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Café: extra-forte


Quando estudei cinema brasileiro, era obrigatório conhecer o Cinema Novo e seus diretores grandes e intelectuais, Humberto Mauro com a divertida Velha a fiar e sempre, os documentaristas contemporâneos. De alguma forma o Brasil – talvez pela história política e riqueza cultural e natural, vai saber – desenvolveu essa categoria de cineastas do real que não perde em nada (acho até que ganha) pros internacionais. Então, em todas as listas destes mestres tem um que se destaca, Eduardo Coutinho.

Sou fã de documentários desde criança, quando assistia os filmes da National Geographic com baleias pulando em mares distantes, leopardos correndo em pradarias, elefantes e girafas. Dormia assistindo isso aos domingos de tarde no sofá de casa, em algum canal que não me lembro. E a voz forte e tranquilizadora do narrador, pausadamente falando ‘agora o leão ataca sua presa’ enquanto toda a cadeia alimentar aparecia sangrando na tela. E dava sono, mas era – e ainda é – muito legal de assistir.

O tempo passou e se antes as cenas já eram incríveis, hoje são surpreendentes. O HD veio, as grandes lentes e as câmeras desenvolvidas especialmente para estas cenas de proximidade e velocidade nos deixam boquiabertos e quase esquecemos o narrador. Ele também se especializou e os filmes são deliciosos, dão água na boca mesmo, de tão gostoso que é assisti-los. E olha que são só bichos vivendo.

Do outro lado, tem aqueles documentários de pessoas, muitos muito chatos, com depoimentos longuíssimos, entrevistas frias, quase um interrogatório. Essas biografias de alguém famoso costumam encher um pouco o saco e valem pelo que há entre as entrevistas: as cenas de shows, filmes ou qualquer coisa que o biografado fez de relevante. Dá pra ver, claro, mas não é grande coisa. É por causa desses que muita gente diz que documentário não é filme, porque não conseguem se conectar com o que está na tela e tudo parece uma grande reportagem.

Mas o extraordinário veio, ainda bem. Eduardo Coutinho fez uma escola de cinema sem querer. Ele trouxe os depoimentos mais emocionantes que já vimos na tela, de gente que nunca ouvimos falar. Ele conseguiu contar histórias imensas de pessoas lindas, como muitas que conhecemos e não sabemos sua dimensão. Coutinho conversava com seus entrevistados, ele tinha um dom de puxar assunto e deixar a pessoa à vontade, como se estivesse em casa... algumas vezes eles estavam e a visita era o diretor.

Terminei o curso de cinema com um documentário. Queria mostrar Salvador por quem vivia nela. A cidade vazia é só cartão postal. Conheci pessoas especiais, um pedaço bem pequeno de suas histórias e vi que era isso o que eu queria fazer, eu queria saber da vida dos outros. Anos depois, fiz a pós em documentário e encontrei Coutinho ao vivo. Acho que eu sempre aparecia nas aulas dele como um cachorro babão em frente a um forno de frango de padaria. Eu queria tudo dele, queria saber tudo, queria ouvi-lo falar eternamente sobre cinema, sobre seus filmes, sobre a vida, sobre qualquer coisa que ele quisesse falar. Era legal vê-lo fumando horrores – imagine – numa sala fechada, sendo que só ele podia fumar. Era legal encontra-lo nas sessões dos festivais de documentário todos os anos e assistir filmes na mesma sala. Era legal assistir palestras. Porque era um cara inteligente e era uma pessoa normal. E seus filmes sempre tinham algo único, emocionante e nunca morno.

Uma amiga me disse ontem que quando eu conto um filme legal, as pessoas ficam com vontade de assistir, como se fosse a oitava maravilha do mundo. Não é isso, é só porque eu gosto muito mesmo de cinema, de entender a produção, conhecer bastidores e histórias e, mais importante, as histórias dentro das histórias. Coutinho tem uma filmografia rica de personagens e experiências que atendem a um público vasto que merece assisti-la. Seus filmes são sobre as pessoas e somos quase guiados por elas, com uma naturalidade que nem a câmera parece incomodá-las. A construção dos filmes é tão sensível que perdemos a noção de tempo e no final o que vimos é muito mais do que histórias de um monte de gente; nos identificamos com elas, vemos um espelho dessa sociedade diversa em diferentes espaços, vemos jogos de narrativas e ainda – como se não bastasse tudo – são aulas de cinema.

Coutinho morreu num dia que era pra ser um dos mais bonitos do ano. 2 de fevereiro é uma data importante, uma festa linda na minha cidade, dia de branco e azul e Yemanjá. Dia de jogar rosa branca no mar e agradecer pelo que se tem. Dia de encontrar os amigos e frequentar um pouco daquela energia positiva que uma festa de paz traz. E nesse mesmo dia, aqui no Rio, com uma brutalidade imensa, meu diretor favorito se vai. Eu sou só mais uma que lamenta e fica com o coração apertado como se perdesse um familiar, que não conhecia a tragédia particular de um grande homem que manteve sua residência fechada em um drama imenso e que não fazia parte dessa mídia de celebridades. Como eu, tem muita gente sofrendo com isso, com a perda de um mestre, alguém que servia como base para o que queremos fazer e o Cinema – com letra maiúscula que significa todo o cinema do mundo inteiro – perdeu um de seus maiores criadores.
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Fará três anos no próximo fevereiro que estamos sem Eduardo Coutinho. Nosso documentarista favorito, um dos melhores que já houve no Brasil e no mundo, que conversava – ao invés de entrevistar – com seus sujeitos, protagonistas, convidados. Autor de Edifício Master – aquele que mostra a vida em um prédio de apartamentos de um cômodo em Copacabana, Cabra Marcado para Morrer – um dos filmes mais importantes de nosso cinema, histórico, proibido na ditadura e finalizado vinte anos depois e Canções – incrível e emocionante filme sobre as músicas populares brasileiras que marcaram as vidas de algumas (muitas) pessoas – para só citar três, Coutinho não extraía ou arrancava verdades, mas compartilhava histórias, relatos íntimos de seus brasileiros.

