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Café: extra-forte

Terça-feira é dia de cinema por aqui e, como não poderia faltar, trouxe a nossa Artista de Cinema de julho, Céline Sciamma, com cinco de seus grandes filmes para comentarmos um pouquinho. 

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Céline Sciamma
Céline Sciamma hoje é uma das cineastas mais conhecidas da França, especialmente depois do filme lançado ano passado, Retrato de uma jovem em chamas. Quase que instantaneamente, a obra passou a figurar nas listas de melhores filmes do país. A diretora e roteirista, entretanto, tem uma carreira sucinta e de apenas grandes sucessos, a ver pelo que segue listado aqui. Então, de cara, fica fácil conhecer sua obra inteira e esperar ansiosamente - e respeitosamente, para dar o tempo de maturidade de algo ainda maior que os anteriores - pelo próximo projeto.

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Retrato de uma jovem em chamas (2019)
Um dos melhores filmes dos últimos tempos, já foi criticado aqui e também serviu como dica no instagram antes da pandemia. A obra conta a história de Marianne (Noémie Merlant), uma pintora que fará o retrato de Héloïse (Adèle Haenel), uma mulher que vive isolada em uma ilha na Bretanha. A ideia é que este retrato sirva como uma 'promessa de compra' ao futuro potencial marido. No século XVIII, era através destes registros que as uniões eram provocadas e prometidas, então a qualidade e honestidade da obra era algo a se respeitar. As duas estabelecem uma relação de cumplicidade e algo mais que se torna imperativo e urgente. Surge um amor firme que se estende e aperfeiçoa com o tempo que estas mulheres passam juntas e essa troca nós acompanhamos através também da construção fílmica: nos enquadramentos, figurinos, através dos diálogos, da fotografia. O filme é um emblema para o Cinema com letra maiúscula, é uma impressão firme de arte de tal forma, que ficamos com medo de piscar e perder alguma coisa. Para saber mais, clica aqui. E para assistir, encontrei no telecine play.

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Garotas (2014)
Uma garota da periferia de Paris lida com o dia a dia de uma mãe que trabalha muitas horas para sustentar a todos, um irmão agressivo e ainda duas irmãs mais novas. Em plena adolescência, Marieme/Vic (Karidja Touré) precisa decidir que caminho seguir e seus rumos e descobertas são tratados aqui com um sensibilidade e maestria que quase nunca vemos em obras de formação. Um filme sobre juventude e adolescência, uma lindeza em todos os tons. Nesta época, eu conhecia Céline Sciamma por Tomboy e já me parecia importante. Ao ver este, percebi o potencial, cuidado e entrega de uma diretora. Está disponível no now, google play, youtube e apple tv.

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Tomboy (2011)
Um filme incrível. Laure (Zoé Haren) tem 10 anos e acaba de se mudar com a família para uma nova cidade. Uma tarde, decide sair para conhecer os vizinhos e ao se apresentar, assume o nome de Mikael. A apresentação do filme é seu grande trunfo: as consequências e os comportamentos de Laure na rua e em casa são tão improvisados quanto essa nova identidade que concebeu para si. Uma obra que não pretende nada além de mostrar a infância e suas descobertas: uma garota que se apresenta como garoto e o que isso significa? Será que significa ou tem que significar alguma coisa? Inteligente, leve e com uma abordagem honesta e brilhante, nos faz ficar sem fôlego com o dia a dia de uma garota, sua família e seus amigos. Na apple tv e a crítica segue aqui!


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Pauline (2010)
Da coleção 5 filmes contra a homofobia, esse curtinha de quase oito minutos com talvez três planos nos prende como se estivéssemos ouvindo uma amiga contando uma história. Pauline (Anaïs Demoustier), essa mocinha da foto, conta como foi sua adolescência e descoberta sexual, entre a ridicularização da família e amigos e a decisão de seguir em frente. A forma como Pauline narra, provoca em nós essa dimensão de escuta e de forma delicada, participamos e entendemos prontamente os preconceitos, as relações familiares, as dificuldades de todo os lados. É apenas o segundo filme de Sciamma, que estreou com um longa - Lírios d'água (2007) - nos cinemas. Está no youtube, grátis e com legendas em inglês.

