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Café: extra-forte

As escolas de cinema ensinam roteiro traduzindo a ideia aristotélica de narrativa clássica, indicando que esta sempre acontecerá nos filmes porque somos fadados a produzir e compreender as obras de duração desta maneira. Porque nossa característica humana nos permite perceber o mundo sob a ótica indissociável do tempo, sendo este, naturalmente linear.

Onde então seria possível uma alteração desta ordem? As vanguardas cinematográficas investiram na ruptura dos tradicionalismos, mas poucas vezes conseguiram fugir à questão tempo. Percebemos as vanguardas sob o véu histórico de seus surgimentos, com seus desdobramentos em narrativas paralelas, na alteração da ordem de apresentação de presente, passado e futuro das estórias e buscando em sonhos uma forma diferente de contar. Ainda assim, a forma de compreender não se perde e é possível interligar as ações, ainda que fora de ordem e montar em linha, no cérebro, uma narrativa do que está se mostrando. Até hoje foi possível criar sentido diante de um caos pretendido pelos produtores destas obras de arte.

lynch-david
David Lynch
Um dos locais onde é possível não apenas a ruptura das narrativas, mas de qualquer motivação lógica direta é o universo dos sonhos. Aqui, ainda que busquemos após análises e estudos, os sentidos para o que vivenciamos no sono, podemos não os ter de todo. David Lynch é um dos investidores deste território da inconsciência, da subconsciência. É através dos sonhos e pelos sonhos que percebemos suas criações mais radicais e inovações narrativas. E nos sonhos, como a psicanálise explica, estão nossas verdades quase inalcançáveis, os medos, as fugas. O autor traz em sua filmografia imagens bizarras, caricaturas e tipos. O estranhamento e, por vezes, a aversão são sentimentos freqüentes a seus novos espectadores. Aos familiarizados, há sempre o duelo entre a atração e a repulsa. O estranhamento das situações surreais provoca a necessidade de compreender o que se vê. Veludo Azul, Cidade dos Sonhos, Twin Peaks, A Estrada Perdida e Coração Selvagem são alguns exemplos do que tratamos. Ainda que a narrativa pareça distorcida em contratempos dos personagens e diálogos a interpretar, conseguimos traçar um padrão narrativo e seguimos ao que é exibido, nos atrelando às estruturas-base apresentadas.

Em Inland Empire (2006), em português Império dos Sonhos, a combinação tradicional permanece. Personagens estranhos, diálogos aparentemente desconexos, sequências sem ligação umas com as outras, ícones de medo. Em três horas, o espectador enfrenta o desafio de tentar compreender, de construir o percurso narrativo constantemente rompido. Agora, trabalhando com a tecnologia digital e executando muitas das funções de uma equipe de cinema – produtor, diretor, roteirista e editor – David Lynch ganhou sua liberdade criativa. Império dos Sonhos é a catarse da busca pela significação de quem o assiste, e do ápice para a interpretação de Laura Dern e dos radicalismos de seu diretor.

Peter Greenaway, diretor cujos trabalhos se inserem em alterações na linguagem fílmica tradicional, falou em entrevista recente que o cinema ainda está por vir, que o que entendemos hoje como a sétima arte não passa de expressão literária transformada em audiovisual. Ele assume, como Lynch agora pratica, que as inovações tecnológicas trarão o cinema para o que ele deve realmente ser, uma arte interativa e multimidiática. Os trabalhos atuais de Greenaway permeiam o eletrônico, como uma experiência de múltiplas interpretações e intervenções.

Laura Dern em Império dos Sonhos (2006)

O cinema, estando em renascimento, surge aos olhos de Lynch como uma experiência estética, função primeira das artes. Ao que parece já ter sido verificado com o autor, a intenção não é provocar o entendimento completo do que propõe em seu último fillme, mas vivenciar as imagens, ter a oportunidade de conhecer o conjunto das cenas rodadas. Segundo Lynch, o filme é um conjunto de fragmentos de diversos curta-metragens rodados em outros tempos, montados hoje pelo autor. À primeira vista, é difícil compreender a ligação dos temas do filme, assim definidos:
  • Atriz em oportunidade de dar guinada na carreira participa de elenco de antigo projeto de filme inconcluso devido ao assassinato dos protagonistas;
  • Sitcom de uma família com gigantes cabeças de coelho e diálogos desconexos que provocam gargalhadas numa platéia que não é vista;
  • Uma mulher que chora em frente a um aparelho de televisão aparentemente sem antena.
Em intervalos que promoveriam as conexões entre os grandes temas há prostituição, assassinatos, poloneses falando sem tradução e um cenário que nos faz pensar em algum lugar na Polônia. No primeiro tema, percebemos Laura Dern como a atriz a ser reerguida de uma fraca carreira com um novo projeto. Sua vida pessoal se mistura com cenas do filme em produção e dos encontros com poloneses que ela parcamente compreende e parecem fazer parte da família de seu marido. Assumindo ainda que não os compreende,como os espectadores deste filme, tudo resulta na apreciação da imagem através da interpretação cênica, mas não de um conteúdo oral entendido. A visita inesperada de uma nova e suspeita vizinha à casa da protagonista inspira um início de filme mais plausível e apesar de existirem cenas anteriores – introdução do sitcom e mulher chorando em frente a uma televisão – acredita-se que iniciará aí a proposta lógica do filme. O sitcom inicial, entretanto, inaugura aos olhos familiarizados, mais um filme que romperá a narrativa fluida que vimos, por exemplo, em História Real (1999), sua obra-exceção (A Straight Story trata da trajetória de um senhor que atravessa os Estados Unidos para visitar seu irmão enfermo. O filme é apresentado de forma simples, com a narrativa clássica).

História real (1999)
Enquanto o espectador busca somar as sequências para alcançar o significado, Lynch interrompe os processos lógicos em longas sequências desconectadas. O espectador que enfrenta o desafio permanece no jogo, compreendendo que nem sempre será possível interligar semanticamente todas as sequências, mas vivê-las esteticamente, como acontece nas obras de arte sem duração. Feito esse acordo, sustos são garantidos e sensações estranhas percorrem o corpo, vide as cenas de assassinato e o desenvolvimento do personagem marido de Laura Dern.

Rodado em digital e transformado para 35mm, os típicos planos abertos perdem espaço para planos-detalhe, em iluminação que mescla o noir com o terror psicológico. Não havendo muitos sustos de alterações sonoras, o que encontramos é a imprevisibilidade das imagens do por vir, de sequências carregadas dramaticamente e da justificativa para atores fortes que dominem as cenas, pois o que mais importa neste filme são as impressões que vemos de Laura Dern, por exemplo, enquanto alguém que está a descobrir o sentido do que lhe acontece, um pouco como nós, ao assistir o filme. Com tantas cenas desconjugadas, tantas imagens a executar e absorver com o desnorteamento constante, o filme só nos permite um desejo: deliciar-se com sua própria embriaguez e a promessa de assistir de novo, como um desafio a novas descobertas.

À função narrativa do cinema, cabe esperar pelo declínio final da literatura ilustrada de Greenaway e embarcar em suas performances de VJ, atravessar os percursos visuais de Lynch sem se importar com o contar, mas com o sentir, ou perceber que estas podem ser as novas vanguardas que tentarão se firmar enquanto uma vertente do cinema independente com o universo da tecnologia digital a seu favor. Ao espectador, a fruição; ser agraciado com a diversidade que a as artes permitem e participar delas. Que o desafio de transformar a narrativa torne-se a mola propulsora da inovação artística do cinema, garantindo novas interpretações e teorias, e, acima de tudo, descobrindo outras formas de contar e assim, de ensinar cinema.
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É... como toda baiana que se preze, a praia anda me fazendo muito bem. O verão começou no dia da primavera e o calor só faz aumentar. Dias lindos e, pra mim que moro pertinho do mar, é um sufoco e suplício sair todos os dias de manhã para vir à sucursal do inferno na terra: Lauro de Freitas.

