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Café: extra-forte

O livro da semana vem forte, pesado e político. A invasão imperialista ao Afeganistão pela União Soviética em 1979 é relatada por quem esteve lá, através de entrevistas com Svetlana Aleksiévitch, a escritora Prêmio Nobel de Literatura, conhecida por Vozes de Tchernóbil, o livro que serviu de base para a série da HBO Chernobyl. Hoje vamos a Meninos de Zinco.

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The old library, Trinity College. Dublin, Irlanda.

Ninguém saberia que aquela guerra duraria dez longos anos e que, ao seu fim, traria mais transtornos aos combatentes que foram lutar como heróis e voltaram assassinos. Lançado ano passado pela Companhia das Letras, Meninos de Zinco, de Svetlana Aleksiévitch traz uma definição complexa de humanidade e história.

Como seus outros livros - Vozes de Tchernóbil, O fim do homem soviético, A Guerra não tem rosto de mulher e As últimas testemunhas - este também é composto de relatos dos sobreviventes e familiares de algumas das muitas vítimas do lado soviético. Neste conjunto, a autora traz um panorama social profundo das diversas percepções, das ilusões partidas de quem foi por um ideal e viveu um inferno; das famílias que vivem a culpa de terem concordado com isso e perdido duplamente, na transição de mentalidade com a proximidade do fim do regime e, por fim, de terem embarcado com pompa e retornarem com a derrota social, além dos traumas dos conflitos. Como uma imensa nação saindo da Guerra Fria, a URSS precisava conquistar seu espaço e então passamos a conhecer o que pouco foi notícia por aqui, a invasão que antecedeu a chegada dos Estados Unidos no país de Osama Bin Laden.

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Meninos de Zinco, Svetlana Aleksiévitch
Svetlana é Prêmio Nobel de Literatura e as razões para isso se justificam quando acompanhamos sua trajetória literária. Com os livros que chegaram a nós - todos pela Companhia das Letras - recebemos um volume imenso de informação sensível sobre uma nação que foi composta por tantas outras e depois se fragmentou novamente, que tem uma história digna de todos e mais filmes feitos e que, por aqui - ao menos no meu ensino médio - vimos muito pouco a seu respeito. Ainda que eu espere que se fale mais sobre outras nações que não as tradicionais do meu defasado currículo escolar, nenhum livro didático vai trazer os pormenores, as vozes dos indivíduos, seus pensamentos e subjetividades como estes que conseguimos acompanhar com a autora. 

Todos somos imbuídos de nossos ideais e a autora não se imiscui dos seus, mas ela tenta, ao mesmo tempo, dar voz às mais diferentes mentes e frentes. Então, temos desde o jovem que não queria ir e foi empurrado pela família e viveu um inferno particular e coletivo, a outro que foi pela bandeira e orgulho e se sente vencedor. Temos as famílias desalojadas em suas dores imperdoáveis e perdoáveis, temos quem sustente e quem pise nas políticas assassinas das disputas de poder. É um livro que traz tudo, que abre mil debates e que ainda traz um adendo, com os pormenores do julgamento a que a escritora foi submetida, por ter sido processada por algumas das pessoas entrevistadas. Inesperado, mas compreensível - especialmente em uma nação que tinha por prática cultivar o medo e manter uma imagem de vencedora sempre. Era outra época, outros valores - mas ainda há muita ressonância com tudo o que vivemos. Guerras, ideais nacionalistas e grandes ilusões sempre haverão, o que torna esse livro imprescindível para refletirmos sobre poderes e perdas, política e crimes contra a humanidade. 

Meninos de Zinco é doído - o título fala dos caixões e como muitos combatentes eram meninos efetivamente - dezoito anos já era suficiente para ser convocado - está posto. Leiam porque, além de toda a relevância sócio-política e cultural, ainda é extremamente bem escrito e estimulante - é difícil largar. Vamos falar sobre ele depois, estou por aqui. É uma discussão que vale uma mesa, muito café e gente pensando junto.  
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Os miseráveis, de Victor Hugo (1862), já foi ao cinema e teatro muitas vezes, mas é provável que, em nenhuma delas, tenha abordado o tema de maneira tão contundente como este, de 2019. Ladj Ly faz uma versão crítica e profunda, que atravessa a obra em vez de adaptá-la. O resultado é impressionante.

