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Café: extra-forte

Há alguns dias postei um texto sobre o Última Parada 174, quando foi lançado no Festival do Rio. O tempo passou e para a minha surpresa, li ontem no caderno cultural de domingo uma falação entre os bonequinhos de O Globo. Carlos Alberto Mattos, Rodrigo Fonseca e Marcelo Janot opinaram entre bonequinho achando espetacular, bonequinho de maresia na poltrona e bonequinho pedindo a morte... ou dormindo. Mas a parte realmente interessante de toda a história pode ter passado despercebida pela maioria: a forma como os três autores opinaram sobre o filme se transforma radicalmente e deixa o leitor que ainda não o assistiu, meio sem saber o que fazer.

Minha opinião sobre o 174 tá por aí, disponível. Mas, quem tiver acesso ao Globo, vai encontrar muita diversão pra quem curte crítica de filme, a começar pelos títulos dos três textos: “Uma tragédia brasileira sob o foco da sobriedade”, “Perplexidade em ensaio sobre o livre-arbítrio” e “Tropa de Elite do Bem em clima de Telecurso”. Vou comentar os três textos e seus autores, respectivamente.

Carlos Alberto dá um show de gentileza e opina com a bonança do cinema brasileiro... concorda com tudo, acha o filme perfeito, digno e justo. E essa boa vontade que nos torna café-com-leite é que me deixa irritada. Se este fosse um filme americano, de Hollywood, certamente choveriam críticas do apelo ao drama, das caricaturas, de que é mais um filme blockbuster. Mas, por ser tupiniquim, a pátria amada chora e acolhe os seus, ainda que o filme continue com suas caricaturas vendendo um Brasil que o mundo entende como óbvio e real, porque é sempre a mesma mídia que fabrica as mesmas idéias. Ainda assim, vale ler o texto, muito bem escrito e elegante.

Rodrigo Fonseca toma uma atitude mais arriscada e falha. Nos traz um cabedal de informações para cult achar bonito e poder participar da mídia de massa. Pasolini de início com mais outras citações que nem os iniciantes estudantes de cinema se acostumaram a ouvir. Ainda que a analogia ao texto do poeta-cineasta seja bem sucedida, poderia ter findado aí, para o leitor usual poder partilhar das opiniões sem precisar acessar a estante cult/alternativos/cinema europeu da locadora. O texto perde a graça e fica orbitando em torno dos intelectuais que devem ter achado bastante interessantes as opiniões baseadas em obras de arte. Não diz muito na vida real, o autor fica em cima do muro e deixa o bonequinho e seus leitores sem muita vontade de ver o filme.

Janot ganhou meu coração. Não sei o que aconteceu com ele nesse dia em que resolveu escrever o texto, não o conheço, mas ganhou ainda mais a minha simpatia com as comparações esdrúxulas e originais ao utilizar 'Tropa de Elite do Bem', 'telecurso primeiro grau' e 'mãe bíblia' no texto. Conciso, exato, direto. Não facilitou pra Bruno Barreto, identificou as caricaturas ridículas e perigosas do filme, e, como não poderia deixar de ser, acabei concordando, mas não é só isso: Marcelo Janot trouxe graça, leveza, opinião contundente. Tem quase uma raiva, um sarcasmo real nas palavras. Não precisamos do rebuscamento de Rodrigo ou da complacência de Carlos Alberto.

É uma peregrinação entre as diversas formas de se fazer crítica e acho que só essas diferenças já cabem em uma aula do gênero. Tomara que alguém faça uso. E, ainda que os textos sejam curtos como resenhas (talvez alguém aí reclame que eu os chamei de críticas), vale perceber a forma como cada autor se posiciona e aborda o que mais lhe chamou atenção. Poderiam ser textos maiores, mais elaborados e com reflexões que nos fornecessem material para além da polêmica óbvia, mas, para isso teríamos que pensar em um caderno de cinema e não de cultura geral. É uma falha que persiste no cerne da mídia impressa e só temos a lamentar.

Por fim, ainda que tenhamos tantas vertentes pra polemizar a vida real que girou em torno dessa ficção, continuo achando que vale a pena ver o filme. Vamos estudar um pouco o Brasil, nossas pessoas, nossas tragédias e, mais importante nesta ocasião, nossa representação na tela. Não podemos deixar de refletir em como nos vemos, em como quem fez esse filme nos vê e se vê enquanto brasileiro e se é isso mesmo o que somos, se somos o que está disposto aí, porque é assim que nos enxergarão lá fora, que imaginarão e que farão um resumo de nós. E, para deixar os incrédulos do documentário em crise, a verdade é uma só e unânime: o documentário sobre a tragédia – Ônibus 174 – é muito melhor do que estorinha de ficção.

Filmes:
Última Parada 174
Ficção, 110 min
Diretor: Bruno Barreto
Brasil, 2008.

