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Café: extra-forte

Do livro de Martha Batalha para o cinema de Karim Ainouz, A vida invisível de Eurídice Gusmão alcançou dois grandes marcos da cultura brasileira: o livro já era um sucesso antes de chegar ao Brasil - sendo brasileiro - e o filme é aplaudido largamente por onde passa. Hoje é o dia de falar do filme, aproveitando a participação de Fernanda Montenegro nele, nossa Artista de Cinema de junho.

karim-ainouz
A vida invisível (2019)
Adaptação do livro de Martha Batalha, A vida invisível  é dirigido por Karim Ainouz e não é exagero dizer que, desta vez, o filme supera o texto. O drama conta a história de duas irmãs, Guida (Júlia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte), que tomam caminhos diferentes, quando uma decide fugir para a Grécia para viver um grande amor e a outra permanece e se casa, com a ambição de seguir para Viena tempos depois. Ambientado nos anos 50 no Rio de Janeiro, acompanhamos em paralelo os desencontros das duas, que acabam vivendo na mesma cidade sem saber e passam a vida buscando uma a outra.

A sensibilidade experiente de Karim Ainouz vem com toda a força neste drama de amor familiar e força feminina. As personagens parecem sempre estar pela metade, com se seus complementos andassem invisíveis ali perto, mas nunca à vista. Em Guida há uma rotina à parte, longe do berço, fazendo a vida pobre se tornar algo. Eurídice se manteve em família, com seus desejos e ambições sempre empurrados pra frente, em um pai que lhe queria casada, em Antenor (Gregório Duvivier), um esposo caricato que lhe quer em casa. A performance do ator incomoda, talvez pela proposta do exagero - que quem sabe não parece real demais naqueles anos 50 e em muitas casas dos nossos 2020. O que vale aqui é o olhar delas em grandes performances que sustentam a trama até o desfecho, quando então, Fernanda Montenegro (Eurídice), em poucos gestos e palavras, domina a tela.

Enquanto o texto não me provocou o desejo que fez Karim abraçar a ideia, seu filme vale ouro. É impressionante como ele imprime uma verdade na narrativa, como torna suas histórias - Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006), Abismo Prateado (2011) e Praia do Futuro (2014) - dotadas de uma sensibilidade, um olhar de observador experiente, como se, em até nos protagonistas mais imponentes, coubesse uma introspecção que promove uma identificação imediata com o que está sendo contado. E isso acontece com qualquer uma de suas histórias, com todas. É um dos grandes nomes de nosso cinema e vale acompanhá-lo de perto. 

Em Cannes ano passado, A Vida Invisível levou o prêmio Um Certo Olhar. Além dele, outros 15 prêmios e 17 indicações entre direção de arte, melhor atriz, coadjuvante, diretor, fotografia e melhor filme espalharam a obra pelo mundo. Não que isso sirva para o grande público, mas é, ao menos, um atestado de que há um olhar critico e um cuidado estético, um apuro na produção. É um bom momento, por fim, para se reconectar com nosso Brasil através de nosso cinema, se enxergando ali, vivendo e reverenciando a nossa cultura. 
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outono-luisa-lasserre-extraforte

Ah, esse meu jeito outono de ser. A frase saiu da boca de uma amiga e, na hora, vestiu em mim certinha, como uma roupa que você jura ter sido costurada no seu corpo, de tão bem que lhe cabe. Eu, que nasci nessa estação de folhas secas, acho que sempre me senti assim, meio outonal.

Observo mais do que exponho, penso mais do que falo, contenho mais do que transbordo. Celebro o recolhimento, os momentos a sós, as leituras de versos e releituras da vida. Converso cá com meus botões em forma de texto. Porque palavra escrita é mais outono do que quando falada.

Não me leve a mal, adoro o verão com suas cores vibrantes e toda sua intensidade solar que nos chama pra rua, nos banha com seus azuis marítimos. Quem não gosta? Às vezes esperamos o ano todo por sua chegada. Mas ninguém vive só de calor e água salgada.


Quando passa o verão, o outono é aquele que chama a gente pra dentro de casa e arruma a mesa pro inverno que inevitavelmente chegará. É como se nos convocasse à cozinha e dissesse: senta, espera, já, já caem a chuva e as folhas secas, logo tudo muda; por enquanto, aproveita o tempo e toma um chá. O outono me chama e eu obedeço. Sento, contemplo, deixo estar.


O inverno tem seu lugar à mesa. Friozinho, café ou chocolate quente na caneca e um livro bom pra fazer morada. Tenho algo de invernal também em mim. Mas o outono é mais brando, carrega um misto de quietude e movimento que me conquista e cativa. Estação de transição.


A vida que se recolhe é a mesma que se abrirá para a primavera, quando seus primeiros brotos surgirem. A queridinha das estações. Nos poemas, nas músicas, na arte de modo geral, a primavera sempre fez mais sucesso. É bonita e cheia de graça. Não faço pouco caso dela, mas vejo beleza no outono também.


O calor que abranda, a brisa fresca que começa a nos fazer visita sem hora marcada. Quem aguentaria a intensidade do verão ou do inverno, por todo o tempo? Tem horas que basta apenas o aconchego do lar. O sossego do ninho.


O outono nos mostra a passagem do tempo, a irremediável condição de que nada permanece imóvel. É preciso deixar cair algumas folhas, deixar que se vá aquilo que perdeu a cor e o viço, abrir espaço para gestar o novo. O outono traz a possibilidade de transformação, tão necessária para renovar. É vento que assanha o quintal, é nuvem que acalenta os sonhos, é lagarta que renasce no casulo com asas para voar.


