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Café: extra-forte

Ela é uma pessoa muito organizada, eu bem sei. Vendo de longe, uma moça tranquila e feliz, casa limpa, cada coisa em seu lugar. No trabalho, não consegue se concentrar se sua mesa estiver bagunçada, sendo que está quase sempre vazia. Passei lá um dia para conhecer e te digo, se fosse demitida hoje, não levaria nem uma caixa, possivelmente deixaria tudo lá, lápis e canetas em uma caneca corporativa, calendário corporativo, um ou outro desenho na parede, nada fundamental, só uma lembrança de sua personalidade. Não fossem eles, poderia ser a mesa de qualquer um.

Ela odeia passar roupas. E não consegue sair de casa amassada. Passa saias e blusas sofrendo, assim como evita passar pano no chão. As rugas do tecido lhe irritam na mesma intensidade que os cabelos que grudam no pano ou se escondem nas linhas do piso. Ela me disse que são coisas que lhe desgastam, porque não faz sentido passar pano e deixar cabelos grudados no piso e perde um tempo absurdo na repetição dos movimentos. Logo ela, que odeia refrão de música.

Odeia barulho. Quando lê, cozinha, trabalha, acorda, faz absolutamente qualquer coisa, não entende porque as pessoas precisam falar tão alto e todas ao mesmo tempo. Essa movimentação em seu entorno lhe distrai e se perde nos afazeres, tantos e tão diversos que seu cérebro precisa encaixar tudo em pequenas células, como numa planilha da vida. O barulho mescla essas células sem ordem e lhe deixa num estado de perplexidade com o olhar parado, fixo em algum lugar imaginário. Na certa, ela está olhando para esta planilha, reemoldurando suas células em colunas e linhas.

Olhando de fora, nada disso parece verdade. Somos amigos há vinte anos e seu riso solto, sua fluidez no andar e conversar com as pessoas por um tempo parece infinito e suave para os outros. A verdade é que ela não consegue decidir nada a seu favor, facilmente. O que quer, para onde vai, seus sonhos e desejos. É o caos. E se qualquer outra pessoa teria o olhar parado nestes instantes, ela faz o oposto e foca em tudo ao mesmo tempo, eliminando a profundidade de campo tão necessária à fotografia.

Ela me contou que entrou na terapia. Tomei um susto e ela seguiu dizendo que contou sua história toda na primeira sessão, como se lesse um conto. Que não esperava soluções práticas, uma mentira que me fez gargalhar e a irritou. A moça mais organizada, calma e feliz é uma desordem só, um novelo que a cada sessão se desfaz e refaz porta afora. Como os pequenos nós de seu cabelo de fios finos demais, que insistem em fazer pontas duplas. Ou como a cada ressaca, em que se promete beber menos. Até a próxima ressaca. Ou como aquele paquera idiota, que ela achou ter acertado dessa vez, mas conseguiu ser ainda pior do que o anterior, nem português falava direito. Logo com ela, que se incomodava quando escutava alguém errar verbos, fazia brincadeiras sórdidas com as palavras dos outros, escondidas em um sorriso condescendente e mordaz. Não tolera que falem errado por preguiça, esse atraso do pensar que lhe dá vontade de dar um tiro na vítima: uma justiceira da gramática. É a melhor pessoa que eu conheço. E a que mais odeio hoje.
***
Um conto para desenvolvimento de personagens, de maio de 2016, tarefa de uma oficina de escrita criativa. Uma brincadeira entre verdades e mentiras, enquanto dois amigos tomam café, conversam e se olham em uma mesa para dois.
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alfred-hitchcock
Alfred Hitchcock e sua filmografia

Alfred Hitchcock é o Artista de Cinema do mês aqui no Café e é bem difícil escolher cinco filmes que resumam sua carreira, mas essas são as regras do jogo. O mais legal de selecionar filmes do meio do século passado é ver o cuidado com o estilo dos cartazes - o que é vintage agora era o padrão dos outros dias. Mas, vamos ao que interessa:

Festim Diabólico (1948)

