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Café: extra-forte

É preciso que nos alimentemos neste isolamento agora já bastante longo. Das comidas que garantem a nossa saúde à nutrição da mente e espírito, em seu sentido mais elevado, é preciso cultura, também em seu sentido mais elevado. Hoje é o dia para isso.

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Nestes tempos de isolamento, um monte de desafios se impõe sobre nós. Das coisas do pequeno cotidiano, quantas vezes limpar a casa e de que forma - isso para quem pode ficar no isolamento doméstico - a cozinha, lavar roupas... passar? Da mesma maneira, com nossas emoções. O clichê "mente vazia, morada do diabo" ganha tantas nuances, que é até difícil saber se nosso humor se manterá mais ou menos o mesmo ao longo do dia. Assim, acontece com os livros. Nossas escolhas literárias refletem nosso estado de espírito: podemos estar ávidos por entrar em uma história que seja a maior possível, que nos prenda a atenção e faça as horas voarem. Ou, quando não conseguimos nos concentrar por muito tempo, a mente vagueia e talvez algo curtinho e bem escrito nos dê aquele impulso que precisamos para atravessar um momento. Para tudo isso, estou por aqui e a dica de hoje é de um gênio, Dostoiévski.

Dostoiévski consegue tudo, sempre. De histórias imensas como Crime e Castigo e Irmãos Karamázov aos muitos romances bem menores, como Machado de Assis, ele mantém nossa atenção, não importando o volume. Sempre há fôlego. É um desses autores em que provavelmente tudo é bom (porque ainda não li tudo, não sei dizer) ou chega perto disso. Todas as suas histórias trazem um ganho para nós, uma reflexão sobre um tempo tão distante quando o endereço de suas narrativas, mas que nos aproximam, por se tratarem sempre de humanidade.

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Noites brancas, Fiódor Dostoiévski
Noites brancas é uma novela super curta, de pouco mais de 70 páginas, sobre um homem apaixonado por São Petersburgo. É um romântico clássico, um flâneur como aqueles que circulavam pela Paris daquele mesmo século, que sonha as geografias urbanas por onde passeia e cujos amores superam a própria vida. O título remete ao verão russo, quando a cidade não escurece totalmente à noite e fica uma espécie de penumbra, um ar de fantasia que cobre os espaços e confunde as horas.

Nosso sonhador é essa figura que justamente vive o verão em uma cidade quase vazia; seus moradores partem para outras paragens com mares e campos menos abafados para a temporada e ele fica lá, entre a tentativa de partir e o desejo de permanecer. Seu encantamento é tamanho, que ele sabe que perderá um pouco de cada coisa com qualquer decisão. Fica, portanto, circula pelas avenidas como um apaixonado, alienado a seus defeitos - a alienação é um fator importante na Rússia de meados do Século XIX de Nicolau I - até que se encanta por uma primeira paixão humana, uma mulher que lhe atordoará os sentidos durante quatro dias e noites.

Nunca havia lido nada tão romântico-melodramático em Dostoiévski e a experiência foi interessante. Há uma versatilidade imensa no escritor, para além de sua crítica social mais aberta de outros textos. Aqui, o tom político corre em paralelo e ao olhar mais atento, de forma que se o desejo do leitor for apenas enveredar pelo romance, é uma oferta válida. As ilusões, os encantamentos e decepções estão todos aí. Ao mesmo tempo, o caminho por uma cidade esvaziada, a tentativa de fuga e o desejo de permanência, o que isso significava em um período de forte repressão política.

Nesta edição linda da Penguin Companhia há um conto anexado, Polzunkov, sobre uma figura em um evento social que se impõe como a definição do seu nome, a partir do verbo polzti, rastejar e ao substantivo polzunok, bebê que engatinha. Uma história de observação de personagem, aquele que se faz útil aos gracejos e escárnio da sociedade para que, então, consiga fazer parte dela. Por fim, uma das melhores opções para quem busca uma leitura brilhante, de fácil digestão e ainda assim, um clássico de um dos maiores nomes da literatura mundial.
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Com a nossa ideia de contar as histórias de vida real de Camis em Dublin, me veio uma outra, de falar um pouco daqui de Salvador, para ver se nos encontramos no meio do caminho. Eu, do lado de cá, ela, de primeira viagem. Um pouco disso tudo, todo mês. 