Este ano, o Brasil conheceu uma grande documentarista, na literatura. Svetlana Aleksiévitch, ucraniana, nascida em 1948 e laureada prêmio Nobel de literatura em 2015, começou a ter sua obra traduzida para nosso português, uma sorte e felicidade – e meus eternos agradecimentos a Lucas Simone, que traduziu direto do russo e à Companhia das Letras, que acaba de lançar o terceiro volume, O Fim do Homem Soviético.


Coutinho e Aleksiévitch poderiam ser parceiros de trabalho ou, no mínimo, grandes amigos. Essa senhora nascida na Ucrânia da União Soviética conversa com seus conterrâneos sobre temas caros às suas vidas, grandes assuntos de nossa história mundial. O primeiro que li, sobre o acidente nuclear em Tchernóbil em 1986 (Vozes de Tchernóbil), é um impressionante conjunto de relatos sobre a tragédia, a percepção do povo sobre ela, as estratégias do governo para omitir dados e estatísticas ao mundo, as trágicas consequências e, no meio disso tudo, um ideal socialista levado ao extremo, a cegueira e também a clarividência de quem viveu aquilo tudo.

O segundo, A Guerra não tem rosto de mulher é sobre a participação da mulher na Segunda Guerra Mundial entre 1941 e 1945. Este livro abre nossa percepção para um universo novo – eu, pelo menos, nunca havia pensado em uma perspectiva feminina para as guerras – e passamos a conhecer franco atiradoras, fuzileiras, paraquedistas, pilotas de avião, tanto quanto enfermeiras, médicas, cozinheiras, lavadeiras. É chocante da mesma forma que o anterior e também por não seguirmos ideais políticos como era feito décadas atrás, esta crença na necessidade do combate, na importância e orgulho em participar, na vontade política e, é claro, na própria natureza dolorosa e selvagem de uma guerra. Esses relatos, em sua maioria feito por mulheres, puxam também para o lado sensível do front, para o cuidado nos hospitais de campanhas e nos acampamentos, para a coragem absurda, camaradagem e parceria – sem omitir suas cruezas e crueldades.

Agora me encontro com o desmantelamento da União Soviética, já nos anos 1990 (O Fim do Homem Soviético), entendendo mais uma vez estas verdades individuais, a adaptação a uma nova realidade, a um novo sistema e economia, ao novo cotidiano das pessoas comuns, testemunhas, participantes que, se estivessem em um filme de ficção, seriam figurantes. Aqui, como em Coutinho, são protagonistas.


Svetlana entra na sala das pessoas ou em suas cozinhas e puxa uma cadeira. Ela inicia sua busca por alguns sujeitos e nessas pesquisas, outros aparecem e se convidam, querem dar seu testemunho, querem que seu parecer esteja ali, tão importante e fundamental quanto o da amiga, o do vizinho. São registros vivos da nossa História recente, que foi presente até pouco tempo atrás e cujos livros de história os contam priorizando datas, patentes e sobrenomes, sem o detalhe do olhar subjetivo, sem o brilho do sentimento. Quem dera a escritora tivesse uma câmera à mão e filmasse seus encontros – seria diferente, de fato, mas poderia ser tão bom quanto sua escrita.

A região do que era a União Soviética sempre me pareceu um imenso e nebuloso território que pouco se conhecia, não fossem as pinceladas da Guerra Fria na escola, alguns filmes, os estudos sobre cinema mundial, mas quase ou nenhuma literatura. A exceção, e para isso vale o parêntese, é o livro de John Steinbeck e Robert Capa, Um Diário Russo (Cosac Naify), em que Capa fotografa um tanto do que Steinbeck narra, o diário de viagens de dois imensos nomes da cultura mundial, no início da Guerra Fria, em 1947. Este olhar é do estrangeiro, de quem está habituado ao capitalismo, ao Ocidente, a outra forma de ver o mundo, suas polaridades e se confronta com uma realidade bastante diferente da anti-propaganda americana sobre aquela nação.

Agora um novo-velho mundo se abre e se apresenta da melhor forma, se descarnando, se entregando sob relatos ocultados por décadas de aprisionamento intelectual e político a essa voz  e ouvidos curiosos e acolhedores da escritora. Aleksiévitch se aproxima de Coutinho, caminha entre seus conterrâneos, revela os mais íntimos testemunhos, sobreviventes e viventes do mundo soviético. A voz, ainda que a guia seja a escritora, é dada para o outro e assim começamos a entender um pouco o que foi o pensamento, o modo de vida soviético, o ideal. É impossível parar de ler seus livros, seguimos com uma ânsia cada vez maior por novas histórias, por entrar na cozinha daquelas pessoas e dividir aquele café – ou chá se você preferir acompanhar a cultura local. Coutinho fazia o mesmo, mas sua caneta era a câmera.

Ainda não há um documentarista cineasta como Coutinho. Seus retratos do povo brasileiro a partir de suas conversas – mais do que entrevistas – descortinaram o maravilhoso universo das não celebridades, mostrando que as pessoas comuns são muito mais interessantes em qualquer aspecto do que aqueles modelos programados pela mídia. A diferença entre eles talvez resida na profundidade e no interesse, apenas. A profundidade em suas vozes, olhares e histórias, associada ao único interesse em dividir esse conhecimento que têm sobre si, sobre o tema que o diretor trouxe, ao contrário de um mercado, da valoração do corpo físico como suporte publicitário. Eduardo segue como uma perda irreparável e não há sequer substituto próximo; como não há outra Svetlana, a documentarista da palavra. Se fosse possível, sugeriria que ela fizesse uma série televisiva, se conseguisse convidar e deixar à vontade – como Coutinho fazia – seus protagonistas. É uma ideia de alguém carente por um cinema que não mais existe e que encontra na literatura dessa grande mulher um conforto. Seus livros são, sem dúvida, a melhor descoberta deste conturbado 2016.

Dois links importantes: a bibliografia de Svetlana e a filmografia de Coutinho. 
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Agora segue o texto na íntegra, publicado inicialmente na Revista do Cinema Brasileiro.

As Canções trata de amor. Perdido, sofrido, realizado, feliz. Todas as canções de Coutinho são lindas porque sinceras, de histórias reais e íntimas.

Demorei pra ver este filme. Por algumas razões, mas a maior delas foi uma espera. Estava me preparando porque músicas sempre trazem sentimentos e queria receber esse filme de forma que pudesse apreciá-lo por inteiro. A música, como o cheiro, é um dos instrumentos da memória. É a partir dela que revivemos um passado de sentimentos, de pessoas e histórias. Com elas ficam marcas, tatuagens de cenas que vivemos e se eternizaram. Há músicas que evito ouvir e outras em que faço questão.

