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Café: extra-forte

Uma mulher no meio dos 30 anos, entre a pandemia e a chegada do primeiro filho, vive com o marido do outro lado do oceano, em Dublin, na Irlanda. Uma nova série mensal começa agora. Vamos acompanhar de perto e de longe as duas vidas de uma das minhas melhores amigas, Camis.  

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Depois dos 30
por Camila Castro

Aniversário de 34 anos e eis que as palavras da minha ginecologista ressoam em minha mente: 

“melhor engravidar antes dos 35 anos, após essa idade, 
a probabilidade de ter filhos é menor, e a chance da 
criança nascer com alguma doença é maior”.

Sempre quis ser mãe. Enquanto amigas, primas e conhecidas pensavam em casamento que nem as princesas da Disney, uma das coisas que eu tinha certeza que eu queria era ser mãe. Porém, mesmo ao 34 anos, não estou pronta (fisicamente, psicologicamente e qualquer outro mente possível), mas a natureza é cruel (?) com as mulheres e nos dá prazo de validade - mesmo com a tecnologia nos ajudando um pouco.

Bem, de qualquer maneira, no meu aniversário de 34 anos, em Novembro, decidimos tentar engravidar. Porém, com a chegada do ano de 2020, nada ainda e os 35 anos cada vez mais próximos... Começo de março e nada da menstruação descer, uma semana de atraso. Isso não é normal para mim... Sexta-feira, pós-trabalho, corre para a farmácia para comprar teste de gravidez. Chegando em casa, ansiedade a mil para fazer o teste. Corre pro banheiro, faz xixi no potinho, coloca o palito do teste no potinho e espera. Na bula diz que tem que esperar até 5 minutos para verificar o resultado. O tempo deve ter parado, de tão devagar que passou eolha que são só uns minutinhos! Mas, eis que antes de fechar os 5, começa a aparecer o resultado e 2 retas... POSITIVO! Baby bump! Primeira batalha vencida, engravidar antes dos 35 anos! É uma grande felicidade descobrir a gravidez, mas junto com isso, também chegou o Coronavírus, fechando o país que moro, Irlanda. Tantas incertezas do futuro - onde normalmente seria apenas da maternidade, agora é da vida como um todo.

E agora, Bial?? Cenas dos próximos capítulos...

***
Quem escreve
Camila Castro (Cam, Camy, Camis, Camilinha) é engenheira de produção e vive com o marido e o futuro bebê em Dublin, na Irlanda. Potiguar, morre de saudades do calor nordestino, das comidas e dos amigos de todos os lugares, mas encontrou seu cantinho no mundo para tocar a vida com mais tranquilidade. Você a encontra no linkedin e no facebook. Fala com ela!

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Passeando por textos de séculos passados, me deparei com este e deu saudades. Acabei me reencontrando com ele, que virou o Livro da Semana de hoje. Esse deve ser o quarto e ótimo livro do escritor, lançado no Brasil. 

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Quando estava lendo o livro de contos Meus Documentos, de Alejandro Zambra, feliz com a constância das publicações do chileno por aqui, me deparo com uma surpresa que quase virou horror: já havia lido uma história daquelas. Era o ‘Instituto Nacional’, sobre as percepções de um garoto na escola sobre seu colega, o número 34 na chamada de ordem alfabética. Assustada, procurei quem era o outro autor, sem acreditar que estava diante de um plágio tão descarado. Depois de 3 dias de incômodo, como uma pedra no sapato que insiste em nos machucar, lembro e respiro aliviada, rindo da própria estupidez: Zambra havia publicado aquela mesma história meses antes, na Piauí. Minha fé na humanidade havia sido restaurada. 

Meus documentos é o quarto livro do escritor chileno publicado pela (agora extinta) Cosac Naify. Bonsai (2006), o primeiro, te pega de jeito com uma frase de final de livro na primeira linha da primeira página: no final ela morre e ele fica sozinho. Curtinho, dá pra ler na duração de uma viagem de ônibus e dói ter que deixá-lo. Em A vida privada das árvores (2007), ficamos angustiados enquanto a mãe de Daniela, Verónica, não aparece e Julián precisa cuidar da garota. Como diz o primeiro capítulo em uma metalinguagem que faz parte de sua escrita – nos entregando o jogo de cara e, ao mesmo tempo, nos forçando a ficar – enquanto Verónica não vem, não há final. 

Como se não bastasse, ainda temos Formas de Voltar para Casa (2011) e suas memórias sobre uma ditadura que só viu de relance e com o olhar da infância, sem ter a clara noção dos horrores ao redor, mas com um sentimento de tristeza e silêncio que perdurou em todos que passaram por aquele momento. Meus Documentos (2013, no Brasil em 2015) é autobiográfico e funciona no encontro com as memórias da infância, para buscar – agora como escritor – reconstituí-las no presente. 

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Zambra consegue, com poucos adjetivos e descrições, nos manter presos em cada linha, aguardando uma ação, ou apenas vendo aquele que também espera alguma coisa. Em construções onde é quase impossível discernir ficção de não-ficção nos quatro livros aqui publicados, no último isso é levado a outra dimensão. Como o personagem menciona no conto que dá nome ao livro, seria a reunião de histórias na pasta ‘meus documentos’ do computador. Vemos um pouco da história pessoal – ainda que haja entradas da ficção – se entrelaçar com a do Chile, sua ditadura e posterior abertura política. Suspiramos com uma vã expectativa de que as histórias não se acabem – mas já estmos acostumados com os romances anteriores. Em seus contos bem escritos, falta tempo e espaço para o que queremos seguir. Há um constante desejo de permanecer ali – ainda que não venha sempre acompanhado de felicidade – sua escrita nos remete mais a uma angústia, alguma tristeza e silêncio. Ele rememora as nossas próprias histórias – não importando quão diferente sejam, como um sentimento sobre passado, que traz algo de similar com nossa própria herança e histórias brasileiras. 

O autor trabalhou como crítico de literatura por dez anos antes de lançar seu primeiro livro. Entre seus escritos – ensaios, poemas, contos e romances – levou 7 prêmios e foi indicado a outros 6. É também doutor e professor de literatura.

*texto publicado em 2015

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Com seu novo filme, Alive, Jimmy Olsson promete arrebatar novamente os festivais de cinema e público mundo afora.

*click here for english version.


