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Café: extra-forte

Se você um dia pensar em morar sozinho, provavelmente enfrentará os três momentos desesperadores, sintetizados como Surgimentos Inexplicáveis.
  1. Você costuma manter a casa limpa e razoavelmente arrumada e, do nada, surge uma barata gigantesca no banheiro. O ralo do chuveiro está fechado. O ralo menor que fica perto da privada também. A pergunta é: de onde a infame surgiu? Por mais que você tente descobrir isso, é importante não perdê-la de vista e eliminá-la prontamente. Ela pode resistir a vazamento radioativo, mas perde para o baygon. Se o medo surgir em seu coração e você resolver chamar o porteiro, duas coisas podem acontecer:
    a) o porteiro encontrará a barata, matará e te deixará feliz para sempre, agradecendo a ele horrores e pensando em lhe comprar um presente;
    b) o porteiro não encontrará a barata, o que significa um aumento substancial do seu desespero, um agradecimento sem graça ao porteiro e o olhar dele pra você de 'se lenhou'. O baygon ainda é a melhor opção se você é como eu, incapaz de matar/acertar a infame com sandália, sapato, bota, revista ou xampu.
  1. Em mais uma tarde de estudos, você resolve fazer café. Esquenta a água... faz o café. Senta-se para continuar a leitura e, cinco exatos minutos depois, um cheiro de gás inunda a sala. Você, achando muito surreal que o cheiro venha do fogão, já que você acabou de utilizá-lo, vai ao aquecedor. Nada acontece. Vai à cozinha e lá está o cheiro brutal do gás. Enquanto você acaba de pensar: ela deixou a saída do gás aberta. Não: um surgimento inexplicável de uma brecha antes da torneira do gás (aquele dispositivo que fica entre a tubulação que sai da parede e a mangueira) criou o vazamento e eu ia morrer envenenada/queimada. Liguei para a dona do apartamento, que me enviou o encanador-pedreiro-bombeiro-pintor, que resolveu mais um problema do além.
  1. Você chega em casa depois da aula, vai ao banheiro fazer xixi (notem: xixi), dá descarga e continua os processos de chegar em casa etc e tal. Na manhã seguinte, percebe que a água está ainda amarelada e dá descarga mais uma vez. A água sobe... e não desce. O desespero toma seu coração e você simplesmente finge que não é com você, que a privada de repente está com preguiça e que vai descer a água em algum momento. Vai fazer uma coisa ou outra e volta. A água está lá. Um surgimento inexplicável de entupimento de privada assolará sua tarde para sempre. Você pensa em todas as coisas nojentas que estão contidas neste entupimento e pega a coisa mais nojenta existente além da privada entupida (e da barata): a escovinha da privada. Mexe e remexe na água agora com outros tons e descobre que não adiantou nada e que resultou apenas no aumento do nojo que você sente e a certeza de que jamais olhará para aquela privada como da primeira vez.
Neste momento acabo meus tormentos cotidianos. Descobri, depois de uma investigação que a solução será coca cola ou a soda cáustica com água fervente, utilizando luvas e lenços e trezentas formas de proteção para não morrer queimada/intoxicada. Vou buscar os equipamentos na rua e um dia contarei o fim de mais um dia comum de situações surreais. Uma coisa é certa: quando você resolve morar sozinha, até pensa nessas possibilidades... mas pensa nelas lá... bem longe de você... e, de preferência que se vierem a acontecer, será uma vez na vida... e não todas no mesmo mês.
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Igual a tudo na vida
O fim de semana correu frio e chuvoso na suposta cidade maravilhosa. Mantive meu senso crítico em alta e acabei numa tarde de sábado agradável em companhia de Woody Allen e seu novo filme no cinema. Ainda investindo na sociabilidade, fui num bar recém inaugurado e até divertido, que rendeu momentos tão leves quanto as conversas. Retornando ao período de reclusão, me peguei desde sábado à tarde até hoje e espero por mais uns dias, pensando no Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008 – o do cinema), em suas formas narrativas e no que ele propõe. Minha surpresa agradável foi neste domingo de preguiça e sofá: Igual a Tudo na Vida (Woody Allen, 2003) e O Selvagem da Motocicleta (Francis Ford Coppola, 1983) numa seqüência em que se tornou impossível não associar os três bons filmes e traçar possíveis paralelos.