Festim diabólico tem tudo o que é interessante no fazer cinema: ousadia, muito planejamento e direção, criatividade. O filme, o primeiro colorido do mestre, é uma adaptação de uma peça de teatro que se passa em apenas um cenário e em tempo real. Hitchcock provavelmente pensou: hummm.. por que não? E fez aqui uma das primeiras obras de um plano sequência que conhecemos. Havia uma limitação técnica: nessa época, os filmes eram feitos com película e cada rolo tinha duração máxima de dez minutos. Então, para simular uma grande cena sem cortes, o diretor sempre buscava um fundo preto: um terno, uma cortina, algo que pudesse servir apenas como um intervalo imperceptível ao espectador. Outra coisa muito boa é ver James Stewart trabalhando com o diretor pela primeira vez. Dali em diante, outros três filmes teriam a presença deste homem incrível. O trailer já dá uma dimensão da genialidade da obra. Confira aqui.

Janela Indiscreta (1954)

Eu tenho mesmo uma afeição especial por James Stewart, e não é à toa. Ele representa distinção, caráter, uma figura, para mim, que busca sempre o bem. Claro, com base em alguns de seus filmes. Quem já assistiu A felicidade não se compra (1946), produção de Frank Capra do pós-guerra, sabe do que estou falando. Voltemos à Janela Indiscreta: não temos a ousadia de um plano sequência, mas um cenário imenso construído aqui. Duas fachadas de prédio - Hitchcock sempre foi controlador e tinha uma ideia muito precisa do que queria ver, então trabalhava sempre com o mínimo de improvisos e imprevistos. Aqui, nosso querido James Stewart é L. B. Jeff Jeffries, um fotógrafo que sofreu um acidente e está com a perna engessada. Em casa, recebe a diarista e a noiva, Lisa Carol Freemont - ninguém menos que Grace Kelly - mas, ainda com essas visitas, sente-se entediado. Cansado de jornais, se volta para a janela do apartamento e transforma o nosso olhar, somos como ele agora, voyeurs indômitos da vizinhança. Sendo um filme do mestre do suspense, claro que um crime vai acontecer no prédio e fica a dúvida do que Jeff viu, se ele viu aquilo mesmo e como proceder. É impressionante como o diretor prende nossa atenção com poucos movimentos a maior parte do filme e brinca com nossa curiosidade como se fôssemos nós mesmos, o fotógrafo de plantão.

Um corpo que cai (1958)

Sim, é James de novo, mas agora com Kim Novak. A essa altura, Grace Kelly, a musa do diretor, já estava casada e vivendo em Mônaco - tem até filme sobre isso com Nicole Kidman, mas é outra e triste história - então Kim Novak a substitui com precisão. James é, mais uma vez, o protagonista que se envolve em uma situação extraordinária. Detetive aposentado em tratamento para acabar com as vertigens provocadas pelo medo de altura, um amigo lhe pede que siga sua esposa, com tendências suicidas. No meio desta saga e já obcecado por ela, fatos estranhos começam a lhe atormentar. Aqui, Hitchcock inaugura novos movimentos de câmera, particularmente na cena da vertigem na torre, construída em estúdio. A trilha sonora é de Bernard Herrmann e incrementa esta sensação do protagonista em nós tão bem que lhe rendeu indicações da categoria ao Oscar. É tido como um dos melhores filmes de todos os tempos. Apenas.

Psicose (1960)

Esse aqui quase dispensa apresentações, do tanto que é cultuado desde seu lançamento. O filme é de 1960, já dava para perceber alguma emancipação feminina, ainda que a pobre da Marion Crane (Janet Leigh) não dure muito na tela. A sinopse todos sabemos: uma moça rouba dinheiro do chefe e foge. Para em um motel à beira de uma estrada secundária e o resto é aquela faca subindo e descendo com a trilha que nos impede de tomar banho tranquilos com a cortina do chuveiro fechada. Norman Bates (Anthony Perkins) é o dono do Bates Motel - a série em exibição na Netflix vem daí - e vive em um casarão ali pertinho com sua mãe idosa, que só vemos à distância. Ele recebe Marion e tudo corre bem, até que... Hitchcock proibiu a entrada de pessoas nas sessões depois do filme começado, para que não perdessem nenhum minuto da tensão que ele queria construir em nós. O filme é uma adaptação de um livro que nem é grandes coisas, de forma que o filme o supera ridiculamente. Mais uma vez, Hitch aproveita toda a sua experiência para brincar com o espectador, entregando o crime no primeiro terço da obra e nos deixando tensos até o final. E que final.

