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Café: extra-forte

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Observo que aqui no Brasil os textos e informações relacionadas às pessoas negras estão ligadas diretamente a uma perspectiva de enternecimento. Essa perspectiva se refere essencialmente à dor. Jamile Borges, professora e pós-doutora em estudos étnicos e africanos, chama de patrimonialização da dor: “No Brasil, ao lidar com a memória da escravidão, há uma tendência a se fazer a musealização da dor, em vez de evocar a resistência” (Folha de S. Paulo, 13/05/2019). Isso dura até hoje. 

Mas, será que a sabedoria dos meus ancestrais foi perdida para sempre no conhecimento padronizado daquilo que nos foi ensinado? Certamente não. Todavia, se pensarmos que a historiografia oficial romantiza os jesuítas no processo colonizador, subestimado e excludente dos povos indígenas; se credita à princesa Isabel o resultado pela abolição, com o 13 de maio contado sob a perspectiva dos vencedores – das oligarquias e classes médias brancas – sendo esses apenas dois fatos citados aqui dentre muitos, fica a dúvida. Isso, sem contar com todo o processo de formação do povo brasileiro, mas não é o foco do presente texto. 

Temos muitas questões sobre o processo colonizatório, que nos colocou em um lugar e a humanidade em outro. Nós, pessoas negras, não fazemos parte dessa humanidade. Fomos colonizados para servir a ela. Fomos cerceados. 

Nossa humanidade é outra. 

Podemos dizer, por outro lado, que a força epistemológica de apagamento da nossa história está no patamar crescente de mudanças, “o papel dos intelectuais, trabalhadoras e trabalhadores, cientistas negras e negros está sendo recuperado.”, como ressalta ainda, a profa. Dra. Jamile Borges. 

É claro que precisamos falar das nossas dores, até porque elas ainda são causadas diariamente. Mas também é preciso resolver, reparar, fazer, mudar, acabar. E essa é a responsabilidade dessa humanidade que nos colonizou. Agora, ela deve se reeducar. Sem isso, não vejo o tão sonhado mundo melhor. 

Imprescindível é falar sobre o significado de nossas vidas, o que nos permite a descolonização, o novo conhecimento, para então vivermos em nossas humanidades. É falar sobre o que nos mantêm vivos. E dizer que sempre resistimos, mas vocês nunca souberam. 

Nossas famílias sempre existiram. Ainda que a formação fosse essencialmente de mulheres em exercício duplo do materno e paterno, sempre mantiveram a solidez nas estruturas, com respeito aos mais velhos e muito, mas muito amor. 

Tivemos infâncias recheadas de peraltices, de amigos e amigas, de viver plenamente o lúdico e o realismo mágico. Temos nossas felicidades. Vivemos paixões exacerbadas, dançamos loucamente até a música não parar de tocar. 

Amamos bons papos e ótimos drinks. Sem falar das cervejas estupidamente geladas. Ah, e amamos comer. A comida nos define e muito. Faz a nossa cultura. Sem falar das nossas espiritualidades que atravessaram oceanos e definiu muita coisa aqui nesse Brasil. E é através delas que o nosso povo permeia os nossos fundamentos. 

Somos muitos e muitas. Acredite nisso. Há quem ainda não sabe que faz parte dessa grande teia de brasis enlaçada pelo continente africano, tão pouco visto, revisto, homenageado, respeitado e estudado por nós. O meu Brasil quer Madagascar, Nigéria, Gana, Benin, Congo, Costa do Marfim, Etiópia. São 54 nações em um só país. Vocês têm noção disso? 

A nossa humanidade permanece em busca daquelas e daqueles que fazem parte de nós. De saber quem somos. E sabemos bem o que queremos. 

“E a luta não acabou, nem acaba aqui. Só quando a liberdade raiar” (Edson Gomes – Lili).


***
Quem escreve
Consuelo Cruz é baiana, formada em Letras Vernáculas e apaixonada por literatura. Era o que mais gostava de estudar e pesquisar. Radicada no Rio de Janeiro há 14 anos e a sua área de atuação é o audiovisual.Trabalha na área de conteúdo dos canais Globo. Você a encontra aqui.
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Olá! Estou de volta com as atualizações de serviço aqui do Café. Enquanto ele não se torna o sonho da casa própria de ser uma cafeteria de verdade, sigo servindo doses de café e conversas virtuais em forma de dicas de filmes, livros, séries e Cadernos Especiais.

