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Café: extra-forte

O meu Carnaval esse ano foi bem diferente. Baiana que sou, não consegui ir a Salvador e a festa carioca não me empolga na mesma medida. Confesso que o calor dos 800 graus me desmoraliza também, então fiquei escondida em casa, nos cinemas e de vez em quando dava uma volta em um bloquinho ou outro, na casa dos amigos, só para dizer que saí mesmo. Foi ótimo, precisava desse descanso e de um tempo para colocar as leituras e filmes em dia. Em alguns momentos me achei meio louca e deslocada, mas acho que isso deve acontecer com mais gente do que eu... espero, pelo menos.

Com isso, para salvar a turma da ressaca da maior festa do Brasil, segue uma listinha bem diversa interessante para gastar no fim de semana:

Amy (2015, Asif Kapadia) – 128 min
Documentário que concorre ao Oscar esse ano, Amy trata da vida de Amy Winehouse, que infelizmente entrou para o clube dos cantores icônicos que morreram aos 27 anos (Jimmy Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Kurt Cobain). Amy ia muito além do perfil problemático de menina drogada que a mídia insistia em construir. O filme retrabalha sua imagem, não a eximindo de seus problemas, mas ampliando o perfil, nos apresentando uma personagem complexa, uma mulher extremamente talentosa que não conseguiu se sustentar, no sentido simbólico do termo. É um grande concorrente ao Oscar, senão o favorito. Você sairá triste do filme, mas é aquela coisa Romeu e Julieta, né? Não tem jeito. Vale a pena e te digo ainda mais aqui!

Apertem os cintos – o piloto sumiu! (1980, Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker)
Extremo oposto ao primeiro filme, até para aliviar a vida, chega essa comédia bocó, despretensiosa e engraçada dos anos 80. Acho que não passava na sessão da tarde, era filme de passar à noite. Tem que gostar das piadas à la Leslie Nielsen, sexistas, mas bobas e ingênuas – os anos 80 não tinham lá muita noção. É filme meio paspalho mesmo, mas os diálogos são tão nonsense que, se você baixar o senso crítico, se diverte demais. Se não gostar mesmo assim, é compreensível. Só não julga muito. Tem ótimas tiradas, como a do piloto automático. Mas ainda assim, é daqueles filmes de verão da época que hoje viraram cult.

Orgulho e preconceito (2005, Joe Wright) – 129 min
Romance romântico, texto de Jane Austen. Já assisti a esse filme umas 98394839 vezes e é lindo, não enjoável. Isso porque a narrativa clássica de uma história de amor quase de príncipe encantado aqui é contada com diálogos brilhantes e grandes interpretações de Keira Knightley (a mocinha de Piratas do Caribe) e Mathew Macfadyen, seu par. O texto da escritora preenche a produção muito bem executada, provavelmente a melhor adaptação dos romances de Austen feita. É aquele estilo clássico mesmo do cinema, que amolece nossos corações, nos faz rir, de vez em quando pinta uma lágrima envergonhada que secamos sem ninguém perceber. E ainda é Jane Austen, uma das escritoras que buscava a valorização do gênero ou, ao menos, sua percepção no mundo a colocando como sujeito, como protagonista, ainda que a época não a favorecesse. Passa direto na TV paga, mas agora tem também na nossa locadora. Aproveita o dia dos namorados gringo aí e assiste.

Gênio Indomável (1997, Gus Van Sant) – 126 min
Na categoria drama, coloquei Gênio Indomável porque alguns amigos me confessaram esses dias que deixaram o filme passar por eles. Matt Damon e Ben Affleck se tornaram quem são hoje no Cinema por causa desse filme – eles não só atuam, como o escrevem. Robin Williams é o psicólogo do problemático Will Hunting (Damon), um gênio autodidata da matemática que é descoberto por acaso ao resolver uma equação na universidade em que trabalha como servente. É uma história de redenção do melhor tipo, vencedor de 2 Oscars e completo, esse também é para ser visto de tempos em tempos. Se ainda está em dúvida, lembra que o diretor é o mesmo de Elefante (2003) e Milk (2008).

Veludo Azul (1986, David Lynch) – 120 min
Para terminar, um filme lado b americano. David Lynch é um diretor controverso e inteligentíssimo. Como acontece com Tarantino, prefiro seus primeiros trabalhos aos últimos, ainda que os dois sejam completamente diferentes um do outro. Lynch é um cara de mistérios, algum surrealismo e uma veia que poderia somar Buñuel, Salvador Dalí, Diane Arbus e qualquer coisa de Stephen King – e ainda assim, ele seria diferente. Neste filme de suspense, Jeffrey (Kyle MacLachlan) investiga um crime quando encontram uma orelha em um jardim. Isabella Rossellini é Dorothy, uma cantora que parece ter algum envolvimento no crime, a partir do que Sandy (Laura Dern) lhe informa. Dern é musa de Lynch e MacLachalan está em Twin Peaks (1990), umas das melhores séries que já vi na vida, para quem gosta desse clima sombrio/estranho, também do diretor. Esse filme levou não sei quantos prêmios e ao assisti-lo você terá uma experiência única. David Lynch é sedutoramente viciante.

Curtiu a seleção? Conte-me mais sobre isso! ;)
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Em dias muito muito quentes não consigo fazer muita coisa. Acho que sou como os cachorros, fico parada em algum canto, o lugar mais frio da casa – ou de qualquer lugar – me movendo o mínimo possível. Em um destes episódios, me peguei assistindo Best of Enemies. O filme estava há meses na lista, mas eu não estava pronta para ele. Documentário de 2015 sobre uma série de debates que aconteceram na ABC americana nos fim dos anos 60, entre Gore Vidal e William F. Buckley Jr. – o último, um perfeito desconhecido para mim – era algo que poderia esperar.

Gore Vidal eu sabia quem era. Tinha um livro dele pela casa, Kalki, que um ex deixou anos atrás. Tentei lê-lo algumas vezes, mas acabei parando no meio. O fato é que sabia que o autor era um intelectual sério e respeitado, crítico norte-americano. Não sabia da participação dele no cinema, isso veio bem depois – ele é ninguém menos que o roteirista de Calígula (1979). William F. Buckley Jr. é a novidade. Ultra conservador americano, também intelectual e fundador da revista National Review, eram claramente opostas as posições sócio-políticas e culturais dos dois. Buckley era relevante em seu meio e ganhava notoriedade à medida que galgava seu espaço televisivo. Representava a família branca e tradicional, elite econômica americana. Gore Vidal era homossexual.

A ABC, quarta emissora em audiência no país, resolve em 1968 promover uma série de debates entre eles sobre as eleições presidenciais daquele ano. A ideia era contrapor argumentos e acalorar um debate político interessante e inteligente. O detalhe é que a emissora subestimou seus protagonistas.
O documentário parte deste mote, exibindo trechos dos debates e, à medida que as trocas de farpas esquentam o clima, nossa ansiedade cresce junto e esperamos, como um novo capítulo de novela, o ‘dia’ seguinte. Ao mesmo tempo, correm em paralelo os acontecimentos daquele ano, o que provocou aquelas discussões, quem eram os candidatos à presidência, o que cada um representava. Esta postura é quase pedagógica, mas feita em bom ritmo, parecemos viver aquele 68 agora, pontuados por observações de quem conviveu com os dois protagonistas.

