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Café: extra-forte


Um diretor russo, um museu francês, a segunda guerra. Aleksandr Sokurov retoma o tema da arte ao tratar do Louvre, da ocupação alemã em Paris na Segunda Guerra Mundial em um filme original e ousado.

Classificado como documentário, o filme se enquadra no gênero e o transcende, para nosso benefício. Imagens de arquivo de filmes de ficção e registros históricos, encenações, o próprio diretor em cena conversando com um amigo, o capitão Dirk que está no meio de uma tempestade no Atlântico, carregando contêineres com obras de arte. Sokurov traz de volta um grande museu: se em 2002 ele fazia Arca Russa, um dos maiores filmes do mundo em um dos maiores museus, o russo Hermitage, agora, em outra forma e linguagem nos apresenta o Louvre, sua história, seu impacto e o tempo da arte ou a arte enquanto permanência e relevância.


Não é um filme para ver sem saber do que se trata, ainda que seja uma grata surpresa. É uma forma de refletir sobre arte e história a partir de pontuações do próprio diretor, em uma narração híbrida em toda a duração. Descobrimos a história do Louvre a partir de Napoleão, seu fundador e mantenedor, cujo objetivo era realizar a maior coleção de obras de arte do mundo com seus tesouros de guerra. Enquanto imperador, cada vitória era um saque, troféus de nações vencidas. Entre 1940 e 1944, Hitler ocupa militarmente Paris, que se torna uma cidade aberta e a França, um Estado dividido. Assim se evitou a destruição da metrópole e se conquistou uma paz a contragosto, pelo bem geral. O Louvre foi esvaziado, suas obras escondidas em castelos e dois homens, o diretor francês do museu, Jacques Jaujard e agora o co-diretor alemão, Franz Graf Wolff-Metternich se tornaram responsáveis e, segundo Sokurov, parceiros na proteção das valiosas e remanescentes obras. Sem eles, não haveria a proteção ao museu e suas obras e, como aconteceu em outras cidades europeias bombardeadas, perderia seu acervo e tantas vidas, para sempre.

Mas, mais do que isso, o diretor provoca, instaura uma reflexão a partir da fragilidade e importância das obras para o mundo, para o registro histórico e cultural humano. Seu amigo, o Capitão Dirk segue em alto mar sob grande risco de perder os contêineres que aceitou transportar. Ali, ficamos tensos quase esperando uma tragédia dupla: da vida dos marinheiros e de obras que nem sabemos quais são, mas estimamos seu valor a partir do tenso diálogo entre os amigos. É na casa de Sokurov que isso tudo acontece, em uma comunicação via internet, quando possível. Não temos opção, como o diretor e o capitão, estamos à mercê do tempo, agora uma força da natureza e não humana, mas com a mesma capacidade destruidora, como a que provocamos com as guerras.

Sokurov é grande conhecedor e defensor da Arte, esta com letra maiúscula. Arca Russa o levou ao Olimpo dos grandes diretores anos atrás, com um devaneio de um aristocrata nos salões do Hermitage, o maior museu da Rússia, um dos maiores do mundo. Ali, mais uma vez a História é a pauta, a história que atravessa a Rússia por trezentos anos em um filme sem cortes a partir de um único plano sequência, com um ensaio absurdo de 2000 atores onde não vemos falhas, mas sim três orquestras tocando, 33 salões do museu e uma precisão quase doentia em um filme maravilhoso. Ali era uma grande ficção, um filme atordoante tamanha beleza, concentração e excesso de informações sobre uma história, cultura e país que o Ocidente não conhece em detalhes. Agora é o Louvre, conhecido nosso, que achamos saber muito – ou pelo menos que temos a certeza de encontrar a Monalisa e o trio de Jules e Jim (Truffaut, 1962) correndo pelos corredores – mas ficamos estupefatos ao ver grandes esculturas assírias, uma múmia surpreendente que esperamos ansiosamente por um movimento, um despertar assustador por conta de seu close lento e que nos aproxima da escultura cadavérica ou uma esfinge silenciosa e desafiadora.

São monumentos culturais imensos em todos os sentidos, são obras internacionais todas bem cuidadas em um grande espaço e em algum momento pensamos se elas não deveriam voltar a suas antigas nações, aos seus berços e reafirmar sua cultura ou se devemos apenas aceitar, esquecer fronteiras e agradecer que estão garantidas para visitação pública, quando estivermos passeando pelos arredores. Não há como saber o que aconteceria a muitas destas obras se não estivessem sob esse teto privilegiado, se peças de muitos séculos atrás, milênios quiçá, teriam seu registro e espaço ou se se perderiam, apenas porque é impossível manter toda a história de todas as culturas.

A arte que vemos é um fragmento de cultura e humanidade em um período histórico, um índice e representação do que houve, do que se foi e referência para o futuro. O Louvre é um dos museus que garante essa permanência, conquistada e mantida por séculos. Ao mesmo tempo, é um imenso galpão de saques, se pensarmos em cada conquista de guerra, em cada cidade devastada ao longo da História. Não deixa de ser a manutenção de um passado que privilegia quem vence batalhas e não é à toa que o Napoleão de Sokurov instaura a arte como um dos motivos para a guerra. 





O diretor cria uma caleidoscópio com tantas informações quanto as expostas no Hermitage em Arca Russa, outro filme para ser revisto: em uma só vez é impossível apreender tudo, mas o constrói bem, com retalhos que se unem por linhas pensamento firmadas no contexto histórico. Há o fantasma literal da revolução francesa, Marianne, que encontra Napoleão e juntos se perdem nos corredores e salões, há os diretores de cultura, rivais em guerra, unidos pela defesa e sobrevivência do museu e assim, da arte, há a fragilidade do tempo e desta própria permanência e relevância frente à vida: o que é mais importante, a vida humana ou o registro dela? A montagem por vezes se perde com tantas vias a percorrer, mas não é de todo problemático. Aos poucos nos acostumamos com este percurso e somos levados pela mão pelo diretor, que parece tão confuso quanto nós – por isso tantas ramificações na construção fílmica – sobre que destino terá aquilo tudo. Ainda assim, seu discurso se mantém firme e agora esperamos que ele invada outro grande museu e nos conte mais sobre ele.

Sokurov promove uma viagem única pelo Louvre, por fim, de uma forma que o melhor guia turístico não daria conta, ou qualquer pesquisa na internet, ou um passeio ao vivo. Agora, na próxima visita, há mais e mais referências, uma vontade de sentar e discutir com o diretor como foi seu processo de construção neste filme híbrido, completo, confuso, inteligente, delicioso e reflexivo. Imperdível para os amantes de artes e museus, de história mundial, de memória e permanência das obras de arte, da cultura e sua relevância para o futuro.



