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Café: extra-forte

E chegou 2016! Que este seja um ano de Cinema para todos nós, com todos dramas, suspenses, comédias e romances com finais felizes! Inauguramos o ano com um filme que segue nos cinemas do país, um documentário sobre ninguém menos que Ingrid Bergman, uma das divas do cinema, cultuada internacionalmente e que pouco se sabia sobre sua vida pessoal. Esta era uma mulher de peso, força, vitalidade e amor: pela carreira, por seus filhos, pela vida. Imperdível.
Ingrid Bergman dá saudade. É estranho falar assim, mas a protagonista de Casablanca (1942), Notorious (1946), Stromboli (1950) e Sonata de Outono (1978) deixou uma marca no Cinema por vários motivos e é impossível esquecê-la. A atriz que morreu há mais de 30 anos ultrapassa sua filmografia e comprova sua relevância em obra e vida. Este documentário lindo e íntimo de Stig Björkman nos aperta o peito.

Ingrid Bergman – in her own words traça a biografia da atriz a partir de suas cartas, filmes familiares e diários, trazendo um olhar subjetivo, de alguma maneira dando voz a quem não mais podemos ouvir. É uma forma que parte do íntimo para mostrar o todo e sair do modelo entediante da cronologia rasa. Ingrid viveu uma vida plena e intensa, se reconstruindo sempre que achava necessário e com as duras consequências de suas escolhas. Nascida em 1915 na Suécia e órfã aos 12 anos, iniciou sua carreira aos 20, sempre buscando algo além da mera exposição da beleza, entendendo a arte como uma forma de viver. 

O star system americano, esse que molda o elenco, forjando a ferro e fogo suas personalidades também o fez com ela. Ingrid faz parte daquele Olimpo de grandes e inalcançáveis estrelas, com a aura mística da era de ouro. Ela conseguiu ultrapassar esta construção artificial dos grandes nomes e garantiu seu espaço em uma carreira internacional. Ao escolher Roberto Rossellini como o novo amante e depois marido, foi julgada por uma Hollywood invasiva e convencional. Adúltera, quebra o padrão de comportamento da época, é quase banida dos Estados Unidos e decide viver na Itália. Na América dos anos 50, as liberdades eram privilégio masculino e imagina-se o perigo de uma mulher adorada por todos, servindo de modelo feminino e imaginário masculino, tomar a dianteira de sua vida e romper o casamento.
Além da história com Rossellini, que lhe deu mais 3 filhos além da que já tinha do primeiro casamento – entre eles, a atriz Isabela Rossellini – outros homens de peso passaram por sua vida e um deles foi Robert Capa. O celebrado fotógrafo de guerra pode ter sido a primeira grande paixão da atriz e a certeza de que seu casamento não teria força suficiente para ser de vida inteira. Ela viveu seus romances, deixando aos maridos boa parte da responsabilidade sobre os filhos, tentando conciliar uma vida de mulher, mãe e, primordialmente, atriz.

Talvez seja neste aspecto que o filme peque um pouco, por nos deixar querendo ver mais sobre sua vida profissional, além do retrato pessoal. O que apreendemos aqui é sua avidez, a luta por seus papeis, o encontro com os diretores geniais do mundo – Rossellini, Hitchcock, Renoir, Curtiz, Bergman, Lumet, mas ainda superficialmente demais, não satisfazendo nossa curiosidade. Quase não ouvimos muito sobre seus trabalhos, à exceção de algumas curtas entrevistas com Liv Ullman e Sigourney Weaver, algumas falas da própria Isabella e os encontros finais com Ingmar Bergman – para Sonata de Outono – nos deixam sedentos e ansiosos. O processo criativo dos grandes artistas é sempre interessante de visitar.

Em suas correspondências há muito da vida familiar, surpreendentemente, e ansiedades quanto aos projetos, mas nada detalhadamente sobre eles. É um ponto fraco do filme, que poderia ser o definitivo sobre a atriz, mas opta pelo percurso íntimo, sublimando a carreira. Esta opção nos regala com o que não costumamos ver, é bem verdade, e nos aproxima de sua protagonista, evidenciando sua humanidade, a tornando ainda maior, mas não dá o devido peso que a tornou grande para o mundo, sua qualidade e experiência enquanto atriz.
Ingmar Bergman e Ingrid Bergman
A graça maior, que retoma a importância desse documentário, é vê-la nos filmes de família, reencontrando sorrisos em contraste com os densos personagens que fez. Vê-la à vontade e ouvir suas cartas e diários é sempre um presente para a cinefilia e seus seguidores. O que falta aqui traz de volta a nostalgia e a vontade de revê-la, buscá-la em sua filmografia, confirmando sua importância para o Cinema e tentando entender porque este sim, sempre foi seu grande amor.

