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Café: extra-forte

É com grande liberdade e amor no coração que lanço essa série de filmes brasileiros para gostar e entender nosso Cinema, esse mesmo, com C de coisa séria. Não digo aqui que são os melhores filmes brasileiros de todos os tempos e essa não será uma lista única e finita, pelo contrário, com o tempo, vou postando mais alguns, na ordem da memória. Dá para encontrá-los no youtube, no mercado negro e na Netflix, mas o melhor caminho é sempre o Canal Brasil, na TV, no NOW e o Canal Brasil Play. Lá tem a maior parte destes e outros tantos maravilhosos. 

Praia do Futuro (2014) - Dir. Karim Aïnouz
Jesuíta Barbosa, Wagner Moura e esse ator 'gringo', Clemens Schick trabalham juntos no último filme de Karim, que se passa entre Fortaleza e Berlim. Uma história de amor e um conflito familiar, muito bem articulados. As cenas de amor e do próprio relacionamento dos protagonistas são lindas, sofisticadas e sintéticas. Wagner tá ótimo, como na maioria de seus papeis. E Karim mantem a força de seu cinema, intenso, sério, não melodramático e muito bem contado. 

Estamira (2006) - Dir. Marcos Prado
Marcos Prado costuma trabalhar com José Padilha, um produz o filme que o outro dirige, um pouco como Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Estamira é uma mulher que vivia em Jardim Gramacho, um aterro sanitário. Ela vive naquele limiar de loucura e sanidade, mas é um personagem imenso e inteligente. É impactante, é sobre miséria e sobrevivência e é bastante relevante. Gosto muito dele e da personagem. Mas é um soco no estômago. Tem crítica no Café!

Redemoinho (2016) - Dir. José Luiz Villamarin
Baseado em um conto de Luiz Ruffato do livro Inferno Provisório, é um drama sobre o reencontro de dois amigos de infância no interior de Minas Gerais. Com Dira Paes, Irandhir Santos (um dos melhores atores que temos hoje) e Júlio Andrade, tem ainda outros bons atores em papeis menores. É impressionante a dinâmica criada entre eles, o cruzamento entre memória, passado e como cada um vive o presente com esta história comum que os acompanha. Grande filme e lindo, fotografia de Walter Carvalho. Tem crítica no Café!

Elena (2012) - Dir. Petra Costa
Outro filme intimista, que trata da irmã de Petra, Elena. É um filme de busca, a diretora segue pistas para encontrar sua irmã e compreender sua história e escolhas. Lindo, bem montado, ganhou prêmios pelo planeta e deu destaque à diretora. O segundo filme dela eu não vi, "O Olmo e a Gaivota", mas parece seguir a mesma linha e teve grande repercussão também. Vale dar uma olhada. Tem crítica no Café!


Terra em Transe (1967) - Dir. Glauber Rocha
Glauber Rocha, precisa dizer mais? O homem tem muitos filmes bons e alguns chatos. Gosto de Terra em Transe porque gosto das alegorias, gosto da trama política, de como toda a crítica social está presente, dos diálogos rasgantes, de Paulo Autran. Não assisti Chatô, mas pelo trailer dá pra ver que ele usou bastante deste filme. Deus e o Diabo na terra do Sol é outro grande, mas deixo esse outro aqui, com um viés menos 'regional' e com mais pertinência ao nosso cenário político atual. Está em algumas listas de filmes mais importantes da galáxia.

Cinema Novo (2015) - Dir. Eryk Rocha
Eryk é filho de Glauber Rocha e fez alguns bons filmes. Ele trabalha muito a montagem e a música, então todos os seus filmes têm um ritmo bacana. Esse aqui, como o título indica é sobre o Cinema Novo e toda a sua fase, todos os diretores, tudo enfim. Não é um filme de depoimentos comum, é um emaranhado de cenas e trechos dos grandes filmes dessa época maravilhosa do mundo e do nosso cinema 'alternativo' que, um dia, foi relevante. Claro que se você conhece alguns filmes dessa época, fica mais interessante catar os fragmentos, porque ele faz uma seleção imensa, em todos os sentidos.

Órfãos do Eldorado (2015) - Dir. Guilherme Coelho
Guilherme Coelho traz para o cinema o livro de Miltom Hatoum, de mesmo nome. Esta é uma história de família, que traz a força da cultura amazonense de todas as formas possíveis, com mitos, comida, ambientes, tudo o que tem direito. É um filme "completo", perfeito na forma, com grandes atores (Dira Paes está... ela é incrível e quase Daniel de Oliveira não sustenta sua força com ela por perto). Primeiro longa de ficção do diretor, já dá pra ficar esperando os próximos. Tem crítica no Café!

Peões (2004) - Dir. Eduardo Coutinho
Não tem como não ter Eduardo Coutinho, para mim, o melhor documentarista do país, um dos melhores diretores de cinema deste planeta. Peões fala dos sindicatos, do ABC, da ascensão de Lula e de sua força, mas não é apenas sobre ele, mas sobre aquela realidade. Esse filme foi lançado no mesmo ano que Entreatos, de João Moreira Salles, fruto daquela febre da candidatura de Lula, onde tudo parecia possível nesta nação.

Viajo porque preciso, volto porque te amo. (2009) - Dir. Marcelo Gomes
Filme que pode ser categorizado como Documentário e Ficção. Esta é a história de um geólogo (Irandhir Santos!!) que atravessa o Nordeste de carro, analisando o solo que será alagado pela transposição do rio São Francisco. Ele checa riscos, viabilidade e possíveis consequências. Viajando sozinho, sente falta de sua mulher e conversa consigo no percurso, entre músicas que tocam no rádio, a saudade, os bares de beira de estrada, postos de gasolina, um dia a dia aparentemente monótono e pequeno. É um filme 'lento', porque parece que nada acontece, mas tudo está centrado na força da narrativa, neste homem que conta sua história e como ela se transforma com o tempo e o caminho. 

