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Café: extra-forte

Poderia ser apenas mais uma produção de crime e violência contra a mulher, como as que abundam nos streamings dos últimos anos, na ficção e no documentário. Entretanto, a série ultrapassa o 'estereótipo' e ganha o brilhantismo das grandes produções que a HBO traz de tempos em tempos. Necessário e intrigante.

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Cultura e tradição

Há uma tradição na noite de Natal na Islândia, em que as famílias se reúnem para trocar livros e contar histórias em torno das lareiras. O país é um dos maiores consumidores de livros e, em 2003, foi nomeado pela Unesco como a capital literária do mundo. Como se não bastasse, é um dos mais pacíficos também e, talvez por isso, tenham tanto interesse e curiosidade por histórias policiais e de horror.

Por outro lado, fora desta zona quase mágica de conforto, segurança e qualidade de vida, encontramos um volume expressivo de produções audiovisuais que retomam o tema da violência doméstica e das diversas violações e abusos sexuais no Brasil, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ao colher dados estatísticos destes países, encontramos oposição aos números da ilha do gelo e então entendemos que estas produções são, na verdade, alertas de um comportamento doentio, repetitivo e, infelizmente, cultural destas nações.

Dentre todas, uma série que se destaca por um conjunto de fatores é I may destroy you. Dirigida, escrita e protagonizada por Michaela Coel e lançada em 2020 pela HBO, a série de 12 episódios conta a história que a própria artista viveu, ao ser drogada e estuprada em um bar em Londres. A Inglaterra acumula dados vergonhosos deste tipo de violência, associados à ineficiência policial em resolver as denúncias. Por lá, 85 mil mulheres e 12 mil homens sofrem algum atentado sexual violento por ano.

i may destroy you - crítica
Michaela Coel e Marouane Zotti | I may destroy you

Por que assistir

Não apenas por ser um tema que nos marca e ameaça todos os dias - todas e todos nós conhecemos alguém que já viveu ou vive alguma experiência de relações abusivas, estupro, assédio ou atentado sexual violento, quando não somos nós as próprias vítimas - como por ser uma grande e sensível produção.

A construção da narrativa provoca corações e mentes mais conservadoras, as mesmas que lutamos para trazer alguma clareza com as afirmativas óbvias de que ela não teve culpa por ter bebido, por estar sozinha ou acompanhada, por estar com roupa curta, por sair à noite, por viver. A série nos estimula a pensar mais sem se impor didaticamente, especialmente quando traz uma personagem com múltiplas camadas, dando uma humanidade não apenas a ela, como a seus coadjuvantes. Os amigos de Arabella (Michaela Coel) ganham peso e trazem também histórias que ilustram com nuances o que é possível viver em torno do tema.

Eles são como nós, como ela. Vivem o dia a dia em uma grande cidade, pagam contas, trabalham, se relacionam e tentam se proteger. Nos tempos de redes sociais e paqueras através de aplicativos de relacionamentos, há uma zona cinzenta de intimidade e permissividade entre os corpos que pode ser amplamente debatida e que também aparece aqui, interligada com a insegurança que estes encontros com desconhecidos provocam.  

As diversas histórias por que vivem os personagens nos deixam atônitos e com o coração na mão, porque nos ganham na empatia, no reconhecimento e na solidariedade. Nos identificamos com muito do que acontece ali e nos vemos - e já vivemos - situações similares, que nos fazem repensar as nossas próprias relações de amor e amizade e histórias.

por que assistir I may destroy you
Michaela Coel e Weruche Opia | I may destroy you

Estupro e permissividade

Há quem ache que se precisa explicar e justificar sobre o tema. O estupro, como sabemos, é um crime de vergonha não por quem comete, mas por quem sofre. Instituiu-se uma ideia na História do Mundo de que - especialmente tratando-se de mulheres - elas têm sempre a culpa por terem sofrido algum atentado ou terem sido estupradas. O dito é tão comum que sai arrastado com cansaço pela digitação no teclado, como se isso fosse mais óbvio do que o resultado de 2 + 2.

O que é preciso expor sempre e repetidas vezes é que não há permissão de nenhum tipo quando há estupro. É como uma antítese, são conceitos que se excluem, habitam o mundo da alteridade se aparecem juntos. Como os pólos de repulsa dos ímãs. 