Best of Enemies é um grande titulo, literalmente falando. Quando pensamos em debates presidenciais, vêm à mente aquela palhaçada que vivemos a cada quatro anos, muito mais um programa de entretenimento do que um serviço de utilidade pública, como deveria ser. O problema dos nossos programas está nos candidatos que não se preparam para discutir política. Ficamos sem conhecer seus projetos, suas ideias para o desenvolvimento do país e vemos um bate boca sem fim de injúrias tão rasas quanto àquelas que praticamos na infância. Não temos os melhores adversários possíveis, não ficamos em dúvida por suas propostas, não continuamos a conversa entre nós, em casa ou na rua. Os nossos são sobre a superfície dos argumentos, o disse-me-disse, quem bate no palanque, quem grita mais alto e quem rouba menos. Não digo com isso que os daqui são piores do que os de lá, mas a ideia da emissora de colocar intelectuais ao invés de presidenciáveis se torna mais interessante porque em tese, ouvimos as opiniões embasadas sobre os assuntos e não uma corrida por medalhas.

Mas, somos de carne e osso e assim são nossos oponentes e as pessoas da televisão. O filme passa uma ideia de que Buckley de fato estava lá para discutir e defender seu candidato e supostamente Gore Vidal deveria fazer o mesmo. Mas sua ideia era outra: ele encarava Buckley como seu inimigo, com ideias perigosas para a nação, quase um Donald Trump e isso é bastante assustador, queria desmoralizá-lo combatendo seus argumentos com outros melhores e contundentes. Era sim, uma batalha ideológica.
A ABC, agora líder de audiência no horário nobre, não sabe o que fazer além de se manter firme em sua proposta, deixando o mediador tonto, sem conseguir barrar as trocas mais violentas. À medida que o programa corria ao vivo, a crise política avançava – a questão racial entrou em foco e manifestações violentas tomaram o país, os Estados Unidos insistiam na Guerra do Vietnã – os ânimos se acirravam em todos os meios de comunicação. O filme transmite bem essa efervescência nos encaminhando para um final imprevisível.

Os diretores, Robert Gordon e Morgan Neville nos dizem mais: os debates se tornam, eles mesmos, notícias. As outras emissoras e meios de comunicação passam a acompanhar a trajetória ao longo dos dez dias que marcaram de vez a televisão americana. A tv não existia há muito tempo, mas já havia construído um padrão jornalístico e de entretenimento e aqueles embates eram novidade, como uma troca de tapas com luvas de pelica. Após este, diversos outros programas foram criados com esta base, programas de debates com personagens fortes – mas nunca seriam como o primeiro.

Mandei um recado para um amigo phd em política internacional que mora em São Paulo, para que me ajudasse com informações sobre Buckley, Vidal e lhe pedi uns textos para iniciantes, para trocar umas figurinhas sobre esses caras tão importantes para os Estados Unidos de então. Terminei de ler um livro sobre documentários que falava que o espectador assíduo está sempre em busca de conhecer mais, de exercitar sua curiosidade. Talvez seja isso mesmo, essa febre que me acontece e me deixa carente de pessoas tão doentes quanto eu. Quem me dera o amigo de fora estivesse aqui para ver comigo essa pérola escondida da Netflix e me aturar nas perguntas de base. Vale cada minuto.

*Caso alguém se interesse, não será tempo perdido e estarei esperando para trocarmos ideias.
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Há determinados assuntos que se repetem em filmes tantas vezes me pergunto se as histórias originais não acabaram. Ao mesmo tempo, quando os filmes são bons, fica clara a necessidade daquela abordagem e que sim, ainda há o que dizer sobre o tema repetido, por incrível que pareça. É isso o que acontece em Spotlight.

O título remete a um núcleo dentro do Boston Globe, um grande jornal em Boston, responsável por reportagens longas, investigativas, aquelas que duram meses para ficarem prontas. Com a chegada do novo editor-chefe, recebem uma demanda difícil: denunciar a omissão da Igreja Católica e suas tentativas de sublimar a existência de padres pedófilos e suas vítimas. É aí que começa o filme.

No fim de semana anterior a este, consegui finalmente assistir Birdman – ou a inesperada virtude da ignorância (2014, Alejandro González Iñárritu). Eu sei, atrasado e depois de todo mundo, de toda a discussão sobre a ressurgência de Michael Keaton e a qualidade inquestionável do cinema de Iñárritu. De fato, Michael Keaton retorna aos cinemas em um papel que qualquer grande ator sonharia em fazer, em um filme que se tenta ser um plano-sequência como só os grandes mestres conseguem, com encenações frenéticas e únicas de Naomi Watts, Edward Norton – vai ser sempre pra mim um dos melhores atores de sua geração – e Emma Stone, que está chegando e fazendo nome. Fazer este roteiro não deve ter sido brincadeira e muito menos a cenografia. Um exercício de um cinema educado, extremamente calculado e bem preparado que traz críticas e estereótipos da própria indústria. E Michael Keaton, ainda que não considere um artista brilhante, aqui se sobressai.
É justamente ele o redator chefe de Spotlight, Robby. É quem defende a reportagem ao mesmo tempo em que é quem mais se relaciona com a cidade, com a alta classe, com políticos, com todo mundo. É um filme de muitos personagens fortes, mas talvez seja ele o protagonista, novamente. Mark Ruffalo, Stanley Tucci, John Slattery - matando as saudades desde Mad Men - Rachel McAdams, Liev Schreiber e Brian d’Arcy James reforçam o elenco. Ruffalo é o repórter que levará a reportagem, com uma relevância maior que os demais, ainda que toda a equipe – McAdams, Keaton e James – seja tão fundamental quanto. Angustiante, é uma escavação sobre os crimes dos padres e seu envolvimento com crianças, particularmente aquelas mais vulneráveis, nos deixando com cada vez mais raiva da instituição.

O filme também fala de paixão. A construção do roteiro em torno do desenvolvimento da investigação, dos confrontos dos jornalistas com o poder local, a relação deles com a Igreja e religião, o descobrimento que uma sociedade aparentemente tranquila e saudável que esconde sujeira debaixo do tapete evidencia uma persistência, uma busca pela verdade que ultrapassa esse bem viver e se relacionar. O entorno de sorrisos e cafés perde seu conforto – a imagem que eu tinha de Boston era um tanto diferente, maior e mais diversa do que ela se apresenta ali - ainda que se considere décadas atrás. Os jornalistas vão além, nos mostram sua função no mundo, a relevância de seu trabalho e o choque a cada nova descoberta. Ficamos com vontade de ir atrás junto com eles e de seguir com afinco e amor o que acreditamos, talvez seja isso.
Direto do Festival de Toronto, os jornalistas 'reais' e os atores que os interpretam.
Dirigido por Tom McCarthy e escrito por ele e Josh Singer, parece ter sido até mais pelo currículo do segundo a busca por uma produção com um tema polêmico e político. McCarthy é também produtor e ator de filmes de gêneros diversos, mas ainda assim, garantiu um trabalho bem executado. A fotografia e o figurino contextualizam a época, apesar de ser uma história, infelizmente, recorrente. Concorrendo nas maiores categorias do Oscar deste ano, acredito que poderia levar roteiro e edição – mas ainda não encerrei minha lista para elencar meus favoritos.

