Última Parada 174

22:00

E quando a gente sai de um filme como esse, com uma história trágica e real e partimos para a rua, andando e vemos meninos, homens de rua deitados em pontos de ônibus? Nossa sensibilidade já ampliada nos joga para a fronteira do descaso social, do preconceito e do mais óbvio de todos os sentimentos possíveis: o medo. Não é o medo de ser assaltada, de alguém 'estranho' entrar no mesmo ônibus que o seu. É o medo da possibilidade, da casualidade transformar-se em destino de alguém.

Esta foi a trajetória possível e presente na interpretação do Última Parada 174, a ficção da história do assalto ao ônibus 174 do Rio de Janeiro de 2000. O evento, inesquecível a todos os brasileiros foi televisionado, como aconteceu ao 11 de Setembro americano, um ano depois. A tragédia brasileira foi transmitida com seus próprios tons, o que passou na televisão pareceu de fato um filme brasileiro. Se continuarmos com o paralelo, a tragédia americana é análoga: o atentado – tantas vezes encenado e provocado – parece uma superprodução de Hollywood. O que Osama e sua trupe conseguiram possivelmente jamais se repetirá. Nunca uma imagem teve tanto impacto e nunca em tempo real.

O retrato de nossa tragédia reflete o sucesso de nosso governo. Sandro é filho da pobreza, da miséria, do tráfico e da dor. Sandro é o reflexo escancarado da política de manutenção da exclusão, emblema desta nação solidária. Mas, ainda assim, Sandro é vítima, e algoz.

O ônibus 174 não existe mais. O número foi cortado como símbolo de uma história ruim. Mas, ainda que se tente esquecer, as imagens continuam rondando. O fato virou filme documentário, reportagem especial, transmissão ao vivo e agora, filme de ficção. Não satisfeitos com a re-reflexão em cima do drama real, a ficção ainda tentará o Oscar. Os jurados brasileiros o justificam pela emoção. Para mim, tragédia vende e filmes como este reforçam a visão de terra perversa e sedutora que é nosso país.

Última Parada conta a vida de Sandro, de bebê ao dia em que morreu. Do fato que lhe deu fama, fala-se pouco: não fazia sentido recriar seqüências já consolidadas em nosso imaginário. O filme, conforme esperado, carrega nas tintas. O roteiro e as encenações criam personagens que nunca vimos e que jamais saberemos se realmente eram assim. Um tom de piada percorre o enredo nos diálogos: o público carioca se dividirá entre os risos de identificação e insatisfação com a caricatura. A impressão que dá é que esses momentos servem como suspiros de alívio, suspensões na trama para o espectador respirar, como o cinema americano faz. Da fotografia e montagem não há o que dizer. São trabalhos cuja qualidade é inqüestionável e que vão construindo o ápice da história. Relembramos as cores da nova safra brasileira de filmes do gênero e a violência é agora vivida por menos personagens.

O final do filme é como assistir a Romeu e Julieta: já sabemos como termina. Ainda assim, não satisfeito com o teor trágico inevitável – como fez Babenco em Carandiru – Bruno Barreto explora os últimos segundos em planos desnecessários. Outro dado que merece atenção: os contornos da cidade maravilhosa são utilizados como símbolo místico. O Cristo Redentor abre os braços para Sandro, mas quando chega seu dia, ele está de costas. Sandro tem pressentimentos, quase premonições sobre sua vida. É esse rapaz de bom coração, transformado por sua criação, por sua situação de vida, que ainda tem visões e um lado artístico maltratado. E é esta mística que acaba com uma possível reflexão crítica direta e surge como um reforço da trágica história das vítimas e seus destinos inevitáveis.

Última Parada 174 é obrigatório para se pensar o país a partir de óticas que conhecemos muito bem. Se a percepção do fato em tempo real já foi marcante pela brutalidade da vida ao vivo na televisão, o documentário (Ônibus 174, José Padilha - 2002) buscou as primeiras razões para o fato. Descobrimos que aquela pessoa que provocou a reação em cadeia dos assassinatos é, de fato, uma pessoa, cujas estruturas sociais nunca foram fundamentadas, nunca teve direitos, nunca foi ninguém. A ficção amplia esse horizonte com o drama, dando ao espectador a empatia necessária com o protagonista, forçando uma humanização maior.

Uma questão não se pode esquecer: ainda que o personagem Sandro esteja perdido com tantos déficits sociais, não podemos, com isso, justificar seus atos. Enquanto no documentário, Padilha parte para a pergunta direta e desnecessária àqueles que estavam no ônibus: você perdoa o Sandro?, Bruno Barreto tanto perdoa, quanto abraça seu protagonista. Quem vemos entrar no ônibus é um menino perdido entre as drogas, mas não é essa a imagem que vimos no dia do sequestro. Quem vimos no ônibus era uma pessoa fora de controle, de quem teríamos medo e não para quem torceríamos. Se a intenção de Bruno Barreto é justificar crimes a partir da história de quem o cometeu, há muitos filmes ainda por fazer, basta freqüentar o sistema prisional brasileiro. Por outro lado, não se fala dos heróis do cotidiano ou da menina que perdeu a vida quando resolveu pegar o ônibus 174 pra casa. Também pobre e moradora de favela, nordestina e tentando ganhar a vida.

A grande questão que pode surgir depois de tantas aparições do menino Sandro é que não há menino, não há pessoa. Sandro é criação coletiva ficcional. O Brasil colecionou eventos de sua vida, a partir de informações com pessoas que viveram com ele. Sandro foi o responsável pelas mortes do ônibus, isso jamais sairá das mentes brasileiras. Ele deixou de ser pessoa para ser personagem da mídia e os fragmentos reencenados de sua vida nunca nos dirão como ela de fato foi.

Por mais que busquemos razões para aquela tarde carioca, sabemos que há uma cadeia de ações e inações por parte não só do protagonista desta novela, mas de todo o seu entorno. Talvez este filme pretenda, além de justificar os atos do rapaz, se desculpar mais uma vez pela morte de Geísa, principal vítima e reflexo de mais uma falha do sistema-brasil, a polícia. Que se aproveite do 174 para conhecer uma história que é parte do país, que não se pense apenas no romance ali exibido, mas no sistema ações e conseqüências possíveis. Que se pense criticamente e, por fim, que cheguemos à simples constatação de que há muitos Sandros por aí, como há muitos ônibus e Geísas. Todos os dias, nas ruas, nas grandes e pequenas cidades. Que o filme não surja para criar heróis-vítimas, mas um pensamento crítico frente à realidade.


Título original: Última Parada 174
Diretor: Bruno Barreto
País: Brasil
2008, 110 min

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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