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Café: extra-forte


Julieta parecia uma certeza, antes de ver o filme. O pôster, os atores e atrizes, literalmente a imagem que o filme passava era de algo melhor do que o último Almodóvar, Amantes Passageiros. Da melhor forma possível, em um feriado olímpico em meados de agosto, frio, chuva, cachecol e café.
***

Julieta é inspirado em três contos de Alice Munro, de seu A Fugitiva e uma ansiedade surge quando se sabe disso apenas após a projeção, quando se começa a pensar e pesquisar o filme. Alice Munro é Nobel, mas isso não importa muito – apenas atesta uma qualidade já sabida anteriormente. Ela escreve sensivelmente, deliciosamente sobre ser mulher, sobre as mulheres que passaram e passam por sua vida e da forma como a vida se apresenta, em contos que nos deixam com vontade de saber mais. Você começa um livro despretensiosamente, sem nem saber nada direito da autora e quando se dá conta, já comprou dois, três, quatro. Dói acabar de ler e se despedir daquelas personagens todas. Imagino que Almodóvar se apegou tanto a elas, que lhes dedicou um filme inteiro.


Então, o livro é A Fugitiva, os contos são Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio. A história de Almodóvar é a de uma mulher sofrida que se apega à ausência da filha como um vício, na esperança de um reencontro após uma tragédia. Julieta é professora de literatura clássica e ensina justamente as tragédias, epopeias e grandes clássicos. Interpretada por Adriana Ugarte e Emma Suárez nos dois tempos da trama, as duas atrizes são imensas no que lhes competem. Adriana Ugarte se transforma de uma jovem e moderna professora a uma mãe que então entra em uma depressão absurda e ela nos faz participar de sua dor. Emma é a Julieta que se reconstrói, que aceita o passado e precisa viver sozinha. Ao mesmo, a recaída, como a volta de um vício ruim a transforma e a depressão a alcança novamente. Mas nossa protagonista não é a única mulher de que precisamos falar.

Almodóvar já foi estudado em não sei quantos artigos, muito se fala sobre suas mulheres, sobre sexualidade e não é à toa. Todos os seus filmes abordam os dois temas que fazem parte da própria vida do diretor, como os protagonistas neuróticos de Woody Allen, os perversos de Kubrick ou os intensos de Bergman. As mulheres em Almodóvar são quase em todos os seus filmes, protagonistas fortes e humanas, personagens complexas e apaixonantes em todas as cores – os famosos e vivos vermelhos, verdes, laranjas e azuis – e sempre ultrapassam barreiras, há sempre um risco iminente e elas se sobressaem, porque precisam viver acima do que as atormenta. São mulheres que atropelam o machismo com um caminhão, passam por cima e às vezes, nem reconhecemos o tema como algo que as abale tamanha sua força perante o que se apresenta. Seus homens - principalmente os heterossexuais - são acompanhantes, à exceção do que vemos em A Pele que habito e Má Educação, talvez - são relegados ao plano de complemento, participando das histórias delas.


Julieta se apega à Ava (Inma Cuesta), ex-amante e amiga de seu marido Xoan, precisava de suporte e sozinha não conseguiria dar conta do que se lhe apresentaria. Sua família era em si uma tragédia repetida de uma mãe em declínio físico e mental e um homem que a substituía quase por não haver alternativa. É um daqueles momentos em que a moral é vencida por uma realidade que a põe em xeque. Ava era uma amiga de todos e a amizade das duas mulheres superava crises de um passado de culpa e remorso. 

O diretor nos impõe questões caras e frequentes, cotidianas que escapam aos filmes bobos, a separação da filha Antia, a escolha dela de se afastar da mãe e escolher em um culto, uma saída para sua liberdade se prendendo de outra forma. Talvez não tenha sido apenas o encontro com a fé, mas a culpa que também a acompanhava, de um relacionamento intenso e não assumido com sua amiga de infância Bea, mas o destino lhe reservará surpresas de uma história que se repetirá.


Almodóvar retoma sua forma anterior a Amantes Passageiros, que instaura uma dúvida, uma coceira ardida como quando uma formiga nos morde. Amantes foi uma comédia de escracho que tentava retomar algum exagero do inicio de carreira, mas faz mal, como uma pornô-chanchada brasileira. Foi um susto, como um pesadelo que assistimos e Julieta vem como um sonho bom, retomando o vigor narrativo de grandes histórias e personagens, rediscutindo suas questões de gênero, sempre entrelaçadas com sexualidade, posicionamento e liberdade de expressão. A fotografia, o estudo de cena e arte reforçam o que o diretor faz melhor junto a sua equipe, em planos que são literalmente gostosos de ver, atiçando o nosso paladar, tornando o filme sensível a mais sentidos do que precisaria.