Santiago (2007) - Dir. João Moreira Salles
O filme é uma conversa com o mordomo, Santiago, da família Salles (de Walter e João Moreira). Parece 'nada', mas é surpreendente esse personagem e como ele fica tranquilo com a câmera. Filmes como estes fazem parte dessa ideia de que o documentário pode não ser apenas aquele tipo que retrata uma realidade, mas que busca uma forma própria, que não necessariamente lide com verdades e fatos, mas que, como a ficção, os interprete livremente. Em preto e branco.
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Pense comigo: janeiro não conta, verão. Fevereiro então, só depois que o carnaval passar. Aí, achamos que o ano ia começar em março, que parece ser um dos meses mais longos (e maravilhosos) do ano, mas ele trouxe a semana santa. Abril chegou com tudo, todos os feriados e basicamente passamos uma semana atrás da outra com um dia a menos. Só me resta concluir que o ano começa agora, nesta primeira semana de maio que já inaugura com um feriado, o dia do trabalho. As indicações desta semana também falam sobre isso, então, sem mais delongas, eis as Maravilhosidades para começar esse ano confuso:

Capacetes Brancos (2016, de Orlando Von Einsiedel) – 41 minutos
Começando já com uma porrada, vamos para o documentário que ganhou o Oscar na categoria de Curtas e tem tudo a ver com o dia do trabalho. Capacetes Brancos conta a história de um grupo de resgate de vítimas de bombardeamentos na Síria. Estes homens estão em plantão sem folgas e em constante risco de vida sob escombros, resgatando pessoas enquanto os Estados Unidos, a Rússia e o próprio governo local atacam as cidades sírias. Acho, no mínimo irônico, que se premie nos Estados Unidos esses filmes de guerra onde quem premia é quem ataca, mas essa nação é ‘especial’ e nós sabemos disso há bastante tempo. Em todo caso, o filme vale muito a pena, porque expõe esses heróis que não buscam reconhecimento, mas salvar seus conterrâneos, familiares, amigos, qualquer um que necessite apoio. Impressionante e emocionante, não busca resultados e nem acusar vítimas e algozes, mas somente expor a vida desses homens, seu treinamento e suas tragédias domésticas.

Cara gente branca (2017, de Justin Simien) – 30min/episódio – 10 episódios
Série recém-lançada na Netflix, com dez episódios curtos, você assiste de uma só vez e depois enfrenta aquela crise existencial de ‘o que fazer agora’. Samantha White (Logan Browning) é estudante e residente na universidade de Winchester, nos Estados Unidos e é locutora de um programa de rádio que critica as relações entre brancos e negros em sua comunidade. Ela mora em uma república para negros e se relaciona com um Gabe (John Patrick Amedori), um estudante de cinema, branco, criando resistência entre seus amigos, em sua maioria, ativistas. Esta é apenas uma das questões abordadas, como as relações de poder, a violência e diferenciação policial com relação a negros e muito mais. Claramente é uma crítica a uma sociedade racista como sabemos ser a americana – cujas semelhanças vemos aqui – e vemos os episódios como aconteceu em 13 razões, cada um com foco em um personagem, sua história particular e como ela se relaciona com a história principal. Espere bons diálogos, entre comédia e drama, estereótipos dos dois lados e personagens que se tornam mais complexos a cada episódio. Referências culturais identificam o preparo dos roteiristas, que buscavam fugir da crítica social rasa. Provavelmente terá segunda temporada, já que essa garantiu um final com continuação e deve incomodar muita gente branca de bem. Baseado no filme homônimo de 2014.

Ela (2013, de Spike Jonze) – 126 minutos
Estreia de Maio na Netflix, um dos melhores filmes de 2013. Joaquim Phoenix é Theodore, um homem que desenvolve um relacionamento estritamente virtual e aí encontraremos grandes semelhanças com nossas vidas e formas com que nos relacionamos com amigos, família e amores, em torno de redes sociais e de como estamos dependentes de nossos aparelhos como se fossem extensões de nós mesmos. Grande filme, que trata também de solidão e de como, muitas vezes, escolhemos, sem perceber, essa forma de viver. O filme ainda conta com Amy Adams, Kristen Wiig, Rooney Mara, Chris Pratt e Scarlett Johansson. Levou o Oscar de melhor roteiro original (Spike Jonze, se não lembra quem ele é, te ajudo: Quero ser John Malkovich (1999), Adaptação (2002),  Onde vivem os monstros (2012)). Brilhante, imperdível e tem crítica especial no Café, clica aqui!

Karate Kid – A hora da verdade (1984, de John G. Avildsen) – 126 minutos
Como toda videolocadora que se preze, há que manter seus filmes dos anos oitenta. Karatê Kid é um de nossos favoritos da sessão da tarde e não poderia faltar. As sequências também seguem na Netflix, mas importante mesmo é ver o primeiro. As relações escolares, o eterno bullying americano na adolescência, o mentor, ninguém menos que o Senhor Miyagi (Pat Morita) que ajuda Daniel (Ralph Macchio) a mais do que se vingar e aprender a se defender, mas ser um atleta, uma pessoa justa que joga limpo. Ótimo filme, aula de roteiro, vale rever e estranhar o fato de não estar dublado - talvez eu visse assim mesmo, em homenagem aos 'velhos tempos'. Do mesmo diretor do primeiro Rocky (1976), caso você precise de mais argumentos.

O leitor (2008, de Stephen Daldry) – 124 minutos
Para terminar bem essa semana, te mando um grande filme, desses que te deixam pensando por algumas semanas. O Leitor conta a história entre o fim de um relacionamento de Michael (David Kross / Ralph Fiennes) com Hanna (Kate Winslet), uma mulher sombria, dura e sensível no pós-segunda guerra mundial e o que acontece dez anos depois, quando eles se encontram no tribunal em que ela se defende da acusação de ter cometido crimes de guerra. Impressionante, humano e tenso, é impossível levar o filme até o final com certezas inabaláveis. Grandes performances de Kate Winslet (que levou o Oscar e o Globo de Ouro), Ralph Fiennes e David Kross. Do mesmo diretor de Billie Elliot (2000) e As Horas (2002).
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Estamos de volta depois de algum tempo, com muitas histórias para contar e já acabando este incrível mês de abril e seus feriados inesquecíveis. Estamos de volta com as Maravilhosidades e aos poucos, as críticas dos filmes e séries mais relevantes. Sem mais delongas, segue nossa lista incrível para começar Maio do jeito certo - com feriado na segunda-feira!!

Ex-Machina: instinto artificial (2014, de Alex Garland) – 108 minutos
Três atores dominam toda a trama. Um programador, Caleb (Domhnall Gleeson, um dos melhores atores do momento - guarde esse nome), é convidado para um projeto experimental com Nathan (Oscar Isaac), uma grande figura do mundo tecnológico. A experiência se passará na casa deste líder e se dará em torno da interação com Ava (Alicia Vikander), um robô de feições femininas, para avaliar suas qualidades humanas. A partir disso, muita coisa vai acontecer e encontraremos muitas outras relações com humanidades e desumanidades neste tenso suspense. Não é terror,  não se engane, mas é impressionante a capacidade que o filme tem em nos prender a cada segundo, com tantas restrições: um mesmo cenário, os mesmos brilhantes atores. Conhecido por filmes tensos, Alex Garland foi indicado ao Oscar de melhor diretor por esse filme, que levou outros 64 prêmios, inclusive a estatueta de melhores Efeitos Visuais.

