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Café: extra-forte


Entre 1964 e 1975, a BBC exibiu a série The Wednesday Play, dando vez e voz a diversos diretores, roteiristas e atores ingleses. Neste período, Ken Loach dirigiu 10 episódios, sendo o de maior repercussão, Cathy Come Home, de 1966. Cathy era uma jovem que casou cedo e com seu marido, logo tiveram filhos. Com sorte e sonhos grandes, financiaram a compra de um apartamento, mas, o marido precisou ficar sem trabalhar por um tempo e acabou demitido. Assim perderam a moradia e com uma sequência de infelicidades, Cathy e sua família sofrem as consequências da crise de habitação inglesa na época, sem dinheiro, sem trabalho fixo e contando com o parco auxílio do governo que os mantinha na linha da miséria, cada ano perdendo um tanto mais.

Estamos em 2017 e ano passado Ken Loach ganhou a Palma de Ouro em Cannes por seu novo filme, Eu, Daniel Blake, que estreia essa semana nos cinemas brasileiros. Daniel Blake (Dave Johns) é um senhor que se recupera de um infarto e precisa ficar sem trabalhar enquanto se recupera, contando com o auxílio do governo. Entretanto, através de uma sequência kafkiana de burocracias, a solicitação de um direito se torna uma via crucis não só para ele, o diretor nos diz, mas para qualquer um que o necessite. Em um dos escritórios previdenciários, Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma jovem mãe solteira com dois filhos que também busca um benefício e juntos, apoiam um ao outro nas carências cada vez mais agudas.


O que Ken Loach quer, retomando o assunto cinco décadas depois? Possivelmente muito pouca coisa mudou desde Cathy, ele nos informa neste angustiante drama. Não é apenas a crise de moradia em Londres e arredores, mas uma burocracia que une Kafka a Dostoievski no que pode ser mais trágico em suas narrativas, nos aprisionando como vítimas em círculos cada vez mais profundos de ineficiência e perversidade em qualquer esfera de assistência social, esta mesma que alimentamos através de impostos.

Daniel Blake é um aperto no peito, porque nos apaixonamos por esse homem que tenta não criar Um dia de fúria, mas que, paulatinamente vai sendo tomado por emoções que não pode se dar ao luxo de ter, já que seu coração é frágil a tal ponto de não poder trabalhar por orientação médica. O governo teimosamente insiste que ele deve procurar trabalho, já que lhe negaram o seguro médico, como única saída para manter o seguro desemprego e assim ter uma renda mínima para viver. É uma série de situações ilógicas que soariam surreais se vivêssemos em um país digno, mas por aqui não é difícil imaginar algo parecido.


Se Daniel precisa de um auxílio por conta de sua saúde e não consegue trabalho por tantos fatores, Katie está quase na mesma situação de Cathy, precisa sustentar seus filhos e, sendo de Londres e não havendo residência por lá, onde estaria próxima de sua família e assim com algum suporte – foi obrigada a se mudar para uma cidade em que ninguém a conhece e ela não tem formação e experiência suficientes para conseguir trabalho. Seu requerimento também é negado e agora os dois rumam inexoravelmente para a marginalidade e humilhação. É como uma funcionária do governo diz para nosso herói; tome cuidado, porque já vi muita gente honesta e boa ir morar na rua. A angústia reside em, se não conhecermos alguém que vive essa rotina de dependência do estado, nos imaginarmos carecendo dela e acabarmos desabrigados e desamparados, sendo descartados como seres humanos. Isso aterroriza ainda mais quando deduzimos ser fruto de uma infelicidade que poderia acometer qualquer um – que não fosse abastado – e uma vida se converte em desgraça gradualmente por um sistema cruel, destinado a favorecer quem consegue preencher os requisitos quase inaceitáveis dos formulários e aceita docilmente as interpretações dos funcionários embriagados de pequenos poderes.
 
As interpretações de Dave e Hayley não só corroboram todo o cinema naturalista de Ken Loach como o enfatiza; são situações tão cotidianas e plausíveis que poderíamos estar diante de um documentário. Dave Johns é um comediante que conhecemos pouco por aqui e seu personagem dramático, por vezes é aliviado nas discussões surreais em que se vê obrigado a participar, garantindo gargalhadas. É um humor sutil e sarcástico, incrementado pela intolerância à estupidez e descaso. Hayley, por outro lado, sustenta o drama e a força de uma mulher jovem que precisa ser pai e mãe, referência de educação e moral e pôr comida na mesa, da forma que der. Em Cathy, as interpretações e o impacto do filme foram tão grandes que as pessoas paravam a atriz Carol White na rua para lhe dar suporte afetivo e financeiro. Em entrevista comemorativa sobre o filme ano passado, o produtor Tony Garnett nos informa que a situação dos moradores de rua só piorou de lá pra cá, tendo mais do que dobrado o número de desabrigados em Londres. Por isso a pertinência em tratar do tema.


Filmado em ordem cronológica, tendo o roteiro sido entregue aos poucos aos atores, Ken Loach constrói em nós a tensão e angústia e nos deixa quase sem aguentar ou querer ver o final. Brilhante, urgente, imprescindível, emocionante e magistralmente construído, assim mesmo, cheio de elogios, é esse filme que foi ovacionado por 15 minutos após a sessão em Cannes. Vale cada segundo.

***

Dica da vida: diversos episódios de The Wednesday Play, inclusive Cathy Come Home estão no Youtube com legendas em inglês. Vale muito a pena.
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Definido como farsa burlesca, aplaudido em Cannes, odiado por uns e amado por outros, Mistério na Costa Chanel, o novo filme de Bruno Dumont, finalmente chega ao Brasil. A comédia situada em 1910 no norte da França apresenta um olhar crítico sobre absolutamente todos os personagens, os identificando como representantes daquela época – talvez nem tão distante desta.

A família burguesa Peteghem chega à Costa para passar férias. O pai, André (Fabrice Luchini), a mãe, Isabelle (Valeria Bruni Tedeschi), as filhas e a sobrinha adolescente Billie (Raph) se acomodam na casa com arquitetura egípcia, mas revestida em concreto. O detetive Machin (Didier Després) e seu assistente Malfoy (Cyril Rigaux) são os novos o Gordo e o Magro, que investigam uma série de desaparecimentos no local com dificuldade, já que Malfoi não consegue ficar em pé por muito tempo. Além deles, há uma família de pescadores que ganha dinheiro atravessando as pessoas de uma ponta à outra da enseada.


Mistério em si não há para o espectador, fato que eliminaria a necessidade de tradução do título para o português. Ma Loute é o título original e poderia assim ter se mantido, já que é o nome de um dos protagonistas (Brandon Lavieville), o filho do pescador Eterno (Thierry Lavieville), também seu filho na vida real. Os desaparecimentos logo são esclarecidos, sendo a família de Ma Loute, saudáveis canibais e assassinos sem remorso. Problema nenhum nisso e o grande elenco suportaria a trama felizmente surrealista, não fossem os exageros de atuação e a narrativa frágil dois entraves importantes.

