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Café: extra-forte

2020 tem sido um ano difícil. Desgoverno, desinformação, pandemia. A reclusão e o isolamento social compulsórios não colaboram para a nossa saúde mental e, neste setembro amarelo, o mês de prevenção ao suicídio, trago a lista definitiva (ou perto disso) com alguns filmes para pensarmos sobre o assunto.

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10 de setembro é o dia mundial de prevenção ao suicídio e desde 2015, o Brasil instituiu a campanha  Setembro Amarelo, nos fazendo pensar sobre saúde mental e os preconceitos em torno de suas doenças e tratamentos. Assim, talvez a estigmatização de transtornos que atingem grande parte da população tomem seu lugar de debate e deixem, de uma vez por todas, de ocupar o lugar esquecido e escondido das famílias.

No fim de agosto, listei 10 produções que irão mexer com sua mente, em homenagem ao dia do psicólogo. Agora, aproveito para trazer bons filmes que envolvem os assuntos de Depressão, Esquizofrenia, Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) e Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que valem tanto como entretenimento quanto para reflexão.


Depressão

O que é a depressão: é um mal que atinge muita gente e costuma ser confundido com tristeza e luto. A depressão é um dos grandes fatores para o suicídio e há muitos filmes que tratam do assunto de forma inteligente e sensível, como um alerta às familias e amigos sobre aqueles que convivem com esta condição e estão ao nosso lado:

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As virgens suicidas (1999), Sofia Coppola
O filme trata de uma família grande, com cinco filhas. Uma delas tem depressão e tenta o suicídio, fazendo com que o resto da família, em uma tentativa de se proteger, se feche para a sociedade, trazendo ainda mais transtornos. Primeiro filme de Sofia Coppola, traz no elenco Kirsten Dunst, James Woods, Josh Hartnett, Danny DeVito e Kathleen Turner. No telecine e apple tv.

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Cake (2014), Daniel Barnz
Jennifer Anniston é Claire, que perde um filho em um acidente e vive sob um luto amargo e doído, refletindo em um sério problema de coluna e depressão. O filme se desenvolve e subverte aos poucos essa situação, graças a um novo acontecimento e a sua acompanhante / empregada doméstica Silvana (Adriana Barraza), que lhe sustenta além de suas capacidades. O filme conta com Anna Kendrick, Sam Worthington, Felicity Huffman e William H. Macy. Na amazon prime vídeo.

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Foi apenas um sonho (2008), Sam Mendes

Ambientado no início do século 20 sem crise americana, um casal onde parece que está tudo bem, convive de perto com a depressão. Em uma nova cidade, uma geração de mulheres submissas no velho conhecido espaço machista recebe este casal sedutor e inteligente que se apregoa diferente dos demais, ainda que viva a mesma realidade social. A insatisfação culmina num desmembramento da suposta relação perfeita e encontramos neles, a verdade que não queremos ouvir: o contentamento e a decepção. A crítica do filme está aqui, é só clicar. Com Kate Winslet e Leonardo diCaprio. No telecine, apple tv e google play.

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Por lugares incríveis (2020, Brett Haley)
Violet (Elle Fanning) e Theodore (Justice Smith) se conhecem na escola. O garoto é apaixonado por ela, que sofre entre os olhares de escrutinio e a depressão depois da perda da irmã em um acidente de carro. O filme é baseado no livro homônimo de John Green que sempre aposta em um drama trágico adolescente e costuma vender bem. Apesar de não ser uma obra imensa do cinema, é um filme leve, na medida do possível, que levanta alertas sobre depressão e como é difícil, às vezes, a percebermos, quando tudo parece bem. Na netflix.


Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

O que é transtorno de personalidade borderline? É uma condição que tem por característica marcante as alterações rápidas, intensas e abruptas de humor, podendo gerar riscos em quem convive com a doença - uma espécie de versão aguda do transtorno bipolar (falando muito genericamente). Fiquei intrigada em como é difícil encontrar - se é que existe - filmes sobre transtorno de personalidade borderline com homens afetados pela doença. O transtorno é, de fato, mais comum em mulheres e o assunto voltou à mídia recentemente (há um caso de borderline no programa da rede Record, A Fazenda, Raíssa Barbosa). Em todo caso, há bons filmes que ajudam a ilustrar a condição:

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Sete dias com Marilyn (2011), Simon Curtis
Sete dias com Marilyn trata de mostrar um pouco da vida de uma das maiores atrizes do cinema mundial, Marilyn Monroe. Viciada em barbitúricos, a atriz teve uma vida difícil e provavelmente foi isso que a levou tanto ao transtorno quanto aos remédios. Um filme sensível, com grande atuação de Michelle Williams e Eddie Redmayne. Você encontra a crítica do filme aqui. Na amazon prime video.