Em tempos de COVID-19, tudo o que precisamos é de alguma leveza para seguirmos em frente, novas perspectivas e narrativas, um horizonte mais ameno como futuro. Os streamings trazem uma oferta de filmes de quase todos os tipos, mas sempre sentimos falta de algo novo, que salte aos olhos, nos provoque, embaralhe nossas ideias. Assim é Alive, o novo curta de Jimmy Olsson. 


Victoria (Eva Johansson) é uma mulher que convive com uma deficiência motora importante. Ela tem uma cuidadora, Ida (Madeleine Martin), que lhe faz fisioterapia, exercícios e companhia. Ao conhecer o namorado de Ida, Victoria percebe que lhe falta algo, uma forma de se sentir viva, de contato, de sentir. As duas abrem uma conta no tinder e Ida passa a se questionar se os futuros encontros serão uma alternativa segura para Victoria. Um mundo de ideias em pouco mais de 20 minutos.


A direção de Olsson é precisa, construindo uma tensão na trama que faz nos faz perder a noção do tempo. Esse controle da duração em um formato curto há que ser como o de um conto em oposição a um romance: preciso sem ser sucinto, conciso sem perder as nuances. O filme nos ganha ao conhecermos as duas mulheres e querermos saber mais sobre elas, participar de suas vidas, entender o que falta e sobra em cada uma e então, o desenrolar dos possíveis encontros, o andar da narrativa. É um filme sem pressa e quando termina, deixa um misto de satisfação, surpresa e vontade de ver mais, de continuar por ali. 


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Ida (Madeleine Martin) e Victoria (Eva Johansson)

Entre os olhares de preocupação de Ida e a ansiedade de viver de Victoria, percebemos duas mulheres que ultrapassam as relações de trabalho e confirmam uma amizade e força femininas de cuidado e coragem. Eva Johansson impressiona em uma atuação magistral de poucos gestos e esse controle de um corpo que foge ao controle parece tão real que, sem conhecer a atriz, não sabemos se é ou não uma pessoa com deficiência. Ao mesmo tempo, Madeleine Martin desenvolve uma Ida madura e profissional, em uma relação adulta sem condescendências com Victoria, mas mantendo um carinho, uma afetividade que imprime realidade em cena.

 

O diretor sueco tem por prática tocar em temas fortes e sensíveis da sociedade. Seus outros filmes, Repressed (2011), Caesar (2014) e 2nd class (2018), retomam o cuidado que vemos em Alive. Ainda que cada um tenha um foco específico, o conjunto garante uma atenção ao comportamento social, tornando-o universal – não à toa, os filmes rodaram festivais ao redor do globo, alavancando diversas premiações. Alive, em uma tacada só, mexe com nossa intimidade, os afetos, a forma como nos relacionamos, ao mesmo tempo que parte para o macro, o risco dos aplicativos de relacionamentos e a segurança das mulheres – particularmente, em situação vulnerável – as diferentes percepções e preconceitos que guardamos em nós. É muito assunto para pouco tempo funcionando, inclusive, com poucas palavras. Vale cada minuto.


O filme segue o tour dos festivais. Acabou de passar no Cleveland International Film Festival, no fim de maio estará no Brooklyn Film Festival e em junho será exibido na Espanha, no Festival Internacional de Cine de Huesca. A expectativa é de que chegue ao Brasil para o 14ª CineBH e para a 44ª Mostra de São Paulo, previstos para setembro e outubro, respectivamente. O trailer você confere aqui e para conhecer um pouco mais o trabalho do diretor, o acompanhe no instagram e twitter.

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Ela é uma pessoa muito organizada, eu bem sei. Vendo de longe, uma moça tranquila e feliz, casa limpa, cada coisa em seu lugar. No trabalho, não consegue se concentrar se sua mesa estiver bagunçada, sendo que está quase sempre vazia. Passei lá um dia para conhecer e te digo, se fosse demitida hoje, não levaria nem uma caixa, possivelmente deixaria tudo lá, lápis e canetas em uma caneca corporativa, calendário corporativo, um ou outro desenho na parede, nada fundamental, só uma lembrança de sua personalidade. Não fossem eles, poderia ser a mesa de qualquer um.

Ela odeia passar roupas. E não consegue sair de casa amassada. Passa saias e blusas sofrendo, assim como evita passar pano no chão. As rugas do tecido lhe irritam na mesma intensidade que os cabelos que grudam no pano ou se escondem nas linhas do piso. Ela me disse que são coisas que lhe desgastam, porque não faz sentido passar pano e deixar cabelos grudados no piso e perde um tempo absurdo na repetição dos movimentos. Logo ela, que odeia refrão de música.

Odeia barulho. Quando lê, cozinha, trabalha, acorda, faz absolutamente qualquer coisa, não entende porque as pessoas precisam falar tão alto e todas ao mesmo tempo. Essa movimentação em seu entorno lhe distrai e se perde nos afazeres, tantos e tão diversos que seu cérebro precisa encaixar tudo em pequenas células, como numa planilha da vida. O barulho mescla essas células sem ordem e lhe deixa num estado de perplexidade com o olhar parado, fixo em algum lugar imaginário. Na certa, ela está olhando para esta planilha, reemoldurando suas células em colunas e linhas.

Olhando de fora, nada disso parece verdade. Somos amigos há vinte anos e seu riso solto, sua fluidez no andar e conversar com as pessoas por um tempo parece infinito e suave para os outros. A verdade é que ela não consegue decidir nada a seu favor, facilmente. O que quer, para onde vai, seus sonhos e desejos. É o caos. E se qualquer outra pessoa teria o olhar parado nestes instantes, ela faz o oposto e foca em tudo ao mesmo tempo, eliminando a profundidade de campo tão necessária à fotografia.