Os pássaros (1963)

Ah... Os Pássaros. Tenho uma afeição especial por esse filme. Os pássaros atacam. E é isso. O filme parte de um príncípio sem causa para acontecer e se torna um dos melhores filmes de suspense da história do cinema. Além do que, os efeitos visuais nessa época não eram digitais, então para mostrar os pássaros atacando a cidade - convenhamos que não há adestramento possível para pássaros em volume, atacando pessoas - foi preciso falsear a ideia: na montagem das cenas, Hitch sobrepôs os negativos de pássaros em revoada com as cenas das pessoas correndo e voilá; pessoas fugindo dos pássaros. Todo o making of é uma delícia de assistir, bem como o filme em si. O que o diretor nos diz aqui, comprovando mais uma vez seu talento único é: dá pra criar uma boa história com quase qualquer argumento. Só que isso não é pra qualquer um. E aqui, você ainda recebe um convite exclusivo do mestre para ver o filme.
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nas termas de Caracalla, contemplando o passado romano num então presente janeiro de 2020.
2020 começou com a paz de espírito de quem, aos poucos, vai se dando conta que maturidade não é fake news. Fui dormir antes da meia-noite. Há 25 anos, eu teria visto o alvorecer rosa dourado do ano novo cintilar num pé de caatinga às margens do meu nativo Rio São Francisco. Há 15 anos, no auge da minha boemia dos vinte e algo, eu teria acordado com o bater das ondas na areia da praia de Copacabana segurando uma garrafa de cidra barata como testemunha. Em 2020, despertei com os fogos de artifício na distância de algum lugar no inverno de Houston, Texas, onde construí meu atual lar. Cada foguete, uma fada do passado ao meu ouvido: “Escuta-me! Reverbero as explosões do seu coração de outrora! Vem reviver a minha chama! Injeta festa na alma!” Senti o coração pulsar centímetros cúbicos a mais de nostalgia enquanto um novo ano se abria. Aí então o cérebro mudou a marcha, passando da ré para o sonho da viagem de férias que estava prestes a ocorrer. Porém, virei para o lado, dei um beijo na testa do meu marido que já roncava em uníssono e dormi com a leveza dos que já viveram o suficiente para destilar recordações e planos sem se embriagar. A beleza do amadurecer está nisto: o presente começa a ganhar a batalha sobre o passado e o futuro. Jamais saberia eu, que cerca de três meses depois daquela noite, o mundo iria parar em proporções semi-apocalípticas e que eu teria que rever o conceito de estar presente para lidar com a pandemia do século.

Dali a poucos dias, eu partia para a cidade eterna, Roma, em uma das muitas viagens que tive o privilégio de vivenciar. Acompanhei o nascimento da minha sobrinha, filha da minha irmã que por aquelas bandas há alguns anos se instalara. Foram três semanas de um sentimento arrebatador de plenitude: cercada de família, da chegada de uma nova vida, de descobertas e gargalhadas terapêuticas entre as icônicas ruínas do império romano. A minha vida naquele momento parecia estar completamente no lugar. Foram tantos anos batalhando dilemas - trabalho, saúde, mudança de país, casamento, dinheiro, ter ou não ter filhos e tudo mais que caiba nos parênteses - sempre aguardando a chegada da tal estabilidade. Naqueles dias de janeiro eu finalmente me brindava com taça de cristal, saboreando cada momento do meu presente, mas consciente do meu privilégio, consciente do que construí no sentido material e psicológico e consciente, sobretudo, de que todas aquelas experiências extasiantes eram passageiras. Entre cursos de life coaching e o arsenal paramilitar de auto-ajuda da Internet, aprendi que a vida é impermanente. E não deu por outra. A viagem intercontinental de volta ao Texas já anunciava que o mundo tomava outras dimensões e que a humanidade caminhava em areia movediça.

