• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

netflix-julho

Entramos em agosto e agora é tocar o barco. Já assumimos que boa parte do ano se foi em modo isolamento social, entendemos um pouco mais sobre esse vírus e, enquanto aguardamos a vacina, vamos nos cuidando e arrumando tempo para ir colocando a cabeça e a vida no lugar. Para ajudar, insisto nas dicas da Netflix, uma seleção de filmes e séries interessantes, divertidos e sempre bons para passar o tempo. Neste post, temos tudo o que indiquei em Julho no instagram (aproveita e segue lá, para pegar sempre as dicas fresquinhas). Agora, se não viu tudo ainda, vem aqui que te conto o que tem! E para ver as dicas dos meses passados, clica aqui!

joan-didion-netflix
Joan Didion - the center will not hold (2020)
Joan Didion - the center will not hold é o título do documentário que estreou no início do mês na Netflix. Encontrei por acaso no streaming e o filme me pegou de imediato. Tenho uma “dívida” com a escritora. Ainda não li seus livros, mas busquei o ensaio que a tornou célebre e ele está disponível online na Vogue, ‘joan didion self respect’ - em inglês. Dona de um estilo próprio, que faz com que a identifiquemos através de suas palavras, Joan tem voz firme e pensamento rápido. Ela, por força do ofício e da vida vivida com o marido e também escritor John Gregory Dunne, conviveu com os grandes nomes da música e do cinema estadunidenses, traçando em seus ensaios e artigos, um panorama da cultura dos anos 60 em diante. O filme é dirigido e tem a participação em cena de seu sobrinho, Griffin Dunne, tornando a série de entrevistas intercaladas com fotografias, outros depoimentos e incríveis imagens de arquivo - mais próxima e afetiva. Com toda a trágica história familiar, vale a pena conhecer a trajetória desta mulher firme, um tanto triste e brilhante. Agora, só me resta correr atrás do prejuízo e buscar sua bibliografia. 

john-hughes
Gatinhas e Gatões (1984)
Chegando no segundo tempo desta noite de domingo, precisava encerrar com um clássico, um filme leve, para acalmar os corações e trazer a suavidade dos filmes dos anos 80. De 1984, dirigido pelo mestre John Hughes, Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles) traz a mocinha que fez os melhores filmes de adolescência da época: Molly Ringwald. Além dela, Anthony Michael Hall, John and Joan Cusack carregam a trama da garota que chega aos dezesseis anos e os pais esquecem seu aniversário. E é claro que ela é perturbada pelo garoto novinho e é apaixonada pelo mais velho e bonitão da escola. Tudo certo nos clichês para um filme americano qualquer, não fosse obra de um grande criador, o que torna tudo mais interessante e divertido. É desses filmes para rever de tempos em tempos. Aproveita e faz isso hoje!

um-contratempo
Um contratempo (2016)
Um suspense espanhol com um intricado roteiro é o que te aguarda esta noite. Um crime, um suspeito e as variações dos depoimentos. Quem está falando a verdade? Qual será a verdade? O filme nos prende em sua trama, funciona com as alterações dos acontecimentos a partir de cada ponto de vista. Intrigante, bom para passar o tempo e fechar esta noite de lua cheia.

zac-efron
Curta essa com Zac Efron (2020)
Um bom programa para ver no café da manhã ou antes de dormir é esse novo de Zac Efron e Darin: Curta essa. Os dois vão a algumas cidades no mundo conhecer pessoas, projetos, comunidades e experiências alternativas que provocam a ideia de que se pode viver melhor e mais simples do que o mercado e a comunicação de massa e entretenimento tentam incutir em nós. Zac é um jovem ator de Hollywood que vive isolado em sua casa em Los Angeles. Segundo ele mesmo, a partir do programa, vai fazendo descobertas sobre si e sua forma de viver. Apesar dele parecer “verde demais” para a vida e também parecer estar vendo algo diferente da forma de viver dos EUA só agora, sua própria surpresa se torna algo interessante. Água, eletricidade sustentável e limpa, longevidade e comunidades (supostamente) autossuficientes são alguns dos temas abordados na Islândia, Itália, França, Peru, Costa Rica e outros países que visitam pelo mundo. Vale o passeio.

alfonso-cuaron
Roma (2018)
Porque não tem como deixar de ver Roma. De Alfonso Cuarón, esta produção original Netflix traz uma história sensível sobre uma empregada doméstica em uma casa de classe média na Cidade do México dos anos 70. Em preto e branco e com uma fotografia excepcional, o filme tira do foco os estereótipos das cores e cultura de exportação mexicanas e nos coloca em uma situação muito familiar e comum às intimidades das casas brasileiras. Lindo, sensível, realizado com a maestria do diretor e roteirista de E sua mãe também (2001) e Gravidade (2013), se prepare para algo diferente dos filmes americanos do streaming. Para ver com calma. E de brinde, ainda tem o making of, também na netflix! 🦋

street-food-netflix
Street Food - América Latina (2020)
Essa moça fofa é Dona Suzana, a dona e chef do Re-restaurante na Gamboa, perto do Solar do Unhão (em Salvador, no caso). A história dela faz parte de um dos episódios de Street Food - América Latina, a série sobre comida de rua da Netflix. No episódio soteropolitano há ela, que sozinha poderia ser um filme, de tão maravilhosa, e mais algumas figuras que fornecem e contam um pouco da história de nossa culinária. A série toda é boa, com episódios em outras cidades do nosso continente colorido, como Buenos Aires (Argentina), Bogotá (Colômbia), Lima (Peru), Oaxaca (México) e La Paz (Bolívia). Corre lá!

plastic-ocean
Oceanos de Plástico (2006)
Oceanos de Plástico é um filme de investigação que começou com uma ideia simples: o jornalista Craig Leeson iria ao Sri Lanka, em uma região de pesca comercial proibida, para ver uma baleia azul. Ao chegar lá, encontra uma imensidão de plásticos de todos os tamanhos e formatos boiando na superfície do mar. A partir daí, ele monta uma equipe para entender o que acontece ali e em outros pontos do mundo. O filme se transforma nesta busca de compreensão e denúncia pelo descaso no descarte irresponsável de lixo e de como isso afeta a todos, dos animais que enchem seus estômagos com a substância à nós, pelo que chega em nossas mesas ou banhos de mar. Apesar do tema difícil, a obra impressiona pelo alcance, fotografia e propostas de solução para reduzir os danos provocados por nós e para nós. Vale a pena especialmente agora que estamos voltando às praias, depois de meses de afastamento compulsório e necessário.

alan-yang
Tigertail (2020)
Procurando uma história leve e diferente na Netflix? Talvez Tigertail seja a resposta. O filme de Alan Yang (um dos criadores de Master of None, com Aziz Ansari) conta um pouco a relação entre pais e filhos de imigrantes de Taiwan nos EUA. Sensível, delicado em sua estrutura, com uma pegada de cinema ‘alternativo’ em sua construção - no dar o tempo do filme e no permitir que o nosso olhar ‘se acomode’ à trama - o filme é pura delicadeza ao contar da história do pai em paralelo com a relação que mantém com a filha. O filme não é perfeito, dá a impressão de faltar fibra e estrutura na personagem da filha, bem como em algumas cenas de flashback, que causam estranheza e nos fazem perceber o sofá em que estamos sentados, mas, ainda sim, vale a sessão. Entre encontros e desencontros, a trama tem traços autobiográficos e foge do padrão das produções da Netflix. Para ver com calma e relaxar com uma obra diferente.