***

Quem escreve

Luisa Sá Lasserre adora livros e café em qualquer estação do ano. É jornalista, mãe de dois e seus escritos, vez em quando, são publicados por aí. Você encontra mais coisas no instagram e no Casa Livro.
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Em meio à pandemia do Coronavírus, uma mãe em gestação: Camis. É dela essa série, DE PRIMEIRA VIAGEM, que conta um pouco sobre sua vida do outro lado do oceano, onde vive em Dublin, Irlanda, com seu marido. Todo mês, por aqui.
 
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por Camila Castro



Felicidade a mil pela gravidez, estávamos eufóricos. Pelo menos na minha experiência, a preocupação não era apenas minha, mas do meu marido também, que tinha medo de não conseguir me engravidar. E olha que demorou pouquíssimo tempo para chegarmos lá! Ao descobrirmos a notícia, dá uma vontade de contar ao mundo, mas recomendam esperar pelo menos 3 meses (quando a fase de risco de aborto espontâneo passa). Mas, a alegria é tão grande que não aguentamos e contamos aos nossos familiares mais próximos.

Nessa mesma época, chegou a notícia de que o Coronavírus estava se alastrando rapidamente pela Europa e que tinha chegado na Irlanda. O medo do vírus já era uma realidade, mas agora, tinha tomado outras proporções na minha atual situação. A ciência não tinha e ainda não tem muito conhecimento dos impactos da COVID-19 em gestantes.

Na segunda-feira, parecendo despertador mental da atual situação, começa o enjoo matinal, que acredito que só tem esse nome porque começa logo que você acorda, mas infelizmente pode durar o dia inteiro! Fato: 70% a 80% das gestantes podem ter esse sintoma em diferentes intensidades. Os enjoos normalmente aparecem entre as semanas 5 e 6 da gravidez e só vai embora entre as semanas 12 e 16. Tem mulheres que enjoam durante toda a gestação, mas são exceções. Ligo para o escritório para tirar o dia de folga e ir no médico confirmar a gravidez e começar o pré-natal.

O resto da semana se concentra no medo de ser infectada no caminho para o trabalho, na rua, no próprio trabalho. Então, no final da quinta-feira, o governo recomenda que as pessoas que puderem trabalhar de casa o façam. E, se tratar de uma empresa de tecnologia voltada pro mercado de marketing digital e que, em determinados momentos, já se podia trabalhar de casa, o trabalho adere às orientações. Todos os sistemas que usamos ficam na nuvem, ou seja, são possíveis de serem acessados através da internet.

Porém, na semana seguinte, nem tão boas notícias... Eu e meu marido somos afastados temporariamente dos nossos trabalhos por conta da pandemia, que afinal, está afetando praticamente todos os setores da economia, mas falarei mais sobre isso no próximo texto. 

E agora? Me espera que eu já volto!

*Para ler o episódio anterior, clica aqui! =)
***

Quem escreve
Camila Castro (Cam, Camy, Camis, Camilinha) é engenheira de produção e vive com o marido e o futuro bebê em Dublin, na Irlanda. Potiguar, morre de saudades do calor nordestino, das comidas e dos amigos de todos os lugares, mas encontrou seu cantinho no mundo para tocar a vida com mais tranquilidade. Você a encontra no linkedin e no facebook. Fala com ela!
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O livro da semana vem forte, pesado e político. A invasão imperialista ao Afeganistão pela União Soviética em 1979 é relatada por quem esteve lá, através de entrevistas com Svetlana Aleksiévitch, a escritora Prêmio Nobel de Literatura, conhecida por Vozes de Tchernóbil, o livro que serviu de base para a série da HBO Chernobyl. Hoje vamos a Meninos de Zinco.

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The old library, Trinity College. Dublin, Irlanda.

Ninguém saberia que aquela guerra duraria dez longos anos e que, ao seu fim, traria mais transtornos aos combatentes que foram lutar como heróis e voltaram assassinos. Lançado ano passado pela Companhia das Letras, Meninos de Zinco, de Svetlana Aleksiévitch traz uma definição complexa de humanidade e história.

Como seus outros livros - Vozes de Tchernóbil, O fim do homem soviético, A Guerra não tem rosto de mulher e As últimas testemunhas - este também é composto de relatos dos sobreviventes e familiares de algumas das muitas vítimas do lado soviético. Neste conjunto, a autora traz um panorama social profundo das diversas percepções, das ilusões partidas de quem foi por um ideal e viveu um inferno; das famílias que vivem a culpa de terem concordado com isso e perdido duplamente, na transição de mentalidade com a proximidade do fim do regime e, por fim, de terem embarcado com pompa e retornarem com a derrota social, além dos traumas dos conflitos. Como uma imensa nação saindo da Guerra Fria, a URSS precisava conquistar seu espaço e então passamos a conhecer o que pouco foi notícia por aqui, a invasão que antecedeu a chegada dos Estados Unidos no país de Osama Bin Laden.

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Meninos de Zinco, Svetlana Aleksiévitch
Svetlana é Prêmio Nobel de Literatura e as razões para isso se justificam quando acompanhamos sua trajetória literária. Com os livros que chegaram a nós - todos pela Companhia das Letras - recebemos um volume imenso de informação sensível sobre uma nação que foi composta por tantas outras e depois se fragmentou novamente, que tem uma história digna de todos e mais filmes feitos e que, por aqui - ao menos no meu ensino médio - vimos muito pouco a seu respeito. Ainda que eu espere que se fale mais sobre outras nações que não as tradicionais do meu defasado currículo escolar, nenhum livro didático vai trazer os pormenores, as vozes dos indivíduos, seus pensamentos e subjetividades como estes que conseguimos acompanhar com a autora. 