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Aproveito aqui para falar do que ofereço no Café e de porque é legal seguir mantendo ele ativo e cheio de histórias para contar! Além das dicas, há uma oferta ampla de literatura e críticas de filmes e alguns projetos em andamento que ainda aparecerão aqui, então deixo uns links nos títulos abaixo para explicar um pouco mais e facilitar o acesso:

Amigos que Escrevem
A melhor ideia que tive na quarentena. Tenho muito orgulho dos meus amigos, são minhas melhores escolhas, meus parceiros da vida junto à minha família. Não fosse isso suficiente, comecei a perguntar a alguns, durante o isolamento social da pandemia, se eles não gostariam de escrever textos livres, que se relacionassem ou não com o momento que vivemos - que quisessem apenas experimentar a escrita como um prazer, uma distração. A grande surpresa veio com o retorno maravilhoso e vasto de muitos deles, transformando o espaço em um painel imenso e criativo de grandes ideias, contos, confissões, crônicas, artigos, poesias, diálogos. Clica no título que você chega neles.

Antigas Agendas
Isso é uma brincadeira de lembrar, quase um jogo da memória. Reencontrei minhas agendas e diários antigos e trago um pouco da menina e jovem adulta de anos atrás para o Café como histórias divertidas em uma escrita livre e desprovida de critérios. Tem muita coisa engraçada, e espero que não seja assim só para mim. Vou deixando uns trechos e relatos por aqui, para vermos o que acontece.

Contos e Crônicas
Uma veia literária que não me larga. Deixo aqui minhas crônicas e contos, aquelas inspirações que nos dão e com um pouco de criatividade para extravasar. Vem, lê e me fala o que achou? Além delas, há mais surpresas pela frente, um dia conto tudo aqui.

De primeira viagem
Camila Castro é uma das minhas grandes amigas da vida. Nos conhecemos no Rio de Janeiro muitos anos atrás, ela é uma das melhores amigas de minha prima que mora em Salvador, e então nos unimos ali no Sudeste, como duas nordestinas orgulhosas e felizes. Hoje, ela mora em Dublin com o marido e este ano está grávida e esplêndida. No meio do caos, criamos um passatempo que serve a todos: viver um pouco o dia a dia dela através de seus relatos, uma brasileira em busca de trabalho, saindo da pandemia e grávida pela primeira vez. Uma delícia e uma descoberta dela como cronista.

Do lado de cá
Um paralelo com a vida de Camila é essa minha aqui. Até março, morava no Rio, estava quase entrando em um trabalho novo e pronto: cidade fechada, cultura e comunicação paradas, a proposta de trabalho ficou em suspenso e por prazo indeterminado. Com isso e baiana que sou, vim para Salvador passar o que seria a primeira parte do isolamento social que ainda não acabou, passados mais de quatro meses. Nesse meio tempo, fiz a mudança a distância e decidi morar por aqui por um tempo. É disso que falo, de como anda a vida #doladodecá, com tantas mudanças de uma só vez.

Livros
Livros é uma categoria auto-explicativa. Aqui falo de livros, dos que me inspiram e porque são importantes. Tem bastante coisa boa e diversa, que, apesar de ler mais ficção, me interesso por um mundo de outros temas e 'gêneros'. Com certeza tem algo aqui que lhe interessará.

Artista de Cinema
Dedico cada mês do ano a uma personalidade relevante para o Cinema, esse com letra maiúscula e do mundo todo. Uma biografia, melhores filmes, críticas e o que se enocntra de legal do artista pela internet. É um panorama para quem gosta de se inteirar um pouco mais sobre cinema, para além das dicas de filmes.

Cinema
Sou crítica de cinema há mais de dez anos, faço parte do Elviras - o coletivo de críticas mulheres do Brasil, já fui jurada em festival de cinema, trabalhei como coordenadora do júri em outro. É o que me aproxima da minha formação, paixão que não largo nunca. Uma versão do que consigo escrever na área, além de alguns roteiros e projetos. Tem muita coisa aqui e muito mais por vir.

Streaming
Tudo o que acontece de bom na Netflix e Amazon Prime Video está por aqui. A ideia era trazer dicas da maior parte dos streamings de audiovisual, mas com a mudança de paradigma e comportamento do consumidor, a oferta destes serviços cresceu bastante e, sendo a única produtora de conteúdo do Café, fica difícil dar conta de tudo. Elegi os mais populares para facilitar a nossa vida, ainda que eventualmente possa sugerir filmes e séries de outros dispositivos. Vocês também encontram boa parte das dicas no instagram.