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Margot e o casamento (2007), Noah Baumbach
Margot (Nicole Kidman) viaja para o casamento da irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh) e todos passam juntos um fim de semana em casa. Segredos de família explodem junto com as alterações de humor em Margot e percebemos que ali há mais do que questões de intimidade, algo parece não funcionar bem. Do mesmo diretor de Enquanto somos Jovens e Frances Ha. No google play.

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Bem vindos ao meu mundo (2014), Shira Piven
Kristen Wiig tem essa pegada de fazer filmes de comédia que puxam para o cinema independente americano. Com um humor 'diferente', ela traz neste drama a história de Alice Klieg, que ganha na loteria e realiza o sonho de ter um programa de tv. O que ela não sabia era o que ia acontecer quando deixasse de tomar sua medicação. Com uma aura estranha, esse filme passa sentimentos conflitantes, mas Kristen está magnífica. Na netflix.

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Vicky Cristina Barcelona (2008), Woody Allen
Em 2008, Woody Allen nos trazia um filme rodado em Barcelona com um elenco estelar: Scarlet Johansson, Javier Bardem, Penelope Cruz e Rebeca Hall. Penelope é Maria Elena, a ex-mulher de Juan Antonio (Bardem), e é quem apresenta as drásticas alterações de humor que caracterizam o transtorno. É uma comédia inteligente e deliciosa, mas que leva a sério a questão e os cuidados necessários a estas pessoas. No google play e looke.


Esquizofrenia

Qual é o conceito de esquizofrenia? A esquizofrenia pode ser definida não como uma doença única, mas como um grupo de transtornos psiquiátricos conhecidos como transtornos psicóticos. A psicose, por sua vez, é definida com a presença no paciente de percepção de alucinações e alterações no juízo da realidade, os delírios. No cinema, a esquizofrenia é abordada em diversos filmes, e aqui há alguns interessantes:

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Uma mente brilhante (2001), Ron Howard

Filme que mostrou o talento de Russel Crowe, Uma mente brilhante trata da vida de John Forbes Nash, um matemático que definiu as bases da criptografia e sofria de esquizofrenia. Um gênio reconhecido mundialmente, é até hoje a única pessoa que ganhou o Nobel e o Abel (o Nobel da matemática) Assim, até a compreensão da doença, muito sofrimento e resiliência são vistos no filme que, por sinal, vale muito a pena. Na claro video, apple tv e google play.

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Spider - desafie sua mente (2002), David Cronenberg

David Cronenberg é um diretor cultuado no meio do cinema 'alternativo', o diretor do clássico A Mosca e do asqueroso Mistérios e Paixões (baratas enormes, impossível pra mim assistir, apesar de parecer interessante) tem ótimos filmes e Spider é um deles. A história de um homem diagnosticado com esquizofrenia que 'reencontra' sua versão infantil. Brilhante, com Ralph Fiennes como o protagonista Dennis Clieg.

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Cisne negro (2010), Darren Aronofsky

Nina (Natalie Portman) é uma bailarina obstinada e perfeccionista que se prepara obsessivamente para dançar o Lago dos Cisnes e se vê ameaçada pela nova integrante do corpo de dança, a sensual e espontânea Lily (Mila Kunis). O suspense e a transformação dos personagens – física e psicologicamente – são brilhantemente conduzidos por Darren Aronofsky, de Pi (1998) e Réquiem para um Sonho (2000). No telecine, apple tv, looke e google play.

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A cela (2000), Tarsem Singh
Esse é um filme que só lembrei agora, depois de pesquisar sobre o assunto. De 2000, traz Jennifer Lopez como a assistente social que vai literalmente entrar na cabeça de um esquizofrênico para ajudar o FBI a solucionar um crime. É isso mesmo o que você leu. Interessante e estranho - ou excêntrico talvez seja seu melhor adjetivo, bem executado e com imagens incríveis que retomam às infinitas possibilidades criativas da mente, vale o ingresso. Com Lopez, Vince Vaughn e Vincent D'Onofrio. Na hbo go.