Todos somos imbuídos de nossos ideais e a autora não se imiscui dos seus, mas ela tenta, ao mesmo tempo, dar voz às mais diferentes mentes e frentes. Então, temos desde o jovem que não queria ir e foi empurrado pela família e viveu um inferno particular e coletivo, a outro que foi pela bandeira e orgulho e se sente vencedor. Temos as famílias desalojadas em suas dores imperdoáveis e perdoáveis, temos quem sustente e quem pise nas políticas assassinas das disputas de poder. É um livro que traz tudo, que abre mil debates e que ainda traz um adendo, com os pormenores do julgamento a que a escritora foi submetida, por ter sido processada por algumas das pessoas entrevistadas. Inesperado, mas compreensível - especialmente em uma nação que tinha por prática cultivar o medo e manter uma imagem de vencedora sempre. Era outra época, outros valores - mas ainda há muita ressonância com tudo o que vivemos. Guerras, ideais nacionalistas e grandes ilusões sempre haverão, o que torna esse livro imprescindível para refletirmos sobre poderes e perdas, política e crimes contra a humanidade. 

Meninos de Zinco é doído - o título fala dos caixões e como muitos combatentes eram meninos efetivamente - dezoito anos já era suficiente para ser convocado - está posto. Leiam porque, além de toda a relevância sócio-política e cultural, ainda é extremamente bem escrito e estimulante - é difícil largar. Vamos falar sobre ele depois, estou por aqui. É uma discussão que vale uma mesa, muito café e gente pensando junto.  
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Os miseráveis, de Victor Hugo (1862), já foi ao cinema e teatro muitas vezes, mas é provável que, em nenhuma delas, tenha abordado o tema de maneira tão contundente como este, de 2019. Ladj Ly faz uma versão crítica e profunda, que atravessa a obra em vez de adaptá-la. O resultado é impressionante.

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Os Miseráveis (2019)
Não espere encontrar Jean Valjean, Fantine, Javert, Cosette e Marius. Não é uma adaptação, mas talvez uma influência do escritor sobre o filme que se traduz aqui. Da mesma maneira, não é um musical romântico como o filme de 2012, mas um drama tenso. A crítica social segue firme, assim como sua revolução.

Esta é a história de três policiais que fazem ronda em um subúrbio pobre parisense, eles são a BAC - Brigada Anti-Crime. Um deles é novo na equipe e vai viver seu primeiro dia de trabalho com os outros. No caminho, os três passam a se conhecer e vemos como eles se relacionam com o bairro, um deles sempre ultrapassando um pouco os limites do dever, mas mantendo a ordem sob uma comunicação com os poderes paralelos da comunidade de herança diversa, os imigrantes. Tudo vai bem, mas quando  uma das crianças rouba um filhote de leão do circo local, a frágil calma é suspensa: as relações de poder e parceria, os preconceitos, o descaso governamental, a grande história imperialista francesa e suas colônias sempre marginalizadas emergem.

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Os Miseráveis - poster

A construção narrativa é brilhante. A primeira sequência do filme traz a França como campeã da Copa do Mundo de 2018, todos nas ruas, bandeiras e fogos. Paris está em festa e parece só haver liberdade, igualdade e fraternidade. Até o dia seguinte. As revoluções históricas e crises políticas do país, que deveriam ter promovido à força uma sociedade mais justa, mantém seus alicerces racistas e preconceituosos no abandono estratégico do governo às periferias. Assunto com que os brasileiros podem se relacionar automaticamente: vivemos esse dia a dia de violência, preconceitos e morticínio de negros e pobres no Brasil. E sabemos como isso acontece lá, os noticiários e redes sociais confirmam, como aqui, a ascensão da extrema direita com suas facções neonazistas, os franceses parisienses que se acham mais relevantes do que qualquer outra pessoa, e que, conforme o policial 'são o poder', acima de tudo e de todos. 

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a força policial: Stéphane, Chris e Gwada
As diferenças entre os personagens policiais, Chris,o branco (Alexis Manenti), Gwada, o negro (Djebril Zonga) e o que acaba de chegar do interior, Stéphane (Damien Bonnard), vão aparecendo na medida do incremento dos conflitos. É possível compreender a visão de cada um, é possível entender que ninguém é completamente corrupto ou perverso, como ninguém está acima de todos, com uma bondade e ética absolutas. O roteiro é tão preciso que não precisa trazer isso como discurso, mas em gestos e poucas falas, sem flashbacks explicativos. Mais uma vez, todos os garotos do filme lembram os nossos garotos brasileiros assassinados dia sim dia não nas favelas e ruas. Os três policiais são também como os nossos policiais, é quase doloroso compreendermos tão bem aquela situação e nos indentificarmos.

O filme nos provoca uma tensão e mantém firme seu propósito político e de denúncia. Seu ineditismo resulta na coragem de expor à carne viva os abusos, desvarios e despreparo do poder público. O filme é como uma grande explanação sobre a situação francesa que, tal qual os Estados Unidos com sua Estátua da Liberdade abrindo o coração apenas para brancos, o lema da trípide francesa conquistado séculos atrás a sangue e fogo não cabe aqui, não chega nas favelas verticais que não aparecem nos filmes de Torre Eiffel, Champs-Élysées e Arco do Triunfo. 

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As crianças
Em uma cena, Stéphane tenta apaziguar os ânimos e chegar a uma conclusão menos pior para os envolvidos. No meio do diálogo com o dono mulçumano de uma lanchonete de kebab, eles citam as manifestações de 2005. Naquela época, em um dos bairros periféricos da capital francesa, um grupo de jovens incendiou carros e tomou as ruas em confronto com as forças policiais. O protesto se amplificou exponencialmente em todo o subúrbio, tomou as ruas da capital e das maiores cidades francesas. Agora, quinze anos depois, eles temem essa repetição e o que o policial diz é que, mais uma vez, gerará prejuízos financeiros e nada mais. Não é isso que vai mudar o comportamento e o pensamento sobre o social naquele país. A triste realidade é escancarada para todos, uns mais e outros menos, mas todos vítimas do sistema.

