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Café: extra-forte

Esta semana estreia nos cinemas Janis: little girl blue, a mais nova biografia sobre Janis Joplin, dirigida por Amy Berg. Será a terceira sobre uma cantora mulher, mais um ícone da música internacional em dois anos, se lembrarmos de What Happened, Miss Simone? (2015) e Amy (2015). Há claras semelhanças entre os filmes e é nítida, da mesma forma, sua relevância para a cultura musical, ainda que no trato de seus personagens haja alguns questionamentos.

Para quem acompanhou ou sabe um pouco da vida e obra de Janis Joplin, não há grandes surpresas. Os depoimentos dos familiares e amigos corroboram muito do que se encontra em uma pesquisa na internet e a graça sempre estará nas imagens em que nossa musa do blues aparece cantando, vivendo e falando, por isso a importância de vê-lo nos cinemas. A dosagem entre as falas de Janis e sobre Janis é um exemplo claro do documentário biográfico tradicional, em que se fala do outro, sobre o outro, acima da voz do outro e é irônico pensar que com estas três cantoras aconteceu o mesmo: se falou tanto sobre e acima delas, que pouco restou de suas (imensas) vozes para ouvirmos.
Janis e a Big Brother and the Holding Company
O filme é bom, traça o panorama linear de sua vida em uma cidade pequena, interior do Texas, onde qualquer diferença, por mínima que fosse, qualquer traço de personalidade que diferisse daquele padrão era tido como errado. Era aí que se encaixava a protagonista e quando a ouvimos sobre sua infância e adolescência, os relatos de seus irmãos e amigos sobre o assunto, é estarrecedor perceber tanto bullying por tão pouco e como isso a afetava. As provocações típicas da infância pareciam conter mais veneno do que o habitual, em uma clara tentativa de deslocá-la ainda mais, como uma Carrie pronta para um surto. Ao invés de fogo, virou poesia, música, solidão e amor. A grande surpresa, e por isso o acerto do filme, está nas cartas, lidas por Cat Power em sua voz deliciosa, dando a pausa e a sensibilidade corretas quando Janis tentava uma comunicação com os pais, com a família e seus amores. É pena não termos conhecimento do oposto, do que se recebia em troca, que justificasse a permanência da comunicação, mas através das falas de seus irmãos mais novos, já temos uma noção do comportamento e da relação entre eles.

Janis Joplin foi – e é, levando em conta que continuamos ouvindo sua voz – uma das maiores cantoras de todos os tempos e essa qualidade surgiu ainda muito nova, entrando nos vinte anos, em plena década de 60 quando se muda para São Francisco. Era uma libertação da opressão de sua cidade com seu comportamento machista e castrador – particularmente para a mulher – era o embrião da guerra do Vietnã, era a Guerra Fria, eram os hippies e a questão racial, era a experimentação das drogas, era o auge da cultura musical no país e isso tudo, em sua própria formação enquanto mulher com sua sexualidade também diversa de seus conterrâneos, enquanto criação de uma identidade e reconhecimento no mundo. Isso tudo com uma grande voz e talento natos, uma sensibilidade absurda e uma fome de viver. Essa sempre foi a impressão maior sobre a cantora que, como Amy Winehouse – não há como deixar de incluir Jimmy Hendrix e Jim Morrison – fechou seu ciclo cedo demais, por um acidente de percurso. O filme encerra e nos deixa com um aperto no peito de que tudo poderia ter dado certo, de que ela duraria mais tempo, de que sequer foi suicídio. Saímos com este aperto, como se uma vida de possíveis alegrias e grandes músicas e performances de uma mulher doce, inteligente, sensível e brilhante havia sido interrompida bruscamente.

