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Café: extra-forte

Para ler agora, trouxe um livro diferente, um clássico destes que achamos que conhecemos a história toda mas, quando pegamos, um novo mundo se abre diante de nós. Tanta coisa eu não sabia sobre ele e, de tão bem escrito, faz pena ser tão curto. É o momento de conhecermos Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou O Médico e o Monstro - o estranho caso de Dr. Jekyll e o Sr. Hyde.

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Publicado em 1886, estava pronto desde 1885, foi uma encomenda para o Natal, época em que era costume ler histórias de terror à beira das lareiras no Reino Unido. Robert Louis Stevenson, natural de Edimburgo - essa cidade maravilhosa que visitei e um dia comentarei por aqui - já era escritor de renome, mas ainda não havia conquistado sua independência financeira, lhe faltava um best seller. Este, em tese, não seria o escolhido, era pra ser uma história de consumo rápido cujo lançamento foi adiado por haver farta quantidade de escritos quando ficou pronto. Esse era o contexto do fim do século XIX, quando os textos tinham lugar de destaque na vida cultural e íntima das famílias. Era também o momento em que a psicanálise estava a uma década de seu 'nascimento'; suas ideias sobre a complexa mente humana já pairavam nas principais capitais europeias. 

Dr. Jekyll é um médico conceituado e de respeito na capital inglesa. Com amigos fieis, é sempre casa cheia, mas algo misterioso se passa em sua vida, que seus amigos mais próximos passam a notar sua ausência e reclusão. O médico fez uma amizade incomum com o Sr. Hyde, homem soturno e de aparência desagradável que provoca mal estar em quem lhe chega perto, como se uma energia negativa emanasse dele. Nesse ponto, lembramos imediatamente de Frankenstein, outro clássico magnífico, de Mary Shelley, que como este parece um relato de diários e agendas, mas se intensifica em uma narrativa fluida em 1823. Mas calma, sigamos em frente.

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O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson
O sr. Utterson, amigo de longa data do médico, seu advogado e guardião de seu testamento estranha que o documento o oriente a transferir todos os bens do médico ao Sr. Hyde, caso o primeiro venha a falecer. Há mais por vir, um crime cometido, uma atrocidade, desafios à moral e essa junção que dá nome ao livro: o médico e o monstro: indicações de supostas perversões por parte de um, enquanto o outro se mantém um grande e honrado cidadão. 

Há muito o que discutir neste enredo de pouco menos de 150 páginas. Não à toa, os críticos da época já assinalavam que era um livro acima das histórias de fim de ano, a côrte chegou a lê-lo, padres e pastores o utilizavam em sermões sobre a dualidade do homem, a luta entre o bem e o mal dentro de nós. Mas, não tratava apenas destes temas, como trazia o contexto da época, estratégia inaugurada pelo próprio Stevenson nos romances góticos. Antes deste, os livros tratavam de cidades afastadas, sorumbáticas, perdidas entre florestas densas e escuras e em outros tempos, em uma idade de trevas. O autor trouxe o terror para perto, para as avenidas cobertas de neblina e lama de Londres, das ruas mal iluminadas, dos bairros perigosos.  Ao mesmo tempo, não trouxe o sobrenatural, mas um relato íntimo, como o que fazemos em diários e agendas, sobre o comportamento humano, o que era aceitável e recriminável, a sexualidade, perversão e repressão. A forma escolhida para tratar disso foi nada menos que brilhante, especialmente ao lidar com aparência física - e agora lembramos de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que chega anos depois, em 1890 - e com as consequências de nossos atos.

O médico e o monstro não apenas é uma ótima distração - enquanto entretenimento - como facilmente a ultrapassa. Há muito prazer em ler, a construção da narrativa entre senhores respeitáveis e atos abomináveis, o fato de descobrirmos junto com os personagens o que vai acontecer, os temas e seus tratamentos e como dá vontade de sentar com quem já o leu e discutir por horas tudo o que não quero dissecar aqui, para manter o suspense e a curiosidade de quem for ler este romance gótico. 

 * * *

Quando terminar, me chama para um café? E enquanto isso, por que não passa no buy me a coffee e me oferece um? Assim consigo manter esse blog maravilhoso a um custo quase zero para todos =)
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Eu não sei vocês, mas uma imagem de café sempre me acalma o espírito. E tudo o que precisamos agora é de calma, para usarmos o tempo a nosso favor. Enquanto vivemos o isolamento, a quarentena desta pandemia no país com a pior política de combate à doença, sigamos com uma das coisas que temos de mais preciosas no mundo, e que às vezes não damos valor: a cultura. Sabemos que, em tempos de recessão, ela é a primeira que sofre mas, paradoxalmente, é uma das que mais se precisa, quando o ócio ultrapassa o tempo da preguiça gostosa e nos deixa um pouco vazios e entediados. Por isso, seguem aqui as dicas do Amazon Prime Vídeo, para nos alimentarmos com filmes e séries que valem a pena e fazem do nosso tempo, um momento de entretenimento, prazer e por que não, educação.