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Nosso café de 2019 foi em Edimburgo. Onde será o próximo?
O tempo está virando aqui. Salvador vive um outono atípico, mas não há nada de normal mesmo este ano. Está começando a fazer frio - o frio daqui, dos nosso vinte e poucos graus - e tem chovido mais do que... do que sempre, porque é tudo novo e velho pra mim. Estou na cidade há quase três meses e antes disso estive no Rio de Janeiro por 12 anos. Quem já passou pelo Café, sabe que sou baiana, soteropolitana e que amo muito o meu quadrado, mas fazia tempo que não passava tanto tempo aqui. Aliás, até dele, do tempo, já falei outro dia.

Camis vive a primavera e em breve será verão em Dublin. As temperaturas mais altas para ela são o nosso inverno de praia o ano inteiro - que agora está fechada pela pandemia. Ela aproveita o relaxamento do isolamento social enquanto nós, do lado de cá, seguimos confinados na Bahia (o Brasil segue cronogramas distintos por estado), à espera de melhores dados para então, falar mal do trânsito, da hora do rush, de algo próximo daquela rotina que todo mundo sente falta - até de reclamar. Mas, com relação a isso é melhor ficarmos quietos, a Bahia vai bem na medida do possível, com ACM Neto na prefeitura de Salvador, e Rui Costa como governador, tocando as medidas de combate a esse maldito coronavírus. O povo tem ajudado, mas ainda tem muita gente dificultando o processo e atrasando a vida de quem quer se ver livre dessa agonia.

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Dá pra ver o mar da varanda. Não é uma vista 360 graus ou aquela coisa de cartão postal, mas ainda é meu mar e dá para ficar pensando na vida até perceber que perdi a tarde nisso. Diferentemente de Camis, não estou grávida mas, como ela, estou sem trabalho fixo-oficial-valendo, então temos tempos livres ou tempos de decisão acontecendo. Por ora, a meta é decidir se vou ou se fico - o Rio segue cada vez mais distante e talvez seja a hora de voltar para Salvador, nem que seja por uns tempos. Um luxo sair de uma cidade maravilhosa para outra excepcional, eu sei. Mas ainda assim, viver no meio do caminho está de matar. E nem acarajé tenho comido - deve ser isso o que está faltando.

Das coisas que não lembrava mais do dia a dia da cidade, o salitre (ou a maresia) e o vento são os mais marcantes. É impossível manter as janelas e os pisos 'não nublados' (minha versão fofa para úmidos, embaçados e salgados). Tem que limpar feito um condenado, passar pano duas vezes por vez (sim) e umas três vezes por semana se você for perfeccionista - tudo tem limite nessa vida. Varanda e janelas fechadas à noite porque faz frio e porque queremos manter os eletrodomésticos e eletrônicos vivos o maior tempo possível, antes de morrerem de corrosão. Não é exagero. Mas, faz bem né, não ser materialista e entender que um dia na vida tudo acaba, especialmente na vida de maresia. Ou no salite. 

Daqui a pouco eu volto, que o piso me espera. Conto as decisões, maluquices e acertos - assim esperamos - dessa vida de mulher independente entre duas capitais, no meio da pandemia, na expectativa de dias melhores e tentando planejar os próximos passos. 
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Do livro de Martha Batalha para o cinema de Karim Ainouz, A vida invisível de Eurídice Gusmão alcançou dois grandes marcos da cultura brasileira: o livro já era um sucesso antes de chegar ao Brasil - sendo brasileiro - e o filme é aplaudido largamente por onde passa. Hoje é o dia de falar do filme, aproveitando a participação de Fernanda Montenegro nele, nossa Artista de Cinema de junho.

karim-ainouz
A vida invisível (2019)
Adaptação do livro de Martha Batalha, A vida invisível  é dirigido por Karim Ainouz e não é exagero dizer que, desta vez, o filme supera o texto. O drama conta a história de duas irmãs, Guida (Júlia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte), que tomam caminhos diferentes, quando uma decide fugir para a Grécia para viver um grande amor e a outra permanece e se casa, com a ambição de seguir para Viena tempos depois. Ambientado nos anos 50 no Rio de Janeiro, acompanhamos em paralelo os desencontros das duas, que acabam vivendo na mesma cidade sem saber e passam a vida buscando uma a outra.