Transtorno obsessivo compulsivo (TOC)

O que é TOC? Definido por seu título, o transtorno obsessivo compulsivo é considerado uma doença mental grave, crônica e duradoura. Está entre uma das maiores causas de incapacitação e acomete a muitas pessoas. As obsessões são pensamentos recorrentes e persistentes entendidos como intrusivos e indesejados. As compulsões, por outro lado, são comportamentos repetitivos que se manifestam em resposta às obsessões. No cinema, o transtorno é abordado sob diversas óticas e é mais comum em filmes de comédia, como os que seguem aqui:

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Toc Toc (2017), Vicente Villanueva
Quase o filme mais famoso sobre o assunto, Toc Toc é sucesso de público na netflix. O filme se passa em uma sala de espera de uma clínica psiquiátrica e todos os pacientes estão aguardando a sua vez. Assim, vemos uma gama de transtornos se manifestando de forma interessante, como uma versão aleatória de uma dinâmica de grupo. Leve e divertido, o filme espanhol é um ótimo programa para o fim de semana. Na netflix.

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Melhor é impossível (1998), James L. Brooks
Esse muita gente já conhece e ama. Jack Nicholson é Melvin, um homem que mora sozinho em um apartamento e tem TOC. Sua condição é extremamente limitante pelo número de regras e situações de controle de comportamento que se impõe. Ao mesmo tempo, a vida acontece lá fora e ele, eventualmente, é levado a participar dela. Com Helen Hunt, Greg Kinnear e Cuba Gooding Jr., é uma delícia de assistir, desses que dá vontade de revisitar sempre. Ah! E é comédia romântica... também. Na hbo go, google play e apple tv.

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Monk (2002), Andy Breckman
Pedindo licença para indicar uma série, só porque esta, além de ser ótima, é o exemplar mais óbvio de TOC para quem ainda tem dúvidas sobre as manifestações do transtorno. Tony Shalhoub é Monk, um detetive brilhante (como House, o médico da outra série), que desvenda os crimes de uma forma quase como Sherlock Holmes, com menos cenas de ação e mais de investigação e insights meio aleatórios. A série é super inteligente, de comédia, e traz este comportamento meticuloso e regrado que caracteriza o transtorno. Tem oito temporadas e está na amazon prime vídeo.

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O aviador (2004), Martin Scorsese

Não é meu filme preferido do diretor, sigo com meu favorito Taxi Driver, mas, ainda assim, não dá para dizer que é uma obra péssima. O Aviador conta a história de Howard Hughes (Leonardo diCaprio), o diretor de cinema de Hollywood dos anos 30 que decide construir um avião que fosse mais rápido e melhor do que os da PanAm, sua concorrente. Germofóbico, ao longo dos anos, essa 'mania' vira uma condição de saúde mental, que afeta drasticamente a vida e carreira do diretor. Com Cate Blanchet, Kate Beckinsale, Alec Baldwin, John C. Reilly, Jude Law, Ian Holm, Alan Alda e Gwen Stefani. Na hbo go, google play e looke.


Transtorno dissociativo de identidade (TDI)

O que significa transtorno dissociativo de identidade e quais são suas características? Este transtorno é uma condição psicológica grave, em que o comportamento, as memórias e a identidade são afetados. É literalmente um processo dissociativo, como uma separação, uma falta de conexão do indivíduo com sua identidade 'real'. Normalmente, costuma acometer pessoas que sofreram traumas sérios na infância e formam uma nova personalidade para agir em defesa daquela que foi vítima. Muitos filmes de suspense trazem o transtorno como foco, mas consegui alguma variedade aqui:

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Fragmentado (2016), M. Night Shyamalan

Talvez seja hoje o filme mais óbvio a falar de transtorno dissociativo de personalidade que existe. Fragmentado é um suspense que conta a história de Dennis, um homem que, em si, congrega 23 personalidades distintas, como pessoas diferentes habitando um mesmo corpo. Uma aula de atuação de James McAvoy, é um filme de confinamento e stress, mas que traz a doença mental para o plano principal da história. Do mesmo diretor de O Sexto Sentido e Corpo Fechado e que quase se estragou fazendo o filme Fim dos Tempos. Na apple tv, google play e looke.