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Chef (2014)
Um filme que fala de uma profissão que vai aos extremos, do glamour de grandes restaurantes à lanchonete da esquina. Chef conta a história de um cara que pede demissão do restaurante em que trabalha pra resgatar a criatividade de que tanto sentia falta, comandando um food truck com a ajuda da família. Divertido, humano, gostoso de ver (pelas comidas e pelo ritmo) e ainda conta com um elenco estelar. Meio roadmovie, meio comédia, é tudo o que precisamos. Jon Favreau dirige, escreve e protagoniza o filme com Sofia Vergara, Scarlett Johansson, Bobby Cannavale, Dustinf Hoffman e Robert Downey Jr.. Em 2019, ele se empolgou com a história do filme e produziu uma nova série, The Chef Show, que será uma das dicas para junho, neste maravilhoso espaço.

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O bebê de Rosemary (1968)
Um clássico é sempre fundamental. Para o mês das mães, é uma piada e uma honestidade trazer esse filme, já que o amor da mãe por seu filho é genuíno. Rosemary (Mia Farrow) e Guy (John Cassavetes) acabam de se mudar para um novo apto e conhecem os vizinhos. Ela engravida enquanto ele ascende na carreira, tendo menos tempo para a esposa, que passa a estranhar a vizinhança. De 1968, é um filme brilhante e, mesmo sabendo do final, o que importa aqui é a construção do suspense, essa gestação tensa e ingênua que acompanhamos de perto. O filme é sensacional, um dos melhores de Polanski. E de Mia. Escola de cinema.

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Bem vindo aos 40
Saindo do horror para a comédia, aqui dá respirar, gargalhar e se identificar um pouquinho. Bem vindo aos 40 traz a história de Pete (Paul Rudd) e Debbie (Leslie Mann), um casal que está chegando à essa idade e mostram muita coisa do que vivemos e podemos viver em breve. Não tem como se fazer de jovem adulto, não é a melhor idade, é aquele meio termo que ninguém sabe direito como viver, mas vai levando, enquanto paga as contas e trabalha. Vale boas risadas. De Judd Appatow, diretor de outras comédias que seguem a mesma linha descompromissadae e que não ofende ningupém, Ligeiramente Grávidos (2007) e o Virgem de 40 anos (2005).

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Grandes Momentos
Esse filme é quase desconhecido por aí e é uma incrível comédia romântica. Alison Brie, a mesma do atratente, estranho e um tanto confuso Entre Realidades (2020) e da incrível série Mad Men (2007-2015), é Beth, que está às voltas organizando seu casamento, enquanto sua irmã Sarah (Lizzy Caplan) rejeita um pedido de noivado e tenta se entender e lidar com isso. É uma comédia não idiota que vai nos tomando pelas beiradas. Grande elenco, ainda que mais conhecido no cinema independente americano.

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Deus da Carnificina (2015)
Deus da Carnificina acabou sendo o segundo filme de Polanski na lista de maio, além de O Bebê de Rosemary (1968), logo acima. É uma adaptação da peça homônima ao cinema e traz dois casais se encontram no apartamento de um deles para resolver a briga que seus filhos tiveram na escola. Da educação ao descontrole, das famílias de bem e do bem, a graça é ver grandes atuações deste elenco impressionante (Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly) em um único ambiente. Direção precisa e inteligente, diversão tensa e garantida de quem faz cinema há décadas. 

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Rainha da Terra (2015)
Rainha da Terra (Rainha do Mundo) é um desses filmes que, mesmo nos deixando tensos, nos fazem entender a grandiosidade de seus atores. Cat (Elisabeth Moss, a Peggy de Mad Men) e Ginny (Katherine Waterston, de Romance de Manhattan, 2015) são melhores amigas e vão passar uma semana em uma casa de campo, para ajudar na recuperação da primeira, que acaba de perder o pai. Por trás dessa amizade de anos, há percepções distintas uma da outra e estando em um lugar isolado, tudo vem à tona. O filme só funciona por conta da força dessas atrizes que conseguem se transformar em seus personagens, imprimindo cinismo, depressão e inteligência de uma maneira única. É pra ver sabendo que não vai ser fácil, mas vai valer a pena. De Alex Ross Perry.

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Parceiras eternas (2014)
Mais um filme despretensioso que traz boas e interessantes reflexões. Da mesma forma que Frances Ha, aqui são outras duas amigas que estão buscando decidir o que fazer dessa adultescência, cada uma à sua maneira. As diferenças em cada uma, suas esolhas e dificuldades marcarão a independência de uma amizade que sempre começa com poucos quetionamentos sérios e depois se firma justamente por eles. Aqui, a trama surge quando elas terminam a juventude ‘segura’ da faculdade e entram no esquema 'profissional' da vida, quando nossas decisões parecem ser um pouco mais definitivas. Com Gillian Jacobs, Leighton Meester, Adam Brody e Gabourey Sibide.

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Mommy (2014)
Xavier Dolan é jovem, ousado e bom. Os filmes dele costumam também acompanhar essa tríade e Mommy impressiona. O drama gira em torno de um filho temperamental e, aparentemente com distúrbios de comportamento e vemos em sua mãe amor, dor e glória, como só as grandes mães do cinema sabem ser. Levou o prêmio do júri em Cannes e é impressionante, em ousadia técnica e narrativa. É dele também o maduro, ótimo e tenso, É apenas o fim do mundo (2016).

