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Café: extra-forte

Há muito tempo atrás, quando havia locadoras, dvds e filmes em vhs, os feriados eram sempre uma emoção a ser compartilhada. Estantes esvaziando, gente perdida passeando pelos corredores, entre as prateleiras sem saber que filme ver, que ator era legal, qual era o nome daquele diretor estranho, será que um filme estrangeiro seria uma boa... e nós ali, aguardando nosso momento de opinar, indicar, quem sabe nosso gosto combina ou nossos argumentos ajudam... Mas agora seus problemas acabaram! A listinha da Netflix está mais eclética do que nunca!

Em uma semana conturbada para o país em que ainda patinamos sobre previsões quanto ao nosso futuro sombrio, segue uma lista diversa e interessante, com uma pegada mais internacional do que de costume:

Meus 533 filhos (2011, de Ken Scott) – 109 min
Esse foi indicação de meses atrás de Catarina Rangel, fotógrafa, amiga e também baiana residente no Rio. De molho em casa no último fim de semana, consegui me atualizar e esse filme é uma delícia de ver. Dirigido por Ken Scott que também escreveu o roteiro junto com Matin Petit, a mesma dupla fez um remake americano em 2013, com Vince Vaughn. O original franco-canadense é ótimo. Leve, carrega Patrick Huard como David Wozniak, um cara do bem e enrolado, entrando nos 40 anos e sempre com problemas de dinheiro. Tempos atrás, para ajudar a sanar as dívidas, frequentou uma clínica para vender seu esperma e assim, anonimamente, é pai de 533 filhos. Destes, 142 decidem entrar na justiça a fim de saber suas origens.  A trama gira em torno de um dilema moral que parte de uma situação absurda, mas o filme ultrapassa o fantástico e ganha nosso coração, em situações engraçadas e cativantes. É uma boa forma de começar o feriado.

Master of None (2015, de Aziz Ansari e Alan Yang) – 30min
Aziz Ansari é um comediante em ascensão nos Estados Unidos. Junto com Alan Yang, são criadores de Master of None e já haviam trabalhado juntos em Parks and Recreation. Master trata da vida de um jovem ator tentando seu lugar ao sol em NY, vivendo com os mesmos dilemas de qualquer ser humano entre os vinte e tantos e trinta e poucos anos. A série vai além de Friends, How I met your mother ou Girls. Ela atravessa diversos temas de forma inteligente, crítica e algumas vezes irônica, incrementando em qualidade o interesse de um público diverso. Racismo, sexualidade, carreira, relacionamentos, amizade, está tudo aí e dá vontade de ver mais. Vale muito a pena. Das melhores séries que há hoje na Netflix. Vi em dois dias.

Winter on Fire: Ukraine's fight for freedom (2015, de Evgeny Afineevski ) – 102min
Lembra da crise política da Ucrânia, que se alastrou e se transformou em uma questão internacional, envolvendo a anexação da Criméia pela Rússia? Aqui é o início de tudo, o estopim, a escalada da violência policial e o levante popular, influenciado pelos acontecimentos anos atrás na praça Tahir, no Cairo. Agora tudo acontece na praça Maidan e vemos um pouco do que se pode fazer pelo país e as consequências políticas e sociais das manifestações. É imperdível, pertinente pelo momento que vivemos e já falei sobre isso, sobre o Cairo e sobre nosso Brasil no Medium.

LFO (2013, de Antonio Tublen) – 94min
LFO é uma sigla em inglês para Oscilação de Baixa Frequência, que significa um sinal de áudio que não se ouve, mas ainda assim emite uma vibração. Patrik Karlson – em grande atuação – é Robert, um homem que vive trancafiado em casa pesquisando variações de LFO e trocando experiências sobre o assunto com pessoas ao redor do mundo, via internet. Vive sozinho e descobre uma modulação que é capaz de hipnotizar pessoas e ele passa a usar isso em seus vizinhos (Izabella Jo Tschig e Per Löfberg) como um experimento, sem seu consentimento e em benefício próprio. É o início de uma série de acontecimentos permeados de humor negro e um clima frio que segue se intensificando à medida que as situações parecem próximas a fugir de seu controle. O roteiro e seus atores sustentam a trama que se maquia de lentidão, mas segue de acordo com uma rotina cada vez mais perversa e perigosa. Alemão, com poucos cenários e bastante criatividade, é daquelas comédias inteligentes que não dão pra gargalhar, mas ficamos de cara com o que vemos. 
 
