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Café: extra-forte

Resolvi lançar a nova coluna Artista de Cinema aqui no Café com Alfred Hitchcock. Não foi uma escolha difícil: quando penso em figuras importantes da área, ele acaba sendo um dos primeiros - se não o primeiro - a aparecer. Não que outros não sejam importantes, a lista é imensa e subjetiva, mas porque Hitchcock representa, pra mim, uma noção completa de Cinema. Vamos a ele.

alfred-hitchcock
Alfred Hitchcock

Nasceu em uma família rígida na Inglaterra em 1899, quase junto com o cinema (em 1895). Depois de passar por escolas religiosas, estudou engenharia e Belas Artes. Trabalhou com seu pai por um tempo e, com a morte deste e a chegada da Primeira Guerra Mundial em 1914, a família se muda para o interior. Ali, Hitch trabalha no departamento de publicidade de uma empresa de cabos de eletricidade. Em 1920, uma empresa cinematográfica americana se instala em Londres e Hitchcock leva alguns intertítulos (as legendas do cinema mudo) que produzia no seu trabalho e é contratado. Em 1927, lança seu primeiro filme como diretor, O inquilino sinistro. Dali em diante, nunca mais deixa a cadeira. Em 1939, já estabelecido como cineasta na Inglaterra e ganhando relevência nos Estados Unidos, se muda para Los Angeles e em 1940, leva o Oscar de  melhor filme com Rebecca. Daí em diante, faz quase um filme por ano até 1976, quando encerra a carreira com Trama Macabra. Hitchcock morreu em  29 de abril 1980.

Com uma filmografia extensa e um cuidado imenso e intenso dos aspectos de produção de seus filmes, Hitchcock era um profissional completo. Ele foi o primeiro a fazer um longametragem em um plano sequência (como se o filme todo fosse gravado de uma só vez, sem cortes de câmera). Na verdade, Festim Diabólico (1948) tinha cortes, porque os rolos de película precisavam ser trocados, então ele nos enganava fechando suas sequências com cortes em fundo preto, como ternos, cortinas, ambientes escuros. O diretor montava seus storyboards, de vez em quando quebrava a quarta parede (como se o ator conversasse com a câmera), preferia recriar ruas a filmar externas, para ter maior controle da produção, explicou para nós o McGuffin e como ele o utilizava. Definiu e diferenciou suspense de terror. Nos explicou como fazer o espectador participar da trama. Isso tudo, enquanto fazia grandes filmes.

A crítica de arte não gostava muito dele, entretanto. Não que fosse um problema, ele continuava com grande público e seguia produzindo. Havia um preconceito em torno da forma de seus filmes, como se fossem apenas entretenimento e não aquele Cinema, com toda a pompa e glória da arte. Entretanto, Truffaut, outro imenso cineasta francês era fã de Hitchcock e crítico da Cahiers du Cinéma, a revista de cinema mais relevante da época, cujos redatores eram também artistas e críticos, estudavam e definiam as teorias e bases do cinema. Ele via mais arte e complexidade no currículo do diretor inglês do que seus colegas. Truffaut via não só apuro técnico, mas reflexão, pensamento crítico além das histórias de suspense. Hitchcock era um autor de cinema, como Godard, como o próprio Truffaut, como Fellini. Um autor é alguém que desenvolve uma marca, um estilo, uma característica que torna possível reconhecer sua obra sem ver a autoria antes. Truffaut encontra seu mestre e sugere uma série de entrevistas para falar sobre sua produção. Estes encontros se transformaram em um livro - Hitchcock/Truffaut - o melhor livro de cinema de todos os tempos e um documentário posterior, com as conversas. Ali, há a inquestionável experiência, talento e maestria de um mestre sendo expostos de forma ampla e deliciosa, como se estivéssemos em uma imensa aula de cinema com dois dos maiores diretores de todos os tempos.

