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Café: extra-forte


Quem me conhece sabe que uma coisa que sei fazer bem, é amizade. Não vou ficar me gabando, dizendo que tenho os melhores amigos da vida, que sem eles não sou nada e que é muito bom conviver com todos e tê-los próximos, não importando as distâncias. Não vou falar isso. Mas, pensando neles e pensando em como o Café é um espaço para falar dos assuntos que me interessam e que, por sorte, interessam a muita gente, resolvi convidar essas pessoas incríveis para que também falem aqui.

Todo mundo que estiver aqui, certamente tem uma história especial comigo, de quando nos conhecemos e porque mantemos esse carinho e frequência quase teimosamente, não fosse tão gostoso. Tenho sorte de conhecer gente de todo jeito e todo canto, com muitas histórias de vida impressionantes e únicas. Tem gente que escolheu mudar tudo na vida, tem gente que mudou um pouquinho, tem gente que escolheu explorar as aventuras do cotidiano em carreira solo, outros em pares ou em família. Tem tudo mesmo. Mas não sou eu que vou falar, quem vai falar aqui são eles, do jeito deles, da forma que quiserem e o que quiserem.

Aos poucos vocês vão encontrá-los e certamente se apaixonarão, bem do jeito que aconteceu comigo. Abaixo de cada texto terá sempre uma biografia curtinha e um link para conhecê-los melhor. Nesta brincadeira, de repente, dou mais sorte ainda e passo a fazer novos amigos que também escreverão aqui. Aproveitem!

Toda segunda. Aqui no Café. 💘
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Enquanto vivemos esse período de reclusão, vemos o descarrilar da nossa economia e como as empresas e governo estão tentando diminuir seus prejuízos. No cinema, acontece o mesmo. As produções foram todas adiadas, nacionais e internacionais, as salas de cinema estão fechadas até não se sabe quando e os streamings nunca foram tão importantes ou lucrativos. Mais uma vez, acende-se a discussão sobre as salas de cinema e uma mudança de comportamento 'em definitivo'. Mais uma vez, insisto em uma defesa do ambiente coletivo, do apagar das luzes e da melhor comunhão possível, onde somos todos envolvidos e vivemos uma experiência artística. Enquanto tudo são debates interessantes, vamos seguindo com o cinema em casa, na expectativa ansiosa de que esse presente se transforme em um futuro mais saudável para nós e para a nossa cultura.

Enquanto somos jovens (2014)
Noah Baumbach tem uma série de filmes espalhados pelos streamings, além de Frances Ha e História de um Casamento. O que é interessante e comum em toda a sua filmografia é o olhar sobre comportamento e relações humanas. Ele não tem uma pegada de crítica social como Ken Loach faz na Inglaterra, mas ainda assim, busca entender, de uma forma menos estereotipada, seu entorno enquanto estadunidense, da adolescência à vida adulta. Enquanto somos jovens segue esse caminho, é uma obra leve que traça um paralelo entre dois casais, um de jovens hipsters (Adam Driver e Amanda Seyfried) e outro na meia idade (Ben Stiller e Naomi Watts) O interessante é perceber o que falta e sobra em cada par, com insights sobre comportamento, juventude, vida adulta, desejos e interesses. A crítica está aqui!

Sherlock (2010-)
Já se fizeram mil e uma adaptações de Sherlock Holmes para a tv e o cinema. Ainda que essa seja mais uma, vale a pena. Benedict Cumberbatch é o herói e Martin Freeman, Watson. A dupla inglesa funciona nesta produção da BBC ambientada na atualidade, que traz um elenco inesperado em uma série de investigação e aventura. Ao contrário do filme americano, aqui a ideia não é ter um protagonista sedutor, mas alguém inteligente e que, ao mesmo tempo, torna necessária e relevante a presença do amigo médico. Depois de assistir a alguns episódios, não deixe de ver este trailer incrível (em inglês), do pessoal da Honest Trailers. Muito engraçado.