A sensibilidade experiente de Karim Ainouz vem com toda a força neste drama de amor familiar e força feminina. As personagens parecem sempre estar pela metade, com se seus complementos andassem invisíveis ali perto, mas nunca à vista. Em Guida há uma rotina à parte, longe do berço, fazendo a vida pobre se tornar algo. Eurídice se manteve em família, com seus desejos e ambições sempre empurrados pra frente, em um pai que lhe queria casada, em Antenor (Gregório Duvivier), um esposo caricato que lhe quer em casa. A performance do ator incomoda, talvez pela proposta do exagero - que quem sabe não parece real demais naqueles anos 50 e em muitas casas dos nossos 2020. O que vale aqui é o olhar delas em grandes performances que sustentam a trama até o desfecho, quando então, Fernanda Montenegro (Eurídice), em poucos gestos e palavras, domina a tela.

Enquanto o texto não me provocou o desejo que fez Karim abraçar a ideia, seu filme vale ouro. É impressionante como ele imprime uma verdade na narrativa, como torna suas histórias - Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006), Abismo Prateado (2011) e Praia do Futuro (2014) - dotadas de uma sensibilidade, um olhar de observador experiente, como se, em até nos protagonistas mais imponentes, coubesse uma introspecção que promove uma identificação imediata com o que está sendo contado. E isso acontece com qualquer uma de suas histórias, com todas. É um dos grandes nomes de nosso cinema e vale acompanhá-lo de perto. 

Em Cannes ano passado, A Vida Invisível levou o prêmio Um Certo Olhar. Além dele, outros 15 prêmios e 17 indicações entre direção de arte, melhor atriz, coadjuvante, diretor, fotografia e melhor filme espalharam a obra pelo mundo. Não que isso sirva para o grande público, mas é, ao menos, um atestado de que há um olhar critico e um cuidado estético, um apuro na produção. É um bom momento, por fim, para se reconectar com nosso Brasil através de nosso cinema, se enxergando ali, vivendo e reverenciando a nossa cultura. 
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Ah, esse meu jeito outono de ser. A frase saiu da boca de uma amiga e, na hora, vestiu em mim certinha, como uma roupa que você jura ter sido costurada no seu corpo, de tão bem que lhe cabe. Eu, que nasci nessa estação de folhas secas, acho que sempre me senti assim, meio outonal.

Observo mais do que exponho, penso mais do que falo, contenho mais do que transbordo. Celebro o recolhimento, os momentos a sós, as leituras de versos e releituras da vida. Converso cá com meus botões em forma de texto. Porque palavra escrita é mais outono do que quando falada.

Não me leve a mal, adoro o verão com suas cores vibrantes e toda sua intensidade solar que nos chama pra rua, nos banha com seus azuis marítimos. Quem não gosta? Às vezes esperamos o ano todo por sua chegada. Mas ninguém vive só de calor e água salgada.


Quando passa o verão, o outono é aquele que chama a gente pra dentro de casa e arruma a mesa pro inverno que inevitavelmente chegará. É como se nos convocasse à cozinha e dissesse: senta, espera, já, já caem a chuva e as folhas secas, logo tudo muda; por enquanto, aproveita o tempo e toma um chá. O outono me chama e eu obedeço. Sento, contemplo, deixo estar.


O inverno tem seu lugar à mesa. Friozinho, café ou chocolate quente na caneca e um livro bom pra fazer morada. Tenho algo de invernal também em mim. Mas o outono é mais brando, carrega um misto de quietude e movimento que me conquista e cativa. Estação de transição.


A vida que se recolhe é a mesma que se abrirá para a primavera, quando seus primeiros brotos surgirem. A queridinha das estações. Nos poemas, nas músicas, na arte de modo geral, a primavera sempre fez mais sucesso. É bonita e cheia de graça. Não faço pouco caso dela, mas vejo beleza no outono também.


