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Café: extra-forte

“A filmagem me permite voltar a sentir a dignidade da existência de cada um, inclusive a minha. O cinema é uma maneira de preservar a memória das coisas. O documentário nos ajuda a conservar os traços daquilo que se passou. É um meio de resistir ao esquecimento."
Jia Zhangke

Quando um cineasta resolve fazer um filme sobre outro, é sempre um misto de cinefilia – esta adoração pelos filmes e o mundo que os cerca – e a relevância daquele, não apenas para o cinema enquanto arte, como também enquanto veículo de informação e reflexão, como o clichê da janela que se abre para o mundo ou, neste caso, para um mundo bastante específico.

O Mundo (2004) é título de um dos filmes de Jia Zhangke, diretor chinês de 45 anos, com mais de 20 filmes no currículo (entre ficção e documentário) e protagonista do último filme de Walter Salles, Jia Zhangke – um homem de Fenyang. Na obra de 2004, a história se passa em um parque temático de Pequim, que retrata cenograficamente os pontos turísticos e maravilhas dos cinco continentes. É também neste cenário que acontece uma das diversas entrevistas de Walter Salles com o diretor e então, em uma conversa de grandes observações, percebemos a relação e os contrastes da cultura chinesa com a ocidental. Se o slogan do parque diz que se pode viajar o mundo sem sair de Pequim (ou de casa), o mesmo vale para a internet. Jia ainda faz uma analogia entre aquela cidade de fantasia e as semelhanças de onde vivemos, imersos em redes sociais virtuais – outro simulacro que só acentua, com a velocidade e a chegada do capitalismo no país, o individualismo e a solidão.
À primeira vista, parece que estamos numa sessão de cinema para deleite da crítica e seu público ‘alternativo’. Da mesma forma, me perguntei onde haveria interesse do grande público neste documentário de quase duas horas sobre um diretor alheio ao circuito comercial. Não demora a se encontrar a resposta. Ao percorrer a trajetória do diretor em trechos de seus filmes, discussões sobre eles, conversas com os protagonistas e equipe técnica, ultrapassamos o espaço da produção para adentrar o pensamento artístico, a subjetividade e identidade chinesas para além da Revolução Cultural e sua organização coercitiva. Alguns filmes do diretor seguem censurados no país.

A grande questão deste documentário – e Walter Salles assume no livro que nasceu em conjunto, O mundo de Jia Zhangke (Cosac Naify, Jean-Michel Frondon, com textos de Walter Salles, Cecília Melo e do próprio Jia Zhangke) é sobre a representação cinematográfica da vida na China vista pelo cineasta e como ela se contrapõe ao que é propagado oficialmente. Claro, isso acontece em qualquer nação e naquelas totalitárias é ainda mais forte, mas o diretor consegue traduzir o cotidiano de forma honesta, a vida como é vivida e com senso crítico, posto que seja natural e humano discordar ou apenas questionar. Ainda assim, o caso é que, junto ao contraponto que faz ao regime apenas exibindo o que seria ‘comum’ em seus filmes, percebemos também o reflexo do progresso e sua velocidade atropelando a todos, como acontece deste lado do planeta e na China contemporânea.
Assistindo Plataforma (2000), vemos um filme sobre jovens entre a fase adulta e a adolescência nos anos 70, quando o mundo se abria culturalmente e se insistia em mudar o que era absurdo. Na China, o que se via era um tanto diferente, com traços fortes da Revolução Cultural no pensamento dos pais, enquanto os jovens tentavam se encontrar e entender o porquê de tanto cerceamento. Esta censura que é transmitida para a nova geração é exatamente o que aconteceu com o diretor – o filme inclusive é rodado em seu vilarejo – e a necessidade de enxergar a vida de outra forma é iminente e necessária. A mise-en-scène é tão realista que os diálogos parecem mais de improviso, bem como o entorno, que se vale de objetos de cena e cenário reais. Essa forma de tratar do tema, com não-atores e atores jovens com pouca experiência nos deixa em cima da tênue linha que divide o documentário da ficção e isso também permeia toda a obra do diretor.

O filme de Walter Salles responde algumas destas questões sem que o diretor brasileiro apareça. Aqui a ideia é de uma série de entrevistas em locações, cidades onde vive e viveu o protagonista e seus familiares. Um ponto curioso dentre tantos outros é sobre a forma de fazer seus filmes. Jia nos diz que quando filma sem grandes problemas, aí é que se preocupa. Ele acredita mais em sua produção quando nascem dela os conflitos e dúvidas, pois daí vem a certeza de um trabalho bem estruturado e pensado. Em outro livro que trata do documentário por quem os faz (A verdade de cada um, Org. Amir Labaki, Ed. Cosac Naify), um dos autores, o diretor russo Viktor Kossakovski afirma algo parecido: “não filme se já souber de antemão o que quer dizer.” A ideia de Salles não é de um documentário de observação, mas sobre as respostas que Jia Zhangke e quem está em seu entorno transmitem a nós, produzindo um encantamento, curiosidade sobre sua obra e o entendimento definitivo de porque para nosso diretor – e para quem quer que assista aos filmes do chinês – este é um dos mestres do cinema contemporâneo.
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Dei a sorte de estar em São Paulo semana passada e passei no MIS – Museu da Imagem e do Som*, para ver a exposição de Truffaut. Coisas de quem é fissurado e nerd, mas a exposição vale a pena para quem curte o diretor, a Nouvelle Vague ou simplesmente, cinema.

François Truffaut** foi o parceiro de Jean-Luc Godard e mais alguns outros na abertura da Nouvelle Vague. O movimento cinematográfico francês dos anos 60 aconteceu não por acaso, na mesma década de nosso Cinema Novo e um pouquinho depois do Neo-realismo italiano. É a década das transformações de comportamento e cultura no mundo e o cinema é a arte que expressa isso de forma mais direta a seu público. Vale a pena a exposição para saber mais também sobre a Nouvelle e seus fundadores.

O diretor e crítico de cinema era fissurado por Hitchcock de tal forma que fez alguns suspenses – acabo de lembrar Woody Allen fazendo dramas a lá Bergman – e uma série de entrevistas com o mestre, culminando em um livro fantástico e indispensável, Hitchcock / Truffaut. Fizeram ainda um documentário sobre os dois, que sairá este ano. Ele trabalhou assiduamente na revista mais importante da crítica cinematográfica da França e, por muito tempo, do pensamento sobre cinema no mundo, a Cahiers du Cinéma, fundada por André Bazin, mestre teórico desta geração. Para além dessa conversa toda, o que importa é que acabo de rever Os Incompreendidos.

O filme de 1959 é inaugural para a nova estética do cinema francês de então. À primeira vista você não entende bem sua relevância, mas sente algo diferente quando o assiste. É a história de um garoto de 14 anos, que tem em casa a displicência e falta de cuidado, educação e carinho dos pais, na escola o tratamento abusivo de professores autoritários e, com isso, inicia uma carreira de pequenos delitos por onde passa. Antoine Doinel, cujo crescimento do personagem – e do ator, Jean-Paul Léaud – vai permear a filmografia do diretor, é extremamente complexo e humano em construção, como o retrato de um jovem inocente que parece ser atropelado pelas circunstâncias e vê nestas oportunidades desviantes uma saída para viver. A parceria de Truffaut - Léaud se fundiu não apenas nas filmografias, como nas personalidades. Não era incomum acreditarem serem os dois apenas um, ou que o jovem Léaud fosse filho do cineasta.

Os incompreendidos é um filme para ser revisto de tempos em tempos. Como alguns poucos outros, de vez em quando bate uma saudade, como se devêssemos reencontrar velhos amigos e ter a certeza de momentos especiais. Acontece a mesma coisa com Manhattan (Woody Allen) e Acossado (outro fundamental da Nouvelle, lançado logo depois e a estreia de Godard). Assisti outro dia o documentário sobre Woody Allen, e notei que ele e Truffaut dizem algo parecido, sobre como é maravilhoso viver realizando os próprios sonhos. Talvez não tenha sido tão romântico como conto, mas ter liberdade para produzir o que se imagina é suficiente. Truffaut disse***: eis porque sou o mais feliz dos homens: realizo meus sonhos e sou pago pra isso. Sou diretor de cinema. Fazer um filme é melhorar a vida, organizá-la à sua maneira, é prolongar as brincadeiras de infância, construir um objeto que é ao mesmo tempo um brinquedo inédito e um vaso onde disporemos, como se se tratasse de um buquê de flores, as ideias que temos em determinado momento ou de forma permanente***.

