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Café: extra-forte

Pensando sobre o livro para esta semana, queria alguma coisa que não fosse muito grande, até para dar uma equilibrada nas dicas e me veio essa ideia - simplesmente um dos melhores livros que li na vida.

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Biblioteca de Stuttgart
Antes de falar sobre Sargento Getúlio, queria explicar essas fotos aparentemente aleatórias. Elas começaram aleatórias mesmo, partindo da ideia de coisas bonitas, livros, algo que contribuísse com uma visão de calma e conforto, que é como nos preparamos para ler. Agora, com as transformações do Café: extraforte, achei justo colocar fotos de bibliotecas incríveis pelo mundo. Assim, atiçamos nossa curiosidade e vontade de viajar para além das páginas que abriremos depois deste post.

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Sargento Getúlio, João Ubaldo Ribeiro
Após esta rápida digressão, voltemos ao livro da semana. O mais engraçado é que eu estava me preparando para fazer 'aquele' texto, quando resolvi buscar no próprio Café, se já havia feito algo sobre esse escritor baiano maravilhoso, João Ubaldo Ribeiro. E aí, a surpresa e a constatação de que, de 2014 para cá, minha percepção não mudou, mesmo tendo lido muita coisa depois dele. Segue o primeiro parágrafo:

Eu já estava pronta pra dizer que esse é o melhor livro que li esse ano. O melhor de muito tempo, na verdade. E é mesmo... mas eu li outros muito bons em que não escrevi nada (o de Ingmar Bergman, Lanterna Mágica é impressionante, por exemplo... assim como Macbeth, assustador) que agora fiquei tímida de considerar esse tanta coisa assim e esquecer dos outros. Mas o fato é que esse é um dos melhores em muito tempo e que me surpreendeu. Não sou crítica de livros, mas acho que todo mundo deveria, pelo menos saber que existe uma coisa dessas no mundo.

João Ubaldo Ribeiro morreu naquele 2014, ano em que outro homem imenso e tão fantástico escritor como ele também nos deixava, Gabriel García Márquez e seus Cem anos de Solidão. Um sofrimento sem fim para a literatura latino americana, um consolo saber que encontramos facilmente os livros dos dois - imortalizados em suas palavras, eternizados em nossos corações. Pronto, chega. É que quem conhece um pouquinho o trabalho destes dois homens, entende a perda e quem não conhece, é uma ótima oportunidade para fazer isso. 

Seguindo com meu post apaixonado, entrego um deleite de admiração, regionalismo e orgulho, entre as qualidades e defeitos deste ufanismo repentino e localizado no coração do país, meu Nordeste, minha vida: 

Sargento Getúlio é um homem desses rudes, brabos, cabra macho mesmo de sertão. Ele precisa levar um preso de Paulo Afonso, na Bahia, para Aracaju, em Sergipe e isso é uma viagem bem longa, ainda mais se considerarmos que ele vai por terra. Então, nosso homem segue falando tudo o que lhe acontece, nos pormenores, explica toda a sua situação sempre no presente e vamos participando do seu dia a dia em uma fala sem fim, quase sem parágrafos, quase sem parar. E não conseguimos parar de ler também. E se odiamos esse homem por algumas ações que pratica e o achamos mais ruim que o demônio, em outras, ele é um ser humano, um homem-coração. Porque o nordestino é isso mesmo, é macho até onde pode, com ou sem machismo. É macho no sentido da coragem, de meter as caras e fazer valer. É macho de enfrentar a vida, nem que precise de um facão (ou peixeira, se preferir) do lado. É macho até pra amar, que vai lá no fundo da coisa e se entrega todo, nem que se rasgue todo de dor depois. E se somos brutos é porque somos brutos, não porque somos ruins ou ‘maleducados’. Somos brutos porque não somos finos, somos sinceros e diretos e imperativos, mas cuidamos e protegemos de quem gostamos como se fossem uma parte de nós, um membro de nosso corpo ou até mais que isso. (clique aqui para ler o post completo)

Sargento Getúlio, com todas essas qualidades, esse entranhar de nordeste na pele a cada virada de página, é curto demais (176 páginas!) para o encantamento que provoca. É uma escolha maravilhosa, imprescindível e fundamental para conhecer um pouco mais a literatura brilhante do nosso país. 
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Café é essa bebida dos deuses que tanto amamos. Aqui posso contar, de coração: o título do blog veio pra mim anos atrás, porque pensei nas coisas que mais gosto na vida e uma das mais importantes é, de fato, tudo o que cerca esse grão maravilhoso. E aí, nos perguntamos: o que mais pode haver de espetacular que associe o Café e a nossa vida?

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O espetáculo, claro. É muito vasto o número de filmes e séries em que o café aparece. Há filmes feitos em cafeterias como principal cenário, há outras produções em que boa parte dos episódios se passa nas cafeterias, há filmes inteiros rodados nelas. Tomar café é um conjunto de rituais: de encontrar os amigos em casa ou em alguma cafeteria, do intervalo do trabalho ou para acelerar o trabalho, para acordar, com aquele aroma delicioso - para mim, só há dia depois de uma xícara de café preto, sem açúcar e forte, por exemplo. Então, para nos deixar com água na boca e nos fazer preparar a nossa nova xícara, trago alguns filmes e séries em que este super alimento é quase o protagonista.

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Seinfeld (1989 - 1998)
A série chegou no finalzinho dos anos 80 com uma proposta nada ambiciosa: falar sobre o nada. Larry David e Jerry Seinfeld são os criadores deste sitcom que reúne um elenco que se tornou célebre após o estrondoso sucesso da produção da NBC. Um grupo de amigos, na casa dos trinta anos vive em Manhattan e passa por situações do dia a dia com um humor rápido e inteligente. Cada personagem é construído com forte e distinta personalidade para dar um alívio cômico sem parecer besta, e calcado na realidade. E eles sempre se encontram onde? Na casa de Jerry (ops), e na cafeteria da esquina. Sempre tomam café por lá e é onde discutem grandes assuntos, relacionamentos e situações de seus cotidianos. São nove temporadas e todas estão no Amazon Prime, super fácil de encontrar.