Romance de Manhattan (2015, de Tom O'Brien) - 94 min
Estou correndo risco com esse aqui. Simples, despretensioso, mas me fisgou com essa pegada de câmera na mão, filme independente, baixo orçamento. Tenho uma identificação com filmes pequenos porque eles costumam ser inventivos. É a velha regra da crise econômica: se não há dinheiro e tem que fazer bonito, puxa na criatividade. Costuma funcionar, é só pensar na medida certa contando com a realidade do orçamento. Voltando: é uma ficção que conta a história de Danny (Tom O’Brien, que dirige e escreve, além de ser o protaognista), um cara que decide fazer um documentário sobre relacionamentos em Manhattan, a partir de seus próprios relacionamentos com amigos, familiares etc. Essa investigação ganha cores com um bom elenco (Katherine Waterston - uma das minhas atrizes favoritas, Caitlin Fitzgerald e Gabby Hoffman, incrível em Girls) e seguimos sem muito esforço. É um pouco como gente como a gente e é dos assuntos que me interessa normalmente, comportamento, gênero, pessoas. É como uma comédia romântica, mas menos boba que o costume. Tenta e me fala! ;)
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Demon é um filme de expectativas. Toda a sua narrativa, seu ritmo é um crescente em suspense que nos prende minuto a minuto, com fotografia, enquadramentos, trilha e atores que juntos garantem nossa ansiedade, nossa vontade de entender o que está acontecendo com aquelas pessoas em uma festa de casamento. Até que algo dá errado.

A proposta de um filme de terror é, obviamente, nos causar medo. Pode ser aquele de momento, que vem em uma sequência de sustos e vemos o assassino ou, que me parece mais interessante, o que trata do sobrenatural. Cada religião é composta de não sei quantos milagres e mitos, lendas que pelo medo e pela fé nos mantêm firmes em tudo o que é inexplicável. Assim, nos prendemos a elas, por acreditar que há algo além de nossa compreensão e, mais simples e importante, há algo além.
Peter :: Itay Tiran
É do sobrenatural que trata a história, com Peter (Itay Tiran) e Zaneta (Agnieszka Zulewska), um casal que se conhecem há pouco tempo, ele inglês, ela polonesa. Apaixonados, decidem se casar e ele se muda para a Polônia, para a pequena cidade natal da amada. Nos preparativos do casamento se hospeda em sua futura casa, a fim de iniciar as obras para adaptá-la à nova vida e lá encontra uma ossada humana no quintal. Sem saber o que fazer, resolve tocar a vida e resolver esse detalhe depois da celebração. É quando tudo se complica para seu lado. 

Hitchcock já dizia que um bom filme de suspense – era seu gênero, mas se aplica também ao terror – deve fazer sofrer ao máximo sua audiência. E seu diretor, Marcin Wrona*, constrói uma grande base: um forasteiro que pouca gente conhece, um mito judaico de possessão, a transformação do protagonista, a reação de sua mulher, um estranho concorrente ao amor da noiva e um professor, que parecem ver uma história se repetir – e talvez deem alguma dica, eu diria que está tudo com estes dois últimos – um padre com medo. Em paralelo, o casamento em si, uma grande festa e a decadência que se promete numa falsa elegância à base vodca suficiente para causar amnésia alcoólica coletiva no dia seguinte, sob um humor obscuro e refinado que os grandes filmes têm. O objetivo é esse mesmo, fazer com que todos esqueçam o que viram ali, aquele espetáculo esquisito, um noivo se comportando como qualquer coisa, uma imagem de vaidade de uma família abastada frente uma ameaça do passado, incontrolável, incontornável.
Zaneta :: Agnieszka Zulewska
Há um ponto em toda a narrativa dramática de resolução da trama que sentimos quando se aproxima. Ele pode tanto ser clímax como aquele momento logo depois, que começamos a ensaiar mentalmente o que entendemos ser o final. A crise aqui é que essa é justamente sua fraqueza. Com a grave situação instaurada, não parece haver saída e o que esperamos dos atores, quase impondo a eles as falas que estão em nossas cabeças, não acontece. Ficamos como órfãos indefesos e angustiados ao perceber que dali não virá muito mais, que ficaremos sem um grand finale. E se em qualquer obra isso é extremamente importante, no terror é fundamental.

