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Café: extra-forte

Chegamos na última semana do mês e para encerrar com chave de ouro os assuntos sobre nosso #artistadecinema de junho, vamos com uma coisa muito especial. Chega mais!
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Biblioteca de Sift Admont
Como já sabemos, Artista de Cinema é nossa postagem semanal sobre uma personalidade importante para a sétima arte no mundo. Suas contribuições são relevantes não apenas para o fomento cultural, como servem de referência para futuras gerações. Em Junho, nossa convidada especial foi ninguém menos do que Fernanda Montenegro, esta entidade da nossa cultura brasileira. Hoje, para encerrar o mês, fechamos com sua autobiografia lançada ano passado, Prólogo, Ato e Epílogo. 

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Prólogo, ato, epílogo, Fernanda Montenegro
Elaborado a partir de uma série de conversas e entrevistas com a colaboração de Marta Góes, Fernanda Montenegro constrói um linha de tempo sobre sua vida, que nos permite partir do que ela considera o princípio - a chegada de seus antepassados, imigrantes italianos e portugueses no Brasil. Esta seleção não é arbitrária, nossa artista de cinema parece querer marcar sua origem como aquela ao país que pertence e do qual nunca quis se afastar - o Brasil como residência e herança.

Assim seguem suas memórias de quase cem anos, sempre entrelaçadas com nossa história política e cultural - o início de sua formação de rádio e teatro, o posterior ingresso na tv, os filmes com os grandes nomes do nosso cinema. Fernanda Montenegro é em si um patrimônio e talvez o maior nome de nossa dramaturgia contemporânea - alegria e honra de qualquer diretor e produtor cultural trabalhar com ela.

O livro cruza momentos difíceis de nossa História por quem os viveu muito de perto, produzindo cultura: os anos de chumbo da ditadura militar. Fernanda Montenegro viu seus amigos serem presos, torturados, desaparecidos. Viu as peças de teatro serem escandalosamente censuradas parcial e integralmente e resistiu, esperou por dias melhores enquanto driblava a dor de perder a arte livre e o medo de um cotidiano sombrio. Ao mesmo tempo, acompanhamos o dia a dia íntimo, a família, os filhos crescendo, os pais se envolvendo na educação e apoio aos artistas. 

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Joseph Frank, um dos mais respeitados estudiosos de Dostoiévski (Dostoiévski: um escritor em seu tempo), indica que o personagem a quem é atribuída a frase "a beleza salvará o mundo" - o ingênuo e altruísta Príncipe Myshkin, protagonista da novela O Idiota - foi construído para ser o modelo de ser humano perfeito - segundo alguns, uma mescla de Jesus Cristo com Don Quixote.

O fim da novela, entretanto, não permite concluir que a beleza salvou o mundo. Ao contrário, o que se percebe é que o homem perfeito nem consegue reverter os males da vida mundana em direção à luz divina, nem consegue, pela apreciação da beleza - duas belas mulheres captam sua atenção - atingir a felicidade.

É certo que a cultura - dimensionada amplamente - é um instrumento de transformação. Mas se engana - quem defende que ela se trata de um instrumento apolítico. É simplesmente impossível uma renovação cultural dissociada de renovação política ou dissociada de uma alteração na conformação econômica da sociedade, porque os processos culturais são simultâneos aos processos políticos e econômicos. 

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A conquista de Jerusalém, por Émile Signol.

A arte sacra, por exemplo, mostra a História, não é apenas uma manifestação pura de perseguição do belo, da verdade ou da bondade. É também uma manifestação artística com propósitos políticos claros e financiada por um sistema econômico em coordenação com esses propósitos.

Exatamente por falta da compreensão dessa articulação simultânea de processos, é possível, recorrentemente, observar o uso do adjetivo "ideológico" como algo pejorativo, nefasto, quando, em realidade, o seu significado guarda apenas vinculação com a percepção de que existe mais de uma forma possível de enxergar o mundo - e, portanto, de identificar que o é bom, belo e verdadeiro.