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Friends (1994 - 2004)
Junto com Seinfeld, Friends tem uma premissa parecida, apesar de ser completamente diferente. É também um grupo de amigos, alguns dividem apartamentos em Manhattan - lá o aluguel é caro de verdade - todos se encontram na Central Perk, a mítica cafeteria que se tornou famosa sem sequer existir. Após o boom, se fez um marketing intenso da série e boa parte dele também carrega a marca da cafeteria. Mônica (Courteney Cox), Rachel (Jennifer Aniston), Phoebe (Lisa Kudrow), Joey (Matt LeBlanc), Chandler (Matthew Perry) e Ross (David Schwimmer) se conhecem e estabelecem essas amizades que nos fazem sentir saudades dos nossos amigos de longe e de perto. A série é de comédia, os personagens estão saindo dos seus vinte anos e muita gente a compara com Seinfeld, há até uma briguinha dos fãs para definir qual é a melhor. Eu amo as duas, então não é um problema para mim. Cada uma tem uma narrativa diferente, as duas têm grandes personagens e estilos de comédia distintos - uma situação em que todos ganham. Na Netflix.

seinfeld-café
Comedians in cars getting coffee (2012 - )
O mesmo Jerry Seinfeld da série homônima volta aqui em um projeto que começou 'pequeno' e segue hoje com várias temporadas. O comediante usa a premissa do título: ele busca outros comediantes, amigos, em um carro e os leva para conversar enquanto tomam café. Seinfeld é fissurado em carros, dos vintage, velhos mesmo aos luxuosos. Ele associa cada convidado a um carro e lhe atribui características comuns. Ao levar uma grande personalidade - Ellen DeGeneres, Jim Carrey, Julia Louis-Dreyfus, Amy Schumer, Jimmy Fallon, Seth Rogen e muitos outros - para uma cafeteria distinta por vez, ainda vemos aquelas imagens belíssimas em alta definição de nossa bebida maravilhosa sendo colocada nas xícaras, sendo preparada. É um programa super leve e alto astral, que pode ser visto a qualquer hora. Uma delícia, quase food porn de café para sofrermos de desejo. Com nove temporadas até agora, na Netflix.
 
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Sobre café e cigarros (2003)
Um filme sempre citado quando se trata de cinema e café é este, por motivos óbvios. Jim Jarmusch traz seu cinema estiloso e independente aqui, com grandes atuações e a premissa básica de que seus personagens se encontrem em uma cafeteria, bebam café e fumem cigarros. O elenco corrobora a qualidade da trama e de seus diálogos inusitados: Iggy Pop, Bill Murray, Roberto Benigni, a dupla do The White Stripes e por aí vai. Filme inteligente e em preto e branco, é uma delícia de assistir e acompanhar aquelas mentes brilhantes em um falso dia a dia de momentos comuns a todos. Cigarros à parte, vê-los conversando e tomando café despretensiosamente é sempre muito bom. Completo e legendado no Youtube.

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O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001)
Ah, esse é aquela delícia de filme francês, fantasia máxima romântica, razão do meu viver que transformou a atriz, Audrey Tautou, em it girl (ainda se usa esse termo?) e todas nós queremos ser Amélie. O fime é um romance leve e um pouco fantástico sobre essa moça solteira e um pouco solitária que trabalha em um café de Paris e se encanta por um rapaz. O destino faz com que se encontrem depois de algum trabalho, aventuras e a fatídica transformação da personagem. O filme foi um sucesso absoluto e é um acalanto para os corações dos sonhadores - como eu - que sempre buscam um pouco de fantasia e criatividade para quebrar a rotina. Vale assistir de tempos em tempos, é engraçado e atrela o dia a dia da mocinha na cafeteria com os clientes, figuras únicas, colegas de trabalho e até vizinhos de casa. Ah! A cafeteria em que ela trabalha, a Café des Deux Moulins existe de verdade: fica em Montmartre e dá pra visitar e tomar um cafezinho, em uma viagem à capital francesa. Anota a dica! Você encontra o filme na Amazon Prime.

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Café Sospeso (2017)
Café suspenso ou pendente é uma generosa tradição italiana em que, quando uma pessoa for tomar um café, deixe outro pago para quem não teria condições para isso. Assim, o responsável pela cafeteria se responsabiliza e oferece um café a quem mais precisa. O documentário registra a importância que o café tem na vida de três pessoas em Buenos Aires, Nova York e Nápoles. Na Netflix.

Sabe de outros filmes e séries que trazem nossa bebida maravilhosa para o centro da trama? Me conta!
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nova-logo

Hoje é dia de alegria! Estamos de marca nova, atualizada e linda, então resolvi contar um pouco a história do Café: extraforte e de como cheguei até aqui. Meio sem saber como começar, conversei com uma amiga, que perguntou: há quanto tempo o Café existe? Eu calculei uns dez anos e fui buscar a primeira postagem. Pra começo de conversa: fevereiro de 2007.

O curioso deste primeiríssimo texto é que ele puxa algo que não existe mais, para a minha infelicidade e incompetência na arte de fazer backups: tive outro blog antes do Café, o Instantâneos. Ali, já buscava uma coisa entre cinema e textos curtos. Eu gostava bastante, mas queria novidade. O Café surgiu voltado para a Crítica de Cinema, tudo com C maiúsculo, de quem quer se levar a sério - era o último ano da graduação em Cinema. Em paralelo, mantive uns textos aleatórios e outros mais ambiciosos. E a coisa foi andando.