O filme veio bem e se tornou curto para o seu potencial. As conversas eram mais uma vez naturais e ocupavam o cenário que conhecemos desde Jogo de Cena; um fundo de palco e uma cadeira: o entrevistado volta-se para a câmera / diretor e faz o seu papel.

A intimidade que os personagens têm com a câmera parece reforçar a presença delas hoje no cotidiano das grandes cidades. A invasão das câmeras é tão grande e dispersa – domésticas, celulares, internet, televisão, trânsito – que o encabular-se deixou de acontecer. Hoje todos querem ser protagonistas, querem aparecer e por que não, estrear no cinema. Então, Coutinho se aproveita dessa vontade do outro de se expressar para construir seus filmes. Com mais de dez grandes filmes em sua trajetória, o diretor é quase um psicanalista que está a ouvir, conhecer e reforçar momentos-chave de cada sessão.

Ano passado fiz psicanálise. Foram poucos meses, então aconteceu mais como uma conversa-desabafo inicial. A psicanalista ouvia e pouco falava; sua participação destacava nas minhas frases, trechos para enfatizar mais o que era importante ser lembrado por mim, do que esclarecer algo da narrativa. Coutinho faz o mesmo. Ele ouve as canções e suas histórias íntimas com experiência e maestria, envolvendo tanto o espectador quanto o personagem na mesma situação: ouvimos e vemos aquelas pessoas comuns se abrindo para nós, para a lente da câmera. São pessoas fortes, dispostas a se expor sem medo ou pudores, com histórias particulares que nos remetem às nossas próprias e às nossas canções, tornando-se universais.

Fui à sessão pensando em quais seriam as minhas canções e histórias. Pensei ainda no que haveria de interessante para trocar com o outro, em como despertaria seu interesse. As histórias de amor são cada uma, um filme em si. Quando as ouvimos, o filme as transforma e as preenchemos com nossas experiências, na imaginação. E em tempos em que o amor parece ser tão difícil e volátil, aqueles momentos tão românticos e sinceros são perenes, lembrados de forma marcante e ditos como “essa era a nossa música”, nos contagiam em emocionantes e francas declarações de amor e felicidade.

Com um dispositivo simples – pessoas que não desafinassem, soubessem a letra e tivessem uma boa história – e mais de 230 depoimentos gravados, 18 se tornaram documentário. Um filme que fala com música, sobre amor. O documentário acaba e nos deixa sentados, esperando a próxima história e músicas que, apenas com a voz de seus narradores, nos preenche naqueles instantes. Na verdade, não parece terminar – ou não queremos que aconteça – e quando vieram os créditos, um suspiro tomou o cinema; todos queriam mais. Ficamos para relembrar os títulos das músicas e seus intérpretes, pensando naqueles personagens e em nossas histórias.

Com 90 minutos de curta duração, Canções traz grandes músicas brasileiras e composições próprias em histórias reais de personagens diversos e desconhecidos. Mantendo seu estilo iniciado talvez desde Santa Marta ou até mesmo no pioneiro Cabra Marcado pra Morrer, Eduardo Coutinho extrai do comum, o extraordinário. Para o diretor de 79 anos e uma filmografia de respeito, o que interessa são histórias de vida, tendo as pessoas sempre como foco e objetivo.

Título Original: As Canções
Diretor: Eduardo Coutinho
Brasil / 2012 / 90 min.
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É com grande liberdade e amor no coração que lanço essa série de filmes brasileiros para gostar e entender nosso Cinema, esse mesmo, com C de coisa séria. Não digo aqui que são os melhores filmes brasileiros de todos os tempos e essa não será uma lista única e finita, pelo contrário, com o tempo, vou postando mais alguns, na ordem da memória. Dá para encontrá-los no youtube, no mercado negro e na Netflix, mas o melhor caminho é sempre o Canal Brasil, na TV, no NOW e o Canal Brasil Play. Lá tem a maior parte destes e outros tantos maravilhosos. 

Praia do Futuro (2014) - Dir. Karim Aïnouz
Jesuíta Barbosa, Wagner Moura e esse ator 'gringo', Clemens Schick trabalham juntos no último filme de Karim, que se passa entre Fortaleza e Berlim. Uma história de amor e um conflito familiar, muito bem articulados. As cenas de amor e do próprio relacionamento dos protagonistas são lindas, sofisticadas e sintéticas. Wagner tá ótimo, como na maioria de seus papeis. E Karim mantem a força de seu cinema, intenso, sério, não melodramático e muito bem contado. 

Estamira (2006) - Dir. Marcos Prado
Marcos Prado costuma trabalhar com José Padilha, um produz o filme que o outro dirige, um pouco como Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Estamira é uma mulher que vivia em Jardim Gramacho, um aterro sanitário. Ela vive naquele limiar de loucura e sanidade, mas é um personagem imenso e inteligente. É impactante, é sobre miséria e sobrevivência e é bastante relevante. Gosto muito dele e da personagem. Mas é um soco no estômago. Tem crítica no Café!

Redemoinho (2016) - Dir. José Luiz Villamarin
Baseado em um conto de Luiz Ruffato do livro Inferno Provisório, é um drama sobre o reencontro de dois amigos de infância no interior de Minas Gerais. Com Dira Paes, Irandhir Santos (um dos melhores atores que temos hoje) e Júlio Andrade, tem ainda outros bons atores em papeis menores. É impressionante a dinâmica criada entre eles, o cruzamento entre memória, passado e como cada um vive o presente com esta história comum que os acompanha. Grande filme e lindo, fotografia de Walter Carvalho. Tem crítica no Café!

Elena (2012) - Dir. Petra Costa
Outro filme intimista, que trata da irmã de Petra, Elena. É um filme de busca, a diretora segue pistas para encontrar sua irmã e compreender sua história e escolhas. Lindo, bem montado, ganhou prêmios pelo planeta e deu destaque à diretora. O segundo filme dela eu não vi, "O Olmo e a Gaivota", mas parece seguir a mesma linha e teve grande repercussão também. Vale dar uma olhada. Tem crítica no Café!