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Em 1995, em Enquanto você dormia (1995, de Jon Turteltaub), Sandra Bullock era Lucy, uma bilheteira de metrô que vê sua paixão platônica, Peter (Peter Gallagher) cair da plataforma da estação e entrar em coma. Ela ajuda no resgate e passa a cuidar do desconhecido, se envolvendo com a família dele por um mal entendido, se passando por sua noiva. O filme é das nossas sessões da tarde e está no rol das comédias românticas bestas, mas que assistimos e até nos divertimos se não tem nada melhor passando.

Este mês estreia o francês Esperando acordada, sobre Perrine (Isabelle Carré), uma musicista amadora que por um desígnio do destino, causa um acidente em um desconhecido que então entra em coma. Ela passa a cuidar dele e o resto a gente quase já sabe. Tão bobo quanto a comédia americana, este investe ainda mais nos exageros do roteiro, alimentando os estereótipos do dois gêneros, o fílmico e o feminino.


O gênero de comédia romântica costuma ser bem previsível e isso não é um problema. Dá até certa segurança e funciona bem quando bem feito, atinge o objetivo de contar uma história que costuma terminar feliz, dando relevância aos sentimentos e alguma esperança, uma luz no fim do túnel para os espectadores, por mais improvável que seja seu enredo. Em uma história bem contada o que vale é o desenrolar, os diálogos, as soluções encontradas para os nós dos personagens. Em Esperando há um abuso, como se os roteiristas (Marie Belhomme, que também dirige e Michel Leclerc) buscassem um filme de verão, leve, com brincadeiras e artimanhas, mas errassem a dose, deixando bobo demais.

Perrine é essa moça sensível e delicada, talentosa e azarada, não consegue segurar grana, é desastrada, bonita e vive fazendo bicos. Não se considera grande coisa, além de ter um grande coração e ser extremamente ingênua. Dirigindo apressada entre um trabalho e outro, vai perguntar a um homem sobre informações numa parada na estrada e o assusta. Ele cai, bate a cabeça e fica desacordado. A mocinha chama a emergência, mas sai de cena, porque tinha horário a cumprir, tocando violino para um grupo de velhinhos em um asilo coordenado por Lucie, interpretada por ninguém menos que Carmen Maura – uma grata surpresa, principalmente quando ela alterna o francês com murmúrios em espanhol, nos fazendo lembrar filmes de Almodóvar. Esse imaginário da moça bobinha e sensível é um personagem quase padrão dessas histórias e que aqui, entra em confronto com Arsène (Camille Loubens), uma doutoranda inteligente e sexy, sobrinha de Lucie que faz um favor a Perrine e lhe passa a perna. O clichê que pode passar batido em alguns espectadores incomoda os mais perspicazes: a relação em que as mulheres funcionam como inimigas em prol da conquista de um homem, que de um favor vira estratégia de ataque é cansativa e gratuita; um apêndice na história facilmente descartável além de ser uma prerrogativa que reduz o gênero endossando uma competição que não deveria existir.


Não apenas a relação entre as mulheres da história é complicada como a construção que se faz do homem ideal, aqui amplamente imaginada por Perrine. Ao adentrar no universo do desconhecido Fabrice Lunel (Philippe Rebbot), Perrine de cara o acha extremamente interessante sem sequer ver seu rosto ou trocar qualquer palavra, mas conhecendo tudo o que o cerca: o filho, a casa, o trabalho. As afinidades colaboram para a idealização, mas ainda é muito pouco o que se sabe de alguém para chegar ao encantamento que vemos aqui. Se a resolução do conflito encerrasse algo próximo do final de Enquanto você dormia, talvez fosse mais interessante. Ali, mesmo Sandra Bullock encarnando boa parte das características da própria Perrine, sua elaboração é mais realista e podemos pensar que conhecemos alguém como ela. Perrine é o personagem do exagero em uma construção que não funciona nem como um conto de fadas – como o fofo Românticos Anônimos (2010, de Jean-Pierre Améris), que traz a mesma atriz – de forma que há um deslocamento da personagem com a realidade ali proposta e seu desenvolvimento sustenta uma trama frágil demais.

Enquanto filme francês, é nossa a expectativa em imaginar que veremos algo com personagens e diálogos mais elaborados como costuma ser, em contraste com o cinema hollywoodiano. Aqui acontece o oposto ou uma aproximação da grande indústria no que lhe há de menos interessante: com uma redução dos personagens em estereótipos, levando a mulher à velha posição de boba, que rivaliza com outra por uma conquista que nem sabemos se será boa e que não vai muito além. É um filme de verão que se tenta engraçado e leve e de fato é, mas muito menos atrativo do que se pretende. Vale, no máximo, para um domingo à tarde, sem maiores pretensões. 


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O trailer nos apresenta uma história que se passa em um tempo distante. Um tempo de violência. E explica: um tipo de guerra se propagava por toda a Europa. Numa cidade, viviam duas irmãs que eram inseparáveis. Estas frases se repetem durante o filme e criam uma expectativa que não se resolve de pronto e deixa algum mistério. Mercuriales é impressionante, nada mais.

Como o adjetivo indica, ‘impressionante’ corre em diversas direções. A primeira sequência do filme mostra um jovem negro sendo apresentado às instalações de base dos Mercuriales, dois prédios como as Torres Gêmeas de Nova York, só que em Paris, no subúrbio. Os prédios existem de fato e se chamam assim, foram parte de um projeto de renovação comercial do lado leste de Paris mas que, com a primeira crise do petróleo, foi interrompido ficando apenas as torres construídas. O jovem, que agora é parte da equipe de segurança do conjunto quase não aparece mais e se imaginarmos que ele terá algum papel relevante numa história que parece ser estranhamente futurista, não lhe acontecerá muito além disso. Essa percepção de que falta algo ficará no espectador até o final, como se aquela história estivesse sempre na introdução. Ao mesmo tempo, o longo prefácio que não se desenvolve nos prende com a construção de um clima, é o que chama mais atenção, com duas protagonistas bastante parecidas, como as torres, inseparáveis e que, ainda assim, guardam distinções em suas personalidades.


Não vemos guerras acontecerem em um tempo distante: esta ideia de ficção científica é uma ilusão, mas, mais forte do que isso, a atemporalidade é sua marca maior. Não sabemos o tempo das coisas, como se tanto as torres quanto as ‘irmãs’ estivessem tão distantes do mundo quanto o subúrbio em que se encontram. Joane (Philippine Stindel) veio da Moldávia e encontra, Lisa (Ana Neborac) francesa. As duas são recepcionistas nas torres. Joane não conhece quase mais ninguém na cidade e se apega à Lisa como se fossem gêmeas, estando sempre juntas, quase simbioticamente.

