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Café: extra-forte


1.

Com catapora em casa, Pedrinho não sabia mais o que fazer. Já tinha visto todos os filmes da locadora, a mãe tinha passado lá dois dias atrás e pediu pelo amor de deus que lhe fizessem um pacote especial criança em casa, para que ela tivesse algum sossego enquanto o menino se ocupava. Pedro já viu tudo, cinéfilo desde sempre, com seus longos 11 anos de experiência de vida. Em plena semana de aulas, não conseguia estudar de agonia e como era contagioso, ficava em casa fazendo tudo repetido. Falava com João pelo telefone.
— Velho, não aguento maaais, já zerei Super Mario, já brinquei de Tangram, até as revistas da turma da Monica li 3 vezes cada uma. Vi todos os lançamentos da locadora, mandei minha mãe ir lá de novo pra pegar alguma coisa velha e chata.
— Rapaz, para de reclamar, que cê tá em casa na vida boa e eu tenho que ir pras aulas e ainda copiar tudo pra você. Só reclama.
— Ah tá, porque não é você que tá todo se coçando sem poder se coçar, tudo arde, uma agonia danada. Cê nunca teve isso não?
— Catapora?
— Sim.
— Não, só tive sarampo, nem vem com esse negócio.
— Oxe, mas você deveria vir logo pegar isso, diz que tem que ficar doente, criança mesmo, pra criar defesa, aquele negócio, como é que chama…
— Anticorpos.
— Lá vai ele com a medicina de ouvir falar, mas é isso mesmo, anticorpos! Vou falar pra minha mãe ligar pra sua e mandar ce vir me visitar.
— Oxe e eu lá quero doença? Que praga de amigo ruim é você?
— Oxe, sou o melhor que você já viu, estou, na verdade, salvando sua vida, meio de volta para o futuro.
— Ah tá, tá sim, salvando minha vida me deixando doente. Aonde, vou aí é nunca.
— Oxente, velho, venha ajudar seu amigo aqui, deixe de ser ruim.
— Vou nada.
Mais uma tarde e a conversa se repetia: Pedro entediado até o último cascão que teimava em tirar com a unha, tentando convencer João a passar lá, pelo menos pra dar um oi, saber da vida, do futebol. João, que não contava nada em casa, vai que a mãe tem mesmo a ideia de levá-lo para se contaminar de graça, ia pra escola e sempre voltava com mais papeis, as apostilas dele e de Pedro que, em algum momento, entregaria. Na tarde seguinte, a mãe desconfiou:
— João, que tanto papel é esse que você vive carregando agora?
— Nada não mãe, dever só.
— Mas esse tanto? Desde quando a escola exige isso tudo em uma semana?
A mãe, que sempre acompanhava as tarefas do filho, logo viu as apostilas duplicadas com o nome de Pedro em cima, anotado de caneta. Era a letra da professora de português.
— E por que tem o nome de Pedro aqui? Ele não tá indo?
Cabisbaixo e já com medo, quase num sussurro, o pequeno responde:
— Está em casa, com catapora, tenho que levar pra ele os deveres.
— Catapora, é?
Em desespero, João percebeu o olhar intrigado da mãe, como se lembrasse da própria infância naqueles milésimos de segundos, a catapora coletiva, os primos e a irmã em casa, no mesmo quarto, uma quarentena até engraçada, não fosse tanta coceira. Na certeza de que o filho só tivera sarampo, sentenciou:
— Vamos passar lá mais tarde para visitar o pobre. Vou ligar para Júlia.


2.

Antecipando o martírio, João inventou toda e qualquer desculpa para não ir. Dor de barriga, de cabeça, até fez exercícios escondido pra simular um suor de febre, mas nada aconteceu. Enfermeira, Marta conhecia todas as artimanhas das crianças para fingir doença. A ideia, no caso, era justamente essa: levar o filho pra uma contaminação e passar logo pela fase — essas doenças são sempre piores na fase adulta.
Às 15h, o carro para na porta de Pedro. Campainha, muito feliz, Júlia abre a porta e recebe a dupla: uma mãe entre a preocupação e a adrenalina e uma criança com cara de quem estava indo para a forca. As duas eram cúmplices no crime: para Júlia era um alento tê-los ali, João distrairia Pedro nos próximos dias, poderiam ficar os dois no mesmo quarto, se divertindo e, com sorte estudando, enquanto ela tentava terminar o doutorado. Para Marta, o mesmo, além de se livrar temporariamente do filho, se livraria também dessa fase de doenças da infância, já passara pelos terríveis e intermináveis piolhos, o sofrimento do sarampo e a catapora era até mais controlável. Acordo firmado em silêncio, vamos ver o garoto.
— Gente, vamos fazer uma surpresa pra Pedro, que ele não sabe que vocês viriam.
Júlia abre a porta devagar e encontra o filho abrindo a embalagem do pega varetas. Era o brinquedo que faltava, ele nunca tinha jogado e a mãe pensou no tempo que levava para se jogar sozinho e na concentração necessária: vale o teste.
— João?
Quase chorando e grudado na porta, Pedro murmura:
— Oi, Pedro.
— Eta! Mudou de ideia, foi? — ainda tentando se livrar do saco plástico que envolvia as varetas agora fora do tubo.
— Não exatamente…
— Oi Pedro! Tá melhor, meu bem? Trouxe uns lanchinhos pra vocês e João trouxe as apostilas das aulas, de repente vocês conseguem adiantar alguma coisa, né?
Meio sem graça, porque a última coisa que ele queria era fazer dever, concordou num aceno enquanto soltava as varetas em cima da cama.
— Entra, meu filho, que nem parece ser nada sério, olhe como João já está se recuperando!
— Pois é, mulher, até trouxe pra ele um pega varetas, para passar o tempo nessa reta final aí.
— Então ótimo, hoje vocês ganham folga dos deveres e ficam brincando.
Em polos opostos de emoção, a excitação em ter do companheiro de volta e a presença ameaçadora do outro, as mães os deixaram ali, cobaias e vítimas das tradições da infância brasileira. Passaram a tarde juntos.



3.

Dois dias depois, dito e certo: João sucumbira à catapora. Conforme combinado, passara umas tardes na casa de Pedro que ainda se recuperava e juntos criaram campeonatos de todos os jogos. Entre tosses e coceiras, se distraíam e as duas semanas iam passando em menor sofrimento.
Agora acontecia o Campeonato Internacional de Pega Varetas, com o Brasil x China — porque era o fabricante do brinquedo — Pedro e João, respectivamente, se preparavam para o novo embate. Será que a suposta democracia tupiniquim venceria o regime comunista? Há muito em jogo e eles seguiam criando rivalidades e brincadeiras entre os dois países de um habitante.
O jogo sempre corria em silêncio e agora que estavam melhorando, João ainda fraco e Pedro já indo pra aula no dia seguinte, era quase a final do campeonato. A concentração era tanta, que nem a coceira era permitida, criando uma tensão dupla, do desafio físico das intempéries do corpo e o do oponente, secando cada movimento e fiscalizando milimetricamente qualquer derrapagem.
— Já disse que não pode deixar mexer a outra. É UMA de cada vez, João!
— Eu sei que é, e não to mexendo, pode ver, mas às vezes é maldade, porque eu ainda to me coçando e você tá aí todo bom. E tudo culpa sua!
— Minha nada, sua mãe te trouxe porque quis, reclame com ela!
— Reclamo sim, mas é sua também, quero saber não. Vou jogar.
Tudo era motivo pra aumentarem as vozes e de vez em quando Marta subia para ver como estavam e se precisavam de algo.
— João, tá tudo bem? Tá se sentindo melhor? Qualquer coisa, fique com vergonha não, me chame, viu.
— Para mãe, sai daqui que é a semi-final! Tchau, fecha a porta, beijo.
Rindo, Marta fechava a porta, não sem antes trocar um olhar de concordância com a visita-mártir. Na hora seguinte ela subiria de novo para levar os lanches.