Terra em Transe (1967) - Dir. Glauber Rocha
Glauber Rocha, precisa dizer mais? O homem tem muitos filmes bons e alguns chatos. Gosto de Terra em Transe porque gosto das alegorias, gosto da trama política, de como toda a crítica social está presente, dos diálogos rasgantes, de Paulo Autran. Não assisti Chatô, mas pelo trailer dá pra ver que ele usou bastante deste filme. Deus e o Diabo na terra do Sol é outro grande, mas deixo esse outro aqui, com um viés menos 'regional' e com mais pertinência ao nosso cenário político atual. Está em algumas listas de filmes mais importantes da galáxia.

Cinema Novo (2015) - Dir. Eryk Rocha
Eryk é filho de Glauber Rocha e fez alguns bons filmes. Ele trabalha muito a montagem e a música, então todos os seus filmes têm um ritmo bacana. Esse aqui, como o título indica é sobre o Cinema Novo e toda a sua fase, todos os diretores, tudo enfim. Não é um filme de depoimentos comum, é um emaranhado de cenas e trechos dos grandes filmes dessa época maravilhosa do mundo e do nosso cinema 'alternativo' que, um dia, foi relevante. Claro que se você conhece alguns filmes dessa época, fica mais interessante catar os fragmentos, porque ele faz uma seleção imensa, em todos os sentidos.

Órfãos do Eldorado (2015) - Dir. Guilherme Coelho
Guilherme Coelho traz para o cinema o livro de Miltom Hatoum, de mesmo nome. Esta é uma história de família, que traz a força da cultura amazonense de todas as formas possíveis, com mitos, comida, ambientes, tudo o que tem direito. É um filme "completo", perfeito na forma, com grandes atores (Dira Paes está... ela é incrível e quase Daniel de Oliveira não sustenta sua força com ela por perto). Primeiro longa de ficção do diretor, já dá pra ficar esperando os próximos. Tem crítica no Café!

Peões (2004) - Dir. Eduardo Coutinho
Não tem como não ter Eduardo Coutinho, para mim, o melhor documentarista do país, um dos melhores diretores de cinema deste planeta. Peões fala dos sindicatos, do ABC, da ascensão de Lula e de sua força, mas não é apenas sobre ele, mas sobre aquela realidade. Esse filme foi lançado no mesmo ano que Entreatos, de João Moreira Salles, fruto daquela febre da candidatura de Lula, onde tudo parecia possível nesta nação.

Viajo porque preciso, volto porque te amo. (2009) - Dir. Marcelo Gomes
Filme que pode ser categorizado como Documentário e Ficção. Esta é a história de um geólogo (Irandhir Santos!!) que atravessa o Nordeste de carro, analisando o solo que será alagado pela transposição do rio São Francisco. Ele checa riscos, viabilidade e possíveis consequências. Viajando sozinho, sente falta de sua mulher e conversa consigo no percurso, entre músicas que tocam no rádio, a saudade, os bares de beira de estrada, postos de gasolina, um dia a dia aparentemente monótono e pequeno. É um filme 'lento', porque parece que nada acontece, mas tudo está centrado na força da narrativa, neste homem que conta sua história e como ela se transforma com o tempo e o caminho. 

Santiago (2007) - Dir. João Moreira Salles
O filme é uma conversa com o mordomo, Santiago, da família Salles (de Walter e João Moreira). Parece 'nada', mas é surpreendente esse personagem e como ele fica tranquilo com a câmera. Filmes como estes fazem parte dessa ideia de que o documentário pode não ser apenas aquele tipo que retrata uma realidade, mas que busca uma forma própria, que não necessariamente lide com verdades e fatos, mas que, como a ficção, os interprete livremente. Em preto e branco.
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No dia dois de fevereiro de 2014 um dos meus mestres se foi. Virou luz, foi pro céu, virou poeira e terra, natureza. Não importa a crença. Ele é, ao mesmo tempo, imortal em suas obras, por suas obras, através delas. Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas de todos os tempos e do mundo, sem exagero. 

A falta foi tanta, que lhe escrevi sobre aquele mesmo dia, tão bonito e pacífico em Salvador - Dia de Yemanjá -  tão brutal foi aqui no Rio. Essa aqui é minha homenagem e saudade.

Teve também esse, depois que eu li os livros de Svetlana Aleksiévitch e acho que eles têm um trabalho que se comunica bem e busca objetivos similares com o mesmo afeto, cuidado e qualidade. Svetlana virou Nobel nos últimos anos e cada livro dela poderia ser um filme dele.

Tiveram outros textos e menções ao mestre, não seria de outra forma, mas também tem essas impressões de Canções, um de seus filmes mais gostosos. Vale a leitura.

O título é sobre dois mestres, porque lembrei de outro. Um professor que virou amigo, mas sempre foi orientador da vida, das teorias, do cinema. Mohamed Bamba também nos deixou cedo demais e hoje o facebook o trouxe como uma lembrança, uma publicação minha justamente falando de Coutinho que ele generosamente compartilhou. Muitas saudades de Bamba, daquelas que o tempo não apaga, mas deixa um sorriso das lembranças felizes.