I may destroy you desenha isso com uma sofisticação que quase nos tira lágrimas - não pelos crimes, mas pela forma plena e bonita ao tratar do tema. São diversos os mecanismos de violência, são muitas as sutilezas e brutalidades e por isso a necessidade de proteção. Por um gesto de descuido, como não levar a amiga para a casa, algo se perde no caminho. E a série traz isso e outros grandes momentos que não culpabilizam ninguém além dos agressores - como deve ser - e até lhes garante alguma humanidade, onde isso é possível. É um risco acertado, se pensarmos que a monstruosidade pode habitar em todos nós em alguma medida.

Crítica de I may destroy you, nova série da HBO
Paapa Essiedu | I may destroy you

Beleza no caos

Para além das variadas condições da violência expostas de tal forma a dirimir as dúvidas de como ela se manifesta, a série traz um panorama vivo do hoje, quando se fala em cultura urbana e comportamento.

A seleção do elenco foi excepcional. Da maioria negra, voltamos, como em Insecure (também lançada pela HBO), a trazer qualidade na diversidade, dando voz e vez a quem é de direito, com as questões de cor e gênero. A tecnologia permeia os assuntos, assim como o comportamento nas redes sociais, do uso excessivo ao útil. O ganhar a vida também. O início das carreiras, o reconhecimento e a busca por um lugar ao sol, vencendo preconceitos e estereótipos ou aprendendo a conviver com eles sem reforçar ou renegar as próprias origens. 

Ainda, há os desafios em se relacionar sob o signo do hibridismo e da fluidez que dita as regras da década. A intimidade - construção que requer tempo para firmar o alicerce que é conhecer o outro - perde espaço para o imediatismo, evoluindo de uma catarse eventual, como o Carnaval, para o querer muito todos os dias, recebendo quase nada em retorno, como um vício que corrói seu usuário. O vazio se vê no olhar de Kwane (Paapa Essiedu), um dos - grandes - atores da série, que se encontra com outros corpos, retornando sempre com a espera de uma nova aventura, ocupando o espaço de algo mais consistente que levaria outro tempo para germinar.

I may destroy you não força o tom, mesmo com o peso do tema. É preciso ter atenção com os possíveis gatilhos, entretanto. Quem viveu ou vive situações como a de Michaela e seus amigos (quase todos nós, arrisco dizer, em maior ou menor escala) e tem isso ainda cicatrizando, precisa tomar cuidado. A série dá a tônica de seus temas com a velocidade do cotidiano do adulto entre os vinte e muitos e trinta e poucos anos em qualquer cidade grande ocidental. Entre os dribles para escapar das violências e o gosto agridoce do crescer, vale aproveitar as cores de uma fotografia que ressalta os tons, como uma música que emociona, entristece e até enraivece, mas que não queremos que pare de tocar. 

Enquanto não vivemos a vida pacífica dos crimes de ficção literária da Islândia, seguiremos com produções como esta, que trazem histórias reais e atuais, estimulam o debate e alertam para os infelizes perigos que nos rodeiam, dentro e fora de casa. Neste caso, sem esquecer o entretenimento e a grandiosidade de uma produção exemplar. Que rode o mundo. 
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É um tempo de tantas mudanças que, talvez a menos importante seja a virada do ano. E também talvez por isso, tenha sido tão tranquilo. Vem, vamos conversar.

2021 cronica do ano novo

Ontem brinquei com meu pai, dizendo que não estávamos em 2021, mas em 2020.2. Claro que não e deus me livre, porque 2020 já foi complicado o suficiente para os nossos corações e tudo o que queremos agora é algo para chamar de novo, para criar um novo ciclo, pensar em novos projetos de saúde, de trabalho, de vida.

Quem me conhece sabe que não sou dada a festas de Ano Novo, que fico meio pra baixo, talvez para compensar essa obrigatoriedade de felicidade instantânea e coletiva que a data impõe. Eu costumo ser uma pessoa bem tranquila e pra cima de forma geral, sem a necessidade de manter a vibração além do meu "normal", como se precisasse de uma exacerbação de felicidade, aos gritos de uma noite apenas. A imposição talvez me importune com a questão de se eu estou feliz o suficiente e naquele momento. Eu tendo a achar que sim, mas vai que... Em todo caso, esse fim de ano foi diferente.