Mas o filme é ainda mais do que essa vontade de rever. Ele trata da adolescência universalizando o tema; conseguimos ver um pouco do Pequeno Nicolau e de Coração (livro, Edmondo de Amicis) nos momentos mais leves, nas salas de aula e nas relações com os colegas de classe. O registro quase documental – e aqui Truffaut reclamaria, já que a não-ficção não é pra ele – inaugura essa dramaturgia do que parece simples e natural, quando as atuações são tão orgânicas que ali não parecem personagens, mas pessoas do cotidiano. É o olhar voltado para um cinema sem firulas, envolto numa perspectiva de mudança, como seus planos de câmera e montagem insinuam. Talvez essa fluidez venha da experiência de vida do diretor, que conheceu os reformatórios de perto, bem como a juventude um tanto infeliz. O filme de 99 minutos dura muito menos do que parece e nos apegamos tanto a Antoine que quando acaba, ficamos à espera de uma sequencia que nunca aconteceu (que o diretor se arrependeu de não ter feito).


Les 400 coups (título original) se traduz como os 400 golpes (expressão similar ao nosso ‘pintar o sete’) e soa metafórico para as artimanhas do jovem, que pratica seus golpes como uma reação aos que recebe da sociedade e de sua família. Em português, a tradução soa mais poética, Os incompreendidos e também correta. Vemos um retrato da cidade da forma que não estamos acostumados e que nos toma um tempo para entender, só sabemos ser Paris pelos créditos de abertura, com a base da torre Eiffel sem vê-la por completo, como se aqui não fosse possível alcançar o céu. O mesmo vale para Antoine e mais uma vez o filme vence; talvez vejamos pouco na vida e no cinema atuais os maus tratos escolares, mas a de nosso herói e seus desdobramentos seguem atemporais. A identificação com aquele jovem não nos toma por completo, mas um fragmento já é suficiente para nos remeter ao que vivemos. E daí vem a saudade e a eterna vontade de voltar ali.

*Link para o MIS – a exposição segue em São Paulo até outubro.

**François Truffaut é um destes gênios do cinema. Pro nosso azar, morreu cedo demais, mas deixou uma filmografia digna de respeito e prazer para nós. Dá uma olhada aqui, que quase tudo vale a pena. Mesmo tendo nos deixado em 84, quando eu tinha um ano, ele é considerado um mestre atemporal, do quilate de Kubrick, Scorsese, Godard, Capra, Allen, Kurosawa, Glauber. Dá muita vontade de escrever mais sobre ele, passar horas lendo seus livros e artigos, vendo seus filmes ou, simplesmente, enchendo o saco dos amigos com essas conversas. J

***Livro:  O prazer dos olhos – François Truffaut. Editora Zahar.
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Hoje é um daqueles dias que escolhemos para homenagear alguém. Agora é a vez de nossos pais, co-responsáveis por nossa existência, com sorte por nossa educação, formação e o que mais for possível.

Eu fui muito feliz nesse quesito. Tenho um pai que não poderia amar mais, simplesmente porque não cabe. Como minha mãe, ele me deu educação, caráter, aqueles conceitos de bom e mal, certo e errado que vêm junto com a bagagem de vida dele(s), e que funcionaram bem comigo.

Meu pai teve a mim e a minha irmã, duas meninas e ainda assim, não nos mimou para sermos princesas, quiçá para esperar príncipes em carruagens. Ao contrário, nos criou como seres humanos, dotados de inteligência e curiosidade, responsabilidade, cuidado e respeito pelo outro, quem quer que seja. Colocamos a mão na massa para o que for necessário: na saúde e na doença, nas tristezas e alegrias. Somos um núcleo separado geograficamente, mas sólido como aqueles seres unicelulares da biologia. Sabemos lavar, passar e cozinhar, fazer mercado, pagar contas, ler, escrever e pensar. Graças a eles. Nossa bagagem cultural é diversa por formação, tamanha a diferença entre as famílias materna e paterna, mas é uma boa mistura – dá uma diluída nas realidades de cada contexto e nos deixa mais críticas e paradoxais. Como toda grande família, a nossa também é um caos.

Somos quatro partes de um todo, inseridos em círculos maiores, mas concentrados na velha unidade familiar. Tenho sorte de ter esse jovem ao meu lado, de contar piadas, de vê-lo contando outras não engraçadas e rir assim mesmo, porque é engraçado só de ouvir. É bom falar com ele sobre política, é interessante ouvir as opiniões sobre os filmes que eu gosto e que ele não vê o porquê e trocamos argumentos, é sempre um desafio gostoso indicar filmes e é maravilhoso quando acerto. É massa viajar e contar para ele como foi, ele esquecer tudo e meses mais tarde, depois de ver um documentário na tv, me indicar o lugar pra ir. É bom sair pra almoçar, quase esperando dar errado, pra ouvir ele falar ‘que nunca mais bota os pés ali’ e mais oitocentas histórias que valem contar mais tarde, pra uma turma bem menor do que essa, na verdade.

Meu pai é médico e quando eu era criança, era como ter um super-herói em casa. Ele era e é estressado com um monte de coisas, com o planeta, com o Brasil, com todas as injustiças e, como nós, está cansado dessa maluquice toda. Mas é porque ele tem um coração imenso – como minha mãe e minha irmã também, nossa família é toda coração – e sofremos juntos com as barbaridades. Mas ele, agora pensando, continua herói e pai não só meu, mas de muita gente e não das histórias em quadrinhos, mas da vida, é uma referência de pessoa que carrego sempre comigo e cujas lições procuro manter e seguir.

Meu pai odeia redes sociais. Por isso, para arrumar mais um motivo para colocá-lo em todos os lugares, trago junto um curtinha de 3 minutos, sobre o cara que deu origem a esse ômi, meu avô, Walter Ferreira. É de um festival de cinema de arquivo que teve aqui no Rio, o Recine, no ano que desembarquei, 2008. Fruto de um workshop de cinema de arquivo, o curtinha me rendeu, ainda que seja bem simples, o prêmio de melhor roteiro. É uma homenagem a um outro pai que ficou na minha memória infantil, cujos detalhes fui resgatando com a ajuda de minha avó, minha prima, meus pais. É uma brincadeira com o acervo do Arquivo Nacional brasileiro e algumas fotos de família.



Feliz dia dos pais, espero que gostem e é claro que estou com saudades.
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Achava que não conhecia nada de Nina Simone. Tinha até vergonha de falar, já que depois do documentário, todo mundo parecia saber dela há muito tempo e eu, pra variar, estava por fora. A sinopse instiga, perguntando o que uma mulher que conseguiu fama, riqueza e família poderia querer mais. Não teve jeito: uma pergunta dessas não dá pra ignorar.

Agora posso dizer que sei e sabia mais ou menos quem foi Nina Simone. Descobri não sei quantas músicas dela e outras interpretadas inesquecíveis e sensacionais. Descobri que essa mulher negra nascida no sul dos Estados Unidos na década de 30 não veio a passeio e deixou sua marca cedo, quando queria ser uma musicista e tocar piano clássico no Carnegie Hall. Não saber muito sobre ela até hoje, mas conhecer suas músicas só foi possível com esse novo e sensível documentário produzido pelo Netflix e Radical Media.