Howard Alk fez a primeira biografia sobre a cantora em 1974, Janis – the way she was. Neste, ao contrário do filme de Amy Berg, não há qualquer depoimento que não o seu. Todos são tirados de entrevistas e shows e vemos muito de suas performances, as maiores já feitas, os melhores shows, outro deleite. Não há entrevistas fora de contexto e a duração delas é ainda maior, nos fazendo conhecer um pouco mais sobre nossa musa. É interessante perceber a diferença no trato das sequências e imagens, já que os dois filmes utilizam o mesmo arquivo. Em 74, o que vemos é resultado de uma grande influência do cinema direto, aquela forma francesa de filmar com a menor interferência possível (graças aos novos e leves equipamentos) cujos mestres seriam Edgar Morin e Jean Rouch. Nos Estados Unidos os destaques ficam para Rihard Leacock (inglês, mas com várias produções americanas), Robert Drew, Albert Maysles e D.A. Pennebaker. Este último acompanhou os músicos desta geração e fez um documentário sobre o primeiro festival de música em que Janis se apresentou com a Big Brother and the Holding Company em Monterey (1967) e é um dos entrevistados no novo filme, aos 90 anos. Ainda que o documentário anterior indicado ao Globo de Ouro se perca nos últimos minutos em uma apresentação fotográfica – homenagem póstuma recente – o fato de a conseguirmos ouvir em grandes dimensões é um bônus.

Não se pode dar voz aos mortos e com isso, o artifício do outro parece ser a solução para criar uma linha narrativa que preencha as lacunas da edição. Aqui esta intercalação acontece de tempos em tempos e por ver as mesmas sequências nos dois filmes, há que se perguntar sobre o volume do material coletado. Com registros de 50 anos atrás, talvez não houvesse diversidade suficiente, o que não causa prejuízo, já que o uso das conversas com a Kozmic Blues Band e a Big Brother and the Holding Company, cumprem um pouco do prometido. Além deles, outros homens passaram por sua vida e deixaram sua contribuição ao filme, como seu último grande amor – este, de fato, lhe dando o devido crédito. Não vemos muito sobre os relacionamentos de Janis com mulheres, muito sutilmente parece não se dar a importância ou espaço para estes envolvimentos. Outros depoimentos soam ácidos a ouvidos mais sensíveis, não dando a correta dimensão ao relatar possíveis encontros com a cantora, não se sabe por mágoa ou pouco caso. Não fica claro o porquê, além de criar um incômodo em quem assiste com mais atenção.
Janis e a Kozmic Blues Band
Não há como se definir de que forma o entrevistado falará sobre seu objeto, mas objetificação em si seria o problema maior. No fim, ainda que seja uma obra gostosa de ver, há menos música e performance do que o esperado, à exceção da magnífica cena em que a banda discute no estúdio as variações sobre Summertime, vemos suas interpretações e temos uma visão da cantora como uma profissional que entende de seu trabalho, que sabe o que busca e a melhor forma de fazê-lo. É de cenas assim que carece a obra, tanto quanto imagens da cantora com outros artistas, como vemos uma pincelada em Woodstock e em um trem, a caminho de um festival no Canadá, com o Grateful Dead. Uma tentativa tardia e confusa está nos créditos finais, em depoimentos curtos que não aparecem durante o filme – e entende-se o porquê – mas que de alguma forma, funcionam como uma curiosidade, como um extra do dvd.

Enquanto o filme de 74 parece ser uma colagem de registros quase brutos de episódios da vida da cantora, o Little Girl é coeso em sua proposta. Há o equilíbrio narrativo e o filme funciona como os demais, sobre Amy e Nina Simone, resgatando nosso amor por estes ícones, nos fazendo buscar em nossos arquivos o momento em que as conhecemos e partilhamos da experiência transformadora que é ouvi-las, aqui até de forma ainda mais sensível do que nos das outras cantoras. De alguma maneira, há sempre mais para descobrir sobre estas grandes mulheres e suas personalidades complexas, para além das imagens de mídia. Este filme ensaia isso e faz bem, ainda que se comprometa em alguns momentos, manteve um cuidado em não classificá-la como uma garota problema, em não queimar sua imagem como as de uma possível corrosão física por uso de drogas, como apresentadas em Amy e um pouco menos em Nina, mas buscando uma sensibilidade e sua subjetividade nas cartas. É evidente que há de se fazer um comparativo com as biografias de artistas masculinos e entender do que se falava sobre eles, se se pontuam envolvimentos amorosos questões pessoais para além do talento. Em filmes sobre o outro, é fácil escavar o passado, difícil é construir uma dimensão humana, tridimensional e dar uma percepção mais ampla do que realmente importa para o público: sua qualidade, conhecimento e sensibilidade artística. Aqui, saímos com um pouco mais de Janis Joplin, com vontade de retomar seus discos e capturar uma fração dessa imensa sensibilidade e blues que levava dentro de si e que nos rasga e alenta por dentro com sua inigualável voz.