Máscaras nos aeroportos. Os olhares de terror e asco a mim dirigidos quando espirrei no terminal. Em semanas, o mundo social se fechou e a vida se recolheu para dentro de casa. O nirvana romano virou página do passado e não houve maturidade ou life coaching suficiente para aguentar o tamanho da transformação (ou perceber de imediato que a realidade estava dando a oportunidade de um toque de recolher espiritual). A ruptura foi cavalar. Como me firmar na realidade se a realidade era tão imprevisível? Foi difícil me firmar no presente. A mente viajava em velocidade supersônica para lugares escuros: haveria emprego? Meus pais vão morrer? Irei parar num hospital entubada sem a possibilidade de contato humano? Em diversas ocasiões precisei respirar com meditação guiada para não perder o eixo. E aí veio o clarão da transcendência na forma de um curso online para enfrentar os novos tempos: a realidade é que a vida nunca foi, não é e nunca será previsível. Repito: a vida não é, nunca foi, nem nunca será previsível. Pensar de forma contrária é pura ilusão.

Antes de COVID-19 nada garantia que sairíamos de casa pela manhã e retornaríamos sãos e salvos para o jantar. Nada garantia que nossos sonhos seriam alcançados ou que nossos corações não se partiriam em mil pedaços. Ainda que eu tivesse metas e planos, passei boa parte da vida recolhendo os cacos dos sonhos que não afloraram. A realidade sempre deu um jeito de se mostrar rainha e ai de nós, virgem Maria, ao tentarmos resisti-la. Existe receita sim para enfrentar o incerto: a não-resistência. Aceitar o presente imperfeito que chega com máscaras respiratórias, distanciamento social e adiamento de planos. Aceitar o presente é nada mais que aceitar o óbvio, ente escorregadio que uma hora faz total sentido e em outro gangrena horizontes. Lembrando que o presente também passará, pois uma das poucas leis universais é a da impermanência. Não confundir com passividade: existe lugar para a luta, mas é necessário ser estratégico. A luta, neste contexto, é pela volta da saúde coletiva, pelo afastamento da doença ou da possibilidade da morte: lutar é lavar as mãos, descontaminar as sacolas de supermercado, ficar em casa (vale também lutar para descontaminar a sociedade das cegueiras político-sócio-econômicas pré-isolamento e talvez agora seja o momento mais adequado).

Ainda não é momento para fogos de artifício. O mundo segue repleto de cadeados que limitam o nosso ir e vir e há uma longa estrada pela frente até a estabilização da curva e a criação de uma vacina. E por isto mesmo, se assim o presente desejar e não puxar o meu tapete, esta noite vou deitar antes da meia-noite, dar um beijo no meu marido e dormir determinada a pensar que em meio de toda esta bagunça ainda vivo cercada de amor, saúde e privilégios. Porque é no presente que vivemos.

Quem escreve
Juliana Moreira é filha da caatinga, cigana de espírito, escritora errática que de tempos em tempos tira o mofo dos dedos. Suas antigas escritas estão em português no Fronteirices e em inglês no Tales of lust and gore. Pode mandar uma mensagem por lá.
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Aproveitando o artista de cinema deste mês, nada melhor do que falar deste livro, um dos grandes que fala sobre cinema, produção, arte, entretenimento e, claro, os filmes do mestre do suspense. Aproveita!

hitchcock-truffaut-livro-da-semana

O cinema é a arte da sedução.
 Voyeur por natureza, assim também nos tornamos quando vamos à sala escura, sem que nos vejam direito, assistir a alguém, a alguma história no conforto do anonimato. Alfred Hitchcock soube se utilizar deste nosso fetiche e sempre trabalhou em prol do público, seja para assustá-lo ou para lhe trazer algum alívio. François Truffaut, também cineasta de renome e crítico francês, entendeu o controle hitchcockiano como uma qualidade única – e está certo nisso – propondo uma série de entrevistas com o mestre do suspense sobre sua filmografia. Em 1967, sai o mais emblemático livro sobre Hitchcock e em certa medida sobre Truffaut e o fazer cinema, traduzido no Brasil como Hitchcock/Truffaut.