Em tensão sempre crescente e com muito assunto a discutir, por pouco não chega ao atordoamento que Bacurau provoca em sua agilidade e explosão de ideias em pouco tempo. Estes Miseráveis se voltam à questão da imigração, das crianças e da revolta que isso provoca - hoje e sempre pontos sensíveis da sociedade que insistiu em uma longa história de colonização. O sentimento de revanchismo surge como uma força de vitória nos minutos finais, mas também um peso, quando não há como vencer uma guerra já perdida. Com elenco jovem, novo e diverso, é uma glória ver um grande filme francês não branco, para renovar o nosso olhar. Encerrando tal qual a história que acabamos de assistir, seguem aqui os devidos créditos ao mestre que originou a obra. E tente não piscar nos minutos finais.

"Meus amigos, lembrem-se disto.
Não há plantas más, nem homens mais.
Há apenas maus cultivadores."
Victor Hugo, Os Miseráveis.
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A Artista de Cinema de junho é ninguém menos que Fernanda Montenegro. Já vimos uma rápida biografia e agora vamos partir para algumas de suas produções. A seleção foi difícil e voltada para nosso cinema brasileiro. 

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Fernanda Montenegro
Fernanda Montenegro é um de nossos ícones culturais. Por mais que ela se considere uma reles mortal, mesmo sem querer, ela é uma referência de Brasil, como dizem, do Brasil que deu certo, que nos traz orgulho, que não nos faz passar vergonha. Com uma carreira diversa e extensa em rádio, tv, cinema e teatro, é possível encontrá-la em muitas produções. Como Artista de Cinema de junho, eis cinco filmes de destaque, para conhecermos um pouco mais sobre a atriz.

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A vida invisível (2019)
Adaptação do livro de Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão e dirigido por Karim Ainouz, não é exagero dizer que, desta vez, o filme supera o texto. O drama conta a história de duas irmãs que se separam quando uma decide viver um grande amor fora do país e a outra permanece e se casa, com a ambição de seguir para Viena tempos depois. Nestes desencontros, as duas acabam vivendo no Rio de Janeiro sem uma saber da outra, por anos a fio. No filme, acompanhamos as duas estórias em paralelo e vemos o crescente da trama com a sensibilidade que só o diretor de O Céu de Suely (2006) consegue imprimir junto a seu elenco, com Julia Stockler, Carol Duarte e Gregório Duvivier. Fernanda Montenegro faz uma participação definitiva e impressionante, com poucos gestos e transmitindo, quase sem palavras, tudo o que precisamos saber e sentir. Levou o prêmio Um Certo Olhar, do Festival de Cannes 2019.

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O auto da Compadecida (1999)
O texto é do magnânimo escritor Ariano Suassuna e esse filme, que também é uma minissérie, é uma produção da Globo, com direção de Guel Arraes. Conhecido do público e o filme brasileiro preferido de muita gente - de meu pai, inclusive - é uma comédia sobre céu, inferno, religião, ambição e humanidade. O texto é uma delícia, os atores estão em sintonia e são nomes de peso em nosso audiovisual e Fernanda Montenegro, nossa Artista de Cinema, chega com tudo, como a mãe de Jesus, Maria. É ela que guia e sela o destino destes rapazes, nessa trama nordestina e carregada de sotaques, crítica social e ingenuidade. Vale muito a pena. Você pode comprar esta maravilha aqui.

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Gêmeas (1999)
No mesmo ano e seguindo outro caminho, vemos outra adaptação literária de um grande nome, Nelson Rodrigues e dirigida por Andrucha Waddington. Aqui, o suspense gira em torno de duas irmãs gêmeas, Iara e Marilene, interpretadas por Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro, que faz uma participação. Na trama, ao nascer, não esperavam gêmeas e chegam ao mundo como prenúncio de uma tragédia, como o próprio pai (Francisco Cuoco) explica ao noivo de uma delas. Com toda a carga que só Nelson Rodrigues consegue trazer ao texto, há uma morbidez inteligente que nos deixa instigados a participar do jogo de sedução e briga de poder entre as irmãs. Veja o trailer.

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Central do Brasil (1998)
Um dos filmes mais famosos e bem criticados do país, Central do Brasil é uma marca histórica do nosso cinema. Dirigido por Walter Salles, o mesmo de Jia Zhangke - um homem de Fenyang (2015) e Na estrada (2012), baseado no livro clássico de Jack Kerouac. Dora escreve cartas para pessoas analfabetas na Central do Brasil, uma estação de trens de passageiros da cidade do Rio de Janeiro. Ela conhece Josué, uma criança que vive com os irmãos, perdeu a mãe e está em busca do pai, que ainda não conhece. Juntos, Dora e ele embarcarão nesta saga que os levará a lugares menos turísticos do país, trazendo parte do Brasil real para as telas. Lindo, emocionante, nos faz reconhecer nossa diversidade cultural de uma forma sensível e arrebatadora. Fernanda concorreu ao Oscar de Melhor Atriz e é, ainda hoje, a única brasileira a chegar até lá.

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Eles não usam black tie (1981)
Adaptação da peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri e tendo ele como um dos atores principais, este é uma obra prima de nosso cinema. Leon Hirszman. Um dos diretores de Cinco Vezes Favela (1962), um dos filmes mais importantes de nossa história cinematográfica, de A Falecida (1965), também com Fernanda Montenegro e de ABC da Greve (1990), traz uma história nos anos finais da ditadura e sobre a ditadura. Todos já sabiam o que se passava nas salas do DOPS e promover uma greve geral em uma indústria era tido como um ato subversivo, ainda que fosse um direito do trabalhador. Fernanda Montenegro é Romana, a esposa de Otávio (Guarnieri), que é envolvido politicamente no processo. Em sua família, há o filho mais velho que também trabalha lá e tem uma visão diferente do pai. Ele acha que é melhor não se envolver e garantir o seu, em vez de lutar por um bem comum. Impressionante, a atriz domina absolutamente todas as cenas em que aparece, especialmente aquelas que envolvem os atores mais jovens, com uma sensibilidade e simpatia, como se sua personagem fosse uma de nós. Esse filme está completo no Youtube e grátis, numa qualidade razoável, mas que dá para ver. Deu saudade das aulas de cinema da graduação, de discutir a imagem do Brasil e do brasileiro nas telas e em filmes 'de verdade'.