4.

Pedrinho finalmente volta às aulas e é recebido com carinho por uns e medo por outros, mas os professores informam a todos que ele já está curado. Agora é dele a função de levar as apostilas para João que, mais uma vez, estará em sua casa à tarde para a grande final de todos os tempos do primeiro Campeonato Internacional de Pega Varetas. Pedro mal consegue se concentrar, o que quer mesmo é aproveitar este restinho de ‘férias’, de ter o amigo todo o tempo do lado, brincando e falando besteira.
João já está quase bom, mas vão esperar até o fim da semana por garantia, já não tem coceiras e se sente melhor. Ansioso mais do que nunca, está disposto a vencer Pedro no Campeonato e deixar o Comunismo tomar conta do planeta.
Nem bem escuta a campainha tocar, Pedro já está na porta de casa:
— Bora, sobe logo! Vamos começar o maior desafio de todos os tempos.
— Oi João, está melhor? — Júlia assoma à porta enquanto acena para Marta que segue para o carro.
— Oi tia, estou sim, minha mãe disse que semana que vem já vou para aula.
— Ah que ótimo! Também, amanhã já é sexta, não faz sentido ir um diazinho só agora, não é?
— Booora, Joããão… tchau mãe!
Pedro agoniado, puxa o amigo pelo braço enquanto se despede da mãe, que sorri e volta para o escritório.
Sentados um de frente pro outro no chão do quarto, os dois de pernas abertas formam um círculo que se fecha com os pés. Ali é o espaço do campeonato e os dois seguem à caráter: Pedro com a camisa da seleção tetracampeã e João com uma camisa vermelha que achou em casa e colou um adesivo com estrelas douradas. No par ou ímpar, João começa.
Concentrados e sem dar um pio, os dois vão colecionando as varetas, com as punições devidas — devoluções de acordo com os pontos — quando mexem outras varetas que não aquela que deverá sair. O jogo fica acirrado e agora João segue um pouco à frente de Pedro, tabelinha nas mãos e é o momento da virada. Pedro derrapa e precisa devolver 10 pontos. Pelas contas, João não precisa jogar mais e é o vencedor.
— De jeito nenhum, eu perdi o ponto sim, mas você precisa continuar jogando, porque também pode perder ponto se errar.
— Oxe, mas eu não preciso não, porque de qualquer jeito, já tenho ponto suficiente. Se você pegar todas as varetas agora, eu ainda ganho.
— Mas não interessa, o negócio é que você ainda corre risco.
— Não corro nada.
— Jogue!
Os meninos agora estavam exaltados, até que João, na gritaria, esbarra com o pé no campo do jogo e desarruma as varetas. Pedro, na fúria de achar que foi proposital enquanto João já gritava China Vencedora, os Vermelhos Virão!, parte pra cima dele com uma vareta vermelha, se desequilibra e fura a mão de João, que no susto, dá um grito. Júlia sobe correndo e abre a porta, Pedro tá sério quase chorando e João da mesma forma, com um círculo vermelho vivo no meio do punho, umas gotinhas de sangue.
— O que aconteceu aqui?
— Pedro me furou com a vareta, tia!
— Foi sem querer, mãe, ele não queria mais jogar!
— Eu ganhei o jogo, tia e ele não aceitou e me furou!
— Foi sem querer, Pedro, eu caí em cima de você!
— Chega, gente! Calma! Pedro, pega o merthiolate, algodão e band aid, na cômoda do meu quarto, por favor. João, calma, não tem nada demais aqui, foi superficial, como um arranhãozinho. A catapora bem deve ter sido pior do que isso. — Julia tentava acalmar os ânimos, entre um filho cheio de remorso e o colega sofrendo do susto, mais do que da dor.
— Precisa de merthiolate não tia, que arde.
— Ô meu bem, precisa sim, já já sara e nem vai doer, vou soprar pra você.
Júlia faz o curativo em João que quase não sofre. Quando termina, Pedro está sentado na ponta da cama, olhos fixos no chão.
— Meu amor, você sabe que isso é só um jogo e que faz parte da brincadeira perder.
— Mas mãe, ele não queria mais…
— Mas eu já tinha ganhado!
— Calma, meninos, que eu estou falando. Não importa quem ganhou ou perdeu, no fim, olhem o que aconteceu. Os dois estão aí, melhores amigos, emburrados. Já tá na hora de levar João pra casa mesmo, meu bem, pegue suas coisas, vai se arrumando. Pedro, arrume o quarto e esse jogo, por favor. E leve o pega varetas lá para baixo quando estiverem prontos. Estarei esperando.
Os meninos se preparam calados, Pedro coloca as varetas de volta no tubo, João fecha a mochila com as apostilas novas da aula. Os dois descem as escadas da sala lado a lado.
— Prontos? Vamos pro carro, Pedro, me dá o jogo.
— Mas mãe, por quê? Deixa eu deixar ele aqui, pra quê você quer ele?
— Pedro, o jogo. Pronto, vai ficar comigo por enquanto.
Pedro entrega o jogo, como se deixasse o coração com a mãe. Havia sido o melhor brinquedo de todos os tempos, dava pra brincar sozinho, em dupla, com outras pessoas, até o pai tinha brincado com ele depois do trabalho junto com a mãe, que explicara as regras.
Entram no carro, os dois no banco de trás.


5.

Porta da casa de João, Júlia toca a campainha. Marta abre, os dois meninos seguem calados.
— Oi Júlia, tudo bem? Já estão de volta? Que caras são essas?
— Oi Marta, tudo certo — diz entrando — uma briga aí Brasil e China se desentenderam, parece que o Brasil está mal acostumado depois do tetra e acha que pode ganhar todas na base do grito.
As mães sorriem.
— Fica um pouquinho, que estou passando um café.
Marta vai à cozinha, Júlia segue para a sala com os meninos.
— Mãe, me dá o pega varetas.
— Pedro, fique calmo, meu bem, sente aí com seu amigo.
João segue calado, a mãe volta com o café, chocolate quente e bolo para todos.
— Mas Marta, para que isso tudo, mulher?
— Júlia, cê me ajudou tanto esses dias, que nem imagina. Cuidando de João, aguentando essa jogatina aí, adiantei aquelas coisas todas, organizei os plantões, agora pode deixar eles comigo para todo o sempre, quase. — diz rindo.
Aproveitando que os meninos se distraíam com o lanche, as mães conversavam animadamente e, após uns instantes, pareciam concordar com o olhar sobre algo.
— Agora que estamos todos aqui, vamos terminar essa questão do pega varetas. Vocês são melhores amigos e não podem se matar por conta de um jogo. Meu filho, você precisa entender que nem tudo na vida é competição e que vale mais a partida do que a medalha. Assim, aproveitando que João ainda está se recuperando…
Pedro tomava ar de horror, imaginando o pior. João, que ainda se distraía com o bolo, ao ouvir seu nome, começou a prestar atenção e esboçava um sorriso de vitória. Os dois sentados no chão, João se esticava enquanto Pedro se encolhia com a ideia de um futuro tenebroso.
— …vamos fazer o seguinte: vou dividir as varetas em duas partes iguais…
— Mas mãe! Não tem como ser em partes iguais, só tem uma preta! — Pedro se manifestava.
— Pedro, por favor. Em duas partes iguais sim, com preta ou sem preta, não importa. E deixarei uma parte pra cada…
— Mas assim ninguém joga direito, mãe.
Com um olhar, Pedro entendeu que a mãe ainda estava falando e se calou. A outra dupla observava, ela séria, para dar o peso das coisas e ele tenso, segurando o sorriso.
— E cada um ficará com um pouco. Assim, vocês entendem que não precisa guerra, que diplomacia é encontrar a concordância para o que é melhor aos dois países.
— Só assim teremos desenvolvimento justo, mantendo as diferenças. — Completou Marta.
— Vou separar as varetas agora, misturá-las aqui e, sem ver, alguém ficará com a preta. Isso não significa vantagem, porque terão apenas metade dos pontos, da mesma forma. Ninguém ganha, ninguém perde.
Pedro e João se olharam e cada um torceu como pôde. Para eles, a preta era a vitória da batalha, mas não da guerra.
— Assim — Júlia continuava agora sentada de lado no sofá, enquanto separava as varetas em montinhos aleatórios e prendia com elásticos — vocês praticam durante a semana no intervalo dos deveres e se encontram no fim de semana, se quiserem.
Júlia entregou os montes e os dois se olharam a ver de quem era a vantagem. Não era suficiente encontrar a preta, era preciso ter as varetas de maior pontuação, conta complicada para se fazer no calor do momento. Guardando as varetas de um lado, selaram o acordo de não-violência em um aperto de mãos, muito sérios.
— Até sábado. — disse um.
— Até sábado. — disse o outro.
As mães já estavam de pé, sorrindo. Se despediram, cada um com seu monte. Nas contas, a diferença era pouca ou nada entre as varetas coloridas e quem tinha o bastião da diferença. O outro teria que se virar para fazer um coringa — artifício de criatividade em meio ao caos. Depois de amanhã, o campeonato recomeçaria, selando o pacto de jogarem quando estivessem juntos, como um ímã que se completa com seu oposto. Ao fim de cada partida, um voltaria para casa e deixaria o outro, duas metades, esperando ansiosos, o próximo fim de semana. O campeonato agora anual garantia um prêmio: a guarda da vareta preta — com a perda de uma vermelha, a mais valiosa.