Juliette Binoche também está aqui e é Aude, a irmã histérica de André e mãe de Billie, que aparece para fazer a visita anual. Ela e Christian (Jean-Luc Vincent), irmão de Isabelle são extremamente afetados e histéricos, até mais do que os donos da casa. Ela já trabalhou anteriormente com Bruno Dumont e é perceptível que o exagero foi solicitação e voto de confiança extrema no diretor. O alívio que seria encontrá-la aqui, por outro lado, vira quase um tormento, vendo-a gritar por nada a cada esquina. Tedeschi, por outro lado tem suas expressões cada vez mais reduzidas, se aproximando de uma placidez, tendo em vista todo o resto. Quem viu a atriz em Loucas de Alegria (2016, de Paolo Virzi), entenderá a diferença, já que neste último ela é a grande expressão de confusão e atordoamento, alegrias e sofrimentos exacerbados.


A história tem seus momentos, com Machin rolando pelas areias em um terno que mais parece um colchão inflável por seus ruídos quando se movimenta e Malfoy com as deduções brilhantes e, como todo assistente, salvando seu chefe. Os dois são um ganho na trama que se dilui, à medida que as cenas quase se repetem. Luchini foi um fervor em Cannes, como Binoche, que, como ela resiste nos extremos com muitas quedas – o humor físico impera – e gestos afetados. Ma Loute é o personagem mais interessante, juntamente com seu par romântico, Billie. O casal e sua complicada trajetória com direito a desconstrução de gênero em Billie – que reafirma ser uma menina disfarçada de menino – com grande atuação e Ma Loute em olhares e falas concisas são o ponto de distinção das interpretações teatrais. Grande estreia para os dois atores no cinema.

Seguimos a duração em busca de um arco narrativo que por pouco não deslancha e, salvo as críticas mordazes da sociedade, com alguns bons diálogos e ótimas cenas de naturalização da crueldade, pouco se extrai. O par romântico é a interseção entre as famílias e classes sociais, juntamente com Machin e Malfoy, que precisam estar nos dois lugares ao mesmo tempo para acompanhar as vítimas e seus potenciais assassinos, mas tudo o que se vê é sabido, com os preconceitos dos dois lados e as soluções que cada casa encontra para viver.

É a segunda vez que Bruno Dumont investe na comédia – a primeira com O pequeno Quinquin (2014-), um seriado com grande repercussão na França. O diretor é reconhecido por dramas, como A Humanidade (1999) e Camille Claudel 1915 (2013) que lhe posicionaram no Olimpo do cinema francês com justiça. Algumas vezes se pode dizer que o diretor investiu e insistiu, como uma grande intenção – especialmente na trama do casal, do primeiro encontro até seu desenlace, mas se perdeu na insistência com as gritarias e trejeitos do consagrado elenco. Aqui, seguimos como se esperássemos a força narrativa dos anteriores nesta comédia de personagens intensos, mas o resultado parece ser muito barulho por nada. Entretanto, vale o investimento na filmografia do diretor e, para quem é fã do burlesco, este pode ser uma boa escolha.
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E chegamos em 2017! É pleno verão nessa nação tropical e particularmente no Rio de Janeiro, as coisas andam quentes até demais. Para fugir desse forno, sol escaldante de morrer, se refrescar e ser feliz, por que não relaxar assistindo a uma programação eclética e divertida? Segue a nossa primeira lista do ano da Netflix – Programação de Verão!

Cisne Negro (2010, de Darren Aronofsky) – 108 minutos
Nina (Natalie Portman) é uma bailarina obstinada e perfeccionista que se prepara obsessivamente para dançar o Lago dos Cisnes e se vê ameaçada pela nova integrante do corpo de dança, a sensual e espontânea Lily (Mila Kunis). Conduzidas por um professor autoritário (Vincent Cassel) e contando ainda com Winona Rider e Barbara Hershey no elenco, foi um dos melhores filmes de 2010. O suspense e a transformação dos personagens – física e psicologicamente – são brilhantemente conduzidos por Darren Aronofsky, que já havia ganhado meu coração com Pi (1998) e Réquiem para um Sonho (2000). Seus filmes têm sempre um posicionamento sombrio acerca do mundo e aqui não é diferente, mas o conjunto de efeitos, performances dos atores, fotografia e tratamento de som tornam difícil recusar o título de obra prima. Imperdível.

Sleepless in Seattle (Sintonia de Amor, 1993, de Nora Ephron) - 105 minutos.
Tom Hanks é Sam e vive em Seattle. Meg Ryan é Annie, de Baltimore. Estamos nos anos 90 e o filho de Sam, Jonah (Ross Malinger) participa de um programa de rádio, nacional, escondido do pai, viúvo. Ele fala sobre a solidão do pai após a morte de sua mãe e de que seria bom se ele tivesse uma companhia. É uma comédia romântica e já sabemos o final, até porque foi exibido zilhões de vezes na sessão da tarde. Ainda assim, é um filme delicioso como só Nora Ephron conseguia fazer (Julie & Julia, Mensagem para você). Se você busca um filme leve, que aquece o coração e garante grandes diálogos e boas risadas, encontrou. Já vi e revi várias vezes.

Happy People (2012, de Werner Herzog e Dmitri Vasyukov) – 90 minutos
Documentário que acompanha a vida de famílias de caçadores siberianos por um ano, da preparação até a incursão na Taiga siberiana em busca de alimento. O filme nos ganha aos poucos, com cenas impressionantes e lindas das mudanças de estação, das paisagens, das pessoas que vivem do básico e para o básico. Tudo o que eles têm é imprescindível e, ao mesmo tempo, suficiente. Talvez seja uma resposta para acalmar nossas expectativas e ansiedades quanto aos conceitos de vencer na vida e ser feliz. De Werner Herzog (Homem Urso, Vício Frenético, Kasper House) e Dmitri Vasyukov, parece curto demais, para o tanto que nos conta. Vale para um dia tranquilo.

Obvious child (Entre Risos e Lágrimas, 2014, de Gillian Robespierre) - 84  minutos
Voltando para a comédia, segue essa independente, inteligente e sensível. Obvious Child é nome de música de Phil Collins – também trilha do filme – e da história de Donna (Jenny Slate) uma comediante de stand up que engravida após passar a noite com um cara que conheceu no bar. Agora ela precisa resolver se terá a criança e em torno disso, passa a conhecer melhor o ficante Max (Jake Lacy, de Girls, em ótima performance) e a se relacionar com sua família, com as dores de um coração partido e perda de emprego. É um filme sobre mil temas, de forma simples, engraçada – muito humor ácido em uma personagem descontrolada, ótima e verossímil – mas que se aprofunda seriamente em suas questões, tornando toda a trama plausível e interessante. Primeiro longa dirigido e escrito por Gillian Robespierre, indica um talento que vale a pena ter no radar para assistir seus próximos filmes.

