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Café: extra-forte


Ariane Ascaride (A delicadeza do amor, 2011) é a protagonista da nova comédia de Robert Guédiguian (Marie Jo e seus dois amores, 2002 e As neves do Kilimanjaro, 2011) que está nos cinemas. A atriz é também mulher e musa do diretor que lhe entrega este filme como uma homenagem. A história está centrada no dia de seu aniversário, em que espera e se prepara para receber o marido e os filhos e, por um acaso infeliz, nenhum deles pode comparecer. Ela então resolve sair de casa e fazer do dia, uma aventura.

Na mitologia há uma Ariadne, cujo fio ajuda Teseu, seu amado, a encontrar a saída do labirinto em que estava o Minotauro, metade animal, metade homem que precisava matar. O fio de nossa Ariane é uma guia invisível que a transforma em um amuleto da sorte para quem a encontra. Para além da sorte alheia, é o mesmo fio e narrativa condutora do filme, que lhe permite uma jornada de autoconhecimento e percepção de seu lugar no mundo. A ficção corre nesta direção, orientando a protagonista, lhe transformando numa mestre e aprendiz frente seus novos desafios.

Filme de verão francês, os diálogos são sua graça, mas enquanto estrutura deixa a desejar. Os caminhos que Ariane percorre nesta viagem mudam sua vida de tal maneira e velocidade, que se transformam em uma espécie de sonho, confirmado com a tartaruga, que ganha o status de personagem quando passa a conversar com a protagonista. Nada disso seria um problema se não faltasse um aprofundamento maior nos personagens, cujas histórias particulares e ótimas atuações, em particular dos atores Jean-Pierre Darroussin (taxista) e Gérard Meylan (Denis, dono do restaurante), acenam para um algo mais que não se desenvolve. Ficamos na superfície de histórias grávidas, como contos que acabam rápido demais. 

Mãe de uma família carinhosa, Ariane se é um emblema – o que torna a homenagem ainda mais bonita – de boa pessoa, em um símbolo com missões a resolver, para facilitar a vida de todos e, quem sabe assim, se reencontrar, após sair do labirinto que criou para si. De presente para nós, ainda a vemos cantar e a encontraremos em sua própria Fontana de Trevi, relembrando o clássico felliniano A Doce Vida (1960). De qualquer maneira, o filme acende questões caras ao povo francês, como tolerância, imigração, generosidade e o cuidado com o outro, de forma leve e brincalhona, como um filme razoável para uma tarde de domingo. 
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Um dos meus programas preferidos era ir uma tarde na videolocadora do bairro, circular pelas estantes, escolher não sei quantos filmes e me internar em casa. Sempre morei perto de Itapuã, em Salvador, e as locadoras do bairro acabaram se tornando pequenas demais, então eu zerava as prateleiras e precisava partir para uma loja maior. Me encontrei na extinta GPW, a maior videolocadora de Salvador, a mais maravilhosa, com a maior variedade. Quando entrei na faculdade de cinema, fiz estágio lá, acabei sendo cliente e funcionária. A vida não poderia ser melhor.

Existia um cargo de indicador de filmes, que era o que todo mundo ali queria ser. Seu trabalho, como diz o título, era sugerir filmes para o público que ficava perdido entre as estantes. Então eu ‘peruava’, assistia algumas indicações, depois conversava com os indicadores. Outras vezes, buscava minhas próprias cobaias, vítimas esquecidas nos corredores, para me meter em suas vidas e sugerir filmes.

Aqui a ideia é a mesma, nossa maior locadora atual, a Netflix, deixa muitos amigos meus perdidos e aí resolvi me meter a indicadora e sugerir 5 por semana, dos imperdíveis da vida. E os primeiros são:

Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) – 101 minutos.
Bill Murray e Andie McDowell protagonizam essa comédia de erros, com cara de boba, com um roteiro engenhoso e original para a época. Harold Ramis, dirigiu também Ghostbusters, Férias Frustradas e Máfia no Divã. Essa é a base de sua comédia, leve, inteligente, satírica na dose certa, não apelativa. Levou 5 prêmios e outras 8 indicações entre melhor ator, atriz e roteiro.

A outra história americana (1998, Tony Kaye) – 119 minutos
Edward Norton é um ex-neonazista recém-saído da prisão por assassinar duas pessoas, se diz reformado e pronto para ajudar o irmão (Edward Furlong) e impedir que este repita seus erros do passado. Político, polêmico e violento, esse filme não nos deixa piscar um segundo. Edward Norton perdeu o Oscar para o inusitado Roberto Benini, de A Vida é Bela.