Para saber mais sobre a vida de Fernanda Montenegro, comece aqui e para descobrir nosso Artista de Cinema de Maio, coisa que aconselho fortemente a fazer, clique neste link! =)
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foto de Ilan Vale
Deitados sob a grama, Fabinho e Maria observam o céu estrelado. A luz do luar ilumina a cena que só os dois presenciam. O frescor da maresia lhes dá esperança para o que vem por aí. Enquanto ela revela os sonhos do pós-quarentena, ele já parece sonhar com a liberdade de um mergulho no mar. 

- Fabinho? 

- Oi, Ma... 

- Me diz: o que você vai fazer quando isso acabar? 

- O que eu vou fazer? 
Quero poder sair por aí e receber o sorriso de um desconhecido. Ser feliz com as paisagens e cores da nossa cidade. Quero me emocionar com um abraço quente, me arrepiar com um beijo molhado. Perdoar os inimigos, amar ainda mais os amigos. Quero viver as certezas e incertezas da vida sem me preocupar pra onde ela vai me levar. Dar valor a tudo o que nós temos, mesmo que seja a coisa mais banal. Quero me permitir ser quem eu sou. Olhar a imensidão do mar e me sentir livre. Livre pra voar. 

***
Quem escreve Livre pra voar
Oi, meu nome é Diego. Tenho um canal no Youtube chamado Doze Futebol, que dá voz aos principais personagens do esporte: os torcedores. Fora do audiovisual, faço da escrita minha forma de falar com o mundo. Gosto de criar histórias a partir de fotos de amigos. Essa é do Ilan Vale. Fala comigo!
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Hoje é o aniversário dela. A mulher da minha vida, razão do meu viver, inspiração e força. Stela ou Dona Stela como gosto de chamar pra pirraçar, é minha mãe e nessa quarentena de isolamento social, pandemia, coronavírus e apocalipse, demos a sorte de estarmos juntas, com meu pai e minha irmã, que encontramos de longe, já que ela segue trabalhando. Riqueza maior do que essa não há. Coloquei essa nossa foto de super crianças (nós três, no caso) só para dar aquela vontade de sair (re)produzindo por aí.

minha mãe, eu e minha irmã no século passado
Estes dias andei perguntando a minha mãe sobre as coisas que ela gosta de ver e fazer. Estou de volta ao convívio com ela mais intensamente neste período de isolamento social, voltei pra Salvador e nos vemos e vimos mais nestes últimos meses do que nos últimos doze anos em que estive na ponte aérea Salvador - Rio de Janeiro. Meio doido isso. O fato é que, hoje é seu aniversário e nada mais justo do que lhes apresentar a lista de filmes que ela adora, sempre revê e sempre se diverte. Uma sorte danada ser filha dela, um amor desse, uma entrega. Sem ela, não somos nada e seu gosto de filmes só reforça isso, o tamanho de seu coração romântico e caloroso. Perde tempo não, tá tudo aqui:

Orgulho e preconceito (2005)
Este está na nossa lista comum. Na verdade, está também na lista de algumas amigas que gostam de Jane Austen e dessa adaptação maravilhosa. É um dos filmes de romance e super românticos que mais gosto, a mocinha orgulhosa e o mocinho preconceituoso, uma história para nos tirar do cotidiano e achar que a vida pode sim, ser inocente, apesar das dificuldades em ser mulher, e doce de vez em quando. O texto é da brilhante Jane Austen, autora de tantos livros de ficção e romance, trazendo os costumes e comportamentos da Inglaterra do século dezenove. Ela foi uma das vozes primordiais a tratar sobre gênero e suas desigualdades da era georgiana e esse é seu livro mais famoso, conhecido em todo o mundo e que serviu de influência para grandes autores e outras obras. Você encontra ele no Telecine Play.

O diário de Bridget Jones (2001)
Vamos lá: sabemos que o filme é bobo, isso dá pra ver no poster, mas é muito legal! Para quem perdeu este bonde, Bridget Jones (Renée Zellwegger) trabalha em uma editora de livros e leva uma vida de solteira, morando sozinha em Londres. Tudo o que parece glamouroso nessa frase, perde contexto aqui, já que a ideia é trazer um pouco para a realidade - a vida de solteira é mais entediante do que animada. O fato é que ela tem seus amigos e familiares e uma quedinha pelo diretor cafajeste da editora, Daniel (Hugh Grant). As coisas andam, ela conhece o famoso Mark Darcy (Colin Firth), este sobrenome não é à toa - é o mesmo do mocinho de Orgulho e Preconceito aí de cima. A graça aqui está em tudo parecer 'real' demais, mesmo se tratando de uma comédia romântica, às vezes exagerada. As relações familiares, as peculiaridades dos personagens, a narração da própria Bridget enquanto escreve seu diário, e esse trio fazem valer o ingresso. Assisto mil vezes e mil vezes me divirto. Minha mãe também. Foram feitos outros dois filmes depois desse, mas assistindo o primeiro, já resolve. Está no Google Play.