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Aparentemente, além de mim, há muita gente buscando em suas raízes, temas para filmes. Ou que fazem da busca um próprio filme. Como eu, essa diretora foi em busca de seus avôs, redescobrí-los, reconhecê-los e partir deles para contemplar o todo.
Abuelos conta a história de Reno e Juan, um médico autodidata equatoriano e um ativista político chileno engajado no tempo em que isso custava a vida. Carla Valencia D’Avila é o elo; a neta destes latino-americanos com histórias incomuns e pouca convivência com eles. Mas a pergunta que alguns se fazem é: mas o que eu tenho a ver com isso? Ou: por que me interesso por isso, já que não é minha a história?
Os documentários nasceram pessoais. Os Lumiére ligavam suas câmeras e registravam momentos em família, os filhos pequenos, passeios nos parques. Claro que não só isso, porque foi deles também o trem que apavorou todos no cinema e a clássica saída da fábrica. Mas desde muito cedo se registrava em filme momentos íntimos, familiares, histórias que partem de um interesse e com enfoque pessoal abrangendo muito mais.  Um professor de Cinema já me dizia que para falar sobre o correio, parta da carta.
Não apenas nós, mas Sandra Kogut, João Moreira Salles, Kiko Goiffman buscaram dentro de casa, histórias para nos contar. Esse é um mote comum; sem falar dos cineastas que partem das histórias pessoais de outros para construir seus filmes e aí Eduardo Coutinho por si só me resume todo o parágrafo. As questões aqui são: todas as histórias bem contadas, ainda que pessoais, extrapolam o doméstico e é muito fácil se identificar a partir da história do outro; ainda mais se ela trata de assuntos de família.
Aqui acontece o mesmo. O avô Juan foi um militante em prol do desenvolvimento do Chile, país que tanto amava. O Chile estava no período da ilusão – como vários outros países da América Latina – quando se desenvolvimento social e político prometia uma ascensão econômica, mas seu engajamento o levou a um campo de concentração quando Salvador Allende foi assassinado e a ditadura militar assumiu. Carla, nossa diretora, nunca o conheceu. Sua investida parte de histórias da vida de seu pai e tios, encontrando aquela situação política que ultrapassava fronteiras. E numa dessas, precisamente em Moscou, seu pai conheceu sua mãe, uma equatoriana um tanto diferente. Este seria, portanto, o único meio possível destas duas famílias, tão díspares se unirem.
Carla conheceu Reno e só assim, pudemos perceber que seu avô seria perfeitamente um personagem de Gabriel García Márquez. Repleto de histórias fantásticas – agora reais – esse médico autodidata salvou vidas com curas milagrosas a partir de suas fórmulas de imortalidade em comprimidos. Por mais surpreendente que seja a ponto de parecer ficção, é tudo verdade. E é essa a verdade que transcende o filme; aqui já falamos de curas alternativas, de fé, de política, de ditadura. Onde mais haveria identificação? São temas para todos partindo de um.
O filme é muito feliz em sua construção. Como aconteceu comigo, a própria diretora conta sua história, é sua a voz que ouvimos. Não havia outra maneira, acredito eu, já que a investigação também parte dela. As conexões que ela faz com as duas famílias, mantendo ainda uma separação para que não se confundam equatorianos com chilenos é importante para o espectador e chega num determinado ponto do filme que já estamos íntimos daquela história, mais uma vez, como nos livros de Gabriel García Márquez. Não só isso, há ainda a montagem que segue paralela, numa analogia entre o abundante verde da região amazônica, com suas matas densas e rios caudalosos e a secura do deserto chileno; um mar de areia para ressaltar o vazio daquele que ela não conheceu. Também, a violência de um fim com a suavidade daquele que se dizia imortal.

Conhecendo as famílias por seus nomes e relatos, nos confundimos pouco o quase nada e com o final triste – já que sabemos que os dois estão mortos – relembramos nossa própria trajetória, nossas história e famílias, como se uniram, que laços também mágicos estão presentes e quem são nossos heróis. Carla, contando sua história e buscando um passado, trouxe um pouco de cada país, um pouco de culturas mescladas, tudo de América Latina e também nos fez encontrar nossa própria família, que nos esperava em pensamento, do lado de fora da sala do cinema.

Aqui, o site do filme.
E o trailer.
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Ontem li um texto de Borges que contava a história de um labirinto. Segundo o autor, era um romance policial que o leitor só entenderia no último paragrafo. Não era simplesmente um labirinto, mas um emaranhado de livro e labirinto que tratava da infinitude, do tempo, dos universos paralelos, como questões de múltipla escolha, sendo todas possíveis.

Estou digerindo a idéia junto com outros pensamentos correlatos, mas hoje me peguei pensando no Ano. Há mais ou menos um ano participei de uma edição do É Tudo Verdade aqui no Rio. Hoje fui novamente e vi uma estréia do filme de Eduardo Coutinho – Moscou – do qual ainda falarei. Fiquei pensando em quem eu era e em quem eu me tornei nesse intervalo.

Tudo acontece muito rápido. Faz-se a escolha e depois é só seguir o caminho quase que automaticamente. Nem dói. Os dias vão se tornando cada vez mais curtos em nossa memória e daqui a pouco já é amanhã e tenho muito o que fazer hoje, incluindo uma boa noite de sono. Noite essa, que já passo uma parte longa acordada. O dia é curto para nossas tarefas.

Há um ano eu começava meu primeiro trabalho. Há um ano eu ainda me equilibrava para me sustentar e hoje já dou cambalhotas e faço piruetas. Hoje estou indo ao terceiro trabalho, com sorriso no rosto de satisfação e agradecimento a tudo e todos que contribuíram para essas reviravoltas.

Sentei na poltrona do cinema e ela me pareceu familiar. Ao contrário do ano passado já conheço, reconheço e sou reconhecida por algumas pessoas que passam por mim, sentam, compartilham as sessões e espaços. Estou deitada numa cama de um apartamento quarto-e-sala em Copacabana, pertinho da rua que Drummond viveu e escreveu sua vida. Há pouco mais de um ano, morava com meus pais em Salvador, numa casa deliciosa e confortável, calorosa e com She-Ra para me proteger e acarinhar.

Que doidice. Um ano é muito e pouco ao mesmo tempo. Pense aí em quem você era há um ano e em quem você é hoje. Pense nas escolhas, nas oportunidades e alternativas que você aceitou e abdicou e em como elas vão lhe definindo. Ainda há por aí, em Salvador, a garota que não veio pro Rio. O que ela estará fazendo agora? Será que ela ainda pensa em partir? Mas quando? E para onde? Uma coisa é certa: a menina que partiu está por aqui, continua fazendo escolhas, definindo a própria vida e, quem sabe, mais cedo ou mais tarde dará outro pulo do gato.

Como Borges conta, todas as alternativas são possíveis e para cada bifurcação há duas opções que futuramente se transformarão em mais opções e vamos escolhendo aos poucos uma a uma para viver. Se escolhemos não escolher, é também uma escolha. Eu escolho escolher e vou seguindo esse caminho, meio perdido aparentemente, mas cheio de confiança e desafios. Antes assim do que olhar pro teto e elucubrar incessantemente viagens em sonhos de contos de fadas e vidas perfeitas.