Nebraska (2013, de Alexander Payne) – 115 minutos
Se você busca uma experiência estética em um filme simples e direto, te apresento Nebraska. Rodado em preto e branco, com uma fotografia linda e limpa, grandes enquadramentos, o drama/comédia está centrado na vida de Woody Grant (Bruce Dern) que decide buscar um prêmio de revista de um milhão de dólares em Nebraska. Seu filho David (Will Forte), entendendo a estranheza da situação, tenta convencer o pai a desistir da ideia e, encontrando resistência, se junta a ele nesta viagem. Com um humor ácido e duro, o filme não é uma comédia de gargalhadas, mas os diálogos impressionam em inteligência e sarcasmo. O diretor é conhecido por isso, por filmes humanos e brilhantes, que intercarlam personagens de grandes corações e aqueles outros que infelizmente encontramos na vida real. Os Descendentes (2011), Sideways (2004) e As Confissões de Schmidt (2002) são outros filmes do diretor.

Minimalism – a documentary about the important things (2015, de Matt D’Avella) – 79 minutos
Podemos viver com menos? Tudo o que temos, todas as nossas coisas, são fundamentais, imprescindíveis em nossas vidas? Joshua Millburn e Ryan Nicodemus são amigos de longa data que, após conquistarem as carreiras dos sonhos e terem tudo o que queriam, viram que não precisavam de tanto, que esse querer tudo causava mais angústia e vazio do que satisfação e felicidade. Eles mudaram seus hábitos e isso resultou em um livro sobre uma forma de viver mais simples. Contando assim, parece pouco e óbvio, mas o filme traz este e outros exemplos, alternativas ao ritmo de vida e consumo a que todos, ou quase todos, estamos acostumados. Vale a experiência.

Um lugar chamado Notting Hill (1999, de Roger Michell) – 124 minutos
Julia Roberts e Hugh Grant em uma comédia fofíssima na saída dos anos 90 é tudo o que precisamos neste feriado. Muito provavelmente os viciados em comédias românticas já passaram por aqui, mas é um filme leve, bobo e divertido, que dá pra rever sem sacrifícios. Comédia inglesa, Anna Scott (Roberts)é uma grande atriz que vai fazer um filme em Londres e se depara com William Thacker (Grant), um livreiro que mora e trabalha em Notting Hill. Os encontros e desencontros com atores ótimos, grande trilha sonora, bom timming para comédia e uma certeza de que tudo acabará bem pode ser o que você precisa para um fim de semana tranquilo e alegre.

13 reasons why (2017, de Brian Yorkey) – 60 minutos/eps - 13 episódios
A ideia é sempre ter uma série para indicar e esta 13 reasons why, ganha créditos muito por conta de sua polêmica. Hannah Baker (Katherine Langford) é uma garota de 16 anos se suicida e antes disso, grava fitas cassete com seus motivos para o ato. As razões, ela diz, são as atitudes que as pessoas de seu entorno tiveram, que contribuíram para o trágico desfecho. Clay Jensen (Dylan Minnette) é um de seus melhores amigos que acaba de receber em casa a série de fitas e se vê obrigado a ouvi-las. A série trata de bullying, em resumo, de depressão, transversalmente e das relações pessoais neste momento de formação da personalidade. Aí há envolvimento familiar, escola, educação, amizades e amores. A grande questão do suicídio adolescente é posta à prova e a série prende o espectador, mas não é a última novidade em termos estéticos ou narrativos. Vale assistir entendendo, inclusive, que poderia ter menos episódios, que algumas histórias poderiam ser condensadas, mas tudo faz parte do jogo. A dica aqui é que se assista a alguns episódios e veja se interessa. A parte boa é que talvez te remeta às suas próprias histórias quando adolescente. Talvez para o público estadunidense seja mais impressionante, já que o bullying lá é muito mais agressivo. Em breve sairá aqui sua crítica completa.
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Depois de grandes filmes como o controverso e brilhante Elle (2016, de Paul Verhoeven) e o sensível e coerente O que está por vir (2016, de Mia Hansen-Love), Isabelle Huppert surge como Laura, uma personagem sonhadora, própria dos filmes clássicos de artistas em decadência, que encontra um último suspiro em segundos de fama, com este Souvenir.

A lembrança que seria a tradução literal do francês é também sinônimo para presente, aquele que trazemos de viagens, quando – literalmente – não esquecemos alguém. Segundo longa-metragem de Bavo Defurne, o drama romântico soa como um conto de fadas, com direito a príncipe encantado e princesa quase em perigo. Laura (o nome artístico de Liliane Cheverny) é uma ex-cantora que agora trabalha como decoradora de bolos em uma fábrica. Ali ela conhece Jean Leloup (Kévin Azaïs), um rapaz vinte anos mais novo por quem se apaixona e que a reconhece como a cantora por quem seu pai foi apaixonado décadas atrás. A ideia de relança-la no festival da canção surge e com isso, todo o drama se instaura.


Isabelle Huppert nos choca com a placidez desta obra que se perde na inverossimilhança. O universo da fantasia não se sustenta com a tentativa de combinação com a realidade. Poderia ser um realismo fantástico, caso os elementos narrativos fossem mais oníricos, mas é como se estivéssemos vendo uma obra cujo ápice parece não atingir o efeito desejado e ficamos sem saber se devemos trata-lo como uma estranha comédia ou um drama de fato. Há um jogo narrativo interessante com a solidão, o esquecimento da protagonista e como ela própria fez questão de reforça-lo, ao ver o fim da carreira artística, usando seu nome verdadeiro na vida e se mantendo à margem das possíveis amizades no ambiente de trabalho. Liliane não quer falar de Laura, não quer lembrar a fama e glória de um tempo efêmero, não quer reviver as dores que afoga em doses de whisky, mas - e aí talvez esteja o primeiro problema da trama - ao primeiro pedido de Jean, se rende e investe com todas as forças, ultrapassando quaisquer obstáculos para se fazer ressurgir enquanto cantora.

