há um desdobramento e por serem todos experientes e inquestionavelmente bons, representam os grandes temas da personalidade, da vida de qualquer pessoa: solidão, frustração, amadurecimento, afeto, medo, sexualidade, etc.

É nó apertado, emaranhado em si mesmo que o diretor nos mantém como reféns, sem sabermos quando será desatado. A câmera posicionada próxima aos atores, quase entrando em seus rostos, amplia uma cumplicidade, agonia e quase claustrofobia. Queremos sair daquela situação o quanto antes e é assim que parece se sentir Louis. Ele não faz parte daquela rotina, seu comportamento busca o melhor momento, mas sempre o adia, enquanto tenta se aproximar de cada um cautelosamente, retomando alguma intimidade perdida anos atrás. Seu comportamento é o oposto de sua família e não é difícil compreender porque resolveu sair dali, quando todos parecem sempre ter os nervos à flor da pele. A casa, um reduto de aconchego, se transforma em prisão e mais de uma vez ele se vê obrigado a tomar um ar, fumar, sair daquele ambiente.


O filme passa rápido e seu final nos dirá muito mais algum tempo depois dos créditos, nos nossos questionamentos e digestão do que acabamos de ver. As críticas que enfatizam uma expectativa maior do que o que vimos, parecem não apreender a intensidade que aquele cerco – é essa a impressão, de que o protagonista tanto não consegue ficar ali muito tempo, como não consegue sair enquanto não atingir seu objetivo – provoca na trama e em nós. Há uma tensão crescente e conhecida em quem tem familiares intensos. O retorno para a casa da família, ainda que de visita, é sempre carregado de apreensão dos dois lados: o que se muda espera um período tranquilo – ainda que saiba não ser plenamente possível – e o que fica, aguarda o retorno do carinho, da saudade, daquela intensidade de atenção potencializada, guardada por um tempo, o tempo da volta. É dessa equação que parte Xavier Dolan, com o ápice da tragédia deixado à espreita – e o título não poderia ser melhor. 
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Não é sobre música. Coragem, primeiro documentário de Sebastião Braga traz a história de Felipe de Luna e Diana Ligeti, aluno e professora de violoncelo na capital paulista. Ele, bolsista da EMESP – Escola de Música do Estado de São Paulo – vindo de um bairro de periferia e família humilde, ela musicista romena que se divide entre Paris e São Paulo – a partir do projeto da EMESP junto com o Conservatório de Paris – dando aulas e se apresentando em concertos. Com tanto em comum, vamos descobrindo aos poucos essa parceria e as vidas de nossos heróis.

Embora o filme seja permeado por concertos e um ótimo tratamento de captação de som, além da reprodução de composições clássicas e conhecidas que criam uma atmosfera interessante, a música é apenas o contexto, pano de fundo para o tema do filme. Como o título indica, é preciso ter Coragem para viver de música ou – ainda melhor – para fazer uma escolha difícil e persistir nela, por acreditar ser a única viável para a vida. Coragem também é a forma com que Diana sempre se despede de seus alunos, um acalento, força vital para enfrentar um ramo difícil sendo tão jovem.


Felipe fez sua mãe acreditar, aprender a gostar de sua vocação que considerava irritante pela repetição nos ensaios, sempre os mesmos trechos das músicas até a perfeição. Vivendo sozinha e criando dois filhos, fez o que pôde para sustenta-los mesmo quando lhes faltava o básico. O violoncelista em formação insistiu e, agora que enxerga uma saída profissional se desenhando em um futuro próximo, enfrenta a ansiedade, as expectativas e aquele medo guardado em nós, da grande mudança de vida. Esse vislumbre de sucesso não significa certeza – ainda que seja quase previsível devido à dedicação e talento – e a dúvida ele vence com os ensaios.

Diana já esteve em situação similar. Escolhida para ser bolsista em Paris na derrocada da União Soviética – antes a Romênia era parte da grande nação socialista sem abertura para o ocidente em qualquer aspecto, especialmente no cultural – lá fez sua vida, com a promessa de gerar oportunidades para jovens da mesma forma que conseguiu a sua. Um encontro não casual formou a nova dupla e juntos, traçam seus caminhos de diferentes aprendizados em reciprocidade.