Em 2009, ganhei uma marca. Jamile Buck, amiga da vida, da família e dona da melhor agência de endomarketing que existe, a Nova Café, desenvolveu essa arte linda que fala de conversa, de bate papo com café, elemento que nos une - a mim e a ela - e a muitos outros amantes deste grão-bebida maravilhoso. A arte era para isso, para dar uma identidade para o que eu via como crítica de cinema, como uma conversa com o leitor, assim como para os contos e crônicas, para sentar em casa e passar o tempo. Tudo isso de marca e identidade eu fui entendendo aos poucos, quando entrei na Globosat e fui trabalhar com publicidade.

A correria era grande e nos dez anos que se seguiram, mantive o Café funcionando. Não aguentei também ser apenas coordenadora de produção comercial na tv, então fui assistente de produção em um festival de cinema, coordenadora em outro, jurada em um terceiro. Continuei com as cabines de imprensa e segui escrevendo as críticas e histórias no Café, virei colaboradora no Plano Feminino e no Blah Cultural. Fiz um monte de cursos e uma segunda pós-graduação (a primeira foi a que me levou ao Rio, em Cinema Documentário na FGV), em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo na PUC. Passados dez, quase onze anos, tudo mudou de novo. Chegamos em 2020.

2020 significa 13 anos de Café: extraforte. Mas, também significa saída do emprego, pandemia, deixar o Rio de Janeiro, voltar a Salvador. Significa o fim de um ciclo, transformação e abertura de novos caminhos. Significa uma pausa obrigatória - a da pandemia - e olhar para dentro, para o que temos de íntimo e definidor de nós mesmos. Uma grande tarefa. Significa, para mim e por fim, o retorno à minha cidade natal, que deixei menina e voltei mulher. Com tudo isso e com a forma como consumimos internet e conteúdo hoje, significa também que o Café: extraforte precisa mudar.

A nova marca, também desenhada por Jamile, dá uma ideia mais clara das coisas, dos objetivos, do que é preciso fazer. Ao mesmo tempo, traz um conceito de integração e novidade. É algo que conversamos bastante, até pelo consumo de redes sociais e de como precisamos estar conectados 'o tempo inteiro' - coisa a qual me oponho ardentemente. Uma atualização de marca é como apertar aquele refresh do navegador, o F5 do teclado. É piscar o olho várias vezes para lubrificar o olhar, é levantar da cadeira para esticar a coluna e se alongar. É pegar um cafezinho, recarregar as baterias e voltar ao trabalho. É assim que eu vejo o Café: extraforte, como um espaço de integração, de comunicação e conteúdo de qualidade. De experimentações. Também é um espaço a ser compartilhado com os os amigos que escrevem, com os artistas de cinema e sobre os assuntos que me movem e, por sorte, movem boa parte do mundo.

O Café: extraforte segue mais robusto, mais atualizado, com muito mais conteúdo diversificado. É um espaço vivo e que precisa ser compartilhado, feito para trocar ideia, para falar sobre os nossos assuntos, para ampliar horizontes e gerar oportunidades. O Café virou um projeto de vida e segue também como prazer, que é o que eu sinto quando escrevo. Como essa mocinha da xícara, que vai sorrir toda vez que alguém a convidar para um café em algum lugar. Que quer ser embaixadora de um café gostoso, de sabor forte e personalidade. Que quer visitar os cafés da cidade e do mundo. Que não quer fama, quer trabalho. E que quer, acima de tudo: cinema, viagens, livros e café.

Vem comigo, trago grandes histórias, boas energias e muita cultura para transformar ideias em projetos. São treze anos de formação, informação e a delícia de fazer tudo com o prazer de ter sempre uma caneca de café quente e fresco ao lado.
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Último dia de junho e estamos como? Arrumando a casa, faxinando, lavando prato, cozinhando como nunca nessa vida. Quem pode ficar em casa precisa mesmo segurar a onda, porque infelizmente ainda não chegamos naquele momento tão aguardado de controle da pandemia. Enquanto isso e para não enlouquecer, cheguei para te salvar!!


As dicas de junho estão bem variadas, isso é um fato. Com a tristeza que foi o caso de George Floyd e sua repercussão - especialmente pelo racismo nos Estados Unidos ser tão bizarro e acintoso - trouxe umas coisas aqui e nas dicas Amazon Prime, também deste mês, para repensarmos um pouco o que se vive lá e o nosso dia-a-dia nem tão diferente assim. Mas, tem também leveza no meio do caos, com uma seleção animada de filmes e séries para darmos aquele respiro antes ou depois do noticiário - que eu, particularmente, não assisto há bastante tempo. As notícias, acompanho em texto, nos sites de imprensa, porque de alguma forma me parecem menos apelativas e consigo digerir de forma menos pior. Pode ser uma boa dica essa. Mas, vamos à nossa seleção!

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Olhos que condenam (2019)
Minissérie lançada ano passado pela Netflix. Baseada em fatos reais, conta a história de como cinco adolescentes foram acusados e presos injustamente por um ataque a uma mulher branca no Central Park, na Nova York dos anos 80. Criada por Ava DuVernay, a mesma que dirigiu 13a emenda (também na Netflix), mostra a injustiça e racismo históricos dos Estados Unidos. Após a série, ainda há uma entrevista especial com Oprah Winfrey e os jovens, agora adultos, no streaming. Condizente com nosso triste ano, especialmente para que este caso, o mais recente, de George Floyd e tantos outros não sejam esquecidos. Nazistas, racistas, fascistas, não passarão.

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Valeria (2020-)
Série espanhola sobre quatro amigas adultas vivendo a vida entre relacionamentos, amizades e trabalhos. Um pouco como Sex and the City destes anos 2020, talvez mais bobo. Traz a comédia, o drama e o romance leves para nos distrairem nestes dias complicados. 