Harry e Sally – feitos um para o outro (1989, Rob Reiner) – 96 minutos.
Se fosse produzido nesta década, é um fato que a história viraria um seriado. Comédia romântica mais clássica e maravilhosa de todas, vale se você está apaixonado, se começou a namorar agora, se está casado há décadas, infeliz, se tomou pé na bunda, se não está com ninguém. Tem tudo aí dentro, sem falar nos diálogos excepcionais que Nora Ephron criou e a trilha sonora imbatível. Lançou de vez Meg Ryan e deixou Billy Crystal até charmoso. Levou 4 prêmios e 16 indicações, incluindo melhor ator, atriz, roteiro e filme.

Psicose (1960, Alfred Hitchcock) – 108 minutos.
Acho que não preciso falar desse. Suspense clássico, reconhecido por todos, um dos melhores filmes já feitos, de ninguém menos que Hitchcock, que inaugura nosso terror dos chuveiros com cortina branca. Anthony Perkins é Norman Bates, dono de um motel de beira de estrada que vive com sua mãe adoentada numa casa de colina. Em uma noite chuvosa, recebe Marion Crane (Janet Leigh), uma mulher em fuga que precisa descansar por uma noite. É nesse clima de abandono e tensão que tudo acontece. Esse filme é da categoria impossível deixar de ver. Tem tudo aí: romance, intriga, independência feminina, trapaça, crime, suspense, terror. Hitchcock ficava na porta dos cinemas e não permitia aos atrasados entrar na sala. Daí você imagina a relevância e o cuidado que o mestre tinha com o espectador e sua obra. Esse tem crítica!

Maidentrip (2013, Jillian Schlesinger) – 82 minutos.
O primeiro documentário da lista, conta a travessia que Laura Dekker, com apenas 14 anos, fez pelos oceanos do planeta. Seu sonho de vida era viajar o mundo em um barco e, com experiência cultivada na família, conseguiu autorização da justiça holandesa para enfrentar o desafio. Com câmeras no barco e se filmando todo o tempo, temos a impressão de participar de sua jornada, nas dificuldades e alegrias. Além de paisagens deslumbrantes, vemos a garota amadurecer e perceber que essa aventura é muito menos romântica do que lhe parecia. Ela carrega hoje o título de pessoa mais jovem a fazer a circum-navegação pelo planeta. Esse tem crítica!
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Um diretor de cinema virgem aos 33 anos, reprimido sexualmente encontra nesta situação sua válvula de escape para produções que transformam o olhar sobre o cinema no mundo. Ao viajar para o México a convite de um escritor americano que financia um grandioso projeto de cinema, se depara com o calor dos trópicos, a vida latina, sua sexualidade aflorada à base de pimenta e um modo de vida que desconhecia. Poderia ser uma ficção qualquer, um romance clichê se não fosse por alguns detalhes: a assinatura de Peter Greenaway e Sergei Eisenstein como seu protagonista.

Greenaway teve a ideia de retratar Eisenstein nos dez dias que passou na cidade de Guanajuato, durante as filmagens de seu novo filme. O projeto iniciado em 1932 nunca foi adiante, Eisenstein não teve acesso aos negativos para edição, foi obrigado a retornar à União Soviética e apenas em 1979, Grigori Aleksandrov monta o filme a partir dos storyboards, textos e anotações do diretor russo já falecido. Até aí, nenhuma questão, senão uma releitura sobre um grande personagem que pouco conhecemos em sua intimidade. 
Autor de O ladrão, o cozinheiro, sua mulher e o amante (1989), Livro de Cabeceira (1996), e outros que marcaram a cinematografia por sua inventividade e roteiros originais, Greenaway traz um jovem Eisenstein com o perfil de um gênio infantil, que ainda não se descobriu sexualmente. O autor de Encouraçado Potemkim (1925), Greve (1925) e Outubro (1928) é redesenhado perambulando pela cidade com seu guia e posterior amante Palomino Cañedo (Luís Alberti), descobrindo um modo de vida mais livre, perigoso e, em seu caso particular, com luxos que jamais teria em seu país.