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A sessão de hoje foi, intuitivamente, de grandes personagens. De loucos a heróis, de pobres famintos a narcotraficantes megalomaníacos, tem um pouco de tudo e para todos os gostos.  Fiquem à vontade e aproveitem este inverno da forma certa: nas cobertas, com Café e grandes filmes! 

O Garoto de Liverpool (2009, de Sam Taylor-Johnson) – 98 minutos
Não precisa gostar dos Beatles ou de John Lennon para ver esse filme sobre o início da carreira do cantor, quando ainda era um garoto em Liverpool. É claro que, se gostando ou entendendo um pouco da personalidade e relevância do protagonista para a cultura, vale assistir. O filme traça sua trajetória do início do que viria a ser os Beatles, quando John (Aaron Taylor-Johnson) conhece Paul McCartney (Thomas Brodie Sangster), sua relação com a mãe até quase a vida adulta. Não será o melhor filme ainda sobre o cantor por romantizar demais sua história, mas vale como entretenimento. Com Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff.

Narcos (2015, de Carlo Bernard, Chris Brancato e Doug Miro) – 50min/eps
À espera da segunda temporada da série, dá tempo de aproveitar a primeira inteira, vendo Wagner Moura encarnar ninguém menos que Pablo Escobar. A série é baseada em fatos reais, na vida do maior narcotraficante que a América Latina já viu sob a narração do agente do FBI, Steve Murphy (Boyd Holbrook). Imperdível, garante personagens complexos e ficamos naquele dilema existencial de nos apegarmos a uma figura tão controversa como o ‘herói’ colombiano. Ao mesmo tempo, a ascensão de Pablo é intercalada com acontecimentos na política nacional e internacional, dando destaque ainda em suas megalomanias e estratégias de controle de um sistema corrupto e violento. A série alavancou a carreira internacional de Wagner, dando peso suficiente para seu sotaque ser tanto criticado quanto defendido internacionalmente. Aguardando ansiosamente a nova temporada em setembro.

Beleza Americana (1999, de Sam Mendes) – 122 minutos
Sam Mendes tem uma trajetória cinematográfica de respeito. Estreou na direção com Beleza Americana, seguindo por Estrada para perdição (2002) e vemos mais filmes de peso, em menor escala de produção, como Foi apenas um sonho (2008) e Distantes nós vamos (2009). Em parceria com Kevin Spacey, que continua até hoje, cujo último trabalho foi a turnê de Ricardo III que originou o documentário NOW – In the wingson a world stage (2014), vemos um protagonista em franca transformação e ele é quem transforma o filme de bom para surpreendente. Não seria por menos, dada a dimensão do ator. Em Beleza, há uma ideia de normalidade da vida americana de subúrbio, da classe média alta onde nada demais parece acontecer e todas as sujeiras são varridas sob tapetes. Olhando de perto, como é a proposta do trailer, há muito por trás dessa aparência de cercas brancas e jardins simétricos. Kevin Spacey, Annete Benning, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari são alguns dos nomes deste grande filme, de roteiro brilhante que marcou uma geração. Levou 5 Oscars e outros 103 prêmios.

Louca obsessão (1990, de Rob Reiner) – 107 minutos
Ainda entre os grandes personagens, que parece ser a marca desta seleção, Louca Obsessão merece pelo menos um grande prêmio, para Kathy Bates. Ela é Annie Wilkes, uma aficionada pelos livros do escritor Paul Sheldon (James Caan) que o resgata de um acidente de carro. Salvo pela sorte, acredita ele, mal sabe que por trás daquele carinho e afeição, há uma obsessão doentia que lhe custará mais do que a rápida hospedagem. Do livro de Stephen King e dirigido por Rob Reiner (Harry e Sally, 1989), você ficará tenso até o final. Um dos grandes filmes de suspense e terror sem precisar de alienígenas, casas assombradas ou espíritos possuindo corpos e nos dando (incríveis) pesadelos. Não é spoiler, mas tem uma cena em particular, que lembrou muito o Anticristo (2009), de Lars von Trier.