Se no anúncio de fim, ficamos quase tristes em uma sala lotada em plena noite de segunda-feira fria e chuvosa é porque ele conseguiu novamente. O diretor nos prendeu em sua trama com menos comédia do que alguns de seus filmes anteriores, mas sustentando em poucos atores uma grande tragédia em cores fortes e lindas.
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Aquarius, Kleber Mendonça Filho

Há uma grande diferença entre os litorais de Recife e Salvador, mas uma das mais marcantes, que é comparável a outras grandes cidades é a construção de prédios em suas orlas. Há poucos anos, Salvador permitiu o início da construção de prédios maiores de três andares na costa e isso ainda caminha com dificuldade, enfrentando barreiras jurídicas para a sorte dos habitantes e infortúnio das construtoras. Em Recife, por outro lado, essa restrição não existe e tanto lá como no Rio de Janeiro, em Vila Velha e em tantas outras cidades litorâneas, há uma moderna faixa vertical que atravessa o caminho da praia, criando um visual urbano de frente para a natureza perene, aumentando as temperaturas atrás do paredão de concreto e eliminando o passado de casas antigas e construções modestas.

Em Recife, na praia de Boa Viagem, mora Clara (Sonia Braga), uma viúva de 65 anos que habita o Aquarius, um edifício de 3 andares entre outros maiores. O Aquarius está vazio, Clara vive sozinha tanto em seu apartamento quanto no prédio que sua filha Ana Paula (Maeve Jinkings) insiste em dizer ser fantasma. Não só ela, como Diego (Humberto Carrão) concorda, o neto do dono da construtora que comprou todos os outros apartamentos e depende da saída de Clara para iniciar a demolição deste e a construção de mais um prédio de não sei quantos andares. Ele tenta gentilmente convencê-la a vender sua residência com o que parece ser uma boa proposta, mas Clara não quer sair, quer viver em seu apartamento incrível, aconchegante onde guarda memórias e a história familiar e agora individual, estando sozinha e muito bem, obrigada, de frente para o mar.

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O dilema da empreiteira que quer fechar um grande negócio esbarra no aceite improvável de Clara, em uma teimosia que inicia uma guerra fria que só uma mulher de pulso firme suportaria enfrentar. Mas Clara já enfrentou coisas piores. Kleber Mendonça escreve e dirige um filme sensível e inteligente, que guarda na força de uma mulher em desvantagem uma realidade cotidiana, a transformação urbana e social das grandes cidades. Sonia Braga incorpora uma senhora que se recusa a fazer o papel de velha e vítima, sem se incomodar com sua idade. Ao contrário, se aproveita do respeito conquistado ao longo de anos de convivência em família, entre amigos, com colegas de profissão e com o salva-vidas (Irandhir Santos) que lhe concede o privilégio de vigiar o arriscado banho em um mar de tubarões. Metafórico e literal.

Se em O som ao redor, Kleber buscava uma discussão entre classes a partir da relação de moradores, trabalhadores e passantes em uma rua residencial de classe média alta, aqui o embate é ainda mais complexo, mas com uma estrutura dramática mais simples e por isso mesmo, elegante. Há a velhice e como lidar com ela sem compaixão e condescendência. Não se fala sobre pena, Clara a rejeita e Diego até tenta se aproveitar dela, sem sucesso. Essa mesma velhice em pele de mulher, envolvendo sexualidade, patrimônio, respeito, corpo, autonomia é assumida a plenos pulmões e não é errado esperar ainda mais premiações para Sonia Braga, que abraça o personagem como se fizesse parte de si. O filme explora a realidade da situação da mulher viúva que escolhe a vida, a participação social e não se envergonha. É um retrato que alimenta um perfil, uma esperança de comportamento nas mulheres de sessenta anos e quase cria, se a palavra não fosse um exagero, um ideal de perfil no horizonte.

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Além da relação de corpo, indivíduo e posicionamento feminino que atravessa as idades, há a relação com a família, que se posiciona entre a instalação da senhora idosa segundo um perfil de dependência e seu oposto, na certeza de suas capacidades físicas e mentais. Essa é ainda uma questão a ser debatida especialmente no que condiz às aposentadorias, à qualidade e expectativa de vida e a própria imagem que a velhice imprime historicamente, e que entra em conflito com a realidade. A imagem do idoso inútil é um mal a ser combatido e, mesmo não sendo objetivo do filme, emerge como questão.