O maior problema talvez resida na construção dos personagens, cujos arcos narrativos parecem não dobrar, não atingem a maturidade para suas transformações. Há a tentativa de reviver o passado, isso está claro desde o cenário da casa de Liliane quanto com seus figurinos. Huppert acentua o efeito, com um gestual ambíguo, entre o estranho, com uma atuação bem marcada para o palco – e agora as referências de Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (1950, de Billy Wilder), sem o drama, mas nos movimentos parece uma ideia não tão distante – quanto extremamente romântico nas trocas com Jean. Ao mesmo tempo, a atriz reforça um olhar que não sabemos se é frio e descrente por conta de sua trajetória ou o contrário, um suspiro de esperança sempre sufocado.


Jean alimenta esse romantismo e nisso o filme segue coerentemente, mas não vai além. O boxeador vive outro tempo, também marcado em sua casa e nas roupas que usa, mas os conflitos não sustentam a trama, à exceção do alinhamento sentimental. À maior possibilidade de problemas, como com o ex-marido de Liliane, Tony Jones (Johan Leysen), as resoluções são frágeis, tal qual o ciúme fora de contexto da mãe de Jean, entre a eterna paixão do marido por Laura e a superproteção ao filho. Ficamos sem saber se há uma costura frouxa no roteiro, buscando associar muitos elementos de tensão e pouco tempo para os conflitos de fato. 

Entre a aura de contos de fadas e o drama romântico que une gerações bastante distintas, o filme enche de esperança o espectador, ao lhe convidar a encontrar Isabelle Huppert mais uma vez, mas se perde entre exageros dramáticos e resoluções sem profundidade. Vale pela versatilidade da atriz, pelo jogo de esquecimentos e memória trazidos na trama e no título e pelo sentimento que nos desperta sua atuação, como uma experiência diferente, mas não passa disso.
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Olá! Conforme prometido, segue a parte 2 da programação especial de Carnaval do Café!! Tem documentários, seriados de comédia, ficção e drama. Não dá pra reclamar, porque tem, de verdade, para todos os gostos. E se você perdeu a parte 1, olha ela nesse link. Sexta-feira, passo aqui de novo, com as últimas cinco pérolas para terminar bem o feriadão!

Chasing Ice (2012, de Jeff Orlowski) – 75 minutos
Imagens surpreendentes das maiores geleiras do mundo. E elas estão derretendo. Após descobrir estas formas como sua paixão, o fotógrafo James Balog fez uma pesquisa de campo para registrar literalmente, o aquecimento global a partir do degelo dos glaciares. Groenlândia, Islândia, Alasca e Montana são seus pontos de observação e acompanharemos sua pesquisa, suas fotos incríveis em lugares belíssimos, impressionantes e qualquer adjetivo desses de Ansel Adams e a comprovação que afasta qualquer dúvida sobre o impacto do progresso na natureza e, posteriormente, suas consequências em nossas vidas. Como uma viciada em imagens de natureza, especialmente daquelas brutalmente diferentes do nosso cotidiano urbano, vou assistir novamente. Levou grandes prêmios em festivais importantes, um Emmy e foi indicado ao Oscar. O filme é parte do projeto que você encontra nesse site.

Teoria de Tudo (2014, de James Marsh) – 123 minutos
Todos conhecem Stephen Hawking, aquele cientista, físico, que vive em uma cadeira de rodas e se comunica através de um computador. Hawking é um dos nomes mais importantes da ciência hoje, é um dos que a tornou acessível à população, no estudo de nada menos que o Universo. Neste filme dirigido por James Marsh, Eddie Redmayne é Stephen, e sua mulher Jane, Felicity Jones. Saberemos o início de sua carreira, o relacionamento do casal, a construção da família e, em paralelo, a descoberta de sua doença e de como suas enormes limitações não o impediram de seguir em frente e desafiar, ele mesmo, sua própria ciência. Emocionante, vale os 24 prêmios e 119 indicações que recebeu.

Melhor é impossível (1997, de James L. Brooks) – 139 minutos
Quem deixou esse filme passar na tv aberta, não tem mais desculpa para perde-lo na Netflix. Jack Nicholson é Melvin, um homem cheio de manias e preconceitos que, por acasos da vida, se envolve com pessoas completamente diferentes dele: a garçonete e mãe solteira, Carol (Helen Hunt), que trabalha no restaurante que frequenta e o vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear), que lhe pede ajuda. Poderia ser um filme besta com uma grande lição de moral, mas é muito mais do que isso, porque o faz de forma inteligente, emocionante e muito engraçada. Hunt e Kinnear estão brilhantes e Jack Nicholson dispensa comentários. Não perca! E super vale a pena ver de novo. Do mesmo diretor de Espanglês (2004), Nos bastidores da notícia (1987) e Laços de Ternura (1983).

City 40 (2016, de Samira Goetschel) – 73 minutos
Surpreendente. City 40 fala de mais um dos resquícios da União Soviética. Depois de ler Svetlana Aleksiévitch, a autora Nobel que escreveu um livro sobre Chernobyl (Vozes de Chernobyl), outro sobre a participação da mulher na Segunda Guerra (A guerra não tem rosto de mulher) e o último publicado no país sobre o final do regime soviético (O fim do homem soviético), acabei me viciando no assunto. Esse documentário amplia os temas da Rússia e seus regimes, com tudo o que a escritora relata: os segredos de Estado, os prejuízos e perigos à população e de como a paranoia é instalada com uma política bélica e coercitiva que existe até hoje. Aqui vemos um projeto de cidades secretas russas criadas no início da Guerra Fria para a produção de plutônio, matéria-prima para armas nucleares. Impressionante ouvir os relatos obtidos, entender a história por trás daquilo, as estratégias do governo, as consequências para a população. A trama é tão fantástica e mórbida, que parece ficção. E ainda ficamos sabendo de outras tantas cidades secretas espalhadas pelo mundo. Dá um pouco de medo. Para saber mais sobre Svetlana e seus livros sensacionais, passa aqui.

Love (2016-, de Judd Apatow, Lesley Arfin, Paul Rust) – 50 min / episódio
Para relaxar, uma série mais tranquila. Não torça o nariz para Love ainda. É rápida, fácil de assistir e talvez não pegue todo mundo, mas você vai acabar vendo toda, porque não dá tempo de mudar de filme ou desligar a tv. Essa é a história de Mickey (Gillian Jacobs), uma mulher está longe de ser um padrão de comportamento e muito menos bela, recatada e do lar. Ela conhece Gus (Paul Rust), um homem meio nerd, também fora do padrão 'americano perfeito' ou do 'amigo gente boa' das comédias românticas. É só um cara com seus problemas, paranoias e nervosismos, como quase qualquer outra pessoa. Claro que eles viram amigos e se envolvem, mas não será fofinho e nem água com açúcar. Confesso que vi toda a série de uma só vez – os episódios parecem curtos – e não foi o impacto de um House of Cards, mas ficou passeando pela minha cabeça. Semana que vem estreia a segunda temporada. House of Cards já foi dica do Café nesta semana aqui, junto a outros imperdíveis!
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Chegou a semana de Carnaval e nem todo mundo está radiante com isso. Mentira, todo mundo está – mesmo não gostando da festa, há tempo de sobra para aproveitar e colocar a vida em dia, descansar, ver algum filme que preste, fazer nada, ficar de preguiça em casa lendo, de perna pro ar. Para isso, resolvi seu primeiro problema: aqui começa a lista das Maravilhosidades da Netflix – Semana de Carnaval! São três etapas, então pegue seu caderninho (ou ipad, ou tablet, ou celular, o que você quiser, enfim) e tome nota! Em dois dias, mando mais 5 dicas incríveis!
 
