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Café: extra-forte

Narrativa e trajetória



“Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?
Estávamos casados havia pouco tempo. Ainda andávamos na rua de mãos dadas, mesmo quando entrávamos nas lojas. Sempre juntos. Eu dizia a ele ‘eu te amo’. Mas ainda não sabia o quanto o amava. Nem imaginava… Vivíamos numa residência da unidade dos bombeiros, onde ele servia.”[1]


Assim começa o primeiro relato no livro de Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, sobre o acidente nuclear na usina de Chernobyl em abril de 1986. O livro é permeado de conversas, encontros que a autora teve com pessoas que viveram e/ou de alguma maneira se envolveram com o evento. Os relatos orais foram trazidos para a versão escrita em detalhes, sem suprimir dolorosos e descritivos momentos. Nossa imaginação, como se lêssemos qualquer outra obra, nos inunda de imagens, não apenas aquelas já conhecidas por revistas e jornais, mas também por outra que criamos a partir do que lemos.

Este ano, a HBO lançou Chernobyl, uma série em cinco episódios sobre o mesmo assunto. A produção, em pouquíssimo tempo, alcançou as melhores e mais amplas observações de críticos e espectadores. É hoje, a série mais bem avaliada de todos os tempos e há mais do que um motivo para isso. A qualidade da produção é inquestionável. Como no livro da autora bielorrussa e prêmio Nobel, os episódios da versão televisiva são permeados de grandes personagens e, mesmo tendo um protagonista, há um peso e dramaticidade em outros para entender o contexto e alcance da tragédia.

Liudmila Ignátienko é a voz que conta a história do primeiro parágrafo deste texto. Junto com seu marido, eles também são parte da trama ficcional da HBO. Seu marido, bombeiro, foi chamado à noite para extinguir um incêndio na usina. Sem mais informações, segue para o local com as roupas para atacar um evento comum e lá se depara com algo inominável do qual tinha poucas informações. É o primeiro e mais sofrido relato do livro. Na versão audiovisual, os personagens aparecem em casa, juntos, à noite. O telefone toca, ele atende e é chamado. A esposa lhe pede que não vá, ele precisa ir. Ela olha pela janela, uma fumaça ao longe na direção da usina, de cor azulada. Estranha aquele brilho bonito e diferente — não pode ser um incêndio comum. Ali era o início do fim daquela família.


“Sete horas… às sete horas me avisaram que ele estava no hospital. Corri até lá, mas havia um cordão de policiais em torno do prédio, ninguém passava. As ambulâncias chegavam e partiam. Os policiais gritavam: ‘os carros estão com radiação, não se aproximem’.” [2]


No livro e na série, Liudmila segue uma via crucis para ver e ficar com seu marido, altamente contaminado. Nós, espectadores e leitores estamos presos à essa história única, de um casal vítima de um acidente imenso. Mas há outros personagens.

Liudmila e Liudmila (Jessie Buckley)

A série abre com uma cena triste, de preparação de um suicídio. Um homem, Valery Legasov (Jared Harris), físico nuclear, está prestes a acabar com sua vida. Ele é chamado para atender, em um flashback, a uma conversa com dirigentes do governo e, então, ao longo da narrativa, se torna um consultor-arquiteto da solução para estancar a emissão de radiação que logo alcançará outros países da Europa. A série avança com marcações de tempo tomando como referência o acidente, e conhecemos Ulana Khomiuk (Emily Watson), a única personagem totalmente ficcional da obra. Ela é uma física nuclear em Moscou e representa todos os outros físicos e químicos da vida real que colaboraram com Legasov na busca pela redução de danos da tragédia. Junto a eles, vemos a história da equipe responsável por executar animais que ficaram soltos à míngua quando Prypiat é evacuada. Como uma imensa tragédia, não há nada feliz e esse peso carregamos até depois do final da série.

Em cada episódio há um foco narrativo; o acidente e o reflexo no povo, a história do bombeiro e a política internacional em finais de Guerra Fria, os executores de animais, a solução encontrada para o acidente, o que motivou o acidente.


“(…)é também questão de desejo e, portanto, de posição simbólica. Nos termos de Émile Benveniste, o filme tradicional é proposto como história e não como discurso. Contudo, ele é um discurso se nos referirmos às intenções do cineasta, às influências que exerce sobre o público e etc.; mas o específico deste discurso, e o próprio princípio de sua eficácia como discurso, é justamente cancelar as marcas de enunciação e de mascarar-se como estória. (Metz, 1977, 133.)”[3]


Antonio Costa cita Metz nos informando sobre discurso, narrativa e objetivo, indução. Em um projeto audiovisual, é preciso ‘iludir’ o espectador, oferecendo uma narrativa que, quando bem proposta, mascara o discurso, que vem como se estivesse por trás de uma névoa, do entretenimento. O conteúdo da mensagem que o cineasta deseja transmitir, o discurso, se insere em nós, espectadores, de forma sutil e sua eficácia está em como promove isso.

“Perguntei:
‘Vássienka, o que é que eu faço?’
‘Vá embora daqui! Vá embora! Você vai ter um filho.’
Eu estava grávida. Mas como deixá-lo? Ele suplicava:
‘Vá embora! Salve a criança!’
‘Primeiro eu vou te trazer leite, depois decidimos’.”[4]


No trecho acima, de Svetlana, Liudmila descreve o diálogo que teve com seu marido quando se encontraram horas depois do acidente. Já doente grave no hospital e ainda lúcido, ele lhe pede que vá embora, que ela está grávida. Ela, mulher jovem, aguardando o primeiro filho do homem que ama mais do que tudo na vida, não consegue se ver sem ele e trata de tentar remediar seu sofrimento, sem prever as consequências disso. Esse trecho está no início do relato, no livro. É o início de sua tragédia pessoal, que nos prende até o fim. Já sabemos que ela está grávida, se contaminando.

Svetlana Aleksiévitch

Por ser parte de relato oral, fica subentendido que a autora não alterou e nem poderia, a ordem dos acontecimentos que estão sendo contados. É o alavancar da tragédia, mais um ponto de tensão em uma história difícil. Caso o livro se pretendesse, como na série, como uma obra ficcional, um retrato criado de um evento real, a fim de intensificar a emoção, postergaria a informação da gravidez.

De volta à série, saberemos no terceiro ou quarto episódio que ela está grávida — após percorrer e passar dias no hospital ao lado do marido. Tendo lido o livro antes de ver a série, o impacto é menor e a estratégia do diretor em manter a tensão narrativa se vê mais explicitamente, ainda que bem executada. Para um espectador sem conhecimento da história de Liudmila, é um sofrimento sem fim e descoberto depois, intensifica o drama. Cinema é manipulação, construção de tensão e emoção no espectador. O corpo do texto de Liudmila e Svetlana estão ali, o conteúdo permaneceu, a ordem foi alterada, adaptada para aprimorar em roteiro, texto fílmico a ser exposto enquanto imagem editada para a tela. É parte da jornada do herói, como um percalço em sua trajetória a fim de promover sua transformação final.

Em uma adaptação do literário para o audiovisual é preciso contrair parte da trama e adaptar a linguagem, em benefício da narrativa. Em uma série, é fundamental reter a atenção do espectador por semanas, é imprescindível criar gatilhos nas múltiplas histórias, desenvolvendo tanto uma empatia pelos personagens, quanto a curiosidade suspensa sobre suas trajetórias.


Objetivos


Todo produto artístico é imbuído de ideologia. Em polos opostos do globo, temos estas duas peças, de linguagens diferentes, tratando do mesmo tema — também com distintas abordagens e em diferentes décadas. O objetivo aqui, não é mera comparação. Chernobyl da HBO, usou como referência, personagens e histórias que Svetlana trouxe em seu livro lançado em 1997.

