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Café: extra-forte


Em junho de 1963, Valentina Tereshkova foi a primeira mulher lançada ao espaço, com a missão de rodar nosso planeta 48 vezes. Ela era soviética. Em plena Guerra Fria, quando as duas maiores potencias globais – União Soviética e Estados Unidos – brigavam por um (primeiro) lugar ao sol, a primeira tomou fôlego e abriu uma prerrogativa jamais conquistada por sua oponente. Nunca uma mulher americana foi ao espaço – mas, pelo menos, estiveram nos bastidores e foram fundamentais para qualquer homem americano ir.

O filme se passa no início da década de 60, neste mesmo momento de Valentina, quando três matemáticas negras trabalham na NASA, a agência espacial americana. Para elas terem seus direitos plenos enquanto mulheres demorou provavelmente uma vida, mas conseguiram – ao menos naqueles escritórios – vencer um pouco a barreira da melanina. A algum custo, claro.


Hidden Figures, cuja tradução literal seria perto de ‘números/figuras escondidos(as)’, faz todo o sentido, é mais sofisticado e menos piegas do que nossa criativa versão brasileira e conta a história de Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três matemáticas que trabalham nos escritórios menores da NASA como ‘computadoras’. São elas e mais uma grande equipe de mulheres negras, que realizam os cálculos e auxiliam as equipes mais especializadas da engenharia espacial. Mas, elas podem muito mais, suas inteligências e capacidades são surpreendentes. Assim, ultrapassando as barreiras sociais a fórceps galgam, cada uma, seu espaço.

As três grandes atrizes – considerando que Monáe ainda é brilhante como cantora e este é seu primeiro grande filme – dominam qualquer cena, poderiam todas ser protagonistas das histórias, cuja carga dramática se centra em Katherine, que trabalha diretamente com Al Harrison (Kevin Costner) na maior missão, que é levar o primeiro homem para fora do planeta. Além de Kevin, encontraremos Kirsten Dunst como Vivian, a colega de Dorothy em igual ou menor demandas, cujos privilégios são superiores por ser branca, e Jim Parsons (Sheldon Cooper, de The Big Bang Theory), fazendo uma espécie de rival ainda nerd e irritante de Katherine, ao se sentir ameaçado pela eficiência da heroína. 


Há um paralelo constante entre suas vidas no trabalho e como ele se reflete em casa com suas famílias, nos relacionamentos e na batalha por uma educação de qualidade, sempre relegada aos brancos e, mais precisamente no campo da engenharia, homens. É um filme americano, hollywoodiano e como tal, dá pesos e medidas sem atingir as sensibilidades e políticas da grande indústria. Sua estrutura dramática é leve, fluida e mexe nas questões raciais, de gênero e sociais muito bem, trazendo comédia a situações que hoje nos pareceriam surreais – se ainda não acontecessem de fato. Agora em tempos de Trump, boa parte das intolerâncias podem bater à porta com mais frequência e gravidade novamente.

As indicações a prêmios são devidas, dificilmente levará a estatueta de melhor filme no Oscar, mas o fazer político da Academy Awards resolveu dar voz aos negros e os creditou devidamente em justas indicações que não devem ser medidas pelos contrastes, melhor seria dizer brilhos, de suas peles à luz. O que melhora a história é o fato de ser baseada em fatos reais. É uma adaptação do livro de Margot Lee Shetterly, (uma mulher incrível com um projeto de resgatar as identidades das mulheres computadoras), feita juntamente com o diretor, Theodori Melfi e Allison Schroeder, nomes agora em ascensão pela indicação de melhor roteiro adaptado. Octavia Spencer também concorre, como atriz coadjuvante.


As premiações (um detalhe, cujas seleções servem mais à indústria e ao público que acredita em rótulos sem saber da política por trás) valem para lhe dar o destaque de termos uma narrativa sobre três mulheres negras, escrita por uma mulher negra, todas protagonistas, profissionais e ótimas. Fica a curiosidade de conhecer as mulheres da história real e ver o quão brilhantes e cheias de outras histórias devem ser. Elas ainda não foram ao espaço, nenhuma mulher americana foi. Talvez, com a "nova" política, não irá tão cedo, mas nos bastidores, não há desenvolvimento científico sem elas. Emocionante, inteligente e relevante, o filme é uma delícia.