Hitchcock era um diretor e não um santo. Ele infernizava a vida das atrizes e atores, estabelecia suas musas - mais como uma paixão platônica do que esses infernos de assédio sexual que surgiram depois - e as 'perseguia' para que desse ali o seu melhor. Não permitia que improvisassem muito ou fugissem ao roteiro. Era mão firme e conhecido por isso. Ao mesmo tempo, todo esse controle se converteu em grandes e divertidos filmes, marcos para a nossa cultura ocidental, como Os pássaros (1963), Psicose (1960), Intriga Internacional (1959), Um corpo que cai (1958), Janela Indiscreta (1954), Disque M para Matar (1954), Rebecca (1940) e a lista é longa.  É um autor inesgotável e, para a nossa sorte, gostava de aparecer: em seus filmes e na vida. Então, há uma série de bibliografia sobre ele, inúmeras entrevistas em vídeo e filme, além do delicioso programa de tv, Hitchcock Presents. Nas próximas semanas, colocarei um pouco de tudo, para nos reencontrarmos com este mestre dos mestres. 
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Naquele dia ela acordou azeda. Acordou com o zunido do celular, era o trabalho chamando. Estava como uma caipora louca, fumando tão cedo. Tudo estava tenso, marido em crise, o dinheiro falando mais alto que tudo. Parou um pouco. Se olhou no espelho do banheiro. Era uma mulher difícil. Sabia que as pessoas não caíam de amores por ela. Mas, era bonita. Sempre foi. E nesse mundo, mulher bonita não precisa ser simpática, dizia sua mãe. Ah, sua mãe! O Natal estava chegando e ela já podia imaginar os comentários, quando ela visse que o Vicente tinha engordado... Os homens não ligam pra nada, pensou. 

Há dois anos não apareciam no Natal da família. Dizia à sua mãe que eles estavam trabalhando muito. Mas, a verdade é que o dinheiro estava apertado pra viajar no período mais caro do ano. “Mas, este ano vai ser diferente”, confidenciou pro espelho. Olhou com mais cuidado e gostou do que viu. Os 51 anos eram apenas um número. "Não me representam!" Estava em dia com a harmonização facial e sabia que aquela lipo ainda estava valendo. "Beijo no ombro".

O telefone tocou de novo. "Aquele pessoal do escritório não sabe o que é privacidade". Ela passou a noite sentada sobre os documentos da auditoria e não tinha finalizado os cálculos do relatório mensal. Seu prazo era hoje. Mas, Dr. Manuel era paciente com ela e tudo tinha jeito.
- Ohh telefonee!! Alô? Oi! Tô te mandando por e-mail ainda hoje. Vou finalizar alguns pontos quando chegar no escritório (tomar no cú). Certo. Eu sei. Se tiver dúvidas me avise. Beijo e obrigada. 
– Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!

Correu pro banho. Ia dar um jeito. E, mesmo com o relatório gritando, o Natal na fazenda não saía da cabeça. Ficava pensando em sua mãe e seus comentários sobre o Vinícius. Putz! Ia passar esse vexame! "Vou passar meu ácido e protetor solar, isso sim..." e correu! Calçou os sapatos no caminho. Tomou o café no caminho. Esqueceu seus óculos no caminho. Chamou o elevador de desgraça que não funciona nunca e resolveu descer pelas escadas. As luzes não acenderam. "Pronto! Agora foi a porcaria da luz! Meus óculos! Tá escuro demais aqui!... Mas segurar o café também não ajuda e essa bolsaaaaaaaaaiiiiiiiiiuuuuui!"

Chão. Joelho na escada, quadril na escada, cabeça na escada e bunda no chão. Silêncio. Um gemido de dor fraaaco vai nascendo da garganta. Abriu os olhos e aquele quentinho escorrendo pela testa gritava, "toma, fila da puta, que agora não tem mais porra de natal na fazenda pra você!! Ahhhhhh!! Acho que me quebrei toda! Socorrooooo!!" – Fraco ainda, fraco.

– Socorrooooo – silêncio e escuridão.
Era muito cedo. Ninguém usava as escadas a essa hora e ela não conseguia se mexer pra pedir ajuda. 
– Socorro... ai, vontade de chorar. "Por que eu resolvi vir pela escada?", ela pensa. "E essa vida acelerada? Eu não sou mais uma menina. Já tenho 51... e o tempo... Não acho minha bolsa. Tudo escuro... vida escura..." 

O tempo passa devagar com ela ali sentada. Um devagar que o relógio não registra. Assim como não registrava o acelerado de seus dias. De repente, ela se viu em um isolamento não planejado. Um tempo sem celular tocando, sem planos de viagem, sem relatórios, nem espelhos. Só ela, a escuridão e o eco de suas ideias tortas...

***
Quem escreve
Jamile Buck é publicitária, sócia e fundadora da Agência Nova Café, designer e mercadóloga. Tudo isso importa pouco, junto da sua principal atividade: ela é a mãe do cara mais legal do mundo, Benício e contou com a colaboração amorosa da incrível Laura Haydée. Fala com Jami!
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Esse foi um livro que demorei a ler. Quando cheguei ao mundo, ele era mais do que importante há décadas, é de 1945. A Revolução dos Bichos, de George Orwell é um clássico universal, como o livro de Molnár, mas sob uma ótica completamente diferente.