A base do terror e do suspense implica em não requerer grandes explicações a respeito de seus acontecimentos. Ao mesmo tempo, se se deixa tudo como está o filme termina aberto demais, de forma que o espectador não consegue encerrar a trama. Há algumas possibilidades aqui e o filme é lindamente construído, Turan e Zulewska são grandes atores que seguram as cenas, especialmente o primeiro, que traduz um personagem torturado em manifestações viscerais e inteligentes, mas todas as conclusões que pensamos são frágeis, com peças soltas no terceiro tempo da narrativa.
Ronaldo (Thomasz Zietek) e Jasny (Tomasz Schuchardt)
Com um início promissor e um desenvolvimento irretocável, o filme peca e desfaz seu novelo sem encontrar uma boa ponta, como acontece com as expectativas frustradas. Sua construção funciona como elaboramos nossas ideias sobre alguém, algum projeto, alguma viagem e não sabemos o que vai acontecer, se dará certo, não importa o tempo de planejamento e empenho. Sentimos-nos reconhecendo um terreno no tempo de sua duração, em um filme obscuro que desperta interesse e curiosidade e seguimos encantados com seus personagens, com uma fotografia linda e um grande trabalho de arte, do figurino aos cenários. É um filme de produção madura e de qualidade, que se garante em seus aspectos técnicos e equipe, mas há algo ali que não funciona. Em qualquer história há uma certeza clara – não de sucesso – mas de coerência, verossimilhança, estudo da trama que precisa garantir sua plausibilidade até o fim. E aqui falha de uma forma estranha de tão rasa, nos deixando sofrendo, imaginando que estava tudo indo muito bem, até esquecerem que havia um roteiro a terminar e amarraram tudo solto demais, quase à espera de alguma sequência que fatalmente diluiria o original e estragaria a boa ideia. Vale a pena ainda assim, desde que se assista com isso em mente.

++++

*A triste curiosidade reside em seu diretor, Marcin Wrona, que cometeu suicídio durante o planejamento de lançamento do filme ano passado, na Polônia. Jovem de 42 anos, sem motivo aparente, o diretor, roteirista, professor de cinema e PHD em estudos sobre cinema nos deixou seus filmes como herança e já uma falta reconhecida no cinema europeu. 
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Com ar de comédia romântica boba como a grande maioria costuma ser, A três vamos lá, traz outros contornos e questões que revelam muito do comportamento e cultura contemporâneos em casais jovens.

Micha (Félix Moati) e Charlotte (Sophie Verbeeck) são um casal que se conhece há alguns anos e vive junto em uma nova casa em Lille. Lá, são amigos de Mélodie (Anaïs Demoustier), uma advogada em início de carreira que atende clientes de difícil defesa. Há alguns meses, Mélodie e Charlotte mantêm um relacionamento escondido, até que o mesmo começa a acontecer entre Micha e Mélodie. Confusa, sem tempo e tendo que montar um cronograma que não interrompa seus compromissos profissionais ou entregue seus relacionamentos com cada parte do casal, Mélodie vive em tensão e confusão constantes.