Kramer vs. Kramer (1979)
Dustin Hoffman e Meryl Streep. Kramer vs Kramer foi um dos filmes listados para assistir antes de ir ao curso de roteiro que fiz em NY e é um dos filmes favoritos da minha chefe familiar. Sim, até eu fico pensando que foi em outra vida de tão distante, mas a viagem aconteceu mesmo, em 2012 e foi muito legal. Voltando ao filme, encontramos este casal sem igual na cena hollywoodiana, mas em crise na história. Joanna Kramer decide sair de casa e deixa Ted Kramer com a tarefa de conciliar o trabalho, a vida doméstica e a educação do filho ainda criança. O filme joga com essa relação homem x mulher, poderes e deveres, relações machistas e readaptação. É muito mais complexo do que um drama de divórcio e muito mais interessante também. Já vi mais de... sei lá, 6 vezes desde que fui ‘obrigada’. É um dos melhores filmes feitos e é muito despretensioso, o que o torna mais especial. E convenhamos: Meryl Streep e Dustin Hoffman juntos não poderiam fazer um filme ruim. Levou os principais prêmios do Oscar de 1980 e está no Google Play e na Apple TV.

História de um casamento (2019)
Recentíssimo, esse filme poderia ser uma variação de Kramer Vs. Kramer. Adam Driver e Scarlett Johansson são esse casal que se ama, mas o relacionamento segue um caminho complicado. Com um filho criança e tendo que decidir o futuro da relação, é uma trama adulta sobre um jovem casal, cujos desejos de vida contrastam tal qual suas identidades. De Noah Baumbach, o mesmo do adorado Frances Ha, é como se o diretor houvesse amadurecido o tema de um filme no outro – relações humanas e comportamento. Uma delícia de ver apesar do teor sério, pela sinceridade em temas difíceis. Grandes interpretações. 

O guarda costas (1992)
Agora me diga se esse não é um clássico? Quando você lembra do filme, você não lembra dele de verdade, eu descobri isso. Você lembra da música de Whitney Houston e quase chora, porque então você lembra como sua vida se encerrou de uma forma tão incrivelmente triste. Agora mesmo, enquanto escrevo, me dá um aperto no coração. Também, porque se alguém passar incólume à sua música, terá certamente um atestado de psicopatia. O filme é o romance entre Whitney Houston e Kevin Costner, outro casal improvável, mas que funciona bem na trama. Ela artista, ele seu guarda costas, como o título do filme. É lindo, romântico até não querer mais e é a cara de minha mãe. Eu prefiro ouvir a música de vez em quando e só uns pedaços, que meu coração não aguenta. No Google Play.

O diário de uma paixão (2004)
Essa é uma das nossa grandes dissonâncias, minha e de dona Stela. É o que prova que ela consegue ser mais romântica do que eu umas vinte e cinco vezes, mais ou menos. Eu acho esse filme meio chato. Meloso demais, me tira a paciência. Sei que é um dos filmes adorados de seu público, especialmente com Ryan Gosling e é para quem gosta mesmo de uma coisa água com açúcar. Eu preciso de pimenta e café para somar nessa conta - um tempero a mais, um risco de comédia. Mas entendo o gostar. É um filmão para muita gente e deixa todos com o coração mole. Está na Netflix.

Como se fosse a primeira vez (2004)
Esse é um filme que todo mundo gosta. Outro casal improvável, mas que funciona bem na trama: Henry (Adam Sandler) se apaixona por Lucy (Drew Barrymore). Ela sofre um acidente e perde a memória recente então, sempre precisa ser lembrada de certas coisas e, uma delas, é seu par romântico. Henry tenta tornar possível essa recordação e se envolve com ela pela primeira vez todos os dias. Fofo, leve e engraçado, esse sim, uma boa aposta para estes tempos - quando queremos de verdade, esquecer os momentos atuais e pular para dias mais amenos. Com trilha sonora dos Beach Boys, um dos melhores filmes de verão. No Telecine Play, Netflix, Google Play.

Sissi, a imperatriz (1955)
Desde que eu sou bem pequena, que minha mãe fala deste filme. Ela gosta de um drama e sempre foi muito apaixonada por Sissi e sua trágica história, que foi amenizada em filme pelo vienense Ernst Marischka. Com uma vida triste e difícil apesar da rotina na aristocracia - ou talvez por ela, Sissi virou um ícone de personalidade e resistência, ou sobrevivência. Este clássico você encontra completo e grátis no youtube, bem como toda a trilogia.

O amor não tira férias (2006)
Anteontem eu falei aqui da minha apreciação por Nora Ephron. Nancy Meyers é outra que leva meu coração, no aspecto filmes legais americanos. Elas deveriam ser amigas, não é possível. Ela é a diretora de Do que as mulheres gostam (2000), Alguém tem que ceder (2003), este de que falamos, Simplesmente Complicado (2006) e Um senhor estagiário (2009). Todos os filmes são leves, mas não bobos. Carregam uma comédia boa sobre comportamento e relacionamentos dos mais diversos tipos. São filmes de estação, verão ou inverno, mas que dão vontade de assistir em qualquer época, porque carregam aquele selo de feel good movie de que tanto carecemos nestes último meses. Em O Amor não tira Férias, Amanda (Cameron Diaz) e Iris (Kate Winslet) moram em Los Angeles e no interior da Inglaterra, respectivamente. É fim do ano e os climas das duas cidades são quase opostos, mas as duas, que se conhecem online em uma espécie de AirBnB, só que de troca de casas, resolvem fazer isso, um intercâmbio e trocam seus endereços por um tempo. A partir disso, uma conhecerá os amigos e parentes da outra e tudo vai dar certo, depois de um tempo. Divertido, com ótima trilha sonora, engraçado de verdade e terno, está no Amazon Prime, Looke, Apple TV e Telecine Play.