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Clube da luta (1999), David Fincher
Clássico moderno do cinema americano e dirigido por David Fincher, Clube da Luta é um suspense psicológico com traços de comédia e ação, que nos deixa quase tontos com uma velocidade narrativa e criativa. Aqui, um burocrata (Edward Norton) conhece um Tyler Durden (Brad Pitt), um cara que produz sabonetes e juntos eles abrem um Clube da Luta, quase um espaço para romper os estresses do dia a dia, 'vivendo de verdade'. Há muito o que descobrir por trás dessa sinopse e é aí, no mistério, que está o tema da identidade. Baseado no livro de Chuck Palahniuk, conta ainda com Helena Bonham Carter e não vale a pena falar mais do que isso. Na amazon prime vídeo.

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As duas faces de um crime (1996), Gregory Hoblit
Martin (Richarg Gere) é um promotor vaidoso que está sempre sob os holofotes. Aaron (Edward Norton) é um rapaz de 19 anos acusado de assassinar um arcebispo a facadas. Martin decide pegar o caso e defender Aaron, que se diz inocente. Com o andar do filme, entendemos o título e as percepções e consequências de um julgamento de uma pessoa com transtorno dissociativo de personalidade. Intrigante, vale assistir o quanto antes. Na apple tv, google play e looke.

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Zelig (1983), Woody Allen
Filme pouco conhecido do público e de Woody Allen antes de toda a crise e denúncias em torno de si e da própria Mia Farrow com quem contracena aqui, este conta em forma de documentário a história de Zelig, um homem que nunca existiu na vida real. Leonardo Zelig tinha o dom de modificar sua aparência para agradar os outros, como uma espécie de homem-camaleão. Engraçado, com um roteiro brilhante, é como se fosse uma versão literal do transtorno dissociativo de identidade, desenhada para o filme.

* * *

Gostou da seleção? Lembra algum filme que não está na lista? Para continuarmos as conversar sobre filmes, livros, séries e assuntos relevantes do nosso dia a dia, vamos tomar um café? Siga próximo de seus familiares e amigos - se notar algum comportamento diferente do comum, converse, dê atenção. E se precisar de ajuda, não espere muito. O normal é não estar bem o tempo todo mesmo. Lembra de Divertidamente? Cuide-se e passa aqui toda semana, que sempre tem conteúdo bacana e fresco sobre cinema, viagens, livros e café. =)

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Como se sabe, um boa polêmica sempre faz bem ao alcance do público de um produto de entretenimento e/ou artístico. No cinema não é diferente. Lindinhas (Cuties, Mignonnes ou como aparecer na sua netflix) ganhou a curiosidade do público por aparentemente tratar da sexualização de meninas na França. Mas será que é realmente sobre isso? Vamos à crítica.

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Lindinhas, (Cuties ou Mignonnes), de Maïmoune Doucouré
É claro, a imagem que queremos ter de garotas de onze anos não é a de objetificação, de imprimir desejo e sexualidade. São crianças. Sabemos os riscos da pedofilia e conhecemos bem o tratamento dado a meninas e mulheres no mundo. Mas, analisando friamente, o que o filme traz é o comportamento 'esperado' da adolescência no 'ocidente'. Mais uma vez, com a mídia e o acesso livre às redes sociais - vale assistir ao filme o dilema das redes (2020) - as músicas e videoclipes encontram um público em formação, que não necessariamente compreende os significados daquele produto, e dança, o consome de forma indiscriminada.

O filme é mais complexo do que estas óbvias ideias e a polêmica perde validade à medida que ele avança. Lindinhas traz as diferenças culturais de um subúrbio em Paris, onde parte da população vem de ex-colônias francesas. A família de Amy, nossa protagonista, é parte disso, vindo do Senegal e suas tradições são bem marcadas, especialmente na condição da mulher - tema que o filme explora sensivelmente e, este sim, é o ponto em que devemos focar.

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Lindinhas, (Cuties ou Mignonnes), de Maïmoune Doucouré
A mãe de Amy vai ter que preparar o segundo casamento do marido. Amy e a avó terão que ficar felizes em sua presença. Nada se diz do pai que pouco aparece ou do irmão a que nada é solicitado, apenas que brinque e seja criança. Enquanto a puberdade chega à nossa heroína com os deveres de mulher aos onze anos, a Amy criança se quer adolescente e passa a se interessar em dançar com as amigas, fazer parte de um grupo, se vestir na moda - ganhar identidade.