Midnight Diner – Tokyo Stories (2016/Netflix -, de Joji Matsuoka e outros 5 diretores!) 10 eps - 26 minutos
Ainda não vi muita repercussão sobre essa série, mas certamente é uma das melhores da Netflix. Lançada no final do ano passado, conta histórias que têm em comum esse pequeno restaurante japonês que abre na madrugada. A produção japonesa é de 2009 e tem três temporadas já lançadas na tv nipônica, mas agora a exclusividade é da programadora virtual. Os episódios são sobre relacionamentos – familiares, afetivos, de amizade – intercalando com a cultura japonesa, as comidas – cada episódio recebe uma refeição como título e prato principal – e o dia a dia de uma das mais movimentadas e diversas cidades do planeta. Simples, com poucos personagens, tem uma narrativa deliciosa e seu personagem guia (Kaoru Kobayashi) dá o clima do enredo, é o chef, dono e único funcionário do estabelecimento. Sereno, como se nada o pudesse abalar, serve seus clientes e ouve sobre suas vidas. Em 2015 virou filme, que não foi lançado no Brasil e agora é esperar, feliz as novas temporadas. Estou no quarto episódio tentando assistir bem devargarzinho, para saboreá-lo aos poucos.
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Um chefe de polícia precisa desvendar uma série de assassinatos que acometem a pequena cidade onde vive. A principal suspeita recai em um japonês que chegou há pouco tempo na cidade, um senhor que o xamã local acredita ser um fantasma, um espírito ruim dominando um corpo sem vida. Um dia, o chefe de polícia descobre estranhos comportamentos que via nas vítimas antes de suas mortes em sua própria filha. Esta é a sinopse do novo e conturbado filme de terror coreano, O Lamento.

Com duas horas e meia de duração, seremos levados por uma seqüência de crimes obscuros e o tema da possessão, uma constante dos filmes do gênero. As atuações corroboram o que conhecemos sobre o cinema coreano, os exageros e trejeitos das encenações nos deixam entre uma comédia pastelão e a crescente tensão e desespero do protagonista, com características quase inverossímeis. O roteiro investe em uma trama com desdobramentos após desdobramentos, mas, em algum momento, fica claro o resultado. Ainda assim, a seqüência final nos ganha, em uma montagem paralela enfatizando as ações de seus três maiores personagens.


Terceiro longa de Hong-Jin Na, com 15 prêmios no currículo tendo O Lamento sozinho levado seis, o diretor sabe manter o ritmo e a tensão do filme, ainda que este pudesse ter talvez vinte minutos de redução. A trama por vezes se repete e em seu redemoinho não chegamos a nos perder, mas voltamos ao mesmo ponto em alguns momentos, sem necessidade.

Entretanto, a riqueza do filme está em ultrapassar sua ideia de base, o filme não se encerra no terror de possessão. O próprio termo ganha outras conotações quando relacionamos seus simbolismos. A chegada de um japonês idoso à cidade que já foi acusado de estuprar uma mulher sul-coreana é uma referência óbvia à Segunda Guerra Mundial. Naquela época, quando o Japão dominava o país, estabeleceu a criação de bordéis para seus soldados, vitimando as mulheres sul-coreanas, então chamadas de consolos, literalmente. Elas eram rotineiramente estupradas, torturadas e escravizadas pelos militares japoneses. Ainda hoje o Japão não assume o grande feito, apesar do mesmo ser reconhecido internacionalmente. Não apenas isso, mas a dominação japonesa no território coreano ainda hoje gera outros desgastes, já que a potência nipônica acredita ter autoridade para nomear o mar entre as duas nações – Mar do Japão (enquanto a Coreia do Sul entende como mar do Leste) – e tomar para si as ilhas Dokdo, hoje propriedade sul-coreana. O filme dá conta dessas insinuações muito bem e até agressivamente, alimentando a má impressão que aquele país tem do outro que o dominou e torturou.

A riqueza do filme está, de fato, nas múltiplas interpretações de sua narrativa, que ultrapassa o terror óbvio. Talvez nos incomodemos com as performances dos atores, mas é uma diferença cultural, tal qual a nossa percepção sobre a estrutura e estilo dos filmes indianos. Merecedor de seus prêmios, poderia ser menor, mas não deixa de ser uma boa produção para quem é fã do gênero.
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Rachaduras nas paredes e tremores no apartamento de Emad (Shadad Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti). O casal deixa o imóvel com risco do desmoronamento. Emad é um professor de literatura durante o dia e ator de teatro à noite. Rana é atriz. Juntos, ensaiam A morte do caixeiro viajante, de Arthur Miller. Com a ajuda de um colega do elenco teatral, se mudam para uma cobertura que requer alguns reparos. Sozinha em casa, Rana é atacada por um desconhecido e espancada. Esse é o início do que pode ser um dos filmes mais interessantes e inteligentes do próximo ano.

Shadad e Taraneh são frequentes no cinema de Asghar Farhadi, assim como a temática do comportamento, relacionamentos e sociedade. Além desta última, o diretor tem mais um ponto de convergência com outros cineastas iranianos: a direção dos atores. Há um naturalismo presente nas dramatizações e diálogos que remete ao dia a dia real, cria as possibilidades de histórias verdadeiras, que acontecem na frequência da vida de tal forma que seus filmes poderiam ser documentários. Esse paralelo é um ganho para o espectador: vivemos fragmentos de uma cultura pulsante, como se fosse possível viajar imediatamente para aquela cidade e encontrar aquelas pessoas. Talvez até mais do que isso, é também como se víssemos amigos na tela, seus temas atravessam fronteiras e, mesmo considerando grandes diferenças culturais, há semelhanças no assunto, na estrutura narrativa e mesmo na performance dos atores com relação ao que vivemos do lado de cá.

Aqui, a narrativa questiona os reflexos de uma cultura que reduz a mulher ao conceito de honra definido por e perante o homem. Asghar Farhadi a reforça de forma quase subliminar, instaurando uma ponta de desconfiança em suas tradições, a partir do que expõe em sua filmografia. Essa é a força do cinema do diretor, a consistência de um discurso que não rompe com seus valores, mas que os põe à prova quando a condição humana entra em conflito com regras de conduta; especialmente no que concerne a ser mulher no Irã, sem se ater exclusivamente à religião, um tema mais frequente da cultura local.

Em À procura de Elly (2009), uma mulher desaparece na praia, em um fim de semana na casa de pessoas que ela pouco conhece. Os homens e mulheres que conviveram com ela nesse tempo e que a buscam, preferem antes manter sua honra a colaborar com as investigações e isso é levado ao extremo. Com A Separação (2011), um casal entra em crise quando a mulher vê a necessidade de morar em outro país, dando melhores condições de vida para si e para sua filha, enquanto o marido precisa cuidar do pai idoso e enfermo e as quer a seu lado. Em O Passado (2013) outras situações que envolvem um casal em crise a partir de segredos do passado, reforçam e questionam a manutenção de um comportamento em oposição à própria existência.