O discurso da desvinculação político-ideológica - que parece subsidiar uma série de iniciativas políticas no Brasil pós 2013, a exemplo do Projeto Escola sem Partido, para ficar em apenas um - tem dois objetivos claros: o primeiro, de encobrir uma ideologia, por vezes menos palatável a um eleitorado pouco simpático às ideias eventualmente por ela propaladas, com o emprego de expressões difusas e descontextualizadas ("verdade", "beleza", "em favor do Brasil", "em favor da Bahia", “pelo povo”, “pela liberdade” por exemplo); o segundo, o da apropriação dessas expressões difusas e descontextualizadas para, em um ambiente democrático, caracterizado pela dialética e pela participação coletiva, abrir margem a um decisionismo unilateral.

Compõe a identidade do povo brasileiro o seu caráter multicultural. Pretender a proteção da beleza a partir apenas de parâmetros cristãos/ocidentais (seja lá o que isso queira significar exatamente) é virar as costas à sua história e à sua memória. A apropriação da beleza, por quem quer que seja, destruirá o mundo, porque sempre provocará ódio e revolta. Não é isso o que o Príncipe Myshkin tentou fazer. A beleza não é de ninguém. A beleza é de todo mundo. 

***

Quem escreve
Bernardo Lima é Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia e Advogado. Você o encontra no instagram.

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Junho passou até mais rápido do que maio ou talvez já estejamos mais habituados a esse isolamento social. Enquanto ficamos em casa, trago a lista do que indiquei, filmes e séries da Amazon Prime Vídeo, este mês no instagram. Vem comigo!

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A vida tem mudado bastante, mesmo estando em casa. Começamos a nos adaptar um pouco mais a essa rotina que passou dos cem dias e agradecer por termos tido um verão quase livre da pandemia. Agora é encarar a reta final, fazendo campanha para amigos, familiares e conhecidos espalharem a ideia de que falta pouco mesmo, e que ir pra rua agora é dar dois passos para trás, é acreditar em um presidente despreparado, ineficiente e que só se preocupa - e muito mal faz isso também - com os seus. Como não somos dele, vamos juntos e independentes, fazer da nossa cidadania um direito e da nossa saúde coletiva, uma prioridade. Insisto nisso mesmo, porque se faz necessário. Todos os dias. E agora, nossa distração!

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Moonrise Kingdom (2012)
Enquanto a cada filme lançado por Lars von Trier saímos sofridos e horrorizados com seus desatinos e sordidezes, com Wes Anderson, o efeito é oposto. A cada obra do diretor, confirmamos uma sensação de infância, por mais 'adultos' que seus filmes sejam, com piadas e diálogos sagazes. O diretor é conhecido por seu apuro estético - é fácil reconhecer seus filmes por suas cores, movimentos de câmera, figurinos e até elenco, como se os melhores amigos estivessem sempre presente. Moonrise é uma delícia de filme que nos leva aos tempos dos acampamentos - para quem foi escoteiro - e das aventuras de crianças, para quem viajava em família para alguma cidade menor, para o campo ou apenas, para o terreno baldio do fim da rua, com os amigos do bairro. Dá para se relacionar em qualquer situação e com um elenco estelar (Frances McDormand, Jason Schwartzmann, Edward Norton, Bruce Willis, Bill Murray), a graça só aumenta. É um filme de verão na melhor acepção do termo e deve ser visto hoje e sempre. A crítica você encontra aqui.

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Pequenos incêndios por toda a parte (2020)
Baseado no livro homônimo de Celeste Ng, o drama conta a história da adaptação de uma mãe solteira e sua filha adolescente em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Com toda a questão social e racial que os acomete desde sempre e parece nunca evoluir, a série cai como uma luva no processo e traz um feito inédito, colocando Reese Whiterspoon como alguém odiável. Nunca antes na história da humanidade isso aconteceu. Político sem forçar a barra, fala também sobre comportamento, relacionamento e ser mulher. 

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A Queda! As últimas horas de Hitler (2004)
Um dos filmes mais brilhantes e sensíveis sobre o período da Segunda Guerra Mundial - e olha que fizeram e ainda fazem muitos sobre o assunto - A Queda! As últimas horas de Hitler, traz os últimos dias do ditador, escondido no bunker, entre aceitar a derrota e providenciar sua cartada final. Bruno Ganz está brilhante, carrega o filme com uma força que, de alguma maneira, conseguimos perceber um resquício de humanidade, ou melhor, de ser humano, naquele genocida. É um filmaço em todos os sentidos e deve ser visto. Um grande retrato de época. A crítica está aqui. 