trapped-netflix
Trapped (2015-)
Quem me conhece sabe da minha tara pela Islândia, de como um dia ainda vou lá, como gosto de ver aquelas paisagens incríveis e tão diferentes do que temos em nosso país. Trapped é uma série islandesa policial, em que Andri é um detetive encarregado de resolver um assassinato e se vê envolvido em algo ainda maior e que se aproxima de sua família. Muito bem feito - eu, que não sou de séries policiais fiquei bem impressionada - com ótimo roteiro, interpretações e aquelas imagens inóspitas e belas do país gelado. Vale para quem gosta e desgosta do gênero, porque tem um quê de drama e a estrutura narrativa associada à fotografia, realmente nos mantém viciados. Uma série digna de maratona, com duas temporadas até agora.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
amazon-prime-video-julho

Julho acabando, as cidades no Brasil começando a abrir, o lançamento preocupante da nota de 200 reais. Este mês foi bem doido, mas 2020 não tem sido exatamente um exemplo de tranquilidade. Para não perdermos tempo, segue a retrospectiva das dicas da Amazon Prime do mês. Lembrando que elas estão sempre disponíveis e atualizadas quase que diariamente no instagram. Clica para seguir! Se perdeu ou deixou de assistir alguma coisa, vem que dá tempo!

florida-project-amazon
Florida Project (2017)
Só fui assistir Florida Project esse ano. É daquelas coisas que deixamos o tempo levar e quando percebemos, nos perguntamos: por que eu nunca vi esse mesmo? Dirigido por Sean Baker, é um filme leve, que insiste na tentativa de manutenção da inocência da infância nas situações mais adversas. Ele traduz a realidade dos entornos do Walt Disney World para o mundo: uma região em que se vive a qualquer custo, mas que uma hora, a conta chega. Moonee (Brooklynn Prince) é essa brilhante garotinha da foto e é quem leva o filme de maneira impressionante. Vale assistir só para vê-la atuar - de tão natural, o diretor manteve os diálogos que ela e as outras crianças improvisavam nas cenas. Willem Dafoe está impecável, como se aquela rotina estivesse entranhada em sua pele. Uma alegria encontrar uma obra tão rica e sensível, com uma pontinha de tristeza, pela impressão de realidade dura que passa. 

babel-inarritu
Babel (2006)
De Alejandro González Iñárritu, Babel (2006) é o último filme da trilogia do diretor também de Entrelaçando histórias novamente, no Marrocos, um casal de americanos sofre um atentado - uma criança marroquina cujo pai lhe deu um rifle para que matasse chacais, aponta e atira em um ônibus turístico. O pai comprou a arma com um japonês, cuja filha tem problemas auditivos e sofre com a repressão de seus desejos na incomunicabilidade, enquanto os filhos do casal americano são levados a um aniversário no México, já que a babá deles não tinha como deixar as crianças sozinhas. Com roteiro impecavelmente amarrado em um contexto internacional e ampliando o alcance do ‘efeito borboleta’, o filme nos prende em uma narrativa quase vertiginosa e ficamos entregues à ansiedade de ver as resoluções da história, ansiando por um, cada vez mais improvável, final feliz. Um grande filme. 

vida-dos-outros
A vida dos outros (2006)
Para aproveitar bem o fim de semana e se envolver em uma trama de suspense e tensão, invista em ‘Wiesler é esse investigador que desconfia do que seria o último escritor e dramaturgo fiel ao regime e passa a investigá-lo. Essa intromissão diária na vida de seu suspeito provoca uma aproximação e empatia pela intimidade que ele acompanha e é nesta hora que tudo se torna mais complexo e que as sólidas estruturas dos ideais começam a rachar. Inteligente e sensível, é uma grande simulação de como era a vida 30 anos atrás na Alemanha Oriental. Ainda hoje, é possível encontrar museus que explicitavam estes procedimentos de escuta, investigacão e repressão e encontramos paralelos com esta trama do diretor

serie-amazon-prime
Downward Dog (2017)
Enquanto deixo em suspenso a decisão de ter um cachorrinho (ou um gato?), que queria ver ao vivo e a cores e pensar na dedicação e cuidado necessários, me peguei pesquisando filmes e séries que tivessem os animais de estimação em primeiro plano. Por motivos óbvios, há muita coisa pra criançada, há aquelas comédias policiais com cães ultrainteligentes e há um monte de dramas melosos de cachorros saudosos ou que morrem em algum momento. Não. No meio disso tudo, surge na Amazon Espirituosa e despretensiosa, traz um pouco de leveza para os nossos dias e dá uma perspectiva interessante sobre a vida deste par, sobre fidelidade, companheirismo, solidão e cotidiano. Diriga por Samm Hodges e Michael Killen.

seinfeld-serie
Seinfeld (1989 - 1998)
Oi gente! Enquanto a vida está corrida, vou postando uns clássicos para saber se vocês já viram, quem gosta, quem odeia e assim fico sabendo um pouco mais sobre vocês. Seinfeld Há quem a compare com Friends, por ser quase na mesma época, eles se encontrarem em uma lanchonete e ser em NY, mas acho as duas muito boas e viraram referências de sitcom dali em diante.

amores-brutos
Amores Brutos (2000)
Outro dia indiquei aqui Em mais uma parceria brilhante com o roteirista Guillermo Arriaga, Iñárritu conta três histórias independentes que se entrelaçam por um acidente. Um homem com a missão de assassino de aluguel para ter condições de retornar à família, um jovem que leva seu cachorro a uma rinha para conseguir dinheiro e fugir com a namorada e uma modelo que passa a viver com o ex-amante. Inteligente, muito bem montado e com grandes atuações, vale ver hoje mesmo. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, ao Globo de Ouro. Levou o Festival de Berlim e Cannes, em três categorias, inclusive o de crítica, além de outras 50 premiações e 24 indicações. 

mozart-in-the-jungle
Mozart in the jungle (2014 - 2018)
Estou me sentindo muito fã de Gael García Bernal, mas é pura coincidência. Estes dias estava insistindo (e sofrendo) para assistir Dark, mas essa série segue me dando agonia, então escapei para a Amazon e encontrei Mozart in the jungle. A série está na quarta temporada e a história gira em torno de um jovem maestro (Bernal) que substitui o anterior (Malcolm McDowell) na orquestra sinfônica de NY. Por situações da vida, Hailey (Lola Kirke, a atriz aí da foto) uma oboísta ‘novata’ e super talentosa consegue entrar para o elenco de músicos. Comédia inteligente ainda conta com o incrível Jason Schwartzmann (dele eu sou fã mesmo!) e fala sobre este universo dos músicos de orquestra, suas vidas e vaidades. Ela nos prende de tal forma que não vemos o tempo passar. Inusitada, divertida, envolve amizades, relacionamentos e arte, mostrando que, por mais diferente possam ser as nossas vidas, há sempre algo em que podemos nos identificar. Melhor dica para passar esses dias e um intervalo mais do que agradável das séries mais tensas =D. 

Perdeu as dicas passadas? É só clicar aqui, que tem tudo o que indiquei para assistir na Amazon Prime Vídeo. E não esquece de seguir o Café no instagrampara pegar as dicas fresquinhas quase todos os dias. :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Começa hoje uma nova coluna, meio por acaso, meio sem saber pra onde vai. São histórias de anos passados, confissões, diversões da adolesência e também daquele período depois dos 18 e antes dos 25 - puro caos e abobrinha. Vem, a diversão e a falta de vergonha na cara estão garantidas.

agenda-da-tribo-2007
Agenda de 2007
Como tenho dividido do lado de cá as atualizações da vida em tempos de pandemia, estou organizando a casa naquele momento faxina total, de roupas, móveis, utensílios e papeis antigos. Neste processo, encontrei a calça jeans da viagem de 1998 que insisti em manter naquela promessa de dieta que nunca aconteceu, e as agendas passadas, não de todos os anos, mas de alguns que por razões do universo, sobreviveram às intempéries. 