Não tenho exatamente nada específico contra esta cidade, à exceção do fato de ter que vir aqui das segundas às sextas. Lauro de Freitas cresceu sob a sombra de Salvador, fazendo parte de sua região metropolitana. A ousadia é tanta que vivem reclamando o Aeroporto Internacional de SALVADOR para si. Lauro de Freitas é um município onde o desafio é a busca por lugares razoáveis para se alimentar; as opções são escassas e Villas do Atlântico, que corresponde à metade de Lauro, oferece mais opções... em Lauro é possível encontrar muito mais calor do que em Salvador, sem falar na total ausência de beleza natural. A feiúra reina e o máximo que a prefeitura conseguiu até hoje, foi construir uma fonte em frente à entrada do aeroporto, com um formato de barco + berimbau. O senso estético surpreende. Falar em policiamento e segurança ou coerência no trânsito é piada; como toda cidade pequena, as duas opções são quase inexistentes.

Evitando pensar nisso tudo, vivo pelos dias de sol nos fins de semana soteropolitanos. O feriado passou com chuva nesta terra e minha fuga ao litoral norte foi providencial. Retorno à terra natal, agora linda e brilhante, com o sol estampado onde o biquíni não cobre. Praias limpas e tranqüilas, surfistas, ondas e piscininhas. Onde eu fui tinha isso tudo e mais uma pousadinha com gente muito tranqüila. Nessa brincadeira toda, pedi dois altos pra relaxar e mudar as estratégias do jogo.

Com um domingo agitadíssimo e já estressante, fico pensando nas estratégias do descanso e de que forma posso virar este barco para mares mais tranqüilos, onde as ondas batam com força, mas sem perder o controle do leme. Sem problemas novos à vista, vou contornando os obstáculos do dia-a-dia com o retorno de um passatempo que deve construir algo de diferente em mim: o quebra-cabeças. Melhor remédio para concentração e aliviar o estresse, este jogo que acaba com a paciência de muitos, me faz refletir, através do colar das três mil peças, como construo meu mundo. Pessoas importantes e não importantes e o que deve se encaixar ao redor. É incrível como um passatempo pode solucionar nossas questões e criar significado diante das coisas sérias. Ou pode ser tudo invenção, daquelas que dizem que para tudo existe um significado. O que eu penso mesmo é que podemos inventar interpretação que nos apeteça para qualquer coisa e as metáforas e simbologias estão aí para provar. Enquanto tudo acontece ao mesmo tempo, meu olho crava no calendário em busca de um futuro próximo e muito diferente deste presente ensolarado.
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Os dias de fúria estão chegando. Um misto de carência, irritabilidade e dores percorrerão meu corpo e, mais uma vez, me transformarei num monstro apocalíptico. Ainda que isso aconteça invariavelmente todo mês, parece sempre ser insuportável a condição e a briga com algum ente querido. Essa situação catastrófica, como as profecias que se realizam, faz parte de um ciclo feminino que todos compreendem e aceitam.

Quando eu era mais nova, achava que nunca iria ter TPM, como achava também que jamais beberia cerveja. A TPM surgiu em mim quando me dei conta de que realmente tinha problemas a resolver e crises existenciais e outras questões apenas ridículas começaram a fazer parte da lista de tormentos que por vezes percorre meu cérebro e acaba com meu sono.

Agora existem as pílulas. Elas não servem para nada em relação a tudo o que foi citado, mas, ao tempo que reduzem meu prazo de expiração à tortura mensal, definem a data de chegada do armagedon. Quando faltam duas ou três para acabar a cartela, o nervoso e o mau humor viram minha rotina e só me resta conversar com minhas comparsas neste sistema.

Acho que só estou escrevendo isso porque não tenho o que fazer agora e aproveito para justificar meus atos bárbaros da próxima semana. Pode não acontecer nada disso também e o máximo que farei é chorar. Não que eu esteja sofrendo ou que alguém morreu, mas acontece o problema da sensibilidade. É duro ser mulher e instável. Mas sempre desconfie daquelas que não têm TPM. Estas sim, são muito mais macabras. Ou doidas, daquelas que fazem yoga há decênios, não comem nada animal, não fumam e sequer bebem. Desconfie.

Nesse meio tempo, vou beber. Já que, como a TPM, a cerveja é inevitável.
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Não sei se fará efeito, levando em conta que ninguém provavelmente acessa mais esse blog instável. Em todo caso, vale perguntar: qual foi o último romance que valeu a pena ter lido?

Da minha parte, estou me esforçando mais uma vez para ler Shalimar, o equilibrista, do Salman Rushdie. Apesar de todo o sucesso que o autor faz no meio intelectual, não estou realmente me divertindo com esse livro. Tenho uma mania de buscar autores novos pra ler e é a segunda vez que me estrepo. Não digo com isso que ele é ruim, mas já li coisas melhores. O autor enrola no texto, na esperança de trazer encantamento ao que conta, mas cansa o leitor com tantas palavras bonitas. Melhor faz García Márquez, que usa as palavras de forma tal que traz a fantasia perfeita com a combinação dos termos simples sem muitos adjetivos. Ainda assim, estou me esforçando: a história trata de amores em tempos diversos envolvendo as relações entre a Índia, Caxemira, Estados Unidos. Existem momentos realmente bonitos, a tradição da Caxemira, as diferenças sociais, um assassinato, personagens interessantes, mas das 78 páginas do momento, se enxugarmos a enrolação, dá pra tirar umas vinte... sou uma pessoa esforçada, posso mudar de idéia ainda.

Enfim, não sou crítica de livros ou li o suficiente para ter toda a propriedade no falar, mas tratando de gosto, não há erros. Minha segunda escorregada foi com “A menina que roubava livros”, que é mais um livro com histórias do tempo hitlerista.Ainda há nesse alguma graça, já que é a morte quem narra a epopéia da menina, mas o autor inventa uma interlocução com o leitor, opinando sobre a história em muitos intervalos e perde mais tempo na narrativa.

Estou em busca de um livro que me prenda, que me faça ler rápido não importando o número de páginas que eu tenha pena de terminar, como Cem anos de Solidão, O Evangelho segundo Jesus Cristo, A Paixão segundo GH e, por que não, as besteiras femininas de Bridget Jones e similaress. Quero uma indicação de um livro divertido, que me faça ficar ansiosa pra ler quando não puder e tenha pena de terminar enquanto estiver lendo.
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Eis que fui pegar ônibus. Eram quase nove da manhã, o sol brilhava no céu e o mar convidava para curtir. Assumindo a responsabilidade do trabalho, fingi que não era comigo e fui ao ponto de ônibus. Quando fui atravessar a rua, meu ônibus passa e eu abstraio essa situação, mesmo estando atrasada, prefiro não me estressar e perder o dia bonito só por causa do transporte público. Pressa para quê? A vida é assim, pensei.
Atravessei e esperava. Esperava numa boa, me distraindo com tudo, até que vi as três meninas negras sentadas no banco. Elas estavam muito juntas, deviam ter uns vinte e poucos anos e parecia que faziam questão da proximidade; uma delas estava deitada, com a cabeça no colo da outra, que mexia no cabelo. As roupas simples, mas as unhas dos pés e mãos de um rosa choque lindo, que destacava ainda mais a beleza de suas peles. Todos os passantes olhavam para as meninas de comportamento esquisito. Pareciam três irmãs, vindas não sei de onde, sérias, que olhavam desconfiadas e falavam baixinho, uma no ouvido da outra. Eu evitava olhar, mas elas me atraíam de uma forma que eu só me distraía com a tentativa de ler os letreiros dos ônibus.
Depois de uns vinte minutos com o vento e o cheiro do mar me provocando, o Lauro de Freitas azul aparece e entro. Para o bem da nação estava vazio e escolhi o lado oposto ao do mar para sentar. A bem da verdade, eu até sentei do lado do mar, mas além do menino ao meu lado ter me olhado de uma forma muito esquisita - até agora não sei se ele me odiava, paquerava ou estranhava - a criatura da frente fez o favor de brincar de sauna e fechou a janela. Olhei com cara de 'droga' e fui pro outro lado. Pelo menos o menino deve ter agradecido. Acho que tem dias que não queremos ninguém perto de nós e tinha espaço de sobra no ônibus... ele deve ter se perguntado "meu deus, tanto lugar no mundo pra essa menina sentar e ela escolhe logo aqui? Só pode ser pirraça..."