Documentário de estreia de Sebastião Braga, o filme se sustenta bem, acompanhando as rotinas dos protagonistas em separado e quando se juntam, em um paralelo com quem já alcançou um patamar e um conforto com a música e aquele que está trilhando seu caminho, ainda que não seja iniciante. Cresce em quem assiste um orgulho ao ver Felipe galgar patamares através do próprio esforço e dedicação, como um aluno focado e persistente, que sabe o que quer e nos dá uma certeza de que alcançará. Vemos em sua família esse mesmo olhar que brilha ao ver uma saída positiva em um bairro carente e perigoso do subúrbio paulistano. Ao mesmo tempo, é interessante ver que o filme amplia a perspectiva histórica e de formação de Diana, que segue aprendendo e praticando, mesmo quando ensina a seus alunos. É um filme que trata da troca de ensinos, perseverança e um pouquinho de talento, item necessário, mas não fundamental ao aprimoramento de qualquer um que se queira artista.  
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Antes de sair de férias, previ que teria tempo de escrever as despedidas, dicas para deixar o tempo passar, para seguir se perdendo nas listas intermináveis que ponho aqui e que a Netflix nos impele e subverter. Ledo engano: o trabalho me tomou, tendo que adiantar tudo aqui para sair de férias, com 'o resto da vida' que corre em paralelo e pronto, nada aconteceu. Mas, agora volto depois de pouco mais de um mês, no meio da semana para correr atrás do tempo, tão caro e escasso ultimamente.

De volta das férias magníficas que trarão publicações posteriores, segue o retorno das Maravilhosidades com um pouco de novidade, clássicos, seriados e documentários. Tem para todos os gostos! 

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Ata-me (1989, de Pedro Almodóvar) – 101 minutos
Almodóvar não é novidade no reino do cinema. Todo mundo pelo menos já ouviu falar do diretor de Fale com ela, Volver, Má Educação, A pele que habito e Julieta para lembrar apenas de alguns ótimos filmes. Todos estes, contudo são de sua nova safra, mas a Netflix esconde algumas pérolas, como Ata-me, de 1989, com Antonio Banderas novinho e Victoria Abril fazendo um par romântico inesperado e esdrúxulo. Banderas é Ricky, um homem que acaba de sair de um manicômio e decide encontrar a mulher de uma vida, uma ex-atriz pornô que encontrou apenas uma vez e que hoje atua em um filme b de um diretor aficionado por ela. A forma que Ricky encontra de seduzir e convencer a mocinha a viver com ele é simples e direta: um sequestro, até que ela entenda que o ama. Inesperado, ousado e divertido, traz um Pedro Almodóvar mais livre, com as liberdades sexuais contrastando com os sexismos da indústria do cinema e da vida e ainda, com as cores lindas e fortes que o diretor sempre imprime em seus filmes.

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O homem irracional (2015, de Woody Allen) – 95 minutos
Saindo de um grande diretor para outro, o Woody Allen de 2015 é este Homem Irracional, uma comédia com humor negro escondido em grandes diálogos e moral duvidosa. Joaquin Phoenix é um professor de filosofia entre o prestígio e a decadência que começa a lecionar em uma universidade onde é adorado, especialmente pelas mulheres. Ali, deprimido, é levado a uma situação extrema e descobre uma vida melhor após uma drástica decisão. A comédia aqui é levada ao limite e não haverá gargalhadas, mas as pontuações entre as aulas de filosofia e sua aplicação prática são mordazes e lógicas: de alguma maneira podemos acabar concordando com a situação e essa é a grande qualidade do filme, além da interpretação de Joaquin e Parker Posey. Não será o melhor filme do diretor, mas já ganha do fraquinho Magia ao Luar e nos deixa ansiosos por uma chance de ver sua série nova na Amazon (Crisis in Six Scenes) e seu próximo filme, em pre-produção. Isso tudo no aguardo, depois de Café Society lançado esse ano e lembrando os 80 anos de possivelmente o diretor mais ativo do planeta.