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Como uma seleção de contos em um livro, 5 vezes Chico – o velho e sua gente é um documentário de 5 diretores brasileiros sobre o Rio São Francisco ou são 5 pequenos documentários interligados pelo rio. De qualquer forma, é uma coleção de fotografia linda, cheio de boas histórias e muita verdade.

Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes se reúnem em torno desse rio que atravessa 521 municípios em cinco estados. Assim, a terceira maior bacia hidrográfica do país é retratada sob cinco vieses: histórias de pescadores, sincretismo religioso, uma família que sofre com a escassez dos peixes, Cícero, um homem que se considera o último cangaceiro do semiárido e vive do turismo histórico e, por fim, desembocamos no encontro do rio com o mar, em cenas belíssimas graças à diretora de fotografia Heloisa Passos, com seu Heleno nos contando um pouco sobre o rio e a importância que tem para sua vida.

Como nas histórias curtas que os bons contos proporcionam, ficamos ansiosos por ouvir mais, saber mais, ainda que o que se diz ali deva se bastar. Aqui, de cara nos deparamos com um trabalho estético sem igual, com estas águas correndo como o sangue nas veias e nos caminhos que perfuram nos solos com sua força em alguns momentos abrindo os famosos cânions, em outros numa paz que tranquiliza os corações e proporciona a pesca, a lavação de roupas, a vida ribeirinha.

Vivemos um período difícil no país provavelmente em todos os aspectos. A cada mirada, um problema se avizinha que parece sem solução e a morte do Rio Doce, outro fundamental ao país, é mais uma destas grandes feridas – além da já ameaçada e aguardada para o próximo verão, escassez de água. Ver o Rio São Francisco em seu esplendor, retratado com a sensibilidade destes diretores tão diversos que buscaram na vida dos desconhecidos, dos que vivem – literalmente – à margem, é um presente.

A montagem conecta as histórias de forma sutil e quase não percebemos que estamos começando uma nova em outro trecho da correnteza. Aos poucos, nos deparamos com os novos personagens que contam um pouco de suas vidas e com o olhar sob a cultura nacional vista de dentro e por poucos. Os cotidianos, a dependência da natureza, o sustento e a vida simples e tão rica nos deixa saudosos de um passado, de uma viagem em família quando éramos menores e cruzávamos a Bahia de carro para ver um céu mais estrelado que o da capital.

Neste documentário, não espere dados geográficos, legendas explicativas dos trechos, suas barragens ou quaisquer interferências pedagógicas – reside aí a originalidade do conjunto. Não percebemos quem dirige que trecho, da mesma forma. A ideia é que seja um caminho fluido como o curso do rio, que percorra os diferentes olhares e que juntos, tome uma forma orgânica. Essa ausência de pausas nos toma de susto,já que inicialmente esperamos algum tipo de crédito que separe seus episódios. Após este primeiro momento de adaptação, segue-se bem e passa-se a acompanhar de forma tranquila o que é exposto. A profundidade da narrativa está nas entrelinhas; o que vemos aqui é a superfície do rio e de quem vive dele e para ele. Em curtas, não conseguimos ir ao âmago de nossos objetos, mas tão somente conhecê-los, como se estivéssemos sendo apresentados ali e ficássemos esperando o momento da conversa. Ficamos assim, com esta poesia de filme, que traduz um pouco a vida no rio e com o rio. Nada além, mas, bem feito e um deleite para os olhos, deixando a vontade de saber mais, entre a superfície das águas platinadas, suas margens e uma curiosidade insatisfeita e feliz sobre sua natureza e força. 
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Conversei com Guilherme Coelho, diretor de Órfãos do Eldorado via e-mail, ele entre os festivais de Varsóvia e Chicago, eu no Rio de Janeiro. Segue um trecho do bate papo.