Assisti a este acompanhada de um amigo jornalista que ama seu trabalho. Conversamos um pouco sobre isso, tanto sobre esta paixão como sobre os tipos de reportagens e a vontade de se fazer um trabalho relevante. Mas, mais do que isso, o filme se constrói, e por isso acho que merece o prêmio de edição numa crescente, ampliando nossa ansiedade num nível quase insuportável, de roer as unhas mesmo – e olha que nem é suspense. Esse gradual, a complexidade da trama, o novelo que parece cada vez mais se enrolar enquanto tentamos puxar o fio é o que torna esse filme um dos grandes. E, para que se torne ainda mais relevante, caso persista alguma hesitação: é baseado em fatos reais. Vale gastar um dinheiro e ver no cinema em uma tela de respeito.
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Quando Amy Winehouse morreu e a mídia noticiou, ficou um silêncio esquisito. Eu sempre gostei da voz dessa mulher muito jovem para aquilo tudo. Eu tinha essa ideia de que aquela voz maravilhosa não cabia naquele corpo tão fininho e frágil, como se precisasse de mais fibra, mais força, mais tempo. Fiquei triste de verdade, naquela tristeza que sentimos quando se perde alguém tão relevante para todos. É um luto diferente; não dói como um parente ou amigo, mas ainda assim, o peso, o vazio e uma pena de nós mesmos, de termos perdido – como se fosse culpa nossa – algo tão precioso ou de termos deixado acontecer, permanece.

Essa semana estreou na Netflix o documentário Amy, de Asif Kapadia e acabei de assistir aqui, nesse domingo de Carnaval. O filme mostra um pouco da vida da cantora, traçando a trajetória do seu início de carreira, ainda adolescente. Mesclando vídeos domésticos, entrevistas, shows, clipes, ensaios fotográficos e muito arquivo jornalístico sobre sua vida pessoal e profissional, vemos uma aparente cobertura completa de talvez seus últimos 15 anos. Quem lê assim, pensa que estamos falando de alguém que morreu velho, mas Amy sumiu aos 27 anos.
Aparente cobertura completa, porque nunca será, de fato. Os documentários biográficos de gente que não está mais por aqui sofrem ainda mais com esse olhar sobre o outro. É óbvio e certo que todo filme é uma perspectiva sobre outrem partindo de alguém. Aqui, Kapadia constrói o perfil de uma mulher bastante inteligente e indiscutivelmente talentosa, mas que se perdeu, se deixou levar por problemas grandes demais. Como aquela ideia do artista que não cabe em si, Amy parecia mesmo ser mais do que poderia suportar, mas isso é injusto de se dizer. Ela foi uma mulher corajosa em um nível que só os grandes artistas conseguem ser. Ela não fazia distinção entre vida e carreira: tudo estava intimamente relacionado e a prova disso são as letras que compôs. Ao mesmo tempo, lá longe pisca um alerta de se esse filme não seria um pouco condescendente com a cantora, se não quer defendê-la, protegê-la como o pai dela deveria ter feito.

Algumas vezes nos perguntamos durante o filme porque as pessoas ao redor dela não a ajudaram de fato. De fato mesmo, de verdade, de arrastá-la pelos cabelos e tentar ajudá-la, mas não sabemos como tudo aconteceu. Apesar da vida da cantora ter sido ganha pão dos tabloides ingleses e americanos e com isso repercutir no resto do mundo uma imagem de uma personagem problemática e, como ela não está aqui para falar por si, ouvimos dos outros, destes amigos, parentes, colegas de trabalho contando suas preocupações e participando muito pouco, talvez como um ela tem que se cuidar, tomara que ela melhore, tomara que ela perceba isso, já estou de saco cheio de tentar ajudar, de uma forma inglesa demais. Claro que a culpa de quem se acaba é de quem se acaba, mas dá vontade de se meter na história e tentar fazer alguma coisa. 
A estrutura fílmica funciona bem; o diretor deve ter coletado uma quantidade quase infinita de material e a construção deste mosaico é bastante equilibrada e dá uma noção da evolução da carreira de cantora ao mesmo tempo em que traz os bastidores de sua vida. Só sabemos que será um filme triste, história com final conhecido.

Uma das questões mais importantes – talvez a mais – foi respondida e isso é o máximo de felicidade esperada. Kapadia nos mostrou uma cantora que foi muito além do perfil artista que usa drogas e morre cedo. Esta ideia de garota-problema não se aplica a Amy. A capacidade artística dela, o conhecimento musical – isso sim, pouco explorado aqui, nos deixando com vontade de saber mais (um pouco como Ingrid Bergman) – tanto de repertório quanto de elaboração só significavam que ela foi uma artista completa, como disse Tony Bennet e que se equipara aos grandes nomes da música mundial. E tudo muito cedo. Um dos grandes problemas foi justamente a ascensão meteórica para uma pessoa que em momento algum foi preparada ou almejava isso. Claro, ela provavelmente buscava reconhecimento, mas não a este preço. A invasão absurda do jornalismo ruim, a exploração de sua vida como um folhetim, os julgamentos, o próprio pai lucrando com a exibição exploratória da filha, um namorado com o mesmo - e pior - perfil, a busca cega por mais e mais dinheiro foram fundamentais à sua derrocada.
Mas ela tentava ir adiante sempre. Se em suas letras ela se entregava, exibia suas questões com uma poesia urbana, rápida, fácil, o peso de sua voz, sua expressão no palco e a composição melódica a levaram para um outro nível. Levando 5 Grammys somente em 2008, conhecida internacionalmente e perseguida por paparazzis em cada esquina, ela já havia vivido 40 anos em 25. Nesse furor, o filme elabora a ideia de que ela só tinha que tentar viver bem, mas não conseguia. Os filmes domésticos, componentes vitais deste documentário, foram usados quase de forma abusiva, ficou na borda da invasão. Talvez o acesso e permissão de uso fossem negados por Amy, se fosse viva. Há muito de intimidade e privacidade – que já eram raros e caros à cantora – desde o uso de drogas a comentários dela com o marido, sua imagem sendo tão explorada todo o tempo por tanta gente.

Foram 127 minutos de Amy Winehouse e parecia faltar coisa. Não que o filme seja insuficiente – de forma alguma – mas a narrativa corre tão fluida e a personagem é tão carismática que fica impossível não se apaixonar por essa garota e querê-la por mais tempo. Fico pensando sobre o processo de montagem, o quão desafiador deve ter sido. Asif Kapadia é também o diretor de Senna, o documentário sobre Ayrton Senna, nosso piloto de F1 – o melhor do mundo. Aqui também havia muita imagem de arquivo, mas as domésticas eram muito mais tranquilas e em menor quantidade – fruto, claro, das épocas de vida x tecnologias disponíveis e comportamentos dos personagens. Chris King foi o montador dos dois.
Filmes com figuras emblemáticas e carismáticas carregam o peso da expectativa. Amy responde à altura, nos deixa com uma saudade dessa mulher que nunca vi ao vivo e questões para respondermos sobre nós. As que ficaram comigo são por que a pressa em viver tudo? Ainda não sei se ela estava certa, se alguma prudência pode ser equilibrada ou se nos protegemos demais de tudo todo o tempo. Isso me fez lembrar um texto delicioso e profundo de Natalia Ginzburg, uma escritora que conheci outro dia, As pequenas virtudes, do livro de mesmo nome, em que ela fala de coragem e prudência - e também me levantou outras questões do gênero. Também fiquei com quando é o momento para nos mostrarmos, para sairmos da superfície das coisas e das rotinas e vivermos ‘de verdade’? Essa é uma pergunta mais complicada em muitos sentidos e não virá uma resposta, mas uma forma de protesto e um processo de revolução íntimos. Isso porque, à primeira vista sempre diremos "agora", mas a resposta nunca poderá ter apenas uma palavra. Claro, Amy não causou tudo isso, mas é mais uma pedra em nosso sapato confortável. Não é disso que precisamos? 
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Semana de Carnaval é sempre uma loucura, né? Quem viaja pra curtir a festa não pensa em outra coisa, quem curte na própria cidade, também. Tem os sortudos que trabalham na véspera e aceitam sua condição, esperando os minutos passarem em contagem regressiva para o feriadão. Tem gente que está no meio do caminho, que queria o Carnaval ideal – no meu caso, o de Salvador – e se não tem, meio que qualquer coisa serve: vira um feriadão para aproveitar um pouco da festa da cidade, ir a praia, beber com os amigos e recuperar o tempo perdido dos filmes em cartaz nos cinemas, dos VODs da vida e de nossa maravilhosa Netflix.