Com leveza narrativa, fluidez e grandes personagens, as relações sociais estão na pauta mais uma vez, na discussão entre as amigas de Clara em uma festa, sobre as empregadas domésticas, no valor de oferta do apartamento e agora na própria construção da cidade, a verticalização que funciona como um pano de fundo é a representação de progresso versus passado, como se uma coisa necessariamente implicasse em eliminar a outra. As intenções de todos são claras e a trilha sonora reforça em historicamente reconhecidas como grandes músicas, o que não precisa ser dito em diálogos.

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O filme nos atravessa a partir de capítulos e seguimos apaixonados por Clara, pela força dessa mulher, às vezes incoerente e beirando o absurdo, mas vivendo uma situação tão surreal quanto os outros quando a chamam de egoísta por se opor à decisão de um suposto consenso. A construção dramática em partes por tema – o cabelo, o amor e o câncer – mapeia uma personagem e seu entorno e saímos daí querendo mais do que 145 minutos, ainda que entendamos e saiamos satisfeitos, saímos querendo ouvir mais da mistura de sotaques e continuar com a força e orgulho que é ver o nordeste em cena, especialmente quando não é caricato e estereotipado. O que não é possível em novelas é garantido neste quase novo cinema, reforçado em qualidade e sensibilidade e tendo em Aquarius grande exemplo. 
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Um diretor russo, um museu francês, a segunda guerra. Aleksandr Sokurov retoma o tema da arte ao tratar do Louvre, da ocupação alemã em Paris na Segunda Guerra Mundial em um filme original e ousado.

Classificado como documentário, o filme se enquadra no gênero e o transcende, para nosso benefício. Imagens de arquivo de filmes de ficção e registros históricos, encenações, o próprio diretor em cena conversando com um amigo, o capitão Dirk que está no meio de uma tempestade no Atlântico, carregando contêineres com obras de arte. Sokurov traz de volta um grande museu: se em 2002 ele fazia Arca Russa, um dos maiores filmes do mundo em um dos maiores museus, o russo Hermitage, agora, em outra forma e linguagem nos apresenta o Louvre, sua história, seu impacto e o tempo da arte ou a arte enquanto permanência e relevância.


Não é um filme para ver sem saber do que se trata, ainda que seja uma grata surpresa. É uma forma de refletir sobre arte e história a partir de pontuações do próprio diretor, em uma narração híbrida em toda a duração. Descobrimos a história do Louvre a partir de Napoleão, seu fundador e mantenedor, cujo objetivo era realizar a maior coleção de obras de arte do mundo com seus tesouros de guerra. Enquanto imperador, cada vitória era um saque, troféus de nações vencidas. Entre 1940 e 1944, Hitler ocupa militarmente Paris, que se torna uma cidade aberta e a França, um Estado dividido. Assim se evitou a destruição da metrópole e se conquistou uma paz a contragosto, pelo bem geral. O Louvre foi esvaziado, suas obras escondidas em castelos e dois homens, o diretor francês do museu, Jacques Jaujard e agora o co-diretor alemão, Franz Graf Wolff-Metternich se tornaram responsáveis e, segundo Sokurov, parceiros na proteção das valiosas e remanescentes obras. Sem eles, não haveria a proteção ao museu e suas obras e, como aconteceu em outras cidades europeias bombardeadas, perderia seu acervo e tantas vidas, para sempre.

Mas, mais do que isso, o diretor provoca, instaura uma reflexão a partir da fragilidade e importância das obras para o mundo, para o registro histórico e cultural humano. Seu amigo, o Capitão Dirk segue em alto mar sob grande risco de perder os contêineres que aceitou transportar. Ali, ficamos tensos quase esperando uma tragédia dupla: da vida dos marinheiros e de obras que nem sabemos quais são, mas estimamos seu valor a partir do tenso diálogo entre os amigos. É na casa de Sokurov que isso tudo acontece, em uma comunicação via internet, quando possível. Não temos opção, como o diretor e o capitão, estamos à mercê do tempo, agora uma força da natureza e não humana, mas com a mesma capacidade destruidora, como a que provocamos com as guerras.

