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Café: extra-forte


Enquanto fazemos o tempo passar, vamos enfrentando os pequenos desafios cotidianos em nossa esfera reduzida. Estamos em casa, e por isso, busco imagens de casa em seu sentido pleno e pacífico. De agonia, já basta o noticiário. A busca é pela paz, pelo retorno aos nossos, ao que temos de importante em nós e em nossos afetos. Um espaço de conforto, para que nos sustentemos em meio ao caos. E agora, o lazer.

Força Maior (2015)
Força Maior é um filme brilhante. Só precisaria dizer isso e a indicação deveria valer, mas vamos lá. É um filme que nos faz pensar em nosso papel social, mas também é uma comédia. E também é um drama. É um filme que nos coloca uma hipótese cujos desdobramentos e conclusões não saem conforme o imaginado. Discussões inteligentes e ácidas, uma revisão da família se faz, entre situações-limite e posicionamentos individuais. É mais do que isso e tem a crítica aqui, de quando vi o filme no cinema. É muito bom. Podem assistir tudo o que Robert Östlund dirige que a chance de dar errado é bem pequena.

Fleabag (2016)
Comédia ácida inglesa, essa série cativa no primeiro episódio. Uma mulher em seus trinta e poucos ou vinte e muitos, solteira, tenta se reerguer após uma tragédia pessoal. Baseada em uma peça também da atriz protagonista, Phoebe Waller-Bridge, de 2013, foi sucesso nos dois formatos. O ponto é que tudo parece muito sincero. É uma personagem que, em alguma medida, está em nós e as exposições de seus pensamentos apenas com o olhar ou nas observações que faz, são de um ganho cênico impressionante e identificação imediata. Além de deixar tudo mais interessante. A série tem duas temporadas e carrega mais de quarenta prêmios.

The Office (2005 - 2013)
 Versão americana de seu original homônimo inglês, The Office é a certeza de uma maratona de sucesso. Comédia boa, despretensiosa e sarcástica, trata do dia a dia em um escritório de uma filial de uma empresa de papel. Com a sinopse, parece que não há substância para as nove temporadas, mas ela se supera a cada episódio. Não espere algo intelectualizado, apesar das boas referências e ótimos diálogos - é pra rir sem exigências ou grandes expectativas. Tem todos os clichês - porque eles são o excesso do que acontece na vida real e eu sei, estive muito tempo em escritório - e eles quase sempre são cirurgicamente certeiros. Uma série sobre o ambiente de trabalho que te faz reconhecer os colegas e a si mesmo. Vale as nove temporadas. Com Steve Carrel, John Krasinski e grande elenco (relembrando clichês das críticas de filmes).
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Estamos no olho do furacão, mas vamos tentar manter um mínimo de tranquilidade em tempos de excesso de informação e ansiedade. Confesso que dei uma segurada nas notícias, meu coração é muito sensível, e sigo por aqui, pensando e dividindo filmes e séries para aliviar e fazer o tempo passar. Pensemos em nós e no coletivo e façamos o que estiver ao nosso alcance para minimizar os problemas e reduzir os índices. As postagens seguem, a princípio, diariamente no instagram, mas aqui temos um compilado para deixar tudo organizado e servir de referência para quem não está tão frenético nas redes. Este é um espaço de calma e para fugir um pouco do que estamos vivendo.

Inspire, expire (2018)
Duas mulheres se conhecem em um momento delicado. Uma está em trânsito para conseguir asilo político, a outra descobre que aquela carrega um passaporte falso. Um filme que lembra os melhores de Ken Loach, onde situações sociais são sempre mais complexas e demandam decisões além do sim e não, certo e errado. É uma das pérolas escondidas do streaming. Islandês, contrasta a dureza do clima com os afetos e cuidados que nos tornam mais um pouco mais humanos.