Ainda no sofá, me peguei pensando sobre as formas narrativas dos três filmes e percebo que eles seguem a mesma base: uma voz off que conta a história enquanto ela acontece e traça observações, opiniões sobre os personagens, seus sentimentos e ações. Isso é o que costumeiramente chamamos de voz de Deus: alguém fora da tela e da história que sabe tudo o que acontece na trama, a vida dos personagens e ainda está acima do bem e do mal para ditar as regras do jogo e nos favorecer com seu ponto de vista. Nos filmes fracos, é uma alternativa a algo que o diretor/roteirista não conseguiu exprimir em imagens, como o Jane Eyre (Robert Stevenson, 1944) em que trechos do romance são literalmente lidos pelo narrador a cada marco narrativo da trama e a imagem correspondente a este tempo é justamente um capítulo aberto do livro com o trecho narrado destacado. Jane Eyre surge na geração dos filmes que hoje consideramos clássicos por seu tempo de produção, com Elizabeth Taylor ainda menina e Orson Welles co-protagonizando. É um filme interessante, com roteiro do livro de uma das Irmãs Brontë (Charlotte, lembrando que a outra irmã, Emily, escreveu O Morro dos Ventos Uivantes) e que traduz um tempo onde o romance era romântico, os dramas verdadeiras tragédias e a mulher sofria as inevitáveis dores em uma sociedade que a fazia calar. Nos concentremos nas formas mais recentes.

Em Vicky Cristina Barcelona, encontramos o padrão do diretor somado às transformações percebidas há aproximadamente cinco filmes. Deixando de protagonizar seus filmes e dando vazão às histórias em novas locações, vemos um quê de experimentação em um dos mais ativos cineastas da atualidade. Neste filme, um narrador conta a história dos diversos conflitos amorosos entre Vicky, Cristina, Maria Elena e Juan António. Como em Igual a Tudo na Vida, este narrador esta a par dos acontecimentos presentes e futuros, ainda interpretando e cogitando as ações dos personagens. O interessante é que nestes dois filmes, o narrador comenta e quase conversa com o espectador, levantando questões sobre o que está na tela. A diferença entre as duas narrativas, apesar de simples, transforma e enriquece o trabalho do diretor. Vicky Cristina Barcelona traz questões sobre relacionamentos contrapondo a sociedade conservadora e seu padrão frente a uma situação que se impõe e que extrapolaria o que é tido como regular e que não seria ruim de todo. Os personagens percorrem a trama, vivenciando suas falas em locações belíssimas, enquanto nosso narrador nos faz pensar no que se vive ali. Igual a Tudo na Vida tem outros questionamentos e uma marca maior da neurose típica dos filmes do diretor, com ele em quadro e diluindo seus pensamentos em cada personagem. Além do narrador que nos acompanha, o protagonista investe diretamente num direcionamento a nós espectadores, passando por situações e nos questionando, como um personagem de ficção que entende que há não uma platéia, mas um participante ativo da história que tem opiniões próprias e, como o narrador, está a par dos acontecimentos fora da trama.

O Selvagem da motocicleta

Acompanhado desses dois filmes de Woody Allen – lembrando que ele é um dos poucos diretores cuja experiência no cinema o fez usar diversas formas narrativas para contar histórias simples – há o terceiro citado, O Selvagem da Motocicleta. Coppola já havia consolidado sua carreira brilhantemente com duas edições de O Poderoso Chefão (1972, 1974, o último viria em 1990), Apocalypse Now (1979) entre outros filmes, e com este trouxe mais ênfase no narrador de que tratamos. Não querendo adentrar no universo mítico do filme (com referência a O selvagem, 1953, somadas às questões autobiográficas do diretor, sociedade americana, gangues e o sonho do oeste americano), encontramos este narrador participante. Ele surge ocasionalmente, com muito menos freqüência do que nos demais filmes, mas nos lança questões para refletir, sobre os ideais do protagonista, sua vida e seu futuro. Resumidamente é a história de um jovem que busca se auto-afirmar com base no ideal que construiu de seu irmão mais velho – este sim, o Selvagem da Motocicleta – que comandava as ruas de sua cidade, subitamente parte para o oeste americano e retorna, rompendo os ideais do irmão, exibindo uma família desconstruída e uma previsão de futuro curta que a delinqüência promove.