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Quase Feliz (2020-)
Outra série ótima para passar o tempo é Quase Feliz. Comédia argentina não pastelão, conta a história do portenho Sebastian, separado e pai de dois filhos, que busca uma nova forma de conviver com a ex esposa e se reconciliar com a própria história. Apresentador de um programa de rádio, conta ali seu cotidiano e, ao decorrer da série, outros tópicos surgem, como apps de relacionamento, os pais, a velhice, sexo, a amizade com a ex, carreira e por aí vai. Inteligente e sincero, vale muito.

jeffrey-epstein-netflix
Jeffrey Epstein - poder e perversão (2020)
Nova série documental que trata de criminosos e suas histórias bizarras. No caso de Epstein, há o agravante de ser um estuprador de crianças e jovens mulheres, além de ter feito tráfico sexual com algumas das vítimas. Rico, inteligente, poderoso e influente (ele conviveu de perto com a alta classe americana e inglesa, como Trump, Clinton e príncipe Andrew), era impossível ser preso por seus crimes. Com os movimentos feministas contra o assédio dos últimos anos, mais uma vez seu nome veio à tona e então virou manchete em todo o mundo. A série acompanha a trajetória de seus crimes em escala mundial, denunciando sua rede de influências e a compra da justiça norte americana. Dá muita raiva e nojo, mas precisa ser visto.

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Garota exemplar (2014)
O diretor de Clube da Luta, Seven, O Curioso Caso de Bemjamin Button entre outros, traz essa adaptação do romance homônimo de Gillian Flyn. O suspense conta a história do desaparecimento de Amy (Rosamund Pike), casada com Nick (Bem Affleck). A partir disso, indícios criam a suspeita de que Nick poderia ser o responsável, ao mesmo tempo em que gera desconfiança no próprio sobre sua esposa. Em paralelo, vemos a trajetória da mesma e tentamos juntar as peças. Com roteiro brilhante e uma trama intricada, homenagens a Alfred Hitchcock pipocam em algumas cenas e fazem os mais atentos sorrirem. Impressionante até o desfecho.

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Efeito Pigmalião (2019)
O dia a dia em uma escola de periferia de Paris é abordado aqui, com diálogos rápidos e um quê de drama. Leve, engraçado e que traz questões relevantes à situação social francesa. Até me fez lembrar Os Miseráveis (2019) - o drama, não o musical - apenas por retornar com as questões sociais e de imigração. Os dois filmes seguem caminhos distintos, é importante frisar e merecem atenção.

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Mary Shelley (2017)
Mary Shelley tinha 16 anos quando conheceu seu marido, com então 21, o poeta Percy Shelley. O filme conta este momento de sua vida, até o lançamento de Frankenstein em 1823. O livro é tido como terror e também como ficção científica - em tese, o primeiro do gênero no mundo. Mas, o livro vai além e é disso que trata o filme, dos temas que perpassam o horror dos crimes e da formação do homem-monstro. Frankenstein é sobre solidão, adaptação a um mundo enquanto renegado, um órfão que vive à margem, no desprezo e escárnio social. É um livro brilhante, um clássico que ultrapassa séculos e se mantem atual. Uma delícia de ler, uma escrita rica e vibrante.

petra-costa
Elena (2012)
Primeiro longa de Petra Costa (Democracia em Vertigem), este é um documentário de busca por sua irmã, Elena. Sensível, íntimo, pessoal e extremamente delicado e bem feito, é uma obra que nos puxa pra dentro da história sem percebermos e então já estamos envolvidos e quase fazendo parte daquela situação. Um grande filme, que trouxe a diretora para os holofotes do cinema brasileiro. A crítica segue aqui.

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Grace e Frankie (2015-)
Uma série leve e divertida com elenco espetacular e várias temporadas é tudo o que precisamos para passar o tempo. As protagonistas são duas conhecidas de longa data, cujos maridos são amigos e trabalham em um escritório de advocacia. Após décadas de relacionamentos com elas, os dois assumem que são gays e têm um caso. É a hora da virada para todos eles e, então, as conhecidas viram amigas e passam a dividir as agonias, trapalhadas e alegrias da vida. Com Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston e Martin Sheen como o quarteto complicado, garante gargalhadas em seis temporadas. 

grease - nos tempos da brilhantina
Grease (1978)
Adaptação do musical homônimo de 1971, traz Olivia Newton-John e John Travolta em um filme que se tornou clássico eterno de nossas vidas. Romance musical leve, conta a história de um garoto popular na escola que se envolve pela mocinha recém-chegada. Bem clichê, dançante, leve e maravilhoso. Abre o coração e entra nessa, que vale o tempo investido.
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Chegamos na última semana do mês e para encerrar com chave de ouro os assuntos sobre nosso #artistadecinema de junho, vamos com uma coisa muito especial. Chega mais!
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Biblioteca de Sift Admont
Como já sabemos, Artista de Cinema é nossa postagem semanal sobre uma personalidade importante para a sétima arte no mundo. Suas contribuições são relevantes não apenas para o fomento cultural, como servem de referência para futuras gerações. Em Junho, nossa convidada especial foi ninguém menos do que Fernanda Montenegro, esta entidade da nossa cultura brasileira. Hoje, para encerrar o mês, fechamos com sua autobiografia lançada ano passado, Prólogo, Ato e Epílogo. 

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Prólogo, ato, epílogo, Fernanda Montenegro
Elaborado a partir de uma série de conversas e entrevistas com a colaboração de Marta Góes, Fernanda Montenegro constrói um linha de tempo sobre sua vida, que nos permite partir do que ela considera o princípio - a chegada de seus antepassados, imigrantes italianos e portugueses no Brasil. Esta seleção não é arbitrária, nossa artista de cinema parece querer marcar sua origem como aquela ao país que pertence e do qual nunca quis se afastar - o Brasil como residência e herança.