Ah! O livro: Ficções, de Jorge Luis Borges.
O Conto: O Jardim de Veredas que se Bifurcam.
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cinema-documentario
É Tudo Verdade | Festival Internacional de Cinema Documentário 2015

Essa semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro acontece a vigésima edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Dirigido e idealizado por Amir Labaki, o evento se consagrou como um dos mais importantes termômetros para avaliar as produções do gênero no mundo. Entre os destaques, uma mostra ao homenageado e incansável Vladimir Carvalho, um filme de seu irmão, fotógrafo e cineasta Walter Carvalho, a estreia do último filme de
Eduardo Coutinho, Últimas Conversas e um panorama do que acontece no mundo e no Brasil em mostras competitivas de curtas e longas, bem como outras retrospectivas que homenageiam o gênero nesses 20 anos e seminários. Ontem, estivemos em duas sessões: Competitiva Internacional de Curtas e o longa nacional Sete Visitas, de Douglas Duarte. Como sempre, ficou claro que ainda há muito para ver até o dia 19 de abril e a mostra de curtas abriu o apetite e deixou a vontade de passar a semana inteira nos cinemas. O É Tudo Verdade é gratuito, acontece essa semana e na próxima em São Paulo e no Rio de Janeiro, seguindo depois para Belo Horizonte, Santos e Brasília. Mais informações sobre programação e salas do circuito em www.etudoverdade.com.br
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Elena era diferente. Era intensa, uma artista com alguns problemas e extremamente sensível, como sua mãe e irmã. Elena sumiu e mesmo sem tê-la conhecido, sentimos sua ausência. Elena se tornou parte de nossa família quando virou filme.

Quando estava cursando a pós de Documentário, os professores insistiam para que fizéssemos filmes que só poderiam ser feitos por nós. Ainda que a premissa sirva para qualquer produção artística, o que eles queriam dizer era para falarmos de um tema nosso, que nos tocasse. Essa proposta, cada vez mais penso nisso, é o fator transformador do documentário brasileiro. A partir do momento em que seu criador decide falar de algo seu, essa esfera particular automaticamente – quando bem feito – deixa de ser uma exposição do próprio umbigo e passa a se relacionar com o universo do espectador. E aí, as referências individuais do autor conversam com as nossas, nos tornando participantes daquela história.

Reforço como característica no documentário brasileiro porque é onde vejo mais obras com essa cara. Perdi o É Tudo Verdade deste ano, mas acompanho há algum tempo as estreias documentais e é isso o que se confirma e parece interessar o grande público. Citando alguns que seguem a linha e que me vieram agora à cabeça: Santiago (João Moreira Salles), Cabra Marcado pra Morrer (Eduardo Coutinho), Passaporte Húngaro (Sandra Kogut), 33, Kiko Goifman, Rocha que Voa (Eryk Rocha), Di-Glauber (Glauber Rocha), Abuelos (Carla Valencia D'Avila, Chile). Ano passado, Sarah Polley trouxe Stories we tell, um documentário canadense que falava sobre sua mãe, tentava descobrir um pouco mais dela, resgatando em sua família e amigos um passado hoje perdido. A narração de seu pai deixa tudo mais bonito e o jogo de encenação com imagens de arquivo completa visualmente o que quase não parecia faltar. É o que mais se aproxima deste.


Em Elena é como se a diretora descarnasse o tema. É isso mesmo, ela se entrega numa correspondência com a irmã, cujo direcionamento prescinde do espectador. Toda a voz off fala para Elena como numa carta, em que Petra, a diretora, se dirige a você, à irmã. Somos espectadores de uma história de amor sem fim, familiar e fraterno, de uma perda irreparável que já passamos ou passaremos em nossas vidas de alguma forma. E aí, o cotidiano delas se transforma na vida de todos. Em paralelo, o filme ilustra uma tentativa de compreender o que aconteceu, o filme indica uma busca pela justificativa ou aceitação para o fim da irmã, para saldar ou, pelo menos, amenizar a dor e a saudade. Petra faz um desenho aprofundado da irmã, mas que perpassa por ela própria, sua mãe e seu pai, reforçando a ausência do último. Esse retrato de família dá indícios dos problemas das três mulheres, sua formação cultural e social e nos deixa livres para induzir e interpretar o porquê da tragédia.

Esses perfis são o panorama, a superfície do filme. Sua construção é feita como linhas de um tecido que, olhando de perto, percebemos o traçado dos fios, seus cruzamentos e rupturas. Aqui conseguimos ver a transformação da perda em poesia, com uma montagem que intercala imagens de arquivo – quando criança, as irmãs ganharam uma câmera doméstica – com Petra criança, a mãe e Elena adulta em NY, Petra andando sozinha pelas ruas, buscando nas esquinas americanas, vestígios de uma antiga presença e por fim, encenações leves, soltas como passos de dança, que pontuam o filme. São passados distintos que se cruzam, reforçando a proximidade das irmãs, a necessidade que uma tinha da outra e de como isso foi suficiente para moldar o futuro da caçula. A trilha sonora nos absorve, mantendo esse clima de saudade, amor e até de uma melancolia que parece fazer parte de todos daquela família. 
À parte a vida real dos personagens, o filme persegue uma aura onírica que expande o que seria um simples relato, uma carta. Os elementos que compõem o imaginário de Petra sobre Elena traduzem duas irmãs em figurinos e performances de sonhos, seja Elena em suas apresentações teatrais – que parecem um prenúncio do fim, sempre tensas – ou Petra com seus passeios, olhares e a própria composição do que vemos. Saímos com coração apertado, sofrendo por elas e por nós, com questões que sequer conseguimos formular. Elena nos deixa com vontade de saber mais, mais dessas mulheres que se mostraram tanto, que se abriram para todos. É um filme de amor, uma das homenagens mais bonitas e honestas que eu já vi, com uma carga de sentimento que quase nunca aparece em documentários. É também uma aula de cinema de uma menina em seu primeiro longa, com uma liberdade de expressão que encerra aquelas questões ultrapassadas do que é e o que não é documentário, do que pode e não pode. Elena é pra ser visto despreparado mesmo, é pra sentar na poltrona e se entregar ao destino do filme. Numa sala lotada num sábado à noite no Rio de Janeiro, ouvia-se o filme, silêncio e lágrimas. Na saída, vi em todos uma satisfação se essa for a palavra, de ter participado. Talvez tenhamos entendido que foi importante ter visto o filme, que a libertação de Petra foi ter reencontrado e redescoberto sua irmã, agora que se tornou mais velha do que ela.