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Lírios d'água (2007)
Encerrando com chave de ouro, o filme de estreia de nossa artista de cinema é Lírios d'água, um drama que gira em torno de três garotas e suas descobertas amorosas. Marie (Pauline Acquart) é apaixonada por Floriane (Adèle Haenel, sempre com Sciamma), que sabe do furor que causa e gosta de François (Warren Jacquin), por quem Anne (Louise Blachère) é apaixonada. Neste quarteto, a adolescência chega com toda a força e ternura dos primeiros amores, beijos e experiências. Uma obra novamente sensível, já com a carga e o poder dos ideais feministas e da força das grandes amizades entre mulheres. A última cena, inclusive é referência e referenciada em outros filmes do 'gênero'. Uma grande forma de começar a carreira. 

*Para saber mais sobre Céline Sciamma, nossa Artista de Cinema de julho, clica aqui!
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A expiração continua restrita. Repetiu ele o conselho do dia anterior. Apesar de saber quão bem intencionadas eram aquelas palavras, elas atormentaram o restante da sua prática naquela manhã. Inspecionou a causa do incômodo. Seria decorrência da sua dificuldade em se esvaziar, desocupar, descarregar? Ou do medo de se sujeitar, submeter, subordinar? Teria ele relação com liberação, emancipação, autossuficiência?

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Contemplou a primeira narrativa recordando em filme acelerado seu passado atarefado, reconhecendo o padrão de atribular-se de afazeres para trancafiar sentimentos desagradáveis que insistiam em aflorar. Afastava-se assim da sua sombra, mas também de sua luz, postergando a aproximação de sua essência, algo que muito almejava mas, ao mesmo, tempo duvidava. Se por um lado, acreditava que uma bem-construída identidade facilitaria sua existência, por outro, desconfiava da viabilidade da empreitada visto que a mudança é a única constante da vida.

Impaciente, em vez de costurar linhas entre os pontos em aberto, abandonou com certa frustração o projeto inacabado movendo-se para a segunda narrativa. Indagou-se sobre o possível erro de analisar a relação com o outro sem antes compreender a relação consigo mesma. 

Notou a poderosa retroalimentação entre as narrativas. Ao se desconhecer, movia por vezes inconsciente conforme soprava o vento: família, amigos, coletividade. Meditou sobre as vezes que culpou o outro de egoísta, eximindo-se da responsabilidade de estabelecer limites. Confronto nunca fora seu forte. Na verdade, era seu calcanhar de Aquiles.

Teceu o link com a terceira narrativa. Competitiva por natureza, receava perder. Dado esse temor, sujeitava-se, submetia-se, subordinava-se. Refletiu um pouco mais e observou que ganhar poderia ser ainda mais assustador. E se o prêmio não fosse do seu agrado? Valeria a pena despender força e energia destruindo, desorganizando, anarquizando se, no final do dia, o reconhecimento de que o gasto não passou de uma mera troca de amarras, narrativas, ilusão de liberação, emancipação?

Notou o oportuno zig-zag de sua mente de advogada inclinada a questionar em vez de solucionar. Com determinação, buscou novos ângulos para encaixar as peças do lado de fora do quebra-cabeça. Notou na inalação o poder de se preencher, liderar e expandir por meio de relações interdependentes. Verificou que, quanto maior a prática dessas qualidades, menos assustadoras eram o esvaziamento, a sujeição e a independência derivados da expiração. Acatou, por hora, o equilíbrio entre as fases da respiração como chave para uma expiração menos limitada.

***
Quem escreve
Sou Fernanda Rubim, apaixonada por pessoas, por aprender coisas novas e ganhar diferentes perspectivas sobre a vida. Sou brasileira, soteropolitana e comecei minha carreira como jornalista, passando logo para o direito. Trabalho com finanças em uma multinacional por dez anos na Europa, enquanto ensino Yoga e escrevo artigos sobre os assuntos que me interessam. Você me encontra aqui.
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camila-castro

Da felicidade a mil para sofrência a mil (exagerando, mas no fundo nem tanto!). Mas, vou te falar, hein! Como romantizam a gravidez. Os três primeiros meses foram horríveis, pelo menos pra mim (desculpa, galerinha, momentos nojentos a seguir). Todo dia eu acordava e corria para o banheiro passando mal. E doce ilusão de enjoo apenas matinal, ficava nisso o dia inteiro! Às vezes ia para o segundo round no banheiro (por sorte minha, só ia, no máximo, duas vezes por dia... Talvez por estar comendo tão pouco...). A sensação é de que você está numa ressaca que nunca vai acabar.  