O filme é leve e gostoso de assistir, é desses de domingo à tarde em algum cinema de bairro, sem compromissos ou pretensões de qualquer obra prima. As comédias românticas têm o propósito de fazer passar o tempo e nos deixar saudosos de alguma coisa que até podemos nem ter tido, mas que não chega a machucar os corações e A três segue essa cartilha. Há, contudo, alguns exageros de roteiro que beiram o absurdo, quase escapando à verossimilhança, mas não chegam a inviabilizar a estrutura básica da trama. O importante é ver o desenrolar dos diversos enlaces amorosos e sua conclusão que me deixou dividida, pensando inicialmente se faltou uma melhor saída para o roteiro ou se, na verdade, é esta a melhor forma de fazê-lo, levando em conta a construção gradual de seus personagens. 
Sophie Verbeeck (Charlotte) e Anaïs Demoustier (Mélodie)
Acreditando que a segunda opção é a mais coerente, o filme reforça um comportamento que reflete o que vivemos hoje, das liberdades e múltiplas visões nos relacionamentos. Hoje, importa muito pouco a opção sexual ou opções como marcadores e rótulos definitivos para as pessoas. O desejo é o principal motivador e ele se define enquanto se instaura, no momento de seu despertar. Da mesma forma, a manutenção das relações é tão fluida ou mais, sobrevivendo como um equilibrista sob um cabo extremamente fino que pende agressivamente para qualquer lado que o vento soprar. Os três personagens são construídos sobre essa base, assim Charlotte é aquela que consegue se manter em um relacionamento, mas, ao mesmo tempo é inatingível, sob uma barreira de proteção para si mesma ela se firma e, ainda que se envolva com um ou outro, não se permite a vulnerabilidade de uma entrega mais profunda. Não é que ela deixe de gostar de alguém, mas ela provavelmente não acredita ainda ter encontrado alguém que lhe desequilibre.

Neste sentido, Micha e Mélodie são semelhantes, não é à toa que ambos se relacionam com Charlotte: há sempre o pêndulo que pesa mais para o lado mais forte, mais controlador e falha para o sensível. Os dois aqui são os sensíveis, que se identificam, se envolvem e preferem a entrega total à entrega nenhuma. São os românicos de nossos tempos, cada vez mais raros, marcados como bobos e que, talvez, vivam de forma mais sincera com eles mesmos e seus pares. No filme, não são os bobos de um possível esterótipo, tocam suas vidas, tomam decisões e é essa a graça do filme. Seus exageros de roteiro se concentram muito mais nas cenas de 'acaso', algumas bastante supérfluas, mas que funcionam como pano de fundo, ilustrações de um entorno onde os protagonistas se encontram.

Hoje são poucos os casais jovens que, em um relacionamento monogâmico permanecem juntos por longo tempo, atravessando situações difíceis antes de desistir à primeira crise. Se nada é tão consistente, se tudo pode ser testado, estão todos disponíveis ou em vias de, e assim, os envolvimentos acabam superficiais, já que o aprofundamento exigiria tempo, escolha - portanto indisponibilidade - e dedicação, como aponta e faz contraponto a personagem de Charlotte. Quanto menor o envolvimento, menos crises, menos aprofundamento, menos cuidado.
A trois: Charlotte, Micha e Mélodie
Essa fluidez é marca do que nos é contemporâneo e não está de todo errado se adequado a seus interesses, mas nem sempre é compreendido, racionalizado desta forma. Uma versão honesta e evidente em todo o filme acontece à Micha e Melodie, considerando a história de cada um deles e as consequências de seu posterior envolvimento. Os personagens são atropelados por suas histórias, quase não dão conta das consequências  de suas ideias. Mas nada que se transforme em tragédia, ao contrário, o filme rende bons momentos e nos faz refletir em meio a um caos, que, ainda bem, não é nosso.