Além da qualidade narrativa, do roteiro elaborado e de excelentes performances, os três filmes garantem entretenimento sem muitos efeitos especiais. Os três, por mais que suas histórias sejam diferentes, possuem em comum os questionamentos que temos sobre situações que passamos. É evidente que em O Selvagem da Motocicleta, há que dar-se um desconto por sua época e caracterização, ainda que vejamos na representação familiar, no discurso e experiências de nosso protagonistas, situações similares na 'vida real' da juventude em alguns espaços urbanos. Da mesma forma, Igual a Tudo na Vida investe na crise do relacionamento de um jovem casal e encontramos em Vicky muito a pensar sobre como nos relacionamos, a partir da possibilidade avistada com a diversidade e decidir sobre romper as amarras sociais tão conhecidas e investir em um território novo e repleto de oportunidades.

Ainda que Jane Eyre tenha entrado de supetão na história e ganhado um juízo de inferioridade frente aos demais, ele reaparece aqui como uma reflexão interessante quando o contrapomos no quesito das relações sociais. É um filme bonito, que exige o cuidado de atentar para a época de produção e o retrato que se fez de uma geração ainda anterior. Vemos na narrativa que apresenta os capítulos, marcos importantes para o desenrolar da história de Jane, esta menina desafortunada e sofrida que enfrenta como pode as situações de sua vida. Orson Welles é o homem com um passado em brumas que se desfazem aos poucos e há a surpresa de encontrar Elizabeth Taylor, uma criança cuja pequena participação já consegue destacar sua beleza e facilidade com as câmeras. É um filme cujas cores trariam um adicional de beleza, como visto nos demais, à exceção de O Selvagem da Motocicleta, em que o preto-e-branco proposital conjuga com a narrativa e peculiaridades daquele que carrega o título do filme – é daltônico. Para fechar, o que podemos perceber disso tudo é que à medida que o cinema vai percorrendo a história até o momento que vivemos, a interatividade que chega com as novas tecnologias e a tv digital encontra seu paralelo no direcionamento das narrativas em voz off. A voz de Deus está cada vez mais humana e comunicativa.

Filmes:

Em Cartaz
Título: Vicky Cristina Barcelona
Diretor: Woody Allen
País: Estados Unidos, Espanha
2008, 96 min

Título: Igual a Tudo na Vida
Título original: Anything Else
Diretor: Woody Allen
País: Estados Unidos
2003, 108 min

Título: O Selvagem da Motocicleta
Título Original: Rumble Fish
Diretor: Francis Ford Coppola
País: Estados Unidos
1983, 94 min

Título: Jane Eyre
Diretor: Robert Stevenson
País: Estados Unidos
1944, 97 min
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Cá estava eu, deitada na melhor posição para arruinar a coluna no sofá, quando decido ver o último filme de Bigas Luna passando no canal fechado. Yo soy La Juani conta a estória dessa menina que decide tomar o rumo da própria vida e tentar atingir seus sonhos a partir da realidade. E mais uma vez, o personagem menina que quer ser independente nos invade e carrega para seu universo de comparações com o que somos.

Juani é como eu, uma menina com vontade de aventura e coragem para se jogar nela. Bastou um motivo para que seus anseios se tornassem agonia e ela saísse para ganhar o mundo em Madri. Carregou uma amiga com ambições parecidas, curtiu a fantasia da cidade e caiu no dia-a-dia sem tanta maquiagem. Ninguém disse que seria fácil, certo?