***
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‘Hi… may I sit here?’

I said yes and removed my bag from the chair in front of me. I usually carry a book and a notebook wherever I go, always with a bag like a professor, although I don’t think I would have the patience for teaching.

She had a cappuccino with more cinnamon on the top than I would normally put if it was mine. Her movements were smooth, calm. Her face however had an expression that I couldn’t define. Maybe apprehension or sadness but mixed with the tranquility of those that possess no more anguish or despair.

I stayed as I was, seated, waiting for her to arrange herself. Now I couldn’t observe the place anymore; it would seem weird to do that while someone sited opposite to me. I decided to write something, or at least pretend to, since the notebook was already open. It resulted in loose words, still without connection.

She was carrying many items: a book which title I couldn’t see with a marker in the middle, a thin wine colored scarf around her neck, a big brown leather purse and her cell phone. I do not know how she managed to balance all her stuff, and she did it a little clumsily, but it seemed to be a frequent confusion. She wore dark pants, white shirt and an open gray jacket, square rim eyeglasses, her hair as messy as the whole picture. She looked about thirty and passed the impression that she was always late for some appointment, even on a Saturday morning.

‘Julia, nice to meet you. What’s your name again?’ She took off the jacket, put it over the chair’s back, hanged her purse there as well and kept the scarf on her neck. She took a deep breath, almost like a long sigh, when she was finally organized.
‘Pedro. Nice to meet you too.’

The way this stranger moved was a contrast to my immobility, quiet, wasting time with other people’s lives, observing them at the coffee shop. Suddenly I felt old. Those elderly men playing chess and checkers at the neighborhood’s squares, and bored old ladies taking a morning sun bath on their wheelchairs led by caretakers came to my mind. These thoughts made me uncomfortable — more those about the ladies than the ones regarding the men, always excitedly shouting at each other while playing board games or heavily concentrated with the strategies of chess. I knew I was exaggerating, of course, as I was ten years older than Julia, at most. I straightened up my posture as someone younger and felt sorry for myself.

The coffee shop is not my office. I come here in the weekends; when the job at the real office, 40 plain hours per week, sets me free. The place is small, cozy as every shop in the area. It was established more than 20 years ago and has a few employees, mostly with several years working here. I don´t know all of them, but sometimes I engage in those small conversations with a few, in order to pass time. I come for the coffee, espresso or double, depending if I had a heavy week or just want to release the stress. Today is a day for an espresso, even though I have nothing to do later.

‘Can we talk a little?’ She asked a bit shyly, looking at first to the large cup of coffee in front of her, foam milk tainted with brown still intact, then directly into my eyes, making me blush and look away.
A friend told me once that in Chile, when a man invites a woman to dance, he has to stare at her directly in the eye waiting for her to do the same. Then he will look away, the beginning of a seductive game. ‘There, men can’t hold their look toward women’, she said, they are a little insecure and timid.

‘It would be my pleasure, but…’ And as I was going to ask if there was a particular subject in her mind, I was interrupted again.
‘I know you are always around, having coffee and observing people’s lives, what they are doing… I do that too from time to time, but today I have a story to tell… That is why you come here, right? To listen and witness stories?’

Her tone was imperative, direct. She communicated with her eyes, assertive and soft at the same time, giving me no choice but to accept whatever she was telling me, although I was being led voluntarily.
Her accent was nuanced, but noticeable. It did not remit to the stereotypical thick intonation of the northeast, but the strokes on her speech pattern were very different than mine, carioca — born and raised.

‘Usually I see rather than hear; and when I do talk to people, is with the ones that work here.’ I pointed to the counter with a few seats. ‘And it is always about the same issues, politics, news, daily routine.’
‘Can I offer you a different routine? Like a bonus… one of those extras that came on boxes of dvd films.’
‘Sure, I would be very pleased, if you feel like sharing.’ I smiled, but also realized that it could be a bad idea, a torture if she was not a good storyteller. Nonetheless, I was intrigued, had nothing going on in my own life those days. Plus, I had time.

‘Today is my last day in Rio.’ She started with this bomb, while she put her book — which title’s I was never able to see — in her purse, kept the cell phone on the table, the screen facing down as if she needed to be connected even if didn’t want to be disturbed. ‘Tomorrow morning I fly to Iceland. I am moving there.’

I knew almost nothing about Iceland only that it was one of the best places to live in the world; they have amazing universities and education was tuition free. I knew that it is a peaceful country, opposite of what we have here in Brazil. Nevertheless I was surprised. I was expecting something standard like Barcelona, Paris, London, Berlin.

‘There is a house, a Ph. D, a peaceful life in Iceland waiting for me.’ Julia said more like she was justifying it to herself, almost if I was not there — as if she did that often, in front of a mirror.
‘There is the gender issue. Iceland is the less sexist place on earth.’ I regretted for that sentence as soon as it came out of my mouth. I felt ridiculous, quoting a statistic that probably she already knew. ‘Sorry, continue.’

‘I know; this is one of the reasons why I am going. I want to see how it is to live in a place like that. But I didn’t come to talk to you about Iceland. You can write it down if you want to.’ She said when she saw me scribbling the country’s name on my notebook.

‘There is no need, I just thought about your interesting choice of place to live.’ I said, closing the notebook leaving the pen inside it marking the page.
Julia laid back in the chair starting to feel at home. She moved the spoon around the cinnamon, dissolving it in the milk, letting it get cold enough not to burn her lips.

‘It took a while for me to enjoy living here.’ She said slowly. ‘This city is not for amateurs.’
Now she had me. I was used to hear declarations of love, poems, people screaming about how beautiful the city was, land of party, beer, sun and carnival. It felt refreshing and intelligent to hear something different in this already unusual cold and rainy weekend. She knew I was born here. I knew she was not.

‘Do you always drink cappuccinos?’
‘Actually no, I always have black coffee, but today I felt like having a cappuccino… I love the taste of cinnamon in the coffee and milk blend.’

‘I prefer black coffee as well and they have a very good one here. But tell me, why did you choose to live in Rio de Janeiro?’ I raised my hand to call Marcela, the waitress, for another espresso and a bottle of sparkling water. ‘I will ask for another coffee, do you want something?’