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Moonrise Kingdom (2012)
Moonrise Kingdom reafirma o estilo já conhecido e apreciado pelo mundo inteiro, de Wes Anderson. Todas as suas histórias são carregadas de tons de fábula, como histórias de criança para adultos... e para algumas crianças também. Esse aqui segue a regra, mais uma vez, com elenco brilhante e figurinhas marcadas da filmografia do diretor, como Tilda Swinton, Bill Murray, Jason Schwartzmann, mas também traz outros grandes nomes, Bruce Willis, Edward Norton e Frances McDormand. Este é um filme sobre infância, sobre um acampamento e as aventuras de uma dupla que decide fugir. A graça está não apenas na estética reconhecida, mas na construção dos personagens, quando até os adultos parecem imersos em uma mentalidade aventureira e doce dos tempos de criança. Volta a saudade e vontade de ter 10 anos novamente.  
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Fazemos uso das horas
As alongamos quando escovamos os dentes
Penteamos os cabelos
Varremos a casa

E queremos o tempo voando
Para que a curva se aproxime de uma reta
Essa geometria dos traços e corpos, sempre perfeita em sua imperfeição

O tempo é também de espera, os setenta dias que se tornaram mais, o governo que, em descaso, os empurra pra frente quando acha que o pode derrotar

Brasileiros e resistentes, seguimos. 
Entre os que hasteiam uma bandeira em mal e mau uso, entre os que, se pudessem, a usariam como cobertor no passar frio das ruas. Estes também esperam por melhores dias

Em casa, espero. Oscilo entre o tempo ocioso, o da criatividade, o do emprego e de sua busca.
O tempo do desejo e da preguiça. O tempo ansioso e angustiado da saúde – particular e coletiva.

Sigo de longe vendo o mar, privilégio e tortura. O mar faz passar o tempo, alivia a alma.
O mar pesa como a saudade na distância que, só olhando pra ele, não a cura.
Para o mar eu rezo e peço pelo nosso encontro, pelo sol que banha minha baía, minha Bahia.
Pela água morna que nos abraça e arrepia de amor.

Na cama, aguardo as resoluções da mulher independente.
Suas aventuras se transformaram em sonhos de travesseiro e promessas.
Os objetivos de conquistar o mundo persistem, ainda que enrolados no cobertor, quando a brisa fria entra pela janela.

Em Salvador, sigo. 
Na riqueza de ter a família e os amigos de infância por perto.
Na saudade de ver o Rio dos amigos da vida adulta, de longe.

Esse tempo que nos marca, que queremos curto e extenso, precisamos dele neste descompasso para viver. 
São tempos de espera e ação. E inação.
São o tempo que dissemos não ter e que agora nos afoga, mas também afaga.

O tempo virou esperança, ao nos compararmos com outras nações.
Mas também é desespero, ao nos compararmos com outras nações.

É tempo de mudança, como disse minha mãe. 
E ela não carrega matéria, como o meu trânsito constante entre as cidades que escolhi viver. 
Ela carrega afeto, amor, amizade, trabalho e luta.
Mas, ela também precisa carregar mais, precisa de munição – palavra de violência.
Precisa de energia, palavra de potência. Precisa de calma. E de tempo.

Sem tempo não tem respiro, não tem exílio, não tem reflexão.
Esse é o tempo que promove a mudança de dentro, do indivíduo e de fora, da sociedade.
É finalmente o tempo de olhar, de perspectiva, de expectativa. De perceber o tempo da natureza e se entender na simbiose com ela. De viver sua conexão com a terra, com os animais, como parte deste sistema, que acreditamos em vão controlar.

Esse é o tempo dos homens, que nunca realmente o compreenderam.
O tempo do humano é o tempo de todos no mundo.
Só não pode mais ser um tempo de ignorância e arrogância.

É o tempo da natureza. Essa sim, a verdadeira vida, que se faz em conjunto e nos contempla.
Esse sim, o tempo dos corpos, da saúde, da doença, da destruição e dos recomeços.
Um tempo que parece de espera, quando pequenas revoluções acontecem todos os dias. Nada está parado.
Nem nós, dentro de casa, esperando. Em nós, em silêncio, mudamos. Pequenas revoluções acontecem todos os dias.

Grávidos de projetos, ideias, vontades e viagens, seguimos. 
Seguimos jornada dentro de nós mesmos, buscando força, amparo e afeto, para nós e para os nossos.
Vibrações para o mundo, a solidariedade pelo desconhecido, pelo enfermo, por todos.
Empatia é palavra forte, mas pouca. É amor nosso, compartilhado.
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Maio chega na reta final, infelizmente seguimos em casa com a prudência de fazer reduzir a curva da pandemia à fórceps. Infelizmente também, fazemos sem a ajuda do governo federal, que funciona enquanto desejo e sonho em nossas mentes, quando na realidade é um trágico circo de horrores e estupidezes. Sigamos adultos, com pesquisa e conhecimento, acreditando em embasamento científico e na medicina. Tudo há de terminar bem, em algum momento. Enquanto isso, o resumo das dicas da Netflix deste mês está aqui, para relaxarmos um pouco e focarmos em conteúdo de qualidade e cultura. Vamos em frente!