Não, não ganho um centavo para fazer a propaganda, só acho que a empresa teve uma ótima sacada e que funciona muito bem para ela e para o consumidor. Neste mesmo feriadão apareço aqui novamente com as críticas de Carol e Spotlight, que estão quase prontas e talvez mais alguns do Oscar. Enquanto isso, fiz essa listinha especial com 10 filmes para passarmos o tempo, darmos um intervalo nas festas, curarmos a ressaca ou simplesmente, ficarmos de preguiça:

Embriagado de Amor (2002, Paul Thomas Anderson) – 95 min
Se você é desses que tem preconceito com Adam Sandler, só porque ele fez (fez mesmo) um monte de filme besta, assiste esse. Embriagado é um filme lindo em muitos sentidos: é engraçado, mas inteligentemente engraçado. Acho que você não vai gargalhar, mas vai rir da sutileza das coisas. O filme é lindo também porque mostra um relacionamento entre duas pessoas muito diferentes, diferentes entre si, diferentes do que costumamos ver. É lindo porque a fotografia é...um negócio. E o roteiro é muito bom. Acho que este é um desses filmes subestimados e que passam batido pela maior parte das pessoas, mas vale muito a pena. Ah, já ia esquecendo, o diretor é ninguém menos que Paul Thomas Anderson, o cara que fez Boogie Nights (1997), Magnólia (1999), Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012). E ainda leva junto: Emily Watson e Phillip Seymour Hoffman. Agora já era, né? Tem que ver.

Janela Indiscreta (1954, Alfred Hitchcock) – 112min
Hitchcock, gente. Esse é aquele filme incrível que James Stewart é um fotógrafo profissional que está se recuperando em casa de uma perna quebrada. De frente para sua janela há outros prédios, como eu, ele mora de fundos e consegue dar uma olhada na vida da vizinhança nesses momentos de tédio. Lá pelas tantas, acha que testemunha um crime, logo em frente, em uma dessas janelas. Grace Kelly é seu par romântico e co-protagonista na história. Ela é a mocinha independente que gosta e cuida deste “namorado” e vai ajuda-lo a descobrir o que está acontecendo. Muito voyeurismo, grandes diálogos e, é claro, suspense. Presta atenção: em algum momento Hitch aparece, mas sempre discretamente.

Quero ser grande (1988, Penny Marshal) – 108 min
Anos 80, Tom Hanks, comédia. Só isso já vale o filme, né? Esse filme é daqueles de magia, que de súbito você tem outra idade e tem que lidar com essa realidade alternativa, sabe? Muito bom! Nos anos 80, onde tinha aquela ingenuidade e algumas brincadeiras sérias demais para crianças, mas que nessa década, de alguma forma, poderiam acontecer. Saímos desse filme super leves, querendo ser crianças novamente (sempre quero) e viver essa vida mansa sem grandes preocupações. Vai fundo!

Gilbert Grape: aprendiz de sonhador (1993, Lasse Hallström) – 113 min
Parece que agora vai, né? Finalmente Leonardo di Caprio vai ganhar o tal do prometido Oscar. Ganhando todos os prêmios que aparecem pela frente com seu O Regresso (do mestre Iñárritu), o ator é dono de uma carreira sólida desde muito cedo. Neste filme de Lasse Hallström, Leo interpreta Arnie Grape, irmão mais novo de Gilbert (Johnny Depp) em um drama familiar adaptado do livro homônimo de Peter Hedges. Aqui, Gilbert é nosso protagonista, ele quer sair dessa vida, mas precisa cuidar de Arnie, seu irmão que vive com alguma deficiência cognitiva e sua mãe obesa, que nunca sai de casa. Com a família nas costas, vê seus sonhos de mudança cada vez mais distantes. Se você perdeu esse filme na ‘sessão da tarde’ ou naquele ‘domingo maior’, aproveita e assiste. É engraçado, terno, duro, triste e muito muito bom. Foi aqui que Leo recebeu sua primeira (de seis) nomeação ao Oscar – pra quem leva isso muito a sério.

Fargo (1996, Joel Coen e Ethan Coen) – 96min
Um crime mórbido e planejado. Personagens cruéis e algo dá errado. Uma investigadora grávida. Esse filme fantástico é como Cães de Aluguel pra mim, um dos melhores do gênero. Os irmãos Coen são responsáveis por algumas das melhores produções inteligentes do cinema americano das últimas décadas e esse, com certeza, está nesse rol. Com 69 prêmios e 2 Oscars, carrega ninguém menos que William H. Macy, Steve Buscemi, Frances McDormand em performances únicas. É engraçado, sórdido e inteligente. E meio cruel. Mas veja.

A vida de outra mulher (2012, Sylvie Testud) – 97min
Na linha de Quero ser grande, ninguém menos que Juliette Binoche é a protagonista desse romance diferente. Um dia, Marie Speranski acorda e se encontra com um perfil que não parece ser o seu, já que nesse despertar se passou uma noite desde os seus vinte e poucos e ela ainda era uma estudante sem grana. Agora, uma mega empresária com vista para a Torre Eiffel, ocupada e em um casamento em ruínas. Juliette contracena com Mathieu Kassovitz, um dos atores mais relevantes do cinema francês atual. Vale muito ver essa atriz se adaptando num duplo papel, em choque com sua 'nova' realidade.

Taxi Driver (1976, Martin Scorsese) – 113 min
Tem uns filmes que nem dão vontade de escrever nada. Dá vontade de dizer apenas: vá ver e depois a gente conversa. É o que acontece com esse aqui. Taxi Driver é sensacional. Acho que eu o vi mais nova e revi há uns poucos anos e ficou na minha cabeça de uma forma...que comprei o dvd e assisto algumas vezes por ano. É a melhor fase de Scorsese, um desses diretores que sempre acompanhamos. Para quem não liga o nome aos bois, Scorsese é diretor de Touro Indomável (1980), Alice não mora mais aqui (1974), Depois de Horas (1985) sem falar nos novos que são também bons, mas esses aí moram no meu coração há mais tempo. Robert De Niro é Travis, um motorista de táxi entediado, veterano do Vietnã, vivendo em NY, achando tudo aquilo de uma sujeira moral e física avassaladoras. Em um desses dias, se depara com Betsy (Cybill Shepherd) que lhe causa uma comoção pela beleza da moça. Mas as coisas não andam bem e Travis começa a se descontrolar. Durante o filme ainda vemos Jodie Foster fazendo uma prostituta adolescente e Harvey Keitel como seu cafetão.