As meninas tomam o filme, entre ações do cotidiano e pequenos pontos de conflito. Ficamos presos a estes momentos – quando Joane conhece Zouzou (Annabelle Lengrone), amiga de Lisa com uma filha criança ou quando vão ao clube de suingue, quando viajam para o interior, quando conhecem um grupo de rapazes – aguardando seus desenvolvimentos, que parecem soltos demais e ficamos à mercê, esperando os desfechos, que se diluem em outras ações. É intencional, uma frouxidão na trama é o que parece tentar trazer a história para a vida real e com o adicional da fotografia de luz natural, boa parte da crítica internacional entendeu como um jogo com o documentário por conta do currículo do diretor, mas não parece ser o caso.


O filme busca uma relevância na vida das garotas como um paralelo com as torres que ninguém de fora do país ou da cidade conhece. Imponentes, parecidas e importantes à sua medida, não são como as finadas e famosas World Trade Center ou como as grandes modelos do mundo, ainda que não percam em nada por semelhança e beleza. Deixadas em um subúrbio, fora das vias principais da cidade, alheias ao movimento – e uma cena delas no terraço de uma das torres, enxergando a cidade ao longe é uma belíssima analogia – as desloca deste espaço e tempo, como se talvez nem precisassem estar sob qualquer holofote, mas apenas vivendo e se encontrando no limbo que é o caminho entre a adolescência e a vida adulta. É uma interpretação possível, as responsabilidades do dia a dia contrastando com um comportamento quase infantil, as vivências típicas da adolescência encontrando outras mais próprias à vida adulta, a relação com a maturidade e maternidade encontradas em Zouzou ou os riscos entre desconhecidos. Como são tempos de guerra, nada é permanente e as conclusões do filme deixam claras uma mudança imperativa e iminente, abrindo outras possibilidades de futuro para as duas.

Se nos minutos iniciais vemos uma sequência longa com orientações sobre procedimentos e instalações de segurança com uma trilha sonora quase entorpecente, remetendo a Kubrick e já imaginamos tensos uma guerra que está por vir – referência imediata ao onze de setembro – talvez este paralelo seja tão subliminar e distante, como uma metáfora requintada demais para a vida das garotas, cuja segurança não existe, mas o alheamento do mundo sim, como se fosse possível para elas viver na própria distância imposta pelos seguranças dos prédios a qualquer um que se aproxime deles fora do horário padrão. Impressionante, o primeiro longametragem de Virgil Vernier não é um grande trabalho de roteiro, mas é de todo o resto, chamando a atenção com sua estética e nos deixando ansiosos por uma nova – e quem sabe mais dinâmica – experiência. A vontade que fica ainda neste filme é em rever algumas cenas por seus enquadramentos, reencontrar o clima criado, a suspensão do tempo, os silêncios e alguma inocência.


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Aproveitando a nova febre provocada por Stranger Things que já toma conta de quem assiste a Netflix, segue uma seleção especialíssima com filmes que são referência para a série e outros tão imperdíveis quanto, lançados na nossa amada década de 80. Foi uma década um tanto brega e sincera, onde a adolescência e infância ainda eram de brincar na rua e não havia tantos equipamentos eletrônicos – além dos videogames – para nos deixar trancados em nossas casas, nos impedindo de ralar os joelhos, andar de bicicleta e fazer aquelas amizades de vida inteira. Os anos 80 trouxeram muita música boa, um cinema americano forte e criativo que ainda trazia essa ousadia em conteúdos que nossa política de boa vizinhança atual impede e toda a minha infância em programações moralmente condenáveis na televisão brasileira. Não poderia ser melhor. Para homenagear este momento, eis algumas Maravilhosidades dos anos 80!

Stranger Things (2016, de The Duffer Brothers) – 50min – 8 episódios
Lançado esse mês na Netflix, Stranger Things é o novo sucesso avassalador da programadora-produtora de conteúdo não linear. Ambientada nos anos 80, com referências da cultura da época – cinema, música, televisão, moda, estilo de vida – a série de ficção científica, aventura e suspense garante entretenimento em seus oito episódios, surpreendendo com bons atores, sob a apresentação de três já consagrados: Winona Ryder, Matthew Modine e David Harbour. Will Byers (Noah Schnapp) desaparece ao voltar pra casa à noite após terminar uma partida de RPG em uma pequena e pacata cidade americana, onde todo mundo se conhece. O xerife Jim Hopper (Harbour) entra no circuito a fim de ajudar a mãe (Ryder) que se recusa a acreditar no ocorrido, enquanto os amigos de Will fazem sua própria investigação. Situações estranhas tomam conta da cidade e seus habitantes, desencavando antigos mistérios da região. Tenso e intenso até o final, nos deixa já querendo a próxima temporada e sofrendo ao perceber que só a teremos ano que vem. Dá pra ver tudo em um dia só.

Conta Comigo (1986, de Rob Reiner) – 89 min
Já indicado aqui em outra sessão, segue novamente para quem perdeu, aproveitando este grupo de amigos que têm muito em comum com os de Stranger: Rob Reiner dirigindo este nos anos 80, com River Phoenix, Kiefer Sutherland (lembra aquela série 24 Horas?) ainda crianças, e baseado em um livro de Stephen King, é uma história sobre infância e amizade, onde um grupo de amigos se envolve em uma aventura bastante perigosa. Filme com carimbo de sessão da tarde da minha infância, deve ter passado mais de 100 vezes na televisão, mas ainda acredito que nem todo mundo viu. Tem uma cena traumatizante, que me fez ter medo de água de rio durante muito tempo, mas deixo em aberto para não estragar a surpresa. Se ainda precisa de referências, Rob Reiner fez Harry e Sally (1989), que indiquei na primeira edição das Maravilhosidades e A história de nós dois (1999), além de ser ator, produtor e roteirista. Vale cada minuto.

Tubarão (1975, de Steven Spielberg) – 124 min
Um pôster na parede do quarto de Will e é tudo o que você precisa para lembrar Tubarão. Também já indicado anteriormente – clássicos são para rever – aqui funciona como uma lembrança de anos antes na vida dos garotos da série, já que este é de 75. Spielberg nos traz um suspense aterrador sobre um tubarão que ameaça uma praia e a única solução que o homem encontra para ter paz e poder mergulhar novamente é matá-lo. Mas o tubarão não é bobo nem nada, então dá bastante trabalho e literalmente toca o terror onde aparece. A sinopse é simples assim mesmo, mas o filme é maravilhoso. É um dos marcos do cinema de terror, um dos marcos na carreira do diretor que todo mundo conhece. Tem seus momentos trash, mas de forma geral é até um filme sério, considerando seu gênero. Levou três Oscars, é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e em todo mundo, e carrega um elenco de peso: Roy Schieder, Robert Shaw e Richard Dreyfuss.