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Supermães (Workin' Moms 2017-)
A série canadense sobre jovens mães, chegou à sua quarta temporada neste mês. Ela traz o dia a dia de um grupo de mães que precisa, cada uma, lidar com uma rotina atribulada entre família, trabalho, relacionamentos e individualidade. Humor ácido, grandes diálogos e muita “vida real” aparecem ali pra gente se identificar. Sendo ou não mãe, sendo ou não mulher, tem pra todo mundo. O fato de ser uma produção canadense é um alívio, ver um país que funciona e com nossas heroínas e heróis precisando lidas apenas com a vida doméstica - não que seja pouca coisa. Catherine Reitman é quem protagoniza como a personagem Kate Foster. É também a criadora e roteirista, além de ser mãe, de forma que ela sabe do que está falando. Uma curiosidade bacana é que Philip Sternberg, o marido de Kate Foster é casado na vida real com Catherine. Não suficiente tudo o que a mulher faz, ela ainda foi ao Tedx Talks. Segue link com a palestra em português.

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Cooked (2016)
Reality shows e documentários sobre comida viraram uma febre nos canais de televisão e streamings. O negócio é que falar de comida é muito bom mesmo. Esta minissérie vai além, fala dos elementos que formam a comida (e a vida, na verdade) e de como cozinhar ajuda a moldar as culturas mundialmente. É apresentado pelo escritor best seller Michael Pollan e é uma delícia de assistir, dá vontade de morder a televisão. É interessante a divisão dos episódios, tratando dos elementos primordiais na natureza em relação à comida, à forma de fazê-la, onde encontrá-la. Vale muito a pena.

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Você nem imagina (The halkf of it, 2020)
Uma pegada mais jovem e não besta é o sentimento por este para essa nossa temporada indoor. Um garoto está apaixonado pela garota mais bonita da escola, que tem namorado, claro. Ele faz amizade com a garota inteligente e solitária, para tentar conquistar a mocinha. São vários clichês, aquele padrão americano que procura uma desconstrução e traz outras camadas de complexidade nos personagens. Mas há um pouco mais aqui, talvez pela história ser baseada em fatos reais da vida da diretora Alice Wu, a protagonista inteligente. Adolescente, mas sensível, tem bons diálogos e ótimas referências literárias Fala sobre família, amizade, comportamentos e descobertas. É bem bom e o tempo passa que nem percebemos, com bastante poesia.  

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Os irmãos Willowghby (2020)
Para aquele momento em que só queremos aventura e fantasia para nos tirar desta realidade. Os Irmãos Willowghby traz tudo isso, em um filme divertido e para todas as idades e baseado em um livro homônimo de Lois Lowry. Os pais Willoughby são bem imprestáveis e despreparados, e seus filhos estão cansados do descaso e maus tratos e resolvem se livrar deles - só não contavam com uma babá sem experiência para cuidar de todos. Fofo sem ser besta, traz algumas ideias interessantes sobre o conceito de família e criação. Poderia seguir em paralelo com Divertidamente (2015), na maneira incrível como aborda temas complicados impactando em todas as gerações. A animação é hoje a mais bem avaliada do ano e ainda conta com Maia Rudolph e Ricky Gervais no elenco como dubladores. Ainda em dúvida? O trailer está aqui.

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Lazzaro Felice (Happy as Lazzaro, 2018)
Lazzaro Felice é um dos poucos filmes com um olhar diferente na Netflix. Italiano, conta a história de Lazzaro (Adriano Tardiolo), esse rapaz inocente que vive em função de sua família e da dona da vila, uma mulher cruel que escraviza seus funcionários. Quando o filho dela forja o próprio sequestro, Lazzaro o encontra e desenvolvem uma amizade que lhe tornará um pouco diferente. Com a doçura de um conto de fadas e inspirado por uma situação real acontecida nos anos 90, ganha também uma crueza e crueldade pertinentes das pessoas sensíveis a um mundo longe de ser doce. Sensível e realmente lindo, levou o melhor roteiro em Cannes, é dirigido por Alice Rohrwacher e carrega a brilhante Alba Rohrwacher, sua irmã, no elenco. Se prepare para ver este; como Roma, é pra assistir sem pressa. 

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Atrás da Estante (Circus of Books, 2020)
Se você ainda não viu Atrás da Estante (Circus of Books), o momento é agora. O documentário é sobre uma livraria de fachada que, na verdade, era uma loja e locadora de filmes eróticos gays na Los Angeles dos anos 80. O mais interessante, entretanto, é entender como surgiu, quem gerenciava e porquê. Um casal heterossexual de família tradicional judaica encontrou no negócio um caminho rentável para melhorar a economia familiar. Não sabiam, que a empresa seria não só a base de finanças da família para a vida toda, como colaboraria com a comunidade lgbt de uma forma nunca antes imaginada. É o primeiro filme de Rachel Mason e fala sobre sua família - seus pais eram os donos da Circus. Enquanto obra, gera um interesse enorme, pois trata de todos os macro temas (sexualidade, comportamento, família, religião, economia, educação) de uma forma pessoal, nos aproximando das vidas do filme, nos fazendo pensar em como agimos e como agiríamos se fôssemos aquelas pessoas. 