Um método perigoso (2011, David Cronenberg) – 99 min
Cronenberg é conhecido por fazer filmes estranhos. Não simplesmente “cults” ou “alternativos”, mas que transmitem uma sensação de bizarro, de estranheza mesmo. Neste filme ele segue muito mais sóbrio do que no início de carreira, trazendo uma história baseada em fatos reais que conta o início do relacionamento entre Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michael Fassbender) e o desenvolvimento da psicanálise. No meio disso tudo, surge Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma paciente de Jung com distúrbios psicológicos e que depois se torna, ela mesma, uma das primeiras psicanalistas. Bem construído, com Keira se contorcendo enquanto paciente em agonia – sendo ela talvez a estranheza – nos sentimos no filme como observadores de um momento único na história moderna, evidenciando o velho clichê de que de perto ninguém é normal, mas participando das discussões nos diálogos rápidos e bem construídos sobre as teorias de cada um e como elas se contrapõem às suas vidas. Parece sério demais, mas pense que quem fez este, fez também A Mosca (1986), Mistérios e Paixões (1991), Cosmópolis (2012) e Mapa para as Estrelas (2014). De narrativa o rapaz entende.

Mad Men (2007-2015, Matthew Weiner) – 50min/episódio
Se você quiser ser agressiva(o), tem essa grande opção de série, 7 temporadas, que encerrou oficialmente ano passado me deixando órfã e triste. Mad Men trata da vida de uma agência de publicidade de Nova York que sai dos anos 50 e entra na era de transformação das comunicações, a década de 60. Tem histórias reais da propaganda, interação com marcas de verdade e as vidas no trabalho e pessoais daquela equipe, com um elenco de peso: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Joan Harris, John Slattery e tantos outros. Vencedora de não sei quantos Emmys ao longo de suas temporadas, a série é maravilhosa. O roteiro te deixa sem querer respirar e há uma complexidade de personagens pouco vista hoje, junto com o tratamento histórico real da época. Tem tudo: drama, comédia, romance e muita emoção. Direção de arte, fotografia, figurino, trilha sonora, o final de Mad Men foi, como diz seu último slogan the end of an era. É uma das melhores séries já feitas. Finalmente uma crítica! :)


Promises (2001,  B.Z.Goldberg, Justine Shapiro e Carlos Bolado) – 106 min
Para encerrar essa maratona, um documentário que traz alguma esperança. Promessas de um novo mundo (título em português) eu vi tem bastante tempo. De 2001, o filme acompanha a vida de sete crianças judias e palestinas em Jerusalém e como elas se percebem, percebem o outro e convivem. Nestes três anos, vemos as mudanças por que passam essas crianças, a inocência que vai se perdendo e como em cada família os ideais e visões políticas podem ser tão distintas. O filme é incrível porque parte do olhar da infância até uma parte da adolescência e percebemos as ingenuidades se fragmentando, ainda que permaneçam nestas idades. É um olhar que busca o complexo, sair da dicotomia de que quem se considera certo e errado em questões bastante delicadas e elas também, complexas. Fundamental.
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Não sei a de vocês, mas a minha semana foi muito corrida. Nem consegui escrever as críticas, mas chegou a bendita sexta-feira e tudo vai acabar bem! Amanhã tem bloco de Carnaval em Paquetá e tenho que acordar bem cedo, mas de tardinha já vale para assistir alguma coisa, né? Por isso, as pérolas dessa semana serão de impacto, desses filmes que não saem da cabeça, criam conversas de bar e, com sorte, alguma polêmica. Não tem essa de 'estava cansada, acabei dormindo'. Nestes aqui, não tem como! 

Noivo neurótico, noiva nervosa (1977, Woody Allen) – 133 minutos. 
Sétimo filme de um diretor de nada menos que 46 longa metragens, é sem sombra de dúvidas, um dos melhores de sua carreira. Woody Allen, com toda a polêmica bizarra sobre sua vida – fico pensando sobre ética e sobre gostar tanto de sua filmografia e não pensar ou tentar não associar isso a sua vida pessoal (um pouco como Polanski, sendo esse caso pior, ou até Michael Jackson, sendo talvez melhor) – e sobre o que muita gente pensa de sua atuação: “é sempre a mesma coisa” ou “ele nem é tão engraçado assim”, esse filme ultrapassa barreiras. É um romance entre Annie Hall (Diane Keaton jovem e complexa, em uma personagem sob medida) e Alvy Singer (Woody), duas pessoas que se conhecem por acaso e vivem uma história de amor como qualquer outra, não fossem os personagens extremamente bem construídos e os diálogos tão deliciosos e pautados na vida real. 

Feito em 1977, antecede Manhattan (outra obra prima, por mais estranho que seja chamar muitas obras de ‘primas’) e faz parte da longa fase New York do diretor. Pra quem adora comédia romântica, é um dos fundamentais, como Harry e Sally.


Making a murderer (2015, Moira Demos e Laura Ricciardi) – 60 min/episódio
Série documental sobre um homem aparentemente acusado erroneamente de ter cometido crimes bárbaros nos Estados Unidos. Condenado duas vezes à prisão perpétua, sendo inocentado pelo primeiro crime 18 anos depois de detido, passamos a conhecer a história de Steven Avery nesta primeira temporada de 10 episódios que nos deixa com vontade de ver mais. Dá muita raiva perceber as injustiças cometidas e o por vir, mas vale a pena. É interessante ver o peso da mídia em influenciar a opinião pública e como as forças locais (polícia e justiça) trabalham em conjunto e decidem por si sobre a vida de alguém pelo que parece ser pura implicância. Não suficiente, a construção da série – produção Netflix, o que significa uma preocupação forte no que diz respeito à narrativa – funciona como um crescente de expectativas e frustrações, mas sempre alimentando nossa curiosidade. Como sou compulsiva com séries, vi em uma semana.


Kramer vs Kramer (1979, Robert Benton) – 105 min
Sim, outro filme dos anos 70. E sim, outro filme sensacional. Kramer vs Kramer foi um dos filmes listados para assistir antes de ir ao curso de roteiro que fiz em NY. Sim, até eu fico pensando que foi em outra vida de tão distante, mas aconteceu, em 2012 e foi muito legal. Voltando ao filme, encontramos Dustin Hoffman e Meryl Streep, como um casal em crise. Joanna Kramer decide sair de casa e deixa Ted Kramer com a tarefa de conciliar o trabalho, a vida doméstica e a educação do filho ainda criança. O filme joga com essa relação homem x mulher, poderes e deveres, relações machistas e readaptação. É muito mais complexo do que um drama de divórcio e muito mais interessante também. Já vi mais de...sei lá, 6 vezes desde que fui ‘obrigada’. É um dos melhores filmes feitos e é muito despretensioso, o que o torna mais especial. E convenhamos: Meryl Streep e Dustin Hoffman juntos não poderiam fazer um filme ruim. Levou os principais prêmios do Oscar de 1980.


A caça (2012, Thomas Vinterberg) – 115 min
Esse é tenso. Um solitário professor de jardim de infância que está tentando conseguir a guarda de seu filho adolescente é acusado de molestar uma garotinha que acontece de ser filha de seu melhor amigo. O clima é pesado e complicado, a trama se desenvolve como uma aula de roteiro e temos Mads Mikkelsen, o novo Hannibal – da série – como aquele que é caçado. O filme levou nada menos que 35 prêmios, além de outras 62 indicações. Dinamarquês, Thomas Vinterberg tem uma forma especial de filmar, baseada um pouco no dogma, mas explorada adiante em grandes filmes, com mais experiência e dinheiro, claro. Vale do início ao fim, só não vale piscar enquanto estiver assistindo.