Os miseráveis (2012, de Tom Hooper) – 158 minutos
Encerrando esta semana corrida de grandes personagens, em Os Miseráveis, Anne Hathaway marca sua curta atuação para sempre na história do cinema, com a interpretação da música I dreamed a dream. Este filme grandioso, musical clássico, no melhor sentido da expressão, nos transporta para um mundo de revolução francesa visto de dentro, com outras grandes atuações de Hugh Jackman, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham-Carter e outras menos brilhantes como a de Sacha Baron Cohen e uma performance estranha de Russell Crowe. Não só de atuações vive esta produção, mas de uma equipe técnica extraordinária, como a de som, captando as músicas cantadas em locação e não dubladas (como acontece em todos os musicais), garantindo com a facilidade tecnológica, uma qualidade superior e não conhecida antes nos filmes do gênero. O diretor também é dos grandes, já tinha nos dado O Discurso do Rei (2010) e depois desse, A Garota Dinamarquesa (2015). É lindo, e você vai se arrepiar.
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Há uma urgência nos filmes de Jia Zhang ke que não se percebe de imediato. É uma reflexão que chega um tempo depois de ver um de seus filmes, como uma latência que se dissolve em ação, em uma curiosidade sobre o próximo e a busca por entender por que a dificuldade e proibição de serem exibidos na China. Em As montanhas se separam, esse sentimento permanece, se reafirmando com uma sutileza que pouco se percebe nos filmes de hoje.

Uma mulher, Shen Tao (Tao Zhao), em três décadas: 1999, 2014 e 2025. Dos vinte e cinco aos cinquenta anos, dividida entre dois amores, em família e sozinha, entre gerações e ciclos pertinentes à vida de qualquer um. Vemos uma China em transição a partir de dentro, de quem a conhece bem e sem firulas, sem os exageros dos filmes de ação, grandiosos efeitos especiais ou uma trama esdrúxula, que surpreenderia mais pelo espetáculo e hipérboles do absurdo do que em seus detalhes do cotidiano. É nisso que reside sua graça e aparentemente em todo o cinema de Jia Zhang ke, ao tratar da vida, da cultura e do viver chineses.


O roteiro, tal como em Em busca da vida (Still Life, 2006), ensaia uma preparação para o espectador e logo nos entrega a ele, nos deixando com nossas interpretações sobre a obra. Ali, há uma saga de um homem e depois de uma mulher – também interpretada por Tao Zhao – e buscamos as conexões possíveis, ainda que não necessariamente lineares ou literais. Se no início deste Montanhas, pensávamos que haveria três protagonistas, ao decorrer da narrativa permanecerá a dúvida, ainda que a criação de outros personagens fortes indique novos rumos. Esta libertação ficcional é própria do diretor que nos toma pela mão, mas nos deixa seguir sozinhos através de sua história.

A divisão narrativa em capítulos é reforçada pelas mudanças em cenário e tecnologias, construindo um pano de fundo, o contexto necessário à passagem do tempo. Mas esta é uma história que transcende suas marcações de era. O que se imagina hoje do futuro – e está espelhado no filme – é mero detalhe se pensarmos nos bons filmes que tratavam do tempo décadas atrás. Tecnologia é figurino, a força desta história está nas pessoas e em suas relações, sempre universais e, se for possível o jogo de palavras, atemporais. Acompanhando a transição dos anos está a montagem, fluida e pausada, dando o tempo de apreensão e entretenimento - fugindo dos cortes de videoclipes - enquanto elimina a monotonia, e a fotografia, com luz natural em boa parte da duração, reforçando seu caráter realista e exibindo um país grandioso em todos os seus aspectos. Há paisagens deslumbrantes de uma natureza marcada pelas estações do ano, há os planos que posicionam o humano com relação ao que o cerca - de grandes prédios e estruturas, construções e minas ao rio Amarelo e a discrepância que outro continente e cultura que impactam em uma tradição de hábitos milenares.