ET – o extraterrestre (1982, de Steven Spielberg) – 115 min
Clássico da infância e adolescência e outro filme de Spielberg, ET marcou gerações inteiras nas milhares de vezes em que foi exibido em cinemas e canais de televisão. É o filme que traz Drew Barrymore e Henry Thomas novinhos, é o filme de contato da infância com o universo da ficção científica de forma dramática, divertida e não assustadora. É, acima de tudo, um filme que fala sobre família e amizade. Ainda que não seja dos meus favoritos, é inegável sua importância para o cinema. É, por fim, mais uma referência para a série e é lembrado em vários momentos.

Curtindo a vida adoidado (1986, de John Hughes) – 103 min
Saindo da infância e entrando na adolescência, chega outra maravilhosidade única em nossas vidas: Curtindo a vida adoidado. Pode ser que alguém tenha perdido quando foi lançado e, se aconteceu mesmo, está aí uma ótima oportunidade de ver um filme nostálgico e divertido. Matthew Broderick é Ferris Bueller, um garoto que decidiu faltar um dia de aula porque sim, porque estava a fim. E essa a aventura que acompanhamos junto com sua namorada (Mia Sara) e seu melhor amigo (Alan Ruck) pelas ruas de Nova York, enquanto sua irmã (Jennifer Grey), que nunca consegue se dar bem tenta, a todo custo, estragar os planos do nosso herói. Tem romance, intriga, comédia e aventura – para todos os gostos. Um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e reprisado ad eternum na sessão da tarde.

Bônus!!
Contatos imediatos de terceiro grau (1977, de Steven Spielberg) – 137 min
Grande referência para a série, outro filme de Spielberg (sim, ele é um dos diretores da década e seus temas acontecem fortemente na série), este tem um adicional incrível, que é a presença de ninguém menos que François Truffaut ao lado de Richard Dreyfuss, um dos maiores diretores do cinema francês, no papel de Claude Lacombe. Com John Williams compondo a trilha sonora (Tubarão, Guerra nas Estrelas) e uma equipe de peso, não preciso dizer mais nada, quando descubro este trailer incrível. Mesmo se já conhecer o filme, vale a pena o trailer.
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Assistir Freelance causa uma dupla emoção em nós: a alegria de ver um filme inteligente, com uma história que dá guinadas inesperadas e a certeza de que conhecemos muito pouco do cinema oriental. Quanto à primeira nenhum problema, mas concluir a segunda provoca grande agonia em quem vive a cinefilia, porque é muito maior do que não conhecer os filmes de Nawapol Thamrongrattanarit e seu país, é perceber que há boas produções sendo feitas e que muito provavelmente não chegam em nosso hemisfério.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) é designer gráfico freelancer. Como consegue trabalhos por demanda, precisa estar sempre disponível e garantindo a entrega do que produz, não importando o prazo. Para quem trabalha na área, é fácil perceber o desespero das agências de publicidade no cumprimento de metas para garantir a receita. Como freelancer, a qualidade de vida e o sono são menosprezados com frequência, mas a conta sempre chega. Yoon começa a ter seus problemas, alergias na pele que se transformam em pequenas feridas que coçam provocando mais irritação e ele segue para o hospital. Lá conhece a doutora Im (Davika Hoorne), uma residente em dermatologia que consegue fazer com que Yoon entenda a necessidade do tratamento como uma forma de sobreviver aos alertas de limite que seu corpo ativou. Na verdade, Yoon aceita o tratamento por ser uma garantia de encontros mensais com Im, por quem se apaixonou.
Dra. Im (Davida Hoorne): a salvação para as alergias de Yoon.
Se o trailer indica uma comédia romântica incomum, o filme sobe outro degrau e atiça nossa curiosidade e interesse com interpretações interessantes e narração subjetiva, pontuada por uma contagem de marcas no corpo do protagonista. Com texto e montagem ágeis, poucos personagens e locações que se repetem, o diretor cria um ciclo, uma rotina que a cada decisão do herói transforma toda a história com diálogos simples. Agora Yoon não pode comer frutos do mar e precisa decidir o que fazer. Agora Yoon precisa dormir, fazer atividade física e tentar equilibrar isso em sua rotina, reduzindo a carga horária de trabalho. Agora Yoon precisa cumprir seus compromissos profissionais e o problema se instaura, já que acostumou o mercado com prazos quase inalcançáveis e postergá-los implica em perder projetos ambiciosos para quem está buscando seu lugar ao sol. Os dilemas do personagem não apresentam soluções simples e nos colocamos em seu lugar, tentando decidir o que faríamos. Essa participação do espectador na obra é o ganho do filme, já que todo mundo um dia vivenciou algum tipo de pressão na vida que envolvia sacrifícios de sua própria saúde em detrimento de alguma coisa ‘urgente’ e ´fundamental´.

Aguardamos seu colapso sem querer acreditar nele, esperando que não aconteça com base na evolução da trama e atitudes do protagonista. Queremos que ele encontre a doutora, uma tímida e inteligente mulher jovem que nos aparece como um enigma, carregando o sorriso de Monalisa em olhares e gestos que pontuam uma dúvida. Mas, este não é um romance, o diretor deixa claro com o desenvolvimento da trama e seu clímax, a cena que não se pode descrever é o que faz este cinema ganhar em ousadia e coragem. Não é nada novo em termos de estética e efeitos, mas seu posicionamento na história, a forma como foi dirigida sim, nos faz pular da cadeira e prender a respiração sem tomar sustos: é uma comédia romântica com fortes pinceladas de humor negro.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) entre pílulas para dormir e deadlines.
Quando pesquisamos sobre o filme no IMDB, quase não há informações e essa é uma marca forte do quão pouco se sabe sobre esse cinema. Há um universo infinito de filmes ocidentais, escolas de cinema, teorias e estéticas mais do que conhecidas, adoradas e estabelecidas, mas há outro universo em expansão, o oriente e suas escolas, seus diretores contemporâneos e sua estética. O fato de não haver muita informação sobre Freelance e quase nada descrito no perfil da equipe técnica é a prova cabal da pouca informação e acesso que o lado de cá do globo percebe. O filme conta uma história que poderia acontecer em qualquer cidade, mas reforça as características locais de forma não turística e estereotipada, nos fazendo pesquisar a filmografia do diretor e aí sim, as conexões desta rede virtual começam a funcionar, nos permitindo um passeio breve – a ponta de um imenso e interessante iceberg – sobre o cinema tailandês.