Viagem
Este é o tema que está um pouco parado. Em meio ao caos em nossas vidas, as viagens sofreram graves abalos sísmicos e estão temporariamente suspensas. Tenho bastante coisa a trazer sobre o tema, particularmente das últimas viagens que, aos poucos, vou atualizando por aqui. Fiquem atentos, que vem coisa por aí!

Se tiver dicas e sugestões de conteúdos, do que posso fazer para deixar esta casa ainda mais gostosa e especial, é só acessar os comentários aí embaixo. Te espero! E há muito mais para acontecer aqui, fique ligado e nos visite com frequência, porque aqui não falta é assunto. :)

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Entramos em agosto e agora é tocar o barco. Já assumimos que boa parte do ano se foi em modo isolamento social, entendemos um pouco mais sobre esse vírus e, enquanto aguardamos a vacina, vamos nos cuidando e arrumando tempo para ir colocando a cabeça e a vida no lugar. Para ajudar, insisto nas dicas da Netflix, uma seleção de filmes e séries interessantes, divertidos e sempre bons para passar o tempo. Neste post, temos tudo o que indiquei em Julho no instagram (aproveita e segue lá, para pegar sempre as dicas fresquinhas). Agora, se não viu tudo ainda, vem aqui que te conto o que tem! E para ver as dicas dos meses passados, clica aqui!

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Joan Didion - the center will not hold (2020)
Joan Didion - the center will not hold é o título do documentário que estreou no início do mês na Netflix. Encontrei por acaso no streaming e o filme me pegou de imediato. Tenho uma “dívida” com a escritora. Ainda não li seus livros, mas busquei o ensaio que a tornou célebre e ele está disponível online na Vogue, ‘joan didion self respect’ - em inglês. Dona de um estilo próprio, que faz com que a identifiquemos através de suas palavras, Joan tem voz firme e pensamento rápido. Ela, por força do ofício e da vida vivida com o marido e também escritor John Gregory Dunne, conviveu com os grandes nomes da música e do cinema estadunidenses, traçando em seus ensaios e artigos, um panorama da cultura dos anos 60 em diante. O filme é dirigido e tem a participação em cena de seu sobrinho, Griffin Dunne, tornando a série de entrevistas intercaladas com fotografias, outros depoimentos e incríveis imagens de arquivo - mais próxima e afetiva. Com toda a trágica história familiar, vale a pena conhecer a trajetória desta mulher firme, um tanto triste e brilhante. Agora, só me resta correr atrás do prejuízo e buscar sua bibliografia. 

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Gatinhas e Gatões (1984)
Chegando no segundo tempo desta noite de domingo, precisava encerrar com um clássico, um filme leve, para acalmar os corações e trazer a suavidade dos filmes dos anos 80. De 1984, dirigido pelo mestre John Hughes, Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles) traz a mocinha que fez os melhores filmes de adolescência da época: Molly Ringwald. Além dela, Anthony Michael Hall, John and Joan Cusack carregam a trama da garota que chega aos dezesseis anos e os pais esquecem seu aniversário. E é claro que ela é perturbada pelo garoto novinho e é apaixonada pelo mais velho e bonitão da escola. Tudo certo nos clichês para um filme americano qualquer, não fosse obra de um grande criador, o que torna tudo mais interessante e divertido. É desses filmes para rever de tempos em tempos. Aproveita e faz isso hoje!

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Um contratempo (2016)
Um suspense espanhol com um intricado roteiro é o que te aguarda esta noite. Um crime, um suspeito e as variações dos depoimentos. Quem está falando a verdade? Qual será a verdade? O filme nos prende em sua trama, funciona com as alterações dos acontecimentos a partir de cada ponto de vista. Intrigante, bom para passar o tempo e fechar esta noite de lua cheia.

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Curta essa com Zac Efron (2020)
Um bom programa para ver no café da manhã ou antes de dormir é esse novo de Zac Efron e Darin: Curta essa. Os dois vão a algumas cidades no mundo conhecer pessoas, projetos, comunidades e experiências alternativas que provocam a ideia de que se pode viver melhor e mais simples do que o mercado e a comunicação de massa e entretenimento tentam incutir em nós. Zac é um jovem ator de Hollywood que vive isolado em sua casa em Los Angeles. Segundo ele mesmo, a partir do programa, vai fazendo descobertas sobre si e sua forma de viver. Apesar dele parecer “verde demais” para a vida e também parecer estar vendo algo diferente da forma de viver dos EUA só agora, sua própria surpresa se torna algo interessante. Água, eletricidade sustentável e limpa, longevidade e comunidades (supostamente) autossuficientes são alguns dos temas abordados na Islândia, Itália, França, Peru, Costa Rica e outros países que visitam pelo mundo. Vale o passeio.