Talvez as expectativas não estivessem tão altas, talvez tudo o que queremos para 2021 seja paz e saúde para todo mundo que a gente conhece e não conhece. Talvez a derrocada de Trump tenha trazido esperança com o enfraquecimento de Bolsonaro. Estive mais leve em tempos mais difíceis, sem forçar o sentimento e sem festa no meu quadrado familiar, restrito e isolado. E tudo passou bem. Talvez por isso mesmo, por podermos ter uma noite sem máscaras.

Janeiro, entretanto, começou violento, talvez com a raiva contida de não haver Carnaval esse ano. O mês foi obrigado a ser o primeiro do ano, contrariando uma tradição ancestral de que tudo só começa depois da festa da carne. Uma pena mesmo, porque eu queria um pouco mais de tranquilidade e praia vazia. Começamos os trabalhos, literalmente, com a velocidade de quem não tem tempo a perder, pelo receio de perder tempo lá na frente, com o descaso atual da pandemia. Descontrole de um verão que nos ganha em um clima delicioso e nos perde nas pessoas egocêntricas e irresponsáveis. A conta sempre chega, gente.

Começo o ano daquele jeito, caminhando na orla, tentando manter a saúde e garantindo os movimentos nos meus músculos que reclamam a ausência da tão conhecida ociosidade. O retorno ao Café: extraforte vem feliz, com a promessa de muitas mudanças, com um calendário de postagens viável - já há alguns meses não consigo manter a regularidade da maior parte de 2020, então resolvi fazer menos e melhor. Da mesma forma, vamos mexer em algumas coisas de marca e, necessariamente, identidade. Nada que me tire o foco do conteúdo, tudo que me torne mais próxima dele e de vocês.

Quero trazer um pouco mais de mim, do pessoal, dos contos esquecidos, das histórias divertidas, das viagens. Um pouco do dia a dia aqui e lá no instagram, cuja facilidade de postagem acelera a interação. No facebook, um pouco a replicação destes conteúdos. Inseri também aquele formulário para newsletter, que será mensal e com um texto apenas, para não ocupar muito o tempo de ninguém, não encher o saco e trazer algo que, espero, seja legal.

Vamos começar juntos esse 2021 com a vontade de ser feliz, com certeza mais saudáveis e, quem sabe, até com um cachorrinho. Sinto falta de ter um pequeno, de quatro patas, a me 'atrapalhar' os dias. Vem, ano novo, vamos fazer diferente!
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Sabe aquela história de que quando a gente faz o que gosta, não vemos o tempo passar? É um pouco o que acontece com o Vozes da Mata, uma expedição - documentário entre o Rio de Janeiro e o Pantanal.

Documentário Vozes da Mata, expedição da Orquestra Maré do Amanhã ao Pantanal. Aldeia Urbana Marçal de Souza
Vozes da Mata | Aldeia Urbana Marçal de Souza | foto: Marco Brendon

Um projeto com futuro

Realizado a várias mãos e com muito cuidado, Vozes da Mata é uma expedição dos músicos da Orquestra Maré do Amanhã à região do Pantanal, para levar música e participar do intercâmbio cultural entre as duas regiões do país. Além do que já tocam, há uma sinfonia em preparação, sendo composta por Francis Hime. A ideia é chamar atenção para o bioma que pouco aparece nos noticiários e que sofreu bastante no início do ano (e da pandemia) com as queimadas. Perdemos quase 30% da vegetação nativa, além de machucar e matar vários animais. 

Juntamente com a expedição, estamos produzindo um documentário sensível e atento para levar a informação e a arte adiante. Lígia Feliciano e Lygia Barbosa são as diretoras, duas mulheres retadas que tive a sorte e honra de conhecer. Aliás, neste projeto só tem fera. A equipe da Orquestra, músicos jovens, experientes e sensíveis são atentos ao que se passa, com uma visão crítica da vida. O projeto  musical existe há mais de dez anos e forma 3800 jovens entre os que estão na Orquestra e aqueles de escolas públicas do complexo de favelas da Maré. Poderia passar um tempo só falando deles aqui, da importância de seu trabalho para nós e para eles próprios, em como isso também converte uma realidade de esquecimento em arte e transforma vidas. 

vozes da mata, uma expedição e um documentário que leva música ao Pantanal.
Vozes da Mata | um projeto coletivo
A realização conta com o desenvolvimento da Inspirartes e da Escarlate, a produtora que toca o documentário e onde eu trabalho atuamente. A Escarlate é uma empresa enxuta e com grande potencial, uma visão de negócios importante e muita mulher talentosa, um panorama diferente ao que estamos acostumados na área. Não suficiente esse elenco, contamos com a curadoria ambiental da WWF-Brasil. 

