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Café: extra-forte

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Aquarius, Kleber Mendonça Filho

Há uma grande diferença entre os litorais de Recife e Salvador, mas uma das mais marcantes, que é comparável a outras grandes cidades é a construção de prédios em suas orlas. Há poucos anos, Salvador permitiu o início da construção de prédios maiores de três andares na costa e isso ainda caminha com dificuldade, enfrentando barreiras jurídicas para a sorte dos habitantes e infortúnio das construtoras. Em Recife, por outro lado, essa restrição não existe e tanto lá como no Rio de Janeiro, em Vila Velha e em tantas outras cidades litorâneas, há uma moderna faixa vertical que atravessa o caminho da praia, criando um visual urbano de frente para a natureza perene, aumentando as temperaturas atrás do paredão de concreto e eliminando o passado de casas antigas e construções modestas.

Em Recife, na praia de Boa Viagem, mora Clara (Sonia Braga), uma viúva de 65 anos que habita o Aquarius, um edifício de 3 andares entre outros maiores. O Aquarius está vazio, Clara vive sozinha tanto em seu apartamento quanto no prédio que sua filha Ana Paula (Maeve Jinkings) insiste em dizer ser fantasma. Não só ela, como Diego (Humberto Carrão) concorda, o neto do dono da construtora que comprou todos os outros apartamentos e depende da saída de Clara para iniciar a demolição deste e a construção de mais um prédio de não sei quantos andares. Ele tenta gentilmente convencê-la a vender sua residência com o que parece ser uma boa proposta, mas Clara não quer sair, quer viver em seu apartamento incrível, aconchegante onde guarda memórias e a história familiar e agora individual, estando sozinha e muito bem, obrigada, de frente para o mar.

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O dilema da empreiteira que quer fechar um grande negócio esbarra no aceite improvável de Clara, em uma teimosia que inicia uma guerra fria que só uma mulher de pulso firme suportaria enfrentar. Mas Clara já enfrentou coisas piores. Kleber Mendonça escreve e dirige um filme sensível e inteligente, que guarda na força de uma mulher em desvantagem uma realidade cotidiana, a transformação urbana e social das grandes cidades. Sonia Braga incorpora uma senhora que se recusa a fazer o papel de velha e vítima, sem se incomodar com sua idade. Ao contrário, se aproveita do respeito conquistado ao longo de anos de convivência em família, entre amigos, com colegas de profissão e com o salva-vidas (Irandhir Santos) que lhe concede o privilégio de vigiar o arriscado banho em um mar de tubarões. Metafórico e literal.

Se em O som ao redor, Kleber buscava uma discussão entre classes a partir da relação de moradores, trabalhadores e passantes em uma rua residencial de classe média alta, aqui o embate é ainda mais complexo, mas com uma estrutura dramática mais simples e por isso mesmo, elegante. Há a velhice e como lidar com ela sem compaixão e condescendência. Não se fala sobre pena, Clara a rejeita e Diego até tenta se aproveitar dela, sem sucesso. Essa mesma velhice em pele de mulher, envolvendo sexualidade, patrimônio, respeito, corpo, autonomia é assumida a plenos pulmões e não é errado esperar ainda mais premiações para Sonia Braga, que abraça o personagem como se fizesse parte de si. O filme explora a realidade da situação da mulher viúva que escolhe a vida, a participação social e não se envergonha. É um retrato que alimenta um perfil, uma esperança de comportamento nas mulheres de sessenta anos e quase cria, se a palavra não fosse um exagero, um ideal de perfil no horizonte.

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Além da relação de corpo, indivíduo e posicionamento feminino que atravessa as idades, há a relação com a família, que se posiciona entre a instalação da senhora idosa segundo um perfil de dependência e seu oposto, na certeza de suas capacidades físicas e mentais. Essa é ainda uma questão a ser debatida especialmente no que condiz às aposentadorias, à qualidade e expectativa de vida e a própria imagem que a velhice imprime historicamente, e que entra em conflito com a realidade. A imagem do idoso inútil é um mal a ser combatido e, mesmo não sendo objetivo do filme, emerge como questão.

Com leveza narrativa, fluidez e grandes personagens, as relações sociais estão na pauta mais uma vez, na discussão entre as amigas de Clara em uma festa, sobre as empregadas domésticas, no valor de oferta do apartamento e agora na própria construção da cidade, a verticalização que funciona como um pano de fundo é a representação de progresso versus passado, como se uma coisa necessariamente implicasse em eliminar a outra. As intenções de todos são claras e a trilha sonora reforça em historicamente reconhecidas como grandes músicas, o que não precisa ser dito em diálogos.

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O filme nos atravessa a partir de capítulos e seguimos apaixonados por Clara, pela força dessa mulher, às vezes incoerente e beirando o absurdo, mas vivendo uma situação tão surreal quanto os outros quando a chamam de egoísta por se opor à decisão de um suposto consenso. A construção dramática em partes por tema – o cabelo, o amor e o câncer – mapeia uma personagem e seu entorno e saímos daí querendo mais do que 145 minutos, ainda que entendamos e saiamos satisfeitos, saímos querendo ouvir mais da mistura de sotaques e continuar com a força e orgulho que é ver o nordeste em cena, especialmente quando não é caricato e estereotipado. O que não é possível em novelas é garantido neste quase novo cinema, reforçado em qualidade e sensibilidade e tendo em Aquarius grande exemplo. 
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Um diretor russo, um museu francês, a segunda guerra. Aleksandr Sokurov retoma o tema da arte ao tratar do Louvre, da ocupação alemã em Paris na Segunda Guerra Mundial em um filme original e ousado.

Classificado como documentário, o filme se enquadra no gênero e o transcende, para nosso benefício. Imagens de arquivo de filmes de ficção e registros históricos, encenações, o próprio diretor em cena conversando com um amigo, o capitão Dirk que está no meio de uma tempestade no Atlântico, carregando contêineres com obras de arte. Sokurov traz de volta um grande museu: se em 2002 ele fazia Arca Russa, um dos maiores filmes do mundo em um dos maiores museus, o russo Hermitage, agora, em outra forma e linguagem nos apresenta o Louvre, sua história, seu impacto e o tempo da arte ou a arte enquanto permanência e relevância.


Não é um filme para ver sem saber do que se trata, ainda que seja uma grata surpresa. É uma forma de refletir sobre arte e história a partir de pontuações do próprio diretor, em uma narração híbrida em toda a duração. Descobrimos a história do Louvre a partir de Napoleão, seu fundador e mantenedor, cujo objetivo era realizar a maior coleção de obras de arte do mundo com seus tesouros de guerra. Enquanto imperador, cada vitória era um saque, troféus de nações vencidas. Entre 1940 e 1944, Hitler ocupa militarmente Paris, que se torna uma cidade aberta e a França, um Estado dividido. Assim se evitou a destruição da metrópole e se conquistou uma paz a contragosto, pelo bem geral. O Louvre foi esvaziado, suas obras escondidas em castelos e dois homens, o diretor francês do museu, Jacques Jaujard e agora o co-diretor alemão, Franz Graf Wolff-Metternich se tornaram responsáveis e, segundo Sokurov, parceiros na proteção das valiosas e remanescentes obras. Sem eles, não haveria a proteção ao museu e suas obras e, como aconteceu em outras cidades europeias bombardeadas, perderia seu acervo e tantas vidas, para sempre.

Mas, mais do que isso, o diretor provoca, instaura uma reflexão a partir da fragilidade e importância das obras para o mundo, para o registro histórico e cultural humano. Seu amigo, o Capitão Dirk segue em alto mar sob grande risco de perder os contêineres que aceitou transportar. Ali, ficamos tensos quase esperando uma tragédia dupla: da vida dos marinheiros e de obras que nem sabemos quais são, mas estimamos seu valor a partir do tenso diálogo entre os amigos. É na casa de Sokurov que isso tudo acontece, em uma comunicação via internet, quando possível. Não temos opção, como o diretor e o capitão, estamos à mercê do tempo, agora uma força da natureza e não humana, mas com a mesma capacidade destruidora, como a que provocamos com as guerras.

Sokurov é grande conhecedor e defensor da Arte, esta com letra maiúscula. Arca Russa o levou ao Olimpo dos grandes diretores anos atrás, com um devaneio de um aristocrata nos salões do Hermitage, o maior museu da Rússia, um dos maiores do mundo. Ali, mais uma vez a História é a pauta, a história que atravessa a Rússia por trezentos anos em um filme sem cortes a partir de um único plano sequência, com um ensaio absurdo de 2000 atores onde não vemos falhas, mas sim três orquestras tocando, 33 salões do museu e uma precisão quase doentia em um filme maravilhoso. Ali era uma grande ficção, um filme atordoante tamanha beleza, concentração e excesso de informações sobre uma história, cultura e país que o Ocidente não conhece em detalhes. Agora é o Louvre, conhecido nosso, que achamos saber muito – ou pelo menos que temos a certeza de encontrar a Monalisa e o trio de Jules e Jim (Truffaut, 1962) correndo pelos corredores – mas ficamos estupefatos ao ver grandes esculturas assírias, uma múmia surpreendente que esperamos ansiosamente por um movimento, um despertar assustador por conta de seu close lento e que nos aproxima da escultura cadavérica ou uma esfinge silenciosa e desafiadora.

São monumentos culturais imensos em todos os sentidos, são obras internacionais todas bem cuidadas em um grande espaço e em algum momento pensamos se elas não deveriam voltar a suas antigas nações, aos seus berços e reafirmar sua cultura ou se devemos apenas aceitar, esquecer fronteiras e agradecer que estão garantidas para visitação pública, quando estivermos passeando pelos arredores. Não há como saber o que aconteceria a muitas destas obras se não estivessem sob esse teto privilegiado, se peças de muitos séculos atrás, milênios quiçá, teriam seu registro e espaço ou se se perderiam, apenas porque é impossível manter toda a história de todas as culturas.

A arte que vemos é um fragmento de cultura e humanidade em um período histórico, um índice e representação do que houve, do que se foi e referência para o futuro. O Louvre é um dos museus que garante essa permanência, conquistada e mantida por séculos. Ao mesmo tempo, é um imenso galpão de saques, se pensarmos em cada conquista de guerra, em cada cidade devastada ao longo da História. Não deixa de ser a manutenção de um passado que privilegia quem vence batalhas e não é à toa que o Napoleão de Sokurov instaura a arte como um dos motivos para a guerra. 





O diretor cria uma caleidoscópio com tantas informações quanto as expostas no Hermitage em Arca Russa, outro filme para ser revisto: em uma só vez é impossível apreender tudo, mas o constrói bem, com retalhos que se unem por linhas pensamento firmadas no contexto histórico. Há o fantasma literal da revolução francesa, Marianne, que encontra Napoleão e juntos se perdem nos corredores e salões, há os diretores de cultura, rivais em guerra, unidos pela defesa e sobrevivência do museu e assim, da arte, há a fragilidade do tempo e desta própria permanência e relevância frente à vida: o que é mais importante, a vida humana ou o registro dela? A montagem por vezes se perde com tantas vias a percorrer, mas não é de todo problemático. Aos poucos nos acostumamos com este percurso e somos levados pela mão pelo diretor, que parece tão confuso quanto nós – por isso tantas ramificações na construção fílmica – sobre que destino terá aquilo tudo. Ainda assim, seu discurso se mantém firme e agora esperamos que ele invada outro grande museu e nos conte mais sobre ele.

Sokurov promove uma viagem única pelo Louvre, por fim, de uma forma que o melhor guia turístico não daria conta, ou qualquer pesquisa na internet, ou um passeio ao vivo. Agora, na próxima visita, há mais e mais referências, uma vontade de sentar e discutir com o diretor como foi seu processo de construção neste filme híbrido, completo, confuso, inteligente, delicioso e reflexivo. Imperdível para os amantes de artes e museus, de história mundial, de memória e permanência das obras de arte, da cultura e sua relevância para o futuro.



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Em 1995, em Enquanto você dormia (1995, de Jon Turteltaub), Sandra Bullock era Lucy, uma bilheteira de metrô que vê sua paixão platônica, Peter (Peter Gallagher) cair da plataforma da estação e entrar em coma. Ela ajuda no resgate e passa a cuidar do desconhecido, se envolvendo com a família dele por um mal entendido, se passando por sua noiva. O filme é das nossas sessões da tarde e está no rol das comédias românticas bestas, mas que assistimos e até nos divertimos se não tem nada melhor passando.

Este mês estreia o francês Esperando acordada, sobre Perrine (Isabelle Carré), uma musicista amadora que por um desígnio do destino, causa um acidente em um desconhecido que então entra em coma. Ela passa a cuidar dele e o resto a gente quase já sabe. Tão bobo quanto a comédia americana, este investe ainda mais nos exageros do roteiro, alimentando os estereótipos do dois gêneros, o fílmico e o feminino.


O gênero de comédia romântica costuma ser bem previsível e isso não é um problema. Dá até certa segurança e funciona bem quando bem feito, atinge o objetivo de contar uma história que costuma terminar feliz, dando relevância aos sentimentos e alguma esperança, uma luz no fim do túnel para os espectadores, por mais improvável que seja seu enredo. Em uma história bem contada o que vale é o desenrolar, os diálogos, as soluções encontradas para os nós dos personagens. Em Esperando há um abuso, como se os roteiristas (Marie Belhomme, que também dirige e Michel Leclerc) buscassem um filme de verão, leve, com brincadeiras e artimanhas, mas errassem a dose, deixando bobo demais.

Perrine é essa moça sensível e delicada, talentosa e azarada, não consegue segurar grana, é desastrada, bonita e vive fazendo bicos. Não se considera grande coisa, além de ter um grande coração e ser extremamente ingênua. Dirigindo apressada entre um trabalho e outro, vai perguntar a um homem sobre informações numa parada na estrada e o assusta. Ele cai, bate a cabeça e fica desacordado. A mocinha chama a emergência, mas sai de cena, porque tinha horário a cumprir, tocando violino para um grupo de velhinhos em um asilo coordenado por Lucie, interpretada por ninguém menos que Carmen Maura – uma grata surpresa, principalmente quando ela alterna o francês com murmúrios em espanhol, nos fazendo lembrar filmes de Almodóvar. Esse imaginário da moça bobinha e sensível é um personagem quase padrão dessas histórias e que aqui, entra em confronto com Arsène (Camille Loubens), uma doutoranda inteligente e sexy, sobrinha de Lucie que faz um favor a Perrine e lhe passa a perna. O clichê que pode passar batido em alguns espectadores incomoda os mais perspicazes: a relação em que as mulheres funcionam como inimigas em prol da conquista de um homem, que de um favor vira estratégia de ataque é cansativa e gratuita; um apêndice na história facilmente descartável além de ser uma prerrogativa que reduz o gênero endossando uma competição que não deveria existir.


Não apenas a relação entre as mulheres da história é complicada como a construção que se faz do homem ideal, aqui amplamente imaginada por Perrine. Ao adentrar no universo do desconhecido Fabrice Lunel (Philippe Rebbot), Perrine de cara o acha extremamente interessante sem sequer ver seu rosto ou trocar qualquer palavra, mas conhecendo tudo o que o cerca: o filho, a casa, o trabalho. As afinidades colaboram para a idealização, mas ainda é muito pouco o que se sabe de alguém para chegar ao encantamento que vemos aqui. Se a resolução do conflito encerrasse algo próximo do final de Enquanto você dormia, talvez fosse mais interessante. Ali, mesmo Sandra Bullock encarnando boa parte das características da própria Perrine, sua elaboração é mais realista e podemos pensar que conhecemos alguém como ela. Perrine é o personagem do exagero em uma construção que não funciona nem como um conto de fadas – como o fofo Românticos Anônimos (2010, de Jean-Pierre Améris), que traz a mesma atriz – de forma que há um deslocamento da personagem com a realidade ali proposta e seu desenvolvimento sustenta uma trama frágil demais.

Enquanto filme francês, é nossa a expectativa em imaginar que veremos algo com personagens e diálogos mais elaborados como costuma ser, em contraste com o cinema hollywoodiano. Aqui acontece o oposto ou uma aproximação da grande indústria no que lhe há de menos interessante: com uma redução dos personagens em estereótipos, levando a mulher à velha posição de boba, que rivaliza com outra por uma conquista que nem sabemos se será boa e que não vai muito além. É um filme de verão que se tenta engraçado e leve e de fato é, mas muito menos atrativo do que se pretende. Vale, no máximo, para um domingo à tarde, sem maiores pretensões. 


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O trailer nos apresenta uma história que se passa em um tempo distante. Um tempo de violência. E explica: um tipo de guerra se propagava por toda a Europa. Numa cidade, viviam duas irmãs que eram inseparáveis. Estas frases se repetem durante o filme e criam uma expectativa que não se resolve de pronto e deixa algum mistério. Mercuriales é impressionante, nada mais.

Como o adjetivo indica, ‘impressionante’ corre em diversas direções. A primeira sequência do filme mostra um jovem negro sendo apresentado às instalações de base dos Mercuriales, dois prédios como as Torres Gêmeas de Nova York, só que em Paris, no subúrbio. Os prédios existem de fato e se chamam assim, foram parte de um projeto de renovação comercial do lado leste de Paris mas que, com a primeira crise do petróleo, foi interrompido ficando apenas as torres construídas. O jovem, que agora é parte da equipe de segurança do conjunto quase não aparece mais e se imaginarmos que ele terá algum papel relevante numa história que parece ser estranhamente futurista, não lhe acontecerá muito além disso. Essa percepção de que falta algo ficará no espectador até o final, como se aquela história estivesse sempre na introdução. Ao mesmo tempo, o longo prefácio que não se desenvolve nos prende com a construção de um clima, é o que chama mais atenção, com duas protagonistas bastante parecidas, como as torres, inseparáveis e que, ainda assim, guardam distinções em suas personalidades.


Não vemos guerras acontecerem em um tempo distante: esta ideia de ficção científica é uma ilusão, mas, mais forte do que isso, a atemporalidade é sua marca maior. Não sabemos o tempo das coisas, como se tanto as torres quanto as ‘irmãs’ estivessem tão distantes do mundo quanto o subúrbio em que se encontram. Joane (Philippine Stindel) veio da Moldávia e encontra, Lisa (Ana Neborac) francesa. As duas são recepcionistas nas torres. Joane não conhece quase mais ninguém na cidade e se apega à Lisa como se fossem gêmeas, estando sempre juntas, quase simbioticamente.

As meninas tomam o filme, entre ações do cotidiano e pequenos pontos de conflito. Ficamos presos a estes momentos – quando Joane conhece Zouzou (Annabelle Lengrone), amiga de Lisa com uma filha criança ou quando vão ao clube de suingue, quando viajam para o interior, quando conhecem um grupo de rapazes – aguardando seus desenvolvimentos, que parecem soltos demais e ficamos à mercê, esperando os desfechos, que se diluem em outras ações. É intencional, uma frouxidão na trama é o que parece tentar trazer a história para a vida real e com o adicional da fotografia de luz natural, boa parte da crítica internacional entendeu como um jogo com o documentário por conta do currículo do diretor, mas não parece ser o caso.


O filme busca uma relevância na vida das garotas como um paralelo com as torres que ninguém de fora do país ou da cidade conhece. Imponentes, parecidas e importantes à sua medida, não são como as finadas e famosas World Trade Center ou como as grandes modelos do mundo, ainda que não percam em nada por semelhança e beleza. Deixadas em um subúrbio, fora das vias principais da cidade, alheias ao movimento – e uma cena delas no terraço de uma das torres, enxergando a cidade ao longe é uma belíssima analogia – as desloca deste espaço e tempo, como se talvez nem precisassem estar sob qualquer holofote, mas apenas vivendo e se encontrando no limbo que é o caminho entre a adolescência e a vida adulta. É uma interpretação possível, as responsabilidades do dia a dia contrastando com um comportamento quase infantil, as vivências típicas da adolescência encontrando outras mais próprias à vida adulta, a relação com a maturidade e maternidade encontradas em Zouzou ou os riscos entre desconhecidos. Como são tempos de guerra, nada é permanente e as conclusões do filme deixam claras uma mudança imperativa e iminente, abrindo outras possibilidades de futuro para as duas.

Se nos minutos iniciais vemos uma sequência longa com orientações sobre procedimentos e instalações de segurança com uma trilha sonora quase entorpecente, remetendo a Kubrick e já imaginamos tensos uma guerra que está por vir – referência imediata ao onze de setembro – talvez este paralelo seja tão subliminar e distante, como uma metáfora requintada demais para a vida das garotas, cuja segurança não existe, mas o alheamento do mundo sim, como se fosse possível para elas viver na própria distância imposta pelos seguranças dos prédios a qualquer um que se aproxime deles fora do horário padrão. Impressionante, o primeiro longametragem de Virgil Vernier não é um grande trabalho de roteiro, mas é de todo o resto, chamando a atenção com sua estética e nos deixando ansiosos por uma nova – e quem sabe mais dinâmica – experiência. A vontade que fica ainda neste filme é em rever algumas cenas por seus enquadramentos, reencontrar o clima criado, a suspensão do tempo, os silêncios e alguma inocência.


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Aproveitando a nova febre provocada por Stranger Things que já toma conta de quem assiste a Netflix, segue uma seleção especialíssima com filmes que são referência para a série e outros tão imperdíveis quanto, lançados na nossa amada década de 80. Foi uma década um tanto brega e sincera, onde a adolescência e infância ainda eram de brincar na rua e não havia tantos equipamentos eletrônicos – além dos videogames – para nos deixar trancados em nossas casas, nos impedindo de ralar os joelhos, andar de bicicleta e fazer aquelas amizades de vida inteira. Os anos 80 trouxeram muita música boa, um cinema americano forte e criativo que ainda trazia essa ousadia em conteúdos que nossa política de boa vizinhança atual impede e toda a minha infância em programações moralmente condenáveis na televisão brasileira. Não poderia ser melhor. Para homenagear este momento, eis algumas Maravilhosidades dos anos 80!

Stranger Things (2016, de The Duffer Brothers) – 50min – 8 episódios
Lançado esse mês na Netflix, Stranger Things é o novo sucesso avassalador da programadora-produtora de conteúdo não linear. Ambientada nos anos 80, com referências da cultura da época – cinema, música, televisão, moda, estilo de vida – a série de ficção científica, aventura e suspense garante entretenimento em seus oito episódios, surpreendendo com bons atores, sob a apresentação de três já consagrados: Winona Ryder, Matthew Modine e David Harbour. Will Byers (Noah Schnapp) desaparece ao voltar pra casa à noite após terminar uma partida de RPG em uma pequena e pacata cidade americana, onde todo mundo se conhece. O xerife Jim Hopper (Harbour) entra no circuito a fim de ajudar a mãe (Ryder) que se recusa a acreditar no ocorrido, enquanto os amigos de Will fazem sua própria investigação. Situações estranhas tomam conta da cidade e seus habitantes, desencavando antigos mistérios da região. Tenso e intenso até o final, nos deixa já querendo a próxima temporada e sofrendo ao perceber que só a teremos ano que vem. Dá pra ver tudo em um dia só.

Conta Comigo (1986, de Rob Reiner) – 89 min
Já indicado aqui em outra sessão, segue novamente para quem perdeu, aproveitando este grupo de amigos que têm muito em comum com os de Stranger: Rob Reiner dirigindo este nos anos 80, com River Phoenix, Kiefer Sutherland (lembra aquela série 24 Horas?) ainda crianças, e baseado em um livro de Stephen King, é uma história sobre infância e amizade, onde um grupo de amigos se envolve em uma aventura bastante perigosa. Filme com carimbo de sessão da tarde da minha infância, deve ter passado mais de 100 vezes na televisão, mas ainda acredito que nem todo mundo viu. Tem uma cena traumatizante, que me fez ter medo de água de rio durante muito tempo, mas deixo em aberto para não estragar a surpresa. Se ainda precisa de referências, Rob Reiner fez Harry e Sally (1989), que indiquei na primeira edição das Maravilhosidades e A história de nós dois (1999), além de ser ator, produtor e roteirista. Vale cada minuto.

Tubarão (1975, de Steven Spielberg) – 124 min
Um pôster na parede do quarto de Will e é tudo o que você precisa para lembrar Tubarão. Também já indicado anteriormente – clássicos são para rever – aqui funciona como uma lembrança de anos antes na vida dos garotos da série, já que este é de 75. Spielberg nos traz um suspense aterrador sobre um tubarão que ameaça uma praia e a única solução que o homem encontra para ter paz e poder mergulhar novamente é matá-lo. Mas o tubarão não é bobo nem nada, então dá bastante trabalho e literalmente toca o terror onde aparece. A sinopse é simples assim mesmo, mas o filme é maravilhoso. É um dos marcos do cinema de terror, um dos marcos na carreira do diretor que todo mundo conhece. Tem seus momentos trash, mas de forma geral é até um filme sério, considerando seu gênero. Levou três Oscars, é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e em todo mundo, e carrega um elenco de peso: Roy Schieder, Robert Shaw e Richard Dreyfuss.

ET – o extraterrestre (1982, de Steven Spielberg) – 115 min
Clássico da infância e adolescência e outro filme de Spielberg, ET marcou gerações inteiras nas milhares de vezes em que foi exibido em cinemas e canais de televisão. É o filme que traz Drew Barrymore e Henry Thomas novinhos, é o filme de contato da infância com o universo da ficção científica de forma dramática, divertida e não assustadora. É, acima de tudo, um filme que fala sobre família e amizade. Ainda que não seja dos meus favoritos, é inegável sua importância para o cinema. É, por fim, mais uma referência para a série e é lembrado em vários momentos.

Curtindo a vida adoidado (1986, de John Hughes) – 103 min
Saindo da infância e entrando na adolescência, chega outra maravilhosidade única em nossas vidas: Curtindo a vida adoidado. Pode ser que alguém tenha perdido quando foi lançado e, se aconteceu mesmo, está aí uma ótima oportunidade de ver um filme nostálgico e divertido. Matthew Broderick é Ferris Bueller, um garoto que decidiu faltar um dia de aula porque sim, porque estava a fim. E essa a aventura que acompanhamos junto com sua namorada (Mia Sara) e seu melhor amigo (Alan Ruck) pelas ruas de Nova York, enquanto sua irmã (Jennifer Grey), que nunca consegue se dar bem tenta, a todo custo, estragar os planos do nosso herói. Tem romance, intriga, comédia e aventura – para todos os gostos. Um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e reprisado ad eternum na sessão da tarde.

Bônus!!
Contatos imediatos de terceiro grau (1977, de Steven Spielberg) – 137 min
Grande referência para a série, outro filme de Spielberg (sim, ele é um dos diretores da década e seus temas acontecem fortemente na série), este tem um adicional incrível, que é a presença de ninguém menos que François Truffaut ao lado de Richard Dreyfuss, um dos maiores diretores do cinema francês, no papel de Claude Lacombe. Com John Williams compondo a trilha sonora (Tubarão, Guerra nas Estrelas) e uma equipe de peso, não preciso dizer mais nada, quando descubro este trailer incrível. Mesmo se já conhecer o filme, vale a pena o trailer.
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Assistir Freelance causa uma dupla emoção em nós: a alegria de ver um filme inteligente, com uma história que dá guinadas inesperadas e a certeza de que conhecemos muito pouco do cinema oriental. Quanto à primeira nenhum problema, mas concluir a segunda provoca grande agonia em quem vive a cinefilia, porque é muito maior do que não conhecer os filmes de Nawapol Thamrongrattanarit e seu país, é perceber que há boas produções sendo feitas e que muito provavelmente não chegam em nosso hemisfério.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) é designer gráfico freelancer. Como consegue trabalhos por demanda, precisa estar sempre disponível e garantindo a entrega do que produz, não importando o prazo. Para quem trabalha na área, é fácil perceber o desespero das agências de publicidade no cumprimento de metas para garantir a receita. Como freelancer, a qualidade de vida e o sono são menosprezados com frequência, mas a conta sempre chega. Yoon começa a ter seus problemas, alergias na pele que se transformam em pequenas feridas que coçam provocando mais irritação e ele segue para o hospital. Lá conhece a doutora Im (Davika Hoorne), uma residente em dermatologia que consegue fazer com que Yoon entenda a necessidade do tratamento como uma forma de sobreviver aos alertas de limite que seu corpo ativou. Na verdade, Yoon aceita o tratamento por ser uma garantia de encontros mensais com Im, por quem se apaixonou.
Dra. Im (Davida Hoorne): a salvação para as alergias de Yoon.
Se o trailer indica uma comédia romântica incomum, o filme sobe outro degrau e atiça nossa curiosidade e interesse com interpretações interessantes e narração subjetiva, pontuada por uma contagem de marcas no corpo do protagonista. Com texto e montagem ágeis, poucos personagens e locações que se repetem, o diretor cria um ciclo, uma rotina que a cada decisão do herói transforma toda a história com diálogos simples. Agora Yoon não pode comer frutos do mar e precisa decidir o que fazer. Agora Yoon precisa dormir, fazer atividade física e tentar equilibrar isso em sua rotina, reduzindo a carga horária de trabalho. Agora Yoon precisa cumprir seus compromissos profissionais e o problema se instaura, já que acostumou o mercado com prazos quase inalcançáveis e postergá-los implica em perder projetos ambiciosos para quem está buscando seu lugar ao sol. Os dilemas do personagem não apresentam soluções simples e nos colocamos em seu lugar, tentando decidir o que faríamos. Essa participação do espectador na obra é o ganho do filme, já que todo mundo um dia vivenciou algum tipo de pressão na vida que envolvia sacrifícios de sua própria saúde em detrimento de alguma coisa ‘urgente’ e ´fundamental´.

Aguardamos seu colapso sem querer acreditar nele, esperando que não aconteça com base na evolução da trama e atitudes do protagonista. Queremos que ele encontre a doutora, uma tímida e inteligente mulher jovem que nos aparece como um enigma, carregando o sorriso de Monalisa em olhares e gestos que pontuam uma dúvida. Mas, este não é um romance, o diretor deixa claro com o desenvolvimento da trama e seu clímax, a cena que não se pode descrever é o que faz este cinema ganhar em ousadia e coragem. Não é nada novo em termos de estética e efeitos, mas seu posicionamento na história, a forma como foi dirigida sim, nos faz pular da cadeira e prender a respiração sem tomar sustos: é uma comédia romântica com fortes pinceladas de humor negro.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) entre pílulas para dormir e deadlines.
Quando pesquisamos sobre o filme no IMDB, quase não há informações e essa é uma marca forte do quão pouco se sabe sobre esse cinema. Há um universo infinito de filmes ocidentais, escolas de cinema, teorias e estéticas mais do que conhecidas, adoradas e estabelecidas, mas há outro universo em expansão, o oriente e suas escolas, seus diretores contemporâneos e sua estética. O fato de não haver muita informação sobre Freelance e quase nada descrito no perfil da equipe técnica é a prova cabal da pouca informação e acesso que o lado de cá do globo percebe. O filme conta uma história que poderia acontecer em qualquer cidade, mas reforça as características locais de forma não turística e estereotipada, nos fazendo pesquisar a filmografia do diretor e aí sim, as conexões desta rede virtual começam a funcionar, nos permitindo um passeio breve – a ponta de um imenso e interessante iceberg – sobre o cinema tailandês.

Os filmes não estão prontos, eles partem para dentro de seus espectadores e ali garantem uma transmissão de informações que se completa com o repertório cultural de quem o assiste. Freelance se relaciona bem neste processo, primeiro fechamos a história linearmente e depois digerimos suas melhores cenas, sequências de imagens que permanecem em um processo de aceitação e apreciação estéticas. Já foi dito que a obra de arte se define quando provoca emoção e não que esta seja a obra prima do diretor, mas se firma como importante, sem dúvida. É um filme que não requer experiências prévias deste cinema, que tem um ritmo rápido que configura a própria temática da falta de tempo, da velocidade de um workaholic e cuja catarse reverte sua própria duração em um plano fixo e longo de reflexão, em um close up agoniante e narrado lentamente, logo após um movimento de choque. Choque e ruptura para a pausa. É como o silêncio e a paz que sucede uma tragédia, ao contrário da alegria de um grande sucesso, que sempre deixa uma ponta de desconfiança.

Je (Violette Wautier) e uma proposta irrecusável para Yoon.
É para rir e se surpreender, para sentir a (in)sensibilidade da publicitária Je (Violette Wautier), melhor amiga e quem consegue os trabalhos para o protaqognista, decifrar e ultrapassar o profissionalismo e a timidez de Im e tentar salvar Yoon, representação da nossa correria profissional e dos conflitos entre vida e carreira. É para nos deixar inquietos na poltrona no cinema e investigar mais o cinema tailandês e oriental de forma geral, para conhecer novos nomes e se desesperar com a graça de perceber um mundo que é similar ao nosso e, ainda assim, extremamente diferente e original. Em breve, nos cinemas.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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