‘Cookies, if they have them, thanks. Rio de Janeiro was a suggestion; a teacher at the university told me they had a good master’s programme here, so I came. I had never been in the city before; I came for good with one bag of shoes, another for clothes, a backpack with some books. Now, as I am packing to leave the city, I noticed that I have a few shoes and a huge bookshelf. It was a hard and painful separation, I have to tell you.’ She laughed. ‘I gave a lot of books to my friends and had to send a few boxes to my parents’ house in Salvador. You know, you can’t get rid of all your books. They become your family; they are part of who you are!’ And laughed again. I knew it, of course.
I asked Marcela for cookies, coffee and water. She left and Julia stood in silence, while waiting for the waitress to come back. It did not take long, Marcela brought all at once; maybe she wanted to know what we were talking about — it was the first time she saw someone sitting with me. She smiled at me in complicity and I could see in her eyes the curiosity shining. I smiled back at her as if I was saying, go to work. Marcela left and kept her eyes on us. She seemed happy with the presence of that girl near me.

Weeks later I would find out more about that day. Marcela would call me on the corner of the counter and would say that she met Julia before and thought that the girl was also more alone than someone should be. More alone that someone should be — was the phrase that I kept in mind; the same way a psychoanalyst does when closes the session abruptly. I was glad to see in Marcela a fine observer with the sagacity and celerity of a young spirit — she was in fact younger than me — but with my new perspective on her thoughts, I discovered someone who was also able to appreciate calm and peace, so one can see the other in silence and detail.

Julia told me she was walking around, to what she called special places in town, but she knew it was not possible to go to all of them. She was like me, addicted to coffee, living nearby and a frequent costumer of the coffee shop, a place like any other of its kind. Although this one had a charisma, she would say. She was living in Rio for eight years and she had not expected to stay here more than two. Julia did not see the city as a place to spend the whole life, start a family. No, she liked, she admitted, but something inside her always said that it was not here, that Rio was not her city.

Now, neither was Salvador. She always pictured herself living there, two or three kids, two dogs in a house, never an apartment, but she never knew when it was going to happen. Salvador was as a nice city with great people, but the place had a problem that she could not comprehend: it stopped growing. There was never a good job opportunity, especially in her working field. But that future could wait another couple of years. Her family, her parents and her sister would be hers anywhere in the world and they would be together forever. Salvador could wait.

Julia was aware of the contrast she was facing; living transitorily in one place and the idea of starting a family in another. During all of those years she called both Salvador and Rio ‘home’ without fully agreeing to any of them. She had this need to say it to believe in it, even if she knew deep inside her that neither was right. Today she would say ‘her parents’ home’ about Salvador and ‘Rio’ as if she did not live here anymore..

‘As soon as I came here to live, I had this idea that Rio was just like São Paulo, but with the sea.’ She blushed and started to laugh.
I laughed with her, because it was certain that at that time she did not know what she was talking about.

‘I nearly regretted coming to the city when I realized that here seemed more like Salvador than São Paulo, and by that I mean the worse aspect of my hometown. The informalities, the forced intimacy with someone you barely knew, the routine of little corruptions, twisted shortcuts to get what you want. It is no shock to realize how aggressive the traffic is. At the same time, I never wanted to go to São Paulo, the second choice for anyone who left northeast looking for better jobs, to travel, to grow. I never took that possibility seriously; I don’t think I could live in a city without the ocean. When you don’t have it, seems to me that everything is in the middle; there is no horizon, just endless buildings. At least in Iceland I won’t have that problem. And yes, I know I can’t swim there. You can’t have it all, right?’ She smiled and kept talking:

‘After the first impressions about Rio, you start to adapt to that reality. I met good, interesting people and forgot to tell them my comparison with São Paulo. I knew about their stupid rivalry. I never understood why people don’t get along. For me it is built under vanity and nothing else.’ She smiled again and I could see her feeling more comfortable with me; she was messing with her hair, deciding for a ponytail, leaving it on one side or making a bun. Julia learned all about her subject, she knew the city by heart. ‘It is just like Brazil and Argentina, same fuss for nothing. And I had an Argentinean boyfriend who lived here and is still a friend. I am digressing.’

I let her talk, was an interesting story with a unique voice about my city and I only interfered for an observation, a small comment or question, to get some lost detail. I was lucky; after all, she was a great storyteller. Julia had lived good and bad romances, internationals, locals, long distance. All options of a free spirit, never married. She had fewer boyfriends than she wanted, never knew why, but had no regrets.

That young woman lived the city intensely. She kissed the statue of the poet Carlos Drummond de Andrade more than once, her neighbor near the beach. She talked to him through her apartment window and felt sorry for the statue alone in the bench in cold wet days. She took a minivan in Lapa, downtown, late at night, screaming the name of every bus stop to get more people in until she got at home. She went up the hill to Santa Teresa, walking at night and did a few more things you do not do at those hours. She had alcoholic amnesia during a New Year’s Eve in Copacabana Beach; ran from the police in a political riot near the City Hall. Julia was a frequent guest at São Salvador Square, more for its name than the place itself. She danced black music in a street when it was only safe — Switzerland levels of security — because Rio was hosting the World Cup. She crossed a gun shooting on a bus; got robbed once by two teenagers with knives years ago and again with a gun pointed to her head, by two men in a motorcycle this year. Julia also hated the city — many times.

‘But I don’t know… there is something in this city, something different. You know, it’s not like Salvador, where I was born and raised. For Salvador I have this inexplicable love that runs in my veins; it is in the flesh, just like our dendê seed oil and pepper as we are used to say there. I came to Rio almost a woman, a young one though. I couldn’t see myself as a complete adult the same way I didn’t fall in love with city right away… I wasn’t that naïve. But in the end, I grew up and was happy here. And I will miss it.’

I agreed with her, I imagined Salvador had its problems, but it was her homeland and this is something you cannot take it away from the person or compare with any other place.
I glanced at the coffee shop and noticed for the first time that we had been there for a while. The rain was thinner, people were coming inside without umbrellas and others had left. Even Marcela was distracted by some small activity and had lost interest on us. She knew I was coming back later, maybe tomorrow or next weekend and she could wait to ask me about Julia with her out of the blue questions, fast and indiscrete, without time to prepare a reasonable answer. Marcela was used to cut long silences as if she had a sharpe knife, slicing unfinished subjects, like someone who is always in a rush to know every little thing and cannot stand boredom.

‘Do you know what hurted me the most here? When I really realized how much I loved the city? I got a job across town, at Barra da Tijuca and I had two options to get there; through the tunnel below Rocinha or bypassing Vidigal hill through Niemeyer Avenue. I always preferred the second one; there is nothing to see near Rocinha, it is just a huge favela with an avenue below its tunnel. On the other route you have all the sea view through the bus windows and, even if it takes a few more minutes to get there, it was worth it. When you are going down the hill, there is an open curve and looking to the sea you see a the cliff sustaining the street, an inclination that projects itself to the ocean, so the waves collide there, moving up and down slowly as if they are licking the wall. It is kind of sensual…’

I felt like she was telling me a secret, confessing something without thinking properly, leaving any censorship she went ahead. ‘I’ve never told anyone about this… sensual… I don’t know if you had noticed this place before, for me it is the most beautiful spot in the town. If you have to pass there in a stormy day with a violent sea, take a look. I’ve always wanted to stop there to contemplate. I didn’t and now they built that horrible cycling track. They cut my view, I almost cried.’

I knew where it was. A couple months ago in a stormy day that very horrible bikeway — which I thought was a great idea for the city — did not resist the huge waves, crashed and fell down to the sea, killing the ones who where passing on it.