O cinema do diretor ilumina um país continental para muito além da propaganda comunista. É quase a antítese de uma política que omite seus problemas de base e esbanja um ideal de governo que não corresponde a sua realidade. É daí, provavelmente, o embargo e a dificuldade de exibição no país. Mas Jia Zhang ke ultrapassa fronteiras de tal forma que podemos saber mais dele a partir de um documentário dirigido por Walter Salles com concepção dele e de Jean-Michel Frodon. O impacto deste cinema ainda não implica em grandes bilheterias no Brasil, mas já não passa despercebido. 

Há um paradoxo nesta liberdade vigiada de produzir os filmes no país como uma jogada cruel de suas políticas ou talvez uma brecha sempre encontrada pela produção para trabalhar, e quando conseguem ultrapassar suas barreiras, tornam público algo novo e, em oposição à censura, libertador. É uma nação que enfrenta um progresso ao alto custo da fragilização e fragmentação dos relacionamentos, com a imposição do capitalismo como modelador de comportamentos e uma névoa que parece ser de poluição e poeira – ou seria a própria cegueira imposta que tenta se dissolver? – ocupando todos os vazios e remarcando um passado rígido. Talvez a urgência de seus filmes se consolide nisso, nessa impressão que adquirimos – depois de filmes como este – de que já deveríamos tê-lo visto antes, como se nossa ânsia de participar daquela história decorresse de nosso parco conhecimento sobre uma cultura tão rica, distinta e que nos é similar em sua própria humanidade. Estamos atrasados. 

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Filme de estreia do diretor iraniano Abbas Kiarostami realizado em 1970, esse curta de 10 minutos foi nosso exercício na Oficina de Crítica Cinematográfica ministrada por Jean-Michel Frodon, no Festival Varilux de Cinema Francês que acontece agora no Rio de Janeiro e em outras capitais.




Em pouco mais de dez minutos, Abbas Kiarostami cria uma história que diverte e desperta interesse em seu curta-metragem de estreia.

Uma rua pequena com cruzamento de outras duas ou três. Um garoto com um pedaço de pão e cadernos caminha distraído, chutando uma lata. Um cachorro em seu caminho e uma música dos Beatles nos abrem os olhos para o conflito: como atravessar a rua sem ser mordido por um cão feroz? Com uma ideia de simples execução e custo baixo, o diretor sustenta sua trama sem diálogos ou qualquer necessidade deles. A narrativa se impõe entre gestos, olhares e músicas que traduzem tanto o clima do que assistimos quanto suas resoluções.

Realizado com crianças e para crianças, o filme abraça todas as idades e épocas. A situação é própria da infância de uma cidade pequena ou não violenta de qualquer lugar do mundo e a ausência de idioma – ainda que o próprio pão e os créditos de abertura indiquem uma cultura específica – reafirma sua universalização.

Aparentemente e por execução feito sem maiores ambições, o filme atinge mais do que intenciona, identificando na ingenuidade própria da infância sua outra grande característica: a criatividade. Inteligente, se sustenta na duração exata do que carece e encerra bem, como o fim de um ciclo lúdico e divertido. Comédia para todos, que em cortes simples e bom uso de câmera, nos posicionam tanto  em cena quanto a assistindo; somos o garoto e sua plateia à espera de desfecho. Grande estreia de um diretor hoje consagrado e experiente.
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Quem acompanha a trajetória de Claudio Assis percebe uma gradual transformação de seu cinema sem perder autoria e qualidade. Se com Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006) a violência e o sexo imperam na caracterização de uma sociedade em declínio, é de sonho e poesia que vivem seus personagens nos últimos dois filmes, Febre do Rato (2011) e Big Jato, o último sendo lançado esse mês no país.