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Os Miseráveis (2019)
Não espere encontrar Jean Valjean, Fantine, Javert, Cosette e Marius. Não é uma adaptação, mas talvez uma influência do escritor sobre o filme que se traduz aqui. Da mesma maneira, não é um musical romântico como o filme de 2012, mas um drama tenso. A crítica social segue firme, assim como sua revolução.

Esta é a história de três policiais que fazem ronda em um subúrbio pobre parisense, eles são a BAC - Brigada Anti-Crime. Um deles é novo na equipe e vai viver seu primeiro dia de trabalho com os outros. No caminho, os três passam a se conhecer e vemos como eles se relacionam com o bairro, um deles sempre ultrapassando um pouco os limites do dever, mas mantendo a ordem sob uma comunicação com os poderes paralelos da comunidade de herança diversa, os imigrantes. Tudo vai bem, mas quando  uma das crianças rouba um filhote de leão do circo local, a frágil calma é suspensa: as relações de poder e parceria, os preconceitos, o descaso governamental, a grande história imperialista francesa e suas colônias sempre marginalizadas emergem.

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Os Miseráveis - poster

A construção narrativa é brilhante. A primeira sequência do filme traz a França como campeã da Copa do Mundo de 2018, todos nas ruas, bandeiras e fogos. Paris está em festa e parece só haver liberdade, igualdade e fraternidade. Até o dia seguinte. As revoluções históricas e crises políticas do país, que deveriam ter promovido à força uma sociedade mais justa, mantém seus alicerces racistas e preconceituosos no abandono estratégico do governo às periferias. Assunto com que os brasileiros podem se relacionar automaticamente: vivemos esse dia a dia de violência, preconceitos e morticínio de negros e pobres no Brasil. E sabemos como isso acontece lá, os noticiários e redes sociais confirmam, como aqui, a ascensão da extrema direita com suas facções neonazistas, os franceses parisienses que se acham mais relevantes do que qualquer outra pessoa, e que, conforme o policial 'são o poder', acima de tudo e de todos. 

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a força policial: Stéphane, Chris e Gwada
As diferenças entre os personagens policiais, Chris,o branco (Alexis Manenti), Gwada, o negro (Djebril Zonga) e o que acaba de chegar do interior, Stéphane (Damien Bonnard), vão aparecendo na medida do incremento dos conflitos. É possível compreender a visão de cada um, é possível entender que ninguém é completamente corrupto ou perverso, como ninguém está acima de todos, com uma bondade e ética absolutas. O roteiro é tão preciso que não precisa trazer isso como discurso, mas em gestos e poucas falas, sem flashbacks explicativos. Mais uma vez, todos os garotos do filme lembram os nossos garotos brasileiros assassinados dia sim dia não nas favelas e ruas. Os três policiais são também como os nossos policiais, é quase doloroso compreendermos tão bem aquela situação e nos indentificarmos.

O filme nos provoca uma tensão e mantém firme seu propósito político e de denúncia. Seu ineditismo resulta na coragem de expor à carne viva os abusos, desvarios e despreparo do poder público. O filme é como uma grande explanação sobre a situação francesa que, tal qual os Estados Unidos com sua Estátua da Liberdade abrindo o coração apenas para brancos, o lema da trípide francesa conquistado séculos atrás a sangue e fogo não cabe aqui, não chega nas favelas verticais que não aparecem nos filmes de Torre Eiffel, Champs-Élysées e Arco do Triunfo. 

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As crianças
Em uma cena, Stéphane tenta apaziguar os ânimos e chegar a uma conclusão menos pior para os envolvidos. No meio do diálogo com o dono mulçumano de uma lanchonete de kebab, eles citam as manifestações de 2005. Naquela época, em um dos bairros periféricos da capital francesa, um grupo de jovens incendiou carros e tomou as ruas em confronto com as forças policiais. O protesto se amplificou exponencialmente em todo o subúrbio, tomou as ruas da capital e das maiores cidades francesas. Agora, quinze anos depois, eles temem essa repetição e o que o policial diz é que, mais uma vez, gerará prejuízos financeiros e nada mais. Não é isso que vai mudar o comportamento e o pensamento sobre o social naquele país. A triste realidade é escancarada para todos, uns mais e outros menos, mas todos vítimas do sistema.