O Apartamento (2016) reafirma suas ideias de maneira ainda mais contundente. Uma mulher casada, atriz, é atacada dentro de casa por um desconhecido. A palavra estupro ou violação não aparece uma só vez em todo o filme e sua suspensão é uma das grandezas do roteiro, criando uma tensão que cresce gradualmente, como se fosse ao mesmo tempo impossível e imperativo tratar das violências cometidas e da gravidade da intolerância do marido em aceitar que a mulher não denuncie o crime à polícia. Uma situação insustentável se instaura e Emad decide fazer justiça – e a tal honra – à mulher sofrida, sem entender completamente a amplitude do que lhe aconteceu e suas reações.


O que é interessante e ao mesmo tempo poderia ser um ponto de atenção é que o filme se volta a Emad e suas preocupações, cabendo à real vítima um papel secundário reativo, de quem se recusa a uma exposição devida a um detalhe que favoreceu o crime. A mulher quer esquecer e precisa reaprender a viver apesar do terror, e isso é um retrato cotidiano tanto no Irã quanto em muitos outros países, onde a violência contra a mulher é uma rotina, tal qual a vergonha em denunciá-la. O que acontece, e é tão sabido que talvez seja desnecessário por em texto, é que as mulheres violentadas sofrem muitas vezes mais agressões quando vão às delegacias. De alguma forma incoerente, há uma distorção da visão agravada pelo costume do machismo que argumenta em favor do criminoso, culpando a vítima, por exemplo, por um comportamento provocativo, por uma vestimenta sedutora. Assim, talvez Farhadi se destacasse mais e sua história tivesse um impacto ainda maior – entenda-se que o filme é ótimo do jeito que está – se pesasse a mão ainda mais na questão feminina, dando mais voz à Rana.

Levando o prêmio de melhor roteiro e melhor ator em Cannes, é muito fácil entender o porquê. O paralelo da casa ruindo no início do filme é uma metáfora para tudo o que se seguirá: o sofrimento da mulher, um suspense crescente a cada atitude do marido, as consequências de decisões graves, a crise no relacionamento que se torna quase abusivo e que também rui. Ainda, a relação entre a vida de Emad e Rana em contraposição com seus personagens na peça, uma sutileza a mais na obra, carrega o espectador para um novo patamar de enriquecimento e sofisticação de uma história sem afetação. Não é simplesmente uma obra refletindo outra, mas a justaposição de narrativas – as aulas de literatura, o roteiro cinematográfico e os diálogos e cenas de ensaio do Caixeiro Viajante – que culminam em uma construção dramática vertiginosa e brilhante.


Tão impactante quanto a atuação de Shadad, é a de Taraneh, digna de tantos prêmios quanto ele. A sequência final nos deixa sem fôlego, em um clímax com grandes resoluções e suspense. Tudo o que vemos são trocas de olhares intensas, expressando muito mais do que as falas. Como uma caneta de ponta porosa e tinta indelével, gradualmente a narrativa acentua seu drama em um suspense não só quase insuportável – ao vermos a agonia de Rana em se omitir e tentar superar seu drama – quanto permanente, a partir do momento em que se percebe estar em um caminho sem volta, espectador e personagens. Taraneh nos transporta para uma humanidade inesperada e sentimos vontade de gritar com as decisões de nossa heroína-vítima. Toda essa riqueza e complexidade moral lembram os filmes de Susanne Bier (Segunda Chance, Em um Mundo melhor) que nos deixam sempre entre a cruz e a espada, entre o que é certo, o que é necessário e o que queremos ou teríamos coragem de fazer. O Apartamento é, enfim, imperdível.
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Fará três anos no próximo fevereiro que estamos sem Eduardo Coutinho. Nosso documentarista favorito, um dos melhores que já houve no Brasil e no mundo, que conversava – ao invés de entrevistar – com seus sujeitos, protagonistas, convidados. Autor de Edifício Master – aquele que mostra a vida em um prédio de apartamentos de um cômodo em Copacabana, Cabra Marcado para Morrer – um dos filmes mais importantes de nosso cinema, histórico, proibido na ditadura e finalizado vinte anos depois e Canções – incrível e emocionante filme sobre as músicas populares brasileiras que marcaram as vidas de algumas (muitas) pessoas – para só citar três, Coutinho não extraía ou arrancava verdades, mas compartilhava histórias, relatos íntimos de seus brasileiros.

Este ano, o Brasil conheceu uma grande documentarista, na literatura. Svetlana Aleksiévitch, ucraniana, nascida em 1948 e laureada prêmio Nobel de literatura em 2015, começou a ter sua obra traduzida para nosso português, uma sorte e felicidade – e meus eternos agradecimentos a Lucas Simone, que traduziu direto do russo e à Companhia das Letras, que acaba de lançar o terceiro volume, O Fim do Homem Soviético.


Coutinho e Aleksiévitch poderiam ser parceiros de trabalho ou, no mínimo, grandes amigos. Essa senhora nascida na Ucrânia da União Soviética conversa com seus conterrâneos sobre temas caros às suas vidas, grandes assuntos de nossa história mundial. O primeiro que li, sobre o acidente nuclear em Tchernóbil em 1986 (Vozes de Tchernóbil), é um impressionante conjunto de relatos sobre a tragédia, a percepção do povo sobre ela, as estratégias do governo para omitir dados e estatísticas ao mundo, as trágicas consequências e, no meio disso tudo, um ideal socialista levado ao extremo, a cegueira e também a clarividência de quem viveu aquilo tudo.

O segundo, A Guerra não tem rosto de mulher é sobre a participação da mulher na Segunda Guerra Mundial entre 1941 e 1945. Este livro abre nossa percepção para um universo novo – eu, pelo menos, nunca havia pensado em uma perspectiva feminina para as guerras – e passamos a conhecer franco atiradoras, fuzileiras, paraquedistas, pilotas de avião, tanto quanto enfermeiras, médicas, cozinheiras, lavadeiras. É chocante da mesma forma que o anterior e também por não seguirmos ideais políticos como era feito décadas atrás, esta crença na necessidade do combate, na importância e orgulho em participar, na vontade política e, é claro, na própria natureza dolorosa e selvagem de uma guerra. Esses relatos, em sua maioria feito por mulheres, puxam também para o lado sensível do front, para o cuidado nos hospitais de campanhas e nos acampamentos, para a coragem absurda, camaradagem e parceria – sem omitir suas cruezas e crueldades.

Agora me encontro com o desmantelamento da União Soviética, já nos anos 1990 (O Fim do Homem Soviético), entendendo mais uma vez estas verdades individuais, a adaptação a uma nova realidade, a um novo sistema e economia, ao novo cotidiano das pessoas comuns, testemunhas, participantes que, se estivessem em um filme de ficção, seriam figurantes. Aqui, como em Coutinho, são protagonistas.


Svetlana entra na sala das pessoas ou em suas cozinhas e puxa uma cadeira. Ela inicia sua busca por alguns sujeitos e nessas pesquisas, outros aparecem e se convidam, querem dar seu testemunho, querem que seu parecer esteja ali, tão importante e fundamental quanto o da amiga, o do vizinho. São registros vivos da nossa História recente, que foi presente até pouco tempo atrás e cujos livros de história os contam priorizando datas, patentes e sobrenomes, sem o detalhe do olhar subjetivo, sem o brilho do sentimento. Quem dera a escritora tivesse uma câmera à mão e filmasse seus encontros – seria diferente, de fato, mas poderia ser tão bom quanto sua escrita.