O filme traz a história de Chico (Rafael Nicácio), um adolescente que ajuda seu pai Francisco (Matheus Nachtergaele), desentupindo fossas no interior de Pernambuco. Eles vivem em Peixe de Pedra, uma pequena cidade de chapada com uma rádio em que trabalha seu tio Nelson, também interpretado por Nachtergaele, presente em todos os filmes do diretor. Enquanto Francisco espera que Chico se desenvolva na matemática para lhe ajudar nas contas, o garoto escolhe a poesia, se aproximando de seu tio anarquista que satiriza o irmão nas locuções radialistas. Este duelo de matemática e literatura é próprio da distinção entre sonho e realidade e é nesse ambiente que encontraremos o príncipe, em uma participação especial de Jards Macalé como uma figura quase felliniana, dando a Chico a importância de sua imaginação e criatividade para a vida.

Chico (Rafael Nicácio) e Francisco (Matheus Nachtergaele)

Logo no início percebemos que o filme transitará entre o olhar do adolescente e de seu pai e tio, quando o garoto no caminhão pipa do pai – o Big Jato – pergunta sobre os excrementos, se todo mundo faz, por mais diferente que seja. O pai segue pacientemente explicando como a uma criança que questiona o porquê das coisas, enquanto no rádio ouve seu irmão em verborragia falando sobre o rock e desqualificando o trabalho honesto sempre defendido pelo primeiro, sugerindo a anarquia como modo de vida e anunciando a chegada d’Os Betos, uma banda que haveria influenciado ninguém menos que Os Beatles. O perfil de cada personagem é construído em equilíbrio e ali percebemos a formação de um adolescente que precisa tomar seu próprio rumo, se quiser viver do sonho.

Adaptação do livro autobiográfico de Xico Sá, Big Jato era o caminhão pipa de seu pai e muito do que está no filme parece verdade. Os diálogos são inteligentes e cheios de metáforas que se traduzem em graça pelas expressões locais, com um escritor cearense e um diretor pernambucano não seria acaso. Um dos pontos fortes do cinema de Cláudio é o próprio texto, sempre ágil, direto e carregado de conceitos. Aqui é suavizado para encarar a adolescência em sua complexidade e, ainda que alguns atores pudessem carregar em força – os irmãos de Chico – conseguem sustentar a trama sem maiores prejuízos. Os Betos não existiram, a banda foi uma alternativa para a produção do filme que não podia arcar com os direitos das músicas da banda inglesa.

Nelson :: Matheus Nachtergaele
Matheus Nachtergaele encarna os gêmeos cuja comunicação se dá em uma troca surda, já que nunca se encontram e sabem um do outro pela rádio e por Chico, que transita entre os dois. As interpretações são puro deleite e não há como não lembrar Peter Sellers e seus personagens camaleônicos de Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964). Os dois amam e cuidam de Chico, de alguma forma lhe fornecem os meios e visões distintas e radicais de mundo tão caras à própria formação de um jovem, até que seja capaz de trilhar o próprio caminho. A família de apoio ganha a força de Marcélia Cartaxo, atriz experiente e de peso, mãe de Chico que tem a paciência para manter uma casa de essência machista e, ao mesmo tempo, não se permite tolerar o alcoolismo do marido que se anuncia à esquina. Este prefere a cachaça a pensar que sua vida se resume à merda e fossas, cada vez mais escassas à medida que se constroem banheiros dentro de casa, fruto de um desenvolvimento local em uma cidade que ainda carece de sinal de celular.

É com doçura que Cláudio Assis trata das questões árduas ao sustento familiar, entre a sujeira própria que produzimos com nossos excrementos e a naturalidade de conviver e tratar deles. A perspectiva do adolescente corrobora esta nova trajetória mais lúdica e leve, rompendo quase totalmente com o formato marginal e agressivo dos primeiros filmes. Com esse, o diretor se destaca, mantendo suas inquietudes e as ampliando em público, narrativa e pertinência. É mais importante do que parece à primeira vista, é mais uma grande e relevante exibição de um nordeste puro, cultura que poucos conhecem e seguem rindo apenas por ouvir um sotaque diferente. A ampliação do olhar para um Brasil fora do litoral e da mídia e fundamental para a constituição ampla de cultura, identidade e nacionalidade, hoje quase reduzida às cidades mais caras. Grande filme.
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A Netflix dessa vez me surpreendeu. Na nova safra de filmes e séries, há mais Lars Von Trier, há filmes bem interessantes e alguns documentários muito bons, além dos animes de sempre e os filmes obscuros do pacote. Esta edição não poderia se chamar fortes emoções novamente, levando em conta nossos últimos acontecimentos e a tentativa constante de destruição dos brasileiros por parte do governo. O negócio está tão sério que a ameaça do Estado Islâmico passou batida por aqui. Em todo caso, a edição celebra muito bem a estrutura de poder com dois grandes e cultuados filmes, além de outros que tentarão nos tranquilizar, na ilusão maravilhosa da narrativa de ficção. Vamos a eles!!