Mas Juani segue em frente e aí entra a mágica do filme de Bigas Luna: nos concentramos na personagem sem esquecer a beleza das cores em sua construção. Uma fotografia suja, levemente granulada, com tons urbanos, mas narrativa sensível. Juani não esquece seus problemas, sua família e a princesa sai da carruagem do príncipe que se torna só mais um em sua vida, por mais que ela quisesse o contrário. Mas ela também não é uma princesa; é uma mulher em construção.

Bigas Luna aliviou a mão neste novo filme. As cenas de sexo – tão freqüentes e intensas que marcam sua filmografia – aparecem aqui mais suaves, como de uma menina real que não tem muita vergonha e sabe o que quer. Faz parte da elaboração do personagem essa sensualidade vista já a distância, não apenas com o desnudamento proposto no figurino, mas na forma como mexe o corpo, como anda nos saltos, como dança e dirige seu olhar. Juani tem a doçura do descobrimento no olhar, a maquiagem que carrega em seus olhos é só para tentar tornar mulher mais rápido aquela que ainda chora quando as ilusões se desfazem.

Costumo carregar as bandeiras dessas mulheres ou meninas-mulheres, pois estou na mesma linhagem delas, descobrindo meus caminhos a cada passo dado. É uma busca que a boa ficção transforma uma estória espanhola em universal. Este aprendizado que escolhemos traz o prazer da identificação com personagens como Juani; sou heroína da minha própria história, sem esquecer a ternura, o sorriso, a audácia e a constante observação aos movimentos que nos orbitam e impulsionam.

Título original: Yo soy La Juani
Diretor: Bigas Luna
País: Espanha
2006, 100 minutos.

Observações impertinentes:
1. Não dá pra ver muito na foto, mas a protagonista é muitíssimo parecida com Natalie Portman;
2. Haverá a seqüência do filme. Aguardemos Juani.
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Esses dias o mundo dá uma parada entre a crise econômica, o cargueiro dos piratas e as guerras mundiais e particulares para esperar. Todos ganharam uma ponta de esperança, talvez maior sentida nos Estados Unidos, com Barack eleito. Milhares de fotos, charges, vídeos, reportagens mantêm nosso ideal de mundo melhor em suspensão: estamos na ativa concentração tentando descobrir quem é esse homem que alavancou o maior poder do mundo e que enfrentará sua maior crise.

Há uma simpatia por ele; negro, bem formado, não são poucas as comparações, analogias, lembranças em relação à questão negra e seus heróis americanos. Hoje mesmo, acessei o New Yorker e vi estampadas séries de charges criticando Bush e fortalecendo os ideais que acreditamos encontrar, através dos discursos deste novo homem. Segundo a reportagem que acompanha a imagem acima, Obama não é o herói do movimento negro e reconhece sua história de luta, mas um homem com capacidades de liderar um país multicor. E enquanto seu discurso acontecia no dia da vitória, milhares choravam e não apenas norte-americanos. Sua campanha de mudança merece prêmios de marketing e não haveria momento melhor nos Estados Unidos para pô-la em prática. O que vimos em seus discursos era absolutamente oposto à besta que lidera o país.

É difícil, entretanto, manter viva por muito tempo essa idéia de que o mundo vai melhorar. Recentemente, em minha busca diária por notícias mundo afora, vi que está acontecendo uma possível nova guerra no Congo, que os piratas somalis seqüestraram mais um navio, agora com trigo, que nesse fim de semana contam-se 4 ou 5 meninas estupradas no Paraná. Quando buscamos notícias, já esperamos que as ruins sejam as tragédias do dia-a-dia e as boas, possíveis avanços na ciência. Nenhuma notícia é boa notícia de verdade ou anima a população. Eu, pelo menos, lembro de poucas assim...

Em todo caso, sinto por Obama uma simpatia, muito parecida com a que senti por nosso Lula quando foi eleito. Vejo em Obama e no pouco conhecimento que tenho dele, um preparo muito maior para tentar liderar seu país e, convenhamos, quase qualquer um é melhor que Bush. O que é estranho é como um país permitiu um líder deste quilate governar por tanto tempo. E se hoje - como acabo de ver uma propaganda na televisão - tanta gente escreve, pensa, sente, se interessa por Barack Obama é porque estamos nos entendendo como um todo e, assim, nossas preocupações tornam-se globais. Talvez, a partir daí, seja possível esperar alguma coisa para os anos vindouros.
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Estamos em um novo projeto. Eu e Pedro, meu colega da pós e parceiro neste novo documentário, resolvemos nos desafiar e entrar em algo que trate de nós mesmos, de nossa relação conosco, de como e porque nos tornamos quem somos... justamente a partir do olhar.