A estrutura narrativa de seus livros parte sempre de uma busca de informações por quem viveu determinado período ou evento histórico em torno do que foi a União Soviética. Vozes de Tchernóbil foi seu terceiro livro, o primeiro focando no acidente. Tratado a partir de entrevistas com pessoas envolvidas no evento, quase deixa passar uma ideia de intenção com aquele produto, além da exposição dos relatos sobre o tema, como uma alternativa de se fazer saber a história sem buscar o ‘relato oficial’ de livros didáticos. O relato aqui é quase íntimo, certamente pessoal e isso, paradoxalmente, o torna ‘mais oficial’, sem hastear gratuitamente uma bandeira, focando na descrição dos fatos pelas pessoas que viveram o que contam.

Acompanhando a trajetória literária da autora, contudo, há uma pesquisa, uma insistência no tema que não é gratuita. Tratar da questão soviética pode ser sua busca por resgatar as histórias da História. É conhecer pelas pessoas, suas vidas e a vida de todos enquanto povo, nação ou nações, o regime que tentou ser a forma perfeita de viver em sociedade e omitia para os seus e para o mundo o que carecia de sentido e eficiência. O fracasso da União Soviética é mais complexo e há um sem fim de explicações para tanto. Com obras como as da autora, há uma aproximação com as diferentes pessoas — homens, mulheres, crianças — que viveram o período, como o perceberam e sentiram. Sem obras assim, não teremos testemunhos, apenas dados.


“Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem.
Antes de tudo, em Tchernóbil se recorda a vida ‘depois de tudo’: objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para lugar nenhum, cabos para parte alguma. Você se pergunta o que é isso: passado ou futuro?
Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro…”[5]

locação da série de Chernobyl, HBO
A série. Produção americana. Estadunidense. Grande, atores de renome. Ainda assim, ao assistir essa imensa obra, nos atemos às minúcias da tragédia, a ver se o diretor, roteirista, equipe de produção, diretor de arte, editores de som e imagem, conseguiram construir uma obra que nos parece real, fiel ao acontecido. Como ser fidedigno a um desastre ocorrido trinta e três anos atrás do outro lado do mundo, mal divulgado, deturpado e em fins de Guerra Fria?

Em artigos de notícias, não faltam informações sobre como a série foi imprecisa, exagerada e falha em pesquisa científica[6] para confirmar as informações aterrorizantes ali expostas. De jornalista russo[7] a uma hipótese daquela nação realizar uma série em resposta à versão americana[8], há quem julgue até o livro de Svetlana como insuficiente ou incorreto. O fato é que, enquanto produto de entretenimento, a produção da HBO funciona muito bem e isso talvez não seja um problema.

O que se vê na série é esse suposto retrato ficcional, se se pode usar essa combinação, clássico como uma jornada do herói, fiel às estruturas de roteiro preconizadas pela indústria. Bons atores, boa trama, excelente produção. O que se diz em oposição, e aí é que está a questão, é a suposta ausência de pesquisa científica sobre o acidente, os efeitos da radiação, os números de vítimas e alcance da tragédia — como se tudo o que foi exposto ali fosse um grande exagero. Como boa parte da produção audiovisual americana, se criou um universo de tensão e pânico em torno de um dos maiores medos da humanidade de todos os tempos: um desastre nuclear. Historicamente, já passamos por alguns e a marca é indelével.

A ideologia está também aqui. Mais presente, mais forte do que no livro de nossa heroína bielorrussa, está a construção do medo, do escancaramento de um sistema supostamente falho em todas as hierarquias, do velho pânico da KGB. Ao ver a série, estamos tão concentrados na desgraça e em como as vidas serão salvas e perdidas, que talvez isso nos distraia daquela marca já descascada das paredes da memória, a quase jocosa ideologia binária que sempre pôs e opôs na mesma sentença termos como Rússia (e/ou União Soviética)e Estados Unidos.

Para além do contraste ideológico histórico entre as nações, hoje um tanto mais diluído e menos polarizado do que antes, o que interessa aqui é vislumbrar no discurso fílmico, entender qual é o objetivo por trás de uma imensa empresa de comunicação e entretenimento, como a HBO, se permitir ‘erros de cálculo’, em prol da emoção do entretenimento. Qual é o objetivo? Ele já não foi alcançado?
Svetlana quer escrever para se entender enquanto parte do que foi um país imenso, de como ele se reflete no povo hoje, distribuído em não sei quantas nações e embates nacionalistas. Seus livros tratam do passado e, como ela mesma diz, não seriam também um cintilar de luzes do futuro? Einstein já diria que o tempo é uma ilusão.

Para o criador da série Craig Mazin e sua equipe, nunca uma obra reteve tanto a audiência e alcançou o Olimpo de aceitação entre a crítica e o espectador. As repercussões negativas e as polêmicas trouxeram à tona assuntos como a energia nuclear, segurança e política internacional para o debate público, primeiro como curiosidade, depois como um mobilizador internacional de governos, mídia e comunidade científica. As discussões atentaram tanto sobre o produto fílmico, quanto com relação ao conteúdo, reacendendo questões sérias que permeiam a política internacional, a pesquisa e o desenvolvimento científico, energias renováveis e limpas e a polarização entre as nações. No fim das contas e em tempos de fake news, com redução dos investimentos em educação, ciência e cultura por um lado e a insistente e necessária checagem de fatos, persistência e teimosia da comunidade científica do outro, a ideologia que habita o universo hollywoodiano e que se repete aqui é tão óbvia — e ainda, correndo o risco de parecer ingênua na assertiva — que dificilmente se torna algo a ser levado a sério ou como uma grande e indigesta novidade. Aguardemos o retorno dos russos.

Segundo sarcófago que isola o reator 4 instalado este ano e memorial em homenagem aos liquidadores.

***


[1] ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.
[2] ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.
[3] COSTA, Antonio. Compreender o Cinema. Editora Globo. São Paulo, 1989.
[4] ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.
[5] ALEKSIÉVITCH, Svetlana. Vozes de Tchernóbil. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.
[6] https://www.forbes.com/sites/jamesconca/2019/06/27/how-hbo-got-it-wrong-on-chernobyl/#7e1b47549ce8 Acessado em 21/07/2019.
[7] https://revistaopera.com.br/2019/07/04/minha-chernobyl-e-a-versao-da-hbo/ Acessado em 21/07/2019.
[8] https://www.theguardian.com/world/2019/jun/07/chernobyl-hbo-russian-tv-remake Acessado em 21/07/2019.
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Um reencontro. O clichê do bom cinema bate forte, daquela saudade de rever um amigo de longa data que, depois de alguns desentendimentos, se reconhece e se percebe o fim de uma pequena briga e da imensa falta que se fez a partir dela. Assim foi Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, em cartaz nos cinemas.

Um homem atormentado com os incômodos das inércias e traumas da idade. As dores físicas de todo o tipo que passamos a conhecer depois de décadas vividas, das experiências sentidas, perdidas, escondidas nos armários entreabertos da memória e do corpo. Salvador (Antonio Banderas) é esse homem, diretor e roteirista de cinema, um tanto escritor, que vive entre os termos do título do filme, parado no tempo, sem perspectiva de um movimento saudável e perene. Enquanto revive sua trajetória a partir do convite da Cinemateca para reexibir sua maior obra, se depara com um vai e vem de histórias entrelaçadas que nos conta quem é esse homem, como se formou, educou, relacionou e que sobra é essa que se exibe, sombra solitária em uma casa de artista, cheia de obras de arte e vazia de vida, como um museu com as cores do diretor espanhol.