Fácil de ler, é preciso que se faça quando adulto. Parte de mim ficou feliz por não ter lido o livro tão nova, para que já tivesse 'alguma cabeça' para entender as nuances, os diversos significados de uma obra escrita de forma tão simples, aparentemente. Mas, os melhores são assim mesmo. Sou super crítica aos textos ilegíveis, aqueles que vêm cheios de soberba e 'polissílabos', como se fosse preciso carimbar o currículo do autor em grandes orações. Sou adepta de uma escrita tranquila, que consiga se entender sem esforço, por isso, simples - sem perder suas complexidades. As ideias sempre podem ser profundas e múltiplas no texto, mas acho que ele, em forma, não deve impor obstáculos. É uma opinião.

Voltando aos bichos, acontece uma revolução de bichos numa fazenda, literalmente. É uma terra de animais operários, provedores, facilitadores das vidas humanas - e só nos cabe alimentá-los, limparmos seus excrementos e usufruir de tudo o que produzem. Um dia, eles cansam desta vida opressora, sem férias, descanso, décimo terceiro, direitos trabalhistas e ´humanos´ e tomam o poder. Estando na semana do dia do trabalhador, a temática é válida.

Ed. Globo, 26a edição, 1987 
É claro que, se formos adiante apenas com a história literal de uma revolução animal numa fazenda, já seria um livro impressionante e original. Se não contextualizarmos, se assumirmos apenas a primeira camada de sentido, já dá pra vislumbrar uma relevância literária. O negócio é que, já no primeiro capítulo, nas primeiras frases, entendermos que superficial é um termo que não se aplica.

Todo o livro é uma construção em cima da Revolução Russa, do Stalinismo, das teorias de Marx, das críticas ao Capital, do imperialismo. Orwell reconstrói nossos sistemas de poder, dando a cada animal da fazenda, um conjunto de características que o transforma em função ou personagem social. Não suficiente, o livro tem um humor ácido que se percebe como uma sequência de exclamações explodindo dentro de nós. Cada frase parece matematicamente construída e ali posicionada para surtir um efeito o que, de fato, funciona.  

Estamos há algum tempo em certo modelo de sociedade e a História nos traz à lembrança e conhecimento outros de que somos filhos. No livro, este passado volta como metáfora para nos lembrar que, como herdeiros, ainda há o que receber, ainda há mais História e histórias para viver, sistemas opressores para sofrer ou quebrar. O medo é o que pode vir depois de uma revolução, esta nova proposta revolucionária de governo que deve romper com um sistema anterior nem sempre é nova, muitas vezes vem apenas e literalmente, pintada com outras cores. Basta encarar nosso país e encontraremos ressonâncias. E essa é a importância de um clássico: ele ressoa e ultrapassa o Tempo, independe dele. Uma obra clássica, de qualquer manifestação artística, encontra caminhos através de nossas histórias cotidianas, pessoais, locais e universais e nos faz parar um momento e refletir, para além do prazer de a conhecer. É o que a torna fundamental. 

Última edição: Companhia das Letras
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O mubi exibiu hoje, gratuita e mundialmente, Ema, o novo filme de Pablo Larraín. Estamos neste isolamento social e ir aos cinemas é impensável. A estratégia do streaming de filmes do circuito alternativo deu certo. Com público restrito e um filme ousado, tentou abarcar mais espectadores para o serviço que, de fato, é interessante. Contudo, tal qual sua oferta de filmes, este não é para todo o público. Para ver Ema, a sugestão é de que se faça como em uma sala de cinema: se fechem as cortinas e se ganhe uma penumbra, imponha-se um silêncio confortável com o celular no não perturbe. Não é um filme para se ver como segunda tela do cotidiano.

***

Um casal jovem de bailarina e coreógrafo, Ema (Mariana Di Girolamo) e Gastón (Gael García Bernal), luta para aceitar e serem aceitos por terem devolvido o filho que adotaram. Um circuito de dor, humilhação, escárnio, culpa e ternura permeia boa parte dos diálogos, enquanto eles tentam se reencontrar entre o fim de um espetáculo e os ensaios para um novo. O corpo de baile entra junto e participa como uma extensão de Ema – alonga-se pelos espaços, reproduz seus movimentos, espalha-se como o fogo dos incêndios provocados por toda parte.