TR: A história do livro começa no início do século passado. O que te fez trazê-la para um período mais próximo do nosso?
​GC: Uma coisa que a gente não queria era fazer um épico, então sabíamos desde o início que deveríamos cortar as muitas elipses de tempo do livro. Eu fui entendendo também que não gostaria de fazer um filme de época, pois poderia ser cafona. (...) Que fosse atemporal, descolado do tempo cronológico. (...) O diretor de teatro Frank Castorf foi uma importante referência pra mim nisso. Suas peças são interessantes colisões de diferentes tempos, num palco. Então fomos atrás de misturar tempo, memória e fantasia, no cenário amazônico.
TR: ​Você fez algumas alterações com relação ao livro. Quanto tempo levou para fazer o roteiro, quantos tratamentos fez para chegar a esta forma?
​GC: Trabalhei uns 3 anos no argumento e no roteiro, e com muita gente. Perdi a conta das versões. Eu queria escrever sozinho, mas sempre ouvindo os outros. Adoro ter com quem trabalhar. Cinema é legal porque é coletivo. A escrita do filme eu sabia que tinha que vir de mim, pois ao escrever um filme como esse você já está dirigindo o filme. (...)

Trabalhei o argumento com a Maria Camargo, depois com a Leticia Simões e com a Aline Portugal​, e terminei a versão final com o Marcelo Gomes. Trabalhei o roteiro com a Aline, e depois com o Hilton Lacerda. Depois, Marcelo Gomes e João Emanuel Carneiro terminaram de pensar o roteiro comigo. Na filmagem, reescrevi algumas cenas, depois da Karen Harley, montadora do filme, nos visitar em Belém. Na montagem, que é a continuação do roteiro, Karen e eu trabalhamos com o Marcelo Gomes e com o João Emanuel, amigos e importantes parceiros neste filme.  

TR: ​Como você chegou aos enquadramentos propostos? Foi estudando as locações muito previamente ou seguiu um pouco o processo documental de interferir o mínimo no espaço urbano e natural da região?
​GC: A gente viajou muito em busca de locação. Viajei com o Milton Hatoum, Marcelo Gomes, Maria Camargo, Karen Harley, ​Marcello Maia, Tiago Marques, Teijido. Eu fotografei a região durante seis anos. Fiquei apaixonado por Belém, e vivi muito a cidade sempre que ia visitar. Ficava viajando com o filme na minha cabeça, em Belém, e subindo e descendo os rios nos barcos. A intervenção foi mínima, mas como tínhamos que criar uma atmosfera de fantasia e tragédia, tivemos que escolher bem o que enquadrar. Enquadrar não é apenas escolher o que fica no quadro, mas talvez, mais importante é o que não está no quadro. A diretora de arte Marghê Pennacchi e o Adrian Teijido, fotógrafo, trabalharam comigo em pensar como criar esta Amazônia fantástica e onírica. O trabalho dos fotógrafos Luis Braga e Marcel Gautherot foram importantes referências para nós.


TR: Qual é a sua relação com o Pará? Como surgiu o encontro com Milton Hatoum?
GC: Meus avós paternos são paraenses, de Belém, e como muitos paraenses pegaram um Ita no Norte e vieram pro Rio na década de 1940. Eu nunca tinha ido a Belém até oito anos atrás, quando fui fazer um trabalho, um video institucional. Aproveitei para ficar dois dias em Belém pra pesquisar um pouco sobre a história deles e pra fazer umas imagens da cidade com o meu amigo e fotógrafo Alberto Bellezia (que fotografou o "Fala Tu” e o “PQD”).

Belém me encantou e fiquei voltando à cidade nos próximos anos, primeiramente sob o pretexto de fazer um filme sobre a vida do meu avô, que trabalhava nos telégrafos bem em frente ao porto de Belém. Eu estava trabalhando nesse roteiro quando, em 2009, o Milton Hatoum lançou “Órfãos do Eldorado”. A Alexandra Maia, autora carioca e minha amiga, me recomendou que eu lesse, pois achou que haviam semelhanças com o roteiro que eu estava tentando fazer. E realmente tinha muito do que eu estava trabalhando: decadência, dissipação, enlouquecimento.

Eu já tinha trocado emails com o Milton Hatoum acerca do grande Dalcídio Jurandir, romancista paraense da segunda metade do século XX, que escreveu dez livros do seu chamado Ciclo do Norte. (...) Então, voltei ao Milton para falar sobre o “Órfãos”. Rapidamente entendi que grande parte da produção deveria se passar em Belém, minha musa, mesmo que nunca falássemos ou mostrássemos no filme que ali era Belém. Belém é uma cidade mágica; uma cidade de muitas épocas; a melhor comida do Brasil; de gente sem afetação, que conversa sobre literatura numa esquina de bar; e celeiro de uma tradição visual muito forte, de onde vieram ou beberam importantes fotógrafos e artistas plásticos brasileiros.