O verde e o vermelho escorrem pela tela com as nuances e os tons fortes que marcam toda a sua filmografia e fotografia vibrantes. Os enquadramentos da mesa onde escreve lembram Julieta, os isolamentos dos protagonistas nos dois filmes também. O reconhecimento de um história vivida nos olhos de um homem se vê aqui e em Fale com Ela. O elenco familiar a todos nós, a mãe que canta, uma Penélope Cruz que abre o filme nos lembrando Volver naquela cena maravilhosa e dublada - linda toda a vida mesmo assim. O humor ácido que percorre toda a sua obra, o desejo que escorre de todos os seus filmes e  neste, em uma sequência inesquecível e que nos confunde os sentimentos, com Federico (Leonardo Sbaraglia), a infância e recortes biográficos contados de uma outra forma, além de Má Educação. Os padres desenganados. Está tudo aqui.

Estudando literatura e cinema, duas artes que carecem do desenvolvimento de histórias, narrativas, acabamos encontrando um lugar comum em nossas próprias produções. Alguns professores já nos disseram que um indivíduo, qualquer que seja, se afeiçoa e aperfeiçoa nos mesmos assuntos, provavelmente por toda a sua vida. Não é difícil entender, ao passo que também não é tão óbvio quanto parece, quando assim posto. Os interesses podem nos ser múltiplos, mas a nossa produção acaba pairando sobre os mesmos temas. Assim acontece com um reles mortal, tanto quanto com o diretor espanhol. Ao falar de si - em seus filmes há sempre e cada vez mais essa marca - acaba falando um pouco de todos nós; em sua forma de contar de si, nos aproximamos e encontramos ressonância em nossas vidas. Talvez daí e assim, o interesse sobre suas obras seja tão grande - além claro, de sua qualidade artística inquestionável.


Almodóvar retoma sua marca autobiográfica em um filme que parece remeter tanto o presente quanto alguns momentos ainda não abordados de sua história, os primeiros desejos, as descobertas da infância, a relação com a mãe e uma ausência progressiva do pai. A falta de dinheiro e as soluções para a moradia alimentam a curiosidade sobre a vida real do diretor, se é parte de ficção, fantasia, o que se conta ou se de fato aconteceu, uma casa caverna, romantizada sob cores, do olhar da criança e da mãe que luta para embelezar a pobreza rude. O filme percorre uma narrativa criativa e inesperada entre flashbacks e metalinguagem, de retomada de relações e acordos com o passado sem tanta racionalização, mas sob os efeitos de um presente em que se começam a propor mudanças. É o fim de uma inércia por uma necessidade de viver, simplesmente.

O filme investe nesta sensibilidade própria das obras do diretor que, em sua forma de contar, aproxima o espectador, fazendo com que ele se relacione de alguma maneira àquela realidade que não lhe pertence. Junto com Julieta – Amantes Passageiros foi um ponto fora da curva – o diretor volta à sua forma brilhante e esplêndida de contar o que quer que seja nos fazendo querer ver mais – seus grandes filmes sempre pareceram tão curtos, um paradoxo ao nosso encantamento com seus personagens, diálogos, dramas e cores. Poderia fazer uma série e nos deixar mais tempo com essa experiência. Enquanto não acontece, o filme segue para ser revisto, fundamentalmente, nos cinemas.


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foto de Betinho Casas Novas / Estadão Conteúdo
A cidade teve uma noite de pesadelo ontem. Ganhou em todos os milímetros de água, uma dessas chuvas atípicas que nunca foram raras, só menos frequentes. Chuva de março, desígnios de Deus, punição pelas eleições — as velhas escolhas — erradas. O fato é que choveu demais pela segunda vez na capital fluminense em dois meses e, pela segunda vez, a cidade sucumbiu.

Como sucumbiu, se desfez, caiu pela quarta vez a maldita ciclovia Tim Maia. Coitado do cantor, que batizou sem nem saber, uma obra superfaturada que nunca funcionou e matou gente. A ciclovia que atrapalha a vista pro mar, que tem nas encostas da avenida Niemeyer uma das imagens mais impressionantes da cidade, nunca serviu pra nada. Estragou uma paisagem que em dia de ressaca é mais do que qualquer poesia. Uma via que faz andar de ônibus valer a pena, porque você vê de mais alto as ondas lambendo as pedras, sensual e sensorial como já disse uma vez.

Essa obra poderia ser o retrato da cidade. Essa obra agora fadada ao esquecimento e ruína, porque desistiram finalmente de lhe reconstruir mais uma vez — não é redundância. De remendar com band-aid o que precisaria de 80 pontos. Ou tiros.

Sim, porque a segunda-feira não foi fácil. Ontem, além das chuvas, soubemos que doze militares cercaram um carro de passeio no domingo e tentaram assassinar uma família negra em um bairro pobre. O pai morreu. Os soldados riam enquanto atiravam. O presidente apaixonado por militares e armas não se pronunciou. O prefeito, o governador — nada. Pensando assim, parece vingança esse monte de água caindo do céu por essa sequência de más escolhas do pessoal dessa terra. Da maior parte, claro — há gente boa na minoria dos votos.

O problema — um deles — é que tudo se confunde em discurso e imagem. É ver o repórter comentando sobre o lixo que desce da Rocinha e para na rua. Ele diz que precisamos ter consciência, saber onde jogar o lixo. Eu me perguntei, porque realmente não sei, se há coleta de lixo lá pra cima. Pedir consciência e higiene no asfalto onde passa caminhão me parece fácil. E de novo, o repórter não está de todo errado, só não lhe ocorreu pensar um pouco mais, no amplo espectro. As chuvas assolaram a Zona Sul e a Barra, zonas de dinheiro da cidade, onde a classe média e alta se concentra. O alarde e desespero foram ao nível everéstico, mas e as tragédias cotidianas e esquecidas da ‘zona oeste profunda’, como diz um amigo — e da zona norte? Choveu um pouco menos, mas sempre alaga como alagou, sempre mata como matou. Pessoas também usaram barcos no asfalto.

Em fevereiro foram seis mortos. Agora em abril, dez. O prefeito diz, culpado, que não foram prudentes, não executaram as medidas para sanar ou prevenir a repetição do começo do ano. Não entendeu que um raio cai duas vezes no mesmo lugar. Ou dez. Discursos como esse se repetem à exaustão, como a desculpa de que ‘nunca choveu forte assim’. Ninguém se lembra dos cortes de verbas de conservação da cidade lá em 2017. Pois é, teve outra chuva atípica naquele ano.
Parece que os cariocas cansaram, nós, os retirantes, também. O prefeito pede fé inteligente, e isso intriga, a junção das palavras. Fé inteligente em sua gestão é um paradoxo. Vale até citar toda a fala da matéria, foi realmente brilhante:

- Peço para todos sermos prudentes. Termos uma fé inteligente. Em época de chuva, de temporal, não vamos andar na beira de morros e onde tocam sirenes, não vamos construir casas em talvegues, não vamos botar a mão em postes, nem vamos a praia quando tiver trovão.

Se o problema do Rio fosse só a chuva catástrofe de ontem, estaríamos bem ferrados, mas talvez mais pacientes e esperançosos. Mas, foram dez mortos à toa entre ontem e hoje. Foi mais um negro fuzilado à toa na cidade, ao escárnio e crueldade de militares. Parece que foi engano, disseram por aí. Como se mata alguém com oitenta tiros, desarmado, em frente à população e à família da vítima, rindo… por engano? O assassinato foi cruel e ele sozinho já desesperaria qualquer humano que assim se definisse. As chuvas foram um adendo, um negrito em um texto quase apagado de tão copiado por aí: a cidade está entregue, acabada, esquecida. Vale adicionar que está violenta como sempre, assassina como nunca e triste. Porque é esse o sentimento. Estamos no esgoto das belas paisagens recortadas por lindos morros com a praia ao fundo e a vista pro Cristo e Pão de Açúcar. Mas não esqueçamos: estamos no esgoto.
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Essa mulher independente e livre não para. Não sobra tempo, abundam ideias sobre tudo: projetos legais, textos, trabalho, caminhada, amigos, álcool, viagens e muito café. Ainda assim, sobraram uns minutos para um dever de casa, que era esse desafio de vida, escrever uma poesia. Pensou um pouco, leu um livro e saiu esse texto curtinho. Não vai embora ainda, dá uma chance pra moça:

Uma mulher livre nunca ganhou flores.
Achou que pedir seria um absurdo.
Mas sempre as quis.