Assim seguem suas memórias de quase cem anos, sempre entrelaçadas com nossa história política e cultural - o início de sua formação de rádio e teatro, o posterior ingresso na tv, os filmes com os grandes nomes do nosso cinema. Fernanda Montenegro é em si um patrimônio e talvez o maior nome de nossa dramaturgia contemporânea - alegria e honra de qualquer diretor e produtor cultural trabalhar com ela.

O livro cruza momentos difíceis de nossa História por quem os viveu muito de perto, produzindo cultura: os anos de chumbo da ditadura militar. Fernanda Montenegro viu seus amigos serem presos, torturados, desaparecidos. Viu as peças de teatro serem escandalosamente censuradas parcial e integralmente e resistiu, esperou por dias melhores enquanto driblava a dor de perder a arte livre e o medo de um cotidiano sombrio. Ao mesmo tempo, acompanhamos o dia a dia íntimo, a família, os filhos crescendo, os pais se envolvendo na educação e apoio aos artistas. 

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Joseph Frank, um dos mais respeitados estudiosos de Dostoiévski (Dostoiévski: um escritor em seu tempo), indica que o personagem a quem é atribuída a frase "a beleza salvará o mundo" - o ingênuo e altruísta Príncipe Myshkin, protagonista da novela O Idiota - foi construído para ser o modelo de ser humano perfeito - segundo alguns, uma mescla de Jesus Cristo com Don Quixote.

O fim da novela, entretanto, não permite concluir que a beleza salvou o mundo. Ao contrário, o que se percebe é que o homem perfeito nem consegue reverter os males da vida mundana em direção à luz divina, nem consegue, pela apreciação da beleza - duas belas mulheres captam sua atenção - atingir a felicidade.

É certo que a cultura - dimensionada amplamente - é um instrumento de transformação. Mas se engana - quem defende que ela se trata de um instrumento apolítico. É simplesmente impossível uma renovação cultural dissociada de renovação política ou dissociada de uma alteração na conformação econômica da sociedade, porque os processos culturais são simultâneos aos processos políticos e econômicos. 

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A conquista de Jerusalém, por Émile Signol.

A arte sacra, por exemplo, mostra a História, não é apenas uma manifestação pura de perseguição do belo, da verdade ou da bondade. É também uma manifestação artística com propósitos políticos claros e financiada por um sistema econômico em coordenação com esses propósitos.

Exatamente por falta da compreensão dessa articulação simultânea de processos, é possível, recorrentemente, observar o uso do adjetivo "ideológico" como algo pejorativo, nefasto, quando, em realidade, o seu significado guarda apenas vinculação com a percepção de que existe mais de uma forma possível de enxergar o mundo - e, portanto, de identificar que o é bom, belo e verdadeiro.

O discurso da desvinculação político-ideológica - que parece subsidiar uma série de iniciativas políticas no Brasil pós 2013, a exemplo do Projeto Escola sem Partido, para ficar em apenas um - tem dois objetivos claros: o primeiro, de encobrir uma ideologia, por vezes menos palatável a um eleitorado pouco simpático às ideias eventualmente por ela propaladas, com o emprego de expressões difusas e descontextualizadas ("verdade", "beleza", "em favor do Brasil", "em favor da Bahia", “pelo povo”, “pela liberdade” por exemplo); o segundo, o da apropriação dessas expressões difusas e descontextualizadas para, em um ambiente democrático, caracterizado pela dialética e pela participação coletiva, abrir margem a um decisionismo unilateral.

Compõe a identidade do povo brasileiro o seu caráter multicultural. Pretender a proteção da beleza a partir apenas de parâmetros cristãos/ocidentais (seja lá o que isso queira significar exatamente) é virar as costas à sua história e à sua memória. A apropriação da beleza, por quem quer que seja, destruirá o mundo, porque sempre provocará ódio e revolta. Não é isso o que o Príncipe Myshkin tentou fazer. A beleza não é de ninguém. A beleza é de todo mundo. 

***

Quem escreve
Bernardo Lima é Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia e Advogado. Você o encontra no instagram.

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Junho passou até mais rápido do que maio ou talvez já estejamos mais habituados a esse isolamento social. Enquanto ficamos em casa, trago a lista do que indiquei, filmes e séries da Amazon Prime Vídeo, este mês no instagram. Vem comigo!

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A vida tem mudado bastante, mesmo estando em casa. Começamos a nos adaptar um pouco mais a essa rotina que passou dos cem dias e agradecer por termos tido um verão quase livre da pandemia. Agora é encarar a reta final, fazendo campanha para amigos, familiares e conhecidos espalharem a ideia de que falta pouco mesmo, e que ir pra rua agora é dar dois passos para trás, é acreditar em um presidente despreparado, ineficiente e que só se preocupa - e muito mal faz isso também - com os seus. Como não somos dele, vamos juntos e independentes, fazer da nossa cidadania um direito e da nossa saúde coletiva, uma prioridade. Insisto nisso mesmo, porque se faz necessário. Todos os dias. E agora, nossa distração!

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Moonrise Kingdom (2012)
Enquanto a cada filme lançado por Lars von Trier saímos sofridos e horrorizados com seus desatinos e sordidezes, com Wes Anderson, o efeito é oposto. A cada obra do diretor, confirmamos uma sensação de infância, por mais 'adultos' que seus filmes sejam, com piadas e diálogos sagazes. O diretor é conhecido por seu apuro estético - é fácil reconhecer seus filmes por suas cores, movimentos de câmera, figurinos e até elenco, como se os melhores amigos estivessem sempre presente. Moonrise é uma delícia de filme que nos leva aos tempos dos acampamentos - para quem foi escoteiro - e das aventuras de crianças, para quem viajava em família para alguma cidade menor, para o campo ou apenas, para o terreno baldio do fim da rua, com os amigos do bairro. Dá para se relacionar em qualquer situação e com um elenco estelar (Frances McDormand, Jason Schwartzmann, Edward Norton, Bruce Willis, Bill Murray), a graça só aumenta. É um filme de verão na melhor acepção do termo e deve ser visto hoje e sempre. A crítica você encontra aqui.