Há duas coisas a serem ditas – há mais, mas comecemos por duas. A primeira é sobre o próprio Netflix, cuja diversidade de produções vem crescendo absurdamente e agora estamos saindo dos blockbusteres e dos filmes cult conhecidos e investindo em coisas mais bacanas como documentários e filmes independentes. Ainda não é aquela estante larga e variada de cinema de autor que tinha na locadora que trabalhei no século passado, mas está chegando lá. Meu desejo antigo e satisfeito de trabalhar ali hoje é parecido com a vontade de ser curadora desse portal mágico da felicidade. Ao mesmo tempo, estrear e ser uma produção Netflix significa (por enquanto) que não irá para o cinema, o que é uma lástima. Um filme desses numa tela maior, com toda a aura de uma grande sala, tem, necessariamente, outro impacto.
A segunda coisa a ser dita é sobre a própria natureza deste documentário. Robert Drew, no recém-lançado A verdade de cada um (org. Amir Labaki, diversos autores – ótimo), fala sobre sua visão documental e de como ela precisa se apropriar de uma veia dramática para ter interesse. E esse é o fator que diferencia um bom filme de outro razoável. Exposição de fatos é jornalismo, uma forma completamente distinta e superficial da narrativa densa da estrutura clássica de uma obra de ficção. Por mais controverso que pareça, para ser documentário, há que seguir da mesma forma, estabelecendo tempos narrativos de distensão, clímax, pontos de virada, resoluções de conflitos. E Liz Garbus faz isso muito bem. Esta documentarista que acabo de conhecer com Miss Simone, tem outro filme na plataforma, sobre Marilyn Monroe (Love, Marilyn, 1012) e um terceiro, também biografia, retratando o xadrezista, Bobby Fischer. Em Miss Simone, pelo menos, foi feliz na escolha do tema e da forma.

Voltando à cantora, só resta a confirmação de que meus amigos estavam certos: o filme é muito bom. Ele busca um pouco do que conhecemos do tradicional documentário americano com aqueles depoimentos de pessoas sentadas, mas isso funciona como ilustração e pontuação das transformações da protagonista. Há não sei quanto de duração de imagens de arquivo que se equilibram bem, entre festivais, programas de TV, shows e filmagens domésticas de infância até o ambiente familiar de então e descobrimos que quem achávamos ser uma figura ‘desconhecida’, foi também ativista de direitos civis, mãe, compositora, artista, mulher. É uma história de luta e redescobrimento de alguém que foi vivendo sem escolher onde pisar, se perdeu, se reergueu e aí sim, encontrou seu caminho.

Somos guiados pela música e por sua voz, em depoimentos de uma voz off quase sobrenatural, mas que não assusta: é bom ouvi-la ao invés de sempre esperar que falem por ela. Como com Tina Turner, ela também apanhava e era estuprada pelo marido que a obrigava a trabalhar além da conta e, da mesma forma suportava, sem saber exatamente por quê. E ao ouvi-lo falar e se mostrar para a câmera, o asco nos toma, nas atrocidades que narra não há arrependimento gerando um desconforto que se repete, quando ouvimos de sua filha relatos impressionantes sobre maus tratos agora vindo de sua mãe e de como, ela decidiu morar com o pai, após a separação. 
Se um filme documentário requer estrutura dramática, este faz com precisão. Quando descobrimos aquelas músicas que hoje são gravadas em outras vozes ali, naquela suavidade e força em Nina Simone, cada estrofe soa como uma grande surpresa. E a montagem dos depoimentos incomoda pouco – até por eles serem concisos e contarem gradualmente a efervescência, clímax e catástrofe de nossa heroína – entre seus diários ali recortados em trechos manuscritos que traduzem o íntimo de uma mulher conturbada que parecia nunca conseguir parar pra pensar. Ao mesmo tempo, senti falta de alguma história sobre seus pais e sete irmãos, de que pouco sabemos. Talvez tenha sido uma escolha da direção pela dificuldade de conseguir arquivos e depoimentos relacionados a eles, à exceção do que foi ali exposto.

Em cada volta do parafuso da vida de Nina Simone há uma busca de razão, prazer, força, felicidade e justiça, e que por fim encontra algum equilíbrio, entre a bipolaridade com a medicação que a controla va e reprimia, a aceitação em não ser a pianista clássica, mas a cantora e pianista que atravessou grandes estilos da música norte-americana, se tornou uma das maiores vozes de seu país, deixou de ser só a cantora para ser também a ativista dos direitos dos negros americanos e que morreu cedo demais, sem aceitar que tudo tinha era tudo o que queria.

E agora deu vontade de ver tudo de novo.
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A primeira sequência do filme vem sem cortes, introduzindo a intimidade de um apartamento de um casal jovem, uma luz de manhã entre janelas, um ambiente de cotidiano e familiaridade. Parece que estamos diante de uma história real, de um casal real. Poderia ser, poderia ser a história de qualquer um que tenha vivido um relacionamento a distância.

Quando vi o trailer na internet, o filme não havia sido – e não foi – lançado nos cinemas. Encontrei no Netflix e me tomou um tempo para assistir, já que é um reencontro com as semelhanças de uma história pessoal, passada. Namoro a distância é um desafio difícil, um jogo em que todas as regras parecem existir para dificultar a permanência, testando persistentemente o amor que há ali.

Então, neste primeiro plano-sequencia vemos de uma cena de sexo buscando uma gestação, ao motivo do drama: Álex (Natalia Tena) recebeu um e-mail com uma proposta de ser fotógrafa bolsista em Los Angeles. Álex e Sergi (David Verdaguer) vivem juntos em Barcelona. Eles se amam e depois de alguma discussão, decidem o óbvio – a proposta era boa demais para ser negada e é apenas um ano, eles são fortes, sobreviverão a esses 10.000km de distância e empurrarão pra frente o filho prometido.

Como a marcação da passagem do tempo em 500 dias com ela, com a literal contagem e exibição de alguns dias, aqui acontece o mesmo, mas linearmente. Assim, vemos a transformação dos dois personagens tal qual da relação, o que era saudade vira cobrança e carência, de um lado fica a memória física, os itens do apartamento, os amigos em comum, Barcelona cheia de lembranças de Álex para Sergi, cuja vida parece ter parado no tempo, enquanto a primeira segue reinicializando tudo do outro lado do Atlântico, decidindo quem quer ser, o que quer fazer. O filme todo se cerca dos apartamentos dos dois protagonistas em diálogos mediados por celular, whatsapp, skype, e-mail e ali também estão todas as etapas da distância, o sexo por vídeo, o desejo interrompido. A ausência de contato físico se converte no excesso de verbalização, tudo é motivo de conversa, mas sempre sobre eles mesmos e aí, o esgotamento é inevitável. As vidas compartilhadas em ligações não são, claramente, as vividas em separado e é essa distinção o grande teste para o casal e o trunfo do filme.

Para os atores, grande desafio, visto que só há eles na trama - a proposta do diretor de focar no casal é acertada e as sutilezas dos diálogos e olhares e situações entre dois apartamentos nos deixa quase claustrofóbicos em alguns momentos, sufocados como os personagens daquele confinamento voluntário. Estamos falando de Barcelona e Los Angeles, cidades óbvias de interesse e turismo, com suas belezas e culturas extremamente distintas e que os influencia até na tomada de decisões, mas que não vemos, não fazem parte do argumento do filme, apenas suas localizações. E aí, nossa concentração se volta toda para suas trocas e a riqueza com que tratam em detalhes íntimos e sinceros sua história. As exceções de cenas fora do apartamento são as fotos tiradas por Álex, fazem parte de seu projeto de fotografar espaços urbanos vazios, estranhos – causando ainda mais estranhamento e vazio falar do que está fora, distante do outro, de quem não pode participar – as fotos aparecem para Sergi e para nós, como uma cidade fantasma, quase sem vida, cujos rostos de Google Earth - únicas imagens de outras pessoas, estão esfumaçadas para preservar seu anonimato e insignificância na narrativa.


Enquanto Álex parece ser uma espécie de ‘culpada’ por tudo aquilo, na verdade a situação imposta é apenas um catalisador para um incômodo velado – ela não sabe mais sobre seu futuro com Sergi, o que quer pra si. A gravidez que nunca vinha e agora adiada é um ponto importante e definidor para a mulher. Ela está num momento de clímax profissional, fazendo exatamente o que sempre quis – e também é o momento de decidir se esse filho virá e adiará seus objetivos. O filme que parece simples e envolto na sobrevivência do relacionamento, se complexifica e enriquece, com um dilema da mulher de hoje, sem julgamentos, mas impondo decisões. Há, da mesma forma, como o homem se relaciona com essa postura e Sergi não é machista, mas ele precisa se reconhecer e entender seu papel ali, entender se ele também se adequa aos interesses da amada e se vale a pena continuar com esta Álex em transformação.