Me mudei e sentei. No banco de trás tinha um cara. Ele parecia com um cara do trabalho, mas, como ele me olhou de forma estranha também - juro que não sei o que se passa - nem olhei no rosto dele e sentei. Ele ouvia coisas no mp3 player e estava encostado na janela com o braço para o lado de fora. Eu descobri isso porque a mão da criatura ficava ameaçadoramente na MINHA janela, sem tocar, mas tomando a lateral. Como eu sou o tipo da pessoa que fica vendo a vida do lado de fora dos transportes, via a hora dele me estapear toda ou fazer cócegas... aí comecei a pensar em que reação teria se ele fizesse algo do tipo. Imagine você, no ônibus, num dia lindo, sentada, vendo a vida passar, e uma mão enorme a te ameaçar? De início achei que ele tava jogando meleca fora, daquele jeito que todo mundo sabe fazer, aí me concentrei e analisei os movimentos e não, ele não era tão podre. Ele tava só recebendo o vento na mão...

Nesse ínterim, a outra mão surge, enorme, apoiada no topo do assento ao meu lado. Um choque, claro. Percebi que ou ele toca violão ou não entende de unhas. A mão tinha unhas enormes e me assustei. Para desviar da situação, olhei pra janela e um alívio esfriou meu corpo: ela já não estava lá. Já pensou se as duas estivessem?

É claro que ele nem deve ter percebido toda a situação surreal que causou... só sei que ele levantou e sentou numa cadeira mais à frente. Quando foi minha vez de sair, ele ainda estava lá e não resisti: olhei bem para as duas mãos, ameaçadoramente, como todo mundo tinha feito comigo durante o caminho.
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“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sôbre o Amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Juscelino Kubitschek
Brasília, 02 de outubro de 1956.


Assim pensava o JK, no auge de sua esperança e fé na nação, no crescimento e progresso que Brasília traria. Ele, como Lúcio Costa, Bernardo Sayão, Niemeyer, Burle Marx e muitos outros que, na cidade planejada para ser o coração do país pensavam que teríamos o que merecíamos e que os candangos que estavam construindo e vivendo pelo país se orgulhariam do que a cidade nação deveria ser.

Brasília, coração do país, foi construída para gerir os mandos e desmandos da vastidão de culturas, nações e populações brasileiras. A arquitetura e as artes se voltaram para o progresso dos 50 em 5 e o país viveu duas décadas de efervescência cultural e política, ensino de qualidade e outras benfeitorias. O aumento de nossa dívida externa foi perdoado pelo interesse e desafio em fazer uma nação crescer em plena América do Sul, Latina, única de idioma português e dimensões continentais.

O que entristece é o óbvio. Com tanta vontade, deu-se o pior. Brasília está suja e podre. Seus odores se espalham por todo o país. Seus prédios estão repletos do ideal do progresso – em suas paredes, pinturas e estruturas, mas no convívio só há desmame, descaso e atraso. Sem precisar tratar do estampido contaminador da corrupção, só nos resta uma saída: sair. Evadir do país ou dizimar a escória política que nos rege. Enquanto nos encontramos entre a covardia de desistir e a loucura de continuar, mais e mais tiram, mais e mais matam e roubam. E as caridades aumentam, porque a culpa é nossa. Nós elegemos e mantemos.

Mas continuamos acreditando no deixe estar. Deixe estar que tudo vai ser bom e certo um dia, que a justiça deixará de ser cega e enxergará de vez as veleidades daqueles que estranhamente possuem demais e são tão poucos. Deixe estar que nossas necessidades básicas de ser humano serão supridas sem precisarmos pedir por favor e gritar. E aí, deixemos estar logo tudo de vez, deixemos sessões fechadas de eleições corruptíveis de cassação, impostos usurpadores aprovados mais uma vez e mais uma vez para nada, porque deveriam ir à Saúde e lá nem se viu a cor. A única cor freqüente é a do sangue, nas raivas nos rostos daqueles em filas de hospitais e clínicas, daqueles que perderam seus amores sem atendimento médico e daqueles que assistem televisão e vêem jornais, lêem jornais e vêem parentes dos outros morrendo, se preocupam com os seus próprios e pedem pra sempre ter condições de não sofrer das mazelas. Esse é só um aspecto.

E nem podemos rezar direito, já que na maioria das vezes, também precisamos pagar pra isso.
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Era sábado. Depois do cumprimento das atividades familiares, me vi livre pra encontrar as pessoas de sempre e pôr as histórias em dia. Combinei de encontrar uma amiga assim que essa saísse do trabalho e pronto, resolvido. A amiga dormiu exausta e fiquei com o controle da televisão, pai, mãe e cachorros... paciência. Era sábado, eu estava tranquila, ficaria em casa numa boa... também não tinha muita opção. O resultado de tudo foi a produção de uma geléia de morango deliciosa que fiz com base no gostosíssimo programa de tv culinário de Jamie Oliver, que passa num canal fechado.

Tenho um fraco por programas de cozinha e receitas... tenho o costume de assisti-los e roubar umas dicas simples que deixam os pratos super ultra mega saborosos. Jamie Oliver é um britânico que começou seus programas de tv com a apresentação das receitas numa cozinha simples, com um monte de utensílios bacanas, dicas importantes, tudo aparentemente fácil de fazer. Na seqüência, um convidado chegava e se deliciava. Pude perceber a evolução de seu programa, quando ele foi passear pela Itália, aprendendo a cozinhar outras delícias. Cada episódio era interessantíssimo, pois mesclava a feitura dos pratos com a exposição casual da cultura italiana.

Ainda houveram apresentações ao vivo, em um teatro e agora ele apresenta um programa de uma horta, ou uma casa de campo com um quintal cheio de segredos. O de ontem foi o morango. Ele fez uns três pratos com o morango, entre eles a geléia. Depois ele jogou a geléia num arroz doce, mas não precisamos evoluir tanto... segue o preparo:

1. Pegue todos os morangos que existirem na sua geladeira. Na minha tinha um potinho, mas pra sair bonito na foto coloquei tudo num prato. O Jamie fez com dois quilos de morango. Corte os moranguinhos para a etapa posterior ser mais fácil de realizar;

2. Para cada quilo, 150 gramas de açúcar comum, cristalizado. Nada dessa coisa de açúcar refinado que faz muito mal para nossa preservadíssima saúde. Joga lá na vasilha dos morangos cortados;


3. Essa é a parte mais divertida. Quando passamos por momentos de raiva e sentimos vontade de destruir as coisas, xingar, dar murros e tapas... lave bem as mãos e mate os morangos: espremas-os o máximo que conseguir. Uns pedacinhos continuarão lá, não se preocupe, mas triture com vontade. É nojento, mas é muito gostoso de fazer;

4. Joga toda a morangada batida e de aspecto duvidoso numa panela, mexa só de vez em quando, tire as espumas que aparecerem quando as bolhinhas da fervura surgirem e deixa lá por 20 minutos em fogo médio;



5. Deixe esfriar para não queimar a língua, bota num pão, torrada, biscoito ou similar e se divirta! Não esquece um cafezinho pra acompanhar. Fica bom, viu!? Não dura tanto quanto aquelas que compramos nos mercados, mas não tem química nenhuma envolvida, o sabor é muito mais leve e autêntico. Claro que deve ir à geladeira.

No fim da história, fiquei vendo Memórias de uma Gueixa pela segunda vez. O filme, apenas um curto parêntese, vale a pena. Apesar da vergonha de ser falado em inglês, o idioma original da terra dos olhos puxados, trata de uma forma bacana do papel destas mulheres na sociedade oriental. Trata ainda da beleza, da vaidade e da inteligência femininas. Não é um filme para um sábado à noite, mas não faz mal assistir de vez em quando...
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A maior dificuldade do ser humano contemporâneo é, possivelmente, manter-se ético. Claro que a moral, um dos componentes da Ética é uma variante cultural que parte da definição dos princípios fundamentais de bem e mal, certo e errado, mas ainda assim, com a globalização e internacionalização dos grandes valores, é possível traçar um perfil humano de fazer o bem e fazer o mal.