Lindinhas constrói uma trajetória sensível de formação e uma das cenas mais marcantes envolve o vestido que ela ganha da família. Uma peça que sai do desejo ao desprezo, com a confusão e incômodo representados no olhar de Amy, quando ela descobre que deverá usá-lo no casamento do pai. É como um fantasma no armário, a representação de sua cultura familiar, uma tradição a que não se pode fugir. A tensão é firme e pertence a ela apenas, diz respeito à sua descoberta enquanto indivíduo.

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Lindinhas, (Cuties ou Mignonnes), de Maïmoune Doucouré
O filme não trata as garotas como adultas e nem pretende sexualizá-las. Não é o objetivo da diretora em seu primeiro longa, Maïmouna Doucouré. As cenas em slow motion, exibindo os rostos das meninas em poses sensuais sob uma música clássica, traduzem justamente o descompasso dos gestos com quem os pratica. É muito mais um embaralhamento de significados do que uma problematização dos corpos. Mas, alguns apostarão na minha inocência. 

Insisto e justifico: as espinhas nos rostos das crianças, os olhares fixos para a câmera, claramente direcionados para nós, são como uma provocação direta, como quem pergunta: há sensualidade aqui? A briga de meninas na saída da escola, a calcinha infantil que aparece depois que uma calça justa é puxada para baixo e as reações do público na apresentação de dança insistem em mostrar não uma promessa a olhares doentios ou intencionados, mas a marca da ingenuidade por trás da fantasia. Um jogo arriscado, especialmente quando o público é diverso e em tempos em que a polarização e polêmicas são maiores do que a reflexão e o debate. E neste caso, o filme vence.

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Lindinhas, (Cuties ou Mignonnes), de Maïmoune Doucouré
Não há porque cancelar a netflix, achei que esta política de cancelamento nas redes sociais - e, pelo visto em qualquer lugar - já havia saído de moda. Lindinhas vale o ingresso e é aposta certa no streaming. É um filme sobre a saída da infância e entrada na adolescência, novos comportamentos, menstruação, despertar tenro da percepção do outro - menos como interesse amoroso e mais como curiosidade. As brigas de meninos e meninas no primário e a vontade de saber mais sobre as diferenças físicas são evidências disso. A ausência de sexualidade é tão marcante quanto encontrar uma camisinha usada e achar que é um balão de soprar.

Talvez a ministra Damares Alves tenha se chocado - se é que viu o filme ou leu alguma crítica - com as diversas camadas que ele desperta em seu público. Talvez, não só ela, mas quem enxergou apenas a coreografia supostamente pornográfica, tenha se horrorizado com as diferenças culturais e esqueceu o que se dança e dançava em nossa infância e adolescência brasileiras. Talvez, mais uma vez, alguém tenha se intimidado com a religião ali expressada, especialmente na cena ritualística das mulheres. Para mim, pareceu algo como o que encontrei em Os mestres, os loucos (1955), do documentarista etnográfico, Jean Rouch. Naquele filme rodado em Gana, há rituais em que os personagens se manifestam para além das palavras e o mais surpreendente é ver o comportamento de seus corpos, que mimetizam funcionários da colonização francesa no país. 

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Lindinhas | o pôster novo e o censurado
Não sei se a intenção era trazer à memória esta representação em Lindinhas, mas, quando a mãe e a avó de Amy promovem um ritual com a água e o frio, 'libertam' o corpo da menina que agora se manifesta sem o aval da consciência, simulando os gestos da dança que ela praticava com as colegas. Novamente, uma cena linda, uma percepção daquela cultura de quem vem de dentro, de quem conhece as sensibilidades e intimidades dos tratos familiares e culturais. 

É uma pena, ainda que compreensível no período que vivemos, que Lindinhas seja reduzido ao tema da sexualização da infância e ainda taxado como um apelo à pedofilia. Não é disso que trata a obra, mas de identidade, diferenças culturais, descobertas na infância e adolescência. É um filme lindo e sensível que merece ser visto na íntegra para, então, trazer ao debate. Não cancela a netflix por causa dele, a empresa de streaming de filmes até pediu desculpas pelo pôster que mostra a cena das meninas na competição e fez uma nova versão, o que me parece justo e um compromisso social, de certa maneira.