I am not okay with this (2020)
Aposta da Netflix como série de comédia desse ano, dos produtores de Stranger Things e com o diretor de The end of the fucking world. Poderia se dizer que é realmente um pouco de cada uma destas destas séries, da leveza da primeira, com o clima da segunda, mas tem alguns adendos. Há muito de Carrie, de Stephen King, da garota adolescente que tem um poder que a ultrapassa, mas não é sobre super heróis. É sobre relações humanas neste período de descobertas, em que ainda estamos nos entendendo como pessoas, o que gostamos, o que prezamos, o que não combina com a gente, o que queremos mostrar para o mundo. Leve e interessante, vale para adultos também, já que recordar é viver e eu, pelo menos, tenho saudades de ter menos responsabilidades.

Um banho de vida (2018)
Mathieu Amalric é Bertrand, um homem que tenta se entender em meio a depressão. Para ocupar o tempo, entra em um grupo de nado sincronizado, com outros homens de meia idade e cada um com seu problema. O filme segue sem percebermos e é fácil nos identificarmos em algumas situações. É um filme leve sem ser besta, que traz uma ideia de amizade e camaradagem tão caras para nós nos últimos tempos. Elenco espetacular. Vale cada minuto.
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A semana vai ser longa e agora as famílias precisam se virar em quem pode trabalhar de casa e ainda cuidar das crianças. Será um desafio para nós todos, para uns muito mais difícil que para outros como eu, que vivem sozinhos. Em todo caso, o momento pede que sejamos conscientes e solidários – sejamos socialmente responsáveis, olhemos para o outro, cuidemos do outro como se pertencesse à nossa família.
Lembrei agora da exposição que fui em Luxemburgo, fui para lá ano passado para rever uma das melhores amigas e de presente, ela me levou a uma exposição incrível de Edward Steichen, chamada The Family of Man. Cliquem no link, para nos vermos um pouco como coletivo, como humanidade. Em todo caso, seguem as dicas para acalentar nossos corações e fazer o tempo passar mais rápido! 

Assunto de Família (2018)

Talvez com o sucesso repentino de Parasita (2019), passemos a ter mais atenção e carinho com as produções do leste asiático. Alguns filmes e diretores são impressionantes e suas formas de contar histórias não perdem em nada para os maiores diretores do ocidente. Assunto de Família, de Hirokazy Koreeda, é um desses filmes que vão te pegando aos poucos, pelas beiradas, que parece tudo simples e quase monótono, mas seus sentidos e significados vão entranhando em sua pele gradativamente, até te tomarem por inteiro. Eu assisti no cinema quando foi lançado e saí calada e impressionada com aquilo tudo. Não à toa o filme levou Cannes, César e Bafta e foi indicado a filme estrangeiro no Globo de Ouro, Oscar e mais não sei quantos festivais.
A história é sobre uma família japonesa que vive da forma que pode, como quando se vive à margem da sociedade. Neste ponto, dá para encontrar similaridades com Parasita (2019), mas há mais para ver e as semelhanças são sempre ganhos neste caso. O impressionante do filme é a sensação de intimidade, de naturalidade destes atores que, de fato, parecem constituir uma família, ao que tudo se desregra por razões que não comentarei. Não espere um filme corrido; como no sul-coreano, a tensão se constrói aos poucos e podemos aproveitar o momento para ver um filme com um 'tempo' diferente do nosso dia a dia. Com certeza, um dos melhores da Netflix do momento.
  
Klaus (2019)
O Natal já passou faz um tempinho, mas este desenho foge à regra de ‘filme besta’ e merece atenção. Também, em virtude das crianças e pais em casa, não custa indicar algo para ocupar o tempo desta turminha com um filme para toda a família.
Klaus conta a história de um jovem mimado que precisa aprender uma lição e é levado para o fim do mundo. Como os grandes filmes infantis, esse também tem aquele aprendizado, mas sem ser muito piegas. Então o jovem-que-virou-carteiro tem um enorme desafio que é conseguir fazer acontecer um tráfego de correspondências em uma cidade sem escolas, onde boa parte da população se odeia sem saber por que e não sabe escrever. A desinformação e a repetição irracional de comportamentos são temas importantes para as nossas vidas e aqui são trabalhados de forma brilhante. É, de fato ‘um filme para toda a família’, além de ser muito bem feito, lindo e engraçadinho. Vai ter o momento ‘Natal’ no filme, mas as ideias que ele traz, a construção dos personagens e desta vila no meio do nada, fazem valer a pena.