Por exemplo: os governantes de todo o mundo não devem tomar dinheiro que vem da arrecadação fiscal para uso próprio. A arrecadação fiscal serve para a manutenção do Sistema de governo e do aprimoramento dos setores sociais de que se responsabiliza, como Saúde, Educação, Transportes, Alimentação e Emprego. A CPMF, um imposto cujo P de Provisório já se tornou Permanente, apregoa que sua renda deve ser destinada a sanar um dos problemas nacionais que se tornou a Saúde. A CPMF arrecada por ano, mais de quatro bilhões de reais e a Saúde pública do Nordeste mata pacientes por não atendimento, visto as condições alarmantes de instalações hospitalares e vínculos empregatícios cruéis.

Nossos governantes são os mestres na arte da enganação e de seu fator conseqüente direto: o assassinato. Sejamos práticos: quando os governantes criam salários estapafúrdios que lhes satisfaçam, abarrotam dinheiro em cuecas e malas, contratam laranjas e não conseguem identificar legalmente sua renda e bens, eles, por dedução e comprovação, roubam dinheiro nosso. Com isso, acidentes nos Transportes acontecem, a Saúde não dá saúde a quem dela carece, os Empregos não crescem juntamente com a economia nacional, a Educação, menos letal de todos os quesitos, fica à mercê de milagres dos educadores comprometidos com um sonho de país melhor e a Alimentação inexiste. Pessoas morrem de fome, violência, acidentes e falta de atendimento médico. Claro está, portanto, que todos os corruptos, corruptores e até corruptíveis de nossa nação deveriam estar presos sem CPI ou qualquer prerrogativa de protelação de pena, mas com um julgamento sumário, público e direto.

Não é radical pensar assim, mas humano. No Oriente Médio, aquele que rouba tem sua mão decepada; em Portugal, qualquer governante que está sob suspeita de corrupção é automaticamente afastado do cargo e sua remuneração cortada até que se comprove sua condição e, na China, meu país preferido em atitudes contra infratores, os corruptos são condenados à pena de morte e morrem com um tiro na cabeça cuja bala é paga pela família do ladrão. Aqui, cuja maioria da população sofre da culpa católica ou de sei lá que outra bondade surreal, nada se faz e, quando muito, apóia-se quem rouba, mas faz. Aqui, mesmo sabendo quem são os corruptos, construímos suas campanhas políticas a troco de grandes remunerações, aceitamos politicamente suas trapaças, entendendo que nossos shows musicais acontecerão de forma mais tranqüila, garantimos a segurança de nossos artistas comprando policiais, compramos terrenos do Estado e de Áreas de Proteção Ambiental, como quem compra os votos e reescreve os nomes nos papéis das urnas, garantimos, por fim, nossa satisfação mesmo que esse nossa advenha de uma parcela reduzida de cidadãos.

Com tantos focos da sociedade carentes quanto a incidência das queimadas nas matas de nosso país nesses últimos dias, lembramos que tanta revolta por coisas certas que não existem, gera a violência nas ruas e nos corações da civilidade. Mas aí, ao mesmo tempo, lembramos dos bandidos que se fantasiam de policiais, dos policiais que viram bandidos, dos bombeiros que viram bandidos, dos médicos que matam seus pacientes realizando cirurgias mutiladoras, professores de escolas carentes do norte do país incitando suicídio e pensamos que, por mais católicos ou qualquer coisa que sejamos, não adianta rezar ou pedir perdão, mas gritar, fechar ruas e implorar para que algo seja feito. Parar Transporte, parar Saúde, parar Educação. Com o país parado, esperamos que os governantes corruptos pelo menos tenham a decência de se movimentar um pouco a nosso favor.
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Hoje eu peguei ônibus pra ir ao trabalho. Faço isso algumas vezes e cada uma tem um gosto diferente que quem acostumou-se ao automóvel aproveita pouco. Claro que o conforto e a pretensa segurança do carro são incomparáveis, mas perdemos alguns detalhes do dia-a-dia...

Entenda o que eu quero dizer: moro perto da praia e quando vou de coletivo, vejo o mar. Não me preocupo tanto com o trânsito, já que não sou a motorista e minha função enquanto cliente é sentar e esperar chegar em meu destino. Então, quando sento ao lado do mar, é o maravilhoso espetáculo da praia mais bonita e sujinha da cidade - Itapuã. Você esquece a poluição e se contenta com o vai e vem das ondas lhe abrindo o dia para os desafios do cotidiano. Quando sento, como hoje, do outro lado, me contento em olhar as pessoas.

Enquanto as observo, imagino suas vidas, famílias, trabalho, as histórias de cada uma e claro, suas roupas. Não há como negar, me interesso mesmo por isso, gosto de me vestir e de ver o que as pessoas usam. Mas não é disso que vamos tratar.

No caminho fiquei pensando nas notícias que leio diariamente. Está acontecendo um crescimento absurdo da violência no país e, em particular, em Salvador. Os assassinatos aumentaram mais de 30% em relação ao ano passado, todos os dias carros são roubados e furtados e nunca se assaltou tanto nos transportes coletivos. Quando nos voltamos aos índices de crescimento econômico e desenvolvimento nacionais, estamos no azul. Se não culpamos a economia, culpemos o governo que organiza o crime com suas corrupções dando exemplos, os serviços de segurança aos cidadãos que servem para dirimir, mas nunca prevenir ou a educação que não existe.

Fui até o trabalho pensando nisso enquanto olhava os figurinos e os personagens e tentei encontrar diversas justificativas para se assaltar um ônibus, já que nunca se conseguirá muito dinheiro e que aqueles que os roubam, utilizam os mesmos transportes diariamente. A miséria é tão gritante que:

1. as necessidades do assaltante devem ser muito urgentes para que 72 ou 30 reais as satisfaçam:
comida ou droga;

2. perdeu-se a total noção de respeito ao próximo que realmente está próximo:
a maioria das pessoas que usa o transporte coletivo mora em bairros populares, exatamente onde as famílias dos assaltantes estão. Eles acabam por assaltar o vizinho ou o primo;

3. o desafio: esta é a mais ousada e talvez absurda hipótese, mas pode ser que o assaltante queira apenas ver se é capaz, como num batismo, de realizar um assalto e partir para a evolução da categoria.

Claro que estas são questões já debatidas por muita gente que anda nos coletivos e que eu, por não andar tanto, acabo tornando a coisa casual, por assim dizer. O que acontece é que não sou a única pessoa que a cada passageiro que entra fica querendo saber se é um mau-encarado ou uma pessoa tranquila, sempre há o momento de insegurança, até que o indivíduo passe por você.

O que tem ficar claro nesta terra com leis que ninguém cumpre é que independente de governo ou objetivos políticos, a segurança deve reinar, pois só assim os trabalhadores terão paz em suas atividades, gerando mais renda para o país e incrementando ainda mais a nossa tão querida economia. O grande problema é que uma coisa sempre está atrelada a outra: se não juntarmos ao menos a alimentação e a educação, não há como acabar com a violência. Mas a alimentação depende de emprego e para tanto, saúde. Esta rede que todos conhecemos parece só não ser bem compreendida por aqueles que as deviam promover, e aí, nada funciona.

E agora, José?
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menino voltando da escola, Filipinas
Tenho passado as últimas semanas me integrando de tudo o que acontece no mundo. O marasmo do trabalho exige que eu busque na internet refúgio e informações para preencher o dia sem acreditar que estou perdendo o tempo realizando as atividades de rotina. O resultado disso é que continuo a me perguntar se é importante apreender tanta informação sobre o que acontece em todos os lugares.


Acredito que a questão mais importante em se aperceber dos fatos da atualidade está no que fazemos com cada notícia que recebemos. Assistimos a telejornais, lemos impressos e revistas e a internet é um sem-fim da compilação de tudo isso e mais um pouco. Mas, se apenas passamos o olho em tudo só para ter o que conversar sem realmente pensar no que nos foi dito de nada serve. Não podemos simplesmente concordar com tudo o que os jornalistas resumem.