Ela me contou que entrou na terapia. Tomei um susto e ela seguiu dizendo que contou sua história toda na primeira sessão, como se lesse um conto. Que não esperava soluções práticas, uma mentira que me fez gargalhar e a irritou. A moça mais organizada, calma e feliz é uma desordem só, um novelo que a cada sessão se desfaz e refaz porta afora. Como os pequenos nós de seu cabelo de fios finos demais, que insistem em fazer pontas duplas. Ou como a cada ressaca, em que se promete beber menos. Até a próxima ressaca. Ou como aquele paquera idiota, que ela achou ter acertado dessa vez, mas conseguiu ser ainda pior do que o anterior, nem português falava direito. Logo com ela, que se incomodava quando escutava alguém errar verbos, fazia brincadeiras sórdidas com as palavras dos outros, escondidas em um sorriso condescendente e mordaz. Não tolera que falem errado por preguiça, esse atraso do pensar que lhe dá vontade de dar um tiro na vítima: uma justiceira da gramática. É a melhor pessoa que eu conheço. E a que mais odeio hoje.
***
Um conto para desenvolvimento de personagens, de maio de 2016, tarefa de uma oficina de escrita criativa. Uma brincadeira entre verdades e mentiras, enquanto dois amigos tomam café, conversam e se olham em uma mesa para dois.
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Alfred Hitchcock e sua filmografia

Alfred Hitchcock é o Artista de Cinema do mês aqui no Café e é bem difícil escolher cinco filmes que resumam sua carreira, mas essas são as regras do jogo. O mais legal de selecionar filmes do meio do século passado é ver o cuidado com o estilo dos cartazes - o que é vintage agora era o padrão dos outros dias. Mas, vamos ao que interessa:

Festim Diabólico (1948)

Festim diabólico tem tudo o que é interessante no fazer cinema: ousadia, muito planejamento e direção, criatividade. O filme, o primeiro colorido do mestre, é uma adaptação de uma peça de teatro que se passa em apenas um cenário e em tempo real. Hitchcock provavelmente pensou: hummm.. por que não? E fez aqui uma das primeiras obras de um plano sequência que conhecemos. Havia uma limitação técnica: nessa época, os filmes eram feitos com película e cada rolo tinha duração máxima de dez minutos. Então, para simular uma grande cena sem cortes, o diretor sempre buscava um fundo preto: um terno, uma cortina, algo que pudesse servir apenas como um intervalo imperceptível ao espectador. Outra coisa muito boa é ver James Stewart trabalhando com o diretor pela primeira vez. Dali em diante, outros três filmes teriam a presença deste homem incrível. O trailer já dá uma dimensão da genialidade da obra. Confira aqui.

Janela Indiscreta (1954)

Eu tenho mesmo uma afeição especial por James Stewart, e não é à toa. Ele representa distinção, caráter, uma figura, para mim, que busca sempre o bem. Claro, com base em alguns de seus filmes. Quem já assistiu A felicidade não se compra (1946), produção de Frank Capra do pós-guerra, sabe do que estou falando. Voltemos à Janela Indiscreta: não temos a ousadia de um plano sequência, mas um cenário imenso construído aqui. Duas fachadas de prédio - Hitchcock sempre foi controlador e tinha uma ideia muito precisa do que queria ver, então trabalhava sempre com o mínimo de improvisos e imprevistos. Aqui, nosso querido James Stewart é L. B. Jeff Jeffries, um fotógrafo que sofreu um acidente e está com a perna engessada. Em casa, recebe a diarista e a noiva, Lisa Carol Freemont - ninguém menos que Grace Kelly - mas, ainda com essas visitas, sente-se entediado. Cansado de jornais, se volta para a janela do apartamento e transforma o nosso olhar, somos como ele agora, voyeurs indômitos da vizinhança. Sendo um filme do mestre do suspense, claro que um crime vai acontecer no prédio e fica a dúvida do que Jeff viu, se ele viu aquilo mesmo e como proceder. É impressionante como o diretor prende nossa atenção com poucos movimentos a maior parte do filme e brinca com nossa curiosidade como se fôssemos nós mesmos, o fotógrafo de plantão.

Um corpo que cai (1958)

Sim, é James de novo, mas agora com Kim Novak. A essa altura, Grace Kelly, a musa do diretor, já estava casada e vivendo em Mônaco - tem até filme sobre isso com Nicole Kidman, mas é outra e triste história - então Kim Novak a substitui com precisão. James é, mais uma vez, o protagonista que se envolve em uma situação extraordinária. Detetive aposentado em tratamento para acabar com as vertigens provocadas pelo medo de altura, um amigo lhe pede que siga sua esposa, com tendências suicidas. No meio desta saga e já obcecado por ela, fatos estranhos começam a lhe atormentar. Aqui, Hitchcock inaugura novos movimentos de câmera, particularmente na cena da vertigem na torre, construída em estúdio. A trilha sonora é de Bernard Herrmann e incrementa esta sensação do protagonista em nós tão bem que lhe rendeu indicações da categoria ao Oscar. É tido como um dos melhores filmes de todos os tempos. Apenas.

Psicose (1960)

Esse aqui quase dispensa apresentações, do tanto que é cultuado desde seu lançamento. O filme é de 1960, já dava para perceber alguma emancipação feminina, ainda que a pobre da Marion Crane (Janet Leigh) não dure muito na tela. A sinopse todos sabemos: uma moça rouba dinheiro do chefe e foge. Para em um motel à beira de uma estrada secundária e o resto é aquela faca subindo e descendo com a trilha que nos impede de tomar banho tranquilos com a cortina do chuveiro fechada. Norman Bates (Anthony Perkins) é o dono do Bates Motel - a série em exibição na Netflix vem daí - e vive em um casarão ali pertinho com sua mãe idosa, que só vemos à distância. Ele recebe Marion e tudo corre bem, até que... Hitchcock proibiu a entrada de pessoas nas sessões depois do filme começado, para que não perdessem nenhum minuto da tensão que ele queria construir em nós. O filme é uma adaptação de um livro que nem é grandes coisas, de forma que o filme o supera ridiculamente. Mais uma vez, Hitch aproveita toda a sua experiência para brincar com o espectador, entregando o crime no primeiro terço da obra e nos deixando tensos até o final. E que final.