Peaky Blinders (2013)
Se tem uma coisa que eu adoro nessa vida, é a BBC. Como os grandes conglomerados de comunicação no mundo, ela deve ter mil defeitos, mas suas produções seriadas são impressionantes. Peaky Blinders é uma das minhas séries preferidas de muito tempo. Não é uma sitcom dessas de rever para sempre sem importar a ordem, mas uma produção de um drama como um imenso e maravilhoso filme.
Os Peaky Blinders são uma gangue-empresa familiar em Birmingham, na Inglaterra de 1919. Eles têm uma empresa de carvão mineral e fazem dinheiro às custas de violência e justiça social daquele jeito dos mafiosos. Cillian Murphy é Thomas Shelby, um ex-soldado da Primeira Guerra Mundial, sério e cheio de traumas. É o dono da empresa e chefe da família de ex-ciganos sem classe que a aristocracia inglesa tenta rejeitar. Além dele, há outros grandes nomes da dramaturgia inglesa e dá para perder umas boas horas nesta série de cinco temporadas sem nem se dar conta. A sexta estava em gravação, mas, como toda a produção audiovisual de quase todo o mundo, foi interrompida por conta da pandemia maldita. Aguardemos os próximos episódios.

What did Jack do? (2017)
What did Jack do? é um bônus na listinha de hoje. Zapeando o streaming, passei novamente por esse curta de David Lynch e lembrei o quanto achei divertido e estranho, como quase todas as coisas que o diretor faz. David Lynch é o mestre deste tipo de narrativa, ele tem diversos estudos sobre meditação transcendental e sonhos e grande parte de sua filmografia transita por esses caminhos.
Seus temas não são esses, diretamente, em suas histórias, mas o ambiente que ele cria, nos transporta para isso, algo entre o absurdo e uma sensação de estranhamento, que não é simplesmente surrealista, mas entra em nós como um sentimento de algo quase macabro que não se conclui nem se define tão claramente. E isso vale para muita coisa que ele fez, como as primeiras temporadas de Twin Peaks (1990, uma das melhores séries de todos os tempos) e os filmes Veludo Azul (1986), Coração Selvagem (1990), Cidade dos Sonhos (2001) e Império dos Sonhos (2006, esse é complicado). Eu sempre fico esperando o próximo longa dele, para assistir, absorver qualquer coisa, rir de umas ‘maluquices’ e tentar entender – e se não entender, tudo bem também.
David Lynch é profícuo na produção de curtas de ficção e documentário e este é um dos que a Netflix trouxe este ano para nós. É uma brincadeira com filmes de polícia – toda a história se passa em uma sala em uma delegacia e o próprio David Lynch faz perguntas a Jack, um macaquinho suspeito de ter cometido um crime. É um bônus, o filme é divertido e inusitado, que não quer ser nada além do que está ali. 17 minutinhos.  
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Ainda em ritmo de quarentena, além de ver filmes e séries, podemos aproveitar este tempo de reclusão para ler algumas coisas, algo que vá além de uma obrigação ou estudo. Ler por prazer. Por isso, começa agora uma pequena série com dicas de livros, para quem precisa de uma companhia para aquele café-delícia do fim da tarde.
Para começo de conversa, uma coisa rápida: quando estava buscando uma foto de Natalia Ginzburg, me deparei com imagens de uma mulher séria e isso contradisse a imagem que eu fazia dela. Talvez por realmente ter visto poucas fotos, esperava sorrisos. A questão é que os textos que conheço, ainda que alguns tratem de temas sérios, trazem uma leveza na forma de contar, que deixa até os pesares parecerem menos desesperadores, ainda que tristes.