Aqui o site do filme!
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Nem se despediu de mim.
Nem se despediu de mim.
Já chegou contando as horas,
Bebeu água e foi-se embora,
Nem se despediu de mim.

Quem conhece a música, lê cantando e pode até tentar ficar parado, mas é uma dificuldade. Interpretada por Luiz Gonzaga, o rei do baião, é na verdade, de João Silva, um dos maiores compositores de forró do planeta e de quem pouco se conhece. Com Danado de Bom isso muda um pouquinho.

Debby Brennand, diretora pernambucana, teve a ideia de trazer um dos maiores nomes da música brasileira para a graça do povo em um filme bonito, que dá nó na garganta e aperto no coração de qualquer brasileiro que goste de forró e, principalmente do nordestino, retirante ou não. João saiu de Arcoverde, Pernambuco aos 16 anos para ganhar a vida aqui no Rio de Janeiro e ficou por outros 30, numa parceria histórica com Luiz Gonzaga, lhe garantindo um disco de ouro com Danado de bom, que dá nome ao filme e leva três músicas suas das 13 que compõem o álbum: a música título, Pagode Russo e Sanfoninha Choradeira. Conhecemos um homem que gosta de falar de si e dos outros, de suas músicas, do nordeste e sua cultura com um orgulho e paixão de quem sabe de onde veio e não se encanta com qualquer coisa que lhe pareça maior. 
Luiz Gonzaga
O filme acompanha João Silva em uma viagem a Arcoverde, intercalando sua história, as parcerias que fez – especialmente com Gonzagão – com grandes nomes da música brasileira e suas composições, um conhecimento que parece ser autodidata, um talento puro e rico que parte de suas experiências e cultura na criação de mais de duas mil músicas. Conhecemos um homem simples e falador que gosta de aparecer e exibir seu talento, esse de que tem certeza e sabedoria de perceber o potencial e orgulho de ter vivido dele. Como todo brasileiro humilde, não teve vida fácil, nada lhe foi dado de graça e não se fez de rogado, tocou o seu barco como lhe aprouve e fez por onde.

O filme é uma delícia para nossos ouvidos e olhos. Quem gosta de dançar vai sofrer na cadeira com as músicas deliciosas e ícones desse macro gênero que é o forró e as imagens de arquivo, marcando um ritmo gostoso de um tempo passado que se repete ainda hoje em alguns bailes. Para quem só gosta de ouvir e/ou não sabe dançar, vale da mesma forma, aprendemos as histórias das músicas que o mestre compôs com a graça no que é dito, tanto pela forma aparentemente simples com que são elaboradas, quanto pela fala, um trato sertanejo e saudosista de tratar de si. As imagens de arquivo são um grande ganho na narrativa em uma seleção impecável que combina sua vida no sertão, o Rio de Janeiro de quando viveu aqui, sua carreira profissional e por onde sua música se espalhou, com a montagem de Jordana Berg, que só comprova seu talento já conhecido em outros grandes filmes, como boa parte da produção de Eduardo Coutinho. Aqui tudo funciona bem, o equilíbrio dos clipes, as legendas, o grafismo, o carinho e cuidado com que o filme foi feito para enfeitar – não que fosse necessário – uma biografia-homenagem.
João Silva
Vemos a grandeza de um homem simples, desses que sabemos muito pouco – e imaginamos quantos outros compositores que estão sob as vozes de grandes intérpretes não conhecemos – e agora temos a sorte de ver ao menos um. Só neste Danado, encontramos Ney Matogrosso, Zeca Baleiro, Dominguinhos, Targino Gondim, Elba Ramalho, Gilberto Gil e Mariana Aydar, entre outros. E é só uma fração, como toda a biografia, de uma personalidade.

Se em alguns momentos vemos João Silva se pavonear, quase criando um personagem para si, é muito uma forma de se dar a devida importância, entender que lhe deram protagonismo e holofotes além da assinatura de suas músicas e dividir microfones em participações. Essa interpretação é um ganho imenso na obra, por mais que um olhar agoniado se incomode de imediato. É preciso dar tempo e esperar os momentos mágicos que nos dão brilho no olhar, como quando João fala sobre a composição de Nem se despediu de mim ou do comentário sobre a educação formal, gramática e sertanejice, em uma sequência maravilhosa que exemplifica a interpretação equivocada de uma cultura local, que até hoje costuma confundir sotaque, tradição oral e forma de falar com ignorância. É ainda a oportunidade que temos de ver o artista falando de si e do que fez, das saudades dos seus, arrependimentos e glórias, especialmente do amado Gonzaga, lhe dando o valor e peso de alguém que enriqueceu a música brasileira, mas que não fez sozinho. Aqui João também é rei, com cetro e coroa, saudade e sertão.
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Documentário parece um termo pesado que costumava estar associado a filme chato, como aqueles que passavam nas tardes de domingo, com bichos correndo pela África. Enquanto ainda acho que esses têm o seu valor, vim falar da outra categoria, que nos prende até mais do que um filme de ficção. Vamos conversar sobre o novo documentário da Netflix, Os Segredos de Saqqara para entender melhor este tipo de filme e porque é tão importante. E legal!

crítica do filme Os Segredos de Saqqara (2020), o novo documentário da Netflix
Segredos de Saqqara | Netflix

Acabei de assistir a Os segredos de Saqqara, o documentário mais novo da Netflix, lançado neste 2020. Ele conta a história de uma equipe de arqueólogos egípcios que estão escavando a região de Saqqara, um dos sítios arqueológicos mais antigos do mundo, pertinho do Cairo, no Egito. O que podem descobrir ali, abrirá margem para ampliar a história do Egito e, portanto, do mundo como conhecemos. Mas, aí você me pergunta: por que não fizeram uma ficção sobre essa história? Não seria melhor?

O documentário é um gênero cinematográfico?

Não. O documentário não é um gênero como a comédia, o romance, o drama. Assim como 'filme estrangeiro', 'alternativo' ou 'cinema nacional' não são gêneros. O documentário é uma forma de fazer filmes que busca assuntos pautados em fatos, em situações que estão ocorrendo ou ocorreram em nossas vidas. Essa é uma definição muito ampla e que, se formos pensar, também vale para a ficção.
 