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Pequenos incêndios por toda a parte (2020)
Baseado no livro homônimo de Celeste Ng, o drama conta a história da adaptação de uma mãe solteira e sua filha adolescente em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Com toda a questão social e racial que os acomete desde sempre e parece nunca evoluir, a série cai como uma luva no processo e traz um feito inédito, colocando Reese Whiterspoon como alguém odiável. Nunca antes na história da humanidade isso aconteceu. Político sem forçar a barra, fala também sobre comportamento, relacionamento e ser mulher. 

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A Queda! As últimas horas de Hitler (2004)
Um dos filmes mais brilhantes e sensíveis sobre o período da Segunda Guerra Mundial - e olha que fizeram e ainda fazem muitos sobre o assunto - A Queda! As últimas horas de Hitler, traz os últimos dias do ditador, escondido no bunker, entre aceitar a derrota e providenciar sua cartada final. Bruno Ganz está brilhante, carrega o filme com uma força que, de alguma maneira, conseguimos perceber um resquício de humanidade, ou melhor, de ser humano, naquele genocida. É um filmaço em todos os sentidos e deve ser visto. Um grande retrato de época. A crítica está aqui. 

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Pass Over (2018)
Seguindo a onda do debate racial norteamericano, chegamos neste Pass Over, de Spike Lee. O diretor é conhecido e reconhecido por décadas produzindo um cinema inteligente e político, trazendo as questões que lhe ferem para os holofotes e escancarando a vergonha que é esta nação racista. Aqui, dois amigos estão na esquina da avenida Martin Luther King Jr., decidindo tomar um rumo melhor na vida, sair daquela cidade opressora que se diz igualitária, mas basta a solidão de um homem negro na rua passando por outro branco para se entender o racismo. Aqui, o filme é uma peça de teatro encenada para uma população negra, tratando da questão racial de forma contundente. Os atores traduzem os sentimentos que vemos nos olhares da plateia, a indignação, a raiva, o medo nos olhares de todos os dias de pessoas que não fizeram nada para viverem assim. Enquanto decidem se ficam ou se vão, considerando os riscos de encontrar a força policial assassina de sempre, discutem a própria condição, entre risos, piadas e misérias. Lindo filme, diálogos fundamentais e, com quatro atores e uma locação, se fez uma grande obra.  

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Seinfeld (1989 - 1998)
Criada por Larry David (Curb Your Enthusiasm) e Jerry Seinfeld (Comedians in Cars Getting Coffee), a série se fez baseada em sua máxima: sobre o nada. É uma sitcom que trata do dia a dia destes quatro aí da foto em Manhattan e com essa sinopse 'original' se transformou em um dos maiores sucessos da televisão americana de todos os tempos. Os fãs costumam rivalizá-la com Friends, que surgiu um pouquinho depois e também é de sucesso estrondoso, sendo tão boa quanto. Seinfeld é um comediante - ele basicamente faz o papel de 'vida real' dele - Elaine (Julia Jouis-Deryfus) é sua amiga e ex-namorada, George Costanza (Jason Alexander) é o amigo cheio de questões e Kramer (Michael Richards), o vizinho atabalhoado. Juntos, eles traduzem uma comédia inteligente, com grandes sacadas e interpretações. Os quatros alavancaram suas carreiras aí e seguiram adiante em outras produções, com destaque especial para o próprio Seinfeld e Julia Louis-Dreyfus (Veep). São nove temporadas de muita diversão. 
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Olá! Voltamos com as terças de #artistadecinema e neste junho, com a dama da dramaturgia brasileira, Fernanda Montenegro. Ela tem nos acompanhado o mês inteiro, com crítica de filme, biografia e muito mais. Hoje é dia de ver um pouco mais dessa mulher incrível e o que circula sobre ela por aí. Fique em casa, pegue um café e vem comigo!

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Fernanda Montenegro
A vida não segue fácil já há um bom tempo e sabemos disso. As últimas notícias, entretanto, nos entristecem um pouco, quando vemos nossos conterrâneos saindo de suas casas e se aglomerando nas ruas, como se a validade do isolamento social estivesse acabado ou a pandemia desaparecido. É difícil ficar tanto tempo em casa, não está fácil para ninguém, mas sair agora só alongará esse tormento. Façam como Fernanda e fiquem em casa, seguiremos juntos, produzindo conteúdo bacana para te distrair nestes momentos delicados desde longo 2020. Hoje, o desafio é a seleção de coisas bacanas sobre a atriz que já nasceu multimídia, com uma carreira tão diversa quanto extensa em muitos meios artísticos. Mas vale a tentativa, né?

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Francisco Cuoco e Fernanda Montenegro em 1961
Começando daquele jeito, com um arquivo especialíssimo da Funarte: uma entrevista em áudio em que Fernanda Montenegro sabatina ninguém menos que Nelson Rodrigues em 1974. A foto acima é de uma montagem de Beijo no Asfalto em 1961, do autor. Fernanda encomendou a peça para Nelson que foi um sucesso estrondoso e a parceria dos dois não terminou aí. A atriz ainda filmou A Falecida, a novela A morta sem espelho e Vestido de Noiva. O áudio você encontra aqui no site da Funarte e é incrível.