Esta idéia traz em seu íntimo uma busca de nos reconhecer em um novo ambiente. Eu e Pedro, cada um em seu novo espaço, esperamos conquistá-lo aos poucos, ainda que ele nos tenha dominado de imediato. Ainda tentamos deixá-lo um pouco mais parecido com o que achamos ser, mas tudo não passará de uma combinação de fatores para continuar a busca incessante pelo equilíbrio em movimento que é uma moradia. Porque mudar não é apenas de endereço físico, mas uma relocalização de nós mesmos.

Entrando neste novo espaço, espero renovar e reciclar as energias que me freqüentam neste ano. Mudanças já estão acontecendo aos poucos, readaptações, decisões e escolhas em todos os sentidos. A impressão que dá é que cada vez que nos transferimos, transformamos nosso olhar diante do todo, de tudo o que nos cerca. Assim, até as pessoas que encontramos em nosso cotidiano ganham outras dimensões. À medida que vamos conquistando os espaços, vamos nos permitindo novos mundos e para cada mundo, um grupo de situações novas. Tudo é sempre o que escolhemos e, claro, a não escolha é também uma decisão.

Minhas coisas ainda estão em caixas e malas e mais uma vez penso na quantidade de coisas que carregamos nas costas, como uma casa móvel, com o 'básico' para viver. Se meu básico é mais de livros, dvds, roupas e sapatos, hoje vivo com muito pouco disso tudo, as caixas fechadas e malas repletas assim continuam enquanto o filme não é rodado. Abri uma sacola menor e tirei três livros que me fazem companhia, ainda que na verdade, esteja lendo apenas um. Essa situação faz pensar no que sempre pensamos quando carregamos bagagens de um lado para o outro: temos sempre a certeza de que precisamos de muito menos para viver, mas sempre guardamos e guardamos, para criar uma pequena constelação de tudo o que somos onde estivermos.

Toda essa situação, a mudança, os novos olhares, o re-conhecimento das pessoas que se freqüentam socialmente me fazem querer parar, me concentrar em estudos e retomar meus objetivos, já que me fixei neste novo espaço. O mais engraçado é que todos percebem, é como Na Natureza Selvagem, o que vivemos vai nos transformando aos poucos e quem nos cerca percebe alguma alteração em nossas vibrações, mas normalmente não identificam de imediato. E nós acabamos sem dizer nada, dizemos o que um roteiro de cinema diria: estou em casa, lendo livros, sentada no sofá. Se fosse literatura outras palavras dariam sentido mais exato: estou buscando me reencontrar e, para isso, observo mais, falo menos, decido meus novos rumos que podem até ter a mesma cara de antes, mas em essência se reconstroem.
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Primo, uma coisa eu te digo: você está prestes a desvendar um novo mundo. Não vai ser fácil, mas não escolhemos o caminho mais fácil, caso contrário, estaríamos no mesmo lugar. Quando mudamos completamente de espaço, não apenas tudo ao nosso redor se transforma, como as idéias que acreditávamos estar solidificadas em nós.

Essa redescoberta é tão prazerosa quanto dolorosa algumas vezes. A falta que sentimos de casa não vai ser resolvida tão cedo... e voltar para casa será sempre uma aventura de retorno, você não vai segurar o sorriso e vai perceber no seu íntimo que foi a escolha certa, a decisão de mudar lhe mudou.

Não sei se nos tornamos melhores ou piores com isso... acho até que estes não são os melhores adjetivos; acho que nos tornamos outros, acho que passamos a entender de forma mais completa e complexa o significado de individualidade. Porque nos entendemos como uno, único, com uma bagagem de valores, família, amores, carinhos e aprendizados que aos poucos vamos entendendo que são só nossos, apesar de nossa linhagem.