Ônibus 174
Documentário, 133 min
Diretor: José Padilha
Brasil, 2002.
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Estou vivendo um momento muito particular desta trajetória. Como previsto, as dificuldades pra encontrar um apartamento persistem, mantenho vivo meu posicionamento (cada vez mais) crítico sobre meus atuais conterrâneos e, por conta de algumas questões menores, minha tolerância à imbecilidade anda bastante reduzida.

Resolvi que precisava investir neste momento e descolei dois autores: Gore Vidal e Charles Bukowski. Terminei Factotum (Bukowski) há algumas semanas. O livro aconteceu num flash, a literatura corrida, sem muitos floreios e sobre o que é contemporâneo nos faz passar de uma página a outra sem perceber. É a história de Chinaski, um rapaz que vive seus vinte e poucos anos percorrendo os EUA a custa de bebidas, mulheres e cigarros. Vive e mora como dá, em vielas e apartamentos como vários que já visitei por aqui. Chinaski trabalha para o momento, para o mínimo necessário. É o fim da Segunda Guerra e ele só para pra pensar nisso quando percebe a dificuldade cada vez maior de conseguir trabalho.

O que importa nisso tudo é a forma como Bukowski constrói seu personagem. É uma pessoa ordinária, cuja vida passaria despercebida, como alguém que passa por nós ao atravessarmos a rua, é aquele que se escora no boteco e passa a noite entre um gole e outro, vendo quadris camabaleando. A identificação ainda assim acontece e é aí que está a graça: Chinaski não se importa tanto com o mundo ou com o que pensam dele. Sabe do que é capaz e até onde vai sua mediocridade e inteligência. É avesso à modéstia, essa palavra infame que torna tanta gente um pouco mais cínica.

Chinaski é a crítica à sociedade americana e seus valores falseados. É muito do que nossa sociedade vive também. É o não à guerra com a indiferença de quem não vê razão pra tanta mobilização. É a dificuldade de seguir certas normas, apenas por não acreditar nelas. E ele não as segue.

Percebi que minha intolerância não é só minha... é de Bukowski, de Gore Vidal, de Martin Page e, para a minha surpresa, de Marcelo Janot*. É desses atuas e dos que estou para conhecer e me divertir com a concordância das mesmas idéias em outras formas de expressão. Agora inicio Kalki, de Gore Vidal... vamos ver o que acontece.

Indico totalmente para quem tem momentos em que não acredita na capacidade das pessoas de serem estúpidas: Factotum, Charles Bukowski.

*Mais tarde, neste blog. :)
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Essa é a abertura do documentário Cidade da Bahia, dirigido e escrito por mim. Foi meu trabalho de conclusão de curso da graduação em Cinema, em Salvador, a partir de uma prêmiação no concurso internacional Citès du Monde. Estou com uns problemas pra colocar o filme todo, então vai um trechinho.

Cidade da Bahia
2005. 26min.
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Pois é...

Ao mesmo tempo que o Curta cai no mundo virtual, será lançado em tela grande, para o meu desespero e agonia. Semana que vem, na noite de quinta-feira, aproximadamente às 20:30, será exibido no Arquivo Nacional, na mostra da Oficina do RECINE 2008 (confira programação). Já saímos em um caderno especial de O Globo de 10 de outubro de 2008.
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Tem certos prazeres que, por serem tão banais, às vezes passam despercebidos. Desde que comprei o jogo de talheres, ainda não havia, que eu me lembre, utilizado os garfinhos de sobremesa. Como só morei até hoje em apartamentos mobiliados, não comprei muita coisa para casa: dois copos grandes, duas canecas, um jogo de talheres e uma garrafa térmica. Meu jogo de talheres é simples e pequeno, mas vem com essas peças que parecem mais garfos para crianças. Me sentindo ainda mais mulher que mora só, havia comprado ontem uma fatia de torta musse de café que me esperava na geladeira. Dentro da embalagem tinha deixado uma colherzinha de plástico, que veio junto. É que ontem não aguentei esperar e tirei um pedacinho. Deixei a colher dentro da embalagem, para o momento seguinte.

O momento chegou neste domingo de eleições. Depois de ir à esquina me livrar do compromisso, fiz um mercado básico. Nunca senti tanto prazer em morar só: fui a dois mercadinhos de bairro, comprei coisas só pra mim e almocei uma salada que fiz com base na criatividade e nas possibilidades de grana. Sentei para o outro compromisso corrente: li o jornal do dia e procurei o novo apartamento nos classificados. Selecionei alguns para visitar amanhã, enquanto outros movimentos acontecem em paralelo.