TR: Essa é sua primeira ficção; como foi essa transição de um "gênero" pro outro? Acha que é episódica ou pretende se manter mais próximo a um "tipo" de filme?
GC: Eu quero voltar a fazer documentários quando estes forem projetos com um dispositivo, isto é: a forma do filme, o seu processo, é o que há de principal - e não o seu tema. Não quero fazer mais filmes sobre “isso” ou “aquilo”, mas sim filmes que tenham um processo, um formato que explore linguagem narrativa e/ou visual.

Na ficção, eu gostaria de fazer outros filmes que sejam apoiados no trabalho dos atores e também na construção de uma atmosfera singular, com as equipes de arte e de fotografia.
Diz-se que fazer documentário é ir ao encontro do outro, e que fazer ficção é falar de si. Como "eu sou um outro” quero tentar alternar entre os dois gêneros, e assim deixar que eu seja tantos.

TR: Não encontrei referências suas de outras produções que não documentais e, ao mesmo tempo, o filme parece feito por alguém com muita experiência. Você participou de algum outro projeto ficcional antes?
GC: Eu só havia participado de roteiros, e nenhum havia sido filmado. Tinha produzido dois comerciais, e dirigido um videoclipe, mas tudo muito rápido. Eu nunca havia embarcado numa “construção” ficcional, de ter que pensar tom, conversar referências com os departamentos de arte, figurino e fotografia. Tudo isso me assustou muito no começo. Mas eu tive muita sorte em ter sempre ao meu lado, ao longo de todo o processo desse filme, a minha ex-mulher, Amora Mautner, que tem muito talento e experiência em fazer justamente isto: pesquisar, discutir e colaborar com equipes na criação de “mundos ficcionais”. Ela foi fundamental pra que eu entendesse, não o que eu gostaria de fazer, mas sim como liderar este processo com muita ética de trabalho, uma certa megalomania, estando muito aberto aos colaboradores e fazendo-os parte integral de tudo. Por tudo que ela me ensinou e pelo amor que vivemos, e que tanto me inspirou a contar esta história, o filme é dedicado a ela.


TR: Como foi o processo de construção de personagens e preparação dos atores? Você já tinha ideia do elenco desde o início? 
GC: Eu sempre soube que a Florita teria que ser a Dira. Sobre o Arminto, eu fui levado ao Daniel pela loucura e doçura dele. Ele foi um parceiro maravilhoso, um profissional exemplar, e uma referência como pessoa bacana e íntegra. Depois achamos a Mariana Rios, que foi também de uma dedicação admirável. O Adriano Barroso (Denísio Cão) eu sempre quis escalar, pois o conhecia de Belém, onde ele é um importante ator e produtor cultural. De resto havia o elenco de Belém, que eu queria muito ter no filme, inclusive para falarmos o português na segunda pessoa de maneira correta.

Fizemos uma preparação no Rio (de Janeiro) com a Maria Silvia Siqueira Campos e com o Marcelo Grabowsky, e lá em Belém (nos rios) continuamos este trabalho, mas tendo conosco também o mestre em butô Tadashi Endo. Foi muito bacana, e nos ajudou a chegar numa energia conflitante e numa tensão que eu queria para as atuações. O desafio era fazer melodrama, com atuações fortes, mas não melodramáticas. 

TR: Quais são suas referências cinematográficas? E literárias, já que este é um filme que parte de um livro?
GC: "Last Days" do Gus Van Sant foi referência pra atuação e pro desenho de som; Malick foi referência pra câmera, mas acho que não ficou muito; David Lean foi referência pra fotografia, foi importante na composição os planos abertos. A ideia era fotografar a Amazônia como um deserto; Apitchapong foi referência pro verde e pras lendas, mas não acho que tem muito a ver.

TR: Para terminar, algum projeto futuro em mente?
GC: Estou trabalhando num roteiro há um ano, talvez agora ele ande. Uma história de pai e filho aqui no Rio.