Uma mulher livre ganhou flores da mãe, do pai, da amiga.
Nunca do rapaz.
Porque rapazes não dão flores.

Rapazes dão trabalho.
Uma mulher livre trabalha demais.
Preferiu plantar uma pimenteira.

Uma mulher livre com uma pimenteira foi ao mercado.
Encontrou sementes de flores perto das frutas.
Vai plantar no fim de semana.



*Foto de Chris Barbalis.
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Saí da casa do rapaz e parei nas lojas americanas, a caminho do metrô para casa. Era fim da manhã de um feriado e dessas noites de improviso, quando desejamos ser um pouco mais do que nosso dia a dia permite.

Três calcinhas de algodão, uma ampola de hidratação para o cabelo, um pacote de amendoim japonês e o para sempre aguardado liquidificador. Com jarra de vidro e base de inox. Surpreendentemente barato e até agora já foram duas palavras imensas de escrever.

A noite foi divertida e terminou conforme o esperado, justificando a escova de dente na bolsa pequena. Mas, como já aconteceu outras vezes com o rapaz, foi uma noite eventual, um reencontro animado como o bloco de carnaval que nos atravessou à noite, um equinócio. A intimidade é muita para os anos de interlúdio e amizade colorida, e nenhuma ao mesmo tempo, já que não somos frequentes no cotidiano. Deixamos a casa, ele para a bicicleta e eu para o liquidificador — como se aquele monte de confidências de horas antes estivesse arquivada para a próxima estação ou descartada, como a embalagem do queijo minas que comemos no café da manhã. Não como queijo sempre, seria mais uma exceção daquele momento, já que ainda vinha com torradas, tomate cereja e café preto. Tudo era novidade e repetição.

Cheguei em casa estranha, mas feliz, com o liquidificador de base inox e jarra de vidro, três calcinhas de algodão para lavar, o amendoim japonês para alguma visita e uma renovação capilar aguardando o próximo banho. A sensação estranha se diluiu durante as horas e terminou em um encontro de amigos no boteco de sempre.

Ainda não sei se espero o próximo equinócio, se me interessa essa vida de intervalos curtos e intensos — o clichê do palito de fósforo. O queijo, entretanto, ficou na lembrança e comprei um pedaço da mesma marca no supermercado. Pequeno, só para sentir o gosto bom e não deixar o inevitável enjoo de horas.

*Imagem de Cinzia Bolognesi
*publicado originalmente no Medium, em 2017.
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No dia dois de fevereiro de 2014 um dos meus mestres se foi. Virou luz, foi pro céu, virou poeira e terra, natureza. Não importa a crença. Ele é, ao mesmo tempo, imortal em suas obras, por suas obras, através delas. Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas de todos os tempos e do mundo, sem exagero. 

A falta foi tanta, que lhe escrevi sobre aquele mesmo dia, tão bonito e pacífico em Salvador - Dia de Yemanjá -  tão brutal foi aqui no Rio. Essa aqui é minha homenagem e saudade.

Teve também esse, depois que eu li os livros de Svetlana Aleksiévitch e acho que eles têm um trabalho que se comunica bem e busca objetivos similares com o mesmo afeto, cuidado e qualidade. Svetlana virou Nobel nos últimos anos e cada livro dela poderia ser um filme dele.

Tiveram outros textos e menções ao mestre, não seria de outra forma, mas também tem essas impressões de Canções, um de seus filmes mais gostosos. Vale a leitura.

O título é sobre dois mestres, porque lembrei de outro. Um professor que virou amigo, mas sempre foi orientador da vida, das teorias, do cinema. Mohamed Bamba também nos deixou cedo demais e hoje o facebook o trouxe como uma lembrança, uma publicação minha justamente falando de Coutinho que ele generosamente compartilhou. Muitas saudades de Bamba, daquelas que o tempo não apaga, mas deixa um sorriso das lembranças felizes.

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Qual não foi minha ilusão em achar que conseguiria dar conta da vida e da programação televisiva de forma a publicar um por semana? Agora parei e vou deixar apenas numerado aqui pra facilitar a indexação :)

Segue as dicas da ressaca de uma semana caótica no Rio de Janeiro e outra ainda mais estranha que segue começando.

A noite de doze anos
A noite de doze anos || Álvaro Brechner - 2018 || 122 min
Uruguai, anos 70. O país é mais um que atravessou anos de chumbo na América Latina e, como tal, encontrou repressores militares e vítimas subversivas. José Mujica (se tornou um dos melhores presidentes que esse planeta viu), Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernandez Huidobro foram três militantes Tupumaros presos e encarcerados em um regime especial do período obscuro de seu país. De quando foram levados do presídio comum até sua liberdade, foram 12 anos sem paradeiro, sem sol, sem vida e à beira da loucura. O filme é imenso e não por trazer apenas os personagens, mas pela forma de contar a história, com uma beleza, relevância e honestidade dignas de prêmios. Emocionante, nos faz pensar sobre o tempo que vivemos hoje. Não deixe de ver.

Aqui seguem duas matérias, en español sobre o filme, no Hacerse la critica e no Lamás Médula

O LABIRINTO DO FAUNO
O labirinto do fauno || Guillermo del Toro - 2006 || 118 min
Do aclamado diretor de A Forma da Água (que, para mim não é grandes coisas), este é um grande filme. Carrega uma fantasia que faz parte da filmografia do diretor, com toques de crueldade condizentes com a trama. É um filme bem equilibrado, com uma fotografia esplêndida e direção de arte sem igual. Merece todo o destaque e nem parece que já vai fazer treze anos. O filme conta a história de uma garota que, ao fugir de um pai tirano na Espanha dos anos 40, se perde em meio à floresta e encontra um universo diferente e desafiador. Levou três Oscar e quase cem outros prêmios.

FIVE CAME BACK
Five came back || Laurent Bouzereau - 2017 || 60 min/eps
Baseado no livro de Mark Harris e adaptado para a tv pelo mesmo, esta minissérie de três episódios conta as histórias das participações de John Huston, John Ford, Frank Capra, William Wyler e George Stevens na produção de filmes durante a Segunda Guerra Mundial. Os cinco, os maiores diretores do cinema de ficção da época, se alistaram para o exército americano e, ao verem a potência da propaganda nazista - quem não conhece, pesquise sobre Leni Riefenstahl e seu Triunfo da Vontade (1935) - entraram em 'campanha' para alimentar o moral e impulsionar a garra pela vitória dos Aliados. Documentário interessante, traz depoimentos e imagens dos filmes de todos eles e de grandes diretores do cinema americano e mundial sobre o período, com informações que poucos teriam acesso de outra maneira. Um pouco 'para os fãs de cinema', mas bastante interessante para entender as personalidades de cada mestre, seus engajamentos, diferentes produções e alcances que seus filmes tiveram. 
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Eis a segunda semana das Maravilhosidades, agora com três indicações que, inconscientemente, trouxeram personagens importantes e marcantes em suas trajetórias. São três bons filmes, um é com certeza 'obra de arte' e pronto, chega de suspense!

Moonlight
Moonlight: sob a luz do luar || Barry Jenkins - 2016 || 111 min
Parece que 2016 foi ontem, quando esse filme vem à mente. As impressões sobre ele ainda estão latentes e o que aparece primeiro é um sentimento e depois a realização de que estamos vendo uma obra prima. Barry Jenkins conseguiu um elenco sem igual, um filme que toca em um sem fim de temas sensíveis e, por isso, universal. Eu não consigo ver um defeito nele, honestamente. É um dos melhores filmes da minha vida e em todos os aspectos: dramaturgia, fotografia, som, roteiro, direção. Se não viu ainda, vai correndo. Não dá nem vontade de ficar falando sobre ele, nem veja o trailer, tenta aproveitar em primeira mão, com uma impressão fresca e virgem.