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Pass Over (2018)
Seguindo a onda do debate racial norteamericano, chegamos neste Pass Over, de Spike Lee. O diretor é conhecido e reconhecido por décadas produzindo um cinema inteligente e político, trazendo as questões que lhe ferem para os holofotes e escancarando a vergonha que é esta nação racista. Aqui, dois amigos estão na esquina da avenida Martin Luther King Jr., decidindo tomar um rumo melhor na vida, sair daquela cidade opressora que se diz igualitária, mas basta a solidão de um homem negro na rua passando por outro branco para se entender o racismo. Aqui, o filme é uma peça de teatro encenada para uma população negra, tratando da questão racial de forma contundente. Os atores traduzem os sentimentos que vemos nos olhares da plateia, a indignação, a raiva, o medo nos olhares de todos os dias de pessoas que não fizeram nada para viverem assim. Enquanto decidem se ficam ou se vão, considerando os riscos de encontrar a força policial assassina de sempre, discutem a própria condição, entre risos, piadas e misérias. Lindo filme, diálogos fundamentais e, com quatro atores e uma locação, se fez uma grande obra.  

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Seinfeld (1989 - 1998)
Criada por Larry David (Curb Your Enthusiasm) e Jerry Seinfeld (Comedians in Cars Getting Coffee), a série se fez baseada em sua máxima: sobre o nada. É uma sitcom que trata do dia a dia destes quatro aí da foto em Manhattan e com essa sinopse 'original' se transformou em um dos maiores sucessos da televisão americana de todos os tempos. Os fãs costumam rivalizá-la com Friends, que surgiu um pouquinho depois e também é de sucesso estrondoso, sendo tão boa quanto. Seinfeld é um comediante - ele basicamente faz o papel de 'vida real' dele - Elaine (Julia Jouis-Deryfus) é sua amiga e ex-namorada, George Costanza (Jason Alexander) é o amigo cheio de questões e Kramer (Michael Richards), o vizinho atabalhoado. Juntos, eles traduzem uma comédia inteligente, com grandes sacadas e interpretações. Os quatros alavancaram suas carreiras aí e seguiram adiante em outras produções, com destaque especial para o próprio Seinfeld e Julia Louis-Dreyfus (Veep). São nove temporadas de muita diversão. 
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Olá! Voltamos com as terças de #artistadecinema e neste junho, com a dama da dramaturgia brasileira, Fernanda Montenegro. Ela tem nos acompanhado o mês inteiro, com crítica de filme, biografia e muito mais. Hoje é dia de ver um pouco mais dessa mulher incrível e o que circula sobre ela por aí. Fique em casa, pegue um café e vem comigo!

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Fernanda Montenegro
A vida não segue fácil já há um bom tempo e sabemos disso. As últimas notícias, entretanto, nos entristecem um pouco, quando vemos nossos conterrâneos saindo de suas casas e se aglomerando nas ruas, como se a validade do isolamento social estivesse acabado ou a pandemia desaparecido. É difícil ficar tanto tempo em casa, não está fácil para ninguém, mas sair agora só alongará esse tormento. Façam como Fernanda e fiquem em casa, seguiremos juntos, produzindo conteúdo bacana para te distrair nestes momentos delicados desde longo 2020. Hoje, o desafio é a seleção de coisas bacanas sobre a atriz que já nasceu multimídia, com uma carreira tão diversa quanto extensa em muitos meios artísticos. Mas vale a tentativa, né?

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Francisco Cuoco e Fernanda Montenegro em 1961
Começando daquele jeito, com um arquivo especialíssimo da Funarte: uma entrevista em áudio em que Fernanda Montenegro sabatina ninguém menos que Nelson Rodrigues em 1974. A foto acima é de uma montagem de Beijo no Asfalto em 1961, do autor. Fernanda encomendou a peça para Nelson que foi um sucesso estrondoso e a parceria dos dois não terminou aí. A atriz ainda filmou A Falecida, a novela A morta sem espelho e Vestido de Noiva. O áudio você encontra aqui no site da Funarte e é incrível.