À parte seus exageros, o filme é relevante e divertido, com sequências cuidadosamente elaboradas das cenas de expectativas e sua grande e bonita conclusão. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês que estuda a sociedade contemporânea, encontra em sua teoria o conceito de amor líquido, aquele modo de se relacionar em que sempre estamos buscando alguém com quem dividir os momentos, mas nunca achamos ser suficiente quem encontramos. Em um rápido e simplista resumo, permanecemos numa constante busca por alguém, estando sempre satisfeitos por um tempo, até que o encanto inicial se dissolva e no momento da construção da intimidade, se revolva em uma nova busca, no descarte do anterior. É um ciclo vicioso que culmina em histórias fugazes, como marca de nossos tempos fluidos, sem fixações, bases sólidas de qualquer coisa que requeira tempo para se desenvolver. Aqui, cada personagem põe em prática um tanto desta liquidez à sua maneira e veremos gente como a gente, com uma sinceridade sutil, escondida na leveza que o gênero promete e que passa suas questões mais delicadas quase sem percebermos, nos tropeços de alguns exageros, mas com cuidado na construção de seus protagonistas.
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Nem se despediu de mim.
Nem se despediu de mim.
Já chegou contando as horas,
Bebeu água e foi-se embora,
Nem se despediu de mim.

Quem conhece a música, lê cantando e pode até tentar ficar parado, mas é uma dificuldade. Interpretada por Luiz Gonzaga, o rei do baião, é na verdade, de João Silva, um dos maiores compositores de forró do planeta e de quem pouco se conhece. Com Danado de Bom isso muda um pouquinho.

Debby Brennand, diretora pernambucana, teve a ideia de trazer um dos maiores nomes da música brasileira para a graça do povo em um filme bonito, que dá nó na garganta e aperto no coração de qualquer brasileiro que goste de forró e, principalmente do nordestino, retirante ou não. João saiu de Arcoverde, Pernambuco aos 16 anos para ganhar a vida aqui no Rio de Janeiro e ficou por outros 30, numa parceria histórica com Luiz Gonzaga, lhe garantindo um disco de ouro com Danado de bom, que dá nome ao filme e leva três músicas suas das 13 que compõem o álbum: a música título, Pagode Russo e Sanfoninha Choradeira. Conhecemos um homem que gosta de falar de si e dos outros, de suas músicas, do nordeste e sua cultura com um orgulho e paixão de quem sabe de onde veio e não se encanta com qualquer coisa que lhe pareça maior. 
Luiz Gonzaga
O filme acompanha João Silva em uma viagem a Arcoverde, intercalando sua história, as parcerias que fez – especialmente com Gonzagão – com grandes nomes da música brasileira e suas composições, um conhecimento que parece ser autodidata, um talento puro e rico que parte de suas experiências e cultura na criação de mais de duas mil músicas. Conhecemos um homem simples e falador que gosta de aparecer e exibir seu talento, esse de que tem certeza e sabedoria de perceber o potencial e orgulho de ter vivido dele. Como todo brasileiro humilde, não teve vida fácil, nada lhe foi dado de graça e não se fez de rogado, tocou o seu barco como lhe aprouve e fez por onde.

O filme é uma delícia para nossos ouvidos e olhos. Quem gosta de dançar vai sofrer na cadeira com as músicas deliciosas e ícones desse macro gênero que é o forró e as imagens de arquivo, marcando um ritmo gostoso de um tempo passado que se repete ainda hoje em alguns bailes. Para quem só gosta de ouvir e/ou não sabe dançar, vale da mesma forma, aprendemos as histórias das músicas que o mestre compôs com a graça no que é dito, tanto pela forma aparentemente simples com que são elaboradas, quanto pela fala, um trato sertanejo e saudosista de tratar de si. As imagens de arquivo são um grande ganho na narrativa em uma seleção impecável que combina sua vida no sertão, o Rio de Janeiro de quando viveu aqui, sua carreira profissional e por onde sua música se espalhou, com a montagem de Jordana Berg, que só comprova seu talento já conhecido em outros grandes filmes, como boa parte da produção de Eduardo Coutinho. Aqui tudo funciona bem, o equilíbrio dos clipes, as legendas, o grafismo, o carinho e cuidado com que o filme foi feito para enfeitar – não que fosse necessário – uma biografia-homenagem.
João Silva
Vemos a grandeza de um homem simples, desses que sabemos muito pouco – e imaginamos quantos outros compositores que estão sob as vozes de grandes intérpretes não conhecemos – e agora temos a sorte de ver ao menos um. Só neste Danado, encontramos Ney Matogrosso, Zeca Baleiro, Dominguinhos, Targino Gondim, Elba Ramalho, Gilberto Gil e Mariana Aydar, entre outros. E é só uma fração, como toda a biografia, de uma personalidade.