E o olfato? Fica ultra sensível e os cheiros parecem bem mais fortes do que você jamais imaginou. Cozinhar? Impossível. Alho e cebola, que eram seus melhores amigos na hora de temperar a comida, viram seus piores inimigos. Então, dá logo a responsabilidade para o papai cozinhar porque essa se torna uma coisa quase impossível de se fazer, a não ser que você cozinhe só besteira sem cheiro (tipo nuggets ou macarrão, arroz ou batata sem tempero nenhum). Enquanto isso, você fica com a responsabilidade de lavar a louça, essa LOUÇA que não acaba mais na quarentena. (Saudades de comer na rua, né minha filha?)

Uma coisa boa da quarentena (e infelizmente por estar afastada temporariamente da empresa – isso é uma opção legal na Irlanda, constando nos contratos de trabalho. Se vocês acham as leis trabalhistas brasileiras ruins, não vão morar na Europa. A maioria das leis trabalhistas dos países europeus é bem desfavorável aos empregados, muito por conta da seguro desemprego que os governos bancam) é poder ficar de molho para o todo sempre em casa sem ter que me preocupar como seria se tivesse que passar mal na rua, no caminho para o trabalho ou até mesmo em alguma loja ou restaurante. Por outro, ficamos com a preocupação de como faremos para manter nossa família, agora de 3, com dois pais afastados dos empregos. Complicado.

A Irlanda é um país sensato, ainda bem, e criou um auxílio financeiro para quem perdeu ou foi afastado do seu ganha-pão por conta do coronavírus. Toda semana, por 12 semanas, o governo deposita €350 para essas pessoas, com possibilidade de expandir por mais tempo, a depender de como a crise evoluir. É a hora em que temos o retorno dos suados impostos pagos. 

Mas, e quando acabar esse período? 
Afinal, somos estrangeiros e não temos todos os direitos que os cidadãos têm. 
Vamos voltar aos nossos antigos empregos? 
Vamos ter que procurar novos empregos? 
Como vou conseguir outro emprego estando grávida? 
Seria de má fé não dizer ou devo informar nas entrevistas que estou grávida? 

Fato: na Irlanda não pode se fazer algumas perguntas pessoais na entrevistas, como idade, raça, país de origem, gênero, religião, estado civil e orientação sexual. Se te perguntarem sobre gravidez, você não é obrigado a responder, porque é contra a lei aqui não contratar por conta de uma gravidez, mas, ao final, eles podem encontrar outros motivos para não te contratar. O único caso para você informar sobre a sua sua gravidez numa entrevista seria para uma vaga que possa ser prejudicial ao bebê, o que é um paradoxo, já que dificilmente você se candidataria a algo assim. 

De algum jeito, nosso santo é forte, Eparrey Oyá!, e meu marido Leo, em plena pandemia, foi contratado para trabalhar de casa. Então, a preocupação de como iremos nos manter diminuiu um pouco e eu posso curtir essa tão desejada gravidez do jeito certo: ficar de molho até esse enjoo eterno passar e esperar a cartinha com a data da consulta no hospital. 

Segura aí, que já já eu te conto um pouco mais sobre a vida aqui com o relaxamento das medidas de isolamento social, como tá sendo esse novo dia a dia e sobre esses trâmites modernos que envolvem os Correios e os serviços de saúde na Irlanda. E para ver onde tudo começou, clica aqui!
***
Quem escreve
Camila Castro (Cam, Camy, Camis, Camilinha) é engenheira de produção e vive com o marido e o futuro bebê em Dublin, na Irlanda. Potiguar, morre de saudades do calor nordestino, das comidas e dos amigos de todos os lugares, mas encontrou seu cantinho no mundo para tocar a vida com mais tranquilidade. Você a encontra no linkedin e no facebook. Fala com ela!
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Vou confessar a vocês: a essa altura, achei que já estaria recebendo os móveis todos aqui em casa. Mas, como tudo na vida, não adianta se planejar tão meticulosamente quando há um mundo de imprevistos e relações sociais necessárias aos trâmites de qualquer processo. Quando se trata de mudança então, nem se fala. 