Os pássaros (1963)

Ah... Os Pássaros. Tenho uma afeição especial por esse filme. Os pássaros atacam. E é isso. O filme parte de um príncípio sem causa para acontecer e se torna um dos melhores filmes de suspense da história do cinema. Além do que, os efeitos visuais nessa época não eram digitais, então para mostrar os pássaros atacando a cidade - convenhamos que não há adestramento possível para pássaros em volume, atacando pessoas - foi preciso falsear a ideia: na montagem das cenas, Hitch sobrepôs os negativos de pássaros em revoada com as cenas das pessoas correndo e voilá; pessoas fugindo dos pássaros. Todo o making of é uma delícia de assistir, bem como o filme em si. O que o diretor nos diz aqui, comprovando mais uma vez seu talento único é: dá pra criar uma boa história com quase qualquer argumento. Só que isso não é pra qualquer um. E aqui, você ainda recebe um convite exclusivo do mestre para ver o filme.
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nas termas de Caracalla, contemplando o passado romano num então presente janeiro de 2020.
2020 começou com a paz de espírito de quem, aos poucos, vai se dando conta que maturidade não é fake news. Fui dormir antes da meia-noite. Há 25 anos, eu teria visto o alvorecer rosa dourado do ano novo cintilar num pé de caatinga às margens do meu nativo Rio São Francisco. Há 15 anos, no auge da minha boemia dos vinte e algo, eu teria acordado com o bater das ondas na areia da praia de Copacabana segurando uma garrafa de cidra barata como testemunha. Em 2020, despertei com os fogos de artifício na distância de algum lugar no inverno de Houston, Texas, onde construí meu atual lar. Cada foguete, uma fada do passado ao meu ouvido: “Escuta-me! Reverbero as explosões do seu coração de outrora! Vem reviver a minha chama! Injeta festa na alma!” Senti o coração pulsar centímetros cúbicos a mais de nostalgia enquanto um novo ano se abria. Aí então o cérebro mudou a marcha, passando da ré para o sonho da viagem de férias que estava prestes a ocorrer. Porém, virei para o lado, dei um beijo na testa do meu marido que já roncava em uníssono e dormi com a leveza dos que já viveram o suficiente para destilar recordações e planos sem se embriagar. A beleza do amadurecer está nisto: o presente começa a ganhar a batalha sobre o passado e o futuro. Jamais saberia eu, que cerca de três meses depois daquela noite, o mundo iria parar em proporções semi-apocalípticas e que eu teria que rever o conceito de estar presente para lidar com a pandemia do século.

Dali a poucos dias, eu partia para a cidade eterna, Roma, em uma das muitas viagens que tive o privilégio de vivenciar. Acompanhei o nascimento da minha sobrinha, filha da minha irmã que por aquelas bandas há alguns anos se instalara. Foram três semanas de um sentimento arrebatador de plenitude: cercada de família, da chegada de uma nova vida, de descobertas e gargalhadas terapêuticas entre as icônicas ruínas do império romano. A minha vida naquele momento parecia estar completamente no lugar. Foram tantos anos batalhando dilemas - trabalho, saúde, mudança de país, casamento, dinheiro, ter ou não ter filhos e tudo mais que caiba nos parênteses - sempre aguardando a chegada da tal estabilidade. Naqueles dias de janeiro eu finalmente me brindava com taça de cristal, saboreando cada momento do meu presente, mas consciente do meu privilégio, consciente do que construí no sentido material e psicológico e consciente, sobretudo, de que todas aquelas experiências extasiantes eram passageiras. Entre cursos de life coaching e o arsenal paramilitar de auto-ajuda da Internet, aprendi que a vida é impermanente. E não deu por outra. A viagem intercontinental de volta ao Texas já anunciava que o mundo tomava outras dimensões e que a humanidade caminhava em areia movediça.

Máscaras nos aeroportos. Os olhares de terror e asco a mim dirigidos quando espirrei no terminal. Em semanas, o mundo social se fechou e a vida se recolheu para dentro de casa. O nirvana romano virou página do passado e não houve maturidade ou life coaching suficiente para aguentar o tamanho da transformação (ou perceber de imediato que a realidade estava dando a oportunidade de um toque de recolher espiritual). A ruptura foi cavalar. Como me firmar na realidade se a realidade era tão imprevisível? Foi difícil me firmar no presente. A mente viajava em velocidade supersônica para lugares escuros: haveria emprego? Meus pais vão morrer? Irei parar num hospital entubada sem a possibilidade de contato humano? Em diversas ocasiões precisei respirar com meditação guiada para não perder o eixo. E aí veio o clarão da transcendência na forma de um curso online para enfrentar os novos tempos: a realidade é que a vida nunca foi, não é e nunca será previsível. Repito: a vida não é, nunca foi, nem nunca será previsível. Pensar de forma contrária é pura ilusão.

Antes de COVID-19 nada garantia que sairíamos de casa pela manhã e retornaríamos sãos e salvos para o jantar. Nada garantia que nossos sonhos seriam alcançados ou que nossos corações não se partiriam em mil pedaços. Ainda que eu tivesse metas e planos, passei boa parte da vida recolhendo os cacos dos sonhos que não afloraram. A realidade sempre deu um jeito de se mostrar rainha e ai de nós, virgem Maria, ao tentarmos resisti-la. Existe receita sim para enfrentar o incerto: a não-resistência. Aceitar o presente imperfeito que chega com máscaras respiratórias, distanciamento social e adiamento de planos. Aceitar o presente é nada mais que aceitar o óbvio, ente escorregadio que uma hora faz total sentido e em outro gangrena horizontes. Lembrando que o presente também passará, pois uma das poucas leis universais é a da impermanência. Não confundir com passividade: existe lugar para a luta, mas é necessário ser estratégico. A luta, neste contexto, é pela volta da saúde coletiva, pelo afastamento da doença ou da possibilidade da morte: lutar é lavar as mãos, descontaminar as sacolas de supermercado, ficar em casa (vale também lutar para descontaminar a sociedade das cegueiras político-sócio-econômicas pré-isolamento e talvez agora seja o momento mais adequado).

Ainda não é momento para fogos de artifício. O mundo segue repleto de cadeados que limitam o nosso ir e vir e há uma longa estrada pela frente até a estabilização da curva e a criação de uma vacina. E por isto mesmo, se assim o presente desejar e não puxar o meu tapete, esta noite vou deitar antes da meia-noite, dar um beijo no meu marido e dormir determinada a pensar que em meio de toda esta bagunça ainda vivo cercada de amor, saúde e privilégios. Porque é no presente que vivemos.

Quem escreve
Juliana Moreira é filha da caatinga, cigana de espírito, escritora errática que de tempos em tempos tira o mofo dos dedos. Suas antigas escritas estão em português no Fronteirices e em inglês no Tales of lust and gore. Pode mandar uma mensagem por lá.
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Aproveitando o artista de cinema deste mês, nada melhor do que falar deste livro, um dos grandes que fala sobre cinema, produção, arte, entretenimento e, claro, os filmes do mestre do suspense. Aproveita!

hitchcock-truffaut-livro-da-semana

O cinema é a arte da sedução.
 Voyeur por natureza, assim também nos tornamos quando vamos à sala escura, sem que nos vejam direito, assistir a alguém, a alguma história no conforto do anonimato. Alfred Hitchcock soube se utilizar deste nosso fetiche e sempre trabalhou em prol do público, seja para assustá-lo ou para lhe trazer algum alívio. François Truffaut, também cineasta de renome e crítico francês, entendeu o controle hitchcockiano como uma qualidade única – e está certo nisso – propondo uma série de entrevistas com o mestre do suspense sobre sua filmografia. Em 1967, sai o mais emblemático livro sobre Hitchcock e em certa medida sobre Truffaut e o fazer cinema, traduzido no Brasil como Hitchcock/Truffaut.