A região do que era a União Soviética sempre me pareceu um imenso e nebuloso território que pouco se conhecia, não fossem as pinceladas da Guerra Fria na escola, alguns filmes, os estudos sobre cinema mundial, mas quase ou nenhuma literatura. A exceção, e para isso vale o parêntese, é o livro de John Steinbeck e Robert Capa, Um Diário Russo (Cosac Naify), em que Capa fotografa um tanto do que Steinbeck narra, o diário de viagens de dois imensos nomes da cultura mundial, no início da Guerra Fria, em 1947. Este olhar é do estrangeiro, de quem está habituado ao capitalismo, ao Ocidente, a outra forma de ver o mundo, suas polaridades e se confronta com uma realidade bastante diferente da anti-propaganda americana sobre aquela nação.

Agora um novo-velho mundo se abre e se apresenta da melhor forma, se descarnando, se entregando sob relatos ocultados por décadas de aprisionamento intelectual e político a essa voz  e ouvidos curiosos e acolhedores da escritora. Aleksiévitch se aproxima de Coutinho, caminha entre seus conterrâneos, revela os mais íntimos testemunhos, sobreviventes e viventes do mundo soviético. A voz, ainda que a guia seja a escritora, é dada para o outro e assim começamos a entender um pouco o que foi o pensamento, o modo de vida soviético, o ideal. É impossível parar de ler seus livros, seguimos com uma ânsia cada vez maior por novas histórias, por entrar na cozinha daquelas pessoas e dividir aquele café – ou chá se você preferir acompanhar a cultura local. Coutinho fazia o mesmo, mas sua caneta era a câmera.

Ainda não há um documentarista cineasta como Coutinho. Seus retratos do povo brasileiro a partir de suas conversas – mais do que entrevistas – descortinaram o maravilhoso universo das não celebridades, mostrando que as pessoas comuns são muito mais interessantes em qualquer aspecto do que aqueles modelos programados pela mídia. A diferença entre eles talvez resida na profundidade e no interesse, apenas. A profundidade em suas vozes, olhares e histórias, associada ao único interesse em dividir esse conhecimento que têm sobre si, sobre o tema que o diretor trouxe, ao contrário de um mercado, da valoração do corpo físico como suporte publicitário. Eduardo segue como uma perda irreparável e não há sequer substituto próximo; como não há outra Svetlana, a documentarista da palavra. Se fosse possível, sugeriria que ela fizesse uma série televisiva, se conseguisse convidar e deixar à vontade – como Coutinho fazia – seus protagonistas. É uma ideia de alguém carente por um cinema que não mais existe e que encontra na literatura dessa grande mulher um conforto. Seus livros são, sem dúvida, a melhor descoberta deste conturbado 2016.

Dois links importantes: a bibliografia de Svetlana e a filmografia de Coutinho. 
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Os filmes de Xavier Dolan não passam despercebidos. Para o espectador de primeira viagem, qualquer tipo de choque é esperado em pelo menos quatro, dos seis longas que vi. O que mais havia me impressionado até poucos dias atrás foi Mommy (2014), lançado ano passado no Brasil e que causou impacto com a qualidade técnica e narrativa. O filme centrado na relação entre um filho e mãe problemáticos nos leva a uma paixão crescente pelo que estamos vendo, até seu desfecho. Com este É apenas o fim do mundo, o jovem diretor reafirma sua qualidade e maturidade estilísticas, agora com elenco estelar.

Louis (Gaspard Ulliel), um escritor entre seus trinta anos tem uma doença terminal e viaja à casa da família para contar a trágica novidade. Ele parece bem, apesar de deprimido, e pretende passar por aquele dia o mais rápido possível. Na casa, encontrará o irmão Antoine (Vincent Cassel) e a esposa Catherine (Marion Cotillard), a mãe (Nathalie Baye) e a irmã mais nova Suzanne (Léa Seydoux) que o esperam para um almoço feliz. Tendo morado fora e dado poucas notícias por doze anos, imagina um retorno triste e com sorte, calmo.


Adaptação da peça homônima de Jean-Luc Lagarce, o filme se centra em poucas locações e atores, trabalhando a intensidade dos diálogos e interpretações, como Polanski fez em Deus da Carnificina. Enquanto no último, altas doses de humor negro e sarcasmo permeiam a trama, aqui é o drama, a tragédia iminente que se abaterá naquela casa, é o que nos prenderá até o fim. Hitchcock uma vez disse algo como – e é uma das melhores explicações para o suspense – que ele acontece quando é dito ao espectador ‘há um assassino atrás da cortina’ e os personagens não sabem, então ficamos atentos, ansiosos e quase angustiados, com a iminência do crime. Assim acontece aqui e a cada minuto que Louis posterga sua confissão, subimos pelas paredes da sala do cinema, em agonia.

Este sentimento é o cerne de todo o drama familiar. Os doze anos fora de casa criaram uma expectativa em seus familiares, talvez à exceção da cunhada Catherine, que nota algo de errado nessa visita aparentemente inócua. As trocas de olhares entre Louis e ela indicam uma postura de apreensão submissa da última, que comprovará mais de uma vez baixar a cabeça para o marido emocional, Antoine. Vincent Cassel explora seu personagem ao âmago de uma dor contida há tempos e explode ali, na mesa do almoço. A mãe remete às outras mães dos filmes do diretor – as relações entre suas mães e filhos são frequentes e provavelmente autobiográficas em certa medida – um tanto controlada em sua própria loucura evidenciada no figurino e maquiagem, parecendo sempre alheia e, neste caso, menos caricata e mais humana. Suzanne é a caçula que sofre sozinha, insatisfeita com a vida que leva e aguardando a atenção do irmão do meio, o pródigo, com quem sempre se identificou.


Todos os personagens carregam seus dramas pessoais, histórias fragmentadas que percebemos aos poucos e aquela visita parece despertar lembranças e expectativas em cada um. Fica evidente – e é uma das muitas qualidades do filme – que cada um explora uma questão com Louis, específica e individual. É óbvio tratar assim, se falamos sobre relacionamentos, mas é justamente essa troca que permite as manifestações diferentes de cada um, que parecem nervosos, ansiosos por saber o que traz aquele querido e também estranho parente de volta. Em cada ator há um desdobramento e por serem todos experientes e inquestionavelmente bons, representam os grandes temas da personalidade, da vida de qualquer pessoa: solidão, frustração, amadurecimento, afeto, medo, sexualidade, etc.