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Roma (2018)
Porque não tem como deixar de ver Roma. De Alfonso Cuarón, esta produção original Netflix traz uma história sensível sobre uma empregada doméstica em uma casa de classe média na Cidade do México dos anos 70. Em preto e branco e com uma fotografia excepcional, o filme tira do foco os estereótipos das cores e cultura de exportação mexicanas e nos coloca em uma situação muito familiar e comum às intimidades das casas brasileiras. Lindo, sensível, realizado com a maestria do diretor e roteirista de E sua mãe também (2001) e Gravidade (2013), se prepare para algo diferente dos filmes americanos do streaming. Para ver com calma. E de brinde, ainda tem o making of, também na netflix! 🦋

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Street Food - América Latina (2020)
Essa moça fofa é Dona Suzana, a dona e chef do Re-restaurante na Gamboa, perto do Solar do Unhão (em Salvador, no caso). A história dela faz parte de um dos episódios de Street Food - América Latina, a série sobre comida de rua da Netflix. No episódio soteropolitano há ela, que sozinha poderia ser um filme, de tão maravilhosa, e mais algumas figuras que fornecem e contam um pouco da história de nossa culinária. A série toda é boa, com episódios em outras cidades do nosso continente colorido, como Buenos Aires (Argentina), Bogotá (Colômbia), Lima (Peru), Oaxaca (México) e La Paz (Bolívia). Corre lá!

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Oceanos de Plástico (2006)
Oceanos de Plástico é um filme de investigação que começou com uma ideia simples: o jornalista Craig Leeson iria ao Sri Lanka, em uma região de pesca comercial proibida, para ver uma baleia azul. Ao chegar lá, encontra uma imensidão de plásticos de todos os tamanhos e formatos boiando na superfície do mar. A partir daí, ele monta uma equipe para entender o que acontece ali e em outros pontos do mundo. O filme se transforma nesta busca de compreensão e denúncia pelo descaso no descarte irresponsável de lixo e de como isso afeta a todos, dos animais que enchem seus estômagos com a substância à nós, pelo que chega em nossas mesas ou banhos de mar. Apesar do tema difícil, a obra impressiona pelo alcance, fotografia e propostas de solução para reduzir os danos provocados por nós e para nós. Vale a pena especialmente agora que estamos voltando às praias, depois de meses de afastamento compulsório e necessário.

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Tigertail (2020)
Procurando uma história leve e diferente na Netflix? Talvez Tigertail seja a resposta. O filme de Alan Yang (um dos criadores de Master of None, com Aziz Ansari) conta um pouco a relação entre pais e filhos de imigrantes de Taiwan nos EUA. Sensível, delicado em sua estrutura, com uma pegada de cinema ‘alternativo’ em sua construção - no dar o tempo do filme e no permitir que o nosso olhar ‘se acomode’ à trama - o filme é pura delicadeza ao contar da história do pai em paralelo com a relação que mantém com a filha. O filme não é perfeito, dá a impressão de faltar fibra e estrutura na personagem da filha, bem como em algumas cenas de flashback, que causam estranheza e nos fazem perceber o sofá em que estamos sentados, mas, ainda sim, vale a sessão. Entre encontros e desencontros, a trama tem traços autobiográficos e foge do padrão das produções da Netflix. Para ver com calma e relaxar com uma obra diferente.

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Trapped (2015-)
Quem me conhece sabe da minha tara pela Islândia, de como um dia ainda vou lá, como gosto de ver aquelas paisagens incríveis e tão diferentes do que temos em nosso país. Trapped é uma série islandesa policial, em que Andri é um detetive encarregado de resolver um assassinato e se vê envolvido em algo ainda maior e que se aproxima de sua família. Muito bem feito - eu, que não sou de séries policiais fiquei bem impressionada - com ótimo roteiro, interpretações e aquelas imagens inóspitas e belas do país gelado. Vale para quem gosta e desgosta do gênero, porque tem um quê de drama e a estrutura narrativa associada à fotografia, realmente nos mantém viciados. Uma série digna de maratona, com duas temporadas até agora.
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Julho acabando, as cidades no Brasil começando a abrir, o lançamento preocupante da nota de 200 reais. Este mês foi bem doido, mas 2020 não tem sido exatamente um exemplo de tranquilidade. Para não perdermos tempo, segue a retrospectiva das dicas da Amazon Prime do mês. Lembrando que elas estão sempre disponíveis e atualizadas quase que diariamente no instagram. Clica para seguir! Se perdeu ou deixou de assistir alguma coisa, vem que dá tempo!