Se em alguns momentos vemos João Silva se pavonear, quase criando um personagem para si, é muito uma forma de se dar a devida importância, entender que lhe deram protagonismo e holofotes além da assinatura de suas músicas e dividir microfones em participações. Essa interpretação é um ganho imenso na obra, por mais que um olhar agoniado se incomode de imediato. É preciso dar tempo e esperar os momentos mágicos que nos dão brilho no olhar, como quando João fala sobre a composição de Nem se despediu de mim ou do comentário sobre a educação formal, gramática e sertanejice, em uma sequência maravilhosa que exemplifica a interpretação equivocada de uma cultura local, que até hoje costuma confundir sotaque, tradição oral e forma de falar com ignorância. É ainda a oportunidade que temos de ver o artista falando de si e do que fez, das saudades dos seus, arrependimentos e glórias, especialmente do amado Gonzaga, lhe dando o valor e peso de alguém que enriqueceu a música brasileira, mas que não fez sozinho. Aqui João também é rei, com cetro e coroa, saudade e sertão.
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Essa semana corrida veio eclética! Aproveitando um pouco de cada coisa, tem drama, romance, comédia, documentário e série! Tudo muito bom mesmo e cada produção surpreendente à sua maneira. São filmes que, à exceção de Azul é a cor mais quente por toda a polêmica, não chamam muita atenção nas prateleiras virtuais, mas são excelentes. E ainda tem o retorno de uma série incrível e muito engraçada. Faz a pipoca e aproveita a sessão!

Cake (2014, de Daniel Barnz) – 102min
Melhor começar com drama, porque depois é só alegria, certo? Aqui, Jennifer Aniston prova que vale mais do que Rachel de Friends, aquela série que tanto amamos e será eterna, por mais que já tenha acabado há algum tempo. Ela é Claire, que perde um filho em um acidente e vive sob um luto amargo e doído, refletindo em um sério problema de coluna. O filme se desenvolve e subverte aos poucos essa negatividade graças a um novo conhecido e a sua acompanhante/empregada doméstica Silvana Adriana Barraza, que lhe sustenta além de suas capacidades. O filme não é apenas sofrimento, na verdade, mas de um sarcasmo que rende algumas risadas. É a jornada de transformação de uma mulher realista e foi aqui que Jennifer galgou seu lugar ao sol para além das comédias de forma surpreendente em uma mudança tanto física e estética quanto de construção de personagem e atuação. O filme ainda conta com Anna Kendrick, Sam Worthington, Felicity Huffman e William H. Macy.

My own man (2014, de David Sampliner) – 82min
É um desses documentários que passam batidos por nós na Netflix. A chamada dele fala de um homem que deve se preparar para ser pai e não muito além disso. Demorei para ver, mesmo tendo uma predileção por documentários subjetivos e pessoais e a surpresa foi grande, deveria ter visto antes. O filme produzido por Edward Norton consegue ser sensível e delicado, contando a história de um homem jovem que tem uma relação difícil com o pai, que parece ser um personagem, de tão estereotipado naquele perfil de ‘homem-macho’ que conhecemos bem. O protagonista e diretor do filme, é seu extremo oposto e passou a vida empurrando goela abaixo sua estrutura delicada e sensível, uma outra forma de masculinidade nem sempre reconhecida socialmente. Quando sua mulher engravida, ele resolve investir nessa ideia de ser pai e parte para o encontro com o seu para investigar suas identidades, relacionamentos e dificuldades. Acaba sendo um filme sobre família, gênero, sociedade e futuro e nos vemos ali de alguma forma, com nossas dificuldades e situações constrangedoras e engraçadas. Vale muito a pena.