Há aí dois pontos de inflexão: o primeiro é de que o filme é muito divertido. E muito bom, se não partirmos da ótica cinéfila que se ofende quando brincamos com os ídolos. Eisenstein é esse jovem histriônico, vibrante e de fala rápida, como se a velocidade do pensamento não acompanhasse a voz. A interpretação de Elmer Bäck é magnífica e abraça integralmente a proposta do filme; ele está à vontade no personagem bonachão, ultrapassa a semelhança física com aquele da vida real e ficamos esperando mais, como se essas quase duas horas não fossem suficientes para participarmos de suas aventuras e transformações. 
O segundo ponto é o de que Greenaway não quis fazer um documentário, um filme baseado em fatos reais ou uma cinebiografia como vem sendo alardeado por aí. Pode-se dizer que é um filme homenagem sobre um grande diretor que, muito provavelmente, boa parte do público sabe quem é de ouvir falar. Seus filmes de maior relevância remontam os anos 20, tratam da Revolução Russa e sim, são muito bons, mas nunca farão parte da cultura popular. Não são filmes fáceis, apesar de dinâmicos. Os três: Potemkim, Outubro e Greve, todos anteriores à viagem do México, trazem as bases teóricas de um autor de cinema completo, que trabalhava a prática e o pensamento acerca de sua arte. Figura obrigatória das escolas e fundador de uma das mais antigas escolas de cinema, o Eisenstein teórico lançou as bases da montagem de filmes de uma forma que ainda hoje poucos fazem bem.  Se por um lado, Greenaway criou um herói que jamais saberemos o quão fiel à realidade seria e aí há um risco apenas purista – e talvez até supérfluo – por outro, o resgatou para a contemporaneidade e estimulou a curiosidade do público sobre sua obra e vida. Eisenstein virou pop.
                                        
De resto, está tudo aí: o diretor, como sempre, brinca com a linguagem, apresentando nosso protagonista diversas vezes entre fotos reais e imagens do ficcional, ao mesmo tempo o relacionando a uma semelhança física e remarcando o território da ficção. Outros terão a mesma apresentação: o fotógrafo e seu produtor – que apenas são pontuados na obra, assim como Diego Rivera e Frida Kahlo. A divisão da tela em três partes, repetição de planos e sobreposição são tanto uma tentativa de homenagear o russo, quanto a liberdade de um diretor já estabelecido. Os movimentos de câmera especificamente no quarto de hotel onde Eisenstein se hospeda marcam um trabalho complexo de toda a equipe, em planos que parecem tomar os 360 graus do ambiente em uma discussão com os financiadores e não chegamos a ficar tontos, mas é surpreendente ver o preparo dos atores, a coreografia da cena, a criação de um clima cada vez mais tenso e dramático – ainda que sempre sarcástico. A fotografia é um deleite à parte e, de novo, outra marca desta cinematografia junto com o trabalho do departamento de arte. Os contrastes, o terno branco de Eisenstein – o único que tinha – se opõe às roupas escuras e elegantes de seu guia. A aura dourada da suíte, com banheira e chuveiro com canos dourados, o piso claro e translúcido, uma cama imensa traduzem um luxo impossível para o soviético.
O filme foca no relacionamento de Cañedo e Eisenstein e suas diferenças culturais, além de reafirmar a impossibilidade de conclusão do projeto mexicano. As causas para o fracasso foram tanto de cronograma quanto orçamento e é estranho pensar desta maneira quando não era o primeiro filme de um diretor conhecido por sua competência. A inferência é de que Eisenstein teria se desconcentrado naquele país ao se descobrir enquanto homem, se permitindo viver uma história de amor impossível na União Soviética – ou na Rússia contemporânea – sendo crime, o relacionamento homossexual. Mas, novamente, são interpretações baseadas na história da produção e na criatividade deste diretor. Por fim, o filme é tão rápido e cheio de nuances, que dá vontade de rever, para retomar alguns diálogos e planos. Mas calma, não deve ser levado tão a sério pelos fãs do soviético. Greenaway investiu tanto nesta experiência que seu próximo filme está em produção e traz novamente nosso herói, agora encontrando as personalidades do mundo que cruzaram seu caminho. Estamos aguardando.
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O Blah Cultural, revista de cultura virtual em que escrevo algumas críticas de cinema, solicitou a mim e aos outros colaboradores uma lista dos nossos melhores filmes do ano. É um negócio bem complicado esse, porque são muitos os aspectos a considerar, além do gosto que, claro, é um grande motivador. Assim, a revista traçou a média dos colunistas e a matéria final está aqui, nesse link. Por outro lado, achei legal deixar minha listinha aqui, que considera apenas os filmes que vi – o que significa que podem haver filmes ainda melhores que estes da lista, eu só não tive o prazer de experimentá-los. 