Ícaro
Ícaro || Bryan Fogel - 2017 || 120 min
Esse é um filme inesperado. O documentário atinge uma das premissas clássicas do 'gênero', que é a imprevisibilidade. A ideia é simples: Bryan Fogel, diretor, roteirista e protagonista é também ciclista amador e quer entender de que forma o uso do doping passou, durante muitos anos, despercebido pela mídia e organizações olímpicas e de esportes. Ele treina e compara suas performances antes e depois e, usando o doping em si mesmo, e acaba descobrindo uma máfia enorme e as estratégias reais de como burlar o sistema. Impressionante, com consequências e desdobramentos que não parecem ser o mote inicial e sim a consequência do 'fazer do filme'. Tenso, polêmico e interessante. Levou o Oscar e o Sundance de documentário em 2018.


A garota dinamarquesa
A garota dinamarquesa || Tom Hooper - 2015 || 119 min
Pense que é o mesmo diretor de O Discurso do Rei (2010) e Os Miseráveis (2012). Acho difícil realmente alguém não ter visto esse, o que não inviabiliza ver de novo, aproveitando a disponibilidade na Netflix e a infeliz e quase extinção de videolocadoras. Lili (Eddie Redmayne) e Elba (Alicia Vikander) são esse casal que ultrapassa as barreiras sociais em um emaranhado de questões sobre transgênero, tolerância e sexualidade. Nos tempos quase sombrios que vivemos, vale ver esse respiro de esperança, resistência e amor, ainda que envolto em um drama. Baseado em fatos reais, levou trinta e um prêmios pelo mundo, entre eles o melhor atriz coadjuvante para Vikander.
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Parece mentira, mas sim, voltamos com as Maravilhosidades semanais, com o Café de cara nova e com a inclusão de toda uma vida literária que acontecia no Medium, em português e inglês. O plano para 2019 é focar, então fica tudo agora aqui, junto, misturado e organizado. Vai dar certo (eu acho)!

As Maravilhosidades também mudaram, porque, com o trabalho, a pós, os contos, críticas e crônicas, não está sendo fácil. Continuaremos semanais, mas com três dicas especialíssimas como sempre e diversas, porque ninguém vive só de comédia romântica, documentário e grandes diretores. ;)
Agora chega de falação e segue a primeira edição deste ano desafiador:

Roma
Roma || Alfonso Cuarón - 2018 || 135 min
Cuarón estava inspirado com esse. O diretor de E sua mãe também (2001), Filhos da Esperança (2006) e Gravidade (2013), não apenas dirigiu esse, como foi co-editor, fotógrafo e roteirista. A fotografia em preto e branco impressiona, o apuro visual dos enquadramentos e suas sequências são de tirar o fôlego ao mesmo tempo que instituem um tempo diferente do olhar. E ainda, realizando o segundo desafio maior de um cineasta (o primeiro seria filmar em plano-sequência): filmar na ordem dos acontecimentos.

Estamos falando da Cidade do México no início dos anos 70, com uma turbulência social iminente e e se espalhando pelas ruas e as velhas tradições encontrando as transformações sociais em uma casa de classe média. O protagonismo está na empregada doméstica Cléo: uma mulher jovem, que vem do interior do país para morar na casa, nada diferente do que nos aconteceu por anos no Brasil. O filme é magnífico, a atriz Yalitza Aparicio havia acabado de se formar como professora e após quase um ano definindo o elenco, o diretor a encontrou. O filme é uma produção original da Netflix e acaba de levar os Globos de Ouro de melhor filme, melhor diretor e roteiro. Não tenha dúvidas, vale a experiência. Só não espere nada muito americano aqui, a pegada é outra.

Bônus: entrevista de cinco minutos em inglês, com Cuarón e vários convidados ilustríssimos.

The lobster
The Lobster || Yorgo Lanthimos - 2015 || 119 min
Não sei se todo mundo percebeu esse filme chegando em dezembro do recém-finado 2018. Ele é estranho, porque a estranheza faz parte de sua estética e de tudo o que propõe, o que o torna ainda mais interessante. Colin Farrell é um recém-divorciado que se hospeda em um hotel e precisa encontrar um novo par ou será transformado em um animal. Rachel Weisz é uma mulher cegamente apaixonada.

É o apocalipse para as pessoas solteiras, a solidão é uma ameaça à vida humana e precisa ser combatida a todo custo. Um dos filmes mais críticos, interessantes e inteligentes de 2015, levou a Palma de Ouro e outros 33 prêmios pelo mundo. Vale cada minuto e carrega grande elenco.
Ainda em dúvida? Veja o trailer!

Marie Kondo
Ordem na casa, com Marie Kondo || Marie Kondo - 2019 || 40 min/eps
Correndo o risco de apanhar aqui, a série é interessante, juro! Marie Kondo é uma escritora e consultora de arrumação (organizadora, se preferir) japonesa. Ela lançou alguns livros que viraram best sellers instantaneamente e ainda tem um canal no Youtube. Agora entra na Netflix com essa série fofa e até curta acerca do mesmo macro tema: organizar a casa para viver melhor. Parece simples e óbvio, mas levanta questões. Para quem é adepto de uma cultura minimalista, menos consumista, talvez não veja grandes novidades, mas vale pelo menos, para pegar umas dicas.

Arrisco dizer até que não precisa ver todos os episódios, mas é legal acompanhar os primeiros e entender o porquê do sucesso dessa moça, como suas ideias simples te levam a refletir sobre seu modo de viver com o que você tem - de bens a familiares e amigos. Tudo o que você tem lhe traz alegria? Antes de reclamar comigo por indicar uma série que parece auto-ajuda + qualquer outra de arrumação, dá uma chance. E, qualquer coisa, investe no documentário já indicado aqui, Minimalismo.

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— Oi… posso sentar aqui?
Disse que sim e tirei a bolsa de cima da cadeira. Acostumado a levar um livro e caderno, acabo sempre andando com uma bolsa, como se fosse um professor, mas não sei se teria paciência para isso.
Ela trazia um cappuccino com mais canela do que eu colocaria. Seus movimentos eram suaves, tranquilos, mas no rosto carregava uma expressão que eu não conseguia definir se era tensão ou tristeza, acrescida dessa calma em que já não existe desespero ou qualquer sinal de angústia. Continuei como estava, mas agora não poderia observar o ambiente, seria estranho com alguém sentado à minha frente. Decidi escrever ou fazer de conta, o caderno já estava aberto. Fingi rabiscar algo enquanto ela se acomodava, saíram palavras soltas, ainda sem conexão.

Ela trazia muitas coisas: um livro cujo título não conseguia ver, com marcador no meio, um cachecol vinho, fino, aberto e com franjas, meio solto no pescoço, uma bolsa grande marrom, o celular. Não sei como se equilibrava entre seus objetos e o fazia de forma meio desajeitada, mas parecia ser uma confusão frequente. De calça escura, blusa branca e jaqueta aberta, óculos de grau nos olhos com aro quadrado e cabelos tão desarrumados quanto o resto da cena, era uma moça de seus trinta e qualquer coisa que parecia estar sempre em cima da hora para um compromisso. Mesmo em uma manhã de sábado.

— Júlia, prazer. Como é seu nome mesmo? — Tirou a jaqueta, colocou no encosto da cadeira de madeira escura, a bolsa pendurada, manteve o cachecol. Respirou fundo, quase como um suspiro, quando finalmente se organizou.
— Pedro.