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Coisas da vida (Little Things 2016-)
Coisas da Vida é uma série indiana deliciosa sobre a vida deste casal que está saindo dos vinte e tantos anos. Eles moram juntos e dividem o dia a dia, as agonias e alegrias dos trabalhos, com uma pegada realista e divertida. Como toda boa história, não importa de onde ela vem, sempre conseguimos nos identificar e criar uma relação. Esta tem três temporadas e a cada uma, seus protagonistas ganham complexidade e a trama só melhora, com outras questões para além do dia a dia deles. É interessante como tudo se aproxima de nós aqui, uma série rodada do outro lado do mundo, com questões e comportamentos similares aos nossos. A cultura da globalização e da internet são fortes aqui e, mesmo assim, há um cuidado em manter e exibir os costumes locais. É muito legal e nos ajuda a mudar um pouco nosso olhar acostumado às produções e imagens estadunidenses das comédias românticas, inclusive esteticamente. 

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The Eddy (2020)
Outra grande minissérie que estreou na Netflix esse ano. Com oito episódios e grandes diretores, como Damien Chazelle (Whiplash, 2014 e o chatíssimo La la Land, 2016, esqueçamos desse) e Houda Benyamina (do ótimo e difícil Divinas, 2016), é um drama sobre o dono de um clube de Jazz em Paris. André Holland (Moonlight, 2016) protagoniza a série como Eliot, músico que saiu do Blue Note, uma historicamente conceituada casa de jazz em Manhattan para a capital europeia. Todo o cuidado com a música em Whiplash é retomado aqui, o suíngue do jazz, grandes performances musicais e de atuação parecem nos conduzir bem, assim como busca, por outro lado, retomar as questões de imigração, comportamento e sociedade. Ainda não cheguei ao final, mas é uma ansiedade só. Imperdível.

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Frances Ha (2012)
É impressionante como esse filme não parece ser de 2012. Mentira, às vezes só parece, pensando agora, por todo o momento que estamos vivendo, quando essa ideia de cidade, vida comum, narrativa de identidade e descobertas parece pausada, enquanto tentamos não surtar na pandemia do século. Frances Ha é um dos melhores filmes que já vi - perdão pelo exagero, mas é mais uma confissão. Acho que o filme me pega porque é a história de uma mulher que chegou à vida adulta sem saber como, um pouco como as pessoas da minha geração, aquelas que tiveram a sorte e o privilégio de viver uma adolescência relativamente tranquila e enveredou no automático pela vida universitária até chegar ao caos de hoje. O fato é que tem gente que segue a vida numa narrativa menos caótica e outros precisam de um tempo para trilhar o caminho ou, antes disso, descobrir por onde seguir, como dar os primeiros passos. O filme traz isso com o reforço da amizade de duas mulheres, uma trilha sonora brilhante e o charme da fotografia em preto e branco na Manhattan romantizada. Precisa de mais alguma coisa? Tem grande elenco, com Greta Gerwig, Adam Driver e, além da direção sensível e precisa de Noah Baumbach. Vou rever hoje.
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Hitchcock foi um diretor de múltiplos talentos. Se ainda hoje ele é referência e base de estudos para a formação de qualquer pessoa na área, é por conta do seu próprio desenvolvimento enquanto artista de cinema, profissional e estudioso. Ele, como sabemos, desenvolveu técnicas de filmagem e teorias ainda hoje aplicadas e, não só isso, como também ingressou para a televisão, adaptando a narrativa cinematográfica para outros meios, nos mostrando, desde cedo, que é importante ter um conteúdo forte e atraente, para além das pirotecnias e formas. 

Na edição de hoje do #artistadecinema, a última com o mestre do suspense, fiz um pente fino do que tem de legal, além de seus filmes, sobre ele na rede, o que encontramos facilmente, um pouco do Hitchcock Presents e muito mais. Aproveita!

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Alfred Hitchcock
Como um mestre adorado no mundo todo, Hitch é frequentemente atualizado nas redes sociais e na mídia de forma geral, com citações em filmes, montagens, brincadeiras com a filmografia do mestre e por aí vai. O diretor foi um homem carismático, ainda que rígido com seus atores, e, além disso, aparecer nunca foi um problema. Imagino que vaidade também era algo que lhe pertencia. Quem viu seus filmes, sabe que ele aparece em todos, em uma pontinha, como figuração. É uma marca dele e qualquer diretor que faça o mesmo é lembrado como 'ah, igual a Hitchcock'. Enquanto muitos diretores preferem apenas o backstage, este está em todos, literalmente. Neste link, há uma compilação de suas aparições (cameo, em inglês) em seus filmes.

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Hitchcock Presents
Entre 1955 e 1965, Hitchcock produziu e apresentou um programa de televisão na CBS e na NBC, chamado Hitchcock Presents. Eram episódios de suspense de 26 minutos, e traziam um pouco da graça dos seus filmes para a tela pequena. Entre 62 e 65, mudaram o título do programa para The Hitchcock Hour, com o dobro da duração do anterior. O diretor abria cada episódio, contando um pouco do que estávamos prontos a assistir e os fechava, quase como uma distorcida lição de moral. Com seu tom irônico e instigante de sempre, vale buscar os episódios só pela graça de ter o diretor um pouco mais perto. O programa é tido como um dos mais bem feitos da história da tv americana até hoje. Muita gente boa participou do programa, como Robert Redford, Vera Miles, Steve McQueen, Bette Davis, Jessica Tandy e John Cassavettes. Entre os diretores, encontramos com os impressionantes William Friedkin (O Exorcista, 1973), Robert Altman (Assassinato em Godsford Park, 2001), Robert Stevenson (Mary Poppins, 1964) entre outros.