Eu me apaixonei por ela com As Pequenas Virtudes. É um livro curtinho, tem talvez 150 páginas e é fluido, fácil de ler. É uma seleção de ensaios e também algo como um livro de memórias. Natalia traz sempre histórias com temas que me interessam, como o registro familiar e cotidiano. Ao mesmo tempo, nada é frívolo, nada é gratuito. Através de uma escrita que parece falar de pouca coisa, vemos a história da Itália, o fascismo, as guerras, os exílios, a família, a morte e o amor. Ela também fala sobre a escrita, sobre o que significa para ela e como foi a única profissão que lhe dizia respeito e em que se sentia capaz. 

trecho do ensaio As Relações Humanas

Esta edição é da infelizmente finada Cosac Naify, de 2015 mas a Companhia das Letras fez uma edição novinha e linda lançada neste Janeiro de 2020, então é fácil de achar em qualquer livraria. Para continuar lendo Natalia, vale investir no Léxico Familiar e Caro Michele, outras obras também importantes e impressionantes.

Natalia Ginzburg sendo muito séria com seus amados gatinhos
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É tempo de coronavírus e a determinação para barrar o aumento da contaminação implica em cuidados básicos de higiene, bom senso e, o mais importante, ficar em casa. Ficar quieto mesmo, lidar com a ansiedade, com aquela vontade de ver que ‘há tanta vida lá fora’, curtir uma preguiça, ler um livro. É preciso entender o momento que estamos vivendo, pensar em nossos amigos e familiares mais velhos e preservá-los, não se tornando um vetor involuntário do vírus. Vamos aproveitar para buscar algo de positivo nesta desaceleração social. Eu, particularmente, tenho uma tendência a ficar em casa e também por isso, começo hoje uma série de dicas do que ver na Netflix, para ajudar os amigos e termos o que conversar em todas as redes sociais deste nosso mundo pandêmico e globalizado. Nunca a internet foi tão fundamental. Sem mais delongas:
 
O Profissional (1994)
Luc Besson dirigiu Nikita (1990), aquele clássico filme de ação com uma mulher incrível e assassina e depois lançou esse, que não envelhece. O Profissional e assassino da vez é Leon (Jean Reno) e é claro que, mesmo não sendo um santo, vamos gostar dele, principalmente depois que ele conhece a pré-adolescente Mathilda (Natalie Portman), que deseja vingar a morte da família. O filme está todo centrado no roteiro, ficamos presos nesta dupla e do lado inimigo há outro nome de peso, Gary Oldman (Stansfield). Filme que estaria na prateleira de ‘clássicos modernos’ da minha antiga locadora, vale ver e rever, para perceber como um filme de ação pode sim, ser muito bom.
 
Trapped (2015)
No quesito série, tem esta produzida na Islândia, um dos países com melhor qualidade de vida e quase nada de violência. A história é sobre um detetive que investiga um assassinato e é interessante porque, apesar da situação pacífica do país, os islandeses são fissurados em histórias de crimes – em livros e filmes. Vai ver é assim, enquanto aqui estamos saturados de violência policial, lá é só ficção. O fato é que a série é muito boa, este ano lançou sua segunda temporada e a primeira é bem impressionante. Vale ver pela construção da trama, pelos personagens principais e para conhecer um idioma diferente e paisagens deslumbrantes.
 
Jim & Andy (2017)
Todo mundo conhece Jim Carrey por O Máscara (1994) e outros filmes de comédia nem sempre incríveis – apesar de eu gostar muito de alguns. O que menos gente sabe é que ele era fissurado em um comediante americano que se tornou famoso em meados dos anos 70, Andy Kaufman, uma figura inusitada e brilhante, às vezes causando desconforto com sketches diferentes, às vezes tido como um gênio. Andy tinha não sei quantas particularidades e, depois de morto, Jim Carrey o interpretou em O Mundo de Andy (1999). O que o documentário mostra é o processo de incorporação do ator em seu personagem, que foi levado de uma forma e grau tais, que não sabemos se esta incorporação seria uma espécie de ‘reencarnação’, uma performance fora do comum ou um delírio. O documentário vale para os amantes do cinema e suas narrativas e também para conhecer um pouco mais sobre estes dois monstros do cinema americano. Dirigido por Cris Smith, o mesmo de Fyre (2019).
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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