Há 120 anos nascia Hitchcock, em Londres.  Começou a carreira cedo, como assistente de direção, montador e roteirista, em 1922. Em 1925, estreava na direção com The Pleasure Garden, cargo que nunca mais deixou. Truffaut disseca o que considera mais relevante em toda a trajetória do diretor inglês, com questões que servem tanto ao público comum, os espectadores-cobaias, quanto para quem é mais envolvido com a arte e seus meios de produção. A ideia do cineasta francês era comprovar a genialidade de seu mestre, em uma época que o consideravam menos, como um diretor de circuito comercial. A intenção era clara, identificar o óbvio aos nossos olhos. Hoje não há dúvidas de que Hitchcock já era um dos nomes do cinema de autor. As entrevistas perpassam a filmografia do mestre, que não só tem um currículo de respeito, com 54 longa-metragens – citando cinco para relembrar, Psicose, Disque M para Matar, Janela Indiscreta, Um corpo que cai e Os Pássaros – como também teve um programa de filmes curtos para a TV, Hitchcock Presents.

Hitchcock/Truffaut, François Truffaut e Helen Scott

O livro é um deleite para todos, sendo fundamental para a história do cinema. Após o lançamento em 67, foi feita uma edição definitiva em 1983 – à venda no Brasil a partir de 1986 em edição esgotada da Brasiliense e reeditada em 2004, pela 
Companhia das Letras. Truffaut sentia uma necessidade de continuar alimentando o livro – e nossa curiosidade – com os novos filmes do diretor. Encontraram-se durante pouco mais de 14 anos e hoje temos essa obra prima. Com fotografias das cenas dos filmes e seus bastidores, das longas entrevistas, prefácio de Ismail Xavier e do diretor francês, tudo em quase 400 páginas, virou referência em produções do gênero. 

Como dois cineastas que eram, filmaram as entrevistas e em 2015, saiu o documentário com as conversas, outro imenso presente para nós. A ideia do livro virou referência, basta recordar as edições de entrevistas feitas com outros diretores – e infelizmente sem Truffaut – como Woody Allen, Scorsese, Bergman e Almodóvar. Feito para todos os públicos, são aulas de cinema da forma mais interessante possível, um encontro de mestres com riqueza de detalhes que alimentam nossa perversão última: a cinefilia.


Última edição: é essa mesma da capa, de 2004, pela Companhia das Letras. 


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De tempos em tempos ela volta a ler em um ritmo voraz. Alguma coisa lhe alerta no cérebro de que está perdendo tempo, entre o vai e vem do trabalho, ainda que passe essas horas olhando a vida dos outros, ouvindo música.

Ou vendo o mar no ponto da cidade que acha mais bonito. Ela não lembra quando foi a primeira vez que viu aquela curva da avenida que margeava a encosta, uma das inúmeras encostas parcialmente habitadas. O morro encosta no mar e a estrada o divide no meio, como um recheio de bolo que escorre pelas beiradas. Em dia de ressaca, o mar bate violentamente contra a parede inclinada que lhe devolve em igual medida outra onda. Como é perto da praia, da planície que surge de súbito, as ondas se chocam em direções estranhas e causam um estrondo que não se ouve nunca, mas que se vê, nas espumas que sobem a não sei que altura. Quando o mar se prepara para uma ressaca começa a vibrar, uma pulsação o toma, mas precisamos esperar o dia seguinte. O maior espetáculo da terra está ali, aberto, amplo, violento.

Hoje ela não tem visto muito isso. Construíram uma ciclovia depois da pista, atrapalhando a visão da encosta. Não tem problema, ela pensa — aparentemente há que haver ciclovias pela cidade inteira agora. Se for em pé no ônibus, consegue alguma coisa.