Como estamos em pandemia, conseguimos montar o conceito e a pré-produção de tudo à distância, entre mil chamadas telefônicas e reuniões online. Pessoas no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro se juntaram, tornando tudo verdadeiramente brasileiro. Esta confluência de desejos, observações e conversas garantiram um produto híbrido e rico em referências e experiências. 

Pantanal, Orquestra Maré do Amanhã
Vozes da Mata | Orquestra Maré do Amanhã | foto: Marco Brendon

Documentário como aprendizado

Neste complexo, eu tive a sorte de fazer parte da pesquisa para o desenvolvimento do documentário. Trocamos muitas ideias entre equipe técnica e produtora, pensamos, estudamos. Coube a mim entrevistar a maior parte dos personagens e um mundo se abriu. Conversar com essas pessoas, ter acesso às suas vidas, compartilhar histórias tem sido não só inspirador, como motivador. Ficar até 1h, 2h da manhã 'entrevistando' - porque sempre foi mais uma conversa do que qualquer outra coisa - expandiu meus horizontes e me trouxe para o que eu sempre gostei de fazer na vida: aprender.

Os documentários garantem esses momentos. Aqueles mais sensíveis que buscam encontrar, antes de reafirmar alguma coisa, me movem e são parte da minha formação acadêmica e de vida. O Vozes possibilita isso de forma exponencial, quando cruzamos cidades conhecidas como Rio de Janeiro e Campo Grande e outras que me são novas, como Ladário, Aquidauana e Corumbá. Comunidades e Orquestras Indígenas, Aldeias Urbanas, frações do Brasil que não vemos todos os dias e pessoas, sempre pessoas reafirmando suas culturas e origens - as mais nacionais possíveis, mostram que nossa terra é infinita, plural, resistente e resiliente. Não apenas isso, mas o retorno ao audiovisual com uma pegada mais criativa, buscando conteúdo e forma em conjunto, com uma equipe técnica e artística experiente e conceituada. Quase um presente, um trabalho desses.

Expedição de reconhecimento dos povos originários ao Pantanal pela Orquestra Maré do Amanhã
Vozes da Mata | integração e re-conhecimento | foto: Marco Brendon
O Vozes da Mata segue em produção neste momento, as equipes do filme, da Orquestra e as locais no estado pantaneiro estão juntas, fazendo história. E esta é a primeira etapa, no Mato Grosso do Sul. Após a temporada de chuvas, investiremos para o Mato Grosso e quem sabe o que o futuro nos aguarda. 

Para acompanhar o dia a dia deste projeto único e que tomará o país em breve, siga o Vozes da Mata no instagram e fique atento. Tem muita gente boa participando e querendo participar. Vamos dar voz a quem e o que importa. Vamos juntos.

***

Para seguirmos compartilhando informações e conhecimento, me ajuda com um cafezinho? Custa quase nada e faz uma diferença danada na vida! ;)
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Camila Castro segue em seu De primeira viagem ainda grávida, entre as políticas de abertura e fechamento de Dublin em plena pandemia. Vamos saber a quantas ela anda?

de primeira viagem, camila castro avança na gestação em dublin.

Observação importante :)
Este post segue um pouquinho atrasado e vai encontrar o de dezembro logo mais. Também por isso, o texto está um pouco atrás, porque nossa comadre está adiantada na gravidez. Enquanto isso, vamos saber como estavam as coisas até pouquinho tempo atrás. Vamos juntos na saga da melhor brasileira em Dublin que eu conheço!


Por Camila Castro

Assim como nos primeiros meses, o segundo trimestre também tem seus contratempos, como azia e refluxo. Estou cada dia mais pesada e com dor nas costas de vez em quando. Tenho ido mais ao banheiro, até mesmo durante a noite. Porém, nada como a sofrência do primeiro trimestre. Agora ficam cada vez mais nítidos os movimentos do bebê, a parte mais gostosa da gravidez. Sentí-lo faz com que eu esqueça qualquer desconforto. Além disso, Leo, o papai, finalmente pode curtir e participar um pouco mais da gestação, conversando horrores com minha barriga. O nosso amorzinho responde sempre, com chutinhos e movimentos.