Sokurov é grande conhecedor e defensor da Arte, esta com letra maiúscula. Arca Russa o levou ao Olimpo dos grandes diretores anos atrás, com um devaneio de um aristocrata nos salões do Hermitage, o maior museu da Rússia, um dos maiores do mundo. Ali, mais uma vez a História é a pauta, a história que atravessa a Rússia por trezentos anos em um filme sem cortes a partir de um único plano sequência, com um ensaio absurdo de 2000 atores onde não vemos falhas, mas sim três orquestras tocando, 33 salões do museu e uma precisão quase doentia em um filme maravilhoso. Ali era uma grande ficção, um filme atordoante tamanha beleza, concentração e excesso de informações sobre uma história, cultura e país que o Ocidente não conhece em detalhes. Agora é o Louvre, conhecido nosso, que achamos saber muito – ou pelo menos que temos a certeza de encontrar a Monalisa e o trio de Jules e Jim (Truffaut, 1962) correndo pelos corredores – mas ficamos estupefatos ao ver grandes esculturas assírias, uma múmia surpreendente que esperamos ansiosamente por um movimento, um despertar assustador por conta de seu close lento e que nos aproxima da escultura cadavérica ou uma esfinge silenciosa e desafiadora.

São monumentos culturais imensos em todos os sentidos, são obras internacionais todas bem cuidadas em um grande espaço e em algum momento pensamos se elas não deveriam voltar a suas antigas nações, aos seus berços e reafirmar sua cultura ou se devemos apenas aceitar, esquecer fronteiras e agradecer que estão garantidas para visitação pública, quando estivermos passeando pelos arredores. Não há como saber o que aconteceria a muitas destas obras se não estivessem sob esse teto privilegiado, se peças de muitos séculos atrás, milênios quiçá, teriam seu registro e espaço ou se se perderiam, apenas porque é impossível manter toda a história de todas as culturas.

A arte que vemos é um fragmento de cultura e humanidade em um período histórico, um índice e representação do que houve, do que se foi e referência para o futuro. O Louvre é um dos museus que garante essa permanência, conquistada e mantida por séculos. Ao mesmo tempo, é um imenso galpão de saques, se pensarmos em cada conquista de guerra, em cada cidade devastada ao longo da História. Não deixa de ser a manutenção de um passado que privilegia quem vence batalhas e não é à toa que o Napoleão de Sokurov instaura a arte como um dos motivos para a guerra. 





O diretor cria uma caleidoscópio com tantas informações quanto as expostas no Hermitage em Arca Russa, outro filme para ser revisto: em uma só vez é impossível apreender tudo, mas o constrói bem, com retalhos que se unem por linhas pensamento firmadas no contexto histórico. Há o fantasma literal da revolução francesa, Marianne, que encontra Napoleão e juntos se perdem nos corredores e salões, há os diretores de cultura, rivais em guerra, unidos pela defesa e sobrevivência do museu e assim, da arte, há a fragilidade do tempo e desta própria permanência e relevância frente à vida: o que é mais importante, a vida humana ou o registro dela? A montagem por vezes se perde com tantas vias a percorrer, mas não é de todo problemático. Aos poucos nos acostumamos com este percurso e somos levados pela mão pelo diretor, que parece tão confuso quanto nós – por isso tantas ramificações na construção fílmica – sobre que destino terá aquilo tudo. Ainda assim, seu discurso se mantém firme e agora esperamos que ele invada outro grande museu e nos conte mais sobre ele.

Sokurov promove uma viagem única pelo Louvre, por fim, de uma forma que o melhor guia turístico não daria conta, ou qualquer pesquisa na internet, ou um passeio ao vivo. Agora, na próxima visita, há mais e mais referências, uma vontade de sentar e discutir com o diretor como foi seu processo de construção neste filme híbrido, completo, confuso, inteligente, delicioso e reflexivo. Imperdível para os amantes de artes e museus, de história mundial, de memória e permanência das obras de arte, da cultura e sua relevância para o futuro.



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Em 1995, em Enquanto você dormia (1995, de Jon Turteltaub), Sandra Bullock era Lucy, uma bilheteira de metrô que vê sua paixão platônica, Peter (Peter Gallagher) cair da plataforma da estação e entrar em coma. Ela ajuda no resgate e passa a cuidar do desconhecido, se envolvendo com a família dele por um mal entendido, se passando por sua noiva. O filme é das nossas sessões da tarde e está no rol das comédias românticas bestas, mas que assistimos e até nos divertimos se não tem nada melhor passando.