A discussão sobre o que é documentário esbarra nas zonas cinzentas da produção audiovisual. Por isso, hoje é mais comum se tratar de filme de ficção e não-ficção. Na minha humilde opinião de não acadêmica, dá para seguir das duas maneiras. Hoje, claramente entendemos se o que estamos vendo é um documentário ou um filme de ficção. Como assim?

escavação na tumba de Wahtye em Saqqara. Documentário Os Segredos de Saqqara.
Os Segredos de Saqqara | Escavação na tumba de Wahtye 
A linguagem é outra. O documentário busca respostas, está atrás de entender sobre um assunto, de conhecer, questionar. Os filmes de ficção partem de um assunto e elaboram uma narrativa sobre ele, um conceito fechado, para construir a história a partir dali. O documentário procura as histórias. Talvez as diferenças devam partir daí. 

Documentários relevantes | A crítica de Os Segredos de Saqqara

Vamos partir do nosso exemplo mais atual: Os segredos de Saqqara. Um filme feito no outro continente, a mais de um oceano de distância, no Egito. Sobre uma escavação arqueológica que busca resquícios da civilização local há mais de 4000 anos. Por que isso é importante para nós, brasileiros (ou humanos, que seja)?

Saber um pouco sobre uma escavação no Egito pode não ter nenhuma relação direta com a gente, se pensarmos rapidamente. Mas, considerando que o Egito é um dos berços da civilização como conhecemos hoje, criamos uma relação. Saber como as pessoas se comportavam, que ferramentas usavam, como se comunicavam, como era a ciência naquela época, contribui para criamos uma linha evolutiva de todos esses aspectos, de nós mesmos. Se pensarmos que só sabemos o que sabemos hoje, graças a pesquisadores, escavadores, arqueológos, antropólogos como estes, conseguimos imaginar assim, que em seu trabalho, eles encontram a nossa História no meio das areias e sob muita terra.  

os antropológos e arqueólogos de Saqqara
Os Segredos de Saqqara | Arqueológos e antropólogos egípcios em Saqqara
Então, a equipe de História e Ciência com seus escavadores chega a Saqqara com o objetivo de encontrar, a partir da existência das pirâmides no entorno, o que havia de civilização por ali. Com isso, o que eles buscam é puramente conhecimento. E, o mais surpreendente, é que eles encontram muito mais. Eles encontram um novo braço da História. A tumba de Saqqara tem talvez 4400 anos e uma família inteira dentro, os Wahtye. Um registro raríssimo e precioso para a nossa vida. Por terem rituais fúnebres e uma crença fértil de vida após a morte, aqueles egípcios deixaram inúmeros registros em hieróglifos - os desenhos antigos talhados nas paredes - contando parte de sua história.

Enquanto escavavam em um prazo curto - a seis semanas do Ramadã, quando perderiam a receita para manter o projeto, encontraram muito mais artefatos e História além daquela da família Wahtye. E assim, não só conhecemos um pouco mais sobre aquela civilização, como passamos a dar outra importância à busca por conhecimento destes grandes profissionais. Do escavador sem formação acadêmica, mas, com um olhar clínico e apurado ao doutor em antropologia, antropozoologia, egiptologia, arqueologia. Estão todos ali buscando aprender.

Assim, documentários são sim, importantes. Se forem como este então, são perfeitos, porque trazem as emoções das descobertas, o cronograma que nos deixa tensos à medida que o tempo vai se tornando escasso, as relações entre os colegas de trabalho, o bem comum. É um filme sobre relações humanas no fim das contas e, mesmo que não seja o nosso objeto particular de estudo, o filme nos fisga na narrativa, em uma história que não vemos ou ouvimos falar todos os dias. Desta forma, o documentário é, também, um filme de entretenimento.

Crítica de Os Segredos de Saqqara, Netflix
Os Segredos de Saqqara | A tumba de Wahtye 
E se buscamos uma análise de estrutura narrativa, encontraremos protagonistas, personagens secundários, jornadas, aventura. Os Segredos de Saqqara é um filme de revelações e a cada novo momento, ficamos abismados e quase viciados esperando a seguinte descoberta e aguardando as análises sobre o que já foi encontrado. Escavar e achar quase intacta uma tumba egípcia de 4000 anos é um presente para nós e isso fica evidente nos olhares surpresos de toda a equipe, de qualquer hierarquia ali dentro. É um filme especial.

Documentário é filme?

Essa é uma pergunta que costuma aparecer de outra maneira, como: é filme ou documentário? Quando vou ao cinema assistir um documentário, um amigo sempre comenta: ah, achei que fosse ver um filme ou ainda, documentário não é filme. Esta premissa parte da mesma da introdução. Documentário é cinema, documentário é filme. 

As formas de fazer ficção e não-ficção são análogas; ambas envolvem câmeras, equipes técnicas, arte, criatividade, roteiro, projeto, são feitos da mesma matéria. A diferença é a premissa: enquanto a ficção parte da história fechada, o documentário busca uma história para contar. 

os segredos de saqqara, egito.
Os Segredos de Saqqara | Outras descobertas do sítio
Com isso sim, Documentários são filmes, sempre - ou séries de tv, como a que esperamos que fosse, Os Segredos de Saqqara. Claramente, o filme nos deixa presos até o desfecho, com a vontade de continuar aquela expedição que encontrará mais surpresas. Este é apenas um dos grandes documentários lançados esse ano. Vale lembrar que começamos 2020 revendo os filmes do Oscar, Honeyland, For Sama, The Cave e outro dia choramos e nos alegramos com Professor Polvo e nos indignamos com One Child Nation. Ficamos atentos e tensos com O Dilema das Redes e com outro importante que acompanha a temática, expandido para a política, Privacidade Hackeada. 

Documentários são portas para uma nova perspectiva ou para ilustrar algum acontecimento. Nos trazem entusiasmo, nos fazem aprender ou relembrar alguma situação ou fato. Nos encantam com histórias brilhantes, como as que Eduardo Coutinho costumava contar. São tão cinema como qualquer ficção. Muitas vezes, são até melhores.  


Gostou do trailer? Invista nesse documentário e se gosta de não-ficção, tem um festival ótimo no país que segue online neste ano de pandemia, o É Tudo Verdade. Vale a pesquisa!

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Vamos manter o café quentinho e sempre fresco? Vem comigo!
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Sobre mim

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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