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Sangue Latino
Em uma edição de Sangue Latino, programa do Canal Brasil, de dois anos atrás, com Fernanda Montenegro, ela fala um pouco sobre o ofício do ator, entre outras coisas. O episódio você encontra na íntegra (para assinantes) no Canal Brasil e no Globosat Play, mas o trecho do ofício do ator é tão brilhante e da forma como foi posto por ela, se tornou único. Está disponível no youtube. Dá quase um orgulho nacionalista saber que uma mente como esta é nascida e criada no mesmo país sofrido que o nosso, cuja educação e arte seguem na carência dos desgovernos. Como se não bastasse, ainda há no Espelho, programa com Lázaro Ramos do ano passado, a entrevista completa e gratuita aqui. 

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Central do Brasil (1998)
Em 1999, Fernanda Montenegro realizava um feito inédito para o Brasil: concorria a Oscar de melhor atriz por Central do Brasil. Além dela, a obra também estava competindo como Melhor Filme Estrangeiro e todos sabemos bem porquê, é realmente muito bom. A notoriedade brasileira ela já havia conquistado há muitas décadas, mas passou a de fato se tornar relevante fora do país nessa época. Dentre as várias entrevistas que deu, uma ficou marcada por ser um programa relevante nos Estados Unidos, o de David Letterman, uma espécie de Jô Soares gringo. O trecho legendado de Fernanda Montenegro é ótimo e você encontra ele aqui. Vale a visita.

Fernanda Montenegro e o teatro
Com mais de 70 anos de carreira, era de se esperar que a maior atriz do nosso teatro, cinema e tv fosse convidada para ministrar aulas e palestras por todo o país. Em uma conversa animada com estudantes de teatro no Teatro Bom Jesus, em Curitiba, Fernanda Montenegro fala sobre a própria carreira, responde perguntas, fala sobre o ofício do ator em uma aula magistral e imperdível que também foi disponibilizada gratuitamente para seu ávido público. Tudo aqui, neste link. 

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Prólogo, ato, epílogo - Fernanda Montenegro
Saiu ano passado pela Companhia das Letras, o livro de memórias de Fernanda Montenegro. Incrível, conta toda a sua vasta jornada pelo universo das artes e trajetória de vida, família, educação, amigos. Uma aula de cultura brasileira. O livro pode ser encontrado em quase qualquer livraria do país e é uma grande aquisição para aqueles interessados em nossa cultura. 
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Mari e Lucas

Eu casei. No meio da pandemia. Em casa.
Há mais de um ano, eu e meu companheiro planejamos uma festa de casamento. Para mim, particularmente, a festa teria um grande simbolismo, pois é um reconhecimento de que agora enxergo o Rio, cidade em que imaginei que viveria pouco tempo, como um local cheio de afetos e onde construí uma ramificação da minha família que, junto com Lucas, é composta por três dogs bem animados: Phyonna (porque ela é phyna), Bynno e Pretinha.

Estava tudo indo bem, mas, no meio dos nossos planos surgiu o caos da pandemia. Tudo suspenso. Isolamento necessário. Medo do desconhecido. Ansiedade. Os dias foram inundados por um mar de sensações, a maior parte delas pesadas, difíceis. Agora nosso foco se restringia a controlar todos esses receios e seguir em frente. Viver um dia de cada vez.

Haveria espaço para algo mais? Haveria clima para celebrar? Haveria o que festejar?
Sim, haveria. Na realidade, houve.

No meio da tempestade, tivemos um sopro de esperança, uma brisa de amor. No dia dois de maio, data que seria a do nosso casamento, houve uma celebração muito maior. Reunidos em um encontro virtual com amigos e familiares espalhados pelo país, fomos brindados com um amor fortalecedor. Declarações permeadas de um carinho tocante. E assim, não apenas casamos, mas compartilhamos com todos o presente que recebemos naquela noite de sábado, a força do afeto.

Agora, continuamos a nossa caminhada nestes tempos áridos, mais fortes e recarregados com tanto amor e carinho. Em busca de melhores dias, seguimos.

***
Quem escreve
Baiana, moro no Rio e hoje tenho a cidade como minha casa. Doutoranda em direito, trabalho, vivo com meu marido, três filhos-cachorros e algumas plantas que tentamos não matar. Você me encontra no instagram e no facebook.

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É preciso que nos alimentemos neste isolamento agora já bastante longo. Das comidas que garantem a nossa saúde à nutrição da mente e espírito, em seu sentido mais elevado, é preciso cultura, também em seu sentido mais elevado. Hoje é o dia para isso.

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Nestes tempos de isolamento, um monte de desafios se impõe sobre nós. Das coisas do pequeno cotidiano, quantas vezes limpar a casa e de que forma - isso para quem pode ficar no isolamento doméstico - a cozinha, lavar roupas... passar? Da mesma maneira, com nossas emoções. O clichê "mente vazia, morada do diabo" ganha tantas nuances, que é até difícil saber se nosso humor se manterá mais ou menos o mesmo ao longo do dia. Assim, acontece com os livros. Nossas escolhas literárias refletem nosso estado de espírito: podemos estar ávidos por entrar em uma história que seja a maior possível, que nos prenda a atenção e faça as horas voarem. Ou, quando não conseguimos nos concentrar por muito tempo, a mente vagueia e talvez algo curtinho e bem escrito nos dê aquele impulso que precisamos para atravessar um momento. Para tudo isso, estou por aqui e a dica de hoje é de um gênio, Dostoiévski.

Dostoiévski consegue tudo, sempre. De histórias imensas como Crime e Castigo e Irmãos Karamázov aos muitos romances bem menores, como Machado de Assis, ele mantém nossa atenção, não importando o volume. Sempre há fôlego. É um desses autores em que provavelmente tudo é bom (porque ainda não li tudo, não sei dizer) ou chega perto disso. Todas as suas histórias trazem um ganho para nós, uma reflexão sobre um tempo tão distante quando o endereço de suas narrativas, mas que nos aproximam, por se tratarem sempre de humanidade.