copacabana-apartamento
home office carioca
Cheguei ao Rio no dia seis em março de 2008 e só sei disso porque foi dois dias depois do meu aniversário. Eu era uma jovem de 25 anos e fui estudar Cinema Documentário na FGV. Minha primeira mudança foi para um apartamento mobiliado de uma amiga de uma conhecida, Ju, que virou amiga de verdade pouco tempo depois naquele mesmo ano. Ela precisou ir a Pernambuco por três meses e ocupei seu apartamento neste período. Nos conhecemos quando ela retornou e a compatibilidade nordestina bateu forte.

De lá para cá foram oito mudanças em doze anos. Apartamentos por temporada, quarto-e-sala, dois quartos e quarto-e-sala novamente. Contratos de trinta meses, seis meses, três meses, doze meses. Aluguel com fiador, sem fiador, com fiador baiano, com depósito e título de capitalização. Me transformei em uma especialista no processo, da vistoria de entrada à entrega das chaves. E agora, uma novidade em uma categoria nunca explorada: a mudança interestadual.

Mari, minha amiga irmã baiana que segue no Rio já havia feito uma mudança intermunicipal e vivemos isso juntas quando ela veio morar comigo. Eu, entretanto, além da mudança Salvador - Rio de Janeiro com roupas, livros e sapatos, não havia saído de Copacabana. E agora, como um ciclo mítico de renovação, transformação e pandemia, volto a Salvador - literalmente - de mala e cuia. A diferença é que, com a urgência da quarentena, trouxe uma mala pequena e a cuia e todo o resto viriam depois. O que deveria ter acontecido no último sábado.

plantas
do alto das prateleiras sobra saudade
Como nem tudo são flores, meus futuros ex-vizinhos não autorizaram a mudança na data prevista. Como se isso mudasse a vida deles. Ocuparia o elevador de serviço por um par de horas - não tenho muita coisa - e me adiantaria uma semana. Mas tudo bem, não dá para brigar com os donos do bairro - a terceira idade que reina nas estatísticas em todo o país, se concentra no bairro e com toda a certeza, no meu prédio. A mudança foi adiada e acontecerá amanhã - oremos. Mari, mais uma vez me salvará, acompanhando os homens da mudança, que embalarão e colocarão tudo no caminhão e então saberei quando as coisas chegarão. Depois é pintura - já agendada - vistoria e entrega das chaves. Um tchau para o Rio de Janeiro à distância, deixando muito carinho, saudades e amigos que carrego no peito e para sempre.

Do lado de cá a vida segue, tentando manter a sanidade depois de mais de cem dias de isolamento social e ansiedade por ancorar de vez (e por enquanto) na cidade, tornando o espaço habitável personalizado com a chegada das coisas que seguem viagem. Alterno entre o apartamento e a casa dos meus pais, vivemos de convivências restritas e quase os mesmos assuntos, com a sorte e o privilégio reconhecidos de ter um jardim e quintal para cuidar. Acompanhamos a duração dos dias no tempo das plantas, no ritmo solar e lunar da Natureza com letra maiúscula.

Os projetos do Café seguem criativos, às vezes árduos, mas costumeiramente felizes, a ocupação com o que se ama, os assuntos que nos movem, a criatividade em forma de texto e alternadamente, vídeo no instagram me divertem e são um desafio à minha timidez e reservas habituais. O que virá com isso, ainda saberemos, há horizontes possíveis. 

Brindo à suposta nova vida, ao novo normal e ao Rio de Janeiro que me acolheu, me fez crescer e me tornar quem eu sou, seja lá o que isso signifique. Deixo aqui o texto da minha chegada lá, para que se reecontre com esse, de despedida, aconchego e saudade.