‘Yes, it is the place of the accident.’ She read me instantly. ‘I try not to remember it.’
She was not a person of great gestures but she spoke with her hands. She also had a low voice and seemed to be disturbed by noises. Sometimes the coffee machine, the door opening or even the drag of chairs and tables distracted her; she did not complain about it, but lost track of her thoughts for a few seconds and then went back on her words. Julia finished the cappuccino, probably cold at that time.

‘I have to go soon. I am going to take a walk by the promenade across the street, now that stopped raining. It is on my list.’

She picked up the cell phone and looked at it for the first time since we started to talk. That interruption bothered me a little, I was jealous having to divide her attention. I wish we had more time, as I already was immerse in her words. I hoped I could live a little more of this girl’s story through her voice, someone who was going to live by herself in one of the coldest places on earth. She barely experienced real cold, coming from a tropical city, living in Rio, almost the same weather. Even with all its qualities, for all the reasons, Iceland would still be challenging.
‘If you want to walk with me, we can talk a little longer.’

‘If it is not inconvenient for you, I would like to.’ I looked around, searching for Marcela who was passing by, with all the used plates and cups in her hands. I waited until she was at the counter and waved for the check. She smiled at me with a serene look in her eyes as if had received good news recently.

‘I asked Marcela for the check, since you don’t have time.’
‘Thank you. I came here to tell you about my impressions of Rio and now I can’t say a word… not a very good storyteller as you can see… maybe it is easier if I tell you something else, like… why I decided to leave.’ She seemed lost as if she did not know how to proceed with the story. It gave me a relief. I have never wanted to be a biography writer.

‘We can talk about anything, it’s up to you. And you are a good storyteller.’ She was not listening to me and resumed talking while we were paying the check. I tried to pay it all and she did not let me.
‘Once, I travelled to Buenos Aires with a friend. Everything was cheap, we were the rich country of South America; it was during their economic crisis and before ours. So, there we were in this decoration store, a world of beautiful objects signed by some designer I didn’t know. I left the place with a lamp that had roses made of red cetin and a notebook letter. It was a series of envelopes with paper to write letters for yourself and the title of was just like that: letters for your future self, in English; was an American product. I though how interesting that was and bought it. When I came home, I was anxious and wrote my first letter to myself, without knowing if I could wait two years to open it, as I was supposed to do. Somehow I waited.’

We left the coffee shop. Outside was windy but without rain. However, the sky had these apocalyptical heavy dark gray clouds as if in the following minute they were going to melt and pour down on us. She did not care or pretend she did not see it. Julia did not have time for doubts and kept walking towards the traffic lights with the certainty that I was behind her. I was, even if the rain about to come advised me to go back.

She continued, telling me that back then she was upset with Rio, that she could not relate with people, her relationships were always superficial and empty as those tv commercials faking lives with the complexity of a cartoon. The city was all about television, we knew, and that ruined the real image of people. Real image of people… the people, themselves. Maybe we were haunted by this idea, having the media all the time, spreading irrelevant news about irrelevant people.

Julia told me the words she wrote years ago. She remembered most of them, as if she was reading the letter, words of an idealist strong person with more certainties than her current self. She wrote that she wanted to leave soon, to a quieter place where real life was more important than what people created about it, where the daily news were more important than the banal stories about nothing, news would be as fundamental as the black coffee you would take every early morning. She could not stand the summer even if she loved intensely the spring and in the end, she expected that in two years, if nothing had changed, she was going to leave the town for good.

‘And then… I decided to try. I laughed a lot when I started to read the letter because I was so angry and remembered I had my heart broken for a guy, hating my job, the city, everything. In the letter I refused to sit down and do nothing. Time has passed and that was exactly what happened. Even now I’m not satisfied with my life. I wasn’t sad anymore or didn’t have the weight I carried two years before, but I wasn’t lighter either. I even talked to my therapist about it. I decided to try. I didn’t want to be a victim of the violence in Rio and become a statistic, a number with no purpose; I didn’t want to know the names and lives of celebrities. I didn’t want to work where I did anymore and everything became clear for me. Without knowing, I was saving money. I found a good excuse; a Ph. D in a field I’ve always wanted to study. I applied last year and tomorrow: Iceland. All because of the letter.’

While she was talking I could see the light, the happiness in her eyes. Julia did not have all figured out, she did not prepare herself enough for it and that was why she kept repeating that Iceland was a great place to live. So what if it was a very cold place? She could buy clothes, coffee, vodka and even try whisky and tea, drinks she did not like — alongside milk and açaí, those were impossible to drink. So what if the food was bizarre and creepy? Where there is coffee, there is bread and pie, cheese, fruits. She could try everything but horse, whale and dolphin. So what if Iceland was far away from Brazil? The problem was coming and going, she hated airplanes but she knew they were just for a moment and even there, she was going to sleep magically as she always did when she got into airplanes. Julia was, once and again going to beat the fear with laziness and sweet dreams.

I do not know if those were all her thoughts and words or mine, questions I could not ask her. She made her mind and plans. I realized that, even without much planning and calculation in advance, she was just like me; always weighing pros and cons until it was time to take action and she did act. It was there, in that final word, in that verb that we were so fundamentally different. And because of that same verb she had found a new admirer.

‘There is a time when you have to stop wondering if it is going to work out, if it is the right choice and just do it.’ Julia said and again she was seeing through me. ‘If I believed in horoscope, I mean, really believe in it, I should dive in and live by emotions, like my zodiac sign, letting the water take me as I already did once or twice, in relationships. But it never work like that, right? We have to be rational, just a little, in the minimum level. Otherwise, we stand still and drown ourselves in fear.’

That was about it. Julia smiled at me in a way she did not smile before or I was looking at her in a different way. She smiled as someone who was sure about her actions, who knew that that was the right thing to do and this is a cliché. She smiled as someone who found her destiny and had a new adventure to live. You only live once and now I am suffering for adding this other much known sentence. Writing is hard. And, if all the clichés were not enough, it started to rain. We were at the promenade, walking and looking at the beach; the wind started to come accompanied by raindrops. It was a thin cold rain, the kind that gets you wet slowly and then you are cold without having notice. I knew she had to leave; we could not stay in the rain when everybody was opening their umbrellas and going to warmer places. We stopped.

‘Good luck, it is going to be an amazing journey.’ I said when I knew didn’t have to and then reached out my hand.

‘I know it will. I am going to miss this.’ And then she hugged me. It came out as this awkward moments, when one was not expecting and is caught by surprise, one hand stays in the way when they should reach the person’s back and ends up finding their stomach. It was funny but we did not laugh. She broke the embrace and straightened the scarf, closed the jacket and went away, walking in the promenade towards the end of the beach. I did not expect that, but that she would cross the street like everybody else. She stopped again and opened her purse. She had a pink umbrella. I was still standing, looking at her. Julia stared at me and smiled, it was the last time she knew I was still there, the same certainty she had before, when we left the coffee shop.

Now I was waiting for the traffic lights, my hair already wet; starting to feel cold.
‘I have to get used to it, haven’t I?’ She talked to me louder than before as she was a little far away. I nodded and she started to walk again, with all the time in her hands.

I know now I was wrong all the time. She was not sad or tense. She was already missing the city. I took a deep breath and began to cross the street when the lights turned green. It was raining stronger than before, when we met at the coffee shop. A bus stopped abruptly almost over the crosswalk and the noise distracted more than scared me. Suddenly, I lost my way and looked at the direction where Julia was going. I could see afar, a pink umbrella among others, all darker than hers. I smiled and started to walk again.

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Um fim de semana qualquer que termina em um domingo qualquer e você não está pronto para a segunda-feira. Um fim de semana em casa e com o mínimo contato com outros seres humanos não foi suficiente para relaxar, esquecer um pouco a rotina de escritório e ar condicionado congelante mesmo no inverno. É domingo e você não quer muita conversa, mas gostaria de fazer algo. Cinema é sempre a melhor resposta.