A movimentação dessa moça desconhecida contrastava com a minha imobilidade, sentado em uma cadeira, gastando tempo com a vida alheia, observando. De repente me senti velho e os senhores que jogam xadrez e dama nas praças do bairro vieram à minha mente, assim como as senhoras que tomam sol levadas por seus acompanhantes em cadeiras de rodas. Esse pensamento me incomodou um pouco — mais pelas senhoras do que pelos homens, animados, entre a gritaria das peças de dama ou o silêncio marcado pelo tempo do xadrez. Era um exagero, entre eu e Júlia haveria, no máximo, dez anos de diferença. Arrumei-me na cadeira, como quem busca uma posição mais correta, ainda que menos confortável.

A cafeteria não é meu escritório, apareço por aqui nos finais de semana, quando o trabalho, que me toma quarenta horas semanais, acaba. É pequena e, como tudo no bairro, tem mais de vinte anos e poucos funcionários, a maioria com algum tempo de casa. Não conheço todos, mas converso com alguns de vez em quando. Venho para tomar um café expresso ou duplo, a depender do que me aconteceu na semana, do estresse acumulado. Hoje é um dia de expresso, mesmo sem pressa.

— Posso conversar com você? — Ela me perguntou meio tímida, mas decidida, olhando para a xícara grande ainda com o leite em espuma pincelado de marrom, e para mim, direto nos olhos, me fazendo baixar os meus. Uma amiga me disse que no Chile, quando um homem tira uma mulher para dançar, a encara até que ela responda à altura, então ele baixa os olhos como o início de um jogo de sedução. Os homens lá não conseguem sustentar um olhar, ficam inseguros.

— Claro, mas… — e no que eu ia perguntar se havia algum assunto em particular, fui interrompido novamente.

— Eu sei que você está sempre aqui, fica observando as pessoas… eu faço um pouco disso também, mas hoje tenho uma história para contar… é para isso que você vem, não? Para ver e ouvir histórias?
Ela era imperativa. Falava com o olhar, com um jeito decidido e suave ao mesmo tempo, que me obrigava a aceitar o que quer que fosse, ainda que eu o fizesse por vontade própria. Seu sotaque soava firme, mas delicado, não criando uma imagem automática que remetia ao Nordeste dos estereótipos, mas as pinceladas da entonação e os verbos diretos acentuavam nossas diferenças.

— Normalmente eu vejo mais do que ouço, minhas conversas são com o pessoal do balcão, mas não passam muito de assuntos do dia a dia, política, notícias, esse pacote básico.
— Posso te contar algo diferente então? Como um bônus… um extra do pacote?

— Por favor, seria uma honra. — E sorri. Mas também pensei que poderia ser um suplício, se a narradora não fosse das melhores. Estava intrigado e nada de muito surpreendente acontecia em minha vida. E também não tinha compromisso para as próximas horas.
— Hoje é meu último dia na cidade. — Assim começou falando, enquanto guardava o livro na bolsa, mas mantinha o celular na mesa virado para baixo, como se precisasse estar conectada ao mesmo tempo em que não queria se distrair com aquilo. — Amanhã de manhã pego o primeiro voo para a Islândia.

Eu conhecia pouco sobre a Islândia, sabia ser um dos melhores países para viver. Sabia que o ensino superior era gratuito e de qualidade e é claro, que os índices de criminalidade não chegavam nem perto do que vivíamos no Brasil. Ainda assim, me surpreendeu, esperava algo mais padrão, Barcelona, Paris, Londres, Berlim.

— Na Islândia há uma casa me esperando, um mestrado, uma vida tranquila. — Disse quase se justificando, como se precisasse falar aquilo para si mesma. Como se já fizesse isso há um tempo, de frente para um espelho.

— E ainda tem o fato de você ser mulher, lá a equidade de gênero é a mais próxima neste globo. — E me senti citando uma reportagem ruim, depois dessa equidade. — Desculpe, continue.

— Eu sei, é um dos motivos. Quero entender o que é viver em um país assim. Vamos ver o que acontece. Mas não vim falar sobre a Islândia. Você pode escrever, se quiser. — Ela disse, quando me viu rabiscando Islândia.

— Não precisa, só achei a escolha interessante. — E fechei o caderno, marcando a página com a caneta.
Júlia se recostou na cadeira, como quem começa a relaxar. Mexia o cappuccino, deixando esfriar o suficiente para não queimar a língua.

— Demorei a gostar daqui. — Disse devagar. — Essa cidade não é fácil.
Acostumado às declarações de amor exageradas sobre a cidade maravilhosa, terra de festa, cerveja, sol e carnaval, foi bom ouvir algo diferente em um fim de semana de frente fria. Começava a chover. Agora ela tinha a minha atenção. Ela sabia que eu era carioca, eu sabia que ela não era.
— Você sempre toma cappuccinos aqui?

— Costumo tomar café preto mesmo, hoje me deu vontade de cappuccino… adoro o gosto da canela na mistura de café com leite.

— Gosto de café preto também e o daqui é especial. Por que o Rio de Janeiro? — levantei a mão em busca de Marcela, a garçonete, para mais um expresso e uma água com gás. — Quer alguma coisa?
— Biscoitos, se eles tiverem, obrigada. O Rio de Janeiro foi uma indicação para um curso, vim de primeira e já para a vida, com uma mala de sapatos e outra de roupas. Alguns livros na mochila. Problema foi essa saída agora, com poucos sapatos, uma estante imensa e a dor do desapego. — Sorriu. — Doei muitos livros, enviei algumas caixas para a casa dos meus pais.

Pedi café, biscoitos, água com gás, ela ficou calada, esperando Marcela voltar. Não demorou muito, a garçonete olhou para nós dois e trouxe tudo, talvez quisesse saber do que falávamos, já que era a primeira vez que alguém vinha à minha mesa. Sorriu cúmplice e curiosa para mim, retribuí discretamente, como quem diz ‘vai trabalhar’. Marcela saiu de cena, mas ficou de olho lá do balcão e, ainda que não comentasse nada com ninguém, parecia feliz em me ver conversando com aquela moça.

Semanas depois eu descobriria mais. Marcela me puxaria para conversar e diria que conhecia Júlia e achava que ela também era mais sozinha do que precisava. ‘Mais sozinha do que precisava’ foi a frase que ficou em mim, como quando um psicanalista interrompe a sessão para que você guarde na memória o que ele considerou relevante. Gostei de perceber que Marcela era uma observadora de peso, ela tinha uma sagacidade, uma agilidade no espírito e isso era óbvio nela, talvez por ser mais jovem. Havia esse outro lado nela que agora me parecia novo ou que não havia notado antes, de que só quem aprecia a calma consegue parar e observar o outro em detalhe.

Júlia me contou que estava passeando pelos lugares que mais gostava na cidade, mas sabia que não conseguiria ir a todos. Como eu, era viciada em café, morava perto e adorava essa cafeteria, que em si, não aparentava ser grande coisa, mas tinha seu charme. Disse que morava no Rio havia oito anos e que, quando chegou, não esperava passar mais do que dois. Não via a cidade como um lugar para morar e criar uma família, gostava, mas não se identificava a esse ponto. Agora também não encontrava em Salvador esse pouso definitivo como sempre havia imaginado, como o retorno final de uma migração. Achava que iria acontecer, mas esse tempo ainda não havia chegado. Salvador remetia a um passado tranquilo, mas a cidade tinha uma dificuldade de crescimento, de oferecer boas oportunidades profissionais e seus laços familiares seguiriam firmes aonde quer que ela fosse. A volta poderia esperar.

Viveu esse contraste de deslocamento e permanência em quase todos esses anos, chamando tanto Salvador quanto o Rio de Janeiro de casa, sem concordar com nenhum, como se precisasse falar dessa forma para não ofender ninguém, nem a ela mesma. Hoje é ‘a casa dos pais’ e ‘o Rio de Janeiro’, já que não mora mais aqui, pelo menos em pensamento.