É nó apertado, emaranhado em si mesmo que o diretor nos mantém como reféns, sem sabermos quando será desatado. A câmera posicionada próxima aos atores, quase entrando em seus rostos, amplia uma cumplicidade, agonia e quase claustrofobia. Queremos sair daquela situação o quanto antes e é assim que parece se sentir Louis. Ele não faz parte daquela rotina, seu comportamento busca o melhor momento, mas sempre o adia, enquanto tenta se aproximar de cada um cautelosamente, retomando alguma intimidade perdida anos atrás. Seu comportamento é o oposto de sua família e não é difícil compreender porque resolveu sair dali, quando todos parecem sempre ter os nervos à flor da pele. A casa, um reduto de aconchego, se transforma em prisão e mais de uma vez ele se vê obrigado a tomar um ar, fumar, sair daquele ambiente.


O filme passa rápido e seu final nos dirá muito mais algum tempo depois dos créditos, nos nossos questionamentos e digestão do que acabamos de ver. As críticas que enfatizam uma expectativa maior do que o que vimos, parecem não apreender a intensidade que aquele cerco – é essa a impressão, de que o protagonista tanto não consegue ficar ali muito tempo, como não consegue sair enquanto não atingir seu objetivo – provoca na trama e em nós. Há uma tensão crescente e conhecida em quem tem familiares intensos. O retorno para a casa da família, ainda que de visita, é sempre carregado de apreensão dos dois lados: o que se muda espera um período tranquilo – ainda que saiba não ser plenamente possível – e o que fica, aguarda o retorno do carinho, da saudade, daquela intensidade de atenção potencializada, guardada por um tempo, o tempo da volta. É dessa equação que parte Xavier Dolan, com o ápice da tragédia deixado à espreita – e o título não poderia ser melhor. 
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Não é sobre música. Coragem, primeiro documentário de Sebastião Braga traz a história de Felipe de Luna e Diana Ligeti, aluno e professora de violoncelo na capital paulista. Ele, bolsista da EMESP – Escola de Música do Estado de São Paulo – vindo de um bairro de periferia e família humilde, ela musicista romena que se divide entre Paris e São Paulo – a partir do projeto da EMESP junto com o Conservatório de Paris – dando aulas e se apresentando em concertos. Com tanto em comum, vamos descobrindo aos poucos essa parceria e as vidas de nossos heróis.

Embora o filme seja permeado por concertos e um ótimo tratamento de captação de som, além da reprodução de composições clássicas e conhecidas que criam uma atmosfera interessante, a música é apenas o contexto, pano de fundo para o tema do filme. Como o título indica, é preciso ter Coragem para viver de música ou – ainda melhor – para fazer uma escolha difícil e persistir nela, por acreditar ser a única viável para a vida. Coragem também é a forma com que Diana sempre se despede de seus alunos, um acalento, força vital para enfrentar um ramo difícil sendo tão jovem.


Felipe fez sua mãe acreditar, aprender a gostar de sua vocação que considerava irritante pela repetição nos ensaios, sempre os mesmos trechos das músicas até a perfeição. Vivendo sozinha e criando dois filhos, fez o que pôde para sustenta-los mesmo quando lhes faltava o básico. O violoncelista em formação insistiu e, agora que enxerga uma saída profissional se desenhando em um futuro próximo, enfrenta a ansiedade, as expectativas e aquele medo guardado em nós, da grande mudança de vida. Esse vislumbre de sucesso não significa certeza – ainda que seja quase previsível devido à dedicação e talento – e a dúvida ele vence com os ensaios.

Diana já esteve em situação similar. Escolhida para ser bolsista em Paris na derrocada da União Soviética – antes a Romênia era parte da grande nação socialista sem abertura para o ocidente em qualquer aspecto, especialmente no cultural – lá fez sua vida, com a promessa de gerar oportunidades para jovens da mesma forma que conseguiu a sua. Um encontro não casual formou a nova dupla e juntos, traçam seus caminhos de diferentes aprendizados em reciprocidade.


Documentário de estreia de Sebastião Braga, o filme se sustenta bem, acompanhando as rotinas dos protagonistas em separado e quando se juntam, em um paralelo com quem já alcançou um patamar e um conforto com a música e aquele que está trilhando seu caminho, ainda que não seja iniciante. Cresce em quem assiste um orgulho ao ver Felipe galgar patamares através do próprio esforço e dedicação, como um aluno focado e persistente, que sabe o que quer e nos dá uma certeza de que alcançará. Vemos em sua família esse mesmo olhar que brilha ao ver uma saída positiva em um bairro carente e perigoso do subúrbio paulistano. Ao mesmo tempo, é interessante ver que o filme amplia a perspectiva histórica e de formação de Diana, que segue aprendendo e praticando, mesmo quando ensina a seus alunos. É um filme que trata da troca de ensinos, perseverança e um pouquinho de talento, item necessário, mas não fundamental ao aprimoramento de qualquer um que se queira artista.  
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Antes de sair de férias, previ que teria tempo de escrever as despedidas, dicas para deixar o tempo passar, para seguir se perdendo nas listas intermináveis que ponho aqui e que a Netflix nos impele e subverter. Ledo engano: o trabalho me tomou, tendo que adiantar tudo aqui para sair de férias, com 'o resto da vida' que corre em paralelo e pronto, nada aconteceu. Mas, agora volto depois de pouco mais de um mês, no meio da semana para correr atrás do tempo, tão caro e escasso ultimamente.

De volta das férias magníficas que trarão publicações posteriores, segue o retorno das Maravilhosidades com um pouco de novidade, clássicos, seriados e documentários. Tem para todos os gostos! 

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Ata-me (1989, de Pedro Almodóvar) – 101 minutos
Almodóvar não é novidade no reino do cinema. Todo mundo pelo menos já ouviu falar do diretor de Fale com ela, Volver, Má Educação, A pele que habito e Julieta para lembrar apenas de alguns ótimos filmes. Todos estes, contudo são de sua nova safra, mas a Netflix esconde algumas pérolas, como Ata-me, de 1989, com Antonio Banderas novinho e Victoria Abril fazendo um par romântico inesperado e esdrúxulo. Banderas é Ricky, um homem que acaba de sair de um manicômio e decide encontrar a mulher de uma vida, uma ex-atriz pornô que encontrou apenas uma vez e que hoje atua em um filme b de um diretor aficionado por ela. A forma que Ricky encontra de seduzir e convencer a mocinha a viver com ele é simples e direta: um sequestro, até que ela entenda que o ama. Inesperado, ousado e divertido, traz um Pedro Almodóvar mais livre, com as liberdades sexuais contrastando com os sexismos da indústria do cinema e da vida e ainda, com as cores lindas e fortes que o diretor sempre imprime em seus filmes.