Enquanto mulher que saiu de casa para morar em outro estado – numa distância muito menor que 10.000km – e deixou alguém ‘a esperar e ver o que acontece’ para seguir sua carreira, a identificação foi imediata. Há uma sinceridade e não me esquivo de pensar se o diretor e roteirista Carlos Marques-Marcet também não teve essa vivência – ou, no mínimo, a pesquisa foi muito bem feita. A construção da intimidade destes dois atores, a verdade que eles passam e que já é a abertura do filme, nos levam por um mesmo caminho de reflexões e escolhas. Intenso, com atuações impressionantes, este é um filme de dois atores que não cansa, é honesto e lindo em sua construção, com uma trilha sonora que dói e é magnífica e me fez reviver algumas situações até o final  - e aqui eu gostaria de usar 'mais sincero e coeso impossível', que fez a obra levar 17 prêmios e 22 indicações em diversos festivais.
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Enquanto somos jovens é o tipo do filme que te deixa em dúvida quando você passa pelo cartaz. Naomi Watts e Ben Stiller parecem um casal improvável para o cinema, ele meio bobo, ela, uma atriz de peso maior. Não suficiente, Amanda Seyfried quase nos faz desistir de vez – não fosse um filme de Noah Baumbach (dos lindos A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento) chamando novamente Adam Driver – tudo estaria perdido.

Exageros à parte e explicando melhor o diretor e seu pupilo: os dois estiveram juntos em Frances Ha, outro filme sobre maturidade, sensível, amoroso, engraçado, em p&b e com uma trilha sonora genial. Frances Ha surpreende em mil e um aspectos e nos mostra como é difícil tornar-se adulto quando se é uma alma criativa e delicada em uma cidade grande – as oportunidades chegam na gradação dos desafios.
Ben Stiller é Josh, um documentarista que não consegue terminar seu novo filme. Em anos de preparação e montagem – e algumas regravações – a insegurança em produzir algo o impede de entregar a obra e ele se divide entre a postergação e as aulas que ministra na universidade. Lá, descobre Jamie (Adam Driver), um aluno aficionado por seu trabalho, lhe oferecendo o carinho no ego e assim, a vaidade de Josh volta à tona como um filho sempre elogiado pelos pais. Naomi Watts é Cornelia, casada com Josh e produtora dos documentários do pai, então um diretor renomado, que tenta sempre ajudar o genro. A amizade de Jamie – e Darby (Amanda Seyfried), a namorada – com Josh e Cornelia são o cerne da trama. A graça toda começa aí e admito logo que o filme parece que foi feito pra mim – assumo o egocentrismo – tratando de documentário, verdades e mentiras na realização de uma obra, os mestres do ‘gênero’ citados, analogias sobre o que é verdade e simulacro, a ética na produção artística, o refinamento da comédia – ainda que esbarre em alguns exageros – maturidade e o mais importante: a brincadeira com esse novo personagem das metrópoles – o hipster.

O hipster é o cult amplificado. Antes era tudo sobre filmes estrangeiros, tatuagens, rock e cabelos compridos. Agora é uma categoria, um acumulado de percepções que mistura toda a superficialidade de ser alternativo – o hipster continua como o cult, lendo as primeiras páginas de todos os livros, cultuando bandas que ninguém ouviu falar, odiando hollywood, indo pra exposições de arte contemporânea e performances de artistas desconhecidos, usando o mesmo uniforme, criticando o que lhes é alheio em festas estranhas com gente esquisita. Com todo o exagero que uma redução assim traz, o filme traça o paralelo entre essa turma e aqueles que passaram por ela e veem nessa juventude, uma espécie de espelho distorcido de um passado glorioso.
O novo dá lugar ao retrô ao mesmo tempo que a instantaneidade é a marca dessa geração. Tudo deve acontecer ao mesmo tempo, tudo tem que ser registrado, tudo é audiovisual, tudo serve, é arte. Se quando lançaram a franquia BBB, incomodava a invasão da vida alheia, a exposição de intimidades na tv, hoje fazemos gratuita e voluntariamente nas redes sociais – não espanta a redução da audiência dos programas (sem mencionar a qualidade). Ao mesmo tempo, o estímulo dessa forma de registro encontra a alimentação na vaidade e carência e aí Josh se perde, confunde seu papel de mestre como o de alguém que deve ser ovacionado e faz de tudo para continuar jovem, afinal, são um casal de meia idade sem filhos, então, com a liberdade garantida para se manterem assim – em oposição ao casal de quem se afastam, da mesma idade: são amigos que acabam de ter um filho, passam a lidar com o nascimento da família e vêem o fim das fantasias e aventuras de então.

O filme percorre os conflitos e diferenças entre as gerações, em um roteiro rico de comparações mordazes em dores e alegrias que os casais dividem. Mais uma vez, não consigo ver muito aprofundamento em Amanda Seyfried, mas Adam Driver é o perfil exato – como Woody Allen em seus filmes, sempre o mesmo e sempre bem – da caricatura do jovem antenado, enquanto Ben Stiller e Naomi Watts se esforçam – em ótimas performances – para alcançá-lo, se perdendo sem perceber. Em paralelo ao tratamento da maturidade – tema frequente nos filmes do diretor – vemos uma homenagem ao cinema com um esboço de uma discussão teórica bem inserida no contexto do filme – a ética na construção de uma obra esbarrando no caráter de quem a fez. E aí é debate sem fim, cuja solução encontrada aqui é apenas uma das possibilidades – e que já levanta polêmicas.

Comédia leve e despretensiosa que de 'boba não tem nada', não chega a ser um Frances Ha, mas consegue nos deixar pensando – especialmente se você está entre os dois casais – sobre crescer, sobre até onde vai o jovem que ansiamos ser eternamente e em que momento encontramos – sem maiores tragédias – a maturidade. Ainda que o final da história se atrapalhe num clichê, é garantida a diversão neste filme para ver depois de um longo dia de trabalho.
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Comecei a prestar atenção no trabalho de Susanne Bier a partir de Em um mundo melhor, de 2010 que levou o Oscar de Filme Estrangeiro. O filme contava a história de um médico europeu em missão na África que precisava decidir se salvaria a vida de um ditador desses que trucida mulheres em todos os níveis e assassina a oposição. Em paralelo, mistura-se o profissional e o privado, à medida que sua família desmorona no outro continente com uma crise conjugal e um filho adolescente que se torna amigo de um garoto problemático. A obra consegue nos tornar permeáveis ao que se passa e nos colocamos na posição do protagonista – e aí a coisa muda de figura e entendemos porque além do Oscar, levou o Globo de Ouro e outros 10 prêmios pelo mundo.

Antes disso, em 2007, mas com menos impacto, ela já tinha feito Coisas que perdemos pelo caminho sobre o luto e a reconstrução da vida – também com uma questão a ser resolvida aqui. O filme bom, com atuações impressionantes de Benício Del Toro e Halle Berry já identificava o tema das perdas em nossas vidas – mas não havia me chamado à atenção para a direção.
Este ano estreou Segunda chance. Outro dilema moral, aqui a história está centrada no policial Andreas (Nikolaj Coster-Waldau – Jamie Lannister, de Game of Thrones), casado, que de repente encontra seu filho de um ano morto em casa. Em desespero ao ver sua mulher Anna (Maria Bonnevie, de Reconstrução de um Amor) em uma crise irreversível, revisita a casa onde havia feito uma batida policial e cuidara de um bebê com sinais de maus tratos, deixa o corpo de seu filho e pega a criança viva, acreditando que o casal viciado em drogas entenderá que o bebê morreu de alguma forma e que eles não teriam condições de salvá-lo. Esse é o trailer de um filme que nos deixará tensos até o último minuto.