Ninfomaníaca I e II (2013, de Lars Von Trier) – 117 min e 123 min.
Ninfomaníaca foi um filme polêmico, dividido em duas partes e aqui considero ambas. Lars Von Trier não é a melhor pessoa do mundo, é extremamente complicado e controverso e já deu declarações horrendas em sua vida. Ao mesmo tempo, é um grande artista, tem filmes com aquele status de arte que foge da redução que o ‘cult’ tenta construir. O filme não é sobre sexo, é sobre poder. E não é excitante, a menos que a apatia seja algo que te agrade. Nossa protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin) conta sua história a Seligsman (Stellan Skarsgard), um homem que a resgata da rua, toda machucada e quase inconsciente. Ela foi deixada ali não se sabe porque e o homem que a resgata salva sua vida. É uma história pesada e com bastante sexo, mas do tipo que envolve doença, ela não é ninfomaníaca dos títulos baratos e acrobáticos dos filmes pornôs, ela é ninfomaníaca como diagnosticada com uma doença que a domina, que ultrapassa seus sentimentos e intelecto. O filme é grandioso, tem alguns momentos que poderiam ser feitos de outra forma e é longo, se considerarmos as duas partes. Foram lançados separadamente nos cinemas. Vale muito a pena, mas precisa de estômago. O final é a própria representação da sociedade e é tudo o que eu vou falar. Além dos já citados, encontraremos Uma Thurman, Willem Dafoe, Christian Slater e Shia LaBoeuf.

Sherlock (2010 -, de Mark Gattis e Steven Moffat) – 90 min
Para pararmos um pouco de pensar sobre todas as coisas que envolvem o filme acima e podem me convidar para todas as discussões sobre ele, segue uma série ótima da maravilhosa BBC para nós: Sherlock. Sim, é sobre deduções investigativas brilhantes, é sobre o cultuado e divertido Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) e Dr. Watson (Martin Freeman). Os episódios são longos, duram 90 minutos, mas as temporadas são super curtas, de 3 episódios. A produção é imensa, porque a série ganha efeitos especiais, muitas locações e personagens, sendo ambientada nos tempos de hoje. O mais divertido é ver os personagens dialogando e Benedict e Martin fazem uma dupla incrível no que parece ser um quase adolescente (Sherlock) e seu fiel escudeiro mais maduro, mas que precisava de alguma ocupação depois de uma vida tensa no Afeganistão (Watson). A estratégia de ser um seriado curto, como as minisséries da Globo funciona bem, porque quando chegamos perto de cansar, a temporada acaba e precisamos saber o que vai acontecer depois. A série ganhou 73 prêmios além das 107 indicações, acho que vale, pelo menos, dar uma olhada.

Ferrugem e Osso (2012, de Jacques Audiard) – 120 min
Pense num filme bonito? Esse pode ser sobre uma história de amor, quase dá pra chamar de romance, embora não seja o foco do filme. É sobre duas pessoas que vivem dramas fortes e distintos e o superam juntos, em uma ligação muito mais profunda de amizade do que de amor. Stéphanie (Marion Cotillard) é uma treinadora de baleias Orca, daquelas de parques aquáticos. Alain van Versch (Matthias Schoenaerts) é um jovem pai de um garoto que não tem trabalho e precisa encontrar um de qualquer forma, a fim de poder dar alguma vida para seu filho. Os dois se conhecem em uma boate e dali não sai nada, mas ele a ajuda, lhe dando uma carona para casa. Vão se encontrar mais adiante e aí então saberemos mais. É de uma fotografia magnífica em seus contrastes, na aproximação dos personagens. É de uma edição brilhante nas cenas de luta e na construção da história e, para melhorar de vez, é econômica em palavras, do jeito que muitos filmes deveriam ser. É o tipo de filme que nos provoca a conhecer toda a filmografia do diretor e roteiristas, para continuar com estes sentimentos e construções narrativas. Ganhou um milhão de prêmios e vou rever. Ah! Lembra de Piaf que indiquei aqui outro dia? Pois, é ela a protagonista. O filme é belga e vale uma atenção para a cinematografia do país – os filmes tendem a ser impressionantes.