Azul é a cor mais quente (2013, de Abdellatif Keniche) – 180min
Esse é ousado e comprido. Na verdade é mais polêmico do que inovador, que de fato, não inova muito. Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux) se conhecem e se apaixonam. Adèle é quase inocente, está se descobrindo e se entrega totalmente a Emma, mais velha e experiente e dão início a um tórrido romance, mas esta não é uma comédia romântica. O amor intenso pra mim é muito mais relevante aqui enquanto história de um primeiro amor, aquele que não controlamos, que sofremos o diabo e aprendemos, independentemente de saber se haverá um final feliz ou triste. Ao mesmo tempo e não há como não mencionar, há exageros do diretor e alguma exploração das atrizes, um excesso nas cenas de sexo, de closes, de invasão. É um filme sobre um relacionamento lésbico que transcende rótulos, já que o que importa aqui é a construção de um amor jovem e novo e seu desenrolar. Intenso.

In her shoes* (2005, de Curtis Hanson) – 130min
Depois de uma história de amor romântico entre duas mulheres, um amor fraterno e divertido neste Em seu lugar*. Rose (Toni Collete) e Maggie (Cameron Diaz) são duas irmãs bem diferentes uma da outra. Enquanto Rose tem um emprego formal, uma vida estável e tenta encontrar uma pessoa para dividir a vida, Maggie ainda não traçou um perfil profissional e nem parece ser esse seu foco – vive de um deixa a vida me levar que lhe parece bom, de vez em quando com emoções demais e alguns problemas. Elas vão morar juntas por um tempo e com isso as diferenças serão reforçadas, da mesma forma que as semelhanças e a importância que uma terá na transformação da vida da outra. Leve, animado e inteligente. Curtis Hanson é diretor experiente com um Oscar no currículo, por Los Angeles, cidade proibida (1998).

That 70’s Show (1998 - 2006, de Mark Brazill, Bonnie Turner e Terry Turner) – 22min
Não sei em que ano comecei a ver esta série, mas é uma das mais engraçadas que conheci. Como o título indica, é baseada nos anos 70 e o retrato da época – ainda que eu não possa dizer que seja fiel à realidade porque não vivi ali – traz muito dos conceitos, do que entendemos ter sido essa geração. Seis adolescentes amigos (5 americanos e um intercambista de algum país latino-americano) se encontram no porão da casa de um deles para falar da vida, ver tv, ouvir rock e fumar qualquer coisa descobrem a vida em namoros, relacionamentos com suas famílias, colegas de escola e eventuais trabalhos. Leve e divertida, vale o longo investimento: são 8 temporadas que lançaram Topher Grace, Ashton Kutcher e Mila Kunis. Estou revendo tudo, do início ao fim.
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É no calor do momento e com o benefício de elaborar críticas que posso escrever sobre o A Bruta Flor do Querer antes de seu lançamento e, em oposição a outros que tenho assistido e me permitido um tempo para digerir, venho para o texto logo após a sessão, com um aperto no peito de qualquer coisa nova que não conseguimos definir (e precisamos?) de imediato.