Segue o trailer. Assiste ao filme e vamos conversar um pouquinho? É sempre a melhor parte, quando saímos do cinema. Para manter nossos debates em dia, vamos tomar um café? =)

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Sempre pensando em um livro interessante para ler em 2020, me reencontrei com Robert Capa e suas obras maravilhosas: Ligeiramente fora de foco e Um diário russo. É sobre o segundo que vamos falar, em homenagem à vacina da Rússia de combate ao coronavírus. Brincadeiras à parte, este projeto foi uma parceria com ninguém menos de John Steinbeck, em plena Guerra Fria.

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Um diário russo, John Steinbeck e Robert Capa
Infelizmente e sem saber porque, este livro não é um best seller. Não está em nenhuma lista de livros mais vendidos do ano, de qualquer ano, mesmo sendo impressionante e maravilhoso. O escritor de Vinhas da Ira (1939) e A Leste do Éden (1952) uniu-se a um dos maiores fotógrafos deste globo para, juntos, visitarem o mais temido país de 1947 de acordo com os Estados Unidos, A União Soviética.

A ideia surgiu entre Steinbeck e Capa, que a venderam ao Herald Tribune e, por serem dois nomes de peso, o jornal topou. O objetivo era ver como vivia o povo soviético, fotografar o cotidiano de pessoas comuns, em uma tentativa de encontrar semelhanças ou disparidades entre dois países, em tese, opostos em tudo: a nação americana e a Rússia (ou ex- URSS).

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Geórgia (ex. URSS), 1947 - Robert Capa 
Retomando um pouco a história mundial, me perguntei quando começou a Guerra Fria. Sabia, com a certeza dos livros de história e do imenso volume de mídia, quando começou e acabou a Segunda Guerra Mundial, e sabia que a outra havia sido pouco depois. O ano certinho é, justamente, o da viagem dos nossos heróis. Então, ali estava acontecendo tudo: uma imensa propaganda americana tocando o terror psicológico sobre o país soviético, uma infinidade de fake news - sim, elas não surgiram agora - dos dois lados, a desinformação de sempre e ideias preconcebidas.

Steinbeck e Capa seguiram para o maior país do mundo, um consagrado autor de livros de romance e um experiente fotógrafo de guerra e sociedade para elaborarem relatos em forma de um diário, formato que se firmou no retorno dos autores aos Estados Unidos. Quando estavam por lá, conheceram pessoas de toda ordem, entraram em suas casas, participaram de suas vidas, viram a cultura local, a força e o poder político de lá que pouco se diferenciavam do que viam e viviam em casa.

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Ucrânia (ex. URSS), 1947 - Robert Capa 
Na União Soviética, quebraram mitos e a cada cidade, era uma avalanche de novos conhecimentos e experiências - uma viagem que qualquer um de nós amaria fazer, especialmente na presença desta dupla. No fim, o livro se tornou um relato pessoal a quatro mãos, entre o íntimo de um diário e a reportagem de um romancista: uma escrita deliciosa, como um se estivéssemos tomando um café com um grande amigo e brilhante contador de histórias. Isso tudo, sem falar nas fotografias que compõem a obra, complementando e enriquecendo as imagens que criamos em nossas mentes. 

A obra é excepcional. É um dos melhores livros para ler em 2020, sem dúvida, especialmente em tempos de polarização e desinformação, conforme apontao filme O dilema das redes. A edição que tenho é a da foto, da saudosa Cosac Naify, mas você encontra outra ótima em inglês, da Penguin Books. Achei também na Estante Virtual, porque insisto que essa dica de livro é realmente muito boa e vale a pena o investimento. :)

um-diario-russo-1947
John Steinbeck e Robert Capa, 1947
***
Gostou da sugestão? Já leu algum livro escrito por um russo ou sobre a Rússia? Vamos conversar! Além deste, tem mais algumas resenhas de livros ótimos e imprescindíveis para conhecermos mais sobre sobre a história da ex-URSS, da autora Svetlana Aléksiévitch.  