*Estreia na primeira semana de fevereiro.
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O Carnaval de Salvador é a maior festa popular do mundo. Que não se diga tanto por estatísticas, mas por comoção, alegria e música que dominam parte da cidade uma semana por ano. Há quem se prepare financeiramente o ano inteiro para ela, há quem vá às ruas, de graça todos os anos para ver um espetáculo de estrelas da autêntica música popular baiana, brasileira, aquela que, ainda que você não goste, não vai lhe deixar parado. É dessa música e um pouco da festa que se trata Axé – Canto do povo de um lugar.

O início do filme já dá um aperto no peito, mas é de saudade. O carnavalesco soteropolitano – nativo, residente ou visitante – conhece as maiores músicas, os clássicos de 30, quarenta anos atrás. É como um grande reencontro, com o adendo de uma viagem pela história da música baiana, do carnaval e de seus fundadores. Mas há muito que dizer para além dos sucessos, falar da história da festa, de seus protagonistas – artistas e povo – da invenção dos trios elétricos e guitarras baianas, da música cantada e de todos os instrumentos que trazem a democratização da música na festa.
Luis Caldas - a primeira voz do Axé

Chico Kértesz reúne depoimentos de grandes expoentes da música baiana, traçando um panorama do passado que aqui começa com Armandinho e a família Macedo – os pais da guitarra baiana – e encerram com a decadência de alguns de seus mestres de cerimônia, fruto de uma indústria que visava o lucro e a ascensão meteórica de quem se destacava, mas não se organizava enquanto coletivo para mantê-los a longo prazo, isolando estrelas como se fossem competidores. Chacrinha foi um dos fomentadores destes músicos, levando a seu palco Luiz Caldas, Márcia Freire e outros nomes que a nova geração quase não conhece. Os artistas que vieram dos blocos e suas bandas correram para a carreira solo e outros os substituíram, como uma sucessão natural. A música dos blocos afro – Olodum, Timbalada, Ilê Aiyê, Muzenza – surge aqui com algum destaque juntamente com a reafirmação da cultura negra, mas, por alguma razão o diretor deixa passar um de seus grandes expoentes, os Filhos de Gandhy.

A montagem merece um prêmio, entretanto. Da trilha sonora – que aperta o peito de quem está longe – quanto às imagens de arquivo, há ampolas da festa para quem pouco a conhece e percebe-se inegavelmente a força dos ritmos se manifestando no povo. Não só vemos Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Margareth Menezes em início de carreira, conquistando com raça, qualidade e força seu espaço, como Netinho, Chiclete com Banana – com e sem Bell e suas discussões ‘familiares’ – a banda que mais arrastou multidões, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, já consagrados e ícones de cultura, enquanto participantes da festa. Há ainda a importância inquestionável da WR, a gravadora que lançou todos estes nomes, que garantiu seu espaço na cena musical nacional, sob o comando de Wesley Rangel. Psirico e Harmonia do Samba viriam dar sequência comum incremento no ritmo, assim como acontece agora com Baiana System, a banda que se recusou a participar do filme e a posterior chegada de outros estilos e ritmos musicais que hoje dividem espaço com o Axé.

Daniela Mercury - a rainha
Há alguns subtextos nisso, há uma questão política forte que rege a festa, há a indústria que privilegia quem acompanha a primeira, há a desigualdade social reforçada com as cordas e segregada por cordeiros. Há a própria diferenciação, dentro do que se entende como Axé, do gênero, basta ver aí a inclusão do pagode baiano do Gera Samba/ É o Tchan e Terra Samba, do eletrônico, sertanejo e pop. Sobra um questionamento se não valeria um olhar mais apurado sobre o assunto o ampliando para a festa em si, como um seriado com episódios mais detalhados dos temas, a história da WR, a cultura afro, os novos ritmos, a política que rege a indústria, a fundação e falência de alguns blocos, a ascensão e império de outros, as mortalhas e abadás, o carnaval sem cordas. Não seria mais apenas sobre a música, mas sobre todo o Carnaval.

A palavra Axé vem do Iorubá e por definição é energia presente em cada coisa, em cada ser. Nas religiões, é a energia sagrada dos deuses. É a melhor definição para o gênero híbrido que inaugura nosso carnaval, cujas raízes misturam todos os ritmos fundadores da cultura baiana, fundadores da cultura nacional e que foi rechaçado por um jornalista roqueiro, com o objetivo de transformar um termo simbólico em algo pejorativo. A palavra coube como uma luva, seu conceito alcançou o significado original, levantando com força sua origem africana, coerente com a cultura local, a forte percussão dos atabaques, a dança e o gestual.
Olodum arrastando sua multidão no Carnaval
Ainda que careça de aprofundamento nas problematizações aqui pinceladas e faltem artistas e manifestações importantes, o filme agrada quem ama a festa e o Axé. Ainda há muito que se dizer sobre o ritmo, sua história e seus artistas, é como se aqui víssemos a introdução do assunto. É uma coletânea ou talvez um pout-pourri do que houve de melhor na produção musical baiana do início dos anos 80 até hoje, com grandes imagens de arquivo, que nos sacodem nos assentos do cinema e nos fazem querer passar o próximo fevereiro em Salvador. É, por fim, um acalento para quem gosta e conhece e uma base para quem quer conhecer, sem preconceitos e com muita alegria um pouco do que move a cultura baiana e hoje, brasileira.

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Entre 1964 e 1975, a BBC exibiu a série The Wednesday Play, dando vez e voz a diversos diretores, roteiristas e atores ingleses. Neste período, Ken Loach dirigiu 10 episódios, sendo o de maior repercussão, Cathy Come Home, de 1966. Cathy era uma jovem que casou cedo e com seu marido, logo tiveram filhos. Com sorte e sonhos grandes, financiaram a compra de um apartamento, mas, o marido precisou ficar sem trabalhar por um tempo e acabou demitido. Assim perderam a moradia e com uma sequência de infelicidades, Cathy e sua família sofrem as consequências da crise de habitação inglesa na época, sem dinheiro, sem trabalho fixo e contando com o parco auxílio do governo que os mantinha na linha da miséria, cada ano perdendo um tanto mais.

Estamos em 2017 e ano passado Ken Loach ganhou a Palma de Ouro em Cannes por seu novo filme, Eu, Daniel Blake, que estreia essa semana nos cinemas brasileiros. Daniel Blake (Dave Johns) é um senhor que se recupera de um infarto e precisa ficar sem trabalhar enquanto se recupera, contando com o auxílio do governo. Entretanto, através de uma sequência kafkiana de burocracias, a solicitação de um direito se torna uma via crucis não só para ele, o diretor nos diz, mas para qualquer um que o necessite. Em um dos escritórios previdenciários, Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma jovem mãe solteira com dois filhos que também busca um benefício e juntos, apoiam um ao outro nas carências cada vez mais agudas.


O que Ken Loach quer, retomando o assunto cinco décadas depois? Possivelmente muito pouca coisa mudou desde Cathy, ele nos informa neste angustiante drama. Não é apenas a crise de moradia em Londres e arredores, mas uma burocracia que une Kafka a Dostoievski no que pode ser mais trágico em suas narrativas, nos aprisionando como vítimas em círculos cada vez mais profundos de ineficiência e perversidade em qualquer esfera de assistência social, esta mesma que alimentamos através de impostos.

Daniel Blake é um aperto no peito, porque nos apaixonamos por esse homem que tenta não criar Um dia de fúria, mas que, paulatinamente vai sendo tomado por emoções que não pode se dar ao luxo de ter, já que seu coração é frágil a tal ponto de não poder trabalhar por orientação médica. O governo teimosamente insiste que ele deve procurar trabalho, já que lhe negaram o seguro médico, como única saída para manter o seguro desemprego e assim ter uma renda mínima para viver. É uma série de situações ilógicas que soariam surreais se vivêssemos em um país digno, mas por aqui não é difícil imaginar algo parecido.


Se Daniel precisa de um auxílio por conta de sua saúde e não consegue trabalho por tantos fatores, Katie está quase na mesma situação de Cathy, precisa sustentar seus filhos e, sendo de Londres e não havendo residência por lá, onde estaria próxima de sua família e assim com algum suporte – foi obrigada a se mudar para uma cidade em que ninguém a conhece e ela não tem formação e experiência suficientes para conseguir trabalho. Seu requerimento também é negado e agora os dois rumam inexoravelmente para a marginalidade e humilhação. É como uma funcionária do governo diz para nosso herói; tome cuidado, porque já vi muita gente honesta e boa ir morar na rua. A angústia reside em, se não conhecermos alguém que vive essa rotina de dependência do estado, nos imaginarmos carecendo dela e acabarmos desabrigados e desamparados, sendo descartados como seres humanos. Isso aterroriza ainda mais quando deduzimos ser fruto de uma infelicidade que poderia acometer qualquer um – que não fosse abastado – e uma vida se converte em desgraça gradualmente por um sistema cruel, destinado a favorecer quem consegue preencher os requisitos quase inaceitáveis dos formulários e aceita docilmente as interpretações dos funcionários embriagados de pequenos poderes.
 
As interpretações de Dave e Hayley não só corroboram todo o cinema naturalista de Ken Loach como o enfatiza; são situações tão cotidianas e plausíveis que poderíamos estar diante de um documentário. Dave Johns é um comediante que conhecemos pouco por aqui e seu personagem dramático, por vezes é aliviado nas discussões surreais em que se vê obrigado a participar, garantindo gargalhadas. É um humor sutil e sarcástico, incrementado pela intolerância à estupidez e descaso. Hayley, por outro lado, sustenta o drama e a força de uma mulher jovem que precisa ser pai e mãe, referência de educação e moral e pôr comida na mesa, da forma que der. Em Cathy, as interpretações e o impacto do filme foram tão grandes que as pessoas paravam a atriz Carol White na rua para lhe dar suporte afetivo e financeiro. Em entrevista comemorativa sobre o filme ano passado, o produtor Tony Garnett nos informa que a situação dos moradores de rua só piorou de lá pra cá, tendo mais do que dobrado o número de desabrigados em Londres. Por isso a pertinência em tratar do tema.


Filmado em ordem cronológica, tendo o roteiro sido entregue aos poucos aos atores, Ken Loach constrói em nós a tensão e angústia e nos deixa quase sem aguentar ou querer ver o final. Brilhante, urgente, imprescindível, emocionante e magistralmente construído, assim mesmo, cheio de elogios, é esse filme que foi ovacionado por 15 minutos após a sessão em Cannes. Vale cada segundo.

***

Dica da vida: diversos episódios de The Wednesday Play, inclusive Cathy Come Home estão no Youtube com legendas em inglês. Vale muito a pena.
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Definido como farsa burlesca, aplaudido em Cannes, odiado por uns e amado por outros, Mistério na Costa Chanel, o novo filme de Bruno Dumont, finalmente chega ao Brasil. A comédia situada em 1910 no norte da França apresenta um olhar crítico sobre absolutamente todos os personagens, os identificando como representantes daquela época – talvez nem tão distante desta.

A família burguesa Peteghem chega à Costa para passar férias. O pai, André (Fabrice Luchini), a mãe, Isabelle (Valeria Bruni Tedeschi), as filhas e a sobrinha adolescente Billie (Raph) se acomodam na casa com arquitetura egípcia, mas revestida em concreto. O detetive Machin (Didier Després) e seu assistente Malfoy (Cyril Rigaux) são os novos o Gordo e o Magro, que investigam uma série de desaparecimentos no local com dificuldade, já que Malfoi não consegue ficar em pé por muito tempo. Além deles, há uma família de pescadores que ganha dinheiro atravessando as pessoas de uma ponta à outra da enseada.


Mistério em si não há para o espectador, fato que eliminaria a necessidade de tradução do título para o português. Ma Loute é o título original e poderia assim ter se mantido, já que é o nome de um dos protagonistas (Brandon Lavieville), o filho do pescador Eterno (Thierry Lavieville), também seu filho na vida real. Os desaparecimentos logo são esclarecidos, sendo a família de Ma Loute, saudáveis canibais e assassinos sem remorso. Problema nenhum nisso e o grande elenco suportaria a trama felizmente surrealista, não fossem os exageros de atuação e a narrativa frágil dois entraves importantes.

Juliette Binoche também está aqui e é Aude, a irmã histérica de André e mãe de Billie, que aparece para fazer a visita anual. Ela e Christian (Jean-Luc Vincent), irmão de Isabelle são extremamente afetados e histéricos, até mais do que os donos da casa. Ela já trabalhou anteriormente com Bruno Dumont e é perceptível que o exagero foi solicitação e voto de confiança extrema no diretor. O alívio que seria encontrá-la aqui, por outro lado, vira quase um tormento, vendo-a gritar por nada a cada esquina. Tedeschi, por outro lado tem suas expressões cada vez mais reduzidas, se aproximando de uma placidez, tendo em vista todo o resto. Quem viu a atriz em Loucas de Alegria (2016, de Paolo Virzi), entenderá a diferença, já que neste último ela é a grande expressão de confusão e atordoamento, alegrias e sofrimentos exacerbados.


A história tem seus momentos, com Machin rolando pelas areias em um terno que mais parece um colchão inflável por seus ruídos quando se movimenta e Malfoy com as deduções brilhantes e, como todo assistente, salvando seu chefe. Os dois são um ganho na trama que se dilui, à medida que as cenas quase se repetem. Luchini foi um fervor em Cannes, como Binoche, que, como ela resiste nos extremos com muitas quedas – o humor físico impera – e gestos afetados. Ma Loute é o personagem mais interessante, juntamente com seu par romântico, Billie. O casal e sua complicada trajetória com direito a desconstrução de gênero em Billie – que reafirma ser uma menina disfarçada de menino – com grande atuação e Ma Loute em olhares e falas concisas são o ponto de distinção das interpretações teatrais. Grande estreia para os dois atores no cinema.

Seguimos a duração em busca de um arco narrativo que por pouco não deslancha e, salvo as críticas mordazes da sociedade, com alguns bons diálogos e ótimas cenas de naturalização da crueldade, pouco se extrai. O par romântico é a interseção entre as famílias e classes sociais, juntamente com Machin e Malfoy, que precisam estar nos dois lugares ao mesmo tempo para acompanhar as vítimas e seus potenciais assassinos, mas tudo o que se vê é sabido, com os preconceitos dos dois lados e as soluções que cada casa encontra para viver.

É a segunda vez que Bruno Dumont investe na comédia – a primeira com O pequeno Quinquin (2014-), um seriado com grande repercussão na França. O diretor é reconhecido por dramas, como A Humanidade (1999) e Camille Claudel 1915 (2013) que lhe posicionaram no Olimpo do cinema francês com justiça. Algumas vezes se pode dizer que o diretor investiu e insistiu, como uma grande intenção – especialmente na trama do casal, do primeiro encontro até seu desenlace, mas se perdeu na insistência com as gritarias e trejeitos do consagrado elenco. Aqui, seguimos como se esperássemos a força narrativa dos anteriores nesta comédia de personagens intensos, mas o resultado parece ser muito barulho por nada. Entretanto, vale o investimento na filmografia do diretor e, para quem é fã do burlesco, este pode ser uma boa escolha.
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E chegamos em 2017! É pleno verão nessa nação tropical e particularmente no Rio de Janeiro, as coisas andam quentes até demais. Para fugir desse forno, sol escaldante de morrer, se refrescar e ser feliz, por que não relaxar assistindo a uma programação eclética e divertida? Segue a nossa primeira lista do ano da Netflix – Programação de Verão!

Cisne Negro (2010, de Darren Aronofsky) – 108 minutos
Nina (Natalie Portman) é uma bailarina obstinada e perfeccionista que se prepara obsessivamente para dançar o Lago dos Cisnes e se vê ameaçada pela nova integrante do corpo de dança, a sensual e espontânea Lily (Mila Kunis). Conduzidas por um professor autoritário (Vincent Cassel) e contando ainda com Winona Rider e Barbara Hershey no elenco, foi um dos melhores filmes de 2010. O suspense e a transformação dos personagens – física e psicologicamente – são brilhantemente conduzidos por Darren Aronofsky, que já havia ganhado meu coração com Pi (1998) e Réquiem para um Sonho (2000). Seus filmes têm sempre um posicionamento sombrio acerca do mundo e aqui não é diferente, mas o conjunto de efeitos, performances dos atores, fotografia e tratamento de som tornam difícil recusar o título de obra prima. Imperdível.

Sleepless in Seattle (Sintonia de Amor, 1993, de Nora Ephron) - 105 minutos.
Tom Hanks é Sam e vive em Seattle. Meg Ryan é Annie, de Baltimore. Estamos nos anos 90 e o filho de Sam, Jonah (Ross Malinger) participa de um programa de rádio, nacional, escondido do pai, viúvo. Ele fala sobre a solidão do pai após a morte de sua mãe e de que seria bom se ele tivesse uma companhia. É uma comédia romântica e já sabemos o final, até porque foi exibido zilhões de vezes na sessão da tarde. Ainda assim, é um filme delicioso como só Nora Ephron conseguia fazer (Julie & Julia, Mensagem para você). Se você busca um filme leve, que aquece o coração e garante grandes diálogos e boas risadas, encontrou. Já vi e revi várias vezes.

Happy People (2012, de Werner Herzog e Dmitri Vasyukov) – 90 minutos
Documentário que acompanha a vida de famílias de caçadores siberianos por um ano, da preparação até a incursão na Taiga siberiana em busca de alimento. O filme nos ganha aos poucos, com cenas impressionantes e lindas das mudanças de estação, das paisagens, das pessoas que vivem do básico e para o básico. Tudo o que eles têm é imprescindível e, ao mesmo tempo, suficiente. Talvez seja uma resposta para acalmar nossas expectativas e ansiedades quanto aos conceitos de vencer na vida e ser feliz. De Werner Herzog (Homem Urso, Vício Frenético, Kasper House) e Dmitri Vasyukov, parece curto demais, para o tanto que nos conta. Vale para um dia tranquilo.

Obvious child (Entre Risos e Lágrimas, 2014, de Gillian Robespierre) - 84  minutos
Voltando para a comédia, segue essa independente, inteligente e sensível. Obvious Child é nome de música de Phil Collins – também trilha do filme – e da história de Donna (Jenny Slate) uma comediante de stand up que engravida após passar a noite com um cara que conheceu no bar. Agora ela precisa resolver se terá a criança e em torno disso, passa a conhecer melhor o ficante Max (Jake Lacy, de Girls, em ótima performance) e a se relacionar com sua família, com as dores de um coração partido e perda de emprego. É um filme sobre mil temas, de forma simples, engraçada – muito humor ácido em uma personagem descontrolada, ótima e verossímil – mas que se aprofunda seriamente em suas questões, tornando toda a trama plausível e interessante. Primeiro longa dirigido e escrito por Gillian Robespierre, indica um talento que vale a pena ter no radar para assistir seus próximos filmes.

Midnight Diner – Tokyo Stories (2016/Netflix -, de Joji Matsuoka e outros 5 diretores!) 10 eps - 26 minutos
Ainda não vi muita repercussão sobre essa série, mas certamente é uma das melhores da Netflix. Lançada no final do ano passado, conta histórias que têm em comum esse pequeno restaurante japonês que abre na madrugada. A produção japonesa é de 2009 e tem três temporadas já lançadas na tv nipônica, mas agora a exclusividade é da programadora virtual. Os episódios são sobre relacionamentos – familiares, afetivos, de amizade – intercalando com a cultura japonesa, as comidas – cada episódio recebe uma refeição como título e prato principal – e o dia a dia de uma das mais movimentadas e diversas cidades do planeta. Simples, com poucos personagens, tem uma narrativa deliciosa e seu personagem guia (Kaoru Kobayashi) dá o clima do enredo, é o chef, dono e único funcionário do estabelecimento. Sereno, como se nada o pudesse abalar, serve seus clientes e ouve sobre suas vidas. Em 2015 virou filme, que não foi lançado no Brasil e agora é esperar, feliz as novas temporadas. Estou no quarto episódio tentando assistir bem devargarzinho, para saboreá-lo aos poucos.
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Um chefe de polícia precisa desvendar uma série de assassinatos que acometem a pequena cidade onde vive. A principal suspeita recai em um japonês que chegou há pouco tempo na cidade, um senhor que o xamã local acredita ser um fantasma, um espírito ruim dominando um corpo sem vida. Um dia, o chefe de polícia descobre estranhos comportamentos que via nas vítimas antes de suas mortes em sua própria filha. Esta é a sinopse do novo e conturbado filme de terror coreano, O Lamento.

Com duas horas e meia de duração, seremos levados por uma seqüência de crimes obscuros e o tema da possessão, uma constante dos filmes do gênero. As atuações corroboram o que conhecemos sobre o cinema coreano, os exageros e trejeitos das encenações nos deixam entre uma comédia pastelão e a crescente tensão e desespero do protagonista, com características quase inverossímeis. O roteiro investe em uma trama com desdobramentos após desdobramentos, mas, em algum momento, fica claro o resultado. Ainda assim, a seqüência final nos ganha, em uma montagem paralela enfatizando as ações de seus três maiores personagens.


Terceiro longa de Hong-Jin Na, com 15 prêmios no currículo tendo O Lamento sozinho levado seis, o diretor sabe manter o ritmo e a tensão do filme, ainda que este pudesse ter talvez vinte minutos de redução. A trama por vezes se repete e em seu redemoinho não chegamos a nos perder, mas voltamos ao mesmo ponto em alguns momentos, sem necessidade.

Entretanto, a riqueza do filme está em ultrapassar sua ideia de base, o filme não se encerra no terror de possessão. O próprio termo ganha outras conotações quando relacionamos seus simbolismos. A chegada de um japonês idoso à cidade que já foi acusado de estuprar uma mulher sul-coreana é uma referência óbvia à Segunda Guerra Mundial. Naquela época, quando o Japão dominava o país, estabeleceu a criação de bordéis para seus soldados, vitimando as mulheres sul-coreanas, então chamadas de consolos, literalmente. Elas eram rotineiramente estupradas, torturadas e escravizadas pelos militares japoneses. Ainda hoje o Japão não assume o grande feito, apesar do mesmo ser reconhecido internacionalmente. Não apenas isso, mas a dominação japonesa no território coreano ainda hoje gera outros desgastes, já que a potência nipônica acredita ter autoridade para nomear o mar entre as duas nações – Mar do Japão (enquanto a Coreia do Sul entende como mar do Leste) – e tomar para si as ilhas Dokdo, hoje propriedade sul-coreana. O filme dá conta dessas insinuações muito bem e até agressivamente, alimentando a má impressão que aquele país tem do outro que o dominou e torturou.

A riqueza do filme está, de fato, nas múltiplas interpretações de sua narrativa, que ultrapassa o terror óbvio. Talvez nos incomodemos com as performances dos atores, mas é uma diferença cultural, tal qual a nossa percepção sobre a estrutura e estilo dos filmes indianos. Merecedor de seus prêmios, poderia ser menor, mas não deixa de ser uma boa produção para quem é fã do gênero.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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