Os filmes não estão prontos, eles partem para dentro de seus espectadores e ali garantem uma transmissão de informações que se completa com o repertório cultural de quem o assiste. Freelance se relaciona bem neste processo, primeiro fechamos a história linearmente e depois digerimos suas melhores cenas, sequências de imagens que permanecem em um processo de aceitação e apreciação estéticas. Já foi dito que a obra de arte se define quando provoca emoção e não que esta seja a obra prima do diretor, mas se firma como importante, sem dúvida. É um filme que não requer experiências prévias deste cinema, que tem um ritmo rápido que configura a própria temática da falta de tempo, da velocidade de um workaholic e cuja catarse reverte sua própria duração em um plano fixo e longo de reflexão, em um close up agoniante e narrado lentamente, logo após um movimento de choque. Choque e ruptura para a pausa. É como o silêncio e a paz que sucede uma tragédia, ao contrário da alegria de um grande sucesso, que sempre deixa uma ponta de desconfiança.

Je (Violette Wautier) e uma proposta irrecusável para Yoon.
É para rir e se surpreender, para sentir a (in)sensibilidade da publicitária Je (Violette Wautier), melhor amiga e quem consegue os trabalhos para o protaqognista, decifrar e ultrapassar o profissionalismo e a timidez de Im e tentar salvar Yoon, representação da nossa correria profissional e dos conflitos entre vida e carreira. É para nos deixar inquietos na poltrona no cinema e investigar mais o cinema tailandês e oriental de forma geral, para conhecer novos nomes e se desesperar com a graça de perceber um mundo que é similar ao nosso e, ainda assim, extremamente diferente e original. Em breve, nos cinemas.
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Esta semana estreia nos cinemas Janis: little girl blue, a mais nova biografia sobre Janis Joplin, dirigida por Amy Berg. Será a terceira sobre uma cantora mulher, mais um ícone da música internacional em dois anos, se lembrarmos de What Happened, Miss Simone? (2015) e Amy (2015). Há claras semelhanças entre os filmes e é nítida, da mesma forma, sua relevância para a cultura musical, ainda que no trato de seus personagens haja alguns questionamentos.

Para quem acompanhou ou sabe um pouco da vida e obra de Janis Joplin, não há grandes surpresas. Os depoimentos dos familiares e amigos corroboram muito do que se encontra em uma pesquisa na internet e a graça sempre estará nas imagens em que nossa musa do blues aparece cantando, vivendo e falando, por isso a importância de vê-lo nos cinemas. A dosagem entre as falas de Janis e sobre Janis é um exemplo claro do documentário biográfico tradicional, em que se fala do outro, sobre o outro, acima da voz do outro e é irônico pensar que com estas três cantoras aconteceu o mesmo: se falou tanto sobre e acima delas, que pouco restou de suas (imensas) vozes para ouvirmos.
Janis e a Big Brother and the Holding Company
O filme é bom, traça o panorama linear de sua vida em uma cidade pequena, interior do Texas, onde qualquer diferença, por mínima que fosse, qualquer traço de personalidade que diferisse daquele padrão era tido como errado. Era aí que se encaixava a protagonista e quando a ouvimos sobre sua infância e adolescência, os relatos de seus irmãos e amigos sobre o assunto, é estarrecedor perceber tanto bullying por tão pouco e como isso a afetava. As provocações típicas da infância pareciam conter mais veneno do que o habitual, em uma clara tentativa de deslocá-la ainda mais, como uma Carrie pronta para um surto. Ao invés de fogo, virou poesia, música, solidão e amor. A grande surpresa, e por isso o acerto do filme, está nas cartas, lidas por Cat Power em sua voz deliciosa, dando a pausa e a sensibilidade corretas quando Janis tentava uma comunicação com os pais, com a família e seus amores. É pena não termos conhecimento do oposto, do que se recebia em troca, que justificasse a permanência da comunicação, mas através das falas de seus irmãos mais novos, já temos uma noção do comportamento e da relação entre eles.

Janis Joplin foi – e é, levando em conta que continuamos ouvindo sua voz – uma das maiores cantoras de todos os tempos e essa qualidade surgiu ainda muito nova, entrando nos vinte anos, em plena década de 60 quando se muda para São Francisco. Era uma libertação da opressão de sua cidade com seu comportamento machista e castrador – particularmente para a mulher – era o embrião da guerra do Vietnã, era a Guerra Fria, eram os hippies e a questão racial, era a experimentação das drogas, era o auge da cultura musical no país e isso tudo, em sua própria formação enquanto mulher com sua sexualidade também diversa de seus conterrâneos, enquanto criação de uma identidade e reconhecimento no mundo. Isso tudo com uma grande voz e talento natos, uma sensibilidade absurda e uma fome de viver. Essa sempre foi a impressão maior sobre a cantora que, como Amy Winehouse – não há como deixar de incluir Jimmy Hendrix e Jim Morrison – fechou seu ciclo cedo demais, por um acidente de percurso. O filme encerra e nos deixa com um aperto no peito de que tudo poderia ter dado certo, de que ela duraria mais tempo, de que sequer foi suicídio. Saímos com este aperto, como se uma vida de possíveis alegrias e grandes músicas e performances de uma mulher doce, inteligente, sensível e brilhante havia sido interrompida bruscamente.

Howard Alk fez a primeira biografia sobre a cantora em 1974, Janis – the way she was. Neste, ao contrário do filme de Amy Berg, não há qualquer depoimento que não o seu. Todos são tirados de entrevistas e shows e vemos muito de suas performances, as maiores já feitas, os melhores shows, outro deleite. Não há entrevistas fora de contexto e a duração delas é ainda maior, nos fazendo conhecer um pouco mais sobre nossa musa. É interessante perceber a diferença no trato das sequências e imagens, já que os dois filmes utilizam o mesmo arquivo. Em 74, o que vemos é resultado de uma grande influência do cinema direto, aquela forma francesa de filmar com a menor interferência possível (graças aos novos e leves equipamentos) cujos mestres seriam Edgar Morin e Jean Rouch. Nos Estados Unidos os destaques ficam para Rihard Leacock (inglês, mas com várias produções americanas), Robert Drew, Albert Maysles e D.A. Pennebaker. Este último acompanhou os músicos desta geração e fez um documentário sobre o primeiro festival de música em que Janis se apresentou com a Big Brother and the Holding Company em Monterey (1967) e é um dos entrevistados no novo filme, aos 90 anos. Ainda que o documentário anterior indicado ao Globo de Ouro se perca nos últimos minutos em uma apresentação fotográfica – homenagem póstuma recente – o fato de a conseguirmos ouvir em grandes dimensões é um bônus.