Estudando a gravidez

Nossos familiares parecem estar mais ansiosos do que a gente, começaram a comprar e fazer presentinhos para Luquinhas, enquanto estamos meio perdidos com relação a isso. Mas, quando os presentes começam a chegar, a gente se anima e começa as nossas comprinhas também, sem pressa. Não só para o pimpolho, mas também para a mamãe aqui, afinal, a cada dia que passa eu perco cada vez mais roupas. A maior compra que fizemos até agora foi o carrinho, até porque, para sair do hospital, eles pedem um bebê conforto. Para facilitar, compramos um 3 em 1 (tem o assento para passeio, a cesta/cama e o bebê conforto).

Além das compras, resolvemos fazer um curso online e gratuito pela The Baby Academy Ireland que vimos nas redes sociais sobre os cuidados com o bebê. Cortar as unhas, trocar fraldas e roupas, dar banho, entre outros assuntos foram ensinados. O que mais me surpreendeu foi que eles falaram para não dar mais de um banho por semana no bebê de até 6 semanas de vida, além de não usar nenhum produto para tal. É para usar apenas água. Esse foi um pouco do que achei muito divergente do Brasil. Fiquei um pouco chocada, mas nem tanto, porque as pessoas na Europa nem sempre tomam banho todos os dias no inverno (nojinho). Outra coisa foi o cuidado com o cordão umbilical, aqui recomenda-se fazer nada, apenas deixar ele seco e com cuidado com o contato com a fralda. Aparentemente, no Brasil se faz igual atualmente, mas eu lembro que antigamente se recomendava limpar o cordão com álcool (para secar mais rápido? Eu não lembro bem).

Nesse meio tempo, a terceira fase de flexibilização na Irlanda começou. Além das medidas anteriores, os restaurantes e bares (chamados de pubs aqui) abriram, servindo comida com distanciamento e tempo limite de visita. Cabeleireiros e academias também, com hora marcada. E é possível receber visitas em casa (máximo de 10 pessoas de 4 casas diferentes). Enquanto isso, a Europa começou a abrir suas fronteiras, pelo menos internamente, para a retomada da economia. Isso porque, durante o verão, é o período que muitos países são economicamente dependentes.


foto da holanda, praia em que camila foi.
holanda
Com isso e o número bem reduzido de casos na Irlanda, resolvemos viajar para visitar familiares que moram na Europa continental para, pelo menos, ter alguma viagem nesse ano (nos momentos finais da gravidez não se pode voar, assim como os primeiros meses de vida do bebê) para ver rostos familiares e aproveitar um pouco o verão - na Irlanda, a gente consegue contar nos dedos a quantidade de dias acima de 20 °C. Queríamos fugir um pouco do nosso pequeno apartamento, não aguentamos mais ficar de quarentena. Nosso cronograma de férias é poucos dias na Holanda, voltamos para a Irlanda por uma semana e depois mais alguns dias na Inglaterra. Depois, voltamos pra casa até depois do nascimento do bebê. 


Viagem de férias

Voltando ao nosso pequeno, estou com 24 semanas, 6 meses de gravidez, é hora da consulta com o clínico geral e Leo pôde participar. A visita é super simples e rápida, a médica mediu minha pressão, verificou minha urina, checou minha barriga e verificou os batimentos cardíacos do bebê para a felicidade do papai, até o momento ele não tinha ouvido ou visto o bebê. Perguntam-me se eu quero tomar a vacina para pertussis (gratuito), que a grávida pode tomar entre 16 e 36 semanas de gravidez para prevenção da tosse convulsa. Resolvi tomar a vacina na próxima visita, assim como a da gripe. Peço atestado médico para poder voar e a médica me informa que só posso voar até 28 semanas de gravidez, devido às regras de algumas companhias aéreas. Por sorte, as férias marcadas serão realizadas antes deste período. Ufa!