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Florida Project (2017)
Só fui assistir Florida Project esse ano. É daquelas coisas que deixamos o tempo levar e quando percebemos, nos perguntamos: por que eu nunca vi esse mesmo? Dirigido por Sean Baker, é um filme leve, que insiste na tentativa de manutenção da inocência da infância nas situações mais adversas. Ele traduz a realidade dos entornos do Walt Disney World para o mundo: uma região em que se vive a qualquer custo, mas que uma hora, a conta chega. Moonee (Brooklynn Prince) é essa brilhante garotinha da foto e é quem leva o filme de maneira impressionante. Vale assistir só para vê-la atuar - de tão natural, o diretor manteve os diálogos que ela e as outras crianças improvisavam nas cenas. Willem Dafoe está impecável, como se aquela rotina estivesse entranhada em sua pele. Uma alegria encontrar uma obra tão rica e sensível, com uma pontinha de tristeza, pela impressão de realidade dura que passa. 

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Babel (2006)
De Alejandro González Iñárritu, Babel (2006) é o último filme da trilogia do diretor também de Entrelaçando histórias novamente, no Marrocos, um casal de americanos sofre um atentado - uma criança marroquina cujo pai lhe deu um rifle para que matasse chacais, aponta e atira em um ônibus turístico. O pai comprou a arma com um japonês, cuja filha tem problemas auditivos e sofre com a repressão de seus desejos na incomunicabilidade, enquanto os filhos do casal americano são levados a um aniversário no México, já que a babá deles não tinha como deixar as crianças sozinhas. Com roteiro impecavelmente amarrado em um contexto internacional e ampliando o alcance do ‘efeito borboleta’, o filme nos prende em uma narrativa quase vertiginosa e ficamos entregues à ansiedade de ver as resoluções da história, ansiando por um, cada vez mais improvável, final feliz. Um grande filme. 

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A vida dos outros (2006)
Para aproveitar bem o fim de semana e se envolver em uma trama de suspense e tensão, invista em ‘Wiesler é esse investigador que desconfia do que seria o último escritor e dramaturgo fiel ao regime e passa a investigá-lo. Essa intromissão diária na vida de seu suspeito provoca uma aproximação e empatia pela intimidade que ele acompanha e é nesta hora que tudo se torna mais complexo e que as sólidas estruturas dos ideais começam a rachar. Inteligente e sensível, é uma grande simulação de como era a vida 30 anos atrás na Alemanha Oriental. Ainda hoje, é possível encontrar museus que explicitavam estes procedimentos de escuta, investigacão e repressão e encontramos paralelos com esta trama do diretor

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Downward Dog (2017)
Enquanto deixo em suspenso a decisão de ter um cachorrinho (ou um gato?), que queria ver ao vivo e a cores e pensar na dedicação e cuidado necessários, me peguei pesquisando filmes e séries que tivessem os animais de estimação em primeiro plano. Por motivos óbvios, há muita coisa pra criançada, há aquelas comédias policiais com cães ultrainteligentes e há um monte de dramas melosos de cachorros saudosos ou que morrem em algum momento. Não. No meio disso tudo, surge na Amazon Espirituosa e despretensiosa, traz um pouco de leveza para os nossos dias e dá uma perspectiva interessante sobre a vida deste par, sobre fidelidade, companheirismo, solidão e cotidiano. Diriga por Samm Hodges e Michael Killen.

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Seinfeld (1989 - 1998)
Oi gente! Enquanto a vida está corrida, vou postando uns clássicos para saber se vocês já viram, quem gosta, quem odeia e assim fico sabendo um pouco mais sobre vocês. Seinfeld Há quem a compare com Friends, por ser quase na mesma época, eles se encontrarem em uma lanchonete e ser em NY, mas acho as duas muito boas e viraram referências de sitcom dali em diante.