Este mês estreia o francês Esperando acordada, sobre Perrine (Isabelle Carré), uma musicista amadora que por um desígnio do destino, causa um acidente em um desconhecido que então entra em coma. Ela passa a cuidar dele e o resto a gente quase já sabe. Tão bobo quanto a comédia americana, este investe ainda mais nos exageros do roteiro, alimentando os estereótipos do dois gêneros, o fílmico e o feminino.


O gênero de comédia romântica costuma ser bem previsível e isso não é um problema. Dá até certa segurança e funciona bem quando bem feito, atinge o objetivo de contar uma história que costuma terminar feliz, dando relevância aos sentimentos e alguma esperança, uma luz no fim do túnel para os espectadores, por mais improvável que seja seu enredo. Em uma história bem contada o que vale é o desenrolar, os diálogos, as soluções encontradas para os nós dos personagens. Em Esperando há um abuso, como se os roteiristas (Marie Belhomme, que também dirige e Michel Leclerc) buscassem um filme de verão, leve, com brincadeiras e artimanhas, mas errassem a dose, deixando bobo demais.

Perrine é essa moça sensível e delicada, talentosa e azarada, não consegue segurar grana, é desastrada, bonita e vive fazendo bicos. Não se considera grande coisa, além de ter um grande coração e ser extremamente ingênua. Dirigindo apressada entre um trabalho e outro, vai perguntar a um homem sobre informações numa parada na estrada e o assusta. Ele cai, bate a cabeça e fica desacordado. A mocinha chama a emergência, mas sai de cena, porque tinha horário a cumprir, tocando violino para um grupo de velhinhos em um asilo coordenado por Lucie, interpretada por ninguém menos que Carmen Maura – uma grata surpresa, principalmente quando ela alterna o francês com murmúrios em espanhol, nos fazendo lembrar filmes de Almodóvar. Esse imaginário da moça bobinha e sensível é um personagem quase padrão dessas histórias e que aqui, entra em confronto com Arsène (Camille Loubens), uma doutoranda inteligente e sexy, sobrinha de Lucie que faz um favor a Perrine e lhe passa a perna. O clichê que pode passar batido em alguns espectadores incomoda os mais perspicazes: a relação em que as mulheres funcionam como inimigas em prol da conquista de um homem, que de um favor vira estratégia de ataque é cansativa e gratuita; um apêndice na história facilmente descartável além de ser uma prerrogativa que reduz o gênero endossando uma competição que não deveria existir.


Não apenas a relação entre as mulheres da história é complicada como a construção que se faz do homem ideal, aqui amplamente imaginada por Perrine. Ao adentrar no universo do desconhecido Fabrice Lunel (Philippe Rebbot), Perrine de cara o acha extremamente interessante sem sequer ver seu rosto ou trocar qualquer palavra, mas conhecendo tudo o que o cerca: o filho, a casa, o trabalho. As afinidades colaboram para a idealização, mas ainda é muito pouco o que se sabe de alguém para chegar ao encantamento que vemos aqui. Se a resolução do conflito encerrasse algo próximo do final de Enquanto você dormia, talvez fosse mais interessante. Ali, mesmo Sandra Bullock encarnando boa parte das características da própria Perrine, sua elaboração é mais realista e podemos pensar que conhecemos alguém como ela. Perrine é o personagem do exagero em uma construção que não funciona nem como um conto de fadas – como o fofo Românticos Anônimos (2010, de Jean-Pierre Améris), que traz a mesma atriz – de forma que há um deslocamento da personagem com a realidade ali proposta e seu desenvolvimento sustenta uma trama frágil demais.

Enquanto filme francês, é nossa a expectativa em imaginar que veremos algo com personagens e diálogos mais elaborados como costuma ser, em contraste com o cinema hollywoodiano. Aqui acontece o oposto ou uma aproximação da grande indústria no que lhe há de menos interessante: com uma redução dos personagens em estereótipos, levando a mulher à velha posição de boba, que rivaliza com outra por uma conquista que nem sabemos se será boa e que não vai muito além. É um filme de verão que se tenta engraçado e leve e de fato é, mas muito menos atrativo do que se pretende. Vale, no máximo, para um domingo à tarde, sem maiores pretensões. 


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O trailer nos apresenta uma história que se passa em um tempo distante. Um tempo de violência. E explica: um tipo de guerra se propagava por toda a Europa. Numa cidade, viviam duas irmãs que eram inseparáveis. Estas frases se repetem durante o filme e criam uma expectativa que não se resolve de pronto e deixa algum mistério. Mercuriales é impressionante, nada mais.