Entrei no metrô com o bilhete do filme na tela do celular. Tudo fedia a cerveja recém digerida, como o final de um grande jogo de futebol ou um dia de verão na praia. Talvez tenha feito um sol mentiroso, destes que te faz pôr o biquíni depois do meio dia, atravessar o calçadão e ficar na areia o tempo suficiente para passar frio. Enfim, deixemos as pessoas serem felizes.

Um pouco de sarcasmo faz bem ao fígado, diria alguém inteligente e talvez amargo. O filme se chama A Festa e trata da reunião de poucos amigos na casa de um casal para a comemoração da anfitriã, a mais nova Ministra da Saúde inglesa. Enquanto ela prepara os petiscos, leva garrafas de champanhe para a sala e recebe o seleto grupo, a conversa se desenrola ao desastre com personagens únicos em diálogos mordazes.


Patrícia Clarkson, Kristin Scott Thomas, Bruno Ganz, Timothy Spall, Emily Mortimer, Cillian Murphy e Cherry Jones são o que a gente precisa para encerrar a noite. 71 minutos de cinismo e crítica da boa e velha sociedade burguesa, entre a culpa intelectual e usufruto do dinheiro, as religiões e seus gurus, a política, a ética e os ideais que ninguém consegue sustentar por muito tempo. Esse jogo de cena em um mesmo espaço nos remete logo de cara O Deus da Carnificina (Polanski, 2011), como também O Anjo Exterminador (Buñuel, 1962). Ainda dá para puxar outros grandes filmes pela premissa do confinamento, como a trilogia de Polanski, Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O inquilino (1976) e Festim Diabólico (1948), a experiência de Hitchcock em um filme de um plano-sequência. Todos, filmes de cenário único, uma residência onde tudo acontece e se perde o controle da situação enquanto sociedade ali representada.

Sally Potter é diretora do também bom Rose & Ginger, um drama sobre duas amigas jovens que buscam solucionar suas vidas por caminhos tortuosos. Completamente diferente deste último, já que abusa de cenas em exteriores e constrói outra trajetória, mostra experiência e apuro narrativo. Em A Festa, o preto e branco acentua os contrastes dos diálogos em oposição a uma câmera que, por vezes parece perdida buscando uma forma, mas que se faz entender até o final e garante bons enquadramentos e grande uso do espaço. Sem grandes novidades estilísticas, o filme é todo interpretação e Kristin Scott Thomas e Patrícia Clarkson seguem arrebatadoras. São duas atrizes imensas  e está sendo um prazer sofrido – por seu personagem trágico e cruel – acompanhar a última em Sharp Objects, a nova série da HBO com Amy Adams como protagonista. Não apenas elas duas, mas o par Timothy Spall e Bruno Ganz é também impressionante, alimentando a comédia no tom hipócrita que todos precisamos apreciar de vez em quando.


O roteiro desse filme é uma aula à parte. Imagino a sagacidade da diretora que também o escreveu e se havia pensado nestes atores antecipadamente para os papeis. Em todo caso, vale cada linha ali dita e dá vontade de rever apenas para recortar alguns trechos. A empatia que o filme provoca garante a saudade dos personagens desenhados para o contraponto, cada um como um emblema de problema como ricos estereótipos sociais.

Saí do filme feliz como boa parte da sessão lotada. Compartilhamos risadas, o público foi educado ou talvez entrou naquela comunhão mágica do cinema, o transe e recepção cada vez mais raros, em que as pessoas não morrem quando ficam mais de sessenta minutos sem tocar em seus telefones. Saímos vingados, talvez, ao ouvir coisas que já pensamos e/ou queríamos escutar ou falar para alguém. Tomar uma atitude como algumas ali encenadas. Era a leveza em forma de ironia que eu precisava para este fim de festa e começar bem a semana.

Uma dica: vá sem assistir o trailer antes. Ou, no máximo, faça como eu: veja os 10 primeiros segundos.
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Netflix lançou este ano um documentário de 39 minutos chamado Heroína, que trata de uma dura realidade em Huntington, West Virginia, nos Estados Unidos – crescente uso de heroína na cidade. Curto, bem feito e importante, vale atentar para cada detalhe e, tanto da forma de tratar do tema, quanto de como as protagonistas lidam com as situações mostradas ali..

Jan Rader é a chefe do corpo de bombeiros da cidade e atende às chamadas de emergência por overdose que abundam no local. Este é o primeiro choque que levamos, a quantidade de chamadas por dia, o índice crescente de uso de uma droga tão famosa décadas atrás, que nos parecia esquecida hoje, que quase não é mencionada em tempos de anfetaminas, ácido, maconha e cocaína. Não que todas estas drogas não existissem concomitantemente com a injetável, mas – talvez por ser injetável e causar uma impressão forte e triste – não ouvimos mesmo falar, pelo menos nos programas de TV, filmes e séries.

Não há mais o romantismo da droga, aquelas cenas em câmera lenta de Trainspotting, de  Cristiane F, de Diário de um Adolescente, de Streetwise. Prestando atenção a estes filmes, o próprio romantismo é criação dos personagens, universo dos viciados que precisam daquele êxtase – contundente, já que a droga de fato promove efeitos de prazer – ainda que raros e efêmeros. O fato é que nesta pequena cidade carvoeira americana, onde parece que nada acontece, o maior problema é o uso. É o que destrói famílias e é seu combate o objetivo de Rader, da juíza Patrícia Keller e de Necia Freeman, da Brown Bag Ministry, um programa que oferece alimentos, produtos de higiene e aconselhamento para usuários e ex-usuários de substâncias.

Jan Rader
O filme é importante porque retoma questões sérias e, muitas vezes, invisíveis às pessoas que não têm convívio ou relação com o assunto, mas que – nem que seja por curiosidade ou senso de comunidade – agora podem refletir. Há um momento que um dos bombeiros, em um debate, fala com Jan Rader sobre o uso de naloxona, uma droga que interrompe parte do efeito provocado pela heroína em uma overdose e ajuda a reavivar o usuário. O bombeiro então pergunta se esse uso não criaria uma tábua de salvação ao usuário, se o uso do medicamento não contribuiria para persistência no uso e um retardo no combate. Jan responde, entendendo a naloxona como um salvamento sim, que ao manter um usuário vivo, há, pelo menos, uma esperança dele se tornar ex-usuário e então, estando vivo, ser um cidadão, contribuinte e ajudar outros que estiveram e estão naquela situação. É uma fala brilhante que nos faz pensar nos discursos de lógica fácil que costumamos ouvir sobre outras drogas, culpabilidade e vício. O programa de drogas que leva o apoio da justiça local sob o comando da juíza Patrícia Keller é a prova de que quem está ali, é responsabilizado por seus atos e paga por eles – o que não significa que eles não terão suporte para transformar suas vidas.

Um tema trágico, difícil de abordar sem entrar nos clichês, aqui é tratado de forma honesta. A câmera acompanha vários resgates e o faz de forma a demonstrar que é uma rotina, com o cuidado de tornar os pacientes anônimos e dar visibilidade aos procedimentos e à situação de crise que é o grande volume de chamadas de emergência com o mesmo motivo. Ao mesmo tempo, evidencia como o trato destes pacientes é feito sob a supervisão de pessoas experientes, nem sempre carinhosas como as mulheres profissionais e protagonistas do filme, mas certos e seguros – e que também precisam de apoio na vivência de suas funções. A voz aos usuários é dada também, em alguns momentos, pontuando parte de suas realidades, mas sempre com um olhar otimista, indicando o prazer da droga, mas também no que ela acarreta a curto prazo – já que o uso a longo prazo não existe.