Chef’s Table (2015-, de David Gelb) – 50 minutos/episódio – 3ª temporada
Em sua terceira temporada, Chef’s Table é uma grande opção para começar o Carnaval em casa. Eu sei, parece estranho, mas quem não gosta da festa e não tem como viajar, precisa de uma programação deliciosa. Já no primeiro episódio vemos uma chef monge que saiu de casa porque não queria filhos e queria encontrar sua liberdade – na Coreia do Sul, isso também significa não se casar. Ela cozinha onde vive, para as outras monjas e é convidada pelo mundo inteiro para oficinas sobre sua forma de cozinhar, cultivar seus vegetais na maravilhosa e ultra orgânica horta que tem e viver. É uma lição de vida, filosofia, natureza. E é só o primeiro episódio. A série inteira é magnífica.

13ª Emenda (2016, de Ava DuVernay) – 100 minutos
Candidato ao Oscar de melhor documentário esse ano e produzido pela Netflix, 13ª Emenda é uma aula de história social, um filme provocador  e até seria polêmico, se não tratasse apenas da realidade da disparidade racial norte-americana. A 13ª Emenda da Constituição tenta abolir a escravidão com uma grande vírgula que faz toda a diferença no discurso e promove um tipo de racismo grave, criminoso e mórbido. O filme extrapola o assunto para o dia a dia de forma dinâmica e direta, quase sem deixar espaço para respirarmos, trazendo desde a criminalização do negro e sua punição, aos assassinatos de negros nas ruas – fato cotidiano. Fundamental e urgente, vale assistir em casa, chamar os amigos, levar para as universidades e escolas, discutir no trabalho. Todas as opções. Da mesma diretora de Selma (2014), Ava DuVernay. Crítica no Café!

A Casa dos Espíritos (1993, de Billie August) – 140 minutos
Lançado nos anos 90, provavelmente o assisti no final da década, ainda adolescente. O filme, baseado no romance homônimo de Isabel Allende, é um drama familiar, que conta a história da família de Clara (Meryl Streep) e Esteban (Jeremy Irons), ela uma mulher extremamente sensível e um pouco médium, ele um homem duro, fazendeiro, patriarca e machista, no interior do Chile. Eles têm Blanca (Winona Rider), a primogênita que se apaixona por Pedro (Antonio Banderas), que trabalha para Esteban, mas é socialista. Não vale contar mais, mas é um filme que, mesmo tendo passado muitas vezes na tv aberta, vale cada segundo, por toda a construção do drama, a saga familiar ainda é pincelada com toques da literatura fantástica. Do mesmo diretor de Trem noturno para Lisboa (2013), levou 12 prêmios e vale rever. O livro é sensacional.

Jumanji (1995, de Joe Johnston) – 144 minutos
Uma aventura para toda a família! Parece chamada da programação da tv aberta, mas é a mais pura verdade. Esse filme da sessão da tarde conquistou nossos corações desde muito cedo e conta com o incrível Robin Williams como o Alan Parrish, o homem que encontrou, quando garoto, um jogo de tabuleiro chamado Jumanji. Ele está preso na floresta por 25 anos e agora, Judy (Kirsten Dunst) e  Peter (Bradley Pierce) descobrem o mesmo jogo e todos se encontrarão neste mundo meio mágico, meio real. É um grade filme para ver com crianças, mas se você for adulto, não se iniba, é super divertido e leve. Pense que é do mesmo diretor de Querida, encolhi as crianças (1989) e que tem, de novo, Robin Williams (é sempre bom lembrar).

Journey to Greenland (2016, de Sébastien Betbeder) – 108 minutos
Dois amigos parisienses, atores frustrados de trinta e poucos anos e que atendem pelo mesmo nome – Thomas – aceitam o convite do pai de um deles para visita-lo na Groenlândia. Juntos, descobrirão a cultura inuit, uma forma de vida muito mais simples do que aquela da capital francesa e aprenderão a lidar com as diferenças. É aquele filme descrito como ‘despretensioso’ e que gera boas risadas e emoção. A relação com o pai Nathan é posta à prova e seguimos encantados com o oposto de nossas vidas. Vale pela diferença, por vermos uma forma de viver – há muitos não atores e cenários realistas e reais todo o tempo, que quase poderia ser um documentário – tão oposta à nossa, de pensarmos em nossa realidade e se queremos isso para nós, e de ver um filme em um lugar novo, bastante incomum de se apresentar em qualquer tela. Talvez isso até seja bom. Vale muito a pena, vai ver!
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A história da questão racial nos Estados Unidos não é novidade para nós, como também é possível encontrar semelhanças com a nossa própria história. Essa constatação é baseada em dois fatores: o estudo na escola da História Geral – que privilegia os acontecimentos deste hemisfério e quase anula o outro – ou talvez ainda mais grave, nominando a história do mundo como aquela das Américas e Europa, com participações episódicas e inevitáveis da África e quase nada da Ásia e Oceania. O segundo fator é ainda mais óbvio: a invasão da cultura de massa estadunidense em todas as suas esferas. Cinema, tv, notícias, música, dança (todas as artes), mercado, mentalidade, ideologias e padrões de vida e comportamento chegam a nós com a mesma ou maior voltagem que a nossa própria produção cultural e intelectual.  Assim, absorvemos quase osmoticamente – há quem o faça assim mesmo, sem pensar – uma forma de ser que não nos é natural, mas assim se torna.