Como o adjetivo indica, ‘impressionante’ corre em diversas direções. A primeira sequência do filme mostra um jovem negro sendo apresentado às instalações de base dos Mercuriales, dois prédios como as Torres Gêmeas de Nova York, só que em Paris, no subúrbio. Os prédios existem de fato e se chamam assim, foram parte de um projeto de renovação comercial do lado leste de Paris mas que, com a primeira crise do petróleo, foi interrompido ficando apenas as torres construídas. O jovem, que agora é parte da equipe de segurança do conjunto quase não aparece mais e se imaginarmos que ele terá algum papel relevante numa história que parece ser estranhamente futurista, não lhe acontecerá muito além disso. Essa percepção de que falta algo ficará no espectador até o final, como se aquela história estivesse sempre na introdução. Ao mesmo tempo, o longo prefácio que não se desenvolve nos prende com a construção de um clima, é o que chama mais atenção, com duas protagonistas bastante parecidas, como as torres, inseparáveis e que, ainda assim, guardam distinções em suas personalidades.


Não vemos guerras acontecerem em um tempo distante: esta ideia de ficção científica é uma ilusão, mas, mais forte do que isso, a atemporalidade é sua marca maior. Não sabemos o tempo das coisas, como se tanto as torres quanto as ‘irmãs’ estivessem tão distantes do mundo quanto o subúrbio em que se encontram. Joane (Philippine Stindel) veio da Moldávia e encontra, Lisa (Ana Neborac) francesa. As duas são recepcionistas nas torres. Joane não conhece quase mais ninguém na cidade e se apega à Lisa como se fossem gêmeas, estando sempre juntas, quase simbioticamente.

As meninas tomam o filme, entre ações do cotidiano e pequenos pontos de conflito. Ficamos presos a estes momentos – quando Joane conhece Zouzou (Annabelle Lengrone), amiga de Lisa com uma filha criança ou quando vão ao clube de suingue, quando viajam para o interior, quando conhecem um grupo de rapazes – aguardando seus desenvolvimentos, que parecem soltos demais e ficamos à mercê, esperando os desfechos, que se diluem em outras ações. É intencional, uma frouxidão na trama é o que parece tentar trazer a história para a vida real e com o adicional da fotografia de luz natural, boa parte da crítica internacional entendeu como um jogo com o documentário por conta do currículo do diretor, mas não parece ser o caso.


O filme busca uma relevância na vida das garotas como um paralelo com as torres que ninguém de fora do país ou da cidade conhece. Imponentes, parecidas e importantes à sua medida, não são como as finadas e famosas World Trade Center ou como as grandes modelos do mundo, ainda que não percam em nada por semelhança e beleza. Deixadas em um subúrbio, fora das vias principais da cidade, alheias ao movimento – e uma cena delas no terraço de uma das torres, enxergando a cidade ao longe é uma belíssima analogia – as desloca deste espaço e tempo, como se talvez nem precisassem estar sob qualquer holofote, mas apenas vivendo e se encontrando no limbo que é o caminho entre a adolescência e a vida adulta. É uma interpretação possível, as responsabilidades do dia a dia contrastando com um comportamento quase infantil, as vivências típicas da adolescência encontrando outras mais próprias à vida adulta, a relação com a maturidade e maternidade encontradas em Zouzou ou os riscos entre desconhecidos. Como são tempos de guerra, nada é permanente e as conclusões do filme deixam claras uma mudança imperativa e iminente, abrindo outras possibilidades de futuro para as duas.

Se nos minutos iniciais vemos uma sequência longa com orientações sobre procedimentos e instalações de segurança com uma trilha sonora quase entorpecente, remetendo a Kubrick e já imaginamos tensos uma guerra que está por vir – referência imediata ao onze de setembro – talvez este paralelo seja tão subliminar e distante, como uma metáfora requintada demais para a vida das garotas, cuja segurança não existe, mas o alheamento do mundo sim, como se fosse possível para elas viver na própria distância imposta pelos seguranças dos prédios a qualquer um que se aproxime deles fora do horário padrão. Impressionante, o primeiro longametragem de Virgil Vernier não é um grande trabalho de roteiro, mas é de todo o resto, chamando a atenção com sua estética e nos deixando ansiosos por uma nova – e quem sabe mais dinâmica – experiência. A vontade que fica ainda neste filme é em rever algumas cenas por seus enquadramentos, reencontrar o clima criado, a suspensão do tempo, os silêncios e alguma inocência.


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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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