Um lugar chamado Notting Hill (1999)
Hugh Grant fez umas besteiras na vida dele, isso é inegável, mas ele também fez grandes filmes. Este é um dos mais românticos e é muito fofo. Com grande trilha sonora, trata do amor de um livreiro de Notting Hill - bairro charmosíssimo de Londres - por uma atriz de Hollywood que está fazendo um filme ali perto. É daquelas histórias improváveis, mas, que as boas atuações garantem o enredo e nos carregam pela trama. Minha mãe ama esse filme, porque, na verdade, ela é mais fissurada em música do que em cinema e esse aqui tem os dois. Pelas cenas engraçadas, dá para assistir várias vezes sem cansar. No Telecine Play, Google Play, Apple TV e Looke.

Agora, com licença, que está na hora dos parabéns, de escolher um desses filmes e assistir com ela, a melhor mãe e mulher que eu conheço. 
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Enquanto o mundo demora a criar novos eixos - entrar nos antigos não é uma possibilidade - sigamos tentando manter a cabeça no lugar, a voz das revoltas e revoluções ativas, o pensamento crítico vibrante. Aguardemos um pouco mais em casa e aproveitemos as dicas de filmes e séries da Amazon Prime e Netflix no Café, bem como os Livros da Semana - todo sábado, por aqui.


Semanas atrás, a televisão queimou. No meio da quarentena mesmo, o sal do mar não perdoa. É uma coisa que precisamos aceitar na cidade e sem reclamar muito; a escolha de permanecer é nossa e com isso vem a natureza junto. O fato é que ela queimou pela maresia ou salitre, que são a mesma coisa, apesar de terem definições diferentes em cada lugar. Há muito tempo sem comprar nada e guardando grana por motivos óbvios, reconheci que não dá para viver com a cara no computador mais do que já vivo. Aceitei o destino e comprei online e parcelado um aparelho novo. Junto a ele, cinco livros de histórias e motivos completamente distintos entre si, uma prática de anos, coisa que não se muda e só ajuda a confundir nossos quereres, ao mesmo tempo que traz um caleidoscópio cultural pra dentro de nós. Para que se perceba a aleatoriedade que explicarei um dia, a lista foi assim: Noites Brancas, Dostoiévski, O médico e o monstro - o estranho caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, que já foi livro da semana aqui, O Amor é Fogo, de Nora Ephron, Meninos de Zinco, de Svetlana Aleksiévitch e Conversas com Escritores, de Ramona Koval. Como não está fácil para ninguém - mesmo estando infinitamente mais fácil para uns do que para outros - é preciso cultura para se manter razoavelmente sensato em uma pandemia e isolamento de mais de 70 dias. Vamos ao livro deste sábado.

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O amor é fogo, Nora Ephron
Sim, parece mesmo um livro de mulher. Aliás, é um livro de mulher de fato, é escrito por uma mulher, então me parece meio óbvio. Nora Ephron é a roteirista de Harry e Sally (1999, de Rob Reiner), apenas a melhor comédia romântica de todos os tempos, com o improvável casal Meg Ryan e Billy Cristal. Além de roteirista, escritora e produtora, Nora foi também diretora de filmes muito legais, que marcaram a vida de muita gente, como Sintonia de Amor (1993), Mensagem para você (1998) e Julie & Julia (2009). Heartburn é o título original do livro que ganhou essa estranha tradução e a capa absolutamente ridícula. 

A história é contada por Rachel uma escritora de livros que mesclam anedotas pessoais e familiares com receitas culinárias, o que parece ter dado muito certo. Casada com o segundo marido, um jornalista 'de assuntos sérios' e grávida de sete meses do segundo filho, ela descobre que ele está tendo um caso extraconjugal e a crise estoura. O que parece uma trama simples e quase besta, ganha outras proporções quando sabemos que muito o que está escrito ali, de fato aconteceu com a escritora da vida-real, como ela conta na introdução. Isso traz um peso interessante à trama, talvez por nos apegarmos a estas histórias de verdade e a levarmos mais a sério do que se fosse um romance. O livro é muito fácil de ler, tem ótimas tiradas e talvez faça alguma diferença lê-lo em inglês, mas a tradução não deixa a desejar. Uma coisa ótima de ler livros de quem escreve filmes, é que há sempre construções cenas, se torna muito fácil para nós criar os personagens, desenvolver seus perfis e tramas entre as situações ali descritas. Sem falar no ritmo, claro. Quem conhece os filmes da autora, sabe que diálogos e ritmo são características marcantes.

A graça deste livro de mulher com a ridícula capa (que, claro, está satirizando as donas de casa e as imagens estereotipadas da mulher, todo mundo entendeu, mas ainda assim, a Editora Rocco poderia ter  buscado uma crítica um pouco mais atualizada do que os tristes anos 50) está em suas entrelinhas. Em perceber como uma vida pode se transformar tão repentinamente, como tendemos a depositar em nós as culpas por tudo o que não fizemos, como sempre e ainda recai na mulher qualquer queixa e como é fácil ainda acabarem com a nossa imagem. Ao mesmo tempo, há uma sinceridade e leveza no texto, em meio à dor e ao caos. Nora é escritora de comédias românticas, as melhores americanas, e ela traz isso para o livro. Não apenas como uma comédia de costumes, mas como comportamento, com uma sinceridade em descrever pensamentos e ideias esdrúxulas em situações complicadas. Acontece a todas as pessoas, a gente só não comenta (ou comenta com os melhores amigos). O livro virou filme - e que filme - A Difícil Arte de Amar, com Meryl Streep e Jack Nicholson, cujo roteiro é de nossa autora e que vale muito a pena assistir. Um ótimo programa para a semana é essa dupla filme e livro - tendo conhecido os dois, recomendá-los é quase uma obrigação.
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Chegamos em junho, ainda em quarentena e com revoluções pequenas e grandes estourando em alguns países, enquanto o nosso segue tentando se firmar em meio à crise política e sanitátia. Aqui em Salvador, ainda há um tanto a aguardar, o governador Rui Costa (PT) e o prefeito ACM Neto (DEM) estão nesta cruzada, ferrenhos e vigilantes para impedir o avanço da pandemia. É um alívio ver que, na verdade, o estado da Bahia inteiro caminha na mesma direção, independentemente de partidos e ideologias. O fato é que seguimos em casa, isolados e pacientes - e impacientes - aguardando dias melhores.  