Com isso, encontrei uns textos de minha versão pré-histórica, que valem mais pelo conteúdo quase sempre divertido do que por um primor estilístico - era uma agenda-diário, calma. Postarei de vez em quando alguns deles sem ordem cronológica, ao sabor do vento, para nos divertirmos um pouco com as ideias de séculos passados - muitas vezes tão atuais e verdadeiras como o nosso presente. Espero que dê certo!

***
Chocolate Quente

Sabe como é quando você gosta de alguém de verdade? É exatamente como o gosto do chcolate quente que tomo agora: forte, quente, amargo e doce - gostoso.

É manhã de quarta e o trabalho começa mais tarde. Estou numa cafeteria onde sempre tomo café e/ou seus derivados, mas hoje escolhi o chocolate. Tem um cara na minha frente se esforçando para se concentrar num texto que está escrevendo, enquanto lê outro; deve ser uma resenha. 

É engraçado porque ele está de frente pra mim - descobri agora a aliança em seu dedo - e eu fico parecendo aqueles pintores quando passam horas observando seus modelos. Este cara é meu modelo do dia. Será que ele percebe isso?

Todas as pessoas desta cafeteria têm tempo para deixar o dia correr. Surpreendentemente, ninguém toma café correndo, todos estão sentados. 

Sabe como você descobre se uma pessoa fofoca ao telefone? Quando ela vira os olhos para cima enquanto fala. Tão fácil.

Das duas, uma: ou ele está muito doido ou a revista é muito engraçada. 
Sabe o que é mais fantástico? O momento antes do sorriso. 

Tem este cara que está numa mesa lendo uma revista. E ele começa a rir. Foi incrível, porque deu para capturar o momento exato da transformação. Acho que ele percebeu que invadi sua intimidade.

Salvador, 07 de março de 2007

Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
amigos-que-escrevem
m - n respondeu seu story

23:55h
n - sou apaixonada por você e pelas coisas que você escreve.

23:56h
m - nossa amiga. obrigada de verdade! mas eu nem acho tuudo isso, saca?

23:57h
n - como não? pq não?

23:58h
m - ah.. sei lá. são só umas viagens da cabeça.

23:59h
n - mas então... a parada é essa, não?
não precisa ser tudo isso
só precisa ser, só precisa sentir
se tá sentindo é porque é verdade
e aí tá sendo tuudo isso mesmo
toda vez que você escreve, que você sente, tá sendo tudo isso
.....
porque a gente não sente sempre
a vida não deixa a gente sentir sempre, eu, pelo menos não consigo
eu queria e eu tento, mas tem tanta coisa acontecendo que fico anestesiada do sentir
o ‘segunda à sexta, de 10h às 19h’
o boleto que vence todo dia 5
a política, o genocídio da população negra
na verdade, a gente até sente e muito. mas sente tudo embolado. medo, revolta, angústia...
.....
então quando a gente rompe isso
e respira
e escreve
e entende que respirar e escrever é um privilégio
e que é importante reconhecer isso, para não cair em lugares comuns
e não reproduzir discursos perigosos
.....
ESSE é o grande ato
não tem certo e errado, tem o sentir
e enquanto a gente sentir, enquanto procurarmos sentir
ninguém poderá tirar isso da gente
isso, eles não podem tirar de nós.
***
Quem escreve
"Aquela que veio para ter sorte". Este é o significado no meu nome. Meus pais queriam me dar um nome com força e significado imponentes e encontraram Naila. Escrevo para preencher vazios e libertar sentimentos. Acredito no poder de transformação da arte. Amo sentir o cheiro de terra molhada, alho refogado e livro antigo. Respiro música desde 95. Fala comigo.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

Em 2009 eu lia pela segunda vez esta obra-prima de Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão. É destes livros que é preciso revisitar, que está em todas as listas de melhores livros do mundo. E é uma saga familiar, então acompanhamos com avidez, pelos entremeios de uma história de mesmos nomes e amores e paixões. Quem sabe não leio uma terceira vez? Enquanto isso, deixo as impressões da segunda por aqui.

***

A construção de um mundo. E assim eu acabei Cem Anos de Solidão pela segunda vez, com o coração doído e a mente confusa sem saber se estava triste, feliz ou qualquer outra coisa, porque o final apocalíptico me deixou novamente ler tudo de uma vez pela curiosidade, para só depois perceber a avalanche de idéias entrecortadas e o fim da saga dos Buendía. 

melhor-livro
Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez

“Macondo já era um pavoroso rodamoinho de poeira e escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico, quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo com fatos conhecidos demais e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o à medida que o vivia, profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias da sua morte. Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.”

Meu primeiro livro de Gabriel García Márquez foi O Amor nos Tempos do Cólera. Apaixonada pela história, lembro de não ter durado muito tempo com o livro nas mãos, li quase de uma só vez e vivi todo o romance, mas já faz muito tempo. Lembro que ainda me envolvi numa seqüência de livros do mesmo autor e vi uma cópia moída de Cem anos de solidão em casa. Peguei pra ler, mas me confundia inicialmente com a repetição dos nomes dos personagens da mesma família. Dessa vez, li de novo, sem pressa, pois já tinha noção dos caminhos a percorrer e me encantei como há muito não acontece. 'Cem anos' me apaixonou de novo e o final lido ontem me tirou o sono. Estava na cama, eram duas da manhã quando li esta última parte e fiquei com o livro fechado nas mãos sem saber o que fazer. Voltei à estante e fiquei olhando... olhando... mas eu precisava destilar e conservar em mim as cruéis palavras, a história triste e sim, com fim, de uma família, de uma vila, que aprendemos a viver. 

Acho que deve ser chato ficar comentando livros assim, porque nem todo mundo os lê ou leu este pelo menos e fica uma conversa surda, um monólogo ou uma declaração de amor isolada. Com filmes é mais fácil nesse sentido, porque a interlocução costuma ser imediata. Queria alguém pra conversar, por exemplo, sobre as mulheres do livro, o que há de fantástico e específico em cada uma delas, como o autor conseguiu extrair semelhanças – que seriam hereditárias - e personalidades tão fortes. A construção do mundo é o que nos prende. Nos acostumamos com os acontecimentos, entendemos as situações e a história toda se faz possível em nossa mente. As situações fantásticas são as pausas para o delírio, para as possibilidades de uma narrativa livre e simples, em que o surreal não é sonho, mas um caminho viável na vida de Macondo. 

Vou parar, porque passaria muito tempo aqui pensando e relembrando os pequenos momentos do texto e descreveria alguns, mas não vale a pena. Jamais conseguiria descrever conforme li e por isso deixei o trecho acima, que é do final, mas que não mata a trama.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
2020 não é um ano para amadores, isso já deu para entender. O grande desafio, além de manter a saúde física e mental nestes tempos, é tentar estabelecer uma rotina e não perder os bons hábitos, as coisas que se podem fazer em casa sem prejuízo e com muito prazer. Por isso, trago umas dicas de como voltar a ler agora neste meio de ano, depois de quatro meses em isolamento social e ainda na pandemia. 

livros-como-ler-mais

Começamos 2020 felizes, com aquela ideia de que Feliz Ano Novo era apenas a expressão clichê da continuação de 2019, o dia seguinte ao 31 de dezembro. Passamos o verão, aqueles três meses em que as festas aumentam com as temperaturas, todo mundo um pouquinho mais bronzeado e no Carnaval corre a notícia de que há um vírus aleatório no interior da China. Interior. Da China. A China é longe, estamos seguros.