A parte boa é que a cultura ianque se tornou tão familiar que a podemos utilizar para cruzar dados com o que vivemos. 13ª Emenda, documentário produzido e lançado pela Netflix ano passado, dirigido por Ava DuVernay serve como uma luva para pensarmos, a partir de sua narrativa que tenta resolver a equação do mercado/sistema carcerário norte-americano associando coerentemente à histórica perseguição aos negros (e posteriormente, imigrantes) ao momento que vivemos no Brasil, do nosso próprio sistema penal como um todo – da investigação do crime à aplicação da pena em reclusão – e de suas consequências oriundas da superlotação de presídios, anulação de direitos civis de quem ali habita e sucateamento de suas infraestruturas, visando, por dedução, uma possível privatização das unidades, em sua maioria administradas pelo Estado.


A trágica coincidência se estende à própria educação e aqui se faz um parêntese a ser elaborado mais tarde – o sucateamento praticado há décadas no ensino público visaria sua falência – frente à falácia das campanhas eleitoreiras que lhe prometem prioridade – não acarretaria na privatização da educação de base, segregando ainda mais a nação desde a sua fundação (a parcela jovem da população) e assim, marginalizando quem não tem renda que lhe permita o ingresso? Essa mesma evasão escolar destinaria os jovens a duas saídas; o ingresso precoce ao mercado de trabalho, eliminando a infância e juventude ou a possibilidade de entrada para a criminalização. Retornemos aos Estados Unidos.

A Constituição dos Estados Unidos foi ratificada em Junho de 1788. A 13ª Emenda foi adotada quase um século depois, a partir de Dezembro de 1865, quando Abraham Lincoln era presidente. Seu texto segue assim:


“Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado. O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias".

Com essa premissa o filme inicia sua jornada quase didática e elucidativa, explicando a relação entre o fim da escravidão, a política de deturpação da imagem do negro livre na sociedade americana, em uma sequência de governos racistas hereditários da era Jim Crow (conjunto de leis dos estados do sul estadunidense que segregava negros e brancos. Entre 1876 e 1965) – Nixon, Reagan, Clinton, Bush – e de como sua própria marginalização criou um sistema cruel de encarceramento em massa e desproporcional para negros (e posteriormente imigrantes, ou todos os não brancos).
Hoje, é um problema que armazena 2.000.000 de pessoas em cárcere por crimes brandos e hediondos, com e sem julgamento. Esse sistema criou a superlotação dos presídios, uma indústria patrocinada pela ALEC, um conselho de políticos e corporações que formulam leis e as entregam ao Congresso para aprovação, de acordo com seus interesses econômicos. Uma destas empresas é a Wal-Mart, que vende armamentos e outra era a CCA, uma corporação de administração de presídios. Anos depois, a CCA sai de cena e o que parecia ser uma reforma visando o esvaziamento dos presídios vira uma nova moeda; as corporações passam a utilizar o trabalho do preso – mão de obra barata, para não dizer gratuita – para desenvolver sua indústria de bens de consumo. Vale reler o trecho destacado na 13ª emenda mais acima.

A solução também veio da ALEC, a partir da proposta de vigilância comunitária, escamoteada como proposta de aplicação de fiança e condicional a criminosos leves. Suas novas corporações associadas são de tecnologia de segurança e rastreamento geográfico (GPS).  A conta está feita.
DuVernay, que também dirigiu Selma (2014, sobre a marcha de Martin Luther King, em Selma, Alabama pela a equidade racial de votos em 1965), retoma a cruel questão da cor, uma vez mais posta em xeque no perigoso governo Trump, recém eleito presidente dos Estados Unidos. Daqui, pouco sabemos posto que é recente, mas há previsões possíveis, por sua campanha eleitoral xenófoba que atiça nazistas à paisana. O filme de DuVernay é fundamental para entendermos um pouco do que acontece no dia a dia da população negra americana. O que assistimos nos noticiários, o que é importado para nós é uma parcela ínfima do que acontece todos os dias – dos pequenos preconceitos que ‘apenas’ ofendem, a estatísticas aterradoras em que 1 a cada 3 negros pode ser preso em algum momento de sua vida. Para os brancos, a proporção é 1 para 17.
O filme, além de ser uma aula sobre a questão negra americana, o faz de forma magistral, com ritmo e direção precisos que não nos deixam piscar. Imagens de arquivo em contraponto com músicas ditam a cronologia e nos guiam para os debates com seus entrevistados, as relações entre as manifestações da segregação de 70 anos atrás para as das semanas anteriores refletem não apenas um regresso a tempos que pareciam mais sombrios, como a tecnologia hoje possibilita a ampliação do alcance de seus assuntos e da mobilização nacional e internacional. É um filme para ser visto em casa, em família, em sala de aula, onde for possível, para que se aprenda, reflita e discuta sobre nossos vizinhos. Ainda há muito que dizer e pensar, não só no que acontece lá, como em nosso próprio cotidiano. Não há grandes diferenças.
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Dois amigos de infância se reencontram depois de muitos anos. Adultos, o que foi para São Paulo e o que ficou em Cataguases vivem as diferenças e consequências de suas escolhas de vida. Quem tem a melhor vida ou quem fez a melhor escolha é o que tentaremos descobrir neste longa-metragem dirigido por José Luiz Villamarim.

Irandhir Santos é Luzimar, um operário da fábrica de tecidos de Cataguases, uma pequena cidade mineira cortada por um rio, uma ponte e um trilho de trem. É casado com Toninha (Dira Paes) e segue a caminho de casa para a noite de Natal. É também irmão de Hélia (Cyria Coentro) e amigo de Gildo (Júlio Andrade), que mora em São Paulo. Ao passar em frente à antiga casa do amigo, se depara com Dona Marta (Cassia Kis Magro) e o carro de Gildo, indicando que ele estava de volta. É sobre esse encontro de uma tarde e uma noite que trata o filme.


Roteiro de George Moura, que trabalhou com o diretor em diversos seriados da TV Globo, é uma adaptação do conto de Luiz Ruffato, Amigos, do livro Inferno Provisório. O livro trata de Cataguases e seu entorno, da vida na cidade pequena, de pessoas como quaisquer outras, mas com uma profundidade que o autor destaca e aprofunda em uma narrativa que cruza o regional com o universal. A adaptação do conto ganha fragmentos de outras histórias do livro, a dar corpo e ação aos menores personagens. Aqui, estas histórias dos que cruzam a vida de Gildo e Luzimar ganham peso e força, intensificando a ideia de redemoinho presente também na obra do escritor, como se aqueles que orbitam os protagonistas fossem também responsáveis pela complexidade da trama.