Há 120 anos nascia Hitchcock, em Londres.  Começou a carreira cedo, como assistente de direção, montador e roteirista, em 1922. Em 1925, estreava na direção com The Pleasure Garden, cargo que nunca mais deixou. Truffaut disseca o que considera mais relevante em toda a trajetória do diretor inglês, com questões que servem tanto ao público comum, os espectadores-cobaias, quanto para quem é mais envolvido com a arte e seus meios de produção. A ideia do cineasta francês era comprovar a genialidade de seu mestre, em uma época que o consideravam menos, como um diretor de circuito comercial. A intenção era clara, identificar o óbvio aos nossos olhos. Hoje não há dúvidas de que Hitchcock já era um dos nomes do cinema de autor. As entrevistas perpassam a filmografia do mestre, que não só tem um currículo de respeito, com 54 longa-metragens – citando cinco para relembrar, Psicose, Disque M para Matar, Janela Indiscreta, Um corpo que cai e Os Pássaros – como também teve um programa de filmes curtos para a TV, Hitchcock Presents.

Hitchcock/Truffaut, François Truffaut e Helen Scott

O livro é um deleite para todos, sendo fundamental para a história do cinema. Após o lançamento em 67, foi feita uma edição definitiva em 1983 – à venda no Brasil a partir de 1986 em edição esgotada da Brasiliense e reeditada em 2004, pela 
Companhia das Letras. Truffaut sentia uma necessidade de continuar alimentando o livro – e nossa curiosidade – com os novos filmes do diretor. Encontraram-se durante pouco mais de 14 anos e hoje temos essa obra prima. Com fotografias das cenas dos filmes e seus bastidores, das longas entrevistas, prefácio de Ismail Xavier e do diretor francês, tudo em quase 400 páginas, virou referência em produções do gênero. 

Como dois cineastas que eram, filmaram as entrevistas e em 2015, saiu o documentário com as conversas, outro imenso presente para nós. A ideia do livro virou referência, basta recordar as edições de entrevistas feitas com outros diretores – e infelizmente sem Truffaut – como Woody Allen, Scorsese, Bergman e Almodóvar. Feito para todos os públicos, são aulas de cinema da forma mais interessante possível, um encontro de mestres com riqueza de detalhes que alimentam nossa perversão última: a cinefilia.


Última edição: é essa mesma da capa, de 2004, pela Companhia das Letras. 


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De tempos em tempos ela volta a ler em um ritmo voraz. Alguma coisa lhe alerta no cérebro de que está perdendo tempo, entre o vai e vem do trabalho, ainda que passe essas horas olhando a vida dos outros, ouvindo música.

Ou vendo o mar no ponto da cidade que acha mais bonito. Ela não lembra quando foi a primeira vez que viu aquela curva da avenida que margeava a encosta, uma das inúmeras encostas parcialmente habitadas. O morro encosta no mar e a estrada o divide no meio, como um recheio de bolo que escorre pelas beiradas. Em dia de ressaca, o mar bate violentamente contra a parede inclinada que lhe devolve em igual medida outra onda. Como é perto da praia, da planície que surge de súbito, as ondas se chocam em direções estranhas e causam um estrondo que não se ouve nunca, mas que se vê, nas espumas que sobem a não sei que altura. Quando o mar se prepara para uma ressaca começa a vibrar, uma pulsação o toma, mas precisamos esperar o dia seguinte. O maior espetáculo da terra está ali, aberto, amplo, violento.

Hoje ela não tem visto muito isso. Construíram uma ciclovia depois da pista, atrapalhando a visão da encosta. Não tem problema, ela pensa — aparentemente há que haver ciclovias pela cidade inteira agora. Se for em pé no ônibus, consegue alguma coisa.

Ela voltou aos livros. Tenta alternar entre os romances e os livros de estudo — fotografia, cinema, filosofia, relações de poder — mas sempre acaba comprando outros romances e entope a estante com mais histórias pela metade. Se pudesse passaria a vida lendo, estudando, escrevendo. De certa forma o faz, mas escreve e-mails corporativos, lê artigos sobre o trabalho e fala muito ao telefone. O tempo que sobra é pouco para o tanto que precisa. Agora ela não ouve música. Não consegue se concentrar no livro se escuta algo, se distrai e quando vê, voltou 3 vezes naquela frase curtinha e saiu cantando a letra. A música lhe atravessa sempre, usa um caminho que ultrapassa o cérebro e lhe aperta o peito se ele não estiver muito seguro de si. Desistiu, por enquanto.

Esqueceu os caminhos de casa e do trabalho, não pensa mais no tempo que leva entre uma coisa e outra. Assusta-se quando vê que já passou por alguns bairros e hoje quase gosta dos engarrafamentos, mas sempre chega reclamando no trabalho, não vamos abusar. Não vê mais a vida das pessoas, não ouve música, não há encosta e ondas voadoras. Essa moça quase chega aos 33 anos e pensa em romances, ainda que em sua vida tudo sempre tenha dado errado. Há um misto de expectativa, dúvidas, descrença e frustração, mas ela ignora tudo agora, porque se perde nas histórias, um pouco de conforto não faz mal. Outro dia se pegou pensando sobre esta história de zona de conforto. Qual é mesmo o problema disso?

Voltando para casa, uma coisa lhe aconteceu. Leu não sei quantas vezes a mesma frase, o mesmo período, na verdade. Dobrou a página para reler em casa, riu sozinha, quase sem acreditar. Guardou na memória uma frase que era dela, ela tinha certeza. Não fazia muito tempo, havia contado essa mesma história com palavras senão iguais, bem parecidas àquelas e não conseguia entender porque estavam ali. Pensou em mandar uma mensagem para ele, o outro personagem da história real para lhe contar a ficção e o mais importante, perguntar qual tinha sido o filme.