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Hitchcock/Truffaut - o filme
Como é sabido, François Truffaut, um dos grandes nomes do cinema francês, era aficionado por Alfred Hitchcock. Conforme já indiquei aqui, ele fez uma série de entrevistas com o mestre, que virou um dos maiores livros sobre cinema já feitos, o Hitchcock/Truffaut. Além disso, como profissionais de audiovisual, é claro que gravariam todas as entrevistas. Anos mais tarde, isso se transformaria em um documentário de mesmo nome, que você pode assistir no Philos. Vale muito a pena. É como uma conversa íntima sobre tudo o que mais amamos - o cinema - e seus artistas e técnicas. 

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Hitchcock e Mac Guffin
O MacGuffin é um instrumento narrativo que Hitchcock usa bastante em seus filmes. É um argumento pelo qual os personagens se precupam bastante, mas que não importa ao restante da narrativa e muito pouco aos espectadores. Confuso? Em Psicose, por exemplo, o McGuffin seria o pacote de dinheiro que Marion Crane rouba de seu chefe. O detetive, o namorado e a irmã de Marion seguem em busca da desaparecida, pensando que ela poderia estar com o dinheiro. Mas nós, espectadores, estamos vendo Norman Bates tomar corpo e a narrativa mais interessante não está mais no dinheiro roubado e sim, no psicopata que acaba de assassinar nossa protagonista. O pacote de dinheiro é o MacGuffin. Um artifício para iniciar a trama e nada mais. Neste link (em inglês) o próprio Hitchcock explica animadamente a origem do termo e como ele funciona. A Revista Desvio traz alguns exemplos usados em outros filmes do diretor. A tag livros explicou o artifício no meio literário e aqui, exemplos em filmes de outros diretores. 
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Alfred Hitchcock em Marnie, confissões de uma ladra (1964)
Neste 2020, fez 40 anos que o mestre nos deixou. Não por isso, mas pela falta que faz ao cinema, segue reverenciado por toda a classe artística e público. Seus filmes são vistos, estudados e adorados até hoje. Alguns curiosos e estudiosos traçaram perfis e vídeos incríveis, explicando suas influências e comparações com diretores como Luis Buñuel, Stanley Kubrick, David Fincher, François Truffaut. Da mesma forma, há tratados sobre voyeurismo que se complementam sem saber, como este sobre o olhar e este outro sobre os planos dos personagens de costas. Obviamente, enquanto a câmera observa os personagens de costas, andando ou parados, somos nós espectadores e demais personagens que os assistimos, como voyeurs em ação. Mas não para por aí, há exemplos de como o mestre manipulava as emoções de seus espectadores, outros documentários, análises sobre enquadramento, brincadeiras e homenagens com outros grandes filmes, como A felicidade não se compra (1946). É um mundo sem fim, esse mestre, e isso o torna eterno, para além de clássico. Hitchcock é referência como História do Cinema para o que se fez, se faz e se fará nesta arte - em qualquer época. Não à toa, segue no Olimpo sem perder o entretenimento, com a graça da comédia sofisticada, dos grandes diálogos, dos enquadramentos precisos e das eternas trilhas sonoras de Bernard Herrmann. Há sempre muito o que falar deste homem e de sua equipe, visível e invisível que, juntos, traduziram para nós e por décadas, o que significa contar bem uma história. Agora, escolha um filme do mestre, pegue sua pipoca e divirta-se! 
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Artista de Cinema: Alfred Hitchcock
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ser - ter identidade, característica ou propriedade intrínseca.

respirando fundo pra trazer ar e calma.
na imensidão de tudo o que acontece no antes e no depois.

todas as incertezas da vida…
a morte
o medo
a solidão
o universo todo
um pontinho e uma ponte. tudo que nos cerca e nos protege.

impossível não pensar na solidão. ela tá aqui. aqui e agora.
não é novidade, ela sempre esteve por perto.
na água limpa, no sorriso, na multidão, na festa, no cantinho do quarto... ela tá sempre lá. mesmo quando estamos juntos.

o que sinto, tu não sentes. o frio que me acarreta no meio da noite é meu. minha pele é minha.
o sangue que pulsa em mim, pulsa em você, mas diferente.

eu sinto a solidão no domingo às 22h, na terça às 17h. ela vem do nada, chega e senta do meu ladinho, grudadinha no meu braço. sinto seu calor em cima de mim, sua respiração, sua mão fria do nervoso e dos pensamentos borbulhantes.
quem sou eu na solidão? quem sou eu no meio de tudo isso?

ser e estar em constante mutação. respirar e liberar o ar no meio da tensão. indo sem saber quem sou e por que sou, sempre em frente, sei lá pra onde ou porquê. indo. andando, correndo, parando para apreciar a vista, dando um abraço apertado no amigo - que saudades do amigo. e do abraço - mas indo assim mesmo.

***

Quem escreve
"Aquela que veio para ter sorte". Este é o significado no meu nome. Meus pais queriam me dar um nome com força e significado imponentes e encontraram Naila. Escrevo para preencher vazios e libertar sentimentos. Acredito no poder de transformação da arte. Amo sentir o cheiro de terra molhada, alho refogado e livro antigo. Respiro música desde 95. Fala comigo.