O que parece o início de uma trajetória difícil é só a ponta do iceberg de um dilema moral em que, novamente, a diretora consegue nos atingir fundo. Sofremos com Andreas e Anna – entre o luto e a aceitação de uma segunda chance de felicidade – se é que existe a possibilidade, sofremos com Sanne (a modelo-agora atriz, May Andersen), mãe da criança que insiste em dizer que aquele cadáver não é seu de filho, e só não sofremos com Tristan (Nikolaj Lie Kaas, também de Reconstrução de um Amor) porque ele realmente é um cara complicado e garante algum humor ácido. Com um elenco estelar do cinema dinamarquês e uma tensão que não nos permite piscar, não sabemos o que esperar do final de uma história tão intensa.

Uma amiga escreveu sobre o filme tratando da dramaticidade da história, de como as perdas e o tema forte pesaram nela. Para mim e também para Camila – a comadre das sessões semanais de cinema – a percepção foi outra: o roteiro é tão bem construído e a diretora já tem em si o olhar de mostrar a vida como ela é ao invés de criar uma trilha sonora e construção de cenas que enfatizassem a lá novela a trama e o drama, que a ânsia era em ver o desfecho e entender – como consegui minutos antes da dissolução – como a história se fecharia. E saímos satisfeitas – se a palavra for essa e perplexas com o que vimos.

Além da estrutura narrativa ter seu peso comprovado em atuações impecáveis – como ver os olhares de pânico e choque de Maria Bonnevie se transformando, o desespero do personagem Andreas e até a relação que mantém com o veterano Ulrich Thomsen (Em um mundo melhor) como Simon, seu amigo e colega de trabalho que também convive com seus demônios, a fotografia e as locações reforçam a obra. É interessante entender o contexto cultural – é quase bizarro ver a mãe levando o filho que chorava em passeios noturnos para acalmá-lo. Ela caminhava de sua casa – num bairro deserto – tarde da noite, levando o filho num carrinho de bebê no acostamento das ruas na tranquilidade de um domingo no parque. Só em ver a cena, o público brasileiro já imagina que alguma tragédia acontecerá, mas não: é o dia-a-dia de uma cidade muito mais segura do que as nossas. A própria residência – cujas luzes da fachada reforçavam a delicadeza da fotografia – ressaltavam o afastamento do centro urbano. A ideia era deixá-los isolados, evidenciando tanto uma necessidade de se manter a paz e felicidade familiares (ou até o desespero nas cenas seguintes), como uma vida perfeita em oposição ao apartamento entulhado, sujo e desorganizado do casal ‘bandido’. 

Lançado internacionalmente ano passado, resta saber se terá fôlego para mais alguma premiação além do título em San Sebastian e outras quatro indicações. De qualquer forma, este tem o mesmo peso de Em um mundo melhor e ainda deixou a vontade de ver o restante da filmografia da diretora. A certeza da evolução estética e narrativa é um fato, nos dando a quase certeza de que bons filmes dessa diretora nos aguardam.
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Comecei a levar o cinema a sério quando era adolescente. Na verdade, não sei se foi sem querer ou que tipo de vocação e indicações me apareciam, mas assistia tudo o que me apresentavam e comecei a prestar mais atenção nos filmes diferentes. Acho que é uma curiosidade insaciável de viver tudo e conhecer tudo e os filmes são um grande facilitador, como uma janela para vários mundos e experiências.


I love to fly. It's just you're alone, there's peace and quiet, nothing around you but clear blue sky. No one to hassle you. No one to tell you where to go or what to do. The only bad part about flying is having to come back down to the fuckin' world.
Rat.


Então, meio sem saber direito o porquê e acho que na mesma época, assisti Kids (1995), Christiane F. (1981), Diário de um Adolescente (1995) e Laura Palmer (1992). Todos causaram impacto absurdo, mas acho que Kids me aterrorizou mais, porque parecia mais próximo. Na época lembro que não tinha gostado muito, acho que não tinha compreendido direito e fiquei com uma impressão de que aquilo tudo era um exagero, um filme sem necessidade. Mas, na verdade, estava realmente assustada. 

Aqueles jovens de classe média, vivendo na rua, usando drogas e se entregando a riscos e descaso em meio às descobertas de si e do mundo era algo que me deixava perplexa, porque eles também eram adolescentes e ainda tinha uma protagonista tão inocente quanto eu, mas menos medrosa – e talvez eu me visse nela. A narrativa, que parecia acompanhar um grupo real de jovens, tirava a tinta da fantasia e nos deixava a todos, os de verdade e os da ficção, no mesmo mundo.

Christiane F. e Diário de um Adolescente mesmo sendo bastante diferentes, tinham uma roupagem que me deixava mais distante deles. Não tinha amigos que usavam as drogas, a própria Christiane F. era viciada em heroína e eu nem sabia direito o que era. Na minha adolescência, o máximo que se ouvia falar era de um vizinho mais velho da rua da casa de meus avós que fumava maconha e isso era quase um sinônimo de “pessoa muito assustadora, nunca fale com ele”. Então, ainda que estes filmes trouxessem histórias tristes e difíceis, especialmente Christiane, por ser baseado em uma história real, era mais um aprendizado do que algo que assustasse de fato. 

Por fim, Laura Palmer, meu primeiro David Lynch. Como vinha de um seriado cuja existência eu desconhecia, entrei no meio da história dessa adolescente que buscava uma diversão mais arriscada numa cidade pequena e muito bizarra. Na verdade, exceto pela questão da prostituição e das fantasias – não era um filme permitido para menores – senti uma atração absurda por aquela forma de direção, a bizarrice surrealista, um humor macabro e uma trilha sonora e fotografia sedutoras me ganharam e nunca mais fui a mesma. Mas esse é o mais distante dos três outros.


Este mês morreu Mary Ellen Mark, uma grande fotógrafa americana desconhecida pra mim. Depois de começar a estudar fotografia, um dos meus interesses é conhecer o trabalho dos ícones pela mesma razão que vejo filmes de tudo quanto é canto. Assim, fiquei feliz de não conhecê-la ainda e depois um pouco triste dela ter morrido. Descobri que tinha produzido um documentário em 1984 e que seu marido o dirigiu, Streetwise. 

Sem saber nada sobre, fui atrás - o filme tinha alguma grande referência onde buscava e vi que algo importante tinha ali. Até parei de pesquisar as incríveis fotografias e o encontrei completo na internet.  Semana passada, Kids, Christiane F., Laura Palmer, Diário de um Adolescente e até Taxi Driver vieram juntos  e de vez em mim, com esse filme impecável.

E implacável. Streetwise conta a história de um grupo de adolescentes que vive nas ruas de Seattle e sua rotina consiste em drogas, furtos, prostituição, sobrevivência, mendicância, violência e algum carinho, amor e cuidado. Eles estão ali um pouco por opção, por virem de famílias desestruturadas, por achar que aquele é o melhor ou único meio que têm ou por uma conclusão que varie das anteriores. O filme é feito nos moldes do cinema direto, acompanhando a vida de 9 personagens, quase sem intervenção. 

Ao mesmo tempo, há momentos de depoimentos que se intercalam com a rotina, mas quase não se ouvem perguntas, tampouco se vê o câmera ou o diretor. Ficamos perplexos com a franqueza daqueles jovens subnutridos de feições infantis e discurso firmado em um presente que nos deixa sem esperança ou até 'permissão' de imaginar qualquer tipo de futuro.

A protagonista é Tiny (Erin Blackwell) uma prostituta de 14 anos – e incomoda muito descrevê-la assim. Sua mãe alcoólatra acredita que a jovem está passando por uma fase e aceita sua escolha, como se todos vivêssemos em um mundo de contrários, onde a distorção é regra. Tiny nos conta, com uma consciência tranquila e precoce, como costuma se dar bem nas ruas, porque muitos homens têm taras em meninas muito novas, ou como quando anuncia para mãe a possibilidade de estar grávida. Ao mesmo tempo que segura essa independência familiar, mantém um relacionamento amoroso com Rat, outro garoto da mesma idade que nos conta como ela já quer se casar sendo tão jovem. 