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O homem irracional (2015, de Woody Allen) – 95 minutos
Saindo de um grande diretor para outro, o Woody Allen de 2015 é este Homem Irracional, uma comédia com humor negro escondido em grandes diálogos e moral duvidosa. Joaquin Phoenix é um professor de filosofia entre o prestígio e a decadência que começa a lecionar em uma universidade onde é adorado, especialmente pelas mulheres. Ali, deprimido, é levado a uma situação extrema e descobre uma vida melhor após uma drástica decisão. A comédia aqui é levada ao limite e não haverá gargalhadas, mas as pontuações entre as aulas de filosofia e sua aplicação prática são mordazes e lógicas: de alguma maneira podemos acabar concordando com a situação e essa é a grande qualidade do filme, além da interpretação de Joaquin e Parker Posey. Não será o melhor filme do diretor, mas já ganha do fraquinho Magia ao Luar e nos deixa ansiosos por uma chance de ver sua série nova na Amazon (Crisis in Six Scenes) e seu próximo filme, em pre-produção. Isso tudo no aguardo, depois de Café Society lançado esse ano e lembrando os 80 anos de possivelmente o diretor mais ativo do planeta.

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Black mirror (2011-, de Charlie Brooker) – 60 minutos / episódio
A terceira temporada estreou essa semana, então o assunto é quente em todas as publicações do gênero. Black Mirror, desde a sua estreia traz a pauta do futuro distópico e não tão distante e suas relações com tecnologia, redes sociais, política, sociedade, tudo o que nos cerca, por fim. Cada episódio é independente do anterior, mas todos trazem um diálogo crítico do que vivemos hoje, de como nos relacionamos em família, com os conceitos de poder, informação e sociedade e muitas vezes em que parecemos ver um episódio levado ao exagero, nos deparamos com alguma situação similar, talvez em menor escala, que conhecemos, algum fato de um amigo, de um político, algum escândalo real. A série é extremamente bem produzida e abre espaço para discussões sobre o que queremos para o futuro e de que forma  nos comunicamos, usamos e vivemos nossas informações e as que temos de quem nos cerca, de que forma e se usamos as tecnologias a nosso favor, por um viés de evolução social ou em benefício próprio. Vale, pelo menos e com certeza, o primeiríssimo episódio da primeira temporada.  

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A family affair (2015, de Tom Fassaert) – 110 minutos
Uma história de família, para mim, é um dos maiores assuntos para se fazer um grande filme, principalmente se for documentário. Essa ideia de investigar quem somos a partir de quem, em tese, nos conhece melhor, corrompe aquela outra de que o documentário deveria ser objetivo e enriquece ainda mais o gênero. Aqui, o diretor Tom, de 30 anos, que mora na Holanda é convidado por sua avó com então 95 para que lhe visite na África do Sul. Ali, os dois conversam por dias e ele filma todo o encontro: sua avó em si é um personagem para a grande história, abandonou os filhos a uma espécie de orfanato/creche e foi viver a vida como modelo, independente e afastada do resto da família. O filme é esplêndido, como Elena e Stories we tell, por dar diversas dimensões a uma história sem heróis e bandidos, por mais que sejamos levados a criticar essa mulher à primeira vista. Impressionante, contagiante e interessante, é um dos melhores filmes documentários da Netflix hoje.

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Requisitos para ser uma pessoa normal (2015, de Leticia Dolera) – 90 minutos
Primeiro filme dirigido por Leticia Dolera, que também o escreve e protagoniza, este Requisitos é uma comédia deliciosa. Letícia é Maria de las Montañas, uma mulher que chega aos trinta anos voltando para a casa da família, sem dinheiro, sem namorado, sem vida social e sem emprego. No meio desta crise sem fim, Maria segue os preceitos de um livro de autoajuda e com uma troca de favores com um novo amigo que precisa perder peso – um de seus requisitos para ser normal – consegue, aos poucos, entender porque ela quer ser normal, se ela precisa disso e que requisitos realmente são importantes para ser feliz, normal, não normal, aceita ou qualquer termo que a satisfaça. Leve, inteligente e crítico sem ser chato, o filme passa que nem percebemos e acaba bem, nos fazendo buscar outros filmes e séries que a diretora multitarefa possa ter participado. 
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Julieta parecia uma certeza, antes de ver o filme. O pôster, os atores e atrizes, literalmente a imagem que o filme passava era de algo melhor do que o último Almodóvar, Amantes Passageiros. Da melhor forma possível, em um feriado olímpico em meados de agosto, frio, chuva, cachecol e café.
***

Julieta é inspirado em três contos de Alice Munro, de seu A Fugitiva e uma ansiedade surge quando se sabe disso apenas após a projeção, quando se começa a pensar e pesquisar o filme. Alice Munro é Nobel, mas isso não importa muito – apenas atesta uma qualidade já sabida anteriormente. Ela escreve sensivelmente, deliciosamente sobre ser mulher, sobre as mulheres que passaram e passam por sua vida e da forma como a vida se apresenta, em contos que nos deixam com vontade de saber mais. Você começa um livro despretensiosamente, sem nem saber nada direito da autora e quando se dá conta, já comprou dois, três, quatro. Dói acabar de ler e se despedir daquelas personagens todas. Imagino que Almodóvar se apegou tanto a elas, que lhes dedicou um filme inteiro.


Então, o livro é A Fugitiva, os contos são Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio. A história de Almodóvar é a de uma mulher sofrida que se apega à ausência da filha como um vício, na esperança de um reencontro após uma tragédia. Julieta é professora de literatura clássica e ensina justamente as tragédias, epopeias e grandes clássicos. Interpretada por Adriana Ugarte e Emma Suárez nos dois tempos da trama, as duas atrizes são imensas no que lhes competem. Adriana Ugarte se transforma de uma jovem e moderna professora a uma mãe que então entra em uma depressão absurda e ela nos faz participar de sua dor. Emma é a Julieta que se reconstrói, que aceita o passado e precisa viver sozinha. Ao mesmo, a recaída, como a volta de um vício ruim a transforma e a depressão a alcança novamente. Mas nossa protagonista não é a única mulher de que precisamos falar.

Almodóvar já foi estudado em não sei quantos artigos, muito se fala sobre suas mulheres, sobre sexualidade e não é à toa. Todos os seus filmes abordam os dois temas que fazem parte da própria vida do diretor, como os protagonistas neuróticos de Woody Allen, os perversos de Kubrick ou os intensos de Bergman. As mulheres em Almodóvar são quase em todos os seus filmes, protagonistas fortes e humanas, personagens complexas e apaixonantes em todas as cores – os famosos e vivos vermelhos, verdes, laranjas e azuis – e sempre ultrapassam barreiras, há sempre um risco iminente e elas se sobressaem, porque precisam viver acima do que as atormenta. São mulheres que atropelam o machismo com um caminhão, passam por cima e às vezes, nem reconhecemos o tema como algo que as abale tamanha sua força perante o que se apresenta. Seus homens - principalmente os heterossexuais - são acompanhantes, à exceção do que vemos em A Pele que habito e Má Educação, talvez - são relegados ao plano de complemento, participando das histórias delas.


Julieta se apega à Ava (Inma Cuesta), ex-amante e amiga de seu marido Xoan, precisava de suporte e sozinha não conseguiria dar conta do que se lhe apresentaria. Sua família era em si uma tragédia repetida de uma mãe em declínio físico e mental e um homem que a substituía quase por não haver alternativa. É um daqueles momentos em que a moral é vencida por uma realidade que a põe em xeque. Ava era uma amiga de todos e a amizade das duas mulheres superava crises de um passado de culpa e remorso. 