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Sangue Latino
Em uma edição de Sangue Latino, programa do Canal Brasil, de dois anos atrás, com Fernanda Montenegro, ela fala um pouco sobre o ofício do ator, entre outras coisas. O episódio você encontra na íntegra (para assinantes) no Canal Brasil e no Globosat Play, mas o trecho do ofício do ator é tão brilhante e da forma como foi posto por ela, se tornou único. Está disponível no youtube. Dá quase um orgulho nacionalista saber que uma mente como esta é nascida e criada no mesmo país sofrido que o nosso, cuja educação e arte seguem na carência dos desgovernos. Como se não bastasse, ainda há no Espelho, programa com Lázaro Ramos do ano passado, a entrevista completa e gratuita aqui. 

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Central do Brasil (1998)
Em 1999, Fernanda Montenegro realizava um feito inédito para o Brasil: concorria a Oscar de melhor atriz por Central do Brasil. Além dela, a obra também estava competindo como Melhor Filme Estrangeiro e todos sabemos bem porquê, é realmente muito bom. A notoriedade brasileira ela já havia conquistado há muitas décadas, mas passou a de fato se tornar relevante fora do país nessa época. Dentre as várias entrevistas que deu, uma ficou marcada por ser um programa relevante nos Estados Unidos, o de David Letterman, uma espécie de Jô Soares gringo. O trecho legendado de Fernanda Montenegro é ótimo e você encontra ele aqui. Vale a visita.

Fernanda Montenegro e o teatro
Com mais de 70 anos de carreira, era de se esperar que a maior atriz do nosso teatro, cinema e tv fosse convidada para ministrar aulas e palestras por todo o país. Em uma conversa animada com estudantes de teatro no Teatro Bom Jesus, em Curitiba, Fernanda Montenegro fala sobre a própria carreira, responde perguntas, fala sobre o ofício do ator em uma aula magistral e imperdível que também foi disponibilizada gratuitamente para seu ávido público. Tudo aqui, neste link. 

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Prólogo, ato, epílogo - Fernanda Montenegro
Saiu ano passado pela Companhia das Letras, o livro de memórias de Fernanda Montenegro. Incrível, conta toda a sua vasta jornada pelo universo das artes e trajetória de vida, família, educação, amigos. Uma aula de cultura brasileira. O livro pode ser encontrado em quase qualquer livraria do país e é uma grande aquisição para aqueles interessados em nossa cultura. 
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Mari e Lucas

Eu casei. No meio da pandemia. Em casa.
Há mais de um ano, eu e meu companheiro planejamos uma festa de casamento. Para mim, particularmente, a festa teria um grande simbolismo, pois é um reconhecimento de que agora enxergo o Rio, cidade em que imaginei que viveria pouco tempo, como um local cheio de afetos e onde construí uma ramificação da minha família que, junto com Lucas, é composta por três dogs bem animados: Phyonna (porque ela é phyna), Bynno e Pretinha.

Estava tudo indo bem, mas, no meio dos nossos planos surgiu o caos da pandemia. Tudo suspenso. Isolamento necessário. Medo do desconhecido. Ansiedade. Os dias foram inundados por um mar de sensações, a maior parte delas pesadas, difíceis. Agora nosso foco se restringia a controlar todos esses receios e seguir em frente. Viver um dia de cada vez.

Haveria espaço para algo mais? Haveria clima para celebrar? Haveria o que festejar?
Sim, haveria. Na realidade, houve.

No meio da tempestade, tivemos um sopro de esperança, uma brisa de amor. No dia dois de maio, data que seria a do nosso casamento, houve uma celebração muito maior. Reunidos em um encontro virtual com amigos e familiares espalhados pelo país, fomos brindados com um amor fortalecedor. Declarações permeadas de um carinho tocante. E assim, não apenas casamos, mas compartilhamos com todos o presente que recebemos naquela noite de sábado, a força do afeto.

Agora, continuamos a nossa caminhada nestes tempos áridos, mais fortes e recarregados com tanto amor e carinho. Em busca de melhores dias, seguimos.

***
Quem escreve
Baiana, moro no Rio e hoje tenho a cidade como minha casa. Doutoranda em direito, trabalho, vivo com meu marido, três filhos-cachorros e algumas plantas que tentamos não matar. Você me encontra no instagram e no facebook.

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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