Ao tempo que resolvi esta parte, chegou o momento da torta-musse. Como tinha esquecido da colherzinha dentro da embalagem, abri a gaveta dos talheres e lá estavam eles: os garfinhos pequenos. Por mais banal que esse texto seja, o momento foi sincero. Sentei diante da tv, deixei a colherzinha de plástico de lado, assisti A Roda da Fortuna, tomei café e comi a torta. Com o tempo esfriando, criei meu próprio aconchego.

Vivemos o dia-a-dia sem pensar nas pequenas mudanças que nos acontecem. O garfinho pode ser a cereja no sorvete, um detalhe que não precisamos necessariamente, mas que fazem a diferença, como o sebo de outro dia, procurar apartamentos e trabalhos, estar só e rodeada. Ter um espaço próprio, construir a trajetória por si. Claro que, para isso, dependemos de nós mesmas para tudo: quando esqueço de comprar água, fico sem e com sede. Ou sem roupas limpas, por passar ou com a casa suja. Depender de nós mesmas é assumir tudo ao mesmo tempo, sem esquecer de fazer as unhas e ler um bom livro.
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Hoje tive mais uma tarde agradável. Fomos ao Festival do Rio assistir O Segredo, cuja crítica estará disponível amanhã por essas bandas... mas a questão nesse momento vai além: as conversas de um dia qualquer. É engraçado como deixamos passar momentos extraordinários em nossa vida cotidiana. Porque o "extraordinário" vem justamente dos momentos surpreendentes de nossos costumes ordinários... por mais óbvio que isso pareça assim, escrito, poucas vezes atentamos para os significados das palavras que falamos tanto.

Tenho convivido bastante com Daphne. Ela é uma carioca muito engraçada e inteligente que conheci no RECINE, um Festival de Cine de Arquivo que todo ano apresenta uma oficina e cada participante cria um curta-metragem a partir de imagens do Arquivo Nacional (que é, de fato, um prédio que arquiva diversas imagens, filmes, mídias do país...). No tempo de meu avô...,o curtinha, em breve estará disponível. Nos conhecemos na oficina, trocamos figurinhas e sugestões e colaboramos nos trabalhos. Com isso, e por nós duas falarmos além da conta, criamos identificação e surgiu uma amizade criativa, divertida e crítica.

Construímos idéias mirabolantes e discutimos questões universais. Eu sinto uma lufada de ar novo quando lembro das discussões clássicas que nunca chegam a conclusões diretas, mas criam ainda mais questões indissolúveis, sempre em locações sem sentido: ônibus, meio da rua, cinco minutos antes do filme começar. As discussões nunca acabam, mas são sublimadas com os pensamentos que ficam rondando nossas cabeças em busca de respostas.

Estando numa fase nerd, acabo me divertindo nesses momentos e com as grandes aulas, aquelas que nos ampliam horizontes e nossa ambição de querer saber mais e mais vira um buraco negro que passaremos a vida tentando clarear (como a surpreendente aula sobre a Lei do Audiovisual). Oportunidades surgem como fagulhas em nossos cérebros, idéias pipocam e a vontade de produzir só perde pra de conhecer e, se pensarmos que uma coisa está necessariamente atrelada à outra, um sorriso surge em nosso rosto.

E vou em um sebo enorme por caminhos do acaso numa tarde de domingo, descubro a velha infinidade de livros e possibilidades, passo horas no meio de papéis e poeira, desvendando que livros levarei, sabendo da triste certeza que jamais lerei todos ali dispostos. O prazer de uma tarde como essa abraça poucas pessoas e corações... a tranquilidade de um sebo, o desejo de ter palavras escritas e, nessa horas, de ser absorvida por todas as frases que nos motivam a ler ainda mais frases e sentimentos que escolhemos levar pra casa, fazem o caminho de volta especial e a sacola de livros, um grande tesouro.

E agora? Como faço pra me transformar em 15 ao mesmo tempo? Quero estudar, ler, aprender, trabalhar, filmas, escrever, ver filmes, discutir, fofocar, namorar, decorar, lanchar tortas ou pão de queijo com café expresso, beber vodca com aditivos diversos ou um chopp cremoso e gelado... é muito pra uma pessoa só.
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Este ano participei da Oficina de Cinema de Arquivo do RECINE, um festival de Cinema de Arquivo que acontece todo ano no Rio de Janeiro. O filme que consegui construir com as imagens cedidas pelo Arquivo Nacional conta um pouco sobre meu avô, pai de meu pai. Minha busca é a construção de sua identidade, do que ele representou e representa para mim, com a ajuda de depoimentos da família.

Para montar No tempo de meu avô..., utilizamos as imagens do Arquivo e fotografias de família. Devido ao prazo curto e às limitações de produção, o filme careceu de um trato sonoro mais apurado. A oficina do Recine acontece todo ano, com duração de 40 horas com algum documentarista experimentado. Neste ano, Eduardo Escorel.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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