Essa sinceridade permeia todos os personagens; não há vergonha em falar de si, de como se vive, do que se faz. Ficamos nos perguntando se tudo isso não faz parte de uma encenação deles mesmos, como uma defesa quando se provoca alguém ou simplesmente ao ligar a câmera, mas não. A consistência e o credo no que dizem e vivem confirmam cada sentença.


O filme foi feito com o intuito de evidenciar que até em Seattle – considerada na época uma das melhores cidades americanas para viver – existia crianças e adolescentes que sobreviviam nas ruas. Kids veio direto à mente nos primeiros 5 minutos, talvez pela displicência com que vivem, transmitindo um realismo angustiante, muito pior que a ficção. Em Taxi Driver, é impossível  não relacionar a personagem de Jodie Foster a Tiny, ainda que pareça ser mera coincidência.

Imprescindível para quem estuda e gosta de documentários, o modelo do cinema direto é marcado sempre por registrar a situação com uma interferência clara – não se quer esconder que é um filme – mas que busca o registro sem interromper ou propor conclusões precipitadas. Estas acabam partindo de nós, espectadores. E ali, naqueles 9 personagens de uma história sem final (feliz, aparentemente), vemos um pouco de tudo o que acontece com muitos jovens em qualquer lugar do mundo em 1984, antes, hoje e amanhã. 

São como uma eterna uma geração marginal sem futuro, vivendo somente do agora. Não são inocentes, na medida em que podem tentar reverter suas vidas, mas são também inocentes, quando encontram ali sua razão de sobrevivência. Assassinatos, prostituição, suicídio, gravidez, dsts, violência, assaltos. E são tão crianças que não sabemos o que sentir, diante de uma falsa esperteza, uma malandragem ingênua que em uma confusão de sentimentos, percebemos mais pena do que raiva.

Streetwise é também um livro de fotografias de 1988 e Tiny teve sua vida acompanhada nos anos seguintes. Em 2005 Martin Bell e Mary Ellen Mark fizeram um curta de resgate sobre ela. Hoje, Erin Blackwell não é tiny, mas uma mãe de 10 filhos de diversos pais, casada. Streetwise ganhará uma sequência, com financiamento no kickstarter e em breve saberemos o futuro destes ex-jovens à margem, tendo certeza que destes, pelo menos 3 morreram ainda nos anos 80. Que Mary Ellen descanse em paz, sou grata por ter lhe descoberto, um pouco triste e eterna fã. 
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Este foi provavelmente o filme mais impactante do É Tudo Verdade desse ano. Arrisco a afirmação quase como certeza, já que os 43 prêmios – incluindo o Oscar – e 16 outras indicações parecem concordar. Não que um filme precise de atestados de qualidade, mas Cidadão Quatro vai muito além de um documentário sobre espionagem.

O choque vem em grande parte do próprio tema: descobrimos que os Estados Unidos e mais alguns países, investigam cada espirro que qualquer pessoa no globo dá. Eles sabem o exato momento e local. O que de antemão não parece grandes coisas e uma teoria da conspiração já teria certeza disso há muito tempo, tem implicações maiores. Como o protagonista e principal agente da alegação reflete, o problema não está na simples invasão de privacidade, mas no que ela acarreta – em termos de violação da intimidade, diferenças de opinião, negociações entre grandes empresas, articulações políticas. Pensando de forma ampla: como você se sente livre, sabendo que um governo retem todas as informações a seu respeito? O quão à vontade você fica para se opor a ele, por exemplo? Para se manifestar contrário a qualquer conceito que a maioria apoie? O assunto aqui não é só sobre que sites você visita escondido na internet.

O que Edward Joseph Snowden, com então 29 anos, americano, morando no Havaí com uma conta bancária recheada, um trabalho exclusivo e uma namorada queria ao arriscar tudo em prol de nossa liberdade de restringir nossa privacidade a quem nos interessa? Talvez ele tenha percebido o alcance de seu trabalho, um prestador de serviços de alto escalão para a Agência Nacional de Segurança, com acesso irrestrito à vida privada de qualquer pessoa. De certa forma, o próprio Facebook já fornece boa parte das informações sobre nossas vidas – ou melhor, nós fazemos isso através dele – mas a permissão não dada a um governo de ter acesso indiscriminado a essas informações é a grande questão. Snowden conclui que o povo americano – e consequentemente todo o planeta – deveria pelo menos, saber o que está acontecendo com seus dados e opinar se deseja divulgá-los a quem quer que seja por quaisquer que sejam as razões. Então, ele viaja para Hong Kong em sigilo e aguarda Laura Poitras – a diretora do filme – e Glenn Greenwald – jornalista do The Guardian, para as entrevistas que mudarão as vidas de todos nós.

De acordo com a filmografia da diretora e informações no filme, Cidadão Quatro é o terceiro filme da trilogia que a diretora fez sobre o Onze de Setembro (de 2001). Os outros filmes não chegaram aqui, mas por sinopse e estética do atual, notamos que busca no Cinema Direto uma aproximação de linguagem. Assim, vemos em tempo real as afirmações e acontecimentos quando da entrevista de Snowden e as repercussões na mídia, na vida de cada um envolvido no escândalo. Tememos por todos, eles se tornaram não ingenuamente os propagadores das verdades inconvenientes sobre os grandes sistemas secretos de vigilância do governo e sociedade mais paranoicos que existem. Essa tensão provocada diante das perseguições, possíveis ameaças, fuga de Snowden para lugares mais seguros, tentativas frustradas de exílio, perda de contato entre eles, nos deixa com os olhos grudados na tela em um suspense sem fim, digno do melhor Hitchcock. E é essa a grande sacada do filme: se formos pensar bem, já conhecemos e a história – é de 2013. Mas, independente de quando aconteceu, o filme consegue nos manter numa tensão como se fossem notícias de ontem ou de meia hora atrás. A graça do Cinema Direto é justamente essa: o retrato de uma situação presente, suas consequências, seu desenvolvimento. Não há reconstituições, imagens de arquivo retratando um passado, nada disso. Sofremos por imaginar uma potencial catástrofe na vida de nossos heróis, imaginamos o alcance da espionagem na vida de todas as pessoas, pensamos em nossa própria, no que queremos proteger e divulgar e, por fim, nos sentimos indefesos, diante da certeza de que tudo o que é nosso, agora pode ser de todo mundo.

A diretora aprofunda e dá um contexto ao presente: intercala as entrevistas e repercussões da delação de Snowden com entrevistas de Obama e outros funcionários da Agência, filmagens dos “centros de investigação”, as distâncias obrigatórias criadas entre eles e um final impressionante que nos deixa ainda mais curiosos e instigados a continuar ali, aguardando a sequencia deste Cidadão. Saí com a impressão de que era uma ficção, ao ver uma história tão bem construída, de como surpreendente e invasivo era aquilo tudo e de que parecia realmente uma versão inteligente, realista e apurada de um filme de espião. Agora é torcer para consequências menos drásticas a estes que já tiveram suas vidas alteradas em definitivo e esperar passarmos despercebidos por mais essa malha fina - agora do neurótico governo gringo imperialista.