 Up – Altas Aventuras (2009, Peter Docter e Bob Peterson) – 96 min
E pra aliviar a barra depois dessa agonia toda que A Caça provoca, vai ter desenho! Up é uma comédia para toda a família, mas é divertida de verdade e não é babaca. Ela faz parte da geração das novas animações que conseguem, com um roteiro criativo e inteligente, servir a um grupo diverso de espectadores. O filme conta a história de um senhor que decide ir a Paradise Falls, realizar um antigo sonho e leva meio sem querer um escoteiro muito animado junto. Terno e inteligente, é imperdível mesmo. E, claro, feliz e inocente, como os filmes infantis precisam ser, para dar alguma esperança a essa humanidade.

E aí, gostou? Deixa uns comentários aqui, para eu ver se estamos no caminho certo?! :)
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E chegamos aos indicados da segunda semana! Aqui no Rio estamos vivendo um verão digno de... Gramado?, com uma frente fria que não nos deixa. Claro que com isso não temos praia, aquela vida ao ar livre, correr no calçadão, reclamar do calor dos 40 e não sei quantos graus. Reclama-se da chuva, de roupa molhada e dos incômodos de sempre, mas com certeza estamos dormindo melhor e não ligar o ar condicionado todos os dias é um ganho imenso – a companhia de luz deve estar chateada. O friozinho é sensacional para aquele momento de recolhimento, café quente e preto na caneca, edredon, televisão ligada e não sei quantos filmes e séries que nos deixam felizes confortáveis.

Segue a nova listinha que embala essa preguiça maravilhosa:

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What happened, Miss Simone? (2015, Liz Garbus) – 101 minutos.
Você pode até achar que não conhece Nina Simone e ter vergonha de falar isso por aí, já que a mulher ficou muito famosa (de novo) depois desse doc lançado ano passado. Ela reapareceu rapidinho na mídia nos últimos dias porque foi divulgado que David Bowie lhe ajudou em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Quando você assistir esse documentário, vai descobrir não só que a conhece, como a vida conturbada e difícil que esta mulher de voz maravilhosa, inteligência e força levou. Tinha seus problemas e mais dificuldades do que boa parte de nós por sofrer de uma doença mental, mas nada disso a impediu de se tornar uma diva no melhor sentido não-celebridade-fútil pode ter. O filme nos transporta para sua vida e acompanhamos seus dramas, sucessos, felicidades, tragédias e renascimentos. Concorre este ano ao Oscar de melhor documentário. A crítica está aqui!

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Cães de Aluguel (1992, Quentin Tarantino) – 99 minutos
Tarantino está em cartaz nos cinemas com seu novo Os oito odiados. Surgiu outra lenda na mídia que indica que todos os seus filmes teriam uma conexão – mas para confirmarmos, temos que revê-los, não é mesmo? Cães de Aluguel para mim é um dos melhores. Eu, inclusive, prefiro estes do início de carreira, que são menos ‘de ação’, têm roteiro com ótimos diálogos e elenco. Aqui, seis ladrões interpretados apenas por: Tarantino, Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi, Edward Bunker e Michael Madsen acabaram de assaltar uma joalheria e alguma coisa dá muito errado. Depois de todo o planejamento, o que se desconfia agora é de que um deles é um policial infiltrado. Tenso, engraçado, inteligente e ácido – além de violento, como não poderia deixar de ser – é a lição número um para conhecer a fundo a filmografia do diretor.  

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Tomboy (2011, Céline Sciamma) – 82 minutos.
Em 2014, assisti Girlhood (Garotas) no Festival do Rio. Fui ver sem saber nada do trailer, apenas porque li o nome da diretora e lembrei que era a mesma de Tomboy. Girlhood não está na Netflix, mas espero que chegue algum dia, é sensacional e confirma minha intuição de que é um presente acompanhar a carreira dessa mulher. Tomboy conta a história de Laure (Zoé Haren), de 10 anos, cuja família acaba de se mudar para uma nova casa. Aqui ela terá que se adaptar ao novo bairro, aos novos amigos. Tudo é muito recente, inclusive suas descobertas e transformações. O filme é uma delícia de assistir, é feliz e dramático ao mesmo tempo, é incrível a naturalidade da protagonista em um papel tão complexo e como a direção aborda o tema, com um olhar que nos permite desvendar e acompanhar sua trajetória. Para deixar tudo mais tranquilo nas locações e na dinâmica com atores mirins, Céline chamou os amigos reais de Zoé para participarem – o que funciona muito muito bem. Vale a pena demais. Tem crítica também!!

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A delicadeza do amor (2011, David e Stéphane Foenkinos) – 111 minutos.
Como não poderia faltar, tem romance também. A delicadeza do amor é uma comédia romântica francesa que traz Audrey Tautou (Amélie Poulain) e François Damiens (O Novíssimo Testamento) numa parceria digna do melhor café que possa existir. Natalie está se adaptando ao luto, perdeu seu marido, melhor amigo, amor da vida. No trabalho, tenta se livrar das investidas de seu chefe sem noção e, de uma forma inusitada, se encontra com Markus, um sueco sensível que trabalha alguns andares abaixo, no mesmo prédio. Não quero falar mais nada, mas para quem busca um filme engraçado, sensível, fofo e romântico sem dar enjoo, é esse.

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 Chef (2014, Jon Favreau) – 114 minutos.
Quem ainda não viu esse filme está perdendo uma das melhores comédias de 2014. Dirigido e protagonizado por Jon Favreau, esse filme independente de elenco estelar (Scarlett Johansson, Sofia Vergara, Robert Downey Jr, John Leguizamo e Dustin Hoffman) é tão divertido e despretensioso quanto literalmente gostoso. Após pedir demissão do restaurante em que trabalhava como chef, Carl (Favreau) resolve montar um food truck (bom e velho podrão que virou gourmet) de comidas maravilhosas. Essa proposta o faz repensar sua forma de viver e se relacionar com seus amigos e familiares. É um filme que dá pra ver com família, amigos, enfim, com qualquer entidade que esteja do seu lado. Arranja uma comida gostosa e senta, porque vale o ingresso!
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Os cristãos radicais que se preparem, vem muita piada pela frente. Que abram seus corações e permitam imaginar uma brincadeira criativa como esta, rodada na Bélgica. Já adianto: vale a pena até o último segundo.

O Novíssimo Testamento
Deus é mau humorado, perverso e cria leis arbitrárias para perturbar a paz de apenas toda a humanidade. Vivendo com sua filha Ea, de 10 anos, sua mulher, uma deusa que tolera as loucuras do marido e aguardando o retorno de JC – sim, Jesus Cristo – ele trabalha incessantemente em um computador, testando nossa paciência com catástrofes naturais, elaborando tragédias pessoais e leis esdrúxulas tão conhecidas entre nós, como a da torrada, que sempre cai com o recheio para baixo. A ideia aqui é que de fato, odiemos o rapaz.