Patricia Keller e Necia Freeman
A câmera é rápida, o diretor ganha intimidade com seus participantes e, por não ser um filme intimista e lidar com pessoas já acostumadas a estar sob pressão, parece não fazer diferença, não causar incômodo e nem provocar alterações da realidade. Este processo íntimo não é à toa, o tema é recorrente tanto da região, quanto da vida da diretora, moradora de uma cidade vizinha que passar por situação similar. Seu próximo filme está em produção e trata do processo de recuperação de alguns ex-usuários de heroína.

É interessante ver a Netflix abraçando filmes com motivos importantes e que provocam questões sobre cultura e comportamento. O que sinto falta neste filme – ou talvez que servisse de assunto para uma continuação – seria entender se essa questão do aumento do uso de heroína é local ou se é uma situação ainda mais grave, se é um retorno da droga a níveis alarmantes e nacional ou regional. O que se diz é que, por várias pessoas sofrerem lesões em decorrência de suas ocupações, acabam tendo o acesso à drogas analgésicas restringido e encontram a heroína no meio do caminho. Mas, quem é o provedor, de onde vem? Sendo uma questão local em uma cidade pequena, não há como combater?

Questões são a parte fácil de elaborar, claro, especialmente na realidade brasileira em que vivemos, o que não falta é pensamento prático, propostas e lógica. Seria interessante também entender como a polícia de Huntington trabalha, se há alguma parceria ou aliança com os bombeiros, de que forma acontecem as investigações para, pelo menos, dificultar a entrada ou produção da droga na cidade. Esta é outra história, entretanto, e é só mais uma das reflexões que filmes assim provocam. Seu titulo  não passa despercebido, as mulheres dominam a cena e a batalha contra o vício e as mortes provocadas por eles, salvando usuários, os mantendo em programas de reabilitação, redução de danos e combate ao vício. Heroínas sim, são Jan Rader, Patricia Keller e Necia Freeman, além de Elaine McMillion Sheldon, que dirige o filme e vivenciou situações como esta em sua cidade natal, o tornando fundamental. Vale cada minuto.
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Ela precisa partir, mas quer permanecer. Ele, o oposto. Presos em dilemas familiares, Casey (Haley Lu Richardson) e Jin (John Cho) se conhecem em Columbus, uma cidade entranhada no meio oeste americano, o terceiro protagonista desta história delicada e especial.

Esta estreia de Kogonada como diretor surpreende pela sofisticação e elegância no trato de um enredo simples, cabível como histórias reais de quase qualquer lugar e em qualquer tempo. Quase, porque Columbus traz um legado modernista em diversas construções, que refletem na dureza e firmeza de suas linhas a calma e as constatações de Casey sobre sua vida e como elas entram em conflito com as reflexões de Jin, em um dos raros momentos em que o cinema americano permite um ator de herança oriental ser protagonista de algo sem tiros e grandes efeitos especiais. Este embate resulta em um relacionamento curto e intenso, como aquelas amizades que percebemos em um olhar que serão para toda a vida.


A fotografia poderia ser um capítulo à parte e isso se comprova na preparação do fotógrafo Elisha Christian e do diretor. São ângulos e locações que reforçam as características da cidade e ressignificam os sentimentos dos personagens: os vazios, as linhas retas, luzes brancas e o contraste, a integração com a natureza, os visitantes, o uso dos espaços. É um cinema independente que investe em sutileza e calma, buscando no processo de transformação dos personagens, um silêncio e uma nova forma de olhar. Os dois atores principais são, nesse sentido, brilhantes, mas o elenco não se limita a eles e ganha corpo com Parker Posey e Rory Culkin, o último já garantido para o próximo filme do diretor.

Ainda não sabemos qual será a trajetória de Kogonada no futuro próximo; saído da crítica do cinema para ser realizador, ele produziu uma obra com uma forma de fazer cinema que lhe agradava assistir. Agora é esperar para ver se, a partir deste Columbus, se firmará um estilo, mais próximo de um cinema autoral com a liberdade criativa que ele teve já na estreia. Independentemente do que venha a seguir, vale a pena buscar este e garantir um pouco de reflexão e sensibilidade em um filme tranquilo, gostoso, leve e sincero. Para ver nos cinemas.

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Heartstone ou Peixe-pedra é o início e nome desse filme, que funciona como metáfora do ciclo que percorreremos com o diretor. Em busca de peixes ‘melhores’, os amigos que pescam em um pequeno atracadouro na costa da Islândia duelam entre crueldade e clemência no início da história, já definindo as personalidades distintas dos heróis, os enfrentamentos, a juventude. Isso tudo em uma sequência.

História comum de dois melhores amigos que vivem a adolescência de descobertas e transformações – no corpo, em seus relacionamentos, em suas personalidades: uma sinopse não traduz o filme em grande atrativo para o público. O que o diretor e roteirista extrai da trama sim, é que o torna imenso e tão diferente de enredos similares de um sem-número de produções americanas.


Rodado em um pequeno vilarejo pesqueiro da Islândia, acompanhamos a vida de Thor (Baldur Einarsson) e Christian (Blaer Hinriksson), dois amigos da vida: seus familiares, amigos, rivais, a vida na região, a natureza imponente, as descobertas. A fotografia e as locações já valem a sessão e, da mesma forma, é difícil acreditar que Guðmundur Arnar Guðmundsson seja um diretor de primeiro longa-metragem. Com quatro curtas no currículo, levou, apenas com Heartstone, 30 premiações.

O apelo do filme reside na naturalidade dos protagonistas, na intimidade que os atores conseguem construir em cena, na força das imagens. Em como a natureza configura, contrasta e enfatiza os sentimentos, diálogos e ações, em como cada fala e silêncio funcionam em grande equilíbrio. Não há apenas um aspecto da adolescência abordado aqui, mas tudo que o envolve e que hoje é distante de muitas realidades de nossa vida urbana, de prédios, grades e videogames. Na Islândia há espaço, natureza e segurança. Há vida fora de casa e longe de equipamentos eletrônicos. Há o aproveitamento do clima ao máximo, especialmente quando não está inclemente.


A construção dos personagens é o forte da trama e isso não se limita aos protagonistas, mas a todos e, em especial, às meninas. Não há o clichê do sexo frágil, mas meninas que também estão saindo da infância em pé de igualdade com os garotos e se manifestam sem medos e pudores e, ao mesmo tempo, sem se firmarem sob nenhum estereótipo. A Islândia é um dos países menos machistas do globo. Isso é visto nas discussões na lanchonete, na relação com os amigos e paqueras, nas tomadas de decisão e liberdades concedidas.

A grandiosidade de um filme que parece pequeno se resume nisso, em uma trama muito bem elaborada, delicada e atenciosa. É um filme sem pretensões e que não busca lições de moral, mas apenas a vida, o dia a dia de uma região pequena e magnânima em beleza, específica e distante de nós, mas que, mesmo assim, nos afeta e encanta. Talvez os prêmios concordem com isso, com a universalização de uma obra como esta, tão localizada quanto ampla, com questões humanas e ainda atemporais. É um filme para ser revisto.




E aqui um brinde: o site lindo do filme.

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Qual é a importância da arte para a cultura? Ela molda nosso pensamento? Dá forma ao que imaginamos? Provoca sensações? Questionamentos? Quando vemos uma escultura, um quadro, ouvimos uma música, vamos ao cinema... o que esperamos, o que queremos? O que cada expressão artística causa em nós? E qual é, necessariamente, sua relevância para nós enquanto indivíduos e em sociedade? No último filme de Andrzej Wajda sobre a vida de Wladyslaw Strzeminski, Afterimage, saímos com essas questões e algumas outras respostas.

Em meio ao caos político e econômico que vivemos – ao menos no Brasil – não parece haver espaço para discussões sobre arte e suas manifestações em nosso dia a dia. Não há também, desde a ditadura, uma força política que restrinja qualquer tipo de manifestação artística de qualquer teor ou forma diretamente – à exceção de Dória em São Paulo. Não se percebe a arte como uma forma perniciosa ou entrave à vida política como um todo, como participação social ou funcionamento da máquina estatal. Nem sempre foi assim e não é assim em grande parte do planeta, a História de regimes totalitários aqui e no mundo está aí para provar, e o que Wajda traz é o reflexo disso no governo Stalinista, no longo regime socialista da União Soviética, mais precisamente, na Polônia, na primeira metade do último século.