Uma rasteira imensa e aquele desafio que você se impôs no Goodreads virou uma piada de mau gosto. Pandemia, quarentena, isolamento social, pânico, medo de estar doente sem saber, de contaminar familiares. Dar banho em sapatos, chaves, telefones celulares, compras de supermercados, sacos de compras de supermercados. Ter medo de pegar elevador, ir à rua e até de brincar com os cachorros dos vizinhos. Como um filme de ficção científica exagerado, o medo do invisível se tornou real e, em oposição ao desgoverno brasileiro, os que puderam, trancaram-se em casa.

Com isso tudo, a situação está posta: temos tempo, não temos mais aquela desculpa de ter que fazer isso ou aquilo, trabalhamos - ou não - de dentro de casa. Voltamos aos livros, como ler agora? E as notícias horrorosas, as cidades fechadas, os amigos, os familiares, o medo, a ficção científica? Calma, que tem jeito para isso - e eu, que não sou coach, pensei em umas ideias para ajudar a resolver! =D

  • Revisite o Goodreads: se você é usuário, já sabe do que vou falar. O Goodreads, para quem não conhece, é uma rede social de leitores. Isso mesmo, você entra, cadastra os livros que leu e os classifica, pode escrever resenhas, marcar os que não leu e quer ler e até participar do desafio anual de leitura em que você mesmo define quantas obras acha que conseguirá ler até o fim do ano. O aplicativo - rede social apenas atualiza de acordo com seus inputs. Ali, você vai encontrar alguns amigos e trocarão figurinhas e conversas literárias. Então, como os anos anteriores não foram pandêmicos, consegui uma média boa de leitura e em janeiro me impus uma ainda maior. Hoje, estou com um atraso considerável de quase 10 livros. A solução? Rever a meta, considerando o panorama mundial e tentar contar com um número realista para as nossas condições. Assim, não há frustração, mas uma injeção de ânimo e visitas mais frequentes às estantes.

  • Pense no tamanho. Como sabemos, tamanho é documento. Os livros mais robustos têm lugar cativo em nossos corações, por nos darem a oportunidade de acompanhar uma história ou saga sem pressa, no tempo em que amadurecemos a trama dentro de nós, a construção complexa de seus personagens. Não que um livro menor não consiga isso, mas quando pegamos um grande, precisamos estar preparados, ter fôlego para seguir em frente. Aqui, a sugestão é simples: invista nos grandes livros pequenos para ler agora. Sim, aqueles clássicos ou indicações com menos de 300 páginas. Assim, sabemos que quando a cabeça começar a divagar em territórios pantanosos, temos uma obra já pela metade ou quase isso e conseguimos seguir em frente mais facilmente. Com um livro de 1500 páginas fica um pouquinho mais complicado, porque a linha de chegada é mais distante. Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, O médico e o monstro,  de Robert Louis Stevenson e Bonsai, de Alejandro Zambra são exemplos de obras magníficas e curtas para ajudar nesta retomada. 

  • Crie um ambiente. A essa altura, se você conseguiu trabalhar de casa, já estabeleceu um espaço - ou uma mesa - para isso. Agora, o objetivo é definir onde ler. Não pode ser no mesmo espaço do trabalho, são momentos distintos e que precisam ser assim definidos. No sofá, na rede, em um cantinho no chão mesmo com uma almofada, numa poltrona, na cama. Uma luz indireta, se possível, para não estressar os olhos, um café no ponto e está resolvido. Nossa casa é nosso refúgio, é onde nos reestruturamos e recarregamos as energias. É preciso ter um clima também para a leitura, de sossego e concentração, para entrarmos em um novo mundo. Arrume a casa, encontre um espaço e crie este ambiente aconchegante.

  • Dedique tempo. Estando em casa todos os dias isso parece simples, mas é uma situação capciosa. Em casa somos faxineiras, cozinheiros, serventes e profissionais do nosso ofício. Em casa, muitos de nós tem família, crianças, cachorros, gatos, cônjuges. Por mais que não sair de casa signifique mais tempo, a rotina toda precisa ser refeita considerando a atenção dividida mais vezes e com maior duração. Separe um espaço-tempo na sua agenda, informe a todo mundo que aquele momento é seu e, depois de algum debate e tensão, vai dar tudo certo. Sem isso, é melhor desistir. Precisamos de um tempo para nós e se for este o tempo da leitura, o ganho é triplicado - é educação, conhecimento e prazer em um hábito simples e barato (a princípio).

  • Por fim, leia agora e sem pressa. Não é uma corrida de obstáculos, não é uma competição. É uma atividade prazerosa e que só traz ganhos. Por isso, é importante ter a leitura como uma fonte de redescoberta, como o que sentimos quando vemos um grande filme ou quando acompanhamos um seriado fantástico. Um bom livro, lido com calma, nos provoca todas as sensações, de suspense, curiosidade, alegria, talvez alguma tristeza com o conforto de não ser nossa, a vontade de partir para uma nova aventura com o caminho todo aberto e livre da imaginação. Não precisa ler tudo correndo, deixe o tempo atravessar a obra nos momentos mais complicados do dia a dia, retorne a ela como se estivesse reencontrando alguém e pudesse abraçá-lo depois destes meses de isolamento. Vai ser uma grande experiência.
Considerando estas dicas, dá para respirar fundo e abrir aquele livro que está pegando poeira na mesinha de cabeceira ou na estante. E, se tiver alguma dica de como melhorar o hábito de leitura, comenta aqui! Para me acompanhar no Goodreads e trocarmos figurinhas literárias, é só clicar. :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Hoje é dia de artista de cinema e a essa altura, já sabemos que Céline Sciamma é a escolhida de julho. Nesta terça, é dia de criticar um filme da diretora e como temos duas grandes obras já esquadrinhadas, aproveito para alimentar a nossa cinefilia com a indicação delas aqui.

celine-sciamma
Retrato de uma jovem em chamas (2019)
Do ano passado e com a brilhante Adele Haenel, o filme é uma obra-prima por tudo o que se compreende como o bom cinema. Roteiro enxuto, grandes atuações, uma fotografia que se comunica com a ideia de pintura e retoma os conceitos de arte, a construção das personagens, absolutamente tudo funciona. A crítica está nesse link, passa aqui. 

tomboy-sciamma
Tomboy (2011)
Nove anos antes do lançamento deste inflamado Retrato..., Céline Sciamma já causava alvoroço com seu Tomboy, a história de uma garota que, ao mudar de endereço com a família, passa a se apresentar para a nova vizinhança como um garoto. Toda a discussão de gênero acontece aqui de forma sutil e inteligente, sem se perder no ar ou provocar julgamentos superficiais. O filme é uma lindeza sobre a infância e suas descobertas. A crítica está aqui.  

***

Para acompanhar as postagens de julho de Céline Sciamma, é só clicar!
E para conhecer um pouco mais sobre Alfred Hitchcock, o artista de cinema de maio e Fernanda Montenegro, a de junho, basta ir nos links em rosa. :)
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Eu não sei por onde começar. Na verdade, comecei dando o título que eu já havia pensado há dias, mas me arrependi. Começar pelo título limita muito, estou presa aqui. Talvez o certo seja escrever e depois dar o título. Talvez o certo seja só escrever. Talvez nem exista essa história de certo. Talvez.

amigos-que-escrevem

Escrever deveria ser como fazer qualquer outra coisa. Eu quis dizer fácil, como lavar louça, ou tomar banho, ou pensar. E é. Mas não é. A diferença é que sua escrita pode alcançar longe. E, aí, seriam muitos pares de olhos te perscrutando, te conhecendo, te despindo. Escrever é autobiográfico sempre. Mas não leve ao pé da letra, considere as entrelinhas. 