— Logo que cheguei, tinha essa ideia de que o Rio era como São Paulo, só que com mar. — E riu.
Ri junto, porque era uma frase de alguém que não tinha a menor ideia do que estava falando.
— Quase me arrependi de ter vindo, quando vi que a cidade se parecia até mais com Salvador e isso nos aspectos ruins. Acabei a identificando com o que há de pior, as informalidades, uma intimidade imposta com quem não se conhece, os jeitinhos ou as pequenas corrupções do cotidiano de quem precisa chegar primeiro em algum lugar por atalhos tortos, cortando o caminho dos outros, passando por cima — não é à toa que o trânsito da cidade seja tão agressivo. Foi difícil, mas nunca quis ir para São Paulo, a segunda opção para quem tem essa agonia de viajar, trabalhar, crescer. Nunca levei a ideia a sério porque não sei se conseguiria viver sem mar. É tudo meio, sempre, sem horizonte. Na Islândia, pelo menos, isso não vai me faltar. E sim, eu sei, não dá pra mergulhar. Não se pode ter tudo. — Sorriu e continuou:

— Depois das primeiras impressões sobre o Rio, fui me adaptando, consegui me espalhar por aqui, conheci gente interessante e nem mencionei aquela ideia de São Paulo aos cariocas, depois que eu soube dessa briga besta entre as capitais. Nunca entendi muito bem essas rivalidades construídas sobre vaidade. E essa frase não saiu solta, te garanto, pensei um pouco sobre isso. — Sorriu novamente e pude vê-la se soltando ao tempo em que mexia no cabelo, indecisa se fazia um rabo de cavalo, um coque ou deixava todo de um lado do rosto. Ela sabia do que falava, agora já tinha a cidade na palma da mão. — É como Brasil e Argentina. E olha que namorei um argentino que é um amigo até hoje. Estou me perdendo.

Deixei-a falando, eu só aparecia aqui e ali para uma observação, um comentário de quem ouve uma boa história — tinha dado sorte. Júlia viveu romances bons e ruins, internacionais, locais, à distância. Todas as opções de uma vida jovem que não se casou. Namorou menos do que quis, nunca soube bem porque, mas não se arrepende.

Viveu a cidade com vontade. Beijou a estátua de Carlos Drummond de Andrade mais de uma vez, seu vizinho de bairro. Conversava com ele da janela do prédio em uma distância enorme e ficava com pena dele, sozinho no banquinho do calçadão em dias frios como esse. Pegou van na Lapa de madrugada, gritando os nomes dos bairros a cada parada para pegar mais gente no caminho, subiu a pé até Santa Teresa. Teve amnésia alcoólica em um Réveillon de Copacabana, correu da polícia em uma manifestação política na Estação Central do Brasil. Era frequente na Praça São Salvador, muito mais por adorar o nome do que a praça em si. Dançou no baile Charme no Centro quando tudo era seguro e parecia a Suíça, de tão tranquilo — era Copa do Mundo. Atravessou tiroteio em ônibus, foi assaltada uma vez à faca por dois garotos com metade de sua idade e outra com arma na cabeça, por dois motociclistas no final de um dia de trabalho, o último neste ano. Odiou muito a cidade, muitas vezes.

— Mas eu não sei… tem alguma coisa aqui. Não é como Salvador, onde nasci e fui criada. Salvador tem um amor no sangue, inexplicável, dessas coisas entranhadas na carne, como dendê e pimenta, como costumamos dizer. Cheguei já criada ao Rio de Janeiro, assim, crescida. Ainda era uma menina, mas não era adolescente mais, entende? Não me achava uma mulher formada e também não consegui me apaixonar cegamente por aqui, assim, de cara, como todo mundo diz. Mas hoje eu gosto e sei que vou sentir falta.

Eu concordava com ela, imagino que ela encontrava defeitos em Salvador também, mas era terra natal e isso ninguém tira, não há como mexer, comparar.
Olhei de relance para a cafeteria e notei pela primeira vez que o tempo tinha passado. A chuva estava mais fraca do lado de fora, pessoas já entravam sem guarda-chuvas, outras tinham ido embora. Até Marcela tinha desistido de prestar atenção, sabia que eu voltaria depois, talvez amanhã ou no próximo sábado e poderia esperar para matar sua curiosidade com aquelas perguntas descabidas e indiscretas. A garçonete costumava cortar os longos silêncios, sobras de assuntos acabados assim, como quem tem pressa em saber qualquer coisa e não suporta tempos mortos em sua rotina.

— Sabe o que me doeu no coração? Quando eu realmente vi que gostava daqui? Arrumei um trabalho do outro lado da cidade, na Barra, e tinha aquelas duas opções de caminho, atravessando o túnel que desembocava na Rocinha ou contornando o Vidigal. Sempre preferi o segundo, porque não tem nada de muito bonito pelo outro caminho, é uma avenida sem graça, mas ali tinha o mar todo da janela do ônibus, mesmo que demorasse mais um pouco para chegar. Logo antes da descida do morro do Vidigal, há uma curva aberta e olhando para baixo, vemos o paredão que nos sustenta com uma inclinação que se projeta para o mar, quase sem pedras na base, então as ondas batem com tudo, mas sobem e descem lambendo a encosta. É sensual até… — E ficou calada, como se tivesse dito algo sem pensar. — Não me lembro de ter contado para outra pessoa… Sensual… Não sei se você já percebeu essa quina, mas para mim, é o lugar mais bonito da cidade. Se você tiver a sorte de passar pela avenida em um dia de ressaca do mar, dá uma olhada. Sempre quis parar ali para ver um pouco, até que construíram aquela pista horrorosa de ciclismo. Cortaram a minha vista, quase chorei.
E foi bem naquele pedaço… sabia do que ela falava, porque ali, justamente, houve um acidente em dia de ressaca e a pista de ciclismo, novinha — que achei ter sido uma boa ideia para a cidade — ruiu, matando quem passava na hora.

— Sim, é bem no local do acidente. — Ela me leu instantaneamente. — Tento não me lembrar dele.
Ela não era uma pessoa de grandes gestos, mas falava um pouco com as mãos. Também não falava alto e parecia se incomodar com barulho. Às vezes a máquina do café, a porta ou o arrastar de uma cadeira a interrompia e ela não se irritava, só se perdia um pouco, como se estivesse andando distraída, alguém esbarrasse e ela esquecesse o rumo por uns instantes. Agora tomava um pouco do cappuccino, já devia estar quase frio, pelo tempo.

— Preciso ir embora daqui a pouco. Tenho que andar pelo calçadão, aproveitar que parou de chover, ia passar o dia sem fazer isso se continuasse aquele toró.

Olhou para o celular pela primeira vez. Essa interrupção me doeu um pouco, esperava ter mais tempo, ela já tinha me ganhado, queria viver a história dessa menina que ia morar sozinha em um dos lugares mais frios de que se tem notícia e, ainda por cima, vindo de uma terra sempre quente. Mesmo com todos aqueles adjetivos, todos os motivos, a Islândia não seria fácil.

— Se você quiser dar essa volta comigo, podemos ir juntos e de repente lhe conto mais.
— Se você não se incomodar, seria ótimo. — Olhei para Marcela, que passava por perto com uma bandeja cheia de xícaras e pratos sujos. Não me viu. Esperei ela se virar, já no balcão e fiz o gesto de quem pede a conta. Sorriu e assentiu, agora com uma olhar tranquilo e seguro, como se alguém tivesse te contado uma boa notícia.
— Pedi a conta, se você não tem mais tempo.
— Obrigada. Resolvi te contar porque gosto da cidade e agora não consigo dizer muito… talvez seja mais fácil dizer as coisas do entorno… de como eu decidi ir embora. — Ela parecia perdida, como se não soubesse como continuar e vi que não havia nada construído, nenhum texto pronto e isso me deu um alívio, nunca quis ser relator de biografias.
— Podemos conversar sobre outras coisas, não tem problema. — E como se não me ouvisse, seguiu falando, enquanto pagávamos a conta que fez questão de dividir, por mais que eu insistisse no contrário.