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Black mirror (2011-, de Charlie Brooker) – 60 minutos / episódio
A terceira temporada estreou essa semana, então o assunto é quente em todas as publicações do gênero. Black Mirror, desde a sua estreia traz a pauta do futuro distópico e não tão distante e suas relações com tecnologia, redes sociais, política, sociedade, tudo o que nos cerca, por fim. Cada episódio é independente do anterior, mas todos trazem um diálogo crítico do que vivemos hoje, de como nos relacionamos em família, com os conceitos de poder, informação e sociedade e muitas vezes em que parecemos ver um episódio levado ao exagero, nos deparamos com alguma situação similar, talvez em menor escala, que conhecemos, algum fato de um amigo, de um político, algum escândalo real. A série é extremamente bem produzida e abre espaço para discussões sobre o que queremos para o futuro e de que forma  nos comunicamos, usamos e vivemos nossas informações e as que temos de quem nos cerca, de que forma e se usamos as tecnologias a nosso favor, por um viés de evolução social ou em benefício próprio. Vale, pelo menos e com certeza, o primeiríssimo episódio da primeira temporada.  

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A family affair (2015, de Tom Fassaert) – 110 minutos
Uma história de família, para mim, é um dos maiores assuntos para se fazer um grande filme, principalmente se for documentário. Essa ideia de investigar quem somos a partir de quem, em tese, nos conhece melhor, corrompe aquela outra de que o documentário deveria ser objetivo e enriquece ainda mais o gênero. Aqui, o diretor Tom, de 30 anos, que mora na Holanda é convidado por sua avó com então 95 para que lhe visite na África do Sul. Ali, os dois conversam por dias e ele filma todo o encontro: sua avó em si é um personagem para a grande história, abandonou os filhos a uma espécie de orfanato/creche e foi viver a vida como modelo, independente e afastada do resto da família. O filme é esplêndido, como Elena e Stories we tell, por dar diversas dimensões a uma história sem heróis e bandidos, por mais que sejamos levados a criticar essa mulher à primeira vista. Impressionante, contagiante e interessante, é um dos melhores filmes documentários da Netflix hoje.

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Requisitos para ser uma pessoa normal (2015, de Leticia Dolera) – 90 minutos
Primeiro filme dirigido por Leticia Dolera, que também o escreve e protagoniza, este Requisitos é uma comédia deliciosa. Letícia é Maria de las Montañas, uma mulher que chega aos trinta anos voltando para a casa da família, sem dinheiro, sem namorado, sem vida social e sem emprego. No meio desta crise sem fim, Maria segue os preceitos de um livro de autoajuda e com uma troca de favores com um novo amigo que precisa perder peso – um de seus requisitos para ser normal – consegue, aos poucos, entender porque ela quer ser normal, se ela precisa disso e que requisitos realmente são importantes para ser feliz, normal, não normal, aceita ou qualquer termo que a satisfaça. Leve, inteligente e crítico sem ser chato, o filme passa que nem percebemos e acaba bem, nos fazendo buscar outros filmes e séries que a diretora multitarefa possa ter participado. 
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Julieta parecia uma certeza, antes de ver o filme. O pôster, os atores e atrizes, literalmente a imagem que o filme passava era de algo melhor do que o último Almodóvar, Amantes Passageiros. Da melhor forma possível, em um feriado olímpico em meados de agosto, frio, chuva, cachecol e café.
***

Julieta é inspirado em três contos de Alice Munro, de seu A Fugitiva e uma ansiedade surge quando se sabe disso apenas após a projeção, quando se começa a pensar e pesquisar o filme. Alice Munro é Nobel, mas isso não importa muito – apenas atesta uma qualidade já sabida anteriormente. Ela escreve sensivelmente, deliciosamente sobre ser mulher, sobre as mulheres que passaram e passam por sua vida e da forma como a vida se apresenta, em contos que nos deixam com vontade de saber mais. Você começa um livro despretensiosamente, sem nem saber nada direito da autora e quando se dá conta, já comprou dois, três, quatro. Dói acabar de ler e se despedir daquelas personagens todas. Imagino que Almodóvar se apegou tanto a elas, que lhes dedicou um filme inteiro.