Essa nudez a que me refiro ao ser lida nada tem a ver com a deliciosa sensação de tirar a roupa. Tirar a roupa é fácil e prazeroso. Adoro, em dias quentes, ficar nua na varanda ao final da tarde. Olho para esquerda e vejo o Cristo Redentor vestido de um céu rosa. Seios livres e por do sol. Em dias frios, dá-se um jeito. Um cobertor macio e um corpo quente.
Para a nudez da alma é preciso muita coragem.

Ando pensando demais e querendo entender todos os porquês da vida. Todos é coisa à beça. Quero um explicação pra quase tudo. Quase. E tenho saudades absurdas. Ab-sur-das. Separação de silabas, matéria de segunda série. Tenho dias melancólicos, isso acontece desde que me entendo por gente, e dias de sol e céu azul. Nesses dias geralmente fico insuportavelmente feliz. É acintoso. Lembrei agora que, uma vez, há uns 15 anos, me disseram que eu era insuportavelmente bonita. Eu não acreditei. Nunca soube receber elogios e simplesmente agradecer. Eu sempre estrago tudo. Até hoje. 

Por falar em saudade, eu tenho lembrado muito de pessoas e momentos que passaram. Pes-so-as que pas-sa-ram. Passar pessoas. Deixar pra trás. Nunca fui boa com isso, sofro em demasia com as pessoas que ficam pelo caminho. No entanto, já releguei e fui relegada. Aqui se faz, aqui se paga. Minha mãe sempre diz que o inferno são os vivos. É verdade. Como somos mal resolvidos. Escolhas erradas têm seu preço. Na pele.

Tirei a Blusa.

Ando muito distraída, só hoje já transbordei o filtro duas vezes. Não é o filtro que transborda, é o copo. Meu filtro é lento, eu boto o copo para encher, vou fazer outra coisa, esqueço. Transborda tudo o que precisa sair, os excessos. Palavra chique, excessos. Faz uma poça, um aguaçal, um aguaceiro. Adoro sinônimos. Aguaceiro também pode significar contrariedade, infelicidade, sabia? Vem a calhar, pois fico furiosa quando o copo transborda. Desbordam meus aguaceiros. Eu os seco. E passa.

Muito tempo sobrando para pensar a vida e seus caminhos. Estou com meus filhos, vendo séries, comendo brigadeiros de sabores inimagináveis e implorando por uma massagem nos ombros em troca de uma açaí. Eu tenho tido vários torcicolos. E eu tenho implorado também para eles lavarem a louça de vez em quando. Coisa boa essa história de duas cubas na cozinha. Um esfrega; o outro enxagua.

Muito louco ser mãe deles. Não posso imaginar a vida sem os dois, mas eu descobri recentemente que talvez o sonho de casar e ter filhos não fosse exatamente meu. A maternidade real faz dessas coisas, a gente questiona nossas maiores certezas. Maternidade não é romance levinho e despretensioso, me enganaram. Isso, contudo, não importa mais. Eu os tenho, e eu os quero com todas as minhas forças. Há 12 anos que vivo para ser mamãe. 

Tirei a saia.

O meu outro lado tem ideias incríveis que nunca saem do imaginário. Tem medos absurdos, só menores do que as saudades. Saudades, com s no final, é mais gostoso. Saudadiz, puxa bem o s. 

Medos. São muitos. De não dar certo, de não conseguir, de não ser o suficiente, de não merecer, de passar o tempo. A propósito, faço 40 anos daqui a 68 dias. Ave Maria. Tem que ser pra ontem. Tudo pra ontem. Na realidade, eu procrastino, tu procrastinas, etc. Isolamento, distanciamento, tempo, espera. Mas tinha que ser pra ontem. Porra.

Eu tenho feito tudo em casa, limpo, cozinho, lavo roupas e louças também. Hoje guardei uma faca mal lavada, ninguém viu, guardei assim mesmo. Lavei roupas de manhã e elas ainda estão na máquina, por estender. Eu detestava estender roupas, agora já acho tranquilo, estender bem é uma arte.

Passo pano na casa diariamente. Uso luvas de látex descartáveis sempre que mexo com água. Vivo com as mãos brancas e outro dia me perguntaram: O que é isso na sua mão? É pó de luva, eu disse. Achei tão lindo que resolvi escrever algo com esse título. Pó de luva, pó de lua. O saudoso João Ubaldo Ribeiro, em “A casa dos budas ditosos”, disse que todo bom título de qualidade literária não quer dizer nada. Então, tá certo. Acrescentei miscelânea ao título para legitimar essa bagunça. 

Bem vinda de volta. Agora, sim, nua.
***
Quem escreve
Jennifer Conte é mãe em tempo integral. Vive a maternidade real. É também assistente social e comissária de voo. Sonha todos os dias em alçar novos voos e escreve às vezes.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

Terça-feira é dia de cinema por aqui e, como não poderia faltar, trouxe a nossa Artista de Cinema de julho, Céline Sciamma, com cinco de seus grandes filmes para comentarmos um pouquinho. 

sciamma
Céline Sciamma
Céline Sciamma hoje é uma das cineastas mais conhecidas da França, especialmente depois do filme lançado ano passado, Retrato de uma jovem em chamas. Quase que instantaneamente, a obra passou a figurar nas listas de melhores filmes do país. A diretora e roteirista, entretanto, tem uma carreira sucinta e de apenas grandes sucessos, a ver pelo que segue listado aqui. Então, de cara, fica fácil conhecer sua obra inteira e esperar ansiosamente - e respeitosamente, para dar o tempo de maturidade de algo ainda maior que os anteriores - pelo próximo projeto.

retrato-de-uma-jovem-em-chamas
Retrato de uma jovem em chamas (2019)
Um dos melhores filmes dos últimos tempos, já foi criticado aqui e também serviu como dica no instagram antes da pandemia. A obra conta a história de Marianne (Noémie Merlant), uma pintora que fará o retrato de Héloïse (Adèle Haenel), uma mulher que vive isolada em uma ilha na Bretanha. A ideia é que este retrato sirva como uma 'promessa de compra' ao futuro potencial marido. No século XVIII, era através destes registros que as uniões eram provocadas e prometidas, então a qualidade e honestidade da obra era algo a se respeitar. As duas estabelecem uma relação de cumplicidade e algo mais que se torna imperativo e urgente. Surge um amor firme que se estende e aperfeiçoa com o tempo que estas mulheres passam juntas e essa troca nós acompanhamos através também da construção fílmica: nos enquadramentos, figurinos, através dos diálogos, da fotografia. O filme é um emblema para o Cinema com letra maiúscula, é uma impressão firme de arte de tal forma, que ficamos com medo de piscar e perder alguma coisa. Para saber mais, clica aqui. E para assistir, encontrei no telecine play.

girlhood-sciamma
Garotas (2014)
Uma garota da periferia de Paris lida com o dia a dia de uma mãe que trabalha muitas horas para sustentar a todos, um irmão agressivo e ainda duas irmãs mais novas. Em plena adolescência, Marieme/Vic (Karidja Touré) precisa decidir que caminho seguir e seus rumos e descobertas são tratados aqui com um sensibilidade e maestria que quase nunca vemos em obras de formação. Um filme sobre juventude e adolescência, uma lindeza em todos os tons. Nesta época, eu conhecia Céline Sciamma por Tomboy e já me parecia importante. Ao ver este, percebi o potencial, cuidado e entrega de uma diretora. Está disponível no now, google play, youtube e apple tv.