Ele movimentou um pouco o joelho, e um pouco mais, até encostá-lo no dela.
Transpirava. Quando o filme acabou, ele não tinha ideia do enredo.*

Ela o conheceu fazia tempo. Foram apresentados por um amigo na entrada de uma sala de cinema alternativo que frequentava em uma noite de domingo. Ela não acreditou no que estava acontecendo, não era de se apaixonar assim, sem nem saber o nome, em uma sessão qualquer de algum provável filme francês. Ele fazia aniversário, mas ela só soube disso depois, quando saíram do filme que ela nunca lembrou.

Ela riu sozinha hoje no ônibus. Estava tudo gelado mesmo sendo verão, as pessoas não sabem regular os aparelhos de ar condicionado. Enrolada em um casaco fininho, ela seguia virando as páginas e parou ali, dobrou a pontinha porque passaria adiante e queria marcar aquela frase, como se fosse possível esquecê-la. Saiu do ônibus e ainda teria que pegar outro, é um desses de conexão. Mesmo sendo tudo muito rápido, estava ansiosa, precisava chegar em casa, não podia continuar parando no meio das calçadas, desse jeito vai ser assaltada e pior é se lhe tomarem o livro.

Não contou para o personagem que a história deles estava escrita em um romance. Pareceu demais, ela pensou depois de um tempo. Foi uma história platônica, com obstáculos que na hora não pareciam ser muito importantes, era questão de esperar um pouco mais, não fosse a casualidade responsável por um fim inesperado. Hoje não tem mais isso de paixão assim, do nada. Mas por dentro, em um espaço que ela não costuma dividir com ninguém, é tudo ao contrário, está lá essa vontade de encontrar com alguém e tropeçar em um olhar desconhecido que lhe parecerá familiar, como uma cena de comédia romântica. Vai rir, com uma certeza quase louca e uma ponta de desconfiança que tentará dissimular, sem acreditar no que pode acontecer. Dessa vez não haveria obstáculos, a história não aparecia num livro de romance, de mentira — e quem acreditará nisso? Pode ser que volte a dar tudo errado novamente, mas ela tentaria. Dessa vez, quando ele disser que vai correr perto de sua rua, ela vai deixar a porta aberta.

***

*O livro: KRAUSS, Nicole. A História do Amor. Companhia das Letras.
**Conto publicado em 24/02/2016, no medium.
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Resolvi lançar a nova coluna Artista de Cinema aqui no Café com Alfred Hitchcock. Não foi uma escolha difícil: quando penso em figuras importantes da área, ele acaba sendo um dos primeiros - se não o primeiro - a aparecer. Não que outros não sejam importantes, a lista é imensa e subjetiva, mas porque Hitchcock representa, pra mim, uma noção completa de Cinema. Vamos a ele.

alfred-hitchcock
Alfred Hitchcock

Nasceu em uma família rígida na Inglaterra em 1899, quase junto com o cinema (em 1895). Depois de passar por escolas religiosas, estudou engenharia e Belas Artes. Trabalhou com seu pai por um tempo e, com a morte deste e a chegada da Primeira Guerra Mundial em 1914, a família se muda para o interior. Ali, Hitch trabalha no departamento de publicidade de uma empresa de cabos de eletricidade. Em 1920, uma empresa cinematográfica americana se instala em Londres e Hitchcock leva alguns intertítulos (as legendas do cinema mudo) que produzia no seu trabalho e é contratado. Em 1927, lança seu primeiro filme como diretor, O inquilino sinistro. Dali em diante, nunca mais deixa a cadeira. Em 1939, já estabelecido como cineasta na Inglaterra e ganhando relevência nos Estados Unidos, se muda para Los Angeles e em 1940, leva o Oscar de  melhor filme com Rebecca. Daí em diante, faz quase um filme por ano até 1976, quando encerra a carreira com Trama Macabra. Hitchcock morreu em  29 de abril 1980.

Com uma filmografia extensa e um cuidado imenso e intenso dos aspectos de produção de seus filmes, Hitchcock era um profissional completo. Ele foi o primeiro a fazer um longametragem em um plano sequência (como se o filme todo fosse gravado de uma só vez, sem cortes de câmera). Na verdade, Festim Diabólico (1948) tinha cortes, porque os rolos de película precisavam ser trocados, então ele nos enganava fechando suas sequências com cortes em fundo preto, como ternos, cortinas, ambientes escuros. O diretor montava seus storyboards, de vez em quando quebrava a quarta parede (como se o ator conversasse com a câmera), preferia recriar ruas a filmar externas, para ter maior controle da produção, explicou para nós o McGuffin e como ele o utilizava. Definiu e diferenciou suspense de terror. Nos explicou como fazer o espectador participar da trama. Isso tudo, enquanto fazia grandes filmes.

A crítica de arte não gostava muito dele, entretanto. Não que fosse um problema, ele continuava com grande público e seguia produzindo. Havia um preconceito em torno da forma de seus filmes, como se fossem apenas entretenimento e não aquele Cinema, com toda a pompa e glória da arte. Entretanto, Truffaut, outro imenso cineasta francês era fã de Hitchcock e crítico da Cahiers du Cinéma, a revista de cinema mais relevante da época, cujos redatores eram também artistas e críticos, estudavam e definiam as teorias e bases do cinema. Ele via mais arte e complexidade no currículo do diretor inglês do que seus colegas. Truffaut via não só apuro técnico, mas reflexão, pensamento crítico além das histórias de suspense. Hitchcock era um autor de cinema, como Godard, como o próprio Truffaut, como Fellini. Um autor é alguém que desenvolve uma marca, um estilo, uma característica que torna possível reconhecer sua obra sem ver a autoria antes. Truffaut encontra seu mestre e sugere uma série de entrevistas para falar sobre sua produção. Estes encontros se transformaram em um livro - Hitchcock/Truffaut - o melhor livro de cinema de todos os tempos e um documentário posterior, com as conversas. Ali, há a inquestionável experiência, talento e maestria de um mestre sendo expostos de forma ampla e deliciosa, como se estivéssemos em uma imensa aula de cinema com dois dos maiores diretores de todos os tempos.