O filme conta a história de Diego (Dida Andrade), um cara arrogante como quase todo recém-formado em cinema, que ganha a vida filmando casamentos e se apaixona por Diana (Diana Motta), a garota charmosa e misteriosa que trabalha em um sebo. Com um melhor amigo (Andradina Azevedo) colado em todos os momentos, vive a crise dos vinte e poucos, daqueles que saem da faculdade com curtametragens na mão, nenhum dinheiro e uma necessidade de viver um sonho de qualquer coisa se confrontando com a realidade da falta de trabalho e do pagar as contas do cidadão comum. Essa é a vida de muitos recém-formados de quase qualquer profissão, a queda para a realidade do mercado de trabalho e a saída do conforto universitário, a ruptura daquele cordão umbilical que nos mantém estudantes por um mínimo de quatro anos. Dida e seu amigo não são personagens por quem nos apaixonamos, não há margem para isso, mas sim, alguma empatia em suas crises e na transformação por que passa o protagonista.
Dida Andrade: Diego
Feito sem edital, com o apoio e financiamento de amigos e baixo orçamento, é no mínimo maravilhoso ver uma produção realmente independente de qualidade. O filme é simples, com poucas locações e personagens e não carece de muito mais. Merten evoca Truffaut, como um possível admirador destes diretores-protagonistas e não é à toa: a proposta não difere muito do conceito da nouvelle vague francesa, com outros jovens reunidos cheios de ideias para aplicar com pouca grana. Além disso, o viés romântico, a realização de um amor platônico, a saída para o que decorre disso. Aqui há uma sujeira urbana, um viés que não é marginal, mas se tenta algo parecido em fotografia e diálogo, reclamando da caretice dos outros, da aparente normalidade do mundo e de uma manutenção forçada de um padrão de viver e seus conceitos de sucesso. Nos enquadramentos, há uma distinção  nítida entre as cenas de romance, do encantamento pela garota, dos problemas em que se mete Dida, e no final, da conclusão em plano fixo, após uma noite reveladora, de catarse e clareza - como se tivéssemos que passar por uma grande prova para entendermos aquele momento e o significado daquela jornada.

Essas referências de transformação do personagem são também de ato e não só de discurso e luz, então drogas, brigas, festas e sexo representam fielmente este estado de coisas, bem como a independência da família, que inexiste no filme por não representar naquele instante nenhum fator preponderante na vida do jovem. É claro que as discussões são repertório da crise da idade, do acúmulo de frustrações e da não tão longínqua adolescência rompida a fórceps no pós-faculdade. Faz parte, da mesma forma que a trilha sonora, cujas músicas não pertencem à idade desta geração - mas sim a de seus pais e tios - e, ao mesmo tempo, são ícones de qualquer juventude mais 'alternativa' de nossos centros urbanos. A trilha é bem escalada aqui, como um personagem ou artifício de ênfase e, após um determinado momento, ficamos ansiosos pela próxima inserção, aguardando outro clássico moderno brasileiro entrar em consonância com o estado de espírito dos personagens.
Diana Motta: Diana
Bruta flor do querer é trecho de Quereres, de Caetano Veloso. A música já traduz em grande parte o clima do filme, ainda que o ritmo animado do cantor não encontre reverberação neste visceral e doído. Não é um drama de chorar, mas de apertar o peito, já que muito do que está ali é vivido por muitos em um determinado momento da vida. As tragédias pessoais e a própria objetificação da mulher não são irreais – não entrando no mérito do certo e errado, porque é muito óbvio e não é o foco da discussão aqui – já que tanto os mocinhos-bandidos quanto as mocinhas-não-inocentes se posicionam assim enquanto personagens plausíveis e nesta história são tudo, menos vítimas ingênuas. Quereres mostra o que somos e o que almejamos; esse paradoxo é parte (senão essência) da vida, e ali me parece honesto. Talvez seja essa a qualidade do filme, por fim.

A desconstrução da quarta parede é um artifício sempre arriscado que pode funcionar como uma grande surpresa e ser um ganho aos espectadores ou, se mal usada, frustrará a todos e sairá como amadorismo, ruptura desnecessária, quebra da ilusão narrativa. Aqui ela é desmontada progressivamente, de forma que temos tempo para perceber seu objetivo e não se torna um estorvo. Em um momento me perguntei se não seria uma saída de um roteiro com um final frágil, mas não faz diferença agora, já que o filme conclui bem. Lançado em 2013 em Gramado, parece só ter conseguido distribuidora agora (O2 Play) e por isso entra em cartaz esta semana. Vale o investimento, nem que seja para se surpreender com lindas cenas de um conturbado cara apaixonado e uma trilha sonora impecável. 
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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