Não se pode dar voz aos mortos e com isso, o artifício do outro parece ser a solução para criar uma linha narrativa que preencha as lacunas da edição. Aqui esta intercalação acontece de tempos em tempos e por ver as mesmas sequências nos dois filmes, há que se perguntar sobre o volume do material coletado. Com registros de 50 anos atrás, talvez não houvesse diversidade suficiente, o que não causa prejuízo, já que o uso das conversas com a Kozmic Blues Band e a Big Brother and the Holding Company, cumprem um pouco do prometido. Além deles, outros homens passaram por sua vida e deixaram sua contribuição ao filme, como seu último grande amor – este, de fato, lhe dando o devido crédito. Não vemos muito sobre os relacionamentos de Janis com mulheres, muito sutilmente parece não se dar a importância ou espaço para estes envolvimentos. Outros depoimentos soam ácidos a ouvidos mais sensíveis, não dando a correta dimensão ao relatar possíveis encontros com a cantora, não se sabe por mágoa ou pouco caso. Não fica claro o porquê, além de criar um incômodo em quem assiste com mais atenção.
Janis e a Kozmic Blues Band
Não há como se definir de que forma o entrevistado falará sobre seu objeto, mas objetificação em si seria o problema maior. No fim, ainda que seja uma obra gostosa de ver, há menos música e performance do que o esperado, à exceção da magnífica cena em que a banda discute no estúdio as variações sobre Summertime, vemos suas interpretações e temos uma visão da cantora como uma profissional que entende de seu trabalho, que sabe o que busca e a melhor forma de fazê-lo. É de cenas assim que carece a obra, tanto quanto imagens da cantora com outros artistas, como vemos uma pincelada em Woodstock e em um trem, a caminho de um festival no Canadá, com o Grateful Dead. Uma tentativa tardia e confusa está nos créditos finais, em depoimentos curtos que não aparecem durante o filme – e entende-se o porquê – mas que de alguma forma, funcionam como uma curiosidade, como um extra do dvd.

Enquanto o filme de 74 parece ser uma colagem de registros quase brutos de episódios da vida da cantora, o Little Girl é coeso em sua proposta. Há o equilíbrio narrativo e o filme funciona como os demais, sobre Amy e Nina Simone, resgatando nosso amor por estes ícones, nos fazendo buscar em nossos arquivos o momento em que as conhecemos e partilhamos da experiência transformadora que é ouvi-las, aqui até de forma ainda mais sensível do que nos das outras cantoras. De alguma maneira, há sempre mais para descobrir sobre estas grandes mulheres e suas personalidades complexas, para além das imagens de mídia. Este filme ensaia isso e faz bem, ainda que se comprometa em alguns momentos, manteve um cuidado em não classificá-la como uma garota problema, em não queimar sua imagem como as de uma possível corrosão física por uso de drogas, como apresentadas em Amy e um pouco menos em Nina, mas buscando uma sensibilidade e sua subjetividade nas cartas. É evidente que há de se fazer um comparativo com as biografias de artistas masculinos e entender do que se falava sobre eles, se se pontuam envolvimentos amorosos questões pessoais para além do talento. Em filmes sobre o outro, é fácil escavar o passado, difícil é construir uma dimensão humana, tridimensional e dar uma percepção mais ampla do que realmente importa para o público: sua qualidade, conhecimento e sensibilidade artística. Aqui, saímos com um pouco mais de Janis Joplin, com vontade de retomar seus discos e capturar uma fração dessa imensa sensibilidade e blues que levava dentro de si e que nos rasga e alenta por dentro com sua inigualável voz.


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A sessão de hoje foi, intuitivamente, de grandes personagens. De loucos a heróis, de pobres famintos a narcotraficantes megalomaníacos, tem um pouco de tudo e para todos os gostos.  Fiquem à vontade e aproveitem este inverno da forma certa: nas cobertas, com Café e grandes filmes! 

O Garoto de Liverpool (2009, de Sam Taylor-Johnson) – 98 minutos
Não precisa gostar dos Beatles ou de John Lennon para ver esse filme sobre o início da carreira do cantor, quando ainda era um garoto em Liverpool. É claro que, se gostando ou entendendo um pouco da personalidade e relevância do protagonista para a cultura, vale assistir. O filme traça sua trajetória do início do que viria a ser os Beatles, quando John (Aaron Taylor-Johnson) conhece Paul McCartney (Thomas Brodie Sangster), sua relação com a mãe até quase a vida adulta. Não será o melhor filme ainda sobre o cantor por romantizar demais sua história, mas vale como entretenimento. Com Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff.

Narcos (2015, de Carlo Bernard, Chris Brancato e Doug Miro) – 50min/eps
À espera da segunda temporada da série, dá tempo de aproveitar a primeira inteira, vendo Wagner Moura encarnar ninguém menos que Pablo Escobar. A série é baseada em fatos reais, na vida do maior narcotraficante que a América Latina já viu sob a narração do agente do FBI, Steve Murphy (Boyd Holbrook). Imperdível, garante personagens complexos e ficamos naquele dilema existencial de nos apegarmos a uma figura tão controversa como o ‘herói’ colombiano. Ao mesmo tempo, a ascensão de Pablo é intercalada com acontecimentos na política nacional e internacional, dando destaque ainda em suas megalomanias e estratégias de controle de um sistema corrupto e violento. A série alavancou a carreira internacional de Wagner, dando peso suficiente para seu sotaque ser tanto criticado quanto defendido internacionalmente. Aguardando ansiosamente a nova temporada em setembro.

Beleza Americana (1999, de Sam Mendes) – 122 minutos
Sam Mendes tem uma trajetória cinematográfica de respeito. Estreou na direção com Beleza Americana, seguindo por Estrada para perdição (2002) e vemos mais filmes de peso, em menor escala de produção, como Foi apenas um sonho (2008) e Distantes nós vamos (2009). Em parceria com Kevin Spacey, que continua até hoje, cujo último trabalho foi a turnê de Ricardo III que originou o documentário NOW – In the wingson a world stage (2014), vemos um protagonista em franca transformação e ele é quem transforma o filme de bom para surpreendente. Não seria por menos, dada a dimensão do ator. Em Beleza, há uma ideia de normalidade da vida americana de subúrbio, da classe média alta onde nada demais parece acontecer e todas as sujeiras são varridas sob tapetes. Olhando de perto, como é a proposta do trailer, há muito por trás dessa aparência de cercas brancas e jardins simétricos. Kevin Spacey, Annete Benning, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari são alguns dos nomes deste grande filme, de roteiro brilhante que marcou uma geração. Levou 5 Oscars e outros 103 prêmios.