O calor que abranda, a brisa fresca que começa a nos fazer visita sem hora marcada. Quem aguentaria a intensidade do verão ou do inverno, por todo o tempo? Tem horas que basta apenas o aconchego do lar. O sossego do ninho.


O outono nos mostra a passagem do tempo, a irremediável condição de que nada permanece imóvel. É preciso deixar cair algumas folhas, deixar que se vá aquilo que perdeu a cor e o viço, abrir espaço para gestar o novo. O outono traz a possibilidade de transformação, tão necessária para renovar. É vento que assanha o quintal, é nuvem que acalenta os sonhos, é lagarta que renasce no casulo com asas para voar.


***

Quem escreve

Luisa Sá Lasserre adora livros e café em qualquer estação do ano. É jornalista, mãe de dois e seus escritos, vez em quando, são publicados por aí. Você encontra mais coisas no instagram e no Casa Livro.
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Em meio à pandemia do Coronavírus, uma mãe em gestação: Camis. É dela essa série, DE PRIMEIRA VIAGEM, que conta um pouco sobre sua vida do outro lado do oceano, onde vive em Dublin, Irlanda, com seu marido. Todo mês, por aqui.
 
mae-de-primeira-viagem

por Camila Castro



Felicidade a mil pela gravidez, estávamos eufóricos. Pelo menos na minha experiência, a preocupação não era apenas minha, mas do meu marido também, que tinha medo de não conseguir me engravidar. E olha que demorou pouquíssimo tempo para chegarmos lá! Ao descobrirmos a notícia, dá uma vontade de contar ao mundo, mas recomendam esperar pelo menos 3 meses (quando a fase de risco de aborto espontâneo passa). Mas, a alegria é tão grande que não aguentamos e contamos aos nossos familiares mais próximos.

Nessa mesma época, chegou a notícia de que o Coronavírus estava se alastrando rapidamente pela Europa e que tinha chegado na Irlanda. O medo do vírus já era uma realidade, mas agora, tinha tomado outras proporções na minha atual situação. A ciência não tinha e ainda não tem muito conhecimento dos impactos da COVID-19 em gestantes.

Na segunda-feira, parecendo despertador mental da atual situação, começa o enjoo matinal, que acredito que só tem esse nome porque começa logo que você acorda, mas infelizmente pode durar o dia inteiro! Fato: 70% a 80% das gestantes podem ter esse sintoma em diferentes intensidades. Os enjoos normalmente aparecem entre as semanas 5 e 6 da gravidez e só vai embora entre as semanas 12 e 16. Tem mulheres que enjoam durante toda a gestação, mas são exceções. Ligo para o escritório para tirar o dia de folga e ir no médico confirmar a gravidez e começar o pré-natal.

O resto da semana se concentra no medo de ser infectada no caminho para o trabalho, na rua, no próprio trabalho. Então, no final da quinta-feira, o governo recomenda que as pessoas que puderem trabalhar de casa o façam. E, se tratar de uma empresa de tecnologia voltada pro mercado de marketing digital e que, em determinados momentos, já se podia trabalhar de casa, o trabalho adere às orientações. Todos os sistemas que usamos ficam na nuvem, ou seja, são possíveis de serem acessados através da internet.

Porém, na semana seguinte, nem tão boas notícias... Eu e meu marido somos afastados temporariamente dos nossos trabalhos por conta da pandemia, que afinal, está afetando praticamente todos os setores da economia, mas falarei mais sobre isso no próximo texto. 

E agora? Me espera que eu já volto!

*Para ler o episódio anterior, clica aqui! =)
***

Quem escreve
Camila Castro (Cam, Camy, Camis, Camilinha) é engenheira de produção e vive com o marido e o futuro bebê em Dublin, na Irlanda. Potiguar, morre de saudades do calor nordestino, das comidas e dos amigos de todos os lugares, mas encontrou seu cantinho no mundo para tocar a vida com mais tranquilidade. Você a encontra no linkedin e no facebook. Fala com ela!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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