13a Emenda (2016)
O filme é uma aula sobre a questão penal norteamericana e como ela é representativa de uma situação ainda maior e mais complexa de direitos humanos, preconceitos e racismo. Ava Duvernay traz um estudo muito bem apresentado, com muito ritmo que nos prende até o fim, ainda que venha com bastante informação crítica. O sistema de lá ainda nos faz questionar diretamente a nossa situação aqui, especialmente em tempos de desgoverno, conservadorismo, falta de representatividade e crise política. A crítica segue aqui e é um filme que todos deveriam ver e discutir. 
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Vivendo daquele jeito.


Não deveria passar de uma sessão qualquer de cinema, em um domingo qualquer, com um amigo. Descobri hoje que filme estava passando, que dia era e seu signo. À Deriva, 24 de maio, gêmeos.

Conheci Pedro naquele fim de tarde, em uma sessão de filme brasileiro no Laura Alvim, um centro cultural na praia de Ipanema. Eu tinha um ano de Rio de Janeiro, trabalhava há pouco tempo oficialmente em algum lugar, havia estabelecido uma rotina, tudo ia bem. Meu amigo trouxe um amigo e esperamos outra amiga dele. Sentamos para conversar e alguma coisa aconteceu ali, bem antes de entrar na sessão, no intervalo de minutos quase inúteis.

A amiga apareceu como figurante e foi embora logo após o filme, Pedro ficou. Era seu aniversário e nos obriguei a beber, comemorar, rápido que fosse, um dia tão especial. Adoro aniversários, como adoro nascimentos. É a celebração clichê da vida, apenas pelo fato de estarmos vivos. Tenho medo de morrer. Não foi por isso que insisti.

Seguimos para o bar que não lembro o nome, bebemos dois ou três chopps, o suficiente para nos conhecermos, atualizarmos as regras de cordialidade e quebrarmos um pouco o silêncio dos novos encontros. Ninguém sabia que aquele dia duraria anos, e eu disfarçava para não olhar demais para ele. Trocamos e-mails porque nossa missão era contextualizar culturalmente o amigo acadêmico-workaholic e tudo virou uma conversa de dois e assim, de forma pateticamente virtual, estabelecemos uma espécie de relacionamento, uma amizade que não acaba.

Pedro saiu do Rio cedo demais e ainda não sei o que nos aconteceu. Uma série de quase flertes virtuais entre duas pessoas tímidas que conversavam por olhares, quando cara a cara quase não se falavam, porque apenas a presença do outro era suficiente para causar um rebuliço interno, uma alegria sem pensamento. O impacto foi profundo e o tempo na mesma cidade, entre se conhecer e ele partir, bastante curto.

Quero deixar claro que não acredito em amores à primeira vista e que aquilo não era um amor, era um rebuliço. Um rebuliço à primeira vista.

O cinema passou e nunca lembrei o nome do filme. Não lembrei de nada, nunca. Não conseguia me concentrar com aquele garoto, que havia visto minutos antes, agora ao meu lado, esbarrando sem querer e de vez em quando, sua perna na minha. Hoje, que na verdade fez uma semana, nos falamos pela internet novamente, depois de sei lá quantos meses ou anos, talvez. Pedro talvez esteja casado e sei que tem filhos. Conversamos sobre tudo, à exceção de nossos relacionamentos passados e presentes. Não sei se é para deixar esquecido esse ponto de realidade que nos afasta além da distância, não sei se é um cuidado ou falta de jeito para mencionar os marcos da existência. Falamos de todo o resto.

Aquela alegria sem pensamento nos interrompeu muito cedo e deixou tudo em suspensão. Virou uma leve tristeza e falta quando ele foi embora; virou passado entre novos amores e histórias. Nos falamos por intervalos, nos encontramos apenas uma vez no meio dos anos, um almoço em sua não mais nova cidade. Ali, o tempo se exibiu em toda a sua plenitude, mas, em flashes e com coragem, eu via seu rosto, um sorriso que escapava além do nervosismo dos corpos e do meu sem jeito para situações sem precedentes na história da minha humanidade.

Não sou adepta ao platônico, sou muito ansiosa para isso e essa ansiedade é, inclusive, o que me atrapalha nas situações de carne e osso. Sou matemática também, duelo entre um racionalismo ético de lógicas e espasmos de descontrole total. Existe ainda e contudo e entretanto uma ideia na memória, talvez por tempo demais — e, de leve, no peito. Não somos aqueles de nove anos atrás e nossas conversas esparsas sustentam