Wladyslaw Strzeminski foi um artista plástico, um pintor do início do século vinte, contribuidor fundamental ao modernismo, teórico e prático. O que vemos na tela, interpretado magistralmente por Boguslaw Linda é um brilhante professor da escola de Belas Artes, feliz por desenvolver o pensamento sobre a nossa percepção acerca de uma obra. Para ele, o que apreendemos dela nada mais é do que uma interpretação a partir de nossos conhecimentos – somos capazes de ver apenas o que compreendemos. Este homem gosta de seu trabalho, é um artista ativo, é um professor e também um deficiente que não aceita ser reconhecido como tal, Strzeminski não tem um braço e uma perna. O que deixaria qualquer pessoa limitada, para ele não parece incomodar além do óbvio – ele vive só e recebe a visita de sua filha e de uma diarista que o ajudam a manter a casa em ordem.

Strzeminski está sempre ensinando ou produzindo, permitindo a livre expressão e ampliando os horizontes de seus alunos, mas o cerco Stalinista se fecha sobre ele. A intenção do governo é que o artista se volte ao pensamento da arte enquanto função, para que reforce o sentimento de classe e se extinga aquele do indivíduo, da reflexão, do pensamento crítico e abstrato. Em um tempo em que as ideologias eram de grande relevância, provocavam reações e conscientização da sociedade, a arte fora do realismo era entendida como inútil e ameaçadora e, sendo um entrave à ideologia de então, precisava ser combatida a ferro e fogo.


O que entendemos deste Afterimage se conjuga com as próprias pinceladas da teoria artística do protagonista e os efeitos da defesa da arte em sua vida. A consequência política de uma oposição é seu estrangulamento, é a provocação da invisibilidade sob todo e qualquer tipo de coerção possível. Wajda nos impõe uma tragédia cuja construção nos impele a sempre tentar buscar – junto ao protagonista e seus alunos – uma saída a qualquer custo; passamos a duração com uma sensação de inevitabilidade, sem querer encarar as prováveis consequências daquele dilema.

A força deste pensamento soviético, da abolição do eu para a manutenção do nós, parece muito mais uma ficção para o pensamento ocidental do que a biografia que assistimos. A massificação da propaganda socialista soviética alcançou e dominou seus cidadãos quase como uma doença – que se entenda bem: a teoria não era ruim, o pensamento para o bem coletivo deveria ser aplicado – o problema está na extinção do indivíduo, no desequilíbrio da balança, no fim de qualquer oposição. Enquanto filme de ficção, temos uma parcela de uma biografia com o brilho da livre interpretação, o alívio narrativo de uma possível fantasia. Mas, ao buscarmos referências daquele modo de vida – e aí trago a ucraniana Svetlana Aleksiévitch em seus dois livros sobre a cultura, cotidiano e vida na União Soviética, O fim do homem soviético e A guerra não tem rosto de mulher – vemos a força desse pensamento sob os pontos de vista e vozes das pessoas, sem filtros além do da edição e diagramação do texto. Percebemos nitidamente o sucesso da propaganda ideológica e passamos a entender mais profundamente a resistência de Strzeminski e as consequências sociais e individuais desta massificação. Entendemos então o quão precisa e sucinta foi esta interpretação de Wajda.


Este foi o último filme do aclamado diretor que morreu em 2016, um presente e uma tristeza por não tê-lo mais entre nós. Um artista que sempre lutou pela liberdade e democracia e expôs as repressões dos regimes totalitários na Polônia e seu posicionamento político em todas as suas obras, ampliando a percepção de um público fiel e internacional, traduzindo em arte questões íntimas e sociais. Um cinema que soube ser engajado, autoral e, ainda assim, interessante. Os diálogos que assistimos neste filme apenas comprovam as assertivas; não há uma fala gratuita, uma vírgula fora de lugar. Todos os ensinamentos de Strzeminski, as relações entre a polícia, com os amigos, a família – a filha adolescente que morava sozinha e visitava a mãe (também artista, escultora e já muito doente), a separação dos pais e ela se vendo cada vez mais distante do pai – com os alunos e a escola, suas tentativas de se reerguer. Dimensões de uma vida conectadas milimetricamente. Wajda nos deixa com este candidato ao último Oscar, um grande filme, cuja percepção plena nos chega aos poucos, nos faz refletir sobre a função do artista e da arte, sua importância para a cultura e seus impactos na sociedade daquele tempo, nos provocando questões sobre o que vivemos hoje. Imperdível. 
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Há uma nova onda no cinema internacional que investe em refilmagens de filmes recentes. Sucessos de público ou não, os diretores negociam direitos de obras lançadas há pouco tempo para criarem sua versão a partir daquele roteiro. Problema nenhum, mas levanta a questão se não deveríamos aguardar mais para relembrar algo que vimos outro dia.

Assim acontece com Kiki – os segredos do desejo, de Paco León. O filme é a refilmagem do australiano A Pequena Morte, de Josh Lawson, lançado em 2014. Ainda que o roteiro seja o mesmo, as variações culturais e as liberdades criativas dos dois diretores garantem a atualização. A versão espanhola, dirigida e também contracenada por Paco León carrega Madrid em uma visão quase de contos de fadas para adultos, eliminando alguns absurdos do anterior (como o ótimo personagem que se muda para a vizinhança dos casais) e adicionando outros exageros. Os fetiches são tratados de forma mais gráfica aqui, mas nada ultrapassa qualquer barreira séria, à exceção do casal em que o homem dopa a esposa. De resto, é como o original, uma pincelada sobre algumas fantasias sexuais e como casais de relacionam, aprendem a conhecer e conviver com seus desejos.


O filme prometido por seu trailer, entretanto, poderia ir além. Casais de classe média, brancos, heterossexuais não causariam danos com seus fetiches suaves – é uma comédia romântica com alguma pimenta aliviada pelo riso – mas aquele em que a mulher está em situação vulnerável é um problema. É estranho que se precise desenhar, explicar que estas representações como comédia para além da crítica, frente à frequência de abusos cometidos contra mulheres são de uma gravidade tal, que não cabem produções cinematográficas de qualquer natureza tratarem do assunto sem uma posição, no mínimo, crítica. Ainda que seja um fetiche, é unilateral e a mulher não tem conhecimento do que lhe acontece. As comédias mordazes, irônicas e satíricas são mais do que bem vindas e são raras as que conseguem manter diálogos inteligentes e ácidos para além da reprodução de cenas impróprias – não por pudor, mas por cuidado, para dizer o mínimo. Aqui o pensamento crítico se perde justamente em uma ideia que desfavorece a mulher com um desfecho inverossímil.

O restante do filme corre tranquilo, sem grandes ressalvas, mas talvez o mais interessante de se avaliar seja isso mesmo, o ‘o que não fazer’ quando o fetiche envolve abuso, maus tratos aos animais ou qualquer situação que envolva prejuízo a alguém alheio a esta condição ou ameaça. A fotografia que puxa para tons pasteis reforça o efeito de fábula, também presente nos personagens com a alta carga de ingenuidade. Tudo é exagerado e faz parte da trama, é coerente com o que se conta e é uma comédia de verão.


As melhores partes estão na vinheta de abertura, sensual, provocante, interessante e nas cenas com a personagem deficiente auditiva – brilhante. O resto é como o filme australiano com alguma latinidade e calor para esquentar os espectadores. Para assistir sem a expectativa de uma grande obra e sem esquecer algumas cenas, pro bem e pro mal, nada além disso.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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