*Veja aqui o trailer do filme!
**A crítica está aqui no Café, logo abaixo e neste link.
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Bamba nos deixou de golpe. Como um raio, passou rápido demais, naquela luz toda que só vemos de relance e às vezes piscamos e perdemos sua beleza. A notícia de sua ausência veio como o estrondo que o raio faz, o trovão que nos deixa trêmulos no coração, nas pernas, o susto que aperta o peito e traz a adrenalina. Da adrenalina eu sempre gostei. Sou de natureza tranquila, mas os agitos são bem vindos. Passando férias curtas na Bahia escolhida por ele para viver e onde nasci e sempre elegi como minha eterna paixão, aqui também Mahomed Bamba ficou. 

Conheci esse homem lindo como meu professor de Estética do Cinema talvez em 2001, 2002. Simpático com todos, educado, gentil, cortês, nos seduziu imediatamente. Éramos a primeira turma do curso de cinema na cidade. Jovens cheios de energia criativa e vontade de ser artista. Ele chegou rindo, aquele sorriso largo, uma qualidade no ensino, aulas deliciosas e iluminadoras. Como todos nós, ele não era perfeito, mas era uma dessas pessoas maravilhosas que temos sorte de conhecer e nem pensamos em muito mais do que isso. 

Lembro de um dos primeiros Panoramas de Cinema que exibiu um filme de Costa do Marfim. Era em um dia de semana - ou talvez um sábado - de manhã, nesses horários que só gente cinéfila maluca frequenta as salas. Éramos cinco anônimos numa sala vazia de multiplex de shopping e quando a sessão acabou, ouvi o "madmoiselle reuter" de sempre. A única aluna do curso de cinema na sala, ele me perguntou por que ver um filme da Costa do Marfim e eu disse que era por não conhecer o cinema de lá e ter como referência do país justamente ele - o professor. Assim nos tornamos amigos, eu acho.

Sempre existiu um carinho mútuo muito grande. Ele me acompanhou durante a graduação e até no conturbado trabalho de conclusão de curso que me fez querer acabar com o autoritário produtor francês. Com toda a paciência do mundo, este homem mediou os conflitos, traduziu os idiomas de lá pra cá e de cá pra lá, me fez mais tolerante e finalizamos - com a ajuda de tantos outros colegas e professores - o primeiro filme da minha vida, o mais complicado, a primeira experiência meio profissional. 

Eu às vezes pensava que sentia falta de ter um mentor. Sabe quando estamos meio perdidos sobre o que fazer da vida, escolhas de carreira, estudos, viagens? Eu sempre vivi e vivo isso, são crises cotidianas, mas percebi que ao contrário do que pensava, não estava sozinha. Meus mentores me acompanharam e aconselharam durante algum tempo, foram talvez uns quatro ou cinco professores que viraram amigos pra vida. E, ainda assim, de todos eles o que mais teve paciência e esteve presente até alguns dias atrás foi justamente esse moço marfinense. Moro no Rio de Janeiro há 7 anos e nossas conversas de corpo presente foram substituídas pelo universo virtual dos e-mails e trocas de mil dicas, piadas, sugestões e mensagens no facebook. A essa rede social só tenho a agradecer agora. Mas foi esta mesma rede que partiu meu coração ontem, indicando o fim da parceria.

Da adrenalina pesada convertida em lágrimas incontroláveis de um coração que tem vergonha de chorar em público mas não se controla e se esvai em rio, tento transformar a dor nos sorrisos que ele sempre tirou de mim e de quem viveu junto de alguma forma, em abraços solidários e também inconsoláveis. Das críticas dos filmes que me pedia para escrever, das que me indicava para ler, das trocas de opiniões com a aprendiz que sempre serei, das discussões no facebook - das engraçadas sobre qualquer maluquice - às cinematográficas. As mil dicas sobre livros e filmes, as mil horas me ouvindo sobre os cursos de cinema fora do país, os mestrados aqui e ali, os oitocentos projetos inacabados. Só tenho a agradecer por tudo e pedir desculpas, talvez, por não ter dado mais em retorno. 

Entre ontem e hoje foram não sei quantos recados, notas e homenagens dos meus colegas e amigos, alunos e professores, conhecidos e desconhecidos. Esse homem era unânime, foi a palavra que eu encontrei. Que tentemos levar nossas vidas como ele seguia, com um sorriso que até quem não o conheceu sabia ser honesto, elegante, sincero.

Eu só queria ter convivido mais tempo. Queria ter vindo pra esse último Panorama que você me chamou e não vim. Queria mais um cafezinho, mais discussões, mais comentários. Ficou um carinho imenso, essa vontade de chorar que vai e vem da saudade e a lembrança desse homem brilhante e carinhoso que tive a honra de conhecer. 