Para  manter este blog com os melhores assuntos para discutirmos, que tal tomarmos um café juntos?
Assim, todo mundo se ajuda e sai ganhando =) 
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Chegamos naquele momento do ano em que já dá pra começar a dizer que ele passou rápido, mesmo com pandemia e isolamento social. Por ficar tanto tempo em casa, investi pesado no cinema e na literatura e investiguei os streamings e plataformas de exibição de filmes gratuitos online mais interessantes para sairmos um pouco da Netflix e Amazon Prime Video. Segue a lista das melhores alternativas para acessar o imenso catálogo cinematográfico mundial. 

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CineSesc São Paulo
O Cine SescSP fica na capital, na Rua Augusta e durante este isolamento, abriu uma programação gratuita de alta qualidade para ver online. Os filmes são mais comuns ao "circuito alternativo" o que considero uma imensa vantagem já que, para os filmes mais comerciais, as plataformas mais acessadas garantem o acesso. É possível encontrar a programação no site e no instagram, cujo link no perfil encaminha para o acesso aos filmes online e com legendas, quando necessário. Além da programação 'regular', eles ainda têm um cineclube infantil e mostras internacionais temáticas. Um achado nas redes e espero que se firmem como plataforma - a programação é rara e excelente.


Circuito Sala de Arte Salvador
Em Salvador também há uma opção de cinema alternativo, o Circuito Sala de Arte. Durante a pandemia, eles trouxeram o Cineclube Sala de Arte Daten com exibição de dois filmes por semana através de um link. Os filmes são gratuitos para exibição online e às quartas e sábados ainda há um encontro virtual com críticos e público para comentar a obra. Uma seleção também excelente com o ganho de discutir com quem assistiu e alimentar o amor pela cinefilia. 


Cine 104 BH
Outra grande aposta para quem quer ver ótimos filmes online e não se preocupar em buscar agulha no palheiro dos catálogos dos streamings é seguir a programação do Cine 104 BH. Dois filmes por semana, com acesso por senha no vimeo. Fácil, filmes do mundo que veríamos felizes nos cinemas, agora em casa. Para não perder nada, e ver grandes filmes.


Looke
O Looke é um streaming de filmes e séries pago, mas que abriga, eventualmente, alguns festivais e mostras de cinema. Assim, está acontecendo agora na Mostra Cinema e Reflexão, o Festival de Cinema Chinês com nomes como Zhang Yimou, Chen Kaige e Feng Xiaoning. A edição chinesa encerra no final de outubro e a programação de filmes está disponível aqui.


CinUSP
Seguindo a linha dos cineclubes, o Cinema da Universidade de São Paulo também tem o seu, com exibição de filmes online e debate. Uma programação especial e específica que dá para acompanhar pelo instagram.


Libreflix
É uma plataforma de streaming de filmes como a netflix, com a diferença de ser gratuita. Tem filmes clássicos maravilhosos, como Tempos Modernos e também uma programação de cinema independente, nacional, curtas e documentários. O site é este aqui.


LGBTflix
Com uma proposta já indicada no nome, a plataforma exibe filmes filmes que trabalham o universo LGBT. O site é super interessante e apresenta curtas realizados por diretoras e diretores brasileiros. Vale a visita.


Afroflix
Seguindo o padrão do título e apostando no engajamento, o Afroflix se propõe a selecionar obras em que haja participação relevante de corpo técnico e artístico negro. Como eles mesmo dizem, "são filmes, séries, web séries, programas diversos, vlogs e clipes que são produzidos OU escritos OU dirigidos OU protagonizados por pessoas negras". Vamos ver agora?

Qual destas te interessou mais? Me conta nos comentários! =)
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Muita gente vai pensar que é um filme mais do mesmo, que todo mundo fala sobre isso todos os dias e que nós, humanos conscientes, sabemos onde estamos nos metendo quando se trata de facebook, instagram, pinterest... O fato é: O dilema das redes (the social dilemma) está na netflix precisa ser visto agora - mesmo que você ache que já sabe tudo sobre o assunto.

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  O dilema das redes (2020), Jeff Orlowski

Todos nós estamos cansados de ouvir falar no assunto, de discutir sobre redes sociais e fake news ou de ver que alguém em nossa família votou no candidato errado e se arrependeu, por não saber no que estava acreditando naquele momento. Então, qual é o diferencial deste filme? Onde está a grande novidade?