De início, te adianto, a cidade te dominará. Ela vai tragar você, seu trabalho e poderá lhe pôr em prova. A cidade que você escolheu é a do trabalho, é uma máquina, uma linha de montagem que impulsiona o país em que vivemos e esse é o objetivo de pessoas como você e eu, quando decidimos partir para ela. Então, calma: deixe ela se mostrar pra você, mas extraia dela seus prazeres. A cidade que você escolheu é também cultura. Você vai para uma das maiores cidades do mundo que ainda faz parte de um dos países mais ricos e diversos que existe.

Insisto que invista na cultura: xous, filmes, pessoas, espetáculos. Adicione pitadas desse tempero e vá em busca também da diversidade. Na cidade que você escolheu, há pedaços do mundo perdidos em seus bairros. Uma cidade cosmopolita, que conserva em si a poluição e o coração de tanta gente na mesma situação que a sua.

E quando a saudade apertar, o coração pedir arrego, liga, manda mensagem, manda e-mail. Somos vizinhos, eu e seu amigo e é um pulo (grande) para te encontrarmos. Não se preocupe, vai dar certo, e você vai estar mais ocupado do que livre, para ter a mente ociosa. Fique tranqüilo também com quem fica, porque eles estão em número e você sabe como ninguém como todos são próximos apesar dos conflitos ocasionais. Até eles fazem parte da proximidade dos nossos.

Um beijo e pode contar comigo. Lhe veremos muito em breve em seu novo destino.
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Enquanto um texto novo não aparece por aqui, mas está em construção, sigo com a novidade. Acessem este link e vejam que, apesar de simples e singelo (agora tenho mais confiança em dizer), No tempo de meu avô..., tem potencial.

Conquistei with a little help from my friends, o Melhor Roteiro do RECINE 2008!

Para rever o curtinha, acessem este Arquivo.
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I
Ausência

Estou numa casa que não é a minha. Ouço músicas novas, estranho a falta de meu barulho costumeiro, ocupo outros espaços.

O dono desta casa não está. Possivelmente ele chegará na minha saída e não saberei como é viver com ele. A proposta não era essa, em todo caso. Estou aqui como pouso provisório para retomar a mais uma nova jornada de um ano de novas jornadas. Cada jornada significa a conquista de um novo território, onde um dos objetivos é se enxergar neste ambiente e transformá-lo em casa.

Na casa em que eu estou há um clima diferente. Um clima que combina bastante comigo, mas com uma versão de mim no futuro, como uma pessoa que estou tentando construir para ser. Há a falta óbvia de algumas coisas que seriam mais próximas de mim futura e há, por outro lado, uma infinidade de coisas que acho que já sou e de grandes descobertas e identificações. Mas fico pensando o que esta outra pessoa pensa de alguém utilizar seus espaços.

Uso sua sala, sua música, sua internet. Abro sua geladeira, vejo seus livros e ímãs, utensílios de cozinha e shampoos. E essa vida de outra pessoa começa a me parecer bacana. É uma casa que incentiva os estudos, a vontade de produzir, de ver, conhecer, investigar.

O apartamento em que eu morava era menor. Um quarto e sala com o básico que uma pessoa precisa para viver bem. Mas era um apartamento vazio... feito para locações, com uma cara que não era cara de ninguém... um apanhado de coleções moráveis. Se nos deixarmos levar por essa coleção que não nos estimula a nada, paramos tudo feito os pratos brancos da cristaleira ou os quadros da bailarina de antigamente. Algumas vezes fui levada por esse marasmo, outras tantas consegui me libertar e produzir movimento.

Acredito que esta saída abrirá as portas para a pessoa do futuro. O intervalo na casa deste amigo é mais uma experiência que podemos deixar passar sem pensar ou investir nela e sentir tudo o que é possível. Eu invisto. E esse objetivo da busca vai me levar a um novo lugar, uma nova morada. Esta nova casa vai ser a casa da nova experiência, mais um passo em busca do mundo. São as energias renováveis que nos transtornam e transformam. É a mudança, o fim de um tempo quase presente, já não estivesse passando por nós.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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