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Assim que Ea é espancada por ter entrado no escritório do pai, foge de casa para viver em liberdade. Aconselhada pelo irmão e a um toque no computador, informa a todos os viventes quanto tempo terão de vida e assim, como o próprio Deus assume, agora não precisariam mais dele e levariam suas vidas como bem entendessem. Essa comédia é fantástica em todos os aspectos; sob o olhar literário, a ideia de deus, os milagres, a família, nos remetem a Borges e Cortázar, que criam universos fictícios e nos prendem em seus sistemas de coerências, tornando os absurdos verossímeis. Filmes como Delicatessen (1991, Marc Caro, Jean-Pierre Jeunet), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001, Jean-Pierre Jeunet) e Quero ser John Malkovich (1999, Spike Jonze) também fazem parte deste grupo. A fundação deste mundo fantástico se dá aqui no conjunto da obra: os cenários na casa de Deus, a forma como chegar à Bruxelas, a ambientação de época. A crítica à religião e sua história seguem o mesmo rumo, nos levando para o território seguro da comédia inteligente – jamais sairemos inertes desta sessão.

Deus é Benoît Poelvoorde o já consagrado ator de Românticos Anônimos (2010, Jean-Pierre Améris) e Coco antes de Chanel (2009, Anne Fontaine). Irritante e desengonçado, tem arroubos de grosseria que nos fazem querer amassar seu crânio, mas a falta de jeito com a própria vida e os azares que a cidade lhe propicia já o fazem pagar pelo que nos deve e rimos de sua desgraça. Yolande Moreau é a mulher de Deus e também uma deusa. Submissa ao marido, aceita todo tipo de violência moral para si e para sua filha. Com um ar inocente e, ao mesmo tempo, indiferente e ingênuo, ela nos remete àquele tipo que aceita tudo por entender que a vida é assim mesmo. Isso irrita, mas há um fundamento. E Yolande o faz magistralmente. Além deles, ainda vemos a esperta Ea (Pili Groyne) e ninguém menos que Catherine Deneuve e François Damiens (A delicadeza do amor e A família Bélier) como os novos apóstolos.

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Comédia leve, inteligente e fácil de assistir, é um adendo ao que há de melhor no cinema belga hoje. A  perseguição de Deus corre em paralelo com as transformações da população e as histórias dos apóstolos valem como episódios de um seriado. Há alguns exageros, mas nada que incomode tanto - são mais fruto de simbolismo do que escracho. Quinta ficção de Jaco Van Dormael, a fantasia já se faz característica em seus filmes. Candidato ao Globo de Ouro esse ano como filme estrangeiro, levou outros 6 prêmios e 4 indicações em outros festivais. Imperdível.
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Ariane Ascaride (A delicadeza do amor, 2011) é a protagonista da nova comédia de Robert Guédiguian (Marie Jo e seus dois amores, 2002 e As neves do Kilimanjaro, 2011) que está nos cinemas. A atriz é também mulher e musa do diretor que lhe entrega este filme como uma homenagem. A história está centrada no dia de seu aniversário, em que espera e se prepara para receber o marido e os filhos e, por um acaso infeliz, nenhum deles pode comparecer. Ela então resolve sair de casa e fazer do dia, uma aventura.

Na mitologia há uma Ariadne, cujo fio ajuda Teseu, seu amado, a encontrar a saída do labirinto em que estava o Minotauro, metade animal, metade homem que precisava matar. O fio de nossa Ariane é uma guia invisível que a transforma em um amuleto da sorte para quem a encontra. Para além da sorte alheia, é o mesmo fio e narrativa condutora do filme, que lhe permite uma jornada de autoconhecimento e percepção de seu lugar no mundo. A ficção corre nesta direção, orientando a protagonista, lhe transformando numa mestre e aprendiz frente seus novos desafios.

Filme de verão francês, os diálogos são sua graça, mas enquanto estrutura deixa a desejar. Os caminhos que Ariane percorre nesta viagem mudam sua vida de tal maneira e velocidade, que se transformam em uma espécie de sonho, confirmado com a tartaruga, que ganha o status de personagem quando passa a conversar com a protagonista. Nada disso seria um problema se não faltasse um aprofundamento maior nos personagens, cujas histórias particulares e ótimas atuações, em particular dos atores Jean-Pierre Darroussin (taxista) e Gérard Meylan (Denis, dono do restaurante), acenam para um algo mais que não se desenvolve. Ficamos na superfície de histórias grávidas, como contos que acabam rápido demais. 

Mãe de uma família carinhosa, Ariane se é um emblema – o que torna a homenagem ainda mais bonita – de boa pessoa, em um símbolo com missões a resolver, para facilitar a vida de todos e, quem sabe assim, se reencontrar, após sair do labirinto que criou para si. De presente para nós, ainda a vemos cantar e a encontraremos em sua própria Fontana de Trevi, relembrando o clássico felliniano A Doce Vida (1960). De qualquer maneira, o filme acende questões caras ao povo francês, como tolerância, imigração, generosidade e o cuidado com o outro, de forma leve e brincalhona, como um filme razoável para uma tarde de domingo. 
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Um dos meus programas preferidos era ir uma tarde na videolocadora do bairro, circular pelas estantes, escolher não sei quantos filmes e me internar em casa. Sempre morei perto de Itapuã, em Salvador, e as locadoras do bairro acabaram se tornando pequenas demais, então eu zerava as prateleiras e precisava partir para uma loja maior. Me encontrei na extinta GPW, a maior videolocadora de Salvador, a mais maravilhosa, com a maior variedade. Quando entrei na faculdade de cinema, fiz estágio lá, acabei sendo cliente e funcionária. A vida não poderia ser melhor.

Existia um cargo de indicador de filmes, que era o que todo mundo ali queria ser. Seu trabalho, como diz o título, era sugerir filmes para o público que ficava perdido entre as estantes. Então eu ‘peruava’, assistia algumas indicações, depois conversava com os indicadores. Outras vezes, buscava minhas próprias cobaias, vítimas esquecidas nos corredores, para me meter em suas vidas e sugerir filmes.

Aqui a ideia é a mesma, nossa maior locadora atual, a Netflix, deixa muitos amigos meus perdidos e aí resolvi me meter a indicadora e sugerir 5 por semana, dos imperdíveis da vida. E os primeiros são:

Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) – 101 minutos.
Bill Murray e Andie McDowell protagonizam essa comédia de erros, com cara de boba, com um roteiro engenhoso e original para a época. Harold Ramis, dirigiu também Ghostbusters, Férias Frustradas e Máfia no Divã. Essa é a base de sua comédia, leve, inteligente, satírica na dose certa, não apelativa. Levou 5 prêmios e outras 8 indicações entre melhor ator, atriz e roteiro.

A outra história americana (1998, Tony Kaye) – 119 minutos
Edward Norton é um ex-neonazista recém-saído da prisão por assassinar duas pessoas, se diz reformado e pronto para ajudar o irmão (Edward Furlong) e impedir que este repita seus erros do passado. Político, polêmico e violento, esse filme não nos deixa piscar um segundo. Edward Norton perdeu o Oscar para o inusitado Roberto Benini, de A Vida é Bela.

Harry e Sally – feitos um para o outro (1989, Rob Reiner) – 96 minutos.
Se fosse produzido nesta década, é um fato que a história viraria um seriado. Comédia romântica mais clássica e maravilhosa de todas, vale se você está apaixonado, se começou a namorar agora, se está casado há décadas, infeliz, se tomou pé na bunda, se não está com ninguém. Tem tudo aí dentro, sem falar nos diálogos excepcionais que Nora Ephron criou e a trilha sonora imbatível. Lançou de vez Meg Ryan e deixou Billy Crystal até charmoso. Levou 4 prêmios e 16 indicações, incluindo melhor ator, atriz, roteiro e filme.