tomboy-sciamma
Tomboy (2011)
Um filme incrível. Laure (Zoé Haren) tem 10 anos e acaba de se mudar com a família para uma nova cidade. Uma tarde, decide sair para conhecer os vizinhos e ao se apresentar, assume o nome de Mikael. A apresentação do filme é seu grande trunfo: as consequências e os comportamentos de Laure na rua e em casa são tão improvisados quanto essa nova identidade que concebeu para si. Uma obra que não pretende nada além de mostrar a infância e suas descobertas: uma garota que se apresenta como garoto e o que isso significa? Será que significa ou tem que significar alguma coisa? Inteligente, leve e com uma abordagem honesta e brilhante, nos faz ficar sem fôlego com o dia a dia de uma garota, sua família e seus amigos. Na apple tv e a crítica segue aqui!


sciamma-2010
Pauline (2010)
Da coleção 5 filmes contra a homofobia, esse curtinha de quase oito minutos com talvez três planos nos prende como se estivéssemos ouvindo uma amiga contando uma história. Pauline (Anaïs Demoustier), essa mocinha da foto, conta como foi sua adolescência e descoberta sexual, entre a ridicularização da família e amigos e a decisão de seguir em frente. A forma como Pauline narra, provoca em nós essa dimensão de escuta e de forma delicada, participamos e entendemos prontamente os preconceitos, as relações familiares, as dificuldades de todo os lados. É apenas o segundo filme de Sciamma, que estreou com um longa - Lírios d'água (2007) - nos cinemas. Está no youtube, grátis e com legendas em inglês.

lirios-dagua-sciamma
Lírios d'água (2007)
Encerrando com chave de ouro, o filme de estreia de nossa artista de cinema é Lírios d'água, um drama que gira em torno de três garotas e suas descobertas amorosas. Marie (Pauline Acquart) é apaixonada por Floriane (Adèle Haenel, sempre com Sciamma), que sabe do furor que causa e gosta de François (Warren Jacquin), por quem Anne (Louise Blachère) é apaixonada. Neste quarteto, a adolescência chega com toda a força e ternura dos primeiros amores, beijos e experiências. Uma obra novamente sensível, já com a carga e o poder dos ideais feministas e da força das grandes amizades entre mulheres. A última cena, inclusive é referência e referenciada em outros filmes do 'gênero'. Uma grande forma de começar a carreira. 

*Para saber mais sobre Céline Sciamma, nossa Artista de Cinema de julho, clica aqui!
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
A expiração continua restrita. Repetiu ele o conselho do dia anterior. Apesar de saber quão bem intencionadas eram aquelas palavras, elas atormentaram o restante da sua prática naquela manhã. Inspecionou a causa do incômodo. Seria decorrência da sua dificuldade em se esvaziar, desocupar, descarregar? Ou do medo de se sujeitar, submeter, subordinar? Teria ele relação com liberação, emancipação, autossuficiência?

yoga-respiração

Contemplou a primeira narrativa recordando em filme acelerado seu passado atarefado, reconhecendo o padrão de atribular-se de afazeres para trancafiar sentimentos desagradáveis que insistiam em aflorar. Afastava-se assim da sua sombra, mas também de sua luz, postergando a aproximação de sua essência, algo que muito almejava mas, ao mesmo, tempo duvidava. Se por um lado, acreditava que uma bem-construída identidade facilitaria sua existência, por outro, desconfiava da viabilidade da empreitada visto que a mudança é a única constante da vida.

Impaciente, em vez de costurar linhas entre os pontos em aberto, abandonou com certa frustração o projeto inacabado movendo-se para a segunda narrativa. Indagou-se sobre o possível erro de analisar a relação com o outro sem antes compreender a relação consigo mesma. 

Notou a poderosa retroalimentação entre as narrativas. Ao se desconhecer, movia por vezes inconsciente conforme soprava o vento: família, amigos, coletividade. Meditou sobre as vezes que culpou o outro de egoísta, eximindo-se da responsabilidade de estabelecer limites. Confronto nunca fora seu forte. Na verdade, era seu calcanhar de Aquiles.

Teceu o link com a terceira narrativa. Competitiva por natureza, receava perder. Dado esse temor, sujeitava-se, submetia-se, subordinava-se. Refletiu um pouco mais e observou que ganhar poderia ser ainda mais assustador. E se o prêmio não fosse do seu agrado? Valeria a pena despender força e energia destruindo, desorganizando, anarquizando se, no final do dia, o reconhecimento de que o gasto não passou de uma mera troca de amarras, narrativas, ilusão de liberação, emancipação?

Notou o oportuno zig-zag de sua mente de advogada inclinada a questionar em vez de solucionar. Com determinação, buscou novos ângulos para encaixar as peças do lado de fora do quebra-cabeça. Notou na inalação o poder de se preencher, liderar e expandir por meio de relações interdependentes. Verificou que, quanto maior a prática dessas qualidades, menos assustadoras eram o esvaziamento, a sujeição e a independência derivados da expiração. Acatou, por hora, o equilíbrio entre as fases da respiração como chave para uma expiração menos limitada.

***
Quem escreve
Sou Fernanda Rubim, apaixonada por pessoas, por aprender coisas novas e ganhar diferentes perspectivas sobre a vida. Sou brasileira, soteropolitana e comecei minha carreira como jornalista, passando logo para o direito. Trabalho com finanças em uma multinacional por dez anos na Europa, enquanto ensino Yoga e escrevo artigos sobre os assuntos que me interessam. Você me encontra aqui.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários
camila-castro

Da felicidade a mil para sofrência a mil (exagerando, mas no fundo nem tanto!). Mas, vou te falar, hein! Como romantizam a gravidez. Os três primeiros meses foram horríveis, pelo menos pra mim (desculpa, galerinha, momentos nojentos a seguir). Todo dia eu acordava e corria para o banheiro passando mal. E doce ilusão de enjoo apenas matinal, ficava nisso o dia inteiro! Às vezes ia para o segundo round no banheiro (por sorte minha, só ia, no máximo, duas vezes por dia... Talvez por estar comendo tão pouco...). A sensação é de que você está numa ressaca que nunca vai acabar.  

E o olfato? Fica ultra sensível e os cheiros parecem bem mais fortes do que você jamais imaginou. Cozinhar? Impossível. Alho e cebola, que eram seus melhores amigos na hora de temperar a comida, viram seus piores inimigos. Então, dá logo a responsabilidade para o papai cozinhar porque essa se torna uma coisa quase impossível de se fazer, a não ser que você cozinhe só besteira sem cheiro (tipo nuggets ou macarrão, arroz ou batata sem tempero nenhum). Enquanto isso, você fica com a responsabilidade de lavar a louça, essa LOUÇA que não acaba mais na quarentena. (Saudades de comer na rua, né minha filha?)

Uma coisa boa da quarentena (e infelizmente por estar afastada temporariamente da empresa – isso é uma opção legal na Irlanda, constando nos contratos de trabalho. Se vocês acham as leis trabalhistas brasileiras ruins, não vão morar na Europa. A maioria das leis trabalhistas dos países europeus é bem desfavorável aos empregados, muito por conta da seguro desemprego que os governos bancam) é poder ficar de molho para o todo sempre em casa sem ter que me preocupar como seria se tivesse que passar mal na rua, no caminho para o trabalho ou até mesmo em alguma loja ou restaurante. Por outro, ficamos com a preocupação de como faremos para manter nossa família, agora de 3, com dois pais afastados dos empregos. Complicado.

A Irlanda é um país sensato, ainda bem, e criou um auxílio financeiro para quem perdeu ou foi afastado do seu ganha-pão por conta do coronavírus. Toda semana, por 12 semanas, o governo deposita €350 para essas pessoas, com possibilidade de expandir por mais tempo, a depender de como a crise evoluir. É a hora em que temos o retorno dos suados impostos pagos. 