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Falar sobre a produção artística de Pasolini é sempre complicado. O poeta, diretor, roteirista, produtor de filmes e obras polêmicas e provocadoras quer dizer sempre muito mais do que expressa em seus filmes, ultrapassando o literal das sequências controversas. Entretanto,  pouco se fala sobre quem foi o criador de Saló (1975), Decameron (1971) e Teorema (1968), para além de sua arte. Neste Pasolini de Abel Ferrara, se fez exatamente isso: falar do homem, com Willem Dafoe (O grande Hotel Budapeste, 2014; Anticristo, 2009) o personificando em seus últimos dias de vida.

Nunca sabemos quando vamos morrer. Para a nossa sorte – ou azar, a depender do ponto de vista – provavelmente seremos pegos de surpresa e se criarão razões e mitos em torno do fatídico dia: um olhar distante, uma fala, uma declaração qualquer, coincidências. O que se diz aqui, nos últimos dias de Pier Paolo Pasolini é nada além de uma tentativa de resgatar estes momentos sem qualquer misticismo, mas com uma brilhante encarnação do ator americano no papel do diretor. A grande questão aqui talvez seja essa, sem grandes pretensões ou expectativas: a transformação de Willem Dafoe no mestre – a semelhança física por si só é gritante – ao tempo que vemos recortes de sua vida em família, entre amigos e com suas liberdades e perigos que a homossexualidade poderia assegurar à época, na Itália dos anos 70, católica como é até hoje.
O diretor italiano é pouco conhecido atualmente. Assassinado em 1975, não foi responsável por uma escola de cinema, mas deixou sua marca incontestável na história com filmes considerados polêmicos até hoje. Mas, apesar de sua importância para as artes e de seu pouco espaço na mídia contemporânea, Abel Ferrara se vale do pressuposto da familiaridade, de que teríamos um conhecimento prévio sobre o diretor e nos traz um perfil íntimo. Para o grande público, pode ser um problema.

A construção do filme, um emaranhado de situações que ilustram o que acontecia em seu último dia, parecem soltas demais, não criando necessariamente uma narrativa, mas um caleidoscópio daquele período. Esta dimensão variada, por outro lado, pode ser interpretada como a de uma vida qualquer, como a nossa, em que temos projetos em andamento, relações familiares, amorosas, nossa participação no mundo – sempre no tempo presente. Se os fragmentos não constituem um todo de início, meio e fim, a parábola do que seria um de seus futuros filmes, montada em paralelo com a vida real do protagonista, deixa clara sua conclusão sobre nossa mortalidade. E, como qualquer biografia de gente de verdade, entramos sabendo o que esperar do final.

Há algumas discrepâncias quanto a seu desfecho, especificamente sobre a forma como o diretor veio a morrer e isso me deixou confusa sobre no que acreditar. Os relatos oficiais indicam diferenças, mas o grosso da ação que culminou em sua morte não muda tanto. O fato é que era homofobia antes, como ainda é todos os dias por aqui. Se o filme nos deixa um tanto perdidos quanto à sua forma, talvez a proposta de deixar em aberto indicando a imprevisibilidade da vida, a certeza de que provavelmente não cumpriremos tudo o que nos propormos a fazer e, claro, deixaremos saudades seja uma conclusão em si.
Em uma das falas de Dafoe, original de Pasolini: escandalizar é um direito. Ser/estar escandalizado, um prazer. É este o retrato que vemos de um homem sério e certo do que propõe em seus filmes – a crítica ao capital, às hipocrisias, à religião, sempre pelo exagero – e é o trunfo do filme: Dafoe encarna o mito, seja na forma de andar, de falar, na expressão corporal, nas relações com as pessoas. Talvez aqueles que não conhecem a obra de Pasolini fiquem perdidos sem saber a dimensão deste homem para as letras e para o cinema – Ferrara dá indícios de sua relevância, mas não aprofunda, deixando para os espectadores a ‘árdua’ tarefa da cinefilia e da pesquisa. Sendo um filme de fragmentos, pode incomodar quem busca a narrativa tradicional que explica demais, direciona e nos faz acompanhar passivamente seu trajeto. O jeito é nos deixar levar, enxergar essa homenagem – um tanto estranha por se falar do momento da morte, mas condizente com um período em que questionamos nossos comportamentos e preconceitos – como uma abertura para a intimidade de um diretor maldito e majestoso.

*Esta crítica está no Blah Cultural! :)
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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