Anteontem vi um comercial do Banco do Brasil. Um vídeo muito bem feito, com narração, música e coletânea de imagens 'vamos salvar o mundo', cujo slogan era o número 3, três atitudes que você pode ter por dia para melhorar/salvar o lugar que vivemos. Motivador emocional, o vídeo que dura entre 30 segundos e 1 minuto, nos faz realmente pensar em pequenas ações que podemos realizar diariamente. A Corrente do Bem (Pay it Forward, 2000), filme de Mimi Leder, trata da mesma proposta e apesar de ser um melodrama chato, também promove idéias interessantes.

As razões desta preocupação parecem ter dominado a mídia nos últimos anos. Aquecimento global tornou-se motivo para até políticos virarem astros de cinema. É de bom-tom tratar do assunto, ainda que você seja um estadunidense e sua nação não aceite as políticas de economia global para preservação do meio ambiente. Mas, quando paramos para pensar que Leonardo Di Caprio e Al Gore estão fazendo documentários-campanha, que todos os dias algum ambientalista está nas tvs nos alertando dos desastres futuros, a National Geographic publica um artigo imenso sobre o destino trágido de New Orleans e vemos os índices pluviométricos do sul asiático, realmente levamos algo pra pensar em casa.

Não digo com isso que me tornarei a nova ativista e que somarei 30 e não as três atitudes do Banco do Brasil, mas que me mantenho tentando preservar e economizar no que posso e que me paro refletindo sobre o que eu posso fazer, naquilo que está a meu alcance para fazer parte da turma que se preocupa.

Mais importante que pensar nas campanhas de uns e outros políticos pela preocupação do momento, é necessário que pensemos em nós e como a vida de pessoas muito parecidas com a gente está acontecendo neste momento nos lugares de crise. As notícias não devem ser apenas ouvidas e perdidas nas ondas do rádio ou nas emissões televisivas, mas pensadas como questionadoras da situação que vivemos. Do contrário, para quê saber?

Mumbai, Índia
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Tentei fugir, mas não consegui: hoje me apareceu a cópia pirata do "Ó Paí, ó" e assisti. Somemos a isso os acontecimentos do III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual nesta semana e o caderno especial lançado pelo jornal A Tarde sobre o evento.O Seminário foi grande, com convidados especiais, temas interessantes e oportunidades de ser um acontecimento cultural de peso na cidade. Filmes importantes foram lançados e se buscou pensar o audiovisual em suas diversas performances. O cinema baiano teve um destaque polêmico.Alguns acreditam que existe Cinema Baiano. Acreditar nisso é separá-lo do Cinema Brasileiro, que deveria abarcar todas as produções nacionais, independente de onde foram feitas. É compreensível: somos paternalistas. Só é permitido entender assim, já que não falamos sinceramente dos filmes que fazemos, sempre passamos a mão na cabeça de nossos diretores e dizemos 'muito bem'; quase não fazemos filmes e ainda assim, nos achamos especiais e diferentes do restante do país.

Encaremos a realidade: vivemos de editais e pronto. Nem todos os nossos filmes são bons, André Setaro tem razão em suas palavras. Seu artigo publicado no caderno do A Tarde nada mais diz senão a verdade sobre nós. Mas o que ele fez foi um crime: jogou na nossa cara que somos assim, não disse um 'tudo bem' no final e pronto, ficamos 'com a cara mexendo', pra fazer jus à coleção de falatórios do "Ó Paí, ó".O mais interessante é que não para por aí. O link: isso tudo aconteceu de uma só vez no Seminário. Descobriram a polêmica de fazer Cinema Baiano, depois ouviram um importante critico de cinema dizer que este não existe porque não há cinematografia suficiente e mais, ainda falou que precisamos aprender. Quase ficamos à deriva, não fossem as manifestações de nossos pais protetores nas listas de cinema e em outras manifestações.

Perdemos tempo pensando em como nos proteger frente ao nada que nos infrenta. Em um espaço destinado ao conhecimento, debate e cultura, discutimos o formato de nossos umbigos e gritamos quando alguém os acha feios. Perdemos de conversar mais, de saber mais sobre quem faz o quê, de mostrar pra quem é estudante o que acontece de fato no cinema feito na Bahia e no mundo. Tudo se transformou num bate-boca vazio e sem sentido. Deveríamos achar ótimo ter alguém para criticar nossos filmes, só assim aprenderíamos alguma coisa. Apenas intuição, boa vontade e elogios não servem de nada.E, pra fechar com chave de ouro, o filme da Mônica Gardenberg. Filme feito na Bahia, sobre a Bahia: é uma coleção de falatórios, de nossas gírias e dos tipos que circulam por aqui. É a soma do dicionário baianês com todos os clichês há pensados para a terra do acarajé. É a superfície da superfície da margem de qualquer realidade baiana e mais, atesta que o jeitinho brasileiro é exclusividade do baiano, já que nunca foi tão explorado como neste filme. Não solicitamos dramas, produções de crítica social, temas sérios. Pode ser até sobre o Carnaval, como foi, só que poderia ir além, como... mostrar realmente o Carnaval... mostrar realmente o Pelourinho, como as pessoas são, como não vivemos só de farra e 'gaiatice'.

Do filme inteiro só vi que somos atirados... nada mais. É clipe de Carnaval, filme feito por turista e para turista. As pessoas que vivem em Salvador, que trabalham com cultura... ou que simplesmente pensam, não deveriam gostar do filme. Ele perde em verossimilhança e, sem isso, não há obra que se sustente. Tiraram uma foto da "Salvador do Carnaval Mundial" e colocaram em movimento. E aí, esse filme faz parte do Cinema Baiano? Melhor é dizer que somos brasileiros...Ganhamos com "Ó Paí, ó" a lembrança de sermos provincianos sem solução, eternos adoradores de farra e orgulhosos de nossa dança e sensualidade. Somos tão vaidosos que nem ligamos muito pra essas coisas sérias. Somos bonitos e pronto, nossa música é fantástica. Mas somos tão pequenos que discutimos isso tudo em Seminários Internacionais. Ou é por que somos grandes demais e só o nosso espaço é suficiente? Será que precisamos de mais alguma coisa?
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Enquanto a gripe tenta dominar meu organismo, fico pensando no último filme que vi: Apocalypto, de Mel Gibson. Após o terrorífico filme de Jesus que estigmatizou para sempre a carreira do Coração Valente, eis que nosso cineasta resolveu virar antropólogo: lançou uma aventura Maia. Como de costume, utiliza os idiomas referentes a cultura que propõe retratar, ainda que a linguagem de seus filmes não fuja às aventuras norte-americanas. Até entendo esse bloqueio, ele não pode não pensar como americano, isso é fato. Os chistes são do tipo que vemos em Velocidade Máxima ou em outros que têm 'matar' em alguma parte do título. Ainda assim, resolvi dar um voto de confiança porque nunca vi ninguém retratar a cultura maia e achei auspiciosa a idéia. Vamos em frente, pensei.

O filme não passa de uma correria nas matas tropicais dos índios que mais pareciam brasileiros do que maias, salvo engano, bravos donos das terras mexicanas. Em resumo: três tribos, duas são açoitadas por uma mais 'civilizada' (que parece combinar mais com a nossa idéia dos Maias mesmo) que os utiliza como sacrifício aos deuses. Aqui surgem questões como: por que diferentes tribos falam o mesmo idioma? por que só percebemos no império maia a escravidão, a exploração e o sacrifício? por que, um filme que retrara uma cultura de época não realmente trata da cultura, mas apenas de suas expressões de violência? Acredito que o diretor tenha buscado alguma analogia com a vida real, mas ele deve ter percebido que esta idéia culmina numa critica à sua própria cultura e não a que eles acham ser a dos bad guys.

Obviamente no filme há o personagem principal e este foge o tempo todo, sendo o único sobrevivente homem de sua tribo. (Sim, é mais um desses filmes em que só sobra um para contar a história) Chega o momento em que ele percebe que não adianta fugir e que deve enfrentar aqueles que invadiram sua vida e lhe tiraram a paz, os amigos, a família, e não há mais o que perder. O clichê não diria melhor: a caça vira caçador e Jaguar Paw se torna senhor de seu destino.