Em tensão sempre crescente e com muito assunto a discutir, por pouco não chega ao atordoamento que Bacurau provoca em sua agilidade e explosão de ideias em pouco tempo. Estes Miseráveis se voltam à questão da imigração, das crianças e da revolta que isso provoca - hoje e sempre pontos sensíveis da sociedade que insistiu em uma longa história de colonização. O sentimento de revanchismo surge como uma força de vitória nos minutos finais, mas também um peso, quando não há como vencer uma guerra já perdida. Com elenco jovem, novo e diverso, é uma glória ver um grande filme francês não branco, para renovar o nosso olhar. Encerrando tal qual a história que acabamos de assistir, seguem aqui os devidos créditos ao mestre que originou a obra. E tente não piscar nos minutos finais.

"Meus amigos, lembrem-se disto.
Não há plantas más, nem homens mais.
Há apenas maus cultivadores."
Victor Hugo, Os Miseráveis.
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A Artista de Cinema de junho é ninguém menos que Fernanda Montenegro. Já vimos uma rápida biografia e agora vamos partir para algumas de suas produções. A seleção foi difícil e voltada para nosso cinema brasileiro. 

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Fernanda Montenegro
Fernanda Montenegro é um de nossos ícones culturais. Por mais que ela se considere uma reles mortal, mesmo sem querer, ela é uma referência de Brasil, como dizem, do Brasil que deu certo, que nos traz orgulho, que não nos faz passar vergonha. Com uma carreira diversa e extensa em rádio, tv, cinema e teatro, é possível encontrá-la em muitas produções. Como Artista de Cinema de junho, eis cinco filmes de destaque, para conhecermos um pouco mais sobre a atriz.

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A vida invisível (2019)
Adaptação do livro de Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão e dirigido por Karim Ainouz, não é exagero dizer que, desta vez, o filme supera o texto. O drama conta a história de duas irmãs que se separam quando uma decide viver um grande amor fora do país e a outra permanece e se casa, com a ambição de seguir para Viena tempos depois. Nestes desencontros, as duas acabam vivendo no Rio de Janeiro sem uma saber da outra, por anos a fio. No filme, acompanhamos as duas estórias em paralelo e vemos o crescente da trama com a sensibilidade que só o diretor de O Céu de Suely (2006) consegue imprimir junto a seu elenco, com Julia Stockler, Carol Duarte e Gregório Duvivier. Fernanda Montenegro faz uma participação definitiva e impressionante, com poucos gestos e transmitindo, quase sem palavras, tudo o que precisamos saber e sentir. Levou o prêmio Um Certo Olhar, do Festival de Cannes 2019.

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O auto da Compadecida (1999)
O texto é do magnânimo escritor Ariano Suassuna e esse filme, que também é uma minissérie, é uma produção da Globo, com direção de Guel Arraes. Conhecido do público e o filme brasileiro preferido de muita gente - de meu pai, inclusive - é uma comédia sobre céu, inferno, religião, ambição e humanidade. O texto é uma delícia, os atores estão em sintonia e são nomes de peso em nosso audiovisual e Fernanda Montenegro, nossa Artista de Cinema, chega com tudo, como a mãe de Jesus, Maria. É ela que guia e sela o destino destes rapazes, nessa trama nordestina e carregada de sotaques, crítica social e ingenuidade. Vale muito a pena. Você pode comprar esta maravilha aqui.

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Gêmeas (1999)
No mesmo ano e seguindo outro caminho, vemos outra adaptação literária de um grande nome, Nelson Rodrigues e dirigida por Andrucha Waddington. Aqui, o suspense gira em torno de duas irmãs gêmeas, Iara e Marilene, interpretadas por Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro, que faz uma participação. Na trama, ao nascer, não esperavam gêmeas e chegam ao mundo como prenúncio de uma tragédia, como o próprio pai (Francisco Cuoco) explica ao noivo de uma delas. Com toda a carga que só Nelson Rodrigues consegue trazer ao texto, há uma morbidez inteligente que nos deixa instigados a participar do jogo de sedução e briga de poder entre as irmãs. Veja o trailer.

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Central do Brasil (1998)
Um dos filmes mais famosos e bem criticados do país, Central do Brasil é uma marca histórica do nosso cinema. Dirigido por Walter Salles, o mesmo de Jia Zhangke - um homem de Fenyang (2015) e Na estrada (2012), baseado no livro clássico de Jack Kerouac. Dora escreve cartas para pessoas analfabetas na Central do Brasil, uma estação de trens de passageiros da cidade do Rio de Janeiro. Ela conhece Josué, uma criança que vive com os irmãos, perdeu a mãe e está em busca do pai, que ainda não conhece. Juntos, Dora e ele embarcarão nesta saga que os levará a lugares menos turísticos do país, trazendo parte do Brasil real para as telas. Lindo, emocionante, nos faz reconhecer nossa diversidade cultural de uma forma sensível e arrebatadora. Fernanda concorreu ao Oscar de Melhor Atriz e é, ainda hoje, a única brasileira a chegar até lá.