Para seguir a vida nesta não tão nova rotina, é hora de conhecermos o Artista de Cinema de junho, uma mulher única no Brasil, uma força serena e firme, a dama e rainha do Cinema, da TV e do Teatro brasileiros, Fernanda Montenegro. 

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Fernanda Montenegro

Arlete Pinheiro Esteves da Silva se transformou em Fernanda Montenegro quando começou a escrever e trabalhar na rádio Ministério da Educação e Cultura (Rádio MEC), no Rio de Janeiro dos anos 40. Ao lado da rádio, funcionava o teatro amador dos alunos da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, onde ela entrou e começou a carreira de atriz. Entre os dois trabalhos, ela continuava no Berlitz, um curso de secreatariado onde estudou e depois trabalhou como professora de português para estrangeiros. Ainda naquele tempo - talvez seja marca de todos os tempos - não era fácil conseguir se manter como artista.

Na década de 50, aos 21 anos, começa profissionalmente sua carreira de atriz no teatro e em 1951 na TV Tupi, como a primeira atriz a ser contratada pela extinta emissora carioca. Casa-se com o ator Fernando Torres em 1953 e nos anos 60 nascem o diretor de cinema e publicidade Cláudio e a atriz Fernanda Torres. Ainda nos anos 50, a Tv Tupi transmitia peças de teatro e já ali a atriz participou de oitenta delas. Em 54, estreia na primeira telenovela da TV Record, A Muralha e em 1959 abre sua própria companhia de teatro, o Teatro dos Sete, com o marido, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida. Daí em diante, Fernanda já era a grande dama da dramaturgia brasileira, status que nunca perdeu.

Com experiências em Cinema, Literatura, Teatro e TV, ela faz parte da história da cultura brasileira, tendo recebido mais de vinte prêmios em todas as mídias e trabalhado com quase todos os grandes nomes da cultura nacional de todas as décadas, como Nelson Rodrigues, Matheus Nachtergaele, Paulo Autran e muitos outros, já que ela, sozinha, era quase sempre o maior de todos. Sua importância não reside em ser emblema nacional, mas sim, como uma força cultural de resistência, de fomento à arte, ao povo e respeito pela profissão. Com 90 anos feitos em outubro de 2019, a atriz havia lançado um pouco antes seu itinerário fototobiográfico e agora sua autobiografia, um presente para nós, uma sorte de tê-la no país. Fernanda é uma força ativa no Brasil, confirmando que não existe idade para pensar e se manifestar criticamente à nossa infeliz situação política. 

Em isolamento na região serrana do Rio de Janeiro, ela indicou que está retomando sua agenda e que segue produzindo, nem que seja para a internet. Em todo caso, se mantém presente como voz firme nas mídias e entrevistas que faz. 

Há um infinito de coisas para falar desta atriz que não precisa de adjetivos. Nas próximas semanas, aumentaremos este arquivo com suas produções de destaque, premiações, livros, o que falam dela na mídia, o que ela mesma fala de si e dos outros, leituras poéticas e até seu instagram, que traz muito do que ela vem produzindo. É um prazer e honra fazer este ensaio de perfil para uma artista de cinema e dos outros meios. E que venham as cenas dos próximos capítulos!
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Ser radical é fácil, me vi falando com um vaso de plástico num dia qualquer. Ir até o extremo e só parar quando não há alternativa. Se o sujeito estiver disposto – Freud que explique – basta olhar o que poucos ou ninguém faz. Pular de uma ponte preso a elásticos ou praticar esportes que cansam só de pensar. Como se sente ao realizar tamanha proeza?, perguntariam repórteres na minha florida imaginação, e nem precisariam aguardar a resposta para escrever a matéria. Quis me desafiar e levar meu corpo ao extremo, eu teria respondido com um sorriso exausto.

Mais uma vez, eu esqueceria do óbvio que, sorrateiro, nos rodeia diariamente. De tão óbvio, ninguém realmente fala. Bem, falo agora, sozinha na sala de estar, diante da mobília entediada com meus devaneios. Eis que o verdadeiro desafio está na moderação. Simples assim.

Pensando bem, poucas coisas na vida poderiam ser mais complexas e, na ausência de público, repito a frase querendo me convencer e me livrar da culpa que persiste. Sigo meu monólogo, afirmando que o pouco e o muito, a gente logo repara: muito sal na batata, pouco molho na salada e por aí vai. Viu? Simples. Até lá, são muitas tentativas (e dores de cabeça) para entender onde está a tal moderação que as propagandas e rótulos de cerveja tanto falam. Convenhamos, exagerar é facílimo! 

Não obstante, a moderação exige-nos muito mais. Adianto que não é a primeira vez que me pego conversando (com o vaso de plástico?) sobre essas coisas e, às vezes, chego a formular linhas de raciocínio opostas, adubando-as regularmente com argumentos coerentes, de modo que após um tempo, ambas proveem frutos perfeitamente plausíveis.

Enquanto isso, sigo a rotina de regar demais as plantas, vítimas da minha total falta de moderação. Amanhã vou ao mercado comprar uma nova pimenteira prometendo, mais uma vez, ser como pedem  as embalagens de cerveja.

***

Quem escreve
Camila Paulino diz que lê melhor que escreve. Cada dia mais convicta de que George Orwell só errou o ano, busca a leveza do realismo mágico pra encarar o mundo. Adora quando indicam livros pra ela lá no instagram.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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