Ao contrário do que eu esperava, o filme tem uma reviravolta interessante e a transformação do personagem é muito bonita e bravia. Imaginava eu que ia ser mais um filme em que a inocente vítima apenas foge e seu trunfo é sair viva da trama, mas aí o momento da coragem torna a vítima em algoz e nosso senso de justiça aflora, passamos a desejar o assassinato de todos os malvados.

Infelizmente o final é ridículo, mas vale a idéia da coragem, da força que somos capazes de possuir e da crença que devemos ter em nós. Chega um momento em que nossa única decisão válida é o enfrentamento, não apenas por uma justiça ou pelo que acreditamos ser certo ou errado, mas por ser nossa única opção, aquela que nos faz ser quem somos.

De ontem pra hoje a gripe se fortaleceu no meu ser, mas estou enfrentando como o indiozinho e esperando um filme realmente legal na tv, com café preto bem quente e comidinhas gostosas.

Só um último ps: o pôster não condiz com o filme, nem é o protagonista na capa e não se vê nada direito. É feio e parece ter sido feito às pressas. Aproveitando, queria opiniões sobre a fotgrafia, que não achei nada demais, mas creio que deve ser um desafio para um diretor de fotografia filmar em florestas.
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Não é só vontade de sair... é vontade de sair, de gritar, de fugir de tudo, de sumir na vida, com uma praia azul e vazia na frente pra ficar lá dentro do mar, fingindo que sou peixe. É esta droga de sentimento de que tem alguma coisa errada ou que vai acontecer e que me aperta e de que estou fazendo as coisas erradas muitas vezes... e no fim, nem sei se são erradas ou se eu que estou achando tudo errado.

Não é só a mudança do trabalho, é o que insisto com meus próximos e preocupados, é algo mais... são as vontades de outras coisas, também não tão grandes e difícieis; até alcanáveis elas são. E, enquanto eu tenho a certeza de que o que planejo e almejo vai me amadurecer e me tornar outra, existe uma pontinha de dúvida, lá dentro, quase escondida, que insiste no "é disso que você realmente precisa agora?" Mas continuo fingindo que não ouço isso, porque sei que é estupidez e que eu realmente preciso disso por muitos motivos.

Tem umas coisas na Bíblia, que não sei direito porque não li a Bíblia, que são chamadas de Grandes Revelações. O que importa é só o título. Acho que na vida passamos por momentos de Grandes Revelações e que antes destes momentos chegarem, uma crise deve acontecer. Porque as Revelações não surgem como uma surpresa, não são um susto. As grandes descobertas são fruto de estudos e na vida acontece o mesmo. Daí acho que estou num momento pré-Grandes Revelações.

Hoje acordei cedo e fui ver tv. Descobri que não ia fazer a prova de espanhol porque havia perdido aulas e não sabia pra onde iam as coisas por lá e fui pro sofá. Estava passando nada na tv e assisti assim mesmo, mais pra que as imagens passassem por mim e me dessem tempo de pensar na vida e me distrair ao mesmo tempo: a tv tem a capacidade de fazer refletir sobre tudo o que não passa lá e, ao mesmo tempo, te fazer ignorar sobre esses assuntos quando seus pensamentos se encontram com a vida real e se tornam resoluções e responsabilidades, aí é o momento em que você se desconecta dos pensamentos e vai se distrair com as imagens. Entre uma coisa e outra fiquei me perguntando porque eu me divertia mais antes. Não é depresão nem nada disso, acho que é essa coisa de novas perspectivas e o que elas trazem mesmo e vejo isso porque me tornei mais crítica com tanta besteira que estou num momento de deixar de ser chata de uma vez por todas e permitir que todas as coisas horríveis, chatas, burras, estúpidas e grotescas existam sem a minha percepção tão clara disso. Como uma pessoa reticente costuma me dizer, seja mais leve... estou tentando...

Enfim, vai passar quando tudo se resolver, apesar da imagem do mar azul estar sempre me rodeando como uma vontade entranhada em mim. Vontade eu sei, que nunca vai se esgotar e vou estar sempre buscando... buscando...
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Foi a frase que o ator Paulo José falou para o Matheus Nachtergaele outro dia aí. Tô lendo a Bravo! nova e ela diz isso em uma reportagem sobre o ator de Baixio das Bestas, filme que ainda não entrou em cartaz em Salvador, do Cláudio Assis.

Conheci esse menino Cláudio no último Festival de Gramado, junto com a companhia divertidíssima e especialíssima dos queridos Renato Gaiarsa, Rodrigo Luna, Edgar Navarro, Wladimir Carvalho e José Araripe. A viagem foi estranha, parecia que eu estava no universo paralelo do Brasil. Lugar frio demais, bonito demais, branco demais, parecia um cenário... e eu no meio daquilo tudo, até as pessoas eram estranhas, parece que faziam parte de um roteiro... Sabe o A noite americana, do François Truffaut, que a primeira seqüência é a filmagem de uma cena numa praça e quando ele grita corta! você toma um susto? Pois é... fiquei esperando alguém gritar o corta!, mas nunca aconteceu. Ao invés disso, tivemos almoços gratuitos e divertidos, dançamos com o pessoal do restaurante que parecia aquele do Solar do Unhão (chamamos ele de Solar do Unhão de Gramado), assistimos filmes bacanas, concorremos a premiações, conhecemos algumas pessoas legais, comemos muito, bebemos mais ainda.

Tudo é muito bom de lembrar nesta viagem: Marcela morrendo de frio e quase chorando no quarto do hotel, dizendo que não ia sair de lá e no fim das contas estávamos as duas passeando no meio das nuvens; a carona que pegamos de um homem que ficou com pena de nos ver no ponto de ônibus; a enorme quantidade de chocolate que comi e café que bebi de graça; as pessoas que conheci e as coisas que aprendi.

3 noites maravilhosas:
1. A que encontramos as meninas. Depois de passar muita raiva diante da frieza das pessoas do sul que nunca conversavam com a gente, topamos com duas meninas que estudavam em Caxias do Sul. A primeira coisa que nos perguntaram foi se éramos de lá e quando dissemos que não, elas deram graças a deus e saímos para beber. Foi ótimo! No fim das contas, elas não tinham onde dormir e foram dormir escondido lá no nosso quarto. Depois tomamos pagação do mercenário dono...

2. Não lembro como começou, só sei que estávamos com os troféus do Gramado Cine Vídeo, eu com os de Xanxa e Rosalvo, e Luna e Wrewre com os que lhe cabiam e saímos para ver a estréia do Wood & Stock. Quando passamos pelo tapete vermelho todo mundo achou que a gente era global ou sei lá o quê e o pessoal do Tocantins que conhecemos num passeio ficou nos gritando e tiramos fotos. Quase um Oscar, imagine! A diversão mesmo foi que eu tinha bebido e comecei a ver o filme...e dormi. Mas o filme é massa!!!

3. A última noite do Festival de Cinema. Arara, Cláudio, Edgar, Chela, euzinha, Luna e Wrewre bebendo um monte de vinho na varanda de um restaurante qualquer do lado do Palácio dos Festivais. Bebi e ri demais nesse dia. Me diverti muito e saí feliz e cantante para o hotel, já sem frio, claro: eu pra um lado, Chela pro outro, sempre me gritando para segui-la. Descobri que não fui a única a estranhar os costumes frios da região. O Cláudio não curtiu muito e o Araripe teve que sair para apresentar algum prêmio no Festival.

Enfim, o que eu sei é que ainda espero o filme do Cláudio aparecer por aqui, com muita ansiedade. Mas a frase. É muito boa. Melhor ainda é que o Matheus a considera irretocável. Essa matéria da Bravo! tem uns tópicos sobre o ator, como um retrato falado. Este fala sobre o fascínio da morte, a do suicídio. Não sou exatamente fascinada por isso, mas ele é, talvez por não ter conhecido a mãe que morreu assim... o mais legal é pensar que o Paulo José falou isso, provavelmente num de seus dias de bom humor. Ele é um ator que parece sempre estar de bom humor. Mesmo com seu problema de saúde, está sempre bem, querendo viver da melhor forma possível. Provavelmente ele falou essa frase numa conversa amena, com um tom de voz tranquilo de quem sabe o que é a vida porque já viveu muito mais que muita gente deste país e soube aproveitá-la.