Luzimar e Gildo são bastante diferentes. Quando menores, deviam ser garotos de uma infância comum, estudavam e jogavam futebol, ajudavam em casa. Por um acidente na infância que deixou traumas em seu grupo na época, se separaram; Gildo e seu irmão Gilmar seguiram para São Paulo, o outro continuou por ali. Luzimar parece ter uma vida tranquila e sem grandes novidades até encontrar Gildo mas, o encontro com o carro do amigo antes mesmo de vê-lo lhe causa um incômodo, uma angústia que vai se remoendo à medida que a história se desenvolve. Gildo, por outro lado, chega como aquele que se foi, seguro e vaidoso, que se acha especial por ter enfrentado a cidade grande e ter aquele tipo de sucesso. A construção destes e de todos os personagens é a riqueza do filme, que se equilibra entre silêncios e diálogos com o mesmo peso e tensão, se apropriando dos ruídos da cidade, na composição de uma trilha sonora sem música.


A montagem deixa uma reflexão; em algum momento a instalação do redemoinho se alonga, não gerando tédio, mas reforçando a repetição e o agravamento da tensão quase por tempo demais. A ideia do redemoinho se firma, um movimento circular que segue se fechando, cada vez com mais intensidade em direção ao centro, cada vez mais fechado e profundo. Para sair dali, há que imprimir uma força maior que siga pela tangente ou que rompa de alguma forma esse raio que tende a se encurtar. Toninha reforça esta ideia, aguardando com ansiedade o marido nos preparativos da casa, da ceia e dela mesma, para o Natal. Sua expectativa, a busca por Luzimar, não gera impaciência, mas uma resignação insatisfeita que reflete em nós. As mulheres do filme – Toninha, Dona Marta e até Dona Bibica (Camila Amado) – estão sempre a esperar, mais uma vez resignadas, por alguma coisa. Nenhuma delas é feliz, todas vivem sob uma frustração persistente e submissa, cada uma por uma razão.

Enquanto o nó do filme se desata sobre nós, assistimos a cidade nos invadir, a fotografia de Walter Carvalho reforça a impressão desde a primeira cena na fábrica, às imagens de chuva, a noite, o trilho do trem, as casas à beira dele. A câmera se concentra, ao mesmo tempo, no minimalismo da ação, é um filme que trata de passado, todos os personagens transparecem o que já foram, guardam suas histórias cujas camadas vão se descascando sobre nossos olhares em planos próximos, buscando os olhares deles. A proximidade da câmera nos rostos dos atores não chega a seus poros, mas parece buscar seus silêncios, reafirmando uma naturalidade nas performances que só os grandes sustentam.


Primeiro filme de um diretor experiente em audiovisual, com uma equipe forte técnica e artisticamente, Redemoinho reforça o bom cinema nacional, imprime um retrato de Brasil, daquele clichê de Brasil profundo, que capitais e cidades litorâneas costumam esquecer, em uma narrativa densa, sofisticada e complexa que prende através de olhares, esperas e silêncios. Tudo o que se diz, da preparação para o clímax quase não requer diálogos, tamanha a força das interpretações – particularmente de Irandhir Santos, Julio Andrade e Cassia Kis. Ao mesmo tempo, não há nada supérfluo, as falas são carregadas de sentido e colaboram para o abismo que os protagonistas tentam escapar e se agarram em qualquer coisa para não caírem. Seguimos junto com eles em suas lembranças e histórias pela metade, recortadas de presente e expectativa em direção ao inevitável e verdadeiro, sem piscar e, ao mesmo tempo, sem querer chegar ao fundo. Deixando seus espectadores com a agonia de ver o filme chegar nos seus finalmentes, sentindo a mesma danação e participando dos destinos de seus personagens, Villamarim se tornou, na estreia, um dos grandes nomes do nosso cinema. 
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Em junho de 1963, Valentina Tereshkova foi a primeira mulher lançada ao espaço, com a missão de rodar nosso planeta 48 vezes. Ela era soviética. Em plena Guerra Fria, quando as duas maiores potencias globais – União Soviética e Estados Unidos – brigavam por um (primeiro) lugar ao sol, a primeira tomou fôlego e abriu uma prerrogativa jamais conquistada por sua oponente. Nunca uma mulher americana foi ao espaço – mas, pelo menos, estiveram nos bastidores e foram fundamentais para qualquer homem americano ir.

O filme se passa no início da década de 60, neste mesmo momento de Valentina, quando três matemáticas negras trabalham na NASA, a agência espacial americana. Para elas terem seus direitos plenos enquanto mulheres demorou provavelmente uma vida, mas conseguiram – ao menos naqueles escritórios – vencer um pouco a barreira da melanina. A algum custo, claro.


Hidden Figures, cuja tradução literal seria perto de ‘números/figuras escondidos(as)’, faz todo o sentido, é mais sofisticado e menos piegas do que nossa criativa versão brasileira e conta a história de Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três matemáticas que trabalham nos escritórios menores da NASA como ‘computadoras’. São elas e mais uma grande equipe de mulheres negras, que realizam os cálculos e auxiliam as equipes mais especializadas da engenharia espacial. Mas, elas podem muito mais, suas inteligências e capacidades são surpreendentes. Assim, ultrapassando as barreiras sociais a fórceps galgam, cada uma, seu espaço.

As três grandes atrizes – considerando que Monáe ainda é brilhante como cantora e este é seu primeiro grande filme – dominam qualquer cena, poderiam todas ser protagonistas das histórias, cuja carga dramática se centra em Katherine, que trabalha diretamente com Al Harrison (Kevin Costner) na maior missão, que é levar o primeiro homem para fora do planeta. Além de Kevin, encontraremos Kirsten Dunst como Vivian, a colega de Dorothy em igual ou menor demandas, cujos privilégios são superiores por ser branca, e Jim Parsons (Sheldon Cooper, de The Big Bang Theory), fazendo uma espécie de rival ainda nerd e irritante de Katherine, ao se sentir ameaçado pela eficiência da heroína. 


Há um paralelo constante entre suas vidas no trabalho e como ele se reflete em casa com suas famílias, nos relacionamentos e na batalha por uma educação de qualidade, sempre relegada aos brancos e, mais precisamente no campo da engenharia, homens. É um filme americano, hollywoodiano e como tal, dá pesos e medidas sem atingir as sensibilidades e políticas da grande indústria. Sua estrutura dramática é leve, fluida e mexe nas questões raciais, de gênero e sociais muito bem, trazendo comédia a situações que hoje nos pareceriam surreais – se ainda não acontecessem de fato. Agora em tempos de Trump, boa parte das intolerâncias podem bater à porta com mais frequência e gravidade novamente.