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Samara Maultasch é uma amiga. Nos conhecemos no trabalho talvez uma década atrás e, aos poucos, fomos nos aproximando. Hoje, com o oceano nos separando, seguimos firmes e fortes, tudo nos conformes. Eu e Sama compartilhamos o amor pelo mar. Ela é carioca de sotaque carregado, do tipo que corre na praia de Copacabana todas as manhãs - corria. Agora ela se espalha por Barcelona, por enquanto. Eu, soteropolitana, não troco a praia de Piatã (mais pra Jaguaribe) por nada nesse mundo, mesmo morando meio cá, meio lá - também em Copacabana.  

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O mestrado levou Sama pra Europa, eu sigo quarentenicamente em Salvador. Nenhuma de nós está indo às praias, mesmo as tendo tão perto. Copa ficou pra trás, mas não sai do coração de Sama e nem de suas palavras - sempre tão precisas  e sinceras. No meio da pandemia, a convidei para escrever aqui e ela me trouxe essa beleza de texto, se empolgou mais ainda, disse que reativar seu blog e lançar um livro que estava pronto e na gaveta. Era um daqueles projetos que deixamos maturar ou dizemos que estamos sem tempo, sem tempo, sem tempo. Nestes tempos todos, é tudo o que temos.

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Poemas ao Mar, Samara Maultasch

Comprei Poemas ao Mar e li quase de uma vez. Dá pra ler numa sentada, mas é sobre mar e amor e como me resta saudade, preferi ir tomando ele aos poucos, para segurar o coração e não intentar contra a saúde pública na desobediência civil. Falta pouco (ou talvez sobre bom senso) para pular a cerca e cair no mar. Este livro de Sama é um presente. Acalma o espírito, dá saudade, nos faz rir, aperta o peito. Como um grande romance, uma imensa história de amor, Sama faz poesia para quem nos separa ou conecta - o Atlântico.

Última edição: que é a primeira, o livro é novíssimo, você encontra na Amazon, digital e impresso.
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Seguindo nossa trajetória com o Artista de Cinema de maio, eis aqui um pouco mais sobre Psicose, de Alfred Hitchcock. Um de seus mais aclamados filmes, uma adaptação literária que mudou o cinema, o público e a crítica. 

Psicose (1960)
Psicose é um filme maravilhoso. Eu sei, não dá pra aceitar a frase como síntese de crítica, mas poderia parar por aí e pedir pra verem o filme. Hitchcock conseguiu fazer uma obra para pessoas do cinema, que analisam, vivem, trabalham no ramo e ainda conquistou o público, controlando suas emoções num crescente até o final, com uma última cena perversa e sedutora ao mesmo tempo.

Assisti novamente esta semana. Tinha visto algumas vezes e, apesar de gostar muito, não é meu preferido – fico entre Janela Indiscreta (1954) e Os Pássaros (1963). Depois de reler Hitchcock/Truffaut, relembrei dos detalhes da produção, o cuidado e a inteligência por trás de tudo. Rodado com 800 mil dólares e tendo retorno (dados de 1967), de 18 milhões (hoje: 50 milhões), é um dos mais rentáveis já feitos pelo diretor. A questão não é sobre o dinheiro, mas sobre o sucesso de um filme, em que a cena mais emblemática acontece aos 40 minutos e ainda assim, ninguém sai da sala até o filme acabar. E olha que a maioria das pessoas já sabia o que ia acontecer – e Hitchcock ainda os proibiu de entrar nas sessões depois do filme iniciado.

O segredo está justamente em sua construção. Analisando a estrutura do roteiro, descobrimos a relevância da obra que parte de uma história simples, com personagens que, à primeira vista, não nos conquistam. Não queremos que Marion seja pega, mas também não somos apaixonados por ela. Não queremos que o assassino seja descoberto, achamos que sabemos quem ele é, mas fica aquela dúvida, inclusive sobre a qualidade da atuação de Anthony Perkins. Revendo com calma, amaremos aquele sorriso para sempre. Independentemente da nossa pouca relação com os protagonistas e seus coadjuvantes, e, mesmo que todos os espectadores tenham ido ver o filme pela cena do chuveiro, ela não é ponto alto da trama. Para quem não viu, o filme conta a história de Marion Crane (Janet Leigh), que rouba de seu chefe 40 mil dólares e foge. Para passar uma noite longe de suspeitas e descansar, se hospeda no Bates Motel, um hotel de beira de uma estrada secundária, quase abandonado. Lá, conhece o proprietário Norman Bates (Anthony Perkins) e é assassinada. A partir disso, a história se desenvolve num ritmo tal, que outras cenas também ficarão em nossas mentes para toda a eternidade, consolidando o status de obra-prima.

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Marion Crane (Janet Leigh) e a cena do chuveiro

Com dois acordes de Bernard Herrmann – compositor das trilhas de Hitchcock – nunca mais conseguiremos tomar banho de chuveiro tranquilos com a cortina fechada. Sempre trancaremos a porta do banheiro e checaremos uma vez mais, como quem não quer nada. Esta sequência foi rodada em uma semana e fizeram setenta posições de câmera para seus 45 segundos finais. Hitchcock sempre fez uso de storyboards e era obcecado pelo controle do que fazia, de tal forma que preferia recriar ambientes externos inteiros a fechar ruas, preocupado com os imprevistos. Da mesma forma, quase não permitia que os atores saíssem do roteiro ou improvisassem – era conhecido por ser linha dura, fazendo as atrizes sofrerem com seus detalhes minuciosos.