— Viajei anos atrás a Buenos Aires. Conhecia a cidade pelos outros, muitos amigos já tinham ido pra lá. Estava tudo muito barato, ainda éramos o país rico da América Latina, depois da crise deles, antes da nossa. Entrei em uma loja dessas de design, com um mundo de coisas bonitas e assinadas por pessoas que eu não conhecia e saí de lá com um abajur vermelho que imitava rosas em fitas de cetim e um caderno de cartas, cujo título era letters for your future self. Era em inglês mesmo e achei a ideia divertida. Não me aguentei quando voltei e escrevi logo a primeira de uma só vez e sem rascunhos, sem saber se suportaria a curiosidade de esperar dois anos para abri-la, mas depois me esquecendo de sua existência e conteúdo. Hoje o tempo passa mais rápido, né?

Saímos do café, ainda ventava, mas sem chuva. O céu estava carregado, prestes a desabar, mas ela parecia não ver aquelas nuvens quase pretas ou não se importar. Não tinha tempo para essas dúvidas e caminhava para o semáforo, com a certeza de que eu a acompanharia, ainda que aquele tempo aconselhasse outra coisa.

Continuou de onde parou, me disse que na época estava chateada com o Rio de Janeiro, que não conseguia se relacionar com as pessoas da cidade, que os envolvimentos amorosos eram rasos, superficiais como uma vida de propaganda e a cidade realmente sempre foi voltada para a televisão, o que acabava distorcendo as reais imagens das pessoas. Reais imagens das pessoas… as pessoas em si. Talvez estejamos contaminados por isso, pela mídia o tempo inteiro, por notícias irrelevantes sobre a privacidade de qualquer pessoa supostamente interessante. E ela reconstituía as frases de sua carta com um ímpeto quase teatral, estava se divertindo, como se uma pessoa mais jovem e idealista tivesse mais certezas do que ela, como se estivesse lendo uma carta de outra pessoa. Ela dizia que queria ir embora, para um lugar tranquilo, que a vida real fosse mais importante do que o que se criava sobre ela, que o dia a dia banal não fosse noticiado, mas que as notícias fossem tão relevantes e fundamentais quanto o café preto antes de sair de casa, de manhã. E seguia escrevendo, ela me dizia, de que não aguentava mais o calor do verão, mesmo amando a primavera e que esperava que, em dois anos, estivesse pronta para sair, se tudo estivesse na mesma.

— E assim, me lancei ao desafio. Ri muito no início da carta, quando comecei a ler, porque eu estava muito indignada, de coração partido por um rapaz e de saco cheio da cidade, do meu trabalho, de tudo. Na carta, eu me recusava a ser acomodada, mas o tempo passou e foi exatamente isso o que aconteceu. Às vezes eu achava que estava mais velha e com isso, mais tranquila, mas aquilo mexeu comigo. Mesmo mais velha. Estava acomodada e sabia que era isso, até na terapia eu falei. E então decidi. E me propus a qualquer coisa. Não queria ser vítima de bala perdida, virar estatística nem ouvir mais tiroteios, não queria essa vida de saber nomes de subcelebridades, não queria ir ao trabalho — já não queria há um tempo e isso ficou ainda mais forte — e era tão interessante e imperativo isso tudo que, sem saber, já tinha feito uma economia. Encontrei um curso, me inscrevi ano passado. E amanhã: Islândia. Tudo por causa da carta.

Entendi que ela, na verdade, não tinha nada programado, não tinha se preparado para isso e por isso repetia para si, todas as manhãs, que a Islândia era um lugar melhor para viver. E daí que fosse fazer frio? Ela compraria casacos, cafés, vodca e até aprenderia a gostar de uísque e chá, as bebidas que mais odiava na vida — além de leite puro e açaí, essas eram impossíveis. E daí que as comidas eram bizarras e assustadoras? Em qualquer lugar teria café, teria pão, queijo, frutas. Ela daria seu jeito, mas não comeria cavalo, golfinho e baleias, ah não, isso não. E daí que era longe de tudo? O problema era chegar e sair. Odiava avião, mas eram momentos, aqueles iniciais, até o sono pesado que ela nunca soube de onde vinha, se apoderar mais uma vez e ela apagar, vencendo com preguiça, o medo.

Já não sei mais se isso tudo eram reflexões dela ou minhas, se eram todas perguntas que eu não teria coragem de lhe fazer, para não deixá-la ainda mais confusa — agora não tinha mais jeito. Percebi assim, que mesmo sem calcular e sem certeza, ela era como eu, pesava prós e contras, até que se cansava e, por fim, decidia. Era nesse verbo final que residia nossa diferença fundamental e que ela ganhava um novo admirador.

— Chega uma hora em que é preciso parar de pensar, de calcular. — Disse e mais uma vez ela parecia ouvir meu pensamento. — Se eu acreditasse em signos, assim, de verdade, deveria mergulhar no meu próprio e viver um tanto só de emoções, me deixar levar pela correnteza, como já fiz em relacionamentos. Mas nunca dá muito certo né? É preciso ser um pouco racional, mas só um pouco, na medida do mínimo. Senão, não saímos do lugar, afogamos a coragem.

E então ela sorriu de forma diferente. Sorriu como quem tem certeza de que está fazendo a coisa certa, por mais clichê e duvidosa que pareça. Sorriu como quem encontrou um destino, como quem esperava algo, como quem tinha se decidido por mais uma aventura. Só se vive uma vez e me martirizo por mais essa frase conhecida. Escrever é difícil. E, como se não bastassem todos os clichês já ditos, recomeçava a chover. Estávamos na orla, caminhando pelo calçadão de Copacabana e ventava. Era uma chuva fina, fria, do tipo que molha devagar. Sabia que ela iria embora, não poderíamos ficar na chuva a esmo, quando todos abriam seus guarda-chuvas e seguiam, cada vez mais rápido, para o outro lado da avenida. Paramos.

— Boa sorte. Vai dar tudo certo. — Disse, sem saber o que dizer e lhe estendi a mão, não éramos íntimos, sequer nos conhecíamos.

— Vai sim. Até mais. Vou sentir falta disso. — E me abraçou. Saiu como esses abraços desajeitados, quando um não espera e é pego de surpresa, uma mão fica no meio do caminho, quando deveria chegar às costas do outro e encontra a barriga no lugar. Foi engraçado, mas não rimos. Ela se desfez do abraço e se enrolou no cachecol, fechou a jaqueta e seguiu andando pela orla, quando eu achava que atravessaria a rua. Fiquei parado, sem entender. Ela parou mais à frente, como se lembrasse de algo e pegou um guarda-chuva rosa na bolsa. Olhou para trás e sorriu ao me ver, como se tivesse certeza da minha presença ali, a mesma certeza que tinha quando saímos do café, agora aguardando o sinal abrir. — Preciso me acostumar a isso, não? — Falou pra mim, um pouco mais alto, já que agora estava mais distante. Concordei com a cabeça e ela seguiu andando, sem pressa em direção ao final da praia.

Na verdade eu estava enganado. Não era tensão ou tristeza. Era saudade. Respirei fundo. Atravessei a rua quando o sinal abriu. Agora chovia mais forte, como antes. Um ônibus freou em cima da faixa de pedestres e o barulho me distraiu mais do que o susto. Estanquei como quem perde o rumo por um momento. Olhei na direção que Júlia seguia e acompanhei, ao longe, um guarda-chuva rosa que já não olhava pra trás e se confundia com outros, todos mais escuros. Sorri e apressei o passo para não perder o sinal.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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