As indicações a prêmios são devidas, dificilmente levará a estatueta de melhor filme no Oscar, mas o fazer político da Academy Awards resolveu dar voz aos negros e os creditou devidamente em justas indicações que não devem ser medidas pelos contrastes, melhor seria dizer brilhos, de suas peles à luz. O que melhora a história é o fato de ser baseada em fatos reais. É uma adaptação do livro de Margot Lee Shetterly, (uma mulher incrível com um projeto de resgatar as identidades das mulheres computadoras), feita juntamente com o diretor, Theodori Melfi e Allison Schroeder, nomes agora em ascensão pela indicação de melhor roteiro adaptado. Octavia Spencer também concorre, como atriz coadjuvante.


As premiações (um detalhe, cujas seleções servem mais à indústria e ao público que acredita em rótulos sem saber da política por trás) valem para lhe dar o destaque de termos uma narrativa sobre três mulheres negras, escrita por uma mulher negra, todas protagonistas, profissionais e ótimas. Fica a curiosidade de conhecer as mulheres da história real e ver o quão brilhantes e cheias de outras histórias devem ser. Elas ainda não foram ao espaço, nenhuma mulher americana foi. Talvez, com a "nova" política, não irá tão cedo, mas nos bastidores, não há desenvolvimento científico sem elas. Emocionante, inteligente e relevante, o filme é uma delícia.

*Estreia na primeira semana de fevereiro.
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O Carnaval de Salvador é a maior festa popular do mundo. Que não se diga tanto por estatísticas, mas por comoção, alegria e música que dominam parte da cidade uma semana por ano. Há quem se prepare financeiramente o ano inteiro para ela, há quem vá às ruas, de graça todos os anos para ver um espetáculo de estrelas da autêntica música popular baiana, brasileira, aquela que, ainda que você não goste, não vai lhe deixar parado. É dessa música e um pouco da festa que se trata Axé – Canto do povo de um lugar.

O início do filme já dá um aperto no peito, mas é de saudade. O carnavalesco soteropolitano – nativo, residente ou visitante – conhece as maiores músicas, os clássicos de 30, quarenta anos atrás. É como um grande reencontro, com o adendo de uma viagem pela história da música baiana, do carnaval e de seus fundadores. Mas há muito que dizer para além dos sucessos, falar da história da festa, de seus protagonistas – artistas e povo – da invenção dos trios elétricos e guitarras baianas, da música cantada e de todos os instrumentos que trazem a democratização da música na festa.
Luis Caldas - a primeira voz do Axé

Chico Kértesz reúne depoimentos de grandes expoentes da música baiana, traçando um panorama do passado que aqui começa com Armandinho e a família Macedo – os pais da guitarra baiana – e encerram com a decadência de alguns de seus mestres de cerimônia, fruto de uma indústria que visava o lucro e a ascensão meteórica de quem se destacava, mas não se organizava enquanto coletivo para mantê-los a longo prazo, isolando estrelas como se fossem competidores. Chacrinha foi um dos fomentadores destes músicos, levando a seu palco Luiz Caldas, Márcia Freire e outros nomes que a nova geração quase não conhece. Os artistas que vieram dos blocos e suas bandas correram para a carreira solo e outros os substituíram, como uma sucessão natural. A música dos blocos afro – Olodum, Timbalada, Ilê Aiyê, Muzenza – surge aqui com algum destaque juntamente com a reafirmação da cultura negra, mas, por alguma razão o diretor deixa passar um de seus grandes expoentes, os Filhos de Gandhy.

A montagem merece um prêmio, entretanto. Da trilha sonora – que aperta o peito de quem está longe – quanto às imagens de arquivo, há ampolas da festa para quem pouco a conhece e percebe-se inegavelmente a força dos ritmos se manifestando no povo. Não só vemos Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes em início de carreira, conquistando com raça, qualidade e força seu espaço, como Netinho, Chiclete com Banana – com e sem Bell e suas discussões ‘familiares’ – a banda que mais arrastou multidões, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, já consagrados e ícones de cultura, enquanto participantes da festa. Há ainda a importância inquestionável da WR, a gravadora que lançou todos estes nomes, que garantiu seu espaço na cena musical nacional, sob o comando de Wesley Rangel. Psirico e Harmonia do Samba viriam dar sequência comum incremento no ritmo, assim como acontece agora com Baiana System, a banda que se recusou a participar do filme e a posterior chegada de outros estilos e ritmos musicais que hoje dividem espaço com o Axé.

Daniela Mercury - a rainha
Há alguns subtextos nisso, há uma questão política forte que rege a festa, há a indústria que privilegia quem acompanha a primeira, há a desigualdade social reforçada com as cordas e segregada por cordeiros. Há a própria diferenciação, dentro do que se entende como Axé, do gênero, basta ver aí a inclusão do pagode baiano do Gera Samba/ É o Tchan e Terra Samba, do eletrônico, sertanejo e pop. Sobra um questionamento se não valeria um olhar mais apurado sobre o assunto o ampliando para a festa em si, como um seriado com episódios mais detalhados dos temas, a história da WR, a cultura afro, os novos ritmos, a política que rege a indústria, a fundação e falência de alguns blocos, a ascensão e império de outros, as mortalhas e abadás, o carnaval sem cordas. Não seria mais apenas sobre a música, mas sobre todo o Carnaval.

A palavra Axé vem do Iorubá e por definição é energia presente em cada coisa, em cada ser. Nas religiões, é a energia sagrada dos deuses. É a melhor definição para o gênero híbrido que inaugura nosso carnaval, cujas raízes misturam todos os ritmos fundadores da cultura baiana, fundadores da cultura nacional e que foi rechaçado por um jornalista roqueiro, com o objetivo de transformar um termo simbólico em algo pejorativo. A palavra coube como uma luva, seu conceito alcançou o significado original, levantando com força sua origem africana, coerente com a cultura local, a forte percussão dos atabaques, a dança e o gestual.
Olodum arrastando sua multidão no Carnaval
Ainda que careça de aprofundamento nas problematizações aqui pinceladas e faltem artistas e manifestações importantes, o filme agrada quem ama a festa e o Axé. Ainda há muito que se dizer sobre o ritmo, sua história e seus artistas, é como se aqui víssemos a introdução do assunto. É uma coletânea ou talvez um pout-pourri do que houve de melhor na produção musical baiana do início dos anos 80 até hoje, com grandes imagens de arquivo, que nos sacodem nos assentos do cinema e nos fazem querer passar o próximo fevereiro em Salvador. É, por fim, um acalento para quem gosta e conhece e uma base para quem quer conhecer, sem preconceitos e com muita alegria um pouco do que move a cultura baiana e hoje, brasileira.

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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