Como O Exorcista (1973), que é assustador por sua invocação do mal e insistir na teoria do diabo no corpo em uma menina inocente, criando terror em nós por muitos anos, Psicose marca pela crueza do assassinato, contrastando com a natureza pacífica de quem o comete. Não há tanto sangue, mas uma estranheza na relação de Norman com a mãe, no hotel vazio, nas aves empalhadas na sala da recepção. Enquanto isso, a montagem calculada com a trilha sonora, atingindo seu ápice nos crimes e premeditações (as trilhas dos filmes de Hitchcock por si só, já valem um estudo), as tentativas de defesa das vítimas e o assassino como uma sombra de um personagem que só ouvimos a voz sem conhecer o rosto, são de uma violência que nos atinge muito mais do que os filmes policiais de hoje. Talvez o segredo esteja aí: este filme nos faz imaginar, nos coloca no lugar de Marion, como possíveis vítimas de um atentado que nos toma de assalto e permanece em nós.

Truffaut amava Hitchcock. Como eu, considerava o diretor um mestre mas, por fazer filmes de suspense, o diretor inglês não recebia o crédito da crítica, que tem predileção por filmes não comerciais. Assim, além de conhecer em detalhes o pensamento criativo daquele, Truffaut queria justificar sua relevância para a cultura cinematográfica, mostrando que o lucro pode estar relacionado com uma preocupação estética, de linguagem e forma. Segundo Antoine de Baecque em seu Cinefilia (outro livro maravilhoso, sobre a Cinefilia na França do pós-guerra), Truffaut buscava quase a fórceps, com argumentos e fotogramas quadro a quadro de algumas sequências, deixar claro para o leitor que vale a pena dedicar um tempo para entender a grandiosidade da filmografia de um diretor que gosta de aparecer (e aparece mesmo, em todos os seus filmes, olha ele aí).

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Hitchcock em Psicose

O mestre não conseguiu dobrar a crítica com Psicose, mas sente um orgulho imenso do resultado: em Psicose, o tema me importa pouco, o que me importa é que a montagem dos fragmentos do filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo o que é puramente técnico conseguiram arrancar berros do público. E agora, ele dá o golpe de misericórdia: creio que para nós é uma grande satisfação usar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa. (...) Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro.

Por conjugar uma técnica fascinante a um roteiro bem amarrado, os trabalhadores do cinema são também aficionados por ele, que insiste: é um filme que pertence a nós, cineastas, a você e a mim, mais do que todos os filmes que fiz (porque ali era possível falar tecnicamente, discutir abordagens, movimentos de câmera, ângulos e corte, era uma conversa entre diretores). Eu não conseguiria ter com ninguém uma verdadeira discussão sobre esse filme nos termos que estamos empregando neste momento. As pessoas dirão: “Não era uma coisa para se filmar, o tema era horroroso, os protagonistas pequenos, não havia personagens.” Claro, mas o modo de construir a história e de contá-la levou o público a reagir de um modo emocional. É como aprendemos na escola: o que importa é a forma.

O encantamento com o filme é tal – e nem tratamos da temática voyeur, perversão, doença mental, moral, mulher independente nos anos 60, a primeira sequência do filme, etc – que vimos uma refilmagem supostamente plano-a-plano – incipiente – de Gus Van Sant em 1998 e agora, lançado em 2012, uma ficção também fraca sobre os bastidores da produção do clássico, intitulada Hitchcock. O canal Universal lançou em 2013, Bates Motel, série sobre a adolescência de Norman e a relação com a mãe. Esta é mais interessante do que os filmes, mas nenhum se compara ao clássico. O fato é que Psicose despertou tantos e diversos olhares que se tornou uma referência para o gênero, é homenageado em não sei quantos filmes, artigos, ensaios fotográficos e figura em qualquer lista de melhores do mundo (como Os Incompreendidos, de Truffaut). É, portanto, imperdível, e um grande programa.

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Anthony Perkins como Norman Bates
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foto de Bhruno Quadros


Será hoje
meu último dia?

Morrerei,
assim,
cansada,
doente,
Sem ver o mar
da Bahia?
Logo hoje
que saí com pressa
Tanta pressa
de viver
todas essas
promessas
e urgências...
Será hoje
o último passo?
A última luta?
O último ato de bondade?
Justo assim
sem um beijo na esquina
sem um amanhecer
sem saber que aquele
era o último gole.
Logo assim,
sem quebrar a rotina?
Sem lamber a ferida,
sem desobedecer?
Se eu soubesse
que era hoje
passaria batom,
não tropeçaria.
Gritaria em alto
e bom tom
o desgosto,
a agonia.
Levantaria a saia
Provocaria a vaia
dos que não
me toleram
Cantaria um bolero
e, então,
cortaria os pulsos
Antes que
me arrancassem,
à força,
assim,
o dia. 

***

Quem escreve
Mari Diniz é uma das melhores amigas de uma melhor amiga, então entendi que somos amigas também. Baiana e moradora de São Paulo, é uma das pessoas mais inteligentes que conheço e admiro, por sua pesquisa e luta pelo abolicionismo. Como se não bastasse, ainda me indica livros e escreve como ninguém. Fala com ela!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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