FORÇA MAIOR, de Ruben Östlund

Escrevi a crítica. O filme é grandioso sob muitos aspectos: o apuro estético e uniforme, quase matemático do figurino contrastando com a fotografia e os enquadramentos. Estes valem por si só e seu sentido é explicitado através da montagem, com o crescimento de uma tensão silenciosa que nos acompanha e é potencializado a cada sequência. Um roteiro que nos brinda com a chegada de uma família aparentemente perfeita e feliz – como muitas o são quando vistas a uma certa distância – para uma semana de esqui em um grande resort. Em certo momento, uma catástrofe se anuncia e o resultado disso impactará gravemente em cada um. Ainda assim, o filme não sai hermético, mas consegue sustentar um humor refinado e brutal. Esse é um daqueles filmes que podem ser vistos várias vezes.

O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

É um dos que devo a crítica ainda. Vi já no final do ano e é um filme que surpreendeu pelo longo tempo que ficou em cartaz. Viviane Amsalem vive em Israel e solicita o divórcio a seu marido, que lhe nega incontáveis vezes. A batalha dessa mulher na corte para conseguir o seu direito esbarra num código que, mais uma vez, favorece o homem, quando apenas com o consentimento dele – e não uma decisão judicial imparcial – é possível conseguir a separação. O filme se passa quase todo numa mesma sala, a corte, com os mesmos personagens e praticamente o mesmo diálogo, deixando claro, mas não cansativo para o espectador, o absurdo da situação. Ronit Elkabetz é Viviane e também a diretora da obra, persistente e paciente até o limite da razão. Prometo que é o oposto do tédio.

ÓRFÃOS DO ELDORADO, de Guilherme Coelho

Com certeza o melhor filme brasileiro do ano. A crítica está aqui e ainda fiz uma entrevista com o diretor. Baseado no livro homônimo de Milton Hatoum e primeira ficção do diretor, com Dira Paes e Daniel de Oliveira em um drama rodado no Pará. Uma história em que amor, família, herança e mistério caminham juntos com uma fotografia que deixa qualquer um que já visitou a região morrendo de saudades. Se no início somos seduzidos pelo encontro dos dois protagonistas, até o final seremos sugados não só por eles, mas por uma busca insana que Arminto (Daniel de Oliveira) precisa fazer para conseguir viver. Não dá pra falar mais do que isso, sem tirar a graça.

SEGUNDA CHANCE, de Susanne Bier

O primeiro filme que vi da diretora foi Em um mundo melhor (2010). Filmado na África, conta a história de um médico que precisa decidir se salvará a vida de um terrorista local, cujo prazer consiste em estuprar e assassinar mulheres. O conflito ético resvala numa crise familiar de tal forma que sentimos a mesma dificuldade sobre que rumo tomar, caso estivéssemos naquela situação. Em Segunda Chance há outro conflito. Aqui um policial perde o filho ainda criança e precisa decidir se ficará com o bebê de um bandido, cuja família é incapaz de lhe oferecer uma vida melhor. Mais uma vez, a diretora nos deixa entregue à nossa moral. Tenso até o final e com atuações impecáveis, por favor, veja e vamos discutir! A crítica está aqui.

BLIND, de Eskil Vogt

Uma mulher cega em seu apartamento passa os dias ouvindo música sentada numa cadeira em frente a uma janela que tem vista para a rua. Assim conhecemos Eilin e sua condição é tanto ponto de partida quanto metáfora para si e demais personagens. O filme tem um roteiro intricado e original que nos prende nos dias sem fim da protagonista, nas experiências dos coadjuvantes e, mais importante, na forma de contar suas histórias. A marca mais forte é o aspecto sensorial, que nos faz chegar mais perto de Eilin, de sua condição, passamos a participar de seu tatear, de reconhecimento de espaços, de sua adaptação – ela não nasceu cega. Norueguês e primeiro longa do diretor, não temos a velocidade de um filme comum e nem precisamos. Merece ser visto.