Título Original: Citizen Four
Diretora: Laura Poitras
2014 EUA / Alemanha / Reino Unido
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cinema-documentario
É Tudo Verdade | Festival Internacional de Cinema Documentário 2015

Essa semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro acontece a vigésima edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Dirigido e idealizado por Amir Labaki, o evento se consagrou como um dos mais importantes termômetros para avaliar as produções do gênero no mundo. Entre os destaques, uma mostra ao homenageado e incansável Vladimir Carvalho, um filme de seu irmão, fotógrafo e cineasta Walter Carvalho, a estreia do último filme de
Eduardo Coutinho, Últimas Conversas e um panorama do que acontece no mundo e no Brasil em mostras competitivas de curtas e longas, bem como outras retrospectivas que homenageiam o gênero nesses 20 anos e seminários. Ontem, estivemos em duas sessões: Competitiva Internacional de Curtas e o longa nacional Sete Visitas, de Douglas Duarte. Como sempre, ficou claro que ainda há muito para ver até o dia 19 de abril e a mostra de curtas abriu o apetite e deixou a vontade de passar a semana inteira nos cinemas. O É Tudo Verdade é gratuito, acontece essa semana e na próxima em São Paulo e no Rio de Janeiro, seguindo depois para Belo Horizonte, Santos e Brasília. Mais informações sobre programação e salas do circuito em www.etudoverdade.com.br
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Essa semana é o início do fim de uma era. Como anunciada pela própria AMC, detentora dos direitos de exibição de Mad Men nos Estados Unidos, uma das maiores séries de todos os tempos chega ao fim. E não é daqueles finais de mentira, em que ano que vem mudam de ideia e produzem mais uma temporada. Essa termina mesmo. Mas por que uma série sobre os homens das agências de publicidade nos anos 60 em Nova York faria tanto sucesso agora?

Don Draper (John Hamm) é o diretor criativo da Sterling Cooper, uma agência de publicidade de Manhattan. Casado, família feliz no subúrbio e mulher perfeita, é o padrão do homem de negócios que vive uma vida dupla, com suas liberdades na cidade e o conforto de um lar sempre bem arrumado e disponível para lhe atender. Betty Draper (January Jones) é sua mulher, uma ex-modelo que largou a iniciante carreira para se casar com o homem dos sonhos. Ansiosa e começando a ter ataques de pânico, ficamos surpresos de já perceber uma complexidade em uma personagem que não parecia ser tão importante na trama. Ledo engano.

De volta ao escritório, Joan Harris (Christina Hendricks) é a responsável por todas as secretárias e é meio o departamento pessoal da empresa. Ela é quem direciona, ordena, educa as novas moças, para que atendam às necessidades de seus chefes mimados. Percebemos nela um poder feminino – além de uma beleza estonteante – utilizado de forma brilhante e às vezes ingênua, à medida do que era possível na época. É ela quem recebe Peggy Olson (Elisabeth Moss), a nova secretária de Don que chega no primeiro episódio e se torna uma das protagonistas da série. Ainda estranha em uma terra estranha, Peggy é assediada por todos os jovens executivos – assédio não era um problema na época – entretanto, ela inverte o jogo: casamento não é a carreira que busca ali dentro.

Roger Sterling (John Slattery) é um dos sócios da agência que, junto com seu mentor, Bert Cooper (Robert Morse), fazem a magia acontecer no encontro com os clientes. Como qualquer agência de publicidade em qualquer lugar e época, essa também é repleta de jovens vivendo seus vinte anos buscando glamour, cheios de ambições, hormônios e ansiedades, sempre à flor da pele. Mas a série ainda vai além desse ecossistema, do envolvimento de clientes e campanhas e outros grandes personagens: Don é como um Dr. House, um gênio criativo que promove soluções surpreendentes ao custo de uma personalidade forte, sedutora e difícil. Encantador de mulheres e destruidor de corações guarda insegurança e mistério latentes, que desvendaremos aos poucos.

Se no início da série entramos nos anos 60, esses mad men – como a série indica, termo criado por publicitários para definir publicitários – viviam uma vida de estabilidade e segurança da década anterior. Em casa, a paz de uma família com funções definidas e liberdades cerceadas. Em Manhattan, tudo o que o dinheiro e o poder podem lhes oferecer. A grande sacada é a década em que tudo se passa. Os anos 60 são um dos pilares da revolução cultural mundial e em Nova York isso é demonstrado gradual e inteligentemente. Vemos o comportamento feminino se transformando, personagens conquistando seus espaços e revendo seus próprios conceitos, liberdades sendo concedidas, divórcio, aborto, o rock’n roll, as danças, a bebida. Isso apenas em comportamento. Historicamente, ainda mais: o crescimento da televisão nos lares e como a própria publicidade se transforma e ganha espaço para além dos impressos, Nixon, todos os Kennedys em suas tragédias, Martin Luther King, Muhamad Ali (então, Cassius Clay), Vietnã, homem à Lua, mísseis em Cuba, Beatles, Bob Dylan, Stones. É um momento revolucionário no sentido pleno da palavra e que se aplicou em todos os aspectos da sociedade de então. Onde mais isso se veria de forma tão gritante e explícita se não numa agência fomentadora de tendências e ideias, vendendo produtos que atendam a esses novos comportamentos, desejos e modismos?

A série, exibida no Brasil pela HBO, seduz logo na primeira temporada, apresentando os personagens em diálogos rápidos, inteligentes, cheios de segundas intenções e subentendidos em trocas de olhares e muitos, muitos cigarros e doses de uísque. A vida desses homens e mulheres dentro da agência em disputas de poder e vaidade é alimentada pelas relações fora dela: os casos extraconjugais, as crises daí decorrentes, seus núcleos familiares. É uma trama intricada de base simples, sua narrativa vai se amarrando à medida que seus personagens deixam o primeiro perfil que apreendemos e se tornam mais complexos, reduzindo  estereótipos e lhes enriquecendo de humanidade.
Com uma fotografia trabalhada de forma a mostrar a arquitetura, a decoração e planos que complementavam o olhar de cada protagonista em cena, com uma direção de arte impecável, figurino e a própria forma de se travarem os diálogos marcando firmemente a geração e suas transformações, Mad Men arrebatou 93 premiações (incluindo 4 Globos de Ouro e 4 Emmys) e 271 indicações em todas as categorias possíveis.  A série de Matthew Weiner (um dos criadores de Os Sopranos) estreou em 2007 nos Estados Unidos e é sucesso absoluto. Ela, não apenas faz uma contextualização histórica muito fiel, trazendo um cotidiano de comportamento e mídia, como transcende a narrativa de base – estamos diante de um drama sobre pessoas e suas relações diante de um novo mundo que se descortina em uma década única. A conheci há pouco tempo e só não me arrependo mais pelo atraso, porque consegui ver todas as temporadas sem esperar em agonia. Até agora.
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Saí de Força Maior com uma sensação estranha. Fui assistir com uma amiga e conversamos na saída, como sempre. Minhas respostas eram evasivas, fazia tempo que não via algo que me deixasse numa nebulosa, quase sem conseguir digerir ou entender plenamente. Não é um filme difícil. Você consegue sentar e assistir, compreender a história, as falas, interpretações, fotografia, tudo. A percepção acontece e já dá pra dizer se teve algum impacto em você ou não, logo de cara. É aquela velha história de que uma obra de arte se define pela impressão que causa em quem a vive – é tudo sempre sobre emoção. Sem ela, não é arte.

Força Maior conta a história de uma jovem família sueca que resolve passar uma semana nos Alpes franceses esquiando. De classe média alta, os pais na casa dos 30 anos e com filhos pré-adolescentes aproveitam a estação de esqui de luxo. São quase como um comercial de margarina, perfeitos, bonitos, felizes. Durante um almoço, presenciam uma avalanche próxima ao restaurante e o pânico de um grave acidente será a válvula de escape para uma transformação desse núcleo familiar.


Quais são nossos papeis na vida? Como nos definimos? Que funções devemos preencher nos formulários? Hoje o meu teria ‘solteira’ e ‘sem filhos’. Minhas obrigações são basicamente comigo e com aqueles por quem tenho apreço, mas nenhum deles depende de mim ou do que provejo para viver. Minha família – irmã, pais, etc – é autogerida e cada um responde por si. Somos todos maiores e eu sou a caçula – não que signifique muito quando se é adulto, mas ainda assim, de alguma forma, entendemos e cuidamos, cumprimos com a manutenção dessa estrutura na medida do possível.