Ela voltou aos livros. Tenta alternar entre os romances e os livros de estudo — fotografia, cinema, filosofia, relações de poder — mas sempre acaba comprando outros romances e entope a estante com mais histórias pela metade. Se pudesse passaria a vida lendo, estudando, escrevendo. De certa forma o faz, mas escreve e-mails corporativos, lê artigos sobre o trabalho e fala muito ao telefone. O tempo que sobra é pouco para o tanto que precisa. Agora ela não ouve música. Não consegue se concentrar no livro se escuta algo, se distrai e quando vê, voltou 3 vezes naquela frase curtinha e saiu cantando a letra. A música lhe atravessa sempre, usa um caminho que ultrapassa o cérebro e lhe aperta o peito se ele não estiver muito seguro de si. Desistiu, por enquanto.

Esqueceu os caminhos de casa e do trabalho, não pensa mais no tempo que leva entre uma coisa e outra. Assusta-se quando vê que já passou por alguns bairros e hoje quase gosta dos engarrafamentos, mas sempre chega reclamando no trabalho, não vamos abusar. Não vê mais a vida das pessoas, não ouve música, não há encosta e ondas voadoras. Essa moça quase chega aos 33 anos e pensa em romances, ainda que em sua vida tudo sempre tenha dado errado. Há um misto de expectativa, dúvidas, descrença e frustração, mas ela ignora tudo agora, porque se perde nas histórias, um pouco de conforto não faz mal. Outro dia se pegou pensando sobre esta história de zona de conforto. Qual é mesmo o problema disso?

Voltando para casa, uma coisa lhe aconteceu. Leu não sei quantas vezes a mesma frase, o mesmo período, na verdade. Dobrou a página para reler em casa, riu sozinha, quase sem acreditar. Guardou na memória uma frase que era dela, ela tinha certeza. Não fazia muito tempo, havia contado essa mesma história com palavras senão iguais, bem parecidas àquelas e não conseguia entender porque estavam ali. Pensou em mandar uma mensagem para ele, o outro personagem da história real para lhe contar a ficção e o mais importante, perguntar qual tinha sido o filme.

Ele movimentou um pouco o joelho, e um pouco mais, até encostá-lo no dela.
Transpirava. Quando o filme acabou, ele não tinha ideia do enredo.*

Ela o conheceu fazia tempo. Foram apresentados por um amigo na entrada de uma sala de cinema alternativo que frequentava em uma noite de domingo. Ela não acreditou no que estava acontecendo, não era de se apaixonar assim, sem nem saber o nome, em uma sessão qualquer de algum provável filme francês. Ele fazia aniversário, mas ela só soube disso depois, quando saíram do filme que ela nunca lembrou.

Ela riu sozinha hoje no ônibus. Estava tudo gelado mesmo sendo verão, as pessoas não sabem regular os aparelhos de ar condicionado. Enrolada em um casaco fininho, ela seguia virando as páginas e parou ali, dobrou a pontinha porque passaria adiante e queria marcar aquela frase, como se fosse possível esquecê-la. Saiu do ônibus e ainda teria que pegar outro, é um desses de conexão. Mesmo sendo tudo muito rápido, estava ansiosa, precisava chegar em casa, não podia continuar parando no meio das calçadas, desse jeito vai ser assaltada e pior é se lhe tomarem o livro.

Não contou para o personagem que a história deles estava escrita em um romance. Pareceu demais, ela pensou depois de um tempo. Foi uma história platônica, com obstáculos que na hora não pareciam ser muito importantes, era questão de esperar um pouco mais, não fosse a casualidade responsável por um fim inesperado. Hoje não tem mais isso de paixão assim, do nada. Mas por dentro, em um espaço que ela não costuma dividir com ninguém, é tudo ao contrário, está lá essa vontade de encontrar com alguém e tropeçar em um olhar desconhecido que lhe parecerá familiar, como uma cena de comédia romântica. Vai rir, com uma certeza quase louca e uma ponta de desconfiança que tentará dissimular, sem acreditar no que pode acontecer. Dessa vez não haveria obstáculos, a história não aparecia num livro de romance, de mentira — e quem acreditará nisso? Pode ser que volte a dar tudo errado novamente, mas ela tentaria. Dessa vez, quando ele disser que vai correr perto de sua rua, ela vai deixar a porta aberta.

***

*O livro: KRAUSS, Nicole. A História do Amor. Companhia das Letras.
**Conto publicado em 24/02/2016, no medium.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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