Na semana seguinte à consulta, fomos curtir nossas primeiras férias na Holanda e foram momentos maravilhosos. O clima não estava muito bom, mas conseguimos ir à praia (e saí roxa da água pelo frio! Não estamos na Bahia) e valeu muito a pena. Entretanto, quando estávamos praticamente no final dessas férias, a Irlanda resolveu fazer uma “Green List” (Lista Verde) diferente dos demais países da Europa. É mais restritiva do que a média e conta com os países em que se pode viajar para sem a necessidade de fazer quarentena no retorno. Infelizmente, a Holanda não faz parte da lista, assim como a Inglaterra. Quando voltamos de viagem, ficamos muito preocupados, pois a viagem a Inglaterra aconteceria durante o período que deveríamos estar de quarentena. E agora? Será que vale a pena arriscar?

será que ela vai precisar ficar de quarentena nesta segunda onda da pandemia? dublin está em lockdown.
dublin


***

Calma, que já já ela volta para contar um pouquinho mais dessa aventura! :)

Quem escreve
Camila Castro (Cam, Camy, Camis, Camilinha) é engenheira de produção e vive com o marido e o futuro bebê em Dublin, na Irlanda. Potiguar, morre de saudades do calor nordestino, das comidas e dos amigos de todos os lugares, mas encontrou seu cantinho no mundo para tocar a vida com mais tranquilidade. Você a encontra no linkedin e no facebook. Fala com ela!

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Documentário parece um termo pesado que costumava estar associado a filme chato, como aqueles que passavam nas tardes de domingo, com bichos correndo pela África. Enquanto ainda acho que esses têm o seu valor, vim falar da outra categoria, que nos prende até mais do que um filme de ficção. Vamos conversar sobre o novo documentário da Netflix, Os Segredos de Saqqara para entender melhor este tipo de filme e porque é tão importante. E legal!

crítica do filme Os Segredos de Saqqara (2020), o novo documentário da Netflix
Segredos de Saqqara | Netflix

Acabei de assistir a Os segredos de Saqqara, o documentário mais novo da Netflix, lançado neste 2020. Ele conta a história de uma equipe de arqueólogos egípcios que estão escavando a região de Saqqara, um dos sítios arqueológicos mais antigos do mundo, pertinho do Cairo, no Egito. O que podem descobrir ali, abrirá margem para ampliar a história do Egito e, portanto, do mundo como conhecemos. Mas, aí você me pergunta: por que não fizeram uma ficção sobre essa história? Não seria melhor?

O documentário é um gênero cinematográfico?

Não. O documentário não é um gênero como a comédia, o romance, o drama. Assim como 'filme estrangeiro', 'alternativo' ou 'cinema nacional' não são gêneros. O documentário é uma forma de fazer filmes que busca assuntos pautados em fatos, em situações que estão ocorrendo ou ocorreram em nossas vidas. Essa é uma definição muito ampla e que, se formos pensar, também vale para a ficção.
 
A discussão sobre o que é documentário esbarra nas zonas cinzentas da produção audiovisual. Por isso, hoje é mais comum se tratar de filme de ficção e não-ficção. Na minha humilde opinião de não acadêmica, dá para seguir das duas maneiras. Hoje, claramente entendemos se o que estamos vendo é um documentário ou um filme de ficção. Como assim?

escavação na tumba de Wahtye em Saqqara. Documentário Os Segredos de Saqqara.
Os Segredos de Saqqara | Escavação na tumba de Wahtye 
A linguagem é outra. O documentário busca respostas, está atrás de entender sobre um assunto, de conhecer, questionar. Os filmes de ficção partem de um assunto e elaboram uma narrativa sobre ele, um conceito fechado, para construir a história a partir dali. O documentário procura as histórias. Talvez as diferenças devam partir daí. 

Documentários relevantes | A crítica de Os Segredos de Saqqara

Vamos partir do nosso exemplo mais atual: Os segredos de Saqqara. Um filme feito no outro continente, a mais de um oceano de distância, no Egito. Sobre uma escavação arqueológica que busca resquícios da civilização local há mais de 4000 anos. Por que isso é importante para nós, brasileiros (ou humanos, que seja)?

Saber um pouco sobre uma escavação no Egito pode não ter nenhuma relação direta com a gente, se pensarmos rapidamente. Mas, considerando que o Egito é um dos berços da civilização como conhecemos hoje, criamos uma relação. Saber como as pessoas se comportavam, que ferramentas usavam, como se comunicavam, como era a ciência naquela época, contribui para criamos uma linha evolutiva de todos esses aspectos, de nós mesmos. Se pensarmos que só sabemos o que sabemos hoje, graças a pesquisadores, escavadores, arqueológos, antropólogos como estes, conseguimos imaginar assim, que em seu trabalho, eles encontram a nossa História no meio das areias e sob muita terra.  