Mas, e quando acabar esse período? 
Afinal, somos estrangeiros e não temos todos os direitos que os cidadãos têm. 
Vamos voltar aos nossos antigos empregos? 
Vamos ter que procurar novos empregos? 
Como vou conseguir outro emprego estando grávida? 
Seria de má fé não dizer ou devo informar nas entrevistas que estou grávida? 

Fato: na Irlanda não pode se fazer algumas perguntas pessoais na entrevistas, como idade, raça, país de origem, gênero, religião, estado civil e orientação sexual. Se te perguntarem sobre gravidez, você não é obrigado a responder, porque é contra a lei aqui não contratar por conta de uma gravidez, mas, ao final, eles podem encontrar outros motivos para não te contratar. O único caso para você informar sobre a sua sua gravidez numa entrevista seria para uma vaga que possa ser prejudicial ao bebê, o que é um paradoxo, já que dificilmente você se candidataria a algo assim. 

De algum jeito, nosso santo é forte, Eparrey Oyá!, e meu marido Leo, em plena pandemia, foi contratado para trabalhar de casa. Então, a preocupação de como iremos nos manter diminuiu um pouco e eu posso curtir essa tão desejada gravidez do jeito certo: ficar de molho até esse enjoo eterno passar e esperar a cartinha com a data da consulta no hospital. 

Segura aí, que já já eu te conto um pouco mais sobre a vida aqui com o relaxamento das medidas de isolamento social, como tá sendo esse novo dia a dia e sobre esses trâmites modernos que envolvem os Correios e os serviços de saúde na Irlanda. E para ver onde tudo começou, clica aqui!
***
Quem escreve
Camila Castro (Cam, Camy, Camis, Camilinha) é engenheira de produção e vive com o marido e o futuro bebê em Dublin, na Irlanda. Potiguar, morre de saudades do calor nordestino, das comidas e dos amigos de todos os lugares, mas encontrou seu cantinho no mundo para tocar a vida com mais tranquilidade. Você a encontra no linkedin e no facebook. Fala com ela!
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Vou confessar a vocês: a essa altura, achei que já estaria recebendo os móveis todos aqui em casa. Mas, como tudo na vida, não adianta se planejar tão meticulosamente quando há um mundo de imprevistos e relações sociais necessárias aos trâmites de qualquer processo. Quando se trata de mudança então, nem se fala. 

copacabana-apartamento
home office carioca
Cheguei ao Rio no dia seis em março de 2008 e só sei disso porque foi dois dias depois do meu aniversário. Eu era uma jovem de 25 anos e fui estudar Cinema Documentário na FGV. Minha primeira mudança foi para um apartamento mobiliado de uma amiga de uma conhecida, Ju, que virou amiga de verdade pouco tempo depois naquele mesmo ano. Ela precisou ir a Pernambuco por três meses e ocupei seu apartamento neste período. Nos conhecemos quando ela retornou e a compatibilidade nordestina bateu forte.

De lá para cá foram oito mudanças em doze anos. Apartamentos por temporada, quarto-e-sala, dois quartos e quarto-e-sala novamente. Contratos de trinta meses, seis meses, três meses, doze meses. Aluguel com fiador, sem fiador, com fiador baiano, com depósito e título de capitalização. Me transformei em uma especialista no processo, da vistoria de entrada à entrega das chaves. E agora, uma novidade em uma categoria nunca explorada: a mudança interestadual.

Mari, minha amiga irmã baiana que segue no Rio já havia feito uma mudança intermunicipal e vivemos isso juntas quando ela veio morar comigo. Eu, entretanto, além da mudança Salvador - Rio de Janeiro com roupas, livros e sapatos, não havia saído de Copacabana. E agora, como um ciclo mítico de renovação, transformação e pandemia, volto a Salvador - literalmente - de mala e cuia. A diferença é que, com a urgência da quarentena, trouxe uma mala pequena e a cuia e todo o resto viriam depois. O que deveria ter acontecido no último sábado.

plantas
do alto das prateleiras sobra saudade
Como nem tudo são flores, meus futuros ex-vizinhos não autorizaram a mudança na data prevista. Como se isso mudasse a vida deles. Ocuparia o elevador de serviço por um par de horas - não tenho muita coisa - e me adiantaria uma semana. Mas tudo bem, não dá para brigar com os donos do bairro - a terceira idade que reina nas estatísticas em todo o país, se concentra no bairro e com toda a certeza, no meu prédio. A mudança foi adiada e acontecerá amanhã - oremos. Mari, mais uma vez me salvará, acompanhando os homens da mudança, que embalarão e colocarão tudo no caminhão e então saberei quando as coisas chegarão. Depois é pintura - já agendada - vistoria e entrega das chaves. Um tchau para o Rio de Janeiro à distância, deixando muito carinho, saudades e amigos que carrego no peito e para sempre.

Do lado de cá a vida segue, tentando manter a sanidade depois de mais de cem dias de isolamento social e ansiedade por ancorar de vez (e por enquanto) na cidade, tornando o espaço habitável personalizado com a chegada das coisas que seguem viagem. Alterno entre o apartamento e a casa dos meus pais, vivemos de convivências restritas e quase os mesmos assuntos, com a sorte e o privilégio reconhecidos de ter um jardim e quintal para cuidar. Acompanhamos a duração dos dias no tempo das plantas, no ritmo solar e lunar da Natureza com letra maiúscula.

Os projetos do Café seguem criativos, às vezes árduos, mas costumeiramente felizes, a ocupação com o que se ama, os assuntos que nos movem, a criatividade em forma de texto e alternadamente, vídeo no instagram me divertem e são um desafio à minha timidez e reservas habituais. O que virá com isso, ainda saberemos, há horizontes possíveis. 

Brindo à suposta nova vida, ao novo normal e ao Rio de Janeiro que me acolheu, me fez crescer e me tornar quem eu sou, seja lá o que isso signifique. Deixo aqui o texto da minha chegada lá, para que se reecontre com esse, de despedida, aconchego e saudade.

Mês que vem eu volto com as novas histórias do lado de cá. E você, muitas mudanças na sua vida neste ano desafiador?
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
Com poucos e imensos filmes na carreira, Céline Sciamma é hoje o grande nome da arte na França. De tudo o que eu vi da autora, gosto de tudo - assim mesmo, radical e redundantemente. Não é à toa e vou me justificar, que elegi a moça, a Artista de Cinema deste nosso julho de isolamento social (importante marcar a duração deste período). Vamos?

sciamma-biografia
Céline Sciamma
Quando assisti Girlhood (2014), já conhecia Céline Sciamma por Tomboy (2011), um filme lindo e único sobre uma garota que se veste de garoto. O que eu não havia atentado até hoje - sim, esse texto é bem fresco -  é que em Girlhood, temos uma diretora e roteirista branca falando sobre a adolescência de meninas negras na França. Sem tecer qualquer julgamento acerca do que que acabei de soltar, imagino que ela deve ter ouvido algumas sobre a temática e o lugar de fala. Ao mesmo tempo, o filme é tão sensível e delicado, que - a meu ver - não toca na questão de fala como apropriação, mas sobre a história de um grupo de meninas vivendo a adolescência. Independentemente de qualquer coisa, Sciamma tem muito a dizer e é por isso que hoje é uma das diretoras mais importantes que temos e nossa Artista de Cinema de julho.

Nascida em uma cidade próxima a Paris, Céline Sciamma estudou literatura e depois enveredou para o cinema, se graduando na respeitada La Fémis, em 2005. De lá pra cá, estreou já com um longa metragem, Lírios d'água (2007), com Adéle Haenel, sua parceira de vida por muito tempo e em muitos projetos. Desde sempre, o foco da diretora e roteirista sempre foi ter a mulher como protagonista e tema em suas produções. O tratamento de gênero, maturidade e comportamento são os motes para construir imagens de mulheres reais, em situações possíveis em que não reafirmam um olhar masculino de segundo plano e objetificação. Essa reconstrução da percepção feminina é a marca de seu cinema e nosso imenso ganho em tê-la produzindo. Dá para ter um gostinho da produção dela no curta Pauline (2010), parte de uma série de filmes contra a homofobia, legendado em inglês e grátis no Youtube.