Proteção, segurança, cuidado, carinho, amor, atenção. São as palavras definidoras de relacionamentos, mas não são garantia de futuro ou efetividade em qualquer circunstância. O que você faria se vivesse uma situação de perigo iminente? De catástrofe natural? De acidente de avião? Colocaria a máscara em você primeiro – aliás, como manda o regulamento – ou defenderia seu ente mais amado antes? Ninguém sabe essas respostas. A maioria vai dizer que protegeria o outro. E como isso nos define – de verdade? Como nós nos julgaríamos se não respondêssemos à altura do que prometemos um dia para alguém – até para nós mesmos, diante de um inesperado e aterrorizante presente? O que significa não atender a essas expectativas? Acredito que somos um conjunto de percepções, impossíveis de definir como um padrão de comportamento baseado em situações de rotina e controle. Diante do inesperado, talvez uma resposta diferente não deva ser julgada como inaceitável. Mas – ao mesmo tempo – é impossível não pensar nisso.


O filme faz isso de forma brilhante. Vencedor de 29 prêmios com outras 25 indicações, em duas horas e muito humor mordaz, ficamos perdidos entre que sentimentos devemos ter diante do que vemos. Sem entrar em detalhes – porque esse filme deve ser contado o mínimo possível – compreendemos a reação da mãe, entendemos o pai, até porque o filme prima por fugir daquele maniqueísmo barato e até as reações dos personagens secundários, seus amigos, são interessantes. O filme ainda vai muito além: nos põe em xeque, faz a velha questão do ‘se fosse comigo’ e por isso saí sem conseguir dizer muita coisa. Para o público brasileiro, a atuação às vezes seca e cheia de silêncios nos traz a certeza de que é algo diferente que se passa ali, além de culturalmente estarmos distantes. 

Robert Östlund, o diretor com 3 longas de ficção no currículo e alguns documentários, indica que não precisa mais do que isso para fazer uma grande obra. A maturidade da montagem e a trilha imponente nos preparam para um suspense que não nos deixa respirar - e esse nem é o foco do filme. A cada dia de esqui a agonia aumenta, não sabemos se aguentaremos viver aquele desconforto, e ao mesmo tempo é impossível piscar – morbidamente precisamos ver até onde eles serão capazes de ir e rimos quase nervosos a cada sequência. A fotografia, que me incomodou um pouco no início com a grandiosidade do branco e quase estoura tudo em nossa frente, faz isso intencionalmente para nos mostrar que toda essa claridade não significa – de forma alguma – transparência, e aí se torna maravilhosa. Da mesma forma, a ênfase no azul e tons frios dos figurinos, os planos familiares extremamente calculados simbolizam uma perfeição inútil daquele comercial lá citado – que só existe na superfície.

No fim das contas, não há papeis definidos. As famílias não são como as de 40 anos atrás, pré-moldadas em parâmetros fixos numa rotina de dependência emocional e financeira. Mas, ainda sim são famílias, com suas funções primordiais – nas famílias ocidentais urbanas – voluntariamente estabelecidas. Hoje talvez tenhamos mais liberdade de definir quem somos, escolher nossos caminhos, mesmo que uma ruptura se torne um grande problema. O fato é que saí do filme lá atrás pensando e há um tempo passo aqui para dividir um pouco. Fico na certeza absoluta de que vou revê-lo, preciso reviver o humor ácido, os diálogos que parecem banais, mas representam uma grande e honesta sacada de como somos, de como devemos ser ou de como outros supõem que sejamos. É um programa indispensável, crítico e delicioso. 
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Quando meu primo morreu, eu só pensava em como a vida poderia ser tão irônica. Pra mim, ele estava no caminho certo, tinha se encontrado finalmente, ultrapassado as maiores dificuldades até ali e justo então, quando estava tudo andando certinho, se foi como um cometa. Meu primo era um cara incrível, inteligentíssimo, jovem, emocional, quente, artista, amigo.

Hoje eu acho que não tinha nada certo, não sei por que ele se foi tão cedo e o que fica é uma saudade, às vezes uma inquietação e aquele desejo frustrado de partilhar mais encontros, mais futuros. Não sei se ele já havia se encontrado, não sei se alguém já se encontrou, mas espero que sim. É uma jornada contínua, um caminho maravilhoso – com todos os perrengues e dores, porque sou otimista – uma eterna construção de nós mesmos.

Em 2007 estreou Na Natureza Selvagem. O filme dirigido por Sean Penn conta a história real de Christopher McCandless, um jovem que resolveu subir sozinho o Alasca depois que se formou. A jornada de Chris era a busca romântica de sentido para sua vida, ele não se encaixava no perfil convencional de sua família, de classe média americana e era muito radical em suas ideias, julgando sempre todos antes de tentar compreendê-los. O filme, sensível e intenso, mostra a transformação de um jovem em um homem, focando sempre na jornada, muito mais do que no destino.

Acabo de sair de Livre, o novo de filme roteirizado por Nick Hornby e dirigido por Jean-Marc Vallée, cujo trabalho anterior o tornou famoso, Clube de Compras Dallas. Agora vemos a trajetória real de Chreyl Strayed, uma mulher que busca se reencontrar, cruzando a Pacific Crest Trail, uma trilha de pouco mais de 1760km, que segue do México ao Canadá sozinha, com 26 anos. Se no filme de Sean Penn me identifiquei com os questionamentos, a tomada de rédeas da vida, agora com uma mulher como protagonista da trama, um pouco mais velha, também em uma história real e sozinha, o interesse foi muito maior.

O filme é construído em torno de flashbacks, como em Na Natureza e focado nos pensamentos da protagonista. Assim, montamos seu perfil, encontrando as razões para sua jornada. Com formação literária e deixando rastro em citações de grandes autores pelas marcações da trilha, conhecendo seu passado e o caminho presente como uma combinação de purgante e elixir, somos levados em uma história que vai muito além do aguado Comer, Rezar, Amar. Num percurso longo e arriscado – sendo mulher só acentua isso – não há tempo para lamentos. É uma personagem que busca se manter forte o tempo inteiro, mas com uma sensibilidade em texto e voz off (como pensamento), que a humaniza. Imagino que esse perfil venha da real Cheryl, cuja vida amarga a impedia de ser outra coisa e acabou servindo como base para um grande desafio para a sempre fofa Reese Witherspoon. A atriz e produtora surpreende, com uma firmeza, determinação e maturidade para o papel, nas diversas transformações por que passa a personagem. Foi dela a ideia de produzir e atuar no filme, comprando os direitos.

Em pouco mais de duas horas, acompanhamos essa mulher, com a qualidade que vimos em Clube de Compras, outro filme focado numa história dura e real. A trilha sonora acalenta e entristece por vezes, mas nos transporta para uma intimidade bem elaborada, quase controlando nossas emoções. Nick Hornby, nesta adaptação omite alguns fatos relevantes que fazem falta na trama, mas não a reduzem de todo. Talvez eu buscasse algo mais nesse filme, entretanto. Talvez um pouco mais de fragilidade, saber mais da história pregressa, da relação de Cheryl com sua mãe – e aqui Laura Dern que a encarna merece todas as premiações – e com os irmãos, que só vemos um na obra. Talvez o filme precisasse ser um pouco mais duro e detalhado, pensando melhor, que trouxesse um aprofundamento maior, mais tempo de percurso, mais histórias. Ao mesmo tempo, a leveza das situações, o pouco de comicidade que traz, é o que garante a conexão com o público.

Essa sensação de que falta algo pode ser mérito: nos deixa sedentos pelo que fatalmente encontraremos no livro. Essa mulher, que sozinha atravessou seu país em busca de si, provavelmente se reencontrou sendo outra, vencendo o luto de quem mais amava e guiava seus passos, ainda que ela não reconhecesse. É importante que se veja esse filme para que as mulheres - mas não só elas - se compreendam como promotoras de seus destinos, busquem novos encontros com elas próprias, para que se saiba partilhar outros depois. Por mais que saibamos disso, não custa lembrar numa sala cheia, de preferência com famílias assistindo. Saí da sessão pensando na trajetória dessa mulher, na minha, nas das minhas amigas que buscam construir suas histórias. Saí querendo saber o que os casais ali pensavam disso, o que todas as pessoas pensavam, na verdade. Como elas compreendiam, se como uma aventura, se era desvario, desespero ou necessidade. Se era sério ou se achavam exagero. Queria ter encontrado meu primo pra dividir isso com ele, mas uma coisa é certa: concordaríamos de imediato. 
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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