Então, o livro é A Fugitiva, os contos são Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio. A história de Almodóvar é a de uma mulher sofrida que se apega à ausência da filha como um vício, na esperança de um reencontro após uma tragédia. Julieta é professora de literatura clássica e ensina justamente as tragédias, epopeias e grandes clássicos. Interpretada por Adriana Ugarte e Emma Suárez nos dois tempos da trama, as duas atrizes são imensas no que lhes competem. Adriana Ugarte se transforma de uma jovem e moderna professora a uma mãe que então entra em uma depressão absurda e ela nos faz participar de sua dor. Emma é a Julieta que se reconstrói, que aceita o passado e precisa viver sozinha. Ao mesmo, a recaída, como a volta de um vício ruim a transforma e a depressão a alcança novamente. Mas nossa protagonista não é a única mulher de que precisamos falar.

Almodóvar já foi estudado em não sei quantos artigos, muito se fala sobre suas mulheres, sobre sexualidade e não é à toa. Todos os seus filmes abordam os dois temas que fazem parte da própria vida do diretor, como os protagonistas neuróticos de Woody Allen, os perversos de Kubrick ou os intensos de Bergman. As mulheres em Almodóvar são quase em todos os seus filmes, protagonistas fortes e humanas, personagens complexas e apaixonantes em todas as cores – os famosos e vivos vermelhos, verdes, laranjas e azuis – e sempre ultrapassam barreiras, há sempre um risco iminente e elas se sobressaem, porque precisam viver acima do que as atormenta. São mulheres que atropelam o machismo com um caminhão, passam por cima e às vezes, nem reconhecemos o tema como algo que as abale tamanha sua força perante o que se apresenta. Seus homens - principalmente os heterossexuais - são acompanhantes, à exceção do que vemos em A Pele que habito e Má Educação, talvez - são relegados ao plano de complemento, participando das histórias delas.


Julieta se apega à Ava (Inma Cuesta), ex-amante e amiga de seu marido Xoan, precisava de suporte e sozinha não conseguiria dar conta do que se lhe apresentaria. Sua família era em si uma tragédia repetida de uma mãe em declínio físico e mental e um homem que a substituía quase por não haver alternativa. É um daqueles momentos em que a moral é vencida por uma realidade que a põe em xeque. Ava era uma amiga de todos e a amizade das duas mulheres superava crises de um passado de culpa e remorso. 

O diretor nos impõe questões caras e frequentes, cotidianas que escapam aos filmes bobos, a separação da filha Antia, a escolha dela de se afastar da mãe e escolher em um culto, uma saída para sua liberdade se prendendo de outra forma. Talvez não tenha sido apenas o encontro com a fé, mas a culpa que também a acompanhava, de um relacionamento intenso e não assumido com sua amiga de infância Bea, mas o destino lhe reservará surpresas de uma história que se repetirá.


Almodóvar retoma sua forma anterior a Amantes Passageiros, que instaura uma dúvida, uma coceira ardida como quando uma formiga nos morde. Amantes foi uma comédia de escracho que tentava retomar algum exagero do inicio de carreira, mas faz mal, como uma pornô-chanchada brasileira. Foi um susto, como um pesadelo que assistimos e Julieta vem como um sonho bom, retomando o vigor narrativo de grandes histórias e personagens, rediscutindo suas questões de gênero, sempre entrelaçadas com sexualidade, posicionamento e liberdade de expressão. A fotografia, o estudo de cena e arte reforçam o que o diretor faz melhor junto a sua equipe, em planos que são literalmente gostosos de ver, atiçando o nosso paladar, tornando o filme sensível a mais sentidos do que precisaria.

Se no anúncio de fim, ficamos quase tristes em uma sala lotada em plena noite de segunda-feira fria e chuvosa é porque ele conseguiu novamente. O diretor nos prendeu em sua trama com menos comédia do que alguns de seus filmes anteriores, mas sustentando em poucos atores uma grande tragédia em cores fortes e lindas.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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