Sciamma se tornou ainda mais célebre ano passado por força de duas situações que se comunicam: o lançamento de Retrato de uma mulher em chamas, certamente um dos melhores filmes de muitos anos (para não ficar apenas em 2019) e sua recusa em aceitar ver Roman Polanski recebendo o César de melhor diretor e roteiro por O Oficial e o Espião (2019). Ela, Adéle Haenel e muitas outras atrizes deixaram o evento. Segundo a diretora, há duas questões aí: é preciso que a França acorde para parar de premiar pessoas com o histórico criminoso do diretor e, por outro lado, encarar a percepção de que no país, como em tantos outros, ainda há uma noção tardia e cruel de aceitação e celebração destas figuras. O que ela pode fazer com relação a isso é seguir produzindo obras contundentes, críticas e renascedoras com espírito e força feministas.

Batalhei para escolher Sciamma como a Artista de Cinema, apenas porque seus filmes não estão nos streamings de maior acesso, mas, ainda assim, dá para encontrá-los facilmente. Artistas como ela são imprescindíveis na trajetória da arte em si, como também para o incremento do nosso acervo cultural e intelectual enquanto indivíduos. Retrato de uma jovem em chamas foi seu filme de maior alcance até hoje e ainda consigo sentir na pele as emoções quando o assisti no cinema. É uma obra sensível, brutalmente inteligente e delicada, que em pouco menos de duas horas, traz um panorama histórico de gênero, comportamento, tradição e cultura de séculos passados e que persiste ainda hoje, de alguma maneira. Ao mesmo tempo, é uma história de amor entre duas mulheres, cuja paixão inicial vai se transformando e até sua manifestação. A forma como o tema do amor é abordado é transformadora e revolucionária. Especialmente se tratando de um romance entre mulheres - indo na contramão do que a indústria cultural e de massa costuma exibir com o tema, como Azul é a cor mais quente (2013), por exemplo.

Céline é mestra em seu trabalho e sua vida e obra se entrelaçam, trazendo suas questões para a nossa discussão, com sensibilidade e reflexão. Na próxima semana, nossa Artista de Cinema volta com uma breve análise sobre seus filmes e a importância deles em nossas vidas. Te espero aqui.  

*Para conhecer nossos outros Artistas de Cinema, clica aqui, em maio e junho.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

A ciência se acostumou a se apresentar como o progresso desde, pelo menos, a Revolução Científica. Quase sempre esse binômio, ciência e progresso, se apresenta junto, seja na forma de inovações tecnológicas, seja nas suas implicações para a nossa visão de mundo. Um dia soubemos que o Sol girava em torno da Terra e o homem era o centro de tudo. No outro, a Terra era um planeta como outro qualquer e o homem estava solto pelo universo totalmente insignificante. No século XVIII, morriam 400 mil pessoas por ano de varíola, uma doença que já não existe mais no nosso planeta desde os anos 80. 

amigos-que-escrevem

Se a ciência moderniza, ela também traz conflitos com o tradicional. Enquanto a ciência tem seu carimbo positivo que aprova e classifica, ela é incapaz de entender como funcionam os valores locais ou como seus critérios objetivos podem não dar conta de um sentimento.

Em uma história mais ou menos verdadeira, a pequena vila galesa de Ffynnon Garw possuía como seu maior orgulho a sua montanha, Garth. Seu papel histórico de garantir segurança contra invasores e, além disso, de ser a primeira montanha do país, a tornavam parte integrante da identidade da vila. Ao mesmo tempo, a relação do País de Gales com a Inglaterra nunca havia sido a coisa mais tranquila da humanidade. Em uma disputa de centenas de anos, a Inglaterra invadiu diversas vezes aquele país, até que no século XVI, ele passou a fazer parte do Reino Unido. 

Assim, tudo começa durante os esforços da Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918). Em nome da Rainha, dois engenheiros se dirigem à vila para medir o tamanho do acidente geográfico para constar no mapa atualizado. Com o critério de que uma montanha deve ter, pelo menos, 1000 pés (304,8 metros), os ingleses fazem uma primeira medida e decretam o resultado. Por 20 pés (6 metros), o que era a montanha Garth passa a ser uma colina. Não correndo o risco de estragar o final do filme já que o título conta essa parte, seus moradores se juntam e conseguem cobrir a altura que faltava para que a montanha pudesse existir oficialmente.
hugh-grant-filme
O inglês que subiu a colina e desceu a montanha (1995)
A ciência possui, como já dito, seus critérios objetivos, mas tais critérios podem ser tão objetivos quanto arbitrários. Se pode parecer folclórica a revolta da população local de uma vila por algo que pode nos parecer uma bobagem, não nos esqueçamos que há poucos anos cientistas se digladiaram em torno da decisão de reclassificar Plutão como um planeta anão. Se tivessem como, levariam caminhões de terra até o planeta para corrigir o que eles consideram uma injustiça. Ainda hoje o tema é debatido e há quem mantenha a esperança. 

Se os próprios cientistas podem tentar barrar suas novas decisões por motivos, nesse caso, sentimentais, como reclamar da racionalidade da pequena vila galesa? Tal qual a religião, a ciência aprendeu que a melhor forma de se desenvolver é estar unida ao poder. A ciência depende do Estado e, muitas vezes, a força do Estado é a única capaz de fazer a ciência avançar. Da mesma maneira, em diversas situações em que a ciência é atacada, é a força do Estado se apresentando. A Revolta da Vacina é um grande exemplo. Ainda que se conte esta história como sendo pessoas ignorantes não entendendo como certas políticas vinham em seu benefício, o episódio é mais bem compreendido quando entendemos como o Estado avançou sobre a vida privada das pessoas sem explicar o motivo por trás disso. 

Neste O inglês que subiu a colina e desceu a montanha, do diretor galês Christopher Monger, a resistência galesa à mudança está intrinsecamente associada ao fato de serem os ingleses a desenvolverem tal medida. A força da Rainha, sem explicar seus motivos, estava ali para medir o principal motivo de orgulho da vila. Como é possível medir algo assim? O que era, então, um sentimento de uma pequena população, torna-se um comportamento universalizado e razoável. É verdade que a batalha da vila contra o sistema foi travada de uma forma bastante peculiar e através das regras da própria ciência e progresso que levantaram a questão. Por causa disso, a colina se manteve como montanha, sustentando o orgulho de um povo. Uma história inusitada que questiona os valores da ciência, estado e comunidade, mostrando que, isolados, estes conceitos de nada nos servem. E, como se não bastasse, ainda é um bom filme com o Hugh Grant bacana dos anos 90.

***
Quem escreve
Fábio Freitas gosta de cinema e ciência. É físico e professor do Instituto de Física na Universidade Federal da Bahia. 
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • 8 melhores streamings de filmes e séries gratuitos online para conhecer em 2020
    8 melhores streamings de filmes e séries gratuitos online para conhecer em 2020
  • Setembro amarelo no Cinema | 20 filmes sobre saúde mental
    Setembro amarelo no Cinema | 20 filmes sobre saúde mental
  • Nova Coluna: Amigos que escrevem
    Nova Coluna: Amigos que escrevem
  • Livro | Futuro Ancestral, Ailton Krenak
    Livro | Futuro Ancestral, Ailton Krenak

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose