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Café: extra-forte

a última praia de 2021 terminou assim
2021 foi um ano atropelado. Reduzimos um pouco do pânico da pandemia, nos vacinamos e quem pôde, se afundou em trabalho e nos raros momentos de folga. Navegamos em águas turbulentas, mas, talvez agora com um pretenso bote salva-vidas atrelado. Respiramos fundo algumas vezes e até mergulhamos no mar, na esperança do banho de água salgada que tira mau olhado e outras coisas ruins.

Mas foi corrido, foi puxado. Do lado de cá, investi em muito trabalho e o Café acabou em segundo plano. Entendi que não conseguiria fazer tudo ao mesmo tempo e o meu tempo livre foi fora das redes, de reentrada nos livros, de cuidado e carinho comigo, com os meus e com Pituca.

Entendi o óbvio: não dá fazer tudo. Então, da mesma maneira que não consigo usar o twitter porque ele me inunda de informações, me dando ainda mais trabalho, desacelerei aqui. E gostei. Amo o Café, continuo nele, mas estou gostando da calma, do respiro e do banho de mar. O Café segue vivo e forte,  e eu venho, com sorte, escrevendo com frequência, mas sem pressa. As coisas seguirão em seu ritmo, com o tempo do olhar atento e espero, melhores do que já foram.

Quero falar sobre os nossos assuntos, o Café é um espaço para trocar ideias sobre livros, filmes, séries, plantas, viagens, cachorros, praia, por uma vida saudável e gostosa. É o que eu quero para o nosso ano, que ele seja de sossego, trabalho, vida mansa e prazeres, os melhores possíveis. Vamos juntos?

***

Que tal contribuir para a manutenção do Café? No buy me a coffee, com o valor de um expresso, você pode fazer isso!
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A família Richthofen (da ficção)

Partindo de um crime que abalou o Brasil, a Amazon Prime Video aposta em um lançamento nacional duplo: A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais, dois pontos de vista da mesma história, nenhum deles verdadeiro. 

Tratar de verdade em uma narrativa ficcional é um tema polêmico. Tratar da verdade em 2021, não apenas abarca o mesmo adjetivo, como o torna controverso. A verdade anda cara em nossos dias. As fake news não são a novidade do século, mas tornaram-se mais perniciosas, preocupantes e moldaram muito do comportamento, política e economia de grandes nações nos últimos anos. O assunto é tão sério, que há novos estudos sobre o tema, também por força do avanço das redes sociais e seus impactos nos mais jovens.


Filme A menina que matou os pais, Amazon Prime Video

No Brasil, estamos familiarizados com a desinformação. Dentro da casa de cada brasileiro há uma ou mais pessoas que ouvem apenas um lado da história e acreditam que é esta a verdade dos fatos. Muitas vezes, sem sequer conhecer os fatos. Muitas vezes, sequer sabem se os fatos realmente os são. Em uma trajetória de informações distorcidas e falsas, sobre muito do que nos cerca, somos encaminhados através dos algoritmos por uma narrativa que vai se firmando e se pretendendo real. Em estudos de comunicação se dizia que se virou notícia, é real. Com tantos mecanismos de propagação de ideias e histórias, com a pseudo democracia da informação na internet, como fica essa afirmativa nos dias de hoje?

Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos
cartaz dos dois filmes sobre o caso Richthofen

O menino que matou meus pais e A menina que matou os pais se encaixam perfeitamente neste momento. Os filmes abrem com a informação de que são uma narrativa ficcional baseada em fatos reais, em especial, nos depoimentos dos principais assassinos, Daniel Cravinhos e Suzane Von Richthofen. Com essa premissa, é preciso estar atento e forte: nada do que for contado ali é, realmente, digno de crédito.

Como Elize Matsunaga, o caso Eloá, Eliza Samudio, o Maníaco do Parque e Daniela Perez, este é mais um caso que tomou o país. Suzane e Daniel planejaram e assassinaram os pais dela enquanto dormiam em sua casa. A intenção era viver sem eles, aproveitando a boa situação econômica da família. Quando chegamos aos depoimentos e investigações da época, o que sabemos é deste jogo de culpa, quando o casal rompe em uma troca de acusações. De vítimas, ficaram os pais mortos e o irmão de Suzane, Andreas, que carrega um passado e presente trágicos.

Imagens dos filmes A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais
Allan Souza Lima (Cristian Cravinhos), Carla Diaz (Suzane von Richthofen) e Leonardo Bittencourt (Daniel Cravinhos)

Entretanto, a curiosidade sobre grandes crimes é parte do que nos torna humanos. Talvez menos pela morbidez dos atos, mas por uma busca de compreensão, de entender se há alguma justiça nos crimes cometidos ou se é, apenas maldade, perversão, violência gratuita. Neste percurso, de nada os filmes nos servem. Juntos, eles são um jogo narrativo de inversão de papeis a partir do discurso dos depoimentos dos réus. Os vilões, responsáveis pelo crime, se alternam nos filmes e é apenas isso o que vemos.

Talvez o que mais decepcione seja justamente isso: os autores decidiram não contar as histórias que desejávamos tanto conhecer. Esta escolha de jogo de cena seria interessante como uma alternativa, algo como o que vemos em Corra Lola, Corra (Tom Tykwer, 1998). Ali, em um único filme de ficção, há diferentes pontos de vista para uma mesma história, nos dando um panorama mais completo do que estamos a conhecer. Nesta obra escrita por Raphael Montes e Ilana Casoy, e dirigida por Maurício Eça, deixamos escapar a veracidade dos fatos, a única coisa que realmente importa em uma história de crime verdadeiro. Em tempo: é importante ressaltar o respeito pelas escolhas da produção. Só é uma pena que se perca a oportunidade de abordar o entorno do crime, os julgamentos de fato, as histórias um pouco mais próximas da realidade.

Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos
Daniel Cravinhos e Suzane Von Richthofen

Ao sair dos filmes, ficamos com as mesmas questões com que entramos: o que de fato aconteceu? Por que aconteceu? O que fez com que eles saíssem de vítimas colaterais a suspeitos e então condenados pelos crimes? Por que não sabemos nada sobre as investigações? O que aconteceu a Andreas? Ao colocarem as famílias de classe média e classe alta em oposição, a única coisa que sabemos é sobre a polarização de velhas ideias e preconceitos, punindo não apenas os criminosos, mas suas classes e dando a entender que o interesse motivador do crime não partiu apenas de Daniel - no caso de O menino que matou meus pais - mas de toda sua família. Na versão que se quer oposta, se diz: a pobre menina rica não aguentou a pressão preconceituosa de seus familiares e, por não ligar para dinheiro (apenas porque o tinha em profusão), arquitetou sua solução final com o extermínio dos pais para viver melhor.

Talvez, de positivo, saiamos com a percepção de que ainda não encontramos uma boa forma de contar esta história, abrindo margem para novas produções, já que ainda há muito o que conhecer e encontramos um público ávido e receptivo à produção nacional. Com tantos streamings investindo em conteúdo brasileiro, esperamos o aquecimento do mercado audiovisual como uma nova retomada de produções no pós-pandemia, esta última que promete acabar ano que vem. Se isso tudo for verdade.

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maracanazo, maracanã, 1950
Maracanazo, 1950

No início da semana passada, estive pesquisando livros e autores que despertassem o olhar para uma história interessante e com uma narrativa fluida em que as imagens viessem fáceis, como se estivéssemos vendo um filme se desenrolar a cada página. O algoritmo universal me levou a Empate, de Vinícius Neves Mariano, livro que devorei em poucas horas com muita alegria e novas ideias.

O ano é 1950, o momento, a final da Copa do Mundo, Brasil e Uruguai. É a estreia do Maracanã, construído especialmente para o evento - o maior estádio do mundo em seu primeiro momento de glória. O Brasil, como em todas as finais de campeonato, parou para ver o jogo. Estádio lotado, 200 mil pessoas. Duas delas estarão lá e não conseguirão ver nada.

imagem do Maracanã, em 1950 durante a final da copa do mundo, o Maracanazo
O Maracanã de 1950 é o cenário para o livro de Vinícius Neves Mariano

Como se estivessem em um pesadelo, dois homens caem no fosso que separa o campo da arquibancada. Um, manco e raivoso, injustiçado por ter lutado em uma guerra que não era sua, deseja ardentemente a derrota nacional e o outro, a esperança honesta em um trabalhador comum que só quer chegar ao fim do dia feliz, a vitória implacável sobre os vizinhos uruguaios. Com a narrativa dividida entre os soluços de uma torcida desesperada e eufórica, e flashbacks que reforçarão as razões do primeiro, seguimos ansiosos como se o jogo estivesse acontecendo diante de nós e não soubéssemos o resultado.

Tudo o que se ouve são ruídos, gritos, aplausos. O silêncio é sempre mais tenso e reforça a cena que se passa entre os dois. Como uma peça de teatro, tudo é a troca entre eles, e o futebol, ainda que importante enquanto contexto, não se sobrepõe às relações humanas que se descortinam diante de nós.
Capa do livro Empate, de Vinicius Neves Mariano
Empate, de Vinícius Neves Mariano

Vinícius Neves Mariano é preciso no contar de sua história e, no final, sentimos falta daqueles personagens, queremos saber mais sobre eles, queremos ficar talvez mais tempo, além daqueles pouco mais de 90 minutos de jogo. Ironicamente, este mesmo tempo contado é implacável, cronometrado ao fim do romance, do jogo e de qualquer coisa. É o tempo que determina tudo o que temos, fomos e somos. 

O autor foi uma grata surpresa pra mim, que investigarei seus outros escritos agora. Há outros dois livros a conhecer, o recente Velhos demais para morrer, e a experiência do instagram, Nenhum futuro próximo. Para saber mais, visite o site do autor.

***

Vamos manter o blog sempre vivo? Com um valor tão pequeno quanto o de um cafezinho, você contribui para a manutenção deste espaço que traz sempre um conteúdo gostoso e quase sempre útil. :)

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A HBO Max chega ao Brasil com uma safra de produções de curadoria e produção características. A bola da vez, talvez não tão recente para quem tem acesso ao canal por assinatura, é Shrill, uma série de comédia dramática sobre Annie, uma colunista de vinte e tantos anos de uma publicação millennial digital, a revista The Weekly Thorn. Ela precisa mudar de vida, sem mudar de figura.

Shrill, HBOMax
Aidy Bryant como Annie Easton em Shrill

Annie Easton é gorda. Desde pequena, sua família enfrentou com ela uma cruzada em busca de um corpo mais magro, como sinônimo de saúde, beleza e sucesso em relacionamentos futuros. Nesta saga honesta de pais ansiosos e filhos sofridos, restam os traumas e, com sorte, seus momentos de superação. Superar o padrão de beleza, superar os preconceitos, superar os olhares, se defender sem criar barreiras, tudo é muito difícil, mas, queremos acreditar que as coisas estão melhorando. E estão mesmo, a resposta está nessa série.

Shrill é, em português, aquele som agudo, quase como um grito que rasga tudo quando chega ao nossos ouvidos, de tão estridente. A série promove esse grito, mas com uma suavidade e sofisticação sensacionais. Criada pela protagonista, a atriz e roteirista Aidy Bryant, por Alexandra Rushfield e pela autora do livro em que foi adaptada a história, Lindy West, ficamos hipnotizados por essa mulher de olhar tranquilo, que equilibra com perfeição a meiguice e a acidez, a simpatia e a inteligência. Difícil é não se apaixonar.

A série é sensível, engraçada de uma forma inteligente e com bons personagens. A curiosidade recai na transformação de Annie Easton, a colunista de uma revista da geração millennial que fala sobre consumo, estilo de vida e cultura. Aqui, encontraremos temas mais do que relevantes à sociedade, como o questionamento sobre o estabelecimento da associação entre beleza e magreza, a relação entre saúde e peso, relacionamentos amorosos, respeito a si próprio, autoestima, amizades e valorização de quem se é. É uma delícia de assistir e vale para todo o público adulto, com diversidade e entretenimento garantidos. É uma pérola no streaming.

A HBO Max chega em bom momento ao país, com preços competitivos especialmente nesta semana, em que a Netflix aumentou o valor de sua assinatura. É o momento de dividir a conta com os amigos ou alternar o cardápio do entretenimento. 

Agora, temos grande oferta de produções nesta linha de comportamento que valem ser vistas, guardando seu contexto de produção e momento, nos tirando das figurinhas repetidas de outros meios. Segue uma lista para quem gosta do assunto: 
  • Insecure;
  • Girls;
  • Love Life;
  • I may destroy you;
  • Sex and the city.
Pegue sua pipoca, se prepare e cuidado para não viciar. Com o alívio da pandemia entre nós, já dá pra começar a alternar a vida caseira com algumas voltas na rua. De máscara e mantendo o isolamento, claro. :)

***

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É sempre suspeito pensar no que ler por um ano inteiro. Minha lista costuma se intercalar entre aqueles livros que desejo ler há algum tempo e surge o momento, outros que descubro pelo caminho e terceira e mais recente via: os que preciso ler para o trabalho. Com a pandemia e um distanciamento social que parece não ter fim, nesta metade de 2021 concluí meu desafio de leitura do Goodreads. Hoje é dia de trocar ideia sobre livros. :)

imagem de livros e o título: o que ler em 2021. post sobre livros lidos e o que vale a pena.

Todos os anos me proponho a ler uma quantidade de livros. A grosso modo, não significa muita coisa se você leu 5, 15 ou 50 livros em um ano. Não é uma avaliação qualitativa ou algo que mereça mérito de qualquer tipo. Eu considero o "desafio de leitura" como um número que eu ache alcançável e divertido tentar cumprir, um estímulo a buscar obras interessantes que estimulem o meu prazer pela leitura. Nos anos anteriores, me propus a ler mais e 2020, com o apocalipse que afetou a nossa saúde física e mental, não cheguei nem perto de atingir meus 37 propostos. Li 12 e não sofri com isso.

Este ano, baixei as expectativas, encarei a realidade da "Pandemia - ano 2" e fui em frente com meu barquinho literário, remando na paz e com meu café ao lado. Chegamos a fins de junho e, sem perceber, vi que li os 15 livros que havia me proposto para todo o ano. Vem mais por aí, mas, antes disso, mostro um pouco do que li e o que vale a pena.


Os que deram muito certo ❤

Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves

Da fantasia para a quase realidade. Este romance histórico traz a saga de uma mulher africana, levada criança como escrava e desembarcando na Bahia. Vivendo em Salvador boa parte de sua vida, este surpreende. É preciso respirar fundo para seguir com ele, é volumoso e me prendeu como uma série bem feita, em que ficamos tentados a ver tudo de uma só vez. Como grande parte da história se passa em minha cidade, para mim (e para quem conhece Salvador) fica a delícia de cruzar passado e presente e reconhecer naquelas linhas, os caminhos que percorro hoje. Além disso, é um livro com grande pesquisa histórica e cultural para se fazer crível. Para ler na rede.


Cidadão do Mundo, o legado de Sérgio Vieira de Mello, Matias Spektor

Amigo de longa data, Matias tem uma escrita - além de vasto conhecimento - fluida, que equilibra bem análise, conhecimento e uma leveza que quase tornaria qualquer assunto uma crônica. Em seus textos para jornais, traz ironias sofisticadas em forma de opinião e nos faz parecer até mais inteligentes do que somos. Em Cidadão do Mundo, ele traz um pouco da vida e relevância de Sergio Vieira de Mello, o diplomata brasileiro e adido da ONU que morreu em um atentado em Bagdá em 2003. Carismático, inteligente e conciliador, Sergio foi uma dessas personalidades que se foi cedo demais e deixou para sempre aberta a vaga de excelência que conquistou. Vale a leitura para conhecer, como me serviu, mais sobre a vida deste homem.


Imagem da cidade de Praga, República Tcheca, onde se passa a maior parte da história de Utz, livro de Bruce Chatwin.
Praga: a cidade mágica (da vida real) onde Utz acontece

Utz, Bruce Chatwin

Este livro surgiu, sendo sincera, numa promoção. O que não tira a sua qualidade, mas apenas a origem dele em minha vida. Inusitado, é um romance que trata da história de um colecionador de porcelana em Praga e como ele garantiu a segurança de sua coleção ao longo dos anos, atravessando guerras e regimes. Acho que o li até rápido demais e me pego tendo flashbacks de sua história. O livro traz muito da solidão dos personagens que escolhem o exílio social ou lhes é imposto de forma sutil. Ao mesmo tempo, traz as atrocidades de um regime que impõe o silêncio da repressão e a escuta é sabida. Para ler de uma só vez e se preparar para receber estas lufadas de sentimentos e lembranças depois. 


O livreiro do Alemão, Otávio Júnior

Uma história real, uma ideia para o trabalho. Descobri este livro em minhas investidas por histórias interessantes, relevantes e, se possível, reais. Encontrei Otávio Júnior, o verdadeiro livreiro do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro e sua história, este trecho de autobiografia, sobre sua paixão pelos livros, pela educação e por querer compartilhá-la com todos à sua volta. A história dele é vencedora, sua escrita é rápida e simples o que não diminui em nada seu talento e mensagem. Otávio é merecedor de todo apoio que conseguir, por seus objetivos e desejos de tornar o seu entorno, um lugar melhor para se viver. Uma história linda e que deve virar filme.


Tudo é Rio, Carla Madeira

Dos livros mais surpreendentes do ano. Tudo é Rio tem uma força voraz, arranca tudo de dentro da gente e nos faz pensar. Tem umas questões realmente a trabalhar ali, umas sensibilidades sobre ser mulher e relacionamentos, mas é forte e complexo, como a vida. Aí há a violência, a dor, o luto e o recomeço. Há amor, desamor, sexo, paixão e vingança. Há uma dona de casa, um marceneiro e uma prostituta. Um triângulo não amoroso e então, cheio de amor. Vai virar filme ou série com certeza, já foi dito por aí. Leia primeiro e vamos discutir. Tem uma resenha só pra ele aqui.

 

Foto do castelo de Bran, o Castelo do Conde Drácula.
O verdadeiro castelo do Conde Drácula, Romênia
Drácula, Bram Stocker

Sim, o clássico. Depois de ler Frankenstein e o Médico e o Monstro, e ter descoberto como são muito bons, a despeito de muitos filmes inspirados neles, fiquei com vontade de descobrir a grandiosidade do vampiro também muito conhecido entre nós. Bram Stocker traz um thriller - o livro é muito mais "de suspense" do que Frankenstein ou Dr. Jekyll, que poderiam facilmente ser categorizados como dramas "sérios" - e sua atmosfera é, de fato, bastante sombria. O livro é gostoso de ler, a história todos conhecemos, de um vampiro que precisa conquistar outros territórios para se manter eterno. A ideia de perenidade, de medo do invisível e do sobrenatural são muito bem tratadas aqui. Foi uma delícia entrar em um universo relativamente conhecido. 


Caçada ao maníaco do parque, Luísa Alcalde

Outro livro de trabalho. Vamos andar com esse, violento, real, que acompanha "em tempo real" a caçada ao maníaco do parque, aquele serial killer brasileiro que levava mulheres jovens para um parque à beira da cidade de São Paulo, as estuprava e matava. O maníaco segue vivo e preso, é um psicopata diagnosticado. Não é meu gênero de preferência, mas faz parte da vida e trabalho é trabalho. Ainda acho melhor ler estes do que histórias de gente que morre de doença, como os escritos por John Green.


A vida mentirosa dos adultos, Elena Ferrante

Ler Elena Ferrante é encontrar alguém de quem se gosta. Isso funciona comigo, quando passo a acompanhar o trabalho de um autor. Se ele for vivo, melhor ainda, porque esperamos novidades para os próximos anos. Neste, A vida mentirosa dos adultos, ela traz novamente uma protagonista napolitana em formação, uma adolescente vivendo entre as mentiras de seus pais e como isso parece transformá-la ao longo dos anos. Acho interessante é a visão de que os pais, quaisquer pais, não são, eternamente, os herois de nossas vidas, os exemplos de perfeição e correção, de honra ilibada e sensatez perene. Os adultos são jovens que cresceram. E, se a formação de base não for consistente e ancorada em valores e experiências que os reforcem, a fluidez da moral se torna constante e deslizes acontrecem. Eu gosto da ideia de tirar o peso  de 'exemplo' dos pais, mas entendo que é um momento extremamente marcante para quem a vive. Gosto de como a autora aborda isso, de como sua personagem percebe os adultos e como passa a se relacionar com eles e seus semelhantes, os jovens. O olhar apurado que parece ser tão específico de um protagonista, se torna um reflexo de parte do que vivemos e é isso que torna sua literatura tão especial. Se não conhece a autora, sugiro começar por A Amiga Genial.


imagem ilustrativa de bagagens em frente a uma casa, para um teto para dois, livro de beth o'leary
As bagagens que iniciam a história na Londres de Beth O'Leary

Um teto para dois, Beth O'Leary

Esse foi um acerto, levando em conta as expectativas. Não é um Orgulho e Preconceito, mas é uma literatura leve para tempos sombrios. É um romance romântico que pontua questões sérias como relacionamento abusivo de uma forma digerível, séria e sem pesar tanto o clima. Daria um ótimo filme. Se você gosta desse tipo de literatura, este é um acerto. A Pequena Jornalista já havia me falado sobre ele e, como ela sabe tudo de 'chick lit', fui na dela e me dei bem. 


A pequena livraria dos sonhos, Jenny Colgan

Adoro romances românticos. Minha investida por livros parte da vastidão de interesses em romances e comédias românticas que abundam tanto aqui, como nos filmes. Este livro é um alento. Leve, divertido, com uma história bem do jeito que eu gosto: café, livros, mudança de vida, viagem, mais livros e romance é de uma leveza tal sem ser bobo, que parece que estamos vendo um filme bom, só que é ainda melhor, porque dura mais para terminar. É dessas histórias que queremos que vire filme mesmo, na verdade, para compararmos a nossa imaginação com a dos outros. Jenny Colgan me levou para a Escócia e me deixou com saudades daqueles poucos dias que passei lá anos atrás. Me fez querer estar lá agora, naquele clima sempre inconstante e com paisagens magníficas. Se for sem preconceitos com literatura "de mulher", vai se divertir. 



Não é muito a minha, mas... 👀

Minha esposa tem a senha do meu celular, Carpinejar

É meu primeiro livro do autor. Leve, é uma série de crônicas sobre o casamento. Como o casamento deve ser, como o amor dele pela mulher é pleno, transparente, sincero. Como ele adora sua mulher e lhe tem confiança plena ao lhe ofertar, entre outras coisas, a senha do celular. Nâo sei. Terminei o livro, mas fiquei no meio do caminho. É como ler qualquer história sem conflitos, sem transformação do personagem. É como ver uma série expositiva, não tão narrativa. Achei morno. Entendo porque ele tem a atenção que recebe e acho que lhe seja devida. Acho que ele é como Martha Medeiros, que tem seu público. Talvez eu esperasse mais ironia, mais acidez e só encontrei doçura. O li para o trabalho e, para ele, atende as expectativas. Mas, para o meu lazer, não me pegou.

Imagem do Japão para representar Silêncio, o livro de Endo Shusaku
Uma viagem ao Japão medieval é o que fazemos neste Silêncio

Silêncio, Endo Shusaku

Este é o livro que deu origem ao filme homônimo de Martin Scorsese. Não vi o filme. O livro... não sei como veio para mim, deve ser coisa dos algoritmos. A premissa é boa: o questionamento de um padre missionário sobre o silêncio de Deus diante de uma situação difícil. O contexto é interessante, a catequização do Japão no século XVII e o encontro com uma cruzada contra o catolicismo. Há momentos interessantes, mas há um ciclo sem fim de repetição do padre sobre o silêncio de Deus e, por mais que a ladainha seja justificada, se perde numa ausência de ritmo e no pouco que sabemos sobre personagens relevantes na trama. O livro é bastante importante no Japão e bem colocado no mundo, mas acho que a trama se perde no meio do caminho ou se alarga para dar mais peso ao drama que se propõe do que à ideia que ensaia elaborar. Acho que esperava mais carga filosófica e não encontrei.


Ikigai: os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz, Ken Mogi

Então, aí eu achei esse. Disfarçado de sabedoria e cultura japonesa, é um auto ajuda que termina mal. Começa muito bem, na verdade, mas, com o andar da carruagem, se perde em encenação e o "resumo do livro no final do livro" me matou. Parece que era algo como: se você está com pressa, só leia as últimas páginas, mas escrito como: e então, segue o que vimos neste livro. Me irritou. Acho que subestima o leitor e não precisamos ser subestimados. Mas, os cinco passos são bem legais, traz um pouco de uma filosofia de vida japonesa que não conhecia e devo falar sobre isso em outro post. Tenho me voltado para questões saúde e viver melhor, naquele momento de pensar o que queremos para a vida, sabe? Então, para iniciar isso, o livro serviu. Se curtir a temática, vale a leitura sem grandes expectativas.


O ano em que disse sim: como dançar, ficar ao sol e ser sua própria pessoa, Shonda Rhimes

Este foi uma dica de uma colega de trabalho e, infelizmente, esperava mais. Entendi porque ela me sugeriu ler, Shonda Rhimes é uma entidade de força e produção audiovisual nos Estados Unidos e dominou as noites de quinta-feira, o prime time do prime time gringo por um tempo com Gray's Anatomy, Private Practice, Scandal e How to get away with murder. Pouca coisa, não? Ela escreve bem, obviamente, mas, não sei se foi a tradução (deveria ter lido em inglês) ou se foi porque o livro entrou, no meio de seu caminho, na prateleira de auto ajuda, que não tenho o hábito de frequentar. Então, li todo, claro, porque as referências de carreira me interessaram, mas parte daquela transformação pessoal não era muito a minha praia ou se repetia demais, talvez. Valeu por conhecer um pouco mais sobre essa grande mulher da nossa indústria, mas não indicaria como leitura por prazer.


Do jardim, com muito afeto: uma história tocante sobre uma amizade improvável, Ana Hantt

O título já indica o assunto, imagino eu. É mais uma tentativa de ler estes romances românticos conforme comentei acima. Só que esse... me pareceu simplista demais. Eu gosto de histórias românticas, sou romântica e etc, mas tem que ser bem escrito, senão fica parecendo filme feito para tv. E esse tinha uma ideia boa, mas pareceu um desenvolvimento apressado, curto, com resoluções fáceis demais. Enfim, sempre acho uma felicidade se conseguir uma publicação, escrever é difícil, toma tempo e, às vezes, a nossa ansiedade quer cortar este tempo de elaboração e partir para a ideia seguinte. Vai ver foi isso. Tem boas críticas no goodreads, mas me deixou insatisfeita. Não perca tempo.


E você, como estão as leituras neste ano ainda complicado demais para deifnir? Vamos trocar figurinhas literárias? =)

***

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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