Louca obsessão (1990, de Rob Reiner) – 107 minutos
Ainda entre os grandes personagens, que parece ser a marca desta seleção, Louca Obsessão merece pelo menos um grande prêmio, para Kathy Bates. Ela é Annie Wilkes, uma aficionada pelos livros do escritor Paul Sheldon (James Caan) que o resgata de um acidente de carro. Salvo pela sorte, acredita ele, mal sabe que por trás daquele carinho e afeição, há uma obsessão doentia que lhe custará mais do que a rápida hospedagem. Do livro de Stephen King e dirigido por Rob Reiner (Harry e Sally, 1989), você ficará tenso até o final. Um dos grandes filmes de suspense e terror sem precisar de alienígenas, casas assombradas ou espíritos possuindo corpos e nos dando (incríveis) pesadelos. Não é spoiler, mas tem uma cena em particular, que lembrou muito o Anticristo (2009), de Lars von Trier.

Os miseráveis (2012, de Tom Hooper) – 158 minutos
Encerrando esta semana corrida de grandes personagens, em Os Miseráveis, Anne Hathaway marca sua curta atuação para sempre na história do cinema, com a interpretação da música I dreamed a dream. Este filme grandioso, musical clássico, no melhor sentido da expressão, nos transporta para um mundo de revolução francesa visto de dentro, com outras grandes atuações de Hugh Jackman, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham-Carter e outras menos brilhantes como a de Sacha Baron Cohen e uma performance estranha de Russell Crowe. Não só de atuações vive esta produção, mas de uma equipe técnica extraordinária, como a de som, captando as músicas cantadas em locação e não dubladas (como acontece em todos os musicais), garantindo com a facilidade tecnológica, uma qualidade superior e não conhecida antes nos filmes do gênero. O diretor também é dos grandes, já tinha nos dado O Discurso do Rei (2010) e depois desse, A Garota Dinamarquesa (2015). É lindo, e você vai se arrepiar.
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Há uma urgência nos filmes de Jia Zhang ke que não se percebe de imediato. É uma reflexão que chega um tempo depois de ver um de seus filmes, como uma latência que se dissolve em ação, em uma curiosidade sobre o próximo e a busca por entender por que a dificuldade e proibição de serem exibidos na China. Em As montanhas se separam, esse sentimento permanece, se reafirmando com uma sutileza que pouco se percebe nos filmes de hoje.

Uma mulher, Shen Tao (Tao Zhao), em três décadas: 1999, 2014 e 2025. Dos vinte e cinco aos cinquenta anos, dividida entre dois amores, em família e sozinha, entre gerações e ciclos pertinentes à vida de qualquer um. Vemos uma China em transição a partir de dentro, de quem a conhece bem e sem firulas, sem os exageros dos filmes de ação, grandiosos efeitos especiais ou uma trama esdrúxula, que surpreenderia mais pelo espetáculo e hipérboles do absurdo do que em seus detalhes do cotidiano. É nisso que reside sua graça e aparentemente em todo o cinema de Jia Zhang ke, ao tratar da vida, da cultura e do viver chineses.


O roteiro, tal como em Em busca da vida (Still Life, 2006), ensaia uma preparação para o espectador e logo nos entrega a ele, nos deixando com nossas interpretações sobre a obra. Ali, há uma saga de um homem e depois de uma mulher – também interpretada por Tao Zhao – e buscamos as conexões possíveis, ainda que não necessariamente lineares ou literais. Se no início deste Montanhas, pensávamos que haveria três protagonistas, ao decorrer da narrativa permanecerá a dúvida, ainda que a criação de outros personagens fortes indique novos rumos. Esta libertação ficcional é própria do diretor que nos toma pela mão, mas nos deixa seguir sozinhos através de sua história.

A divisão narrativa em capítulos é reforçada pelas mudanças em cenário e tecnologias, construindo um pano de fundo, o contexto necessário à passagem do tempo. Mas esta é uma história que transcende suas marcações de era. O que se imagina hoje do futuro – e está espelhado no filme – é mero detalhe se pensarmos nos bons filmes que tratavam do tempo décadas atrás. Tecnologia é figurino, a força desta história está nas pessoas e em suas relações, sempre universais e, se for possível o jogo de palavras, atemporais. Acompanhando a transição dos anos está a montagem, fluida e pausada, dando o tempo de apreensão e entretenimento - fugindo dos cortes de videoclipes - enquanto elimina a monotonia, e a fotografia, com luz natural em boa parte da duração, reforçando seu caráter realista e exibindo um país grandioso em todos os seus aspectos. Há paisagens deslumbrantes de uma natureza marcada pelas estações do ano, há os planos que posicionam o humano com relação ao que o cerca - de grandes prédios e estruturas, construções e minas ao rio Amarelo e a discrepância que outro continente e cultura que impactam em uma tradição de hábitos milenares.


O cinema do diretor ilumina um país continental para muito além da propaganda comunista. É quase a antítese de uma política que omite seus problemas de base e esbanja um ideal de governo que não corresponde a sua realidade. É daí, provavelmente, o embargo e a dificuldade de exibição no país. Mas Jia Zhang ke ultrapassa fronteiras de tal forma que podemos saber mais dele a partir de um documentário dirigido por Walter Salles com concepção dele e de Jean-Michel Frodon. O impacto deste cinema ainda não implica em grandes bilheterias no Brasil, mas já não passa despercebido. 

Há um paradoxo nesta liberdade vigiada de produzir os filmes no país como uma jogada cruel de suas políticas ou talvez uma brecha sempre encontrada pela produção para trabalhar, e quando conseguem ultrapassar suas barreiras, tornam público algo novo e, em oposição à censura, libertador. É uma nação que enfrenta um progresso ao alto custo da fragilização e fragmentação dos relacionamentos, com a imposição do capitalismo como modelador de comportamentos e uma névoa que parece ser de poluição e poeira – ou seria a própria cegueira imposta que tenta se dissolver? – ocupando todos os vazios e remarcando um passado rígido. Talvez a urgência de seus filmes se consolide nisso, nessa impressão que adquirimos – depois de filmes como este – de que já deveríamos tê-lo visto antes, como se nossa ânsia de participar daquela história decorresse de nosso parco conhecimento sobre uma cultura tão rica, distinta e que nos é similar em sua própria humanidade. Estamos atrasados. 