O dilema das redes aprofunda o assunto, ao trazer para a conversa os profissionais do faceook, google, instagram, pinterest. As pessoas que pensaram os algoritmos, as narrativas digitais da redes, que estudaram o nosso comportamento para ver, de que forma ganhariam mais com o nosso consumo de informações. Tristan Harris é um ex-designer ético da Google - função que eu nem sabia que existia - e ele tem uma frase certeira que marca todos os textos e mídias sobre o filme, inclusive: se o produto é gratuito, você é o produto. Mas, o que isso quer dizer na prática?

As redes sociais trabalham com informação. Elas recebem receita de publicidade, da propaganda de venda de itens de consumo. Mas, como elas fazem isso de verdade? Enquanto a televisão aberta exibe uma propaganda para todos os consumidores sem distinção, as redes sociais buscam o consumidor ideal, a pessoa que, por análise de consumo de mídia - as curtidas, compartilhamentos, comentários, amigos e conhecidos envolvidos, endereços de moradia, trabalho e lazer e, claro postagens e frequência - pode se interessar por determinado produto. 

E qual é o pulo do gato que transforma filme O dilema das redes em algo interessante? Esta frase. Porque ela traz a ideia crítica de que nós fornecemos as informações às redes, nós entregamos todas as formas de alcance possíveis. E de graça. Os clientes não somos nós, são os patrocinadores, que receberão o retorno do investimento por saberem que estão alcançando o público certo no momento certo.

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Levando tudo isso em conta, já vale a pena ver o filme por aí, mas ele expande o tema, a fim de tornar ainda mais claro, com exemplos dos riscos que corremos, das consequências que já estamos vivendo e de forma bastante atualizada. Coronavírus, eleições presidenciais vencidas através das fake news - Bolsonaro, Donald Trump, Putin, terraplanistas, pizzagate. Vemos um mundo de histórias sobre supostas conspirações que partem do nada e vão a lugar nenhum, mas que ganham tantos adeptos, que começamos a nos perguntar, como alguém questiona no próprio filme - se essa massa de pessoas pode ser realmente estúpida ou apenas, se está mal e mau informada.

Não é uma obra brilhante do documentário mundial em termos de estética e cinema, se formos criticar enquanto tal. É um filme informativo sobre os assuntos que nos interessam como indivíduos e coletividade. É feito para repensar nossos hábitos de consumo de mídia, informação e redes sociais. É para nos preocuparmos com nossos familiares e como as redes também os afetam e de que maneira - vide os índices de depressão, transtornos de ansiedade e suicídio. Não à toa, os pais de família e profissionais das redes proíbem seus filhos de as utilizarem.

O fiilme é, por fim, para nos fazer refletir sobre a veracidade dos fatos - o que, por si só já é um termo bastante discutível. Há um posicionamento sobre isso no filme, que questiona a verdade, justamente onde ela está. Existe uma verdade? Quem define o que é verdade e real e correto no mundo? Não existe um algoritmo capaz de fazer isso. Se formos pensar em filmes anteriores que retomam isso de forma mais lúdica, aposto que muitos vão lembrar de Matrix e O Show de Truman, quase imediatamente. Os estudiosos de comunicação e sociedade buscarão Guy Debord e Walter Benjamin ou Margaret Atwood, George Orwell e Ray Bradbury na literatura. Estamos todos falando sobre o mesmo assunto, no fim das contas. 

Não devemos nos preocupar apenas com a vigilância sobre nossas vidas ou com o volume de informações sobre nós que depositamos nas redes, mas como isso nos afeta e como isso afeta as informações que recebemos em qualidade, intenção e quantidade. Quando dizemos 'algoritmo da netflix me pegou' e agora só me mostra filmes e séries de determinada categoria, é apenas a explosão óbvia do filtro de conteúdo a partir de nossas preferências. O que não atentamos sempre é que este mecanismo funciona para todo os resto na internet e nas redes.

O filme também não levanta a bandeira de: nunca frequente redes sociais. Ele apenas diz: preste atenção. Fácil de ver como entretenimento para além da curiosidade e relevância da informação, o filme deve ser visto em família, mas também pode ser indicado por professores escolares e universitários, por levantar questões de comportamento, estimulando o debate e fomentando o pensamento crítico, cada vez mais caro e raro no meio de tanta desinformação. Assista hoje, na netflix.
E veja o trailer aqui:


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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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