O diretor nos impõe questões caras e frequentes, cotidianas que escapam aos filmes bobos, a separação da filha Antia, a escolha dela de se afastar da mãe e escolher em um culto, uma saída para sua liberdade se prendendo de outra forma. Talvez não tenha sido apenas o encontro com a fé, mas a culpa que também a acompanhava, de um relacionamento intenso e não assumido com sua amiga de infância Bea, mas o destino lhe reservará surpresas de uma história que se repetirá.


Almodóvar retoma sua forma anterior a Amantes Passageiros, que instaura uma dúvida, uma coceira ardida como quando uma formiga nos morde. Amantes foi uma comédia de escracho que tentava retomar algum exagero do inicio de carreira, mas faz mal, como uma pornô-chanchada brasileira. Foi um susto, como um pesadelo que assistimos e Julieta vem como um sonho bom, retomando o vigor narrativo de grandes histórias e personagens, rediscutindo suas questões de gênero, sempre entrelaçadas com sexualidade, posicionamento e liberdade de expressão. A fotografia, o estudo de cena e arte reforçam o que o diretor faz melhor junto a sua equipe, em planos que são literalmente gostosos de ver, atiçando o nosso paladar, tornando o filme sensível a mais sentidos do que precisaria.

Se no anúncio de fim, ficamos quase tristes em uma sala lotada em plena noite de segunda-feira fria e chuvosa é porque ele conseguiu novamente. O diretor nos prendeu em sua trama com menos comédia do que alguns de seus filmes anteriores, mas sustentando em poucos atores uma grande tragédia em cores fortes e lindas.
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Aquarius, Kleber Mendonça Filho

Há uma grande diferença entre os litorais de Recife e Salvador, mas uma das mais marcantes, que é comparável a outras grandes cidades é a construção de prédios em suas orlas. Há poucos anos, Salvador permitiu o início da construção de prédios maiores de três andares na costa e isso ainda caminha com dificuldade, enfrentando barreiras jurídicas para a sorte dos habitantes e infortúnio das construtoras. Em Recife, por outro lado, essa restrição não existe e tanto lá como no Rio de Janeiro, em Vila Velha e em tantas outras cidades litorâneas, há uma moderna faixa vertical que atravessa o caminho da praia, criando um visual urbano de frente para a natureza perene, aumentando as temperaturas atrás do paredão de concreto e eliminando o passado de casas antigas e construções modestas.

Em Recife, na praia de Boa Viagem, mora Clara (Sonia Braga), uma viúva de 65 anos que habita o Aquarius, um edifício de 3 andares entre outros maiores. O Aquarius está vazio, Clara vive sozinha tanto em seu apartamento quanto no prédio que sua filha Ana Paula (Maeve Jinkings) insiste em dizer ser fantasma. Não só ela, como Diego (Humberto Carrão) concorda, o neto do dono da construtora que comprou todos os outros apartamentos e depende da saída de Clara para iniciar a demolição deste e a construção de mais um prédio de não sei quantos andares. Ele tenta gentilmente convencê-la a vender sua residência com o que parece ser uma boa proposta, mas Clara não quer sair, quer viver em seu apartamento incrível, aconchegante onde guarda memórias e a história familiar e agora individual, estando sozinha e muito bem, obrigada, de frente para o mar.

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O dilema da empreiteira que quer fechar um grande negócio esbarra no aceite improvável de Clara, em uma teimosia que inicia uma guerra fria que só uma mulher de pulso firme suportaria enfrentar. Mas Clara já enfrentou coisas piores. Kleber Mendonça escreve e dirige um filme sensível e inteligente, que guarda na força de uma mulher em desvantagem uma realidade cotidiana, a transformação urbana e social das grandes cidades. Sonia Braga incorpora uma senhora que se recusa a fazer o papel de velha e vítima, sem se incomodar com sua idade. Ao contrário, se aproveita do respeito conquistado ao longo de anos de convivência em família, entre amigos, com colegas de profissão e com o salva-vidas (Irandhir Santos) que lhe concede o privilégio de vigiar o arriscado banho em um mar de tubarões. Metafórico e literal.

Se em O som ao redor, Kleber buscava uma discussão entre classes a partir da relação de moradores, trabalhadores e passantes em uma rua residencial de classe média alta, aqui o embate é ainda mais complexo, mas com uma estrutura dramática mais simples e por isso mesmo, elegante. Há a velhice e como lidar com ela sem compaixão e condescendência. Não se fala sobre pena, Clara a rejeita e Diego até tenta se aproveitar dela, sem sucesso. Essa mesma velhice em pele de mulher, envolvendo sexualidade, patrimônio, respeito, corpo, autonomia é assumida a plenos pulmões e não é errado esperar ainda mais premiações para Sonia Braga, que abraça o personagem como se fizesse parte de si. O filme explora a realidade da situação da mulher viúva que escolhe a vida, a participação social e não se envergonha. É um retrato que alimenta um perfil, uma esperança de comportamento nas mulheres de sessenta anos e quase cria, se a palavra não fosse um exagero, um ideal de perfil no horizonte.

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Além da relação de corpo, indivíduo e posicionamento feminino que atravessa as idades, há a relação com a família, que se posiciona entre a instalação da senhora idosa segundo um perfil de dependência e seu oposto, na certeza de suas capacidades físicas e mentais. Essa é ainda uma questão a ser debatida especialmente no que condiz às aposentadorias, à qualidade e expectativa de vida e a própria imagem que a velhice imprime historicamente, e que entra em conflito com a realidade. A imagem do idoso inútil é um mal a ser combatido e, mesmo não sendo objetivo do filme, emerge como questão.

Com leveza narrativa, fluidez e grandes personagens, as relações sociais estão na pauta mais uma vez, na discussão entre as amigas de Clara em uma festa, sobre as empregadas domésticas, no valor de oferta do apartamento e agora na própria construção da cidade, a verticalização que funciona como um pano de fundo é a representação de progresso versus passado, como se uma coisa necessariamente implicasse em eliminar a outra. As intenções de todos são claras e a trilha sonora reforça em historicamente reconhecidas como grandes músicas, o que não precisa ser dito em diálogos.

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O filme nos atravessa a partir de capítulos e seguimos apaixonados por Clara, pela força dessa mulher, às vezes incoerente e beirando o absurdo, mas vivendo uma situação tão surreal quanto os outros quando a chamam de egoísta por se opor à decisão de um suposto consenso. A construção dramática em partes por tema – o cabelo, o amor e o câncer – mapeia uma personagem e seu entorno e saímos daí querendo mais do que 145 minutos, ainda que entendamos e saiamos satisfeitos, saímos querendo ouvir mais da mistura de sotaques e continuar com a força e orgulho que é ver o nordeste em cena, especialmente quando não é caricato e estereotipado. O que não é possível em novelas é garantido neste quase novo cinema, reforçado em qualidade e sensibilidade e tendo em Aquarius grande exemplo. 
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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