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Filme de estreia do diretor iraniano Abbas Kiarostami realizado em 1970, esse curta de 10 minutos foi nosso exercício na Oficina de Crítica Cinematográfica ministrada por Jean-Michel Frodon, no Festival Varilux de Cinema Francês que acontece agora no Rio de Janeiro e em outras capitais.




Em pouco mais de dez minutos, Abbas Kiarostami cria uma história que diverte e desperta interesse em seu curta-metragem de estreia.

Uma rua pequena com cruzamento de outras duas ou três. Um garoto com um pedaço de pão e cadernos caminha distraído, chutando uma lata. Um cachorro em seu caminho e uma música dos Beatles nos abrem os olhos para o conflito: como atravessar a rua sem ser mordido por um cão feroz? Com uma ideia de simples execução e custo baixo, o diretor sustenta sua trama sem diálogos ou qualquer necessidade deles. A narrativa se impõe entre gestos, olhares e músicas que traduzem tanto o clima do que assistimos quanto suas resoluções.

Realizado com crianças e para crianças, o filme abraça todas as idades e épocas. A situação é própria da infância de uma cidade pequena ou não violenta de qualquer lugar do mundo e a ausência de idioma – ainda que o próprio pão e os créditos de abertura indiquem uma cultura específica – reafirma sua universalização.

Aparentemente e por execução feito sem maiores ambições, o filme atinge mais do que intenciona, identificando na ingenuidade própria da infância sua outra grande característica: a criatividade. Inteligente, se sustenta na duração exata do que carece e encerra bem, como o fim de um ciclo lúdico e divertido. Comédia para todos, que em cortes simples e bom uso de câmera, nos posicionam tanto  em cena quanto a assistindo; somos o garoto e sua plateia à espera de desfecho. Grande estreia de um diretor hoje consagrado e experiente.
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Quem acompanha a trajetória de Claudio Assis percebe uma gradual transformação de seu cinema sem perder autoria e qualidade. Se com Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006) a violência e o sexo imperam na caracterização de uma sociedade em declínio, é de sonho e poesia que vivem seus personagens nos últimos dois filmes, Febre do Rato (2011) e Big Jato, o último sendo lançado esse mês no país.

O filme traz a história de Chico (Rafael Nicácio), um adolescente que ajuda seu pai Francisco (Matheus Nachtergaele), desentupindo fossas no interior de Pernambuco. Eles vivem em Peixe de Pedra, uma pequena cidade de chapada com uma rádio em que trabalha seu tio Nelson, também interpretado por Nachtergaele, presente em todos os filmes do diretor. Enquanto Francisco espera que Chico se desenvolva na matemática para lhe ajudar nas contas, o garoto escolhe a poesia, se aproximando de seu tio anarquista que satiriza o irmão nas locuções radialistas. Este duelo de matemática e literatura é próprio da distinção entre sonho e realidade e é nesse ambiente que encontraremos o príncipe, em uma participação especial de Jards Macalé como uma figura quase felliniana, dando a Chico a importância de sua imaginação e criatividade para a vida.

Chico (Rafael Nicácio) e Francisco (Matheus Nachtergaele)

Logo no início percebemos que o filme transitará entre o olhar do adolescente e de seu pai e tio, quando o garoto no caminhão pipa do pai – o Big Jato – pergunta sobre os excrementos, se todo mundo faz, por mais diferente que seja. O pai segue pacientemente explicando como a uma criança que questiona o porquê das coisas, enquanto no rádio ouve seu irmão em verborragia falando sobre o rock e desqualificando o trabalho honesto sempre defendido pelo primeiro, sugerindo a anarquia como modo de vida e anunciando a chegada d’Os Betos, uma banda que haveria influenciado ninguém menos que Os Beatles. O perfil de cada personagem é construído em equilíbrio e ali percebemos a formação de um adolescente que precisa tomar seu próprio rumo, se quiser viver do sonho.

Adaptação do livro autobiográfico de Xico Sá, Big Jato era o caminhão pipa de seu pai e muito do que está no filme parece verdade. Os diálogos são inteligentes e cheios de metáforas que se traduzem em graça pelas expressões locais, com um escritor cearense e um diretor pernambucano não seria acaso. Um dos pontos fortes do cinema de Cláudio é o próprio texto, sempre ágil, direto e carregado de conceitos. Aqui é suavizado para encarar a adolescência em sua complexidade e, ainda que alguns atores pudessem carregar em força – os irmãos de Chico – conseguem sustentar a trama sem maiores prejuízos. Os Betos não existiram, a banda foi uma alternativa para a produção do filme que não podia arcar com os direitos das músicas da banda inglesa.

Nelson :: Matheus Nachtergaele
Matheus Nachtergaele encarna os gêmeos cuja comunicação se dá em uma troca surda, já que nunca se encontram e sabem um do outro pela rádio e por Chico, que transita entre os dois. As interpretações são puro deleite e não há como não lembrar Peter Sellers e seus personagens camaleônicos de Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964). Os dois amam e cuidam de Chico, de alguma forma lhe fornecem os meios e visões distintas e radicais de mundo tão caras à própria formação de um jovem, até que seja capaz de trilhar o próprio caminho. A família de apoio ganha a força de Marcélia Cartaxo, atriz experiente e de peso, mãe de Chico que tem a paciência para manter uma casa de essência machista e, ao mesmo tempo, não se permite tolerar o alcoolismo do marido que se anuncia à esquina. Este prefere a cachaça a pensar que sua vida se resume à merda e fossas, cada vez mais escassas à medida que se constroem banheiros dentro de casa, fruto de um desenvolvimento local em uma cidade que ainda carece de sinal de celular.

É com doçura que Cláudio Assis trata das questões árduas ao sustento familiar, entre a sujeira própria que produzimos com nossos excrementos e a naturalidade de conviver e tratar deles. A perspectiva do adolescente corrobora esta nova trajetória mais lúdica e leve, rompendo quase totalmente com o formato marginal e agressivo dos primeiros filmes. Com esse, o diretor se destaca, mantendo suas inquietudes e as ampliando em público, narrativa e pertinência. É mais importante do que parece à primeira vista, é mais uma grande e relevante exibição de um nordeste puro, cultura que poucos conhecem e seguem rindo apenas por ouvir um sotaque diferente. A ampliação do olhar para um Brasil fora do litoral e da mídia e fundamental para a constituição ampla de cultura, identidade e nacionalidade, hoje quase reduzida às cidades mais caras. Grande filme.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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