Hitchcock era um diretor e não um santo. Ele infernizava a vida das atrizes e atores, estabelecia suas musas - mais como uma paixão platônica do que esses infernos de assédio sexual que surgiram depois - e as 'perseguia' para que desse ali o seu melhor. Não permitia que improvisassem muito ou fugissem ao roteiro. Era mão firme e conhecido por isso. Ao mesmo tempo, todo esse controle se converteu em grandes e divertidos filmes, marcos para a nossa cultura ocidental, como Os pássaros (1963), Psicose (1960), Intriga Internacional (1959), Um corpo que cai (1958), Janela Indiscreta (1954), Disque M para Matar (1954), Rebecca (1940) e a lista é longa.  É um autor inesgotável e, para a nossa sorte, gostava de aparecer: em seus filmes e na vida. Então, há uma série de bibliografia sobre ele, inúmeras entrevistas em vídeo e filme, além do delicioso programa de tv, Hitchcock Presents. Nas próximas semanas, colocarei um pouco de tudo, para nos reencontrarmos com este mestre dos mestres. 
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Naquele dia ela acordou azeda. Acordou com o zunido do celular, era o trabalho chamando. Estava como uma caipora louca, fumando tão cedo. Tudo estava tenso, marido em crise, o dinheiro falando mais alto que tudo. Parou um pouco. Se olhou no espelho do banheiro. Era uma mulher difícil. Sabia que as pessoas não caíam de amores por ela. Mas, era bonita. Sempre foi. E nesse mundo, mulher bonita não precisa ser simpática, dizia sua mãe. Ah, sua mãe! O Natal estava chegando e ela já podia imaginar os comentários, quando ela visse que o Vicente tinha engordado... Os homens não ligam pra nada, pensou. 

Há dois anos não apareciam no Natal da família. Dizia à sua mãe que eles estavam trabalhando muito. Mas, a verdade é que o dinheiro estava apertado pra viajar no período mais caro do ano. “Mas, este ano vai ser diferente”, confidenciou pro espelho. Olhou com mais cuidado e gostou do que viu. Os 51 anos eram apenas um número. "Não me representam!" Estava em dia com a harmonização facial e sabia que aquela lipo ainda estava valendo. "Beijo no ombro".

O telefone tocou de novo. "Aquele pessoal do escritório não sabe o que é privacidade". Ela passou a noite sentada sobre os documentos da auditoria e não tinha finalizado os cálculos do relatório mensal. Seu prazo era hoje. Mas, Dr. Manuel era paciente com ela e tudo tinha jeito.
- Ohh telefonee!! Alô? Oi! Tô te mandando por e-mail ainda hoje. Vou finalizar alguns pontos quando chegar no escritório (tomar no cú). Certo. Eu sei. Se tiver dúvidas me avise. Beijo e obrigada. 
– Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!

Correu pro banho. Ia dar um jeito. E, mesmo com o relatório gritando, o Natal na fazenda não saía da cabeça. Ficava pensando em sua mãe e seus comentários sobre o Vinícius. Putz! Ia passar esse vexame! "Vou passar meu ácido e protetor solar, isso sim..." e correu! Calçou os sapatos no caminho. Tomou o café no caminho. Esqueceu seus óculos no caminho. Chamou o elevador de desgraça que não funciona nunca e resolveu descer pelas escadas. As luzes não acenderam. "Pronto! Agora foi a porcaria da luz! Meus óculos! Tá escuro demais aqui!... Mas segurar o café também não ajuda e essa bolsaaaaaaaaaiiiiiiiiiuuuuui!"

Chão. Joelho na escada, quadril na escada, cabeça na escada e bunda no chão. Silêncio. Um gemido de dor fraaaco vai nascendo da garganta. Abriu os olhos e aquele quentinho escorrendo pela testa gritava, "toma, fila da puta, que agora não tem mais porra de natal na fazenda pra você!! Ahhhhhh!! Acho que me quebrei toda! Socorrooooo!!" – Fraco ainda, fraco.

– Socorrooooo – silêncio e escuridão.
Era muito cedo. Ninguém usava as escadas a essa hora e ela não conseguia se mexer pra pedir ajuda. 
– Socorro... ai, vontade de chorar. "Por que eu resolvi vir pela escada?", ela pensa. "E essa vida acelerada? Eu não sou mais uma menina. Já tenho 51... e o tempo... Não acho minha bolsa. Tudo escuro... vida escura..." 

O tempo passa devagar com ela ali sentada. Um devagar que o relógio não registra. Assim como não registrava o acelerado de seus dias. De repente, ela se viu em um isolamento não planejado. Um tempo sem celular tocando, sem planos de viagem, sem relatórios, nem espelhos. Só ela, a escuridão e o eco de suas ideias tortas...

***
Quem escreve
Jamile Buck é publicitária, sócia e fundadora da Agência Nova Café, designer e mercadóloga. Tudo isso importa pouco, junto da sua principal atividade: ela é a mãe do cara mais legal do mundo, Benício e contou com a colaboração amorosa da incrível Laura Haydée. Fala com Jami!
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Esse foi um livro que demorei a ler. Quando cheguei ao mundo, ele era mais do que importante há décadas, é de 1945. A Revolução dos Bichos, de George Orwell é um clássico universal, como o livro de Molnár, mas sob uma ótica completamente diferente.

Fácil de ler, é preciso que se faça quando adulto. Parte de mim ficou feliz por não ter lido o livro tão nova, para que já tivesse 'alguma cabeça' para entender as nuances, os diversos significados de uma obra escrita de forma tão simples, aparentemente. Mas, os melhores são assim mesmo. Sou super crítica aos textos ilegíveis, aqueles que vêm cheios de soberba e 'polissílabos', como se fosse preciso carimbar o currículo do autor em grandes orações. Sou adepta de uma escrita tranquila, que consiga se entender sem esforço, por isso, simples - sem perder suas complexidades. As ideias sempre podem ser profundas e múltiplas no texto, mas acho que ele, em forma, não deve impor obstáculos. É uma opinião.

Voltando aos bichos, acontece uma revolução de bichos numa fazenda, literalmente. É uma terra de animais operários, provedores, facilitadores das vidas humanas - e só nos cabe alimentá-los, limparmos seus excrementos e usufruir de tudo o que produzem. Um dia, eles cansam desta vida opressora, sem férias, descanso, décimo terceiro, direitos trabalhistas e ´humanos´ e tomam o poder. Estando na semana do dia do trabalhador, a temática é válida.

Ed. Globo, 26a edição, 1987 
É claro que, se formos adiante apenas com a história literal de uma revolução animal numa fazenda, já seria um livro impressionante e original. Se não contextualizarmos, se assumirmos apenas a primeira camada de sentido, já dá pra vislumbrar uma relevância literária. O negócio é que, já no primeiro capítulo, nas primeiras frases, entendermos que superficial é um termo que não se aplica.