Nesse fim de semana fui ver um filme francês no cinema com Renato. Passou o trailer do documentário sobre o Niemeyer e eu lhe disse: Renato, sou fã desse cara. Eu acho que o Niemeyer, o Chico Buarque e o Tom Jobm é que são brasileiros de verdade. Vou acrescentar à lista o Paulo José. Na verdade, eu só lembrei dos três naquele momento, mas dia desses faço a lista quase completa.
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Hoje não sei sobre o que escrever. Vamos ver o que acontece, mas já ia começando assim: almocei no Tango. Claro que só comi besteiras deliciosas, como torta de café e torta de atum com um monte de coisas dentro. Mais um capuccino. E um enjôo gigante, vontade de vomitar e muito arrependimento. Estava tudo maravilhoso, só que comi demais. E essas coisas demais sempre dão problemas... enfim.

* * * * *

Depois de uma noite mal dormida, acordar cedo e uma rinite interminável durante todo o dia, consegui driblar a chuva e chegar em casa. Prontamente tomei banho e soltei os filhotes (parêntese: tenho filhotes de She-ra, são dois dálmatas, He-Man e Tila) e me joguei no sofá com o bom e velho cobertor. Eu sou aquele personagem do Snoopy, amigo do Charlie Brown que vive com um cobertor por todos os lugaes...Mino? Sei lá, nunca sei o nome dele. Fui mudando os canais da tv, tenho mania doente de zapear, normalmente fico no máximo meia hora vendo tv e pronto. Só que desta vez foi diferente. Quando mudei os canais todos, estava passando um filme estranho. Chamava-se: Monólogos da Vagina.

Achei o título tão inusitado que resolvi experimentar. Era uma mulher americana que havia feito diversas entrevistas com mulheres pelo mundo, especialmente pelos EUA, e havia descoberto muitas coisas interessantes sobre o universo sexual da mulher. Algo como um Relatório Hite mais popular ou o outro filme que trata da vida sexual das pessoas, muito bom, por sinal, Kinsey, é seu título. Em Monólogos, a entrevistadora estava num palco, realmente executando um monólogo sobre a vagina. Um não, vários! Ela se valia das experiências coletadas nas entrevistas - algumas delas inclusive são apresentadas a nós - e criava em cima um texto bacana, com diversas impressões e expressões sexuais.

O filme me provocou diversas sensações. Não sou uma militante das descobertas sexuais da humanidade e nem me interessam muito os programas a la Sue alguma coisa que falam de sexo na tv. Não sou puritana, só acho que é uma coisa muito divertida e natural e que todos devem fazer sempre que sentirem vontade com as pessoas que sentirem vontade e se elas assim concordarem. A grande questão é que não é comum vermos a vagina como o foco das atenções. Na grande maioria das vezes, ou trata-se de sexo por ele mesmo, enquanto 'pacote completo' ou do pênis, que não discutiremos aqui. Entre os monólogos, a apresentadora/atriz/entrevistadora trazia um panorama sobre o próximo texto, com alguns trechos das entrevistas e informes, acontecimentos que causaram o novo subtema.

E aí vemos desde coisas realmente excitantes, de gemidos e prazeres e motivos e observações - um texto fala de uma história de uma mulher que passou a amar sua vagina depois que um cara com que se relacionou passou a observá-la realmente 'em todas as suas formas e peculiaridades', por assim dizer. E percebemos que algumas mulheres entrevistadas nunca se viram e não sabem como realmente são, como seu corpo se define, e em cada palavra, gesto, olhar, percebemos o interior de mulheres maravilhosas que se esconderam muitas vezes com medo da imagem que fariam de si mesmas. Já outras, por vezes se intimidavam com a câmera, mas ainda assim, percebíamos uma liberdade maior e risos, muitos risos de se encontrarem à vontade de conversar sobre um assunto que poucas pessoas falam com elegância e não com vulgaridade.

Só me incomodei um pouco com o fim, depois de alguma excitação e muitos risos - a personagem é engraçada e surreal - porque o último tema era sobre um parto que ela presenciou e ela poetizou o momento, que a maioria das mulheres acha lindo e deve ser mesmo. Quando eu for adulta espero pensar o mesmo, mas por enquanto a idéia me assusta um pouco... O texto escancarava o parto em detalhes e, como já vi em outros filmes, nunca me foi uma expriência agradável. Tenho minhas agonias com isso, ainda que queira ter três filhos. Penso no barrigão e na criancinha, mas nunca no entreato...

Por fim, aconselho a nós todos esse filme que causa estranhamento, incômodo, excitação e admiração. São muitas informações, um horizonte amplo e que queremos que seja ainda maior, vemos mulheres corajosas e tranquilas com seu conhecimento e não-conhecimento de si mesmas, vemos situações impactantes e uma forma de descobrimento incrível, tanto para os rapazes quanto para as moças. E, não me canso de dizer, sou fã da mulher corajosa que se mostrou e mostrou seu trabalho a tanta gente, de forma tão natural. Precisamos de mais mulheres assim, que consigam chegar lá na frente e dizer apenas: somos mulheres.
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Antonio Máquez

Esta segunda-feira aconteceu em Salvador um espetáculo de ballet flamenco da Companhia Antônio Márquez, de Madri. O TCA estava cheio das pessoas que nunca vemos pela cidade, à exceção de minhas coleguinhas do flamenco que tentamos aprender nas noites de segundas e quartas. O espetáculo não foi barato como os xous da Concha Acústica, mas valeu cada centavo e talvez eu ainda fosse capaz de pagar mais.

Acho que minhas necessidades de ver coisas diferentes aliadas ao cansaço extremo dos pequenos conflitos do dia-a-dia me impulsionaram como num desafio para cruzar a cidade. O espetáculo foi magnífico, me estimulou 1000% para continuar na danza e me divertir, porque não há esporte melhor do que o conhecimento.

Sempre conheci muito pouco sobre o Flamenco. Sabia que era uma dança espanhola e tive pouquíssimas experiências visuais, já tinha visto em filmes e só. Entrei ano passado e me apaixonei, mas, ainda assim, não tinha noção da beleza e energia dos movimentos execuados com perfeição. Antonio Márquez transformou a noção de limite entre a sensualidade e o equilíbrio que a rudeza dos passos no tablado e do quase flutuar do ballet clássico poderiam permitir. Se eu conseguisse realmente identificar todo o acontecido no palco em palavras, não valeria tanto a pena.

Estou redescobrindo meus prazeres mais uma vez. Eu sei que isso tudo pode parecer muito intecional, levando em conta que meus convidados de mesa já se empolgaram com o último escrito, mas estou disposta a esse novo desafio.

Um bom reencontro como tive esses dias com amigos de longa data, regado a velhas histórias e novos acontecimentos, amigos de sempre e que nunca causam estranhamento quando nos cumprimentamos.

O café com chantily do Tango, que já mencionei e a notícia de que abriram outra cafeteria na cidade. Hoje estive na aula de espanhol e me tremia tanto de frio... só porque não havia tomado café. Nada como a hora do intervalo pra alimentar nossos vícios mais divertidos e simples.

Uma conversa de telefone e boas idéias no trabalho que te surpreendem e alegram. Uma ponta de orgulho dos colegas e a satisfação de ainda se divertir com todos eles.

Sei lá. São pequenos prazeres que vão alimentando nossa vida e dirimindo nossas queixas, amenizando nossas ansiedades e permitindo que consigamos viver os diversos sabores do cotidiano. É necessário uma pitada de qualquer coisa nova durante a rotina para nos sentirmos diferentes. Só assim percebemos que passamos com o tempo e não apenas que ele passou por nós, como uma duração de qualquer coisa.
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Mais uma vez, solteira em definitivo. Isso aqui não é classificados. Todas as pessoas que ousam ler isso aqui sabem, pelo menos, de metade de minha vida. Posso falar do livro do Saramago?