os antropológos e arqueólogos de Saqqara
Os Segredos de Saqqara | Arqueológos e antropólogos egípcios em Saqqara
Então, a equipe de História e Ciência com seus escavadores chega a Saqqara com o objetivo de encontrar, a partir da existência das pirâmides no entorno, o que havia de civilização por ali. Com isso, o que eles buscam é puramente conhecimento. E, o mais surpreendente, é que eles encontram muito mais. Eles encontram um novo braço da História. A tumba de Saqqara tem talvez 4400 anos e uma família inteira dentro, os Wahtye. Um registro raríssimo e precioso para a nossa vida. Por terem rituais fúnebres e uma crença fértil de vida após a morte, aqueles egípcios deixaram inúmeros registros em hieróglifos - os desenhos antigos talhados nas paredes - contando parte de sua história.

Enquanto escavavam em um prazo curto - a seis semanas do Ramadã, quando perderiam a receita para manter o projeto, encontraram muito mais artefatos e História além daquela da família Wahtye. E assim, não só conhecemos um pouco mais sobre aquela civilização, como passamos a dar outra importância à busca por conhecimento destes grandes profissionais. Do escavador sem formação acadêmica, mas, com um olhar clínico e apurado ao doutor em antropologia, antropozoologia, egiptologia, arqueologia. Estão todos ali buscando aprender.

Assim, documentários são sim, importantes. Se forem como este então, são perfeitos, porque trazem as emoções das descobertas, o cronograma que nos deixa tensos à medida que o tempo vai se tornando escasso, as relações entre os colegas de trabalho, o bem comum. É um filme sobre relações humanas no fim das contas e, mesmo que não seja o nosso objeto particular de estudo, o filme nos fisga na narrativa, em uma história que não vemos ou ouvimos falar todos os dias. Desta forma, o documentário é, também, um filme de entretenimento.

Crítica de Os Segredos de Saqqara, Netflix
Os Segredos de Saqqara | A tumba de Wahtye 
E se buscamos uma análise de estrutura narrativa, encontraremos protagonistas, personagens secundários, jornadas, aventura. Os Segredos de Saqqara é um filme de revelações e a cada novo momento, ficamos abismados e quase viciados esperando a seguinte descoberta e aguardando as análises sobre o que já foi encontrado. Escavar e achar quase intacta uma tumba egípcia de 4000 anos é um presente para nós e isso fica evidente nos olhares surpresos de toda a equipe, de qualquer hierarquia ali dentro. É um filme especial.

Documentário é filme?

Essa é uma pergunta que costuma aparecer de outra maneira, como: é filme ou documentário? Quando vou ao cinema assistir um documentário, um amigo sempre comenta: ah, achei que fosse ver um filme ou ainda, documentário não é filme. Esta premissa parte da mesma da introdução. Documentário é cinema, documentário é filme. 

As formas de fazer ficção e não-ficção são análogas; ambas envolvem câmeras, equipes técnicas, arte, criatividade, roteiro, projeto, são feitos da mesma matéria. A diferença é a premissa: enquanto a ficção parte da história fechada, o documentário busca uma história para contar. 

os segredos de saqqara, egito.
Os Segredos de Saqqara | Outras descobertas do sítio
Com isso sim, Documentários são filmes, sempre - ou séries de tv, como a que esperamos que fosse, Os Segredos de Saqqara. Claramente, o filme nos deixa presos até o desfecho, com a vontade de continuar aquela expedição que encontrará mais surpresas. Este é apenas um dos grandes documentários lançados esse ano. Vale lembrar que começamos 2020 revendo os filmes do Oscar, Honeyland, For Sama, The Cave e outro dia choramos e nos alegramos com Professor Polvo e nos indignamos com One Child Nation. Ficamos atentos e tensos com O Dilema das Redes e com outro importante que acompanha a temática, expandido para a política, Privacidade Hackeada. 

Documentários são portas para uma nova perspectiva ou para ilustrar algum acontecimento. Nos trazem entusiasmo, nos fazem aprender ou relembrar alguma situação ou fato. Nos encantam com histórias brilhantes, como as que Eduardo Coutinho costumava contar. São tão cinema como qualquer ficção. Muitas vezes, são até melhores.  


Gostou do trailer? Invista nesse documentário e se gosta de não-ficção, tem um festival ótimo no país que segue online neste ano de pandemia, o É Tudo Verdade. Vale a pesquisa!

***

Vamos manter o café quentinho e sempre fresco? Vem comigo!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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