EU SOU INGRID BERGMAN, de Stig Björkman

Primeiro documentário da lista, Ingrid Bergman é a atriz de Casablanca (1942, Michael Curtiz), para quem não se recorda. Essa mulher sueca e linda é vista aqui em seus filme de família, com depoimentos sobre sua trajetória fílmica e pessoal, suas correspondências, seus amores e filhos. A riqueza está tanto nas imagens de arquivo como em um reconhecimento ainda maior que daremos a essa atriz após saber mais dela. Não é um filme biográfico de fã que ressalta apenas as qualidades e sucessos do objeto de estudo, mas tenta dar um apuro humano, relegando a nós os julgamentos, questionamentos e qualificações. É um filme lindo, íntimo e pessoal sobre uma das maiores atrizes de todos os tempos. A crítica tá aqui!

ROGER WATERS – THE WALL, de Sean Evans e Roger Waters

Esse pode ser o Segundo documentário da lista, se não restringirmos muito o significado do gênero. The Wall foi a última turnê feita por Roger Waters – ex-Pink Floyd até agora e ele o transformou num filme grandioso – em todos os sentidos. Mistura de documentário, show, biografia, espetáculo, ficção, poesia e manifestação, merece ser visto na maior tela que você dispor, porque é um deleite para os olhos. O show em si, que está integral aqui, nos deixa morrendo por dentro por não termos ido, mas a captação foi tão bem arquitetada para áudio e imagem, que é a definição ideal de prazer para os olhos. Há que gostar do disco The Wall, mas imagino que não seja problema para a maioria das pessoas de lucidez. :) A crítica!

QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert

Outro nacional, Que horas ela volta? conta uma história sem novidades. Uma doméstica (Regina Casé surreal, porque não parece a do Esquenta!) pernambucana vive numa casa de classe média alta em São Paulo e recebe a notícia de que sua filha virá à cidade para prestar vestibular. Com o aval da família para quem trabalha, recebe sua filha que passará um tempo ali, no quartinho dos fundos que a mãe habita. Só que essa moça recebeu educação e senso crítico que lhe permitem questionar um sistema a partir de dentro, de seu funcionamento orgânico e esbarrará nas estruturas de poder e preconceitos vigentes. Vale cada centavo e, mesmo não sendo novidade, foi surpreendente. Conto mais aqui, mas não deixe de ver.

JIA ZHANG-KE – O HOMEM DE FENYANG, de Walter Salles

O Blah me encaminhou para assistir esse documentário sobre um diretor de cinema chinês de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pensei: lascou, não tenho tempo para ver os filmes e gosto de estudar, saber de quem e o que estou falando. Mas fui em frente, por conhecer Walter Salles, estudar documentário e gostar de desafios. O filme é maravilhoso porque ultrapassa a superfície da cinematografia do diretor e expande para o pequeno universo das relações humanas, do progresso e futuro, do cotidiano em uma sociedade fechada, para os conceitos de família e vida, de escolhas. O filme consegue ser tanto pequeno, quando trata do dia-a-dia e da feitura dos primeiros filmes do diretor sem orçamento, para um olhar macro, que revela aos poucos a grandiosidade desse diretor jovem e extremamente sensível e inteligente. Pode ver sem medo, provo aqui. Vai ser bom.

ACIMA DAS NUVENS, de Olivier Assayas

Sim, é aquele filme com a menina de Crepúsculo. E sim, é possível que ela esteja atuando bem. Neste drama, Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz que recebe uma proposta para fazer uma personagem mais velha de uma obra em que havia trabalhado décadas antes como a personagem mais nova. Valentine (Kirsten Stewart) é sua assistente pessoal que estará ao lado dela para o funcionamento de sua agenda e carreira e será um dos pontos de conflito, quando a relação entre elas ganha outras cores. É uma história dentro da história com tantas nuances que só não ficamos perdidos porque a direção e o roteiro são extremamente bem executados. É um thriller, drama, romance e algo de comédia ao mesmo tempo. E tem Juliette Binoche, precisa dizer mais?
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Difícil mesmo. A história de minha morte conta os momentos finais de Giacomo Casanova, um escritor e aventureiro do século dezoito, de alguma maneira filósofo e sedutor. Contando assim, lembramos a figura e um ou outro filme foi baseado em sua vida, mas o complicado aqui é encontrar forças dentro de si para permanecer assistindo esta produção do catalão Albert Serra.