Tubarão (1975, de Steven Spielberg) – 124 min
Continuando a saga sobre filmes de poder que tal um em que a natureza se vira contra nós e nos ameaça? Tubarão é um clássico que todo mundo já viu, mas a trilha sonora permanece em nós para sempre e nos faz querer rever. Não é da safra nova da Netflix, mas é eterno. Spielberg nos traz um suspense aterrador sobre um tubarão que ameaça uma praia e a única solução que o homem encontra para ter paz e poder mergulhar novamente é matá-lo. Mas o tubarão não é bobo nem nada, então dá bastante trabalho e literalmente toca o terror onde aparece. A sinopse é simples assim mesmo, mas o filme é maravilhoso. É um dos marcos do cinema de terror, um dos marcos na carreira do diretor que todo mundo conhece. Tem seus momentos trash, mas de forma geral é até um filme sério, considerando seu gênero. Levou três Oscars, é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e em todo mundo, e carrega um elenco de peso: Roy Schieder, Robert Shaw e Richard Dreyfuss.

Grandes Momentos (2012, de Michael Mohan) – 97 min
Agora, como não poderia faltar, uma comédia romântica daquele tipo: boba, gostosa, não estúpida e do tipo que dá pra ver algumas vezes. Sarah (Lizzy Caplan) é a mocinha da livraria que namora Kevin (Geoffrey Arend). As coisas não estão muito bem quando ela conhece Jonathan (Mark Webber, que com esse filme me fez buscar todos os outros em que participou) e da mesma forma, nem tudo são flores. No meio disso, Beth (Alison Brie, a Trudy Campbell de Mad Men), sua irmã, está enlouquecida com os preparativos para o casamento com Andrew (Martin Starr) e tudo vira um novelo difícil de desatar. O filme é leve, despretensioso, mas com personagens bem construídos e diálogos simples e eficientes. Funciona muito bem em tudo e é um passatempo delicioso.

Bonus track!!
Perdidos na Noite (1969, de John Schlesinger) – 113 min
Esse filme não sai da minha cabeça. Demorei muito para assisti-lo, mesmo com todas as suas credenciais e o resultado foi surpreendente, de fato. Vou escrever propriamente sobre ele, mas acho que se encaixa nesta lista, já que pode ser sobre amizade, sobre redenção e poder. Joe Buck (Jon Voight) é um texano que decide encontrar uma vida melhor em Nova York. Ele acha que por ser bonito e atraente vai conquistar as mulheres da cidade grande com botas de cowboy e um eterno bronzeado. De cara, claro, as coisas não funcionam assim, toda grande cidade sabe ser cruel com os ingênuos. De alguma forma, ele cruza com Ratso (Dustin Hoffman) e pode se dizer que se tornam amigos. Os dois, miseráveis e sem trabalho, seguem tentando se dar bem e enfrentando as consequências de muita pobreza e ideias românticas demais sobre ganhar a vida, para dizer o mínimo. Os dois atores, hoje já grandes nomes da cinematografia americana, aqui estão soberbos. A trilha sonora é de uma nostalgia gritante, da mesma forma que para nós é ver a Nova York de mais de 40 anos atrás com um viés urbano de sombras, sujeira, vida real. O filme é tão bem construído que trechos dele soam com documentais, tamanha composição realista daquela rotina e narrativa. É impressionante e perfeito. Até o fim. Veja com calma, se deixe levar pela história, não ache que é um filme comercial. Você vai se impressionar. E se incomodar um pouco. Levou melhor filme, roteiro e direção no Oscar de 1970, além de outros 24 prêmios e 15 indicações.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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