Então: acabei de ler "As Intermitências da Morte". Divertido, mas me irritei com o fim. É uma estória divertida sobre a personagem morte. Ela é hilária, inteligente e sagaz, mas se atrapalha um pouco. Queria discutir com alguém sobre o final do livro, mas ninguém que eu conheço leu. E agora?

Vou pro Tango escrever minhas opiniões um dia. O Café, claro. Um caderno... porque esse é o tipo do programa que nem todo mundo tem saco de aceitar. Mas eu sou a favor, então vou. Chega um momento em que ser solteira se torna quase uma profissão: você define onde ir, quando ir, que roupa usar e o mais importante: que acessórios ter à mão.

Porque, quando todos os seus amigos estão ocupados e/ou namorando, e você percebe que não há mais ninguém da sua faixa etária que você curta compartilhar momentos disponível, você pega o irmão do códex e vai pra um canto legal, da cidade ou do teu quarto. É sempre bom. Daí, no caso de você ter escolhido a cidade, tem um monte de opções e em todas pode ver as pessoas e o comportamento delas e escrever contos divertidos em seu caderno ou agenda, também à mão ou ler o livro que carregas. Que seja num lugar agradável, sem muito barulho e calor. De preferência, longe da rua e do trânsito. Opa, tem que ser uma cafeteria. Acabaram as opções, eu tentei ir além dos cafés e tortas e salgadinhos legais. Ia esquecendo: no caso do teu quarto, pode ficar de camisola, pijamas, calcinha e camisão ou simplesmente pelada na cama lendo e escrevendo abobrinhas como essa que ninguém vai se importar e você vai se divertir à beça (mas tem é tempo que não leio/ouço/vejo essa expressão). Cuidado com uma coisa: caso isso seja freqüente e você se divirta muito, sua mãe pode vir a te acusar de depressiva e lhe encher a paciência para que encontres um analista o quanto antes. Ou seja, disfarce!
:)
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Calma, não é o que você está pensando. Nada vai acontecer de eroticamente extraordinário por aqui. Mas... até que é uma idéia, um conto erótico... não sei se tenho competência para escrever essas coisas. Tentarei.

Recebi uma proposta indecorosa. Uma proposta de casamento. Aceitei, claro. Foi a primeira, vai que não rola a segunda chance, oportunidades devem ser aproveitadas. Não tenho namorado. Como assim, você pensou. Assim. Tudo acontece ao contrário na minha vida. Padrão, pra quê.

Foi divertida e hoje sou noiva de araque. A proposta foi ridiculamente orkutiniana e quem a fez é uma pessoa muito divertida, me alegrou, claro. Vai que cola mesmo... Não posso casar por agora, mas daqui a pouco... quem sabe.
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diarios

Desculpe. Estou estressada. Não me concentro mais. Escrevo poucas vezes, sempre muito. Dizem que quem fala os males espanta (não era quem canta?). Foi o que aprendi hoje quando não falei na hora que devia. Mas depois eu escrevi e espantei uma parte. O problema é entregar o papel. E agora? Que nada, amanhã entrego e pronto. Fim de drama.

Descobri uma cafeteria em Villas do Atlântico, chama Tango. Me levaram lá e o lugar é lindo, gostoso e tudo o mais de legal que raras vezes aparece por essas bandas. Aconselho o expresso com chantilly, até porque foi a única coisa que consegui tomar até agora. Mas tudo parece gostoso.

Depois conto um conto pra você. Por hora, mando um beijo. Pra mim! :)
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"Temos que aceitar a nossa eixstência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar."

"Falando-se novamente em solidão, torna-se cada vez mais evidente que ela não é, na realidade, uma coisa que nos seja possível tomar ou deixar. Somos nós."

Estes são trechos de um dos livros mais importantes que já li. É Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. O livro é simples, trata de uma coletânea de cartas a um jovem escritor que aspira o título de poeta. Rilke escreve para ele, respondendo a seus anseios, nunca criticando seus textos, mas lhe mostrando formas de ver a vida, a união imprescindível de pensamento e sentimento. O texto é simples e corrido, mas há que prestar atenção a cada vírgula e pausa, pois aí é que está o verdadeiro, o imo de suas palavras, as entranhas de todo o livro. E depois, um texto belíssimo, de presente, quase que esquecido depois ds cartas. Sabe aquela caixa onde guardamos nossas correspondências afetuosas? Aí escrevemos um texto que gostamos muito. Guardamos lá. É onde está, no livro.

E eu, que converso tanto com dois amigos sobre solidão, encontro aí, não minhas palavras, mas minhas idéias descritas. E é tão difícil, ás vezes, seguir o que pensamos. Mas devemos. E esses trechos são para eles. Acreditem, não sou a única que pensa assim. E a você que me emprestou e depois percebeu que eu não poderia ficar sem o livro, valeu. Você bem sabe a importância disso tudo.

É só.
:)
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Esta é uma noite de insônia. Fui dormir na hora errada, entretida nos contos de Maupassant e são quase quatro da manhã. Enquanto minha mente se torturava em pensamentos de dúvidas eternas e cruéis (sabe aquelas decisões que devemos, mas nunca nos atrevemos a tomar?), os minutos passavam. Desisti e acendi a luz.

Estou no meu inferno astral. Domingo é meu aniversário e meu fevereiro não foi dos melhores. esta é a segunda noite seguida de mal dormir e amanhã tem trabalho.

Hoje fui ver o mar. Parei o carro em Praia do Flamengo e fiquei vendo a chuva chegar. Era como uma imensa cortina cinza que, ao invés de sujar, limpava de doce as águas salgadas. Enquanto o aguaceiro vinha, eu esperava. A água batia no meu rosto e me molhava a roupa. Deu vontade de tirar tudo e correr pro mar. Passou. Voltei pro carro, fechei o vidro e me tranquei.

A água molhava o vidro e o mar era todo pingos de chuva. O céu era cinza. Uma tranqüilidade meio triste me foi tomando o espírito. Não sei se da chuva no mar, do cinza do céu ou de mim, apenas. Liguei o carro esperando alguém que nunca veio. Cheguei em casa sem esperar mais nada, tomei banho, comi e dormi na hora errada.
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Já é quase março, mas pouco importa: falemos do meu janeiro. Tirei férias o mês todo. Como marinheira de primeira viagem em férias oficiais de trabalho, não planejei nada. Ia ser apenas uma viagem de sete dias para Cumuruxatiba com a turma do trabalho e pronto.

Fui ao sul da Bahia, me diverti muito, me estressei um pouco e voltei a Salvador. Ficaram enchendo, dizendo que eu não deveria perder as férias por aqui, por que eu não viajava pra Arraial D'Ajuda, que eu fosse sozinha e tudo o mais. Acabou que me empolguei com a ideia e fui.

Uma semana sozinha. Depois segui viagem e parei em Itacaré. Outra semana sozinha. A bem da verdade, estive só comigo mesma, mas sempre rodeada de pessoas bacanas. O incrível é que quando você independe de qualquer pessoa ou condição, pode escolher tudo o que te cerca: companhia, amizades, experiências. Não me arrependi de nenhuma das escolhas, ganhei algumas amizades e, acredito, uma amiga. Vi como é fácil estar só e como é importante trocar.

As experiências destas três semanas de janeiro longe de Salvador me fizeram crescer muito mais do que três meses aqui. É só ter confiança em si e saber até onde, até que ponto se pode contar com os outros. Este janeiro me ampliou os horizontes para um ano realmente novo. Disso tenho certeza.

***

*Minha primeira viagem sozinha. Na vida.
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Antigamente, num reino mágico e distante, existia um blog chamado Instantâneos. Anos se passaram, mudanças foram vividas e hoje nasceu o Café: extra-forte. Deliciem-se, mas, antes de tudo, seguem os dois textos iniciais do ano - Janeiro de 2007 e De noite na cama; resquícios do que foi a vida num Instante.

***
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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