Todo o livro é uma construção em cima da Revolução Russa, do Stalinismo, das teorias de Marx, das críticas ao Capital, do imperialismo. Orwell reconstrói nossos sistemas de poder, dando a cada animal da fazenda, um conjunto de características que o transforma em função ou personagem social. Não suficiente, o livro tem um humor ácido que se percebe como uma sequência de exclamações explodindo dentro de nós. Cada frase parece matematicamente construída e ali posicionada para surtir um efeito o que, de fato, funciona.  

Estamos há algum tempo em certo modelo de sociedade e a História nos traz à lembrança e conhecimento outros de que somos filhos. No livro, este passado volta como metáfora para nos lembrar que, como herdeiros, ainda há o que receber, ainda há mais História e histórias para viver, sistemas opressores para sofrer ou quebrar. O medo é o que pode vir depois de uma revolução, esta nova proposta revolucionária de governo que deve romper com um sistema anterior nem sempre é nova, muitas vezes vem apenas e literalmente, pintada com outras cores. Basta encarar nosso país e encontraremos ressonâncias. E essa é a importância de um clássico: ele ressoa e ultrapassa o Tempo, independe dele. Uma obra clássica, de qualquer manifestação artística, encontra caminhos através de nossas histórias cotidianas, pessoais, locais e universais e nos faz parar um momento e refletir, para além do prazer de a conhecer. É o que a torna fundamental. 

Última edição: Companhia das Letras
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O mubi exibiu hoje, gratuita e mundialmente, Ema, o novo filme de Pablo Larraín. Estamos neste isolamento social e ir aos cinemas é impensável. A estratégia do streaming de filmes do circuito alternativo deu certo. Com público restrito e um filme ousado, tentou abarcar mais espectadores para o serviço que, de fato, é interessante. Contudo, tal qual sua oferta de filmes, este não é para todo o público. Para ver Ema, a sugestão é de que se faça como em uma sala de cinema: se fechem as cortinas e se ganhe uma penumbra, imponha-se um silêncio confortável com o celular no não perturbe. Não é um filme para se ver como segunda tela do cotidiano.

***

Um casal jovem de bailarina e coreógrafo, Ema (Mariana Di Girolamo) e Gastón (Gael García Bernal), luta para aceitar e serem aceitos por terem devolvido o filho que adotaram. Um circuito de dor, humilhação, escárnio, culpa e ternura permeia boa parte dos diálogos, enquanto eles tentam se reencontrar entre o fim de um espetáculo e os ensaios para um novo. O corpo de baile entra junto e participa como uma extensão de Ema – alonga-se pelos espaços, reproduz seus movimentos, espalha-se como o fogo dos incêndios provocados por toda parte.


Ema entende que precisa ter o filho – agora com outros pais – de volta, e invade a nova família com uma estratégia perversa e calculista. Ela conquista a todos, os seduzindo. Seu corpo é arma e objeto de desejo. O que temos de história é isso: uma coreografia, como uma bailarina que impõe ritmo e movimentos sobre outros para atingir seus objetivos.

Com um comportamento como alguém acima de todos, fruto provável da arrogância da juventude, é como o sol que queima no cenário do primeiro espetáculo e o fogo que faz arder pelas colinas e ambientes esvaziados de Valparaíso. Uma aparente ausência de sentimentos faz parte dela, mas há nuances que nos deixam ver além, como a relação com sua irmã e as mudanças repentinas de opinião em discussões com o marido. É essa a importância da personagem, para além dos discursos. O não dito é muito mais interessante do que os diálogos, que parecem servir de acessório, adendos à experiência estética que estamos vivendo. 


Os ensaios para o novo espetáculo não evoluem, Gastón perde relevância sobre seu corpo de baile e Ema, mais uma vez, encontra na equipe uma transgressão, uma provocação que emana da música; ao invés de buscarem a erudição das apresentações de dança contemporânea em teatros, os bailarinos buscam nas ruas o reggaeton, ritmo popular que tomou conta do Chile, como o funk no Rio de Janeiro ou o pagode em Salvador. Gastón tenta um discurso de repúdio defendendo a mulher enquanto sujeito, ao rejeitar esta apresentação dos corpos com a objetificação do feminino por um desejo vazio - a analogia com as músicas de presídio é de se pensar e fica difícil discordar. Ao mesmo tempo, uma das bailarinas reverte esta lógica, traduzindo os movimentos como uma permissividade autorizada dos corpos, a exibição dos desejos, a manifestação da libido como uma demanda do ser, uma transgressão em prol do prazer e reconhecida como tal. Seria ali o oposto das prisões - uma liberdade provisória autorizada pela música?

A aceitação e entrega provocante e provocada pelo reggaeton é uma manifestação política de seu poder popular e cultural. A redução de uma música que atinge a todos em detrimento de outra que se encerra em salões de baile é um ponto; o comportamento, as funções do corpo, a sensualidade e suas expressões acordadas com o ritmo, é outro. Para além disso, a defesa do popular em um circuito alternativo - o cinema de arte - é uma abertura interessante, quando universidades públicas foram ameaçadas de privatização naquele país e tendo Valparaíso como um dos palcos principais das manifestações estudantis. Larraín provoca o espectador intelectual, o faz repensar as condições da elite, as imposições culturais, aquela velha herança europeia de erudição e a descaracterização do que vem do povo. Uma alfinetada sutil e precisa em um momento importante da história chilena e mundial.


As danças nos seduzem e é fácil não prestar atenção nas estratégias de Ema; o mais importante é como somos hipnotizados por uma  fotografia impressionante. Estes planos aproximados dos rostos, a câmera parada - como em Jackie (2016) - como se nos dissesse: eu quero que você veja isso desta forma, como uma educação do olhar - a perfeita sedução do cinema, o voyeurismo. A trilha sonora corrobora e potencializa nosso atordoamento. Até o desenlace, estamos envolvidos nas cores e planos, nos rostos e bailes de corpos - nas discussões deste casal disfuncional e equilibrado sobre suas dores, cuidados e culpas. Beiramos os relacionamentos abusivos, escondemos a poeira da moralidade debaixo do tapete e ficamos imersos neste caos para todos e aparentemente calculado da protagonista. A solução fácil - até demais - que ela encontra, ganha um desfecho que intriga em uma troca de olhares. Talvez possam existir mais desobramentos e menos ingenuidade em cada um do que havíamos notado antes.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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