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Noites brancas, Fiódor Dostoiévski
Noites brancas é uma novela super curta, de pouco mais de 70 páginas, sobre um homem apaixonado por São Petersburgo. É um romântico clássico, um flâneur como aqueles que circulavam pela Paris daquele mesmo século, que sonha as geografias urbanas por onde passeia e cujos amores superam a própria vida. O título remete ao verão russo, quando a cidade não escurece totalmente à noite e fica uma espécie de penumbra, um ar de fantasia que cobre os espaços e confunde as horas.

Nosso sonhador é essa figura que justamente vive o verão em uma cidade quase vazia; seus moradores partem para outras paragens com mares e campos menos abafados para a temporada e ele fica lá, entre a tentativa de partir e o desejo de permanecer. Seu encantamento é tamanho, que ele sabe que perderá um pouco de cada coisa com qualquer decisão. Fica, portanto, circula pelas avenidas como um apaixonado, alienado a seus defeitos - a alienação é um fator importante na Rússia de meados do Século XIX de Nicolau I - até que se encanta por uma primeira paixão humana, uma mulher que lhe atordoará os sentidos durante quatro dias e noites.

Nunca havia lido nada tão romântico-melodramático em Dostoiévski e a experiência foi interessante. Há uma versatilidade imensa no escritor, para além de sua crítica social mais aberta de outros textos. Aqui, o tom político corre em paralelo e ao olhar mais atento, de forma que se o desejo do leitor for apenas enveredar pelo romance, é uma oferta válida. As ilusões, os encantamentos e decepções estão todos aí. Ao mesmo tempo, o caminho por uma cidade esvaziada, a tentativa de fuga e o desejo de permanência, o que isso significava em um período de forte repressão política.

Nesta edição linda da Penguin Companhia há um conto anexado, Polzunkov, sobre uma figura em um evento social que se impõe como a definição do seu nome, a partir do verbo polzti, rastejar e ao substantivo polzunok, bebê que engatinha. Uma história de observação de personagem, aquele que se faz útil aos gracejos e escárnio da sociedade para que, então, consiga fazer parte dela. Por fim, uma das melhores opções para quem busca uma leitura brilhante, de fácil digestão e ainda assim, um clássico de um dos maiores nomes da literatura mundial.
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Com a nossa ideia de contar as histórias de vida real de Camis em Dublin, me veio uma outra, de falar um pouco daqui de Salvador, para ver se nos encontramos no meio do caminho. Eu, do lado de cá, ela, de primeira viagem. Um pouco disso tudo, todo mês. 

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Nosso café de 2019 foi em Edimburgo. Onde será o próximo?
O tempo está virando aqui. Salvador vive um outono atípico, mas não há nada de normal mesmo este ano. Está começando a fazer frio - o frio daqui, dos nosso vinte e poucos graus - e tem chovido mais do que... do que sempre, porque é tudo novo e velho pra mim. Estou na cidade há quase três meses e antes disso estive no Rio de Janeiro por 12 anos. Quem já passou pelo Café, sabe que sou baiana, soteropolitana e que amo muito o meu quadrado, mas fazia tempo que não passava tanto tempo aqui. Aliás, até dele, do tempo, já falei outro dia.

Camis vive a primavera e em breve será verão em Dublin. As temperaturas mais altas para ela são o nosso inverno de praia o ano inteiro - que agora está fechada pela pandemia. Ela aproveita o relaxamento do isolamento social enquanto nós, do lado de cá, seguimos confinados na Bahia (o Brasil segue cronogramas distintos por estado), à espera de melhores dados para então, falar mal do trânsito, da hora do rush, de algo próximo daquela rotina que todo mundo sente falta - até de reclamar. Mas, com relação a isso é melhor ficarmos quietos, a Bahia vai bem na medida do possível, com ACM Neto na prefeitura de Salvador, e Rui Costa como governador, tocando as medidas de combate a esse maldito coronavírus. O povo tem ajudado, mas ainda tem muita gente dificultando o processo e atrasando a vida de quem quer se ver livre dessa agonia.

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Dá pra ver o mar da varanda. Não é uma vista 360 graus ou aquela coisa de cartão postal, mas ainda é meu mar e dá para ficar pensando na vida até perceber que perdi a tarde nisso. Diferentemente de Camis, não estou grávida mas, como ela, estou sem trabalho fixo-oficial-valendo, então temos tempos livres ou tempos de decisão acontecendo. Por ora, a meta é decidir se vou ou se fico - o Rio segue cada vez mais distante e talvez seja a hora de voltar para Salvador, nem que seja por uns tempos. Um luxo sair de uma cidade maravilhosa para outra excepcional, eu sei. Mas ainda assim, viver no meio do caminho está de matar. E nem acarajé tenho comido - deve ser isso o que está faltando.

Das coisas que não lembrava mais do dia a dia da cidade, o salitre (ou a maresia) e o vento são os mais marcantes. É impossível manter as janelas e os pisos 'não nublados' (minha versão fofa para úmidos, embaçados e salgados). Tem que limpar feito um condenado, passar pano duas vezes por vez (sim) e umas três vezes por semana se você for perfeccionista - tudo tem limite nessa vida. Varanda e janelas fechadas à noite porque faz frio e porque queremos manter os eletrodomésticos e eletrônicos vivos o maior tempo possível, antes de morrerem de corrosão. Não é exagero. Mas, faz bem né, não ser materialista e entender que um dia na vida tudo acaba, especialmente na vida de maresia. Ou no salite. 

Daqui a pouco eu volto, que o piso me espera. Conto as decisões, maluquices e acertos - assim esperamos - dessa vida de mulher independente entre duas capitais, no meio da pandemia, na expectativa de dias melhores e tentando planejar os próximos passos. 
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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