Quando vemos um filme bom ou razoável, somos levados por ele como numa maré baixa. Os sentimentos que ele nos provoca, majoritariamente calculados por seu diretor – Hitchcock era especialista nisso – nos fazem percorrer sua duração e saímos dizendo que não vimos o tempo passar, que pareceu curto e ficaríamos outras duas horas ali sentados para uma história tão original. Mas o que pensar de um filme que busca o contrário, que exprime um tédio que nos faz sentir a poltrona nos engolindo, que cada gole de água parece durar dez minutos e que se contarmos no relógio, sofreremos a ilusão do estiramento do tempo? Mas, mais do que isso: qual é o objetivo desta provocação?

Não foram poucas as críticas que seguiram este pensamento, de um filme que se pretende denso, mas na verdade é vazio, com os clichês sexuais de um libertino cuja moral é um termo que desconhece e que, nem acerca disso aprofunda, nos relegando imagens supostamente provocantes que, a esta altura, pouco efeito produzem. Ao mesmo tempo, este mesmo filme ganha Locarno e a disparidade entre uma premiação e a péssima recepção do público nos deixa a pensar.
Estamos nos últimos dias de Casanova (Vicenç Altaió), o título do filme remete ao livro deste, A história de minha vida, suas memórias amplamente reconhecidas como uma grande obra, fascinante, registro de uma época. Casanova conviveu com grandes nomes da cultura, mas nada disso importa aqui, o máximo que se apresenta é uma carta de Voltaire e alguma menção à Rousseau. Sua vida parece uma rotina de prazeres à espera de algum grande acontecimento que nunca chega. As mulheres surgem para satisfazer seus desejos, sua rotina se alterna entre comida, sexo e defecação. A escatologia remete à Saló (1975, Pasolini), mas nada surpreende mais do que a presença de Drácula (Eliseu Huertas). Sim, o vampiro que poderia trazer algo de sobrenatural, de uma sedução propriamente dita em oposição ao protagonista histriônico, surge tão lento quanto o primeiro, com forte maquiagem e se arrastando em direção às mesmas mulheres, agora vítimas com pescoços à disposição. Claro, percebe-se a pulsão da morte encontrando o sexo e há o confronto de época entre o racionalismo e o romantismo nos dois personagens, mas ainda com algum esforço de interpretação.

A fotografia parece ser o que há de mais extraordinário, dividindo claramente o filme nos períodos de luz – Casanova em seu castelo – e sombra, a chegada do vampiro e os dias finais na floresta. Ainda assim, não se faz suficiente: faltam diálogos pontuados, atuações marcantes, narrativa fluida. À exceção de seu amigo-vassalo Pompeu (Lluis Serrat), que veste muito bem seu personagem – além do protagonista – com uma naturalidade mais coerente com o entorno, as mulheres parecem estar num hiato constante, numa espera de qualquer coisa, de sua morte ou da manifestação de um desejo tardio.

Nada aqui é por acaso e este complicado filme pode ter sua razão de ser: ao fim da vida, talvez não restasse muito mais do que tédio e zombaria, talvez a personagem buscasse esse prazer que se mostrava cada vez menos suficiente, mas sempre fundamental. O fato é que passamos esta duração aguardando uma cena que se conecte organicamente à que lhe sucede e essa costura deixa falhas.
Albert Serra apostou alto no filme, acreditando na intelectualidade de seus espectadores, mas talvez os únicos que tenham efetivamente apreciado a obra sejam os jurados de Locarno e seus pares. O tédio do século XVIII foi perfeitamente expressado aqui, reafirmando a necessidade hedonista de um homem educado como clerical e escolheu uma vida livre, mas custosa à Inquisição da época. Talvez esperássemos um filme menos galhofeiro, que trouxesse o mistério visto no trailer e na primeira sequencia. Ali sim, ficamos desejosos, à expectativa de um filme poético, diferente, interessante e até com algum suspense em um ritmo incomum. Aqueles filmes que devemos apreciar com cuidado.

Ao contrário, o filme nos fixa na cadeira porque desejamos montá-lo em nossas cabeças, à espera de algo que se conclua grandiosamente, mas não se sustenta. Em determinado momento, nos perguntamos o porquê daquilo tudo e não vemos luz, além de confirmar uma pretensão delirante de seu diretor. De alguma forma, sobrevive uma curiosidade de ver o restante da filmografia e, de repente, apreciar um olhar distinto do que estamos acostumados. Ainda assim, com todo esse vazio e tédio, o filme persiste em nós como uma peça intrigante, curiosa, que não necessitaria destes imensos 148 minutos, mas que nos prende em grandes imagens que nos deixa inquietos e, em alguma instância, reflexivos.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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