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Eles não usam black tie (1981)
Adaptação da peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri e tendo ele como um dos atores principais, este é uma obra prima de nosso cinema. Leon Hirszman. Um dos diretores de Cinco Vezes Favela (1962), um dos filmes mais importantes de nossa história cinematográfica, de A Falecida (1965), também com Fernanda Montenegro e de ABC da Greve (1990), traz uma história nos anos finais da ditadura e sobre a ditadura. Todos já sabiam o que se passava nas salas do DOPS e promover uma greve geral em uma indústria era tido como um ato subversivo, ainda que fosse um direito do trabalhador. Fernanda Montenegro é Romana, a esposa de Otávio (Guarnieri), que é envolvido politicamente no processo. Em sua família, há o filho mais velho que também trabalha lá e tem uma visão diferente do pai. Ele acha que é melhor não se envolver e garantir o seu, em vez de lutar por um bem comum. Impressionante, a atriz domina absolutamente todas as cenas em que aparece, especialmente aquelas que envolvem os atores mais jovens, com uma sensibilidade e simpatia, como se sua personagem fosse uma de nós. Esse filme está completo no Youtube e grátis, numa qualidade razoável, mas que dá para ver. Deu saudade das aulas de cinema da graduação, de discutir a imagem do Brasil e do brasileiro nas telas e em filmes 'de verdade'.

Para saber mais sobre a vida de Fernanda Montenegro, comece aqui e para descobrir nosso Artista de Cinema de Maio, coisa que aconselho fortemente a fazer, clique neste link! =)
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foto de Ilan Vale
Deitados sob a grama, Fabinho e Maria observam o céu estrelado. A luz do luar ilumina a cena que só os dois presenciam. O frescor da maresia lhes dá esperança para o que vem por aí. Enquanto ela revela os sonhos do pós-quarentena, ele já parece sonhar com a liberdade de um mergulho no mar. 

- Fabinho? 

- Oi, Ma... 

- Me diz: o que você vai fazer quando isso acabar? 

- O que eu vou fazer? 
Quero poder sair por aí e receber o sorriso de um desconhecido. Ser feliz com as paisagens e cores da nossa cidade. Quero me emocionar com um abraço quente, me arrepiar com um beijo molhado. Perdoar os inimigos, amar ainda mais os amigos. Quero viver as certezas e incertezas da vida sem me preocupar pra onde ela vai me levar. Dar valor a tudo o que nós temos, mesmo que seja a coisa mais banal. Quero me permitir ser quem eu sou. Olhar a imensidão do mar e me sentir livre. Livre pra voar. 

***
Quem escreve Livre pra voar
Oi, meu nome é Diego. Tenho um canal no Youtube chamado Doze Futebol, que dá voz aos principais personagens do esporte: os torcedores. Fora do audiovisual, faço da escrita minha forma de falar com o mundo. Gosto de criar histórias a partir de fotos de amigos. Essa é do Ilan Vale. Fala comigo!
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Hoje é o aniversário dela. A mulher da minha vida, razão do meu viver, inspiração e força. Stela ou Dona Stela como gosto de chamar pra pirraçar, é minha mãe e nessa quarentena de isolamento social, pandemia, coronavírus e apocalipse, demos a sorte de estarmos juntas, com meu pai e minha irmã, que encontramos de longe, já que ela segue trabalhando. Riqueza maior do que essa não há. Coloquei essa nossa foto de super crianças (nós três, no caso) só para dar aquela vontade de sair (re)produzindo por aí.

minha mãe, eu e minha irmã no século passado
Estes dias andei perguntando a minha mãe sobre as coisas que ela gosta de ver e fazer. Estou de volta ao convívio com ela mais intensamente neste período de isolamento social, voltei pra Salvador e nos vemos e vimos mais nestes últimos meses do que nos últimos doze anos em que estive na ponte aérea Salvador - Rio de Janeiro. Meio doido isso. O fato é que, hoje é seu aniversário e nada mais justo do que lhes apresentar a lista de filmes que ela adora, sempre revê e sempre se diverte. Uma sorte danada ser filha dela, um amor desse, uma entrega. Sem ela, não somos nada e seu gosto de filmes só reforça isso, o tamanho de seu coração romântico e caloroso. Perde tempo não, tá tudo aqui:

Orgulho e preconceito (2005)
Este está na nossa lista comum. Na verdade, está também na lista de algumas amigas que gostam de Jane Austen e dessa adaptação maravilhosa. É um dos filmes de romance e super românticos que mais gosto, a mocinha orgulhosa e o mocinho preconceituoso, uma história para nos tirar do cotidiano e achar que a vida pode sim, ser inocente, apesar das dificuldades em ser mulher, e doce de vez em quando. O texto é da brilhante Jane Austen, autora de tantos livros de ficção e romance, trazendo os costumes e comportamentos da Inglaterra do século dezenove. Ela foi uma das vozes primordiais a tratar sobre gênero e suas desigualdades da era georgiana e esse é seu livro mais famoso, conhecido em todo o mundo e que serviu de influência para grandes autores e outras obras. Você encontra ele no Telecine Play.

O diário de Bridget Jones (2001)
Vamos lá: sabemos que o filme é bobo, isso dá pra ver no poster, mas é muito legal! Para quem perdeu este bonde, Bridget Jones (Renée Zellwegger) trabalha em uma editora de livros e leva uma vida de solteira, morando sozinha em Londres. Tudo o que parece glamouroso nessa frase, perde contexto aqui, já que a ideia é trazer um pouco para a realidade - a vida de solteira é mais entediante do que animada. O fato é que ela tem seus amigos e familiares e uma quedinha pelo diretor cafajeste da editora, Daniel (Hugh Grant). As coisas andam, ela conhece o famoso Mark Darcy (Colin Firth), este sobrenome não é à toa - é o mesmo do mocinho de Orgulho e Preconceito aí de cima. A graça aqui está em tudo parecer 'real' demais, mesmo se tratando de uma comédia romântica, às vezes exagerada. As relações familiares, as peculiaridades dos personagens, a narração da própria Bridget enquanto escreve seu diário, e esse trio fazem valer o ingresso. Assisto mil vezes e mil vezes me divirto. Minha mãe também. Foram feitos outros dois filmes depois desse, mas assistindo o primeiro, já resolve. Está no Google Play.

Kramer vs. Kramer (1979)
Dustin Hoffman e Meryl Streep. Kramer vs Kramer foi um dos filmes listados para assistir antes de ir ao curso de roteiro que fiz em NY e é um dos filmes favoritos da minha chefe familiar. Sim, até eu fico pensando que foi em outra vida de tão distante, mas a viagem aconteceu mesmo, em 2012 e foi muito legal. Voltando ao filme, encontramos este casal sem igual na cena hollywoodiana, mas em crise na história. Joanna Kramer decide sair de casa e deixa Ted Kramer com a tarefa de conciliar o trabalho, a vida doméstica e a educação do filho ainda criança. O filme joga com essa relação homem x mulher, poderes e deveres, relações machistas e readaptação. É muito mais complexo do que um drama de divórcio e muito mais interessante também. Já vi mais de... sei lá, 6 vezes desde que fui ‘obrigada’. É um dos melhores filmes feitos e é muito despretensioso, o que o torna mais especial. E convenhamos: Meryl Streep e Dustin Hoffman juntos não poderiam fazer um filme ruim. Levou os principais prêmios do Oscar de 1980 e está no Google Play e na Apple TV.

História de um casamento (2019)
Recentíssimo, esse filme poderia ser uma variação de Kramer Vs. Kramer. Adam Driver e Scarlett Johansson são esse casal que se ama, mas o relacionamento segue um caminho complicado. Com um filho criança e tendo que decidir o futuro da relação, é uma trama adulta sobre um jovem casal, cujos desejos de vida contrastam tal qual suas identidades. De Noah Baumbach, o mesmo do adorado Frances Ha, é como se o diretor houvesse amadurecido o tema de um filme no outro – relações humanas e comportamento. Uma delícia de ver apesar do teor sério, pela sinceridade em temas difíceis. Grandes interpretações. 

O guarda costas (1992)
Agora me diga se esse não é um clássico? Quando você lembra do filme, você não lembra dele de verdade, eu descobri isso. Você lembra da música de Whitney Houston e quase chora, porque então você lembra como sua vida se encerrou de uma forma tão incrivelmente triste. Agora mesmo, enquanto escrevo, me dá um aperto no coração. Também, porque se alguém passar incólume à sua música, terá certamente um atestado de psicopatia. O filme é o romance entre Whitney Houston e Kevin Costner, outro casal improvável, mas que funciona bem na trama. Ela artista, ele seu guarda costas, como o título do filme. É lindo, romântico até não querer mais e é a cara de minha mãe. Eu prefiro ouvir a música de vez em quando e só uns pedaços, que meu coração não aguenta. No Google Play.