Ema entende que precisa ter o filho – agora com outros pais – de volta, e invade a nova família com uma estratégia perversa e calculista. Ela conquista a todos, os seduzindo. Seu corpo é arma e objeto de desejo. O que temos de história é isso: uma coreografia, como uma bailarina que impõe ritmo e movimentos sobre outros para atingir seus objetivos.

Com um comportamento como alguém acima de todos, fruto provável da arrogância da juventude, é como o sol que queima no cenário do primeiro espetáculo e o fogo que faz arder pelas colinas e ambientes esvaziados de Valparaíso. Uma aparente ausência de sentimentos faz parte dela, mas há nuances que nos deixam ver além, como a relação com sua irmã e as mudanças repentinas de opinião em discussões com o marido. É essa a importância da personagem, para além dos discursos. O não dito é muito mais interessante do que os diálogos, que parecem servir de acessório, adendos à experiência estética que estamos vivendo. 


Os ensaios para o novo espetáculo não evoluem, Gastón perde relevância sobre seu corpo de baile e Ema, mais uma vez, encontra na equipe uma transgressão, uma provocação que emana da música; ao invés de buscarem a erudição das apresentações de dança contemporânea em teatros, os bailarinos buscam nas ruas o reggaeton, ritmo popular que tomou conta do Chile, como o funk no Rio de Janeiro ou o pagode em Salvador. Gastón tenta um discurso de repúdio defendendo a mulher enquanto sujeito, ao rejeitar esta apresentação dos corpos com a objetificação do feminino por um desejo vazio - a analogia com as músicas de presídio é de se pensar e fica difícil discordar. Ao mesmo tempo, uma das bailarinas reverte esta lógica, traduzindo os movimentos como uma permissividade autorizada dos corpos, a exibição dos desejos, a manifestação da libido como uma demanda do ser, uma transgressão em prol do prazer e reconhecida como tal. Seria ali o oposto das prisões - uma liberdade provisória autorizada pela música?

A aceitação e entrega provocante e provocada pelo reggaeton é uma manifestação política de seu poder popular e cultural. A redução de uma música que atinge a todos em detrimento de outra que se encerra em salões de baile é um ponto; o comportamento, as funções do corpo, a sensualidade e suas expressões acordadas com o ritmo, é outro. Para além disso, a defesa do popular em um circuito alternativo - o cinema de arte - é uma abertura interessante, quando universidades públicas foram ameaçadas de privatização naquele país e tendo Valparaíso como um dos palcos principais das manifestações estudantis. Larraín provoca o espectador intelectual, o faz repensar as condições da elite, as imposições culturais, aquela velha herança europeia de erudição e a descaracterização do que vem do povo. Uma alfinetada sutil e precisa em um momento importante da história chilena e mundial.


As danças nos seduzem e é fácil não prestar atenção nas estratégias de Ema; o mais importante é como somos hipnotizados por uma  fotografia impressionante. Estes planos aproximados dos rostos, a câmera parada - como em Jackie (2016) - como se nos dissesse: eu quero que você veja isso desta forma, como uma educação do olhar - a perfeita sedução do cinema, o voyeurismo. A trilha sonora corrobora e potencializa nosso atordoamento. Até o desenlace, estamos envolvidos nas cores e planos, nos rostos e bailes de corpos - nas discussões deste casal disfuncional e equilibrado sobre suas dores, cuidados e culpas. Beiramos os relacionamentos abusivos, escondemos a poeira da moralidade debaixo do tapete e ficamos imersos neste caos para todos e aparentemente calculado da protagonista. A solução fácil - até demais - que ela encontra, ganha um desfecho que intriga em uma troca de olhares. Talvez possam existir mais desobramentos e menos ingenuidade em cada um do que havíamos notado antes.
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Olá! Hoje é o dia internacional do trabalhador então, aproveito este momento para avisar que, na próxima terça-feira, começa um caderno especial aqui, o Artista de Cinema. A ideia é  retomar as origens do Café, quando era mais voltado para artigos e críticas, mas sem perder a literatura e as dicas de filmes que sempre estarão por aqui. Será uma personalidade por mês e vou trazer algumas informações e curiosidades para discutirmos seu trabalho, suas contribuições para a arte e entretenimento. Ao longo deste tempo, alguns assuntos retornarão à pessoa indicada, como seus filmes, artigos, teorias, talvez uma citação, uma entrevista importante, veremos! =)

A ideia é abrir também para o debate, para estimular um conhecimento mais aprofundado sobre cinema, um pouco de teoria, grandes filmes e o que faz esse meio de comunicação e arte ser tão importante para todos nós. Os comentários estão sempre abertos. Peguem o café e fiquem à vontade!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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