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Amores Brutos (2000)
Outro dia indiquei aqui Em mais uma parceria brilhante com o roteirista Guillermo Arriaga, Iñárritu conta três histórias independentes que se entrelaçam por um acidente. Um homem com a missão de assassino de aluguel para ter condições de retornar à família, um jovem que leva seu cachorro a uma rinha para conseguir dinheiro e fugir com a namorada e uma modelo que passa a viver com o ex-amante. Inteligente, muito bem montado e com grandes atuações, vale ver hoje mesmo. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, ao Globo de Ouro. Levou o Festival de Berlim e Cannes, em três categorias, inclusive o de crítica, além de outras 50 premiações e 24 indicações. 

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Mozart in the jungle (2014 - 2018)
Estou me sentindo muito fã de Gael García Bernal, mas é pura coincidência. Estes dias estava insistindo (e sofrendo) para assistir Dark, mas essa série segue me dando agonia, então escapei para a Amazon e encontrei Mozart in the jungle. A série está na quarta temporada e a história gira em torno de um jovem maestro (Bernal) que substitui o anterior (Malcolm McDowell) na orquestra sinfônica de NY. Por situações da vida, Hailey (Lola Kirke, a atriz aí da foto) uma oboísta ‘novata’ e super talentosa consegue entrar para o elenco de músicos. Comédia inteligente ainda conta com o incrível Jason Schwartzmann (dele eu sou fã mesmo!) e fala sobre este universo dos músicos de orquestra, suas vidas e vaidades. Ela nos prende de tal forma que não vemos o tempo passar. Inusitada, divertida, envolve amizades, relacionamentos e arte, mostrando que, por mais diferente possam ser as nossas vidas, há sempre algo em que podemos nos identificar. Melhor dica para passar esses dias e um intervalo mais do que agradável das séries mais tensas =D. 

Perdeu as dicas passadas? É só clicar aqui, que tem tudo o que indiquei para assistir na Amazon Prime Vídeo. E não esquece de seguir o Café no instagrampara pegar as dicas fresquinhas quase todos os dias. :)
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Começa hoje uma nova coluna, meio por acaso, meio sem saber pra onde vai. São histórias de anos passados, confissões, diversões da adolesência e também daquele período depois dos 18 e antes dos 25 - puro caos e abobrinha. Vem, a diversão e a falta de vergonha na cara estão garantidas.

agenda-da-tribo-2007
Agenda de 2007
Como tenho dividido do lado de cá as atualizações da vida em tempos de pandemia, estou organizando a casa naquele momento faxina total, de roupas, móveis, utensílios e papeis antigos. Neste processo, encontrei a calça jeans da viagem de 1998 que insisti em manter naquela promessa de dieta que nunca aconteceu, e as agendas passadas, não de todos os anos, mas de alguns que por razões do universo, sobreviveram às intempéries. 

Com isso, encontrei uns textos de minha versão pré-histórica, que valem mais pelo conteúdo quase sempre divertido do que por um primor estilístico - era uma agenda-diário, calma. Postarei de vez em quando alguns deles sem ordem cronológica, ao sabor do vento, para nos divertirmos um pouco com as ideias de séculos passados - muitas vezes tão atuais e verdadeiras como o nosso presente. Espero que dê certo!

***
Chocolate Quente

Sabe como é quando você gosta de alguém de verdade? É exatamente como o gosto do chcolate quente que tomo agora: forte, quente, amargo e doce - gostoso.

É manhã de quarta e o trabalho começa mais tarde. Estou numa cafeteria onde sempre tomo café e/ou seus derivados, mas hoje escolhi o chocolate. Tem um cara na minha frente se esforçando para se concentrar num texto que está escrevendo, enquanto lê outro; deve ser uma resenha. 

É engraçado porque ele está de frente pra mim - descobri agora a aliança em seu dedo - e eu fico parecendo aqueles pintores quando passam horas observando seus modelos. Este cara é meu modelo do dia. Será que ele percebe isso?

Todas as pessoas desta cafeteria têm tempo para deixar o dia correr. Surpreendentemente, ninguém toma café correndo, todos estão sentados. 

Sabe como você descobre se uma pessoa fofoca ao telefone? Quando ela vira os olhos para cima enquanto fala. Tão fácil.

Das duas, uma: ou ele está muito doido ou a revista é muito engraçada. 
Sabe o que é mais fantástico? O momento antes do sorriso. 

Tem este cara que está numa mesa lendo uma revista. E ele começa a rir. Foi incrível, porque deu para capturar o momento exato da transformação. Acho que ele percebeu que invadi sua intimidade.

Salvador, 07 de março de 2007

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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