Psicose (1960, Alfred Hitchcock) – 108 minutos.
Acho que não preciso falar desse. Suspense clássico, reconhecido por todos, um dos melhores filmes já feitos, de ninguém menos que Hitchcock, que inaugura nosso terror dos chuveiros com cortina branca. Anthony Perkins é Norman Bates, dono de um motel de beira de estrada que vive com sua mãe adoentada numa casa de colina. Em uma noite chuvosa, recebe Marion Crane (Janet Leigh), uma mulher em fuga que precisa descansar por uma noite. É nesse clima de abandono e tensão que tudo acontece. Esse filme é da categoria impossível deixar de ver. Tem tudo aí: romance, intriga, independência feminina, trapaça, crime, suspense, terror. Hitchcock ficava na porta dos cinemas e não permitia aos atrasados entrar na sala. Daí você imagina a relevância e o cuidado que o mestre tinha com o espectador e sua obra. Esse tem crítica!

Maidentrip (2013, Jillian Schlesinger) – 82 minutos.
O primeiro documentário da lista, conta a travessia que Laura Dekker, com apenas 14 anos, fez pelos oceanos do planeta. Seu sonho de vida era viajar o mundo em um barco e, com experiência cultivada na família, conseguiu autorização da justiça holandesa para enfrentar o desafio. Com câmeras no barco e se filmando todo o tempo, temos a impressão de participar de sua jornada, nas dificuldades e alegrias. Além de paisagens deslumbrantes, vemos a garota amadurecer e perceber que essa aventura é muito menos romântica do que lhe parecia. Ela carrega hoje o título de pessoa mais jovem a fazer a circum-navegação pelo planeta. Esse tem crítica!
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Um diretor de cinema virgem aos 33 anos, reprimido sexualmente encontra nesta situação sua válvula de escape para produções que transformam o olhar sobre o cinema no mundo. Ao viajar para o México a convite de um escritor americano que financia um grandioso projeto de cinema, se depara com o calor dos trópicos, a vida latina, sua sexualidade aflorada à base de pimenta e um modo de vida que desconhecia. Poderia ser uma ficção qualquer, um romance clichê se não fosse por alguns detalhes: a assinatura de Peter Greenaway e Sergei Eisenstein como seu protagonista.

Greenaway teve a ideia de retratar Eisenstein nos dez dias que passou na cidade de Guanajuato, durante as filmagens de seu novo filme. O projeto iniciado em 1932 nunca foi adiante, Eisenstein não teve acesso aos negativos para edição, foi obrigado a retornar à União Soviética e apenas em 1979, Grigori Aleksandrov monta o filme a partir dos storyboards, textos e anotações do diretor russo já falecido. Até aí, nenhuma questão, senão uma releitura sobre um grande personagem que pouco conhecemos em sua intimidade. 
Autor de O ladrão, o cozinheiro, sua mulher e o amante (1989), Livro de Cabeceira (1996), e outros que marcaram a cinematografia por sua inventividade e roteiros originais, Greenaway traz um jovem Eisenstein com o perfil de um gênio infantil, que ainda não se descobriu sexualmente. O autor de Encouraçado Potemkim (1925), Greve (1925) e Outubro (1928) é redesenhado perambulando pela cidade com seu guia e posterior amante Palomino Cañedo (Luís Alberti), descobrindo um modo de vida mais livre, perigoso e, em seu caso particular, com luxos que jamais teria em seu país.

Há aí dois pontos de inflexão: o primeiro é de que o filme é muito divertido. E muito bom, se não partirmos da ótica cinéfila que se ofende quando brincamos com os ídolos. Eisenstein é esse jovem histriônico, vibrante e de fala rápida, como se a velocidade do pensamento não acompanhasse a voz. A interpretação de Elmer Bäck é magnífica e abraça integralmente a proposta do filme; ele está à vontade no personagem bonachão, ultrapassa a semelhança física com aquele da vida real e ficamos esperando mais, como se essas quase duas horas não fossem suficientes para participarmos de suas aventuras e transformações. 
O segundo ponto é o de que Greenaway não quis fazer um documentário, um filme baseado em fatos reais ou uma cinebiografia como vem sendo alardeado por aí. Pode-se dizer que é um filme homenagem sobre um grande diretor que, muito provavelmente, boa parte do público sabe quem é de ouvir falar. Seus filmes de maior relevância remontam os anos 20, tratam da Revolução Russa e sim, são muito bons, mas nunca farão parte da cultura popular. Não são filmes fáceis, apesar de dinâmicos. Os três: Potemkim, Outubro e Greve, todos anteriores à viagem do México, trazem as bases teóricas de um autor de cinema completo, que trabalhava a prática e o pensamento acerca de sua arte. Figura obrigatória das escolas e fundador de uma das mais antigas escolas de cinema, o Eisenstein teórico lançou as bases da montagem de filmes de uma forma que ainda hoje poucos fazem bem.  Se por um lado, Greenaway criou um herói que jamais saberemos o quão fiel à realidade seria e aí há um risco apenas purista – e talvez até supérfluo – por outro, o resgatou para a contemporaneidade e estimulou a curiosidade do público sobre sua obra e vida. Eisenstein virou pop.
                                        
De resto, está tudo aí: o diretor, como sempre, brinca com a linguagem, apresentando nosso protagonista diversas vezes entre fotos reais e imagens do ficcional, ao mesmo tempo o relacionando a uma semelhança física e remarcando o território da ficção. Outros terão a mesma apresentação: o fotógrafo e seu produtor – que apenas são pontuados na obra, assim como Diego Rivera e Frida Kahlo. A divisão da tela em três partes, repetição de planos e sobreposição são tanto uma tentativa de homenagear o russo, quanto a liberdade de um diretor já estabelecido. Os movimentos de câmera especificamente no quarto de hotel onde Eisenstein se hospeda marcam um trabalho complexo de toda a equipe, em planos que parecem tomar os 360 graus do ambiente em uma discussão com os financiadores e não chegamos a ficar tontos, mas é surpreendente ver o preparo dos atores, a coreografia da cena, a criação de um clima cada vez mais tenso e dramático – ainda que sempre sarcástico. A fotografia é um deleite à parte e, de novo, outra marca desta cinematografia junto com o trabalho do departamento de arte. Os contrastes, o terno branco de Eisenstein – o único que tinha – se opõe às roupas escuras e elegantes de seu guia. A aura dourada da suíte, com banheira e chuveiro com canos dourados, o piso claro e translúcido, uma cama imensa traduzem um luxo impossível para o soviético.
O filme foca no relacionamento de Cañedo e Eisenstein e suas diferenças culturais, além de reafirmar a impossibilidade de conclusão do projeto mexicano. As causas para o fracasso foram tanto de cronograma quanto orçamento e é estranho pensar desta maneira quando não era o primeiro filme de um diretor conhecido por sua competência. A inferência é de que Eisenstein teria se desconcentrado naquele país ao se descobrir enquanto homem, se permitindo viver uma história de amor impossível na União Soviética – ou na Rússia contemporânea – sendo crime, o relacionamento homossexual. Mas, novamente, são interpretações baseadas na história da produção e na criatividade deste diretor. Por fim, o filme é tão rápido e cheio de nuances, que dá vontade de rever, para retomar alguns diálogos e planos. Mas calma, não deve ser levado tão a sério pelos fãs do soviético. Greenaway investiu tanto nesta experiência que seu próximo filme está em produção e traz novamente nosso herói, agora encontrando as personalidades do mundo que cruzaram seu caminho. Estamos aguardando.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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