O diário de uma paixão (2004)
Essa é uma das nossa grandes dissonâncias, minha e de dona Stela. É o que prova que ela consegue ser mais romântica do que eu umas vinte e cinco vezes, mais ou menos. Eu acho esse filme meio chato. Meloso demais, me tira a paciência. Sei que é um dos filmes adorados de seu público, especialmente com Ryan Gosling e é para quem gosta mesmo de uma coisa água com açúcar. Eu preciso de pimenta e café para somar nessa conta - um tempero a mais, um risco de comédia. Mas entendo o gostar. É um filmão para muita gente e deixa todos com o coração mole. Está na Netflix.

Como se fosse a primeira vez (2004)
Esse é um filme que todo mundo gosta. Outro casal improvável, mas que funciona bem na trama: Henry (Adam Sandler) se apaixona por Lucy (Drew Barrymore). Ela sofre um acidente e perde a memória recente então, sempre precisa ser lembrada de certas coisas e, uma delas, é seu par romântico. Henry tenta tornar possível essa recordação e se envolve com ela pela primeira vez todos os dias. Fofo, leve e engraçado, esse sim, uma boa aposta para estes tempos - quando queremos de verdade, esquecer os momentos atuais e pular para dias mais amenos. Com trilha sonora dos Beach Boys, um dos melhores filmes de verão. No Telecine Play, Netflix, Google Play.

Sissi, a imperatriz (1955)
Desde que eu sou bem pequena, que minha mãe fala deste filme. Ela gosta de um drama e sempre foi muito apaixonada por Sissi e sua trágica história, que foi amenizada em filme pelo vienense Ernst Marischka. Com uma vida triste e difícil apesar da rotina na aristocracia - ou talvez por ela, Sissi virou um ícone de personalidade e resistência, ou sobrevivência. Este clássico você encontra completo e grátis no youtube, bem como toda a trilogia.

O amor não tira férias (2006)
Anteontem eu falei aqui da minha apreciação por Nora Ephron. Nancy Meyers é outra que leva meu coração, no aspecto filmes legais americanos. Elas deveriam ser amigas, não é possível. Ela é a diretora de Do que as mulheres gostam (2000), Alguém tem que ceder (2003), este de que falamos, Simplesmente Complicado (2006) e Um senhor estagiário (2009). Todos os filmes são leves, mas não bobos. Carregam uma comédia boa sobre comportamento e relacionamentos dos mais diversos tipos. São filmes de estação, verão ou inverno, mas que dão vontade de assistir em qualquer época, porque carregam aquele selo de feel good movie de que tanto carecemos nestes último meses. Em O Amor não tira Férias, Amanda (Cameron Diaz) e Iris (Kate Winslet) moram em Los Angeles e no interior da Inglaterra, respectivamente. É fim do ano e os climas das duas cidades são quase opostos, mas as duas, que se conhecem online em uma espécie de AirBnB, só que de troca de casas, resolvem fazer isso, um intercâmbio e trocam seus endereços por um tempo. A partir disso, uma conhecerá os amigos e parentes da outra e tudo vai dar certo, depois de um tempo. Divertido, com ótima trilha sonora, engraçado de verdade e terno, está no Amazon Prime, Looke, Apple TV e Telecine Play.

Um lugar chamado Notting Hill (1999)
Hugh Grant fez umas besteiras na vida dele, isso é inegável, mas ele também fez grandes filmes. Este é um dos mais românticos e é muito fofo. Com grande trilha sonora, trata do amor de um livreiro de Notting Hill - bairro charmosíssimo de Londres - por uma atriz de Hollywood que está fazendo um filme ali perto. É daquelas histórias improváveis, mas, que as boas atuações garantem o enredo e nos carregam pela trama. Minha mãe ama esse filme, porque, na verdade, ela é mais fissurada em música do que em cinema e esse aqui tem os dois. Pelas cenas engraçadas, dá para assistir várias vezes sem cansar. No Telecine Play, Google Play, Apple TV e Looke.

Agora, com licença, que está na hora dos parabéns, de escolher um desses filmes e assistir com ela, a melhor mãe e mulher que eu conheço. 
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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