Mês que vem eu volto com as novas histórias do lado de cá. E você, muitas mudanças na sua vida neste ano desafiador?
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Com poucos e imensos filmes na carreira, Céline Sciamma é hoje o grande nome da arte na França. De tudo o que eu vi da autora, gosto de tudo - assim mesmo, radical e redundantemente. Não é à toa e vou me justificar, que elegi a moça, a Artista de Cinema deste nosso julho de isolamento social (importante marcar a duração deste período). Vamos?

sciamma-biografia
Céline Sciamma
Quando assisti Girlhood (2014), já conhecia Céline Sciamma por Tomboy (2011), um filme lindo e único sobre uma garota que se veste de garoto. O que eu não havia atentado até hoje - sim, esse texto é bem fresco -  é que em Girlhood, temos uma diretora e roteirista branca falando sobre a adolescência de meninas negras na França. Sem tecer qualquer julgamento acerca do que que acabei de soltar, imagino que ela deve ter ouvido algumas sobre a temática e o lugar de fala. Ao mesmo tempo, o filme é tão sensível e delicado, que - a meu ver - não toca na questão de fala como apropriação, mas sobre a história de um grupo de meninas vivendo a adolescência. Independentemente de qualquer coisa, Sciamma tem muito a dizer e é por isso que hoje é uma das diretoras mais importantes que temos e nossa Artista de Cinema de julho.

Nascida em uma cidade próxima a Paris, Céline Sciamma estudou literatura e depois enveredou para o cinema, se graduando na respeitada La Fémis, em 2005. De lá pra cá, estreou já com um longa metragem, Lírios d'água (2007), com Adéle Haenel, sua parceira de vida por muito tempo e em muitos projetos. Desde sempre, o foco da diretora e roteirista sempre foi ter a mulher como protagonista e tema em suas produções. O tratamento de gênero, maturidade e comportamento são os motes para construir imagens de mulheres reais, em situações possíveis em que não reafirmam um olhar masculino de segundo plano e objetificação. Essa reconstrução da percepção feminina é a marca de seu cinema e nosso imenso ganho em tê-la produzindo. Dá para ter um gostinho da produção dela no curta Pauline (2010), parte de uma série de filmes contra a homofobia, legendado em inglês e grátis no Youtube.

Sciamma se tornou ainda mais célebre ano passado por força de duas situações que se comunicam: o lançamento de Retrato de uma mulher em chamas, certamente um dos melhores filmes de muitos anos (para não ficar apenas em 2019) e sua recusa em aceitar ver Roman Polanski recebendo o César de melhor diretor e roteiro por O Oficial e o Espião (2019). Ela, Adéle Haenel e muitas outras atrizes deixaram o evento. Segundo a diretora, há duas questões aí: é preciso que a França acorde para parar de premiar pessoas com o histórico criminoso do diretor e, por outro lado, encarar a percepção de que no país, como em tantos outros, ainda há uma noção tardia e cruel de aceitação e celebração destas figuras. O que ela pode fazer com relação a isso é seguir produzindo obras contundentes, críticas e renascedoras com espírito e força feministas.

Batalhei para escolher Sciamma como a Artista de Cinema, apenas porque seus filmes não estão nos streamings de maior acesso, mas, ainda assim, dá para encontrá-los facilmente. Artistas como ela são imprescindíveis na trajetória da arte em si, como também para o incremento do nosso acervo cultural e intelectual enquanto indivíduos. Retrato de uma jovem em chamas foi seu filme de maior alcance até hoje e ainda consigo sentir na pele as emoções quando o assisti no cinema. É uma obra sensível, brutalmente inteligente e delicada, que em pouco menos de duas horas, traz um panorama histórico de gênero, comportamento, tradição e cultura de séculos passados e que persiste ainda hoje, de alguma maneira. Ao mesmo tempo, é uma história de amor entre duas mulheres, cuja paixão inicial vai se transformando e até sua manifestação. A forma como o tema do amor é abordado é transformadora e revolucionária. Especialmente se tratando de um romance entre mulheres - indo na contramão do que a indústria cultural e de massa costuma exibir com o tema, como Azul é a cor mais quente (2013), por exemplo.

Céline é mestra em seu trabalho e sua vida e obra se entrelaçam, trazendo suas questões para a nossa discussão, com sensibilidade e reflexão. Na próxima semana, nossa Artista de Cinema volta com uma breve análise sobre seus filmes e a importância deles em nossas vidas. Te espero aqui.  

*Para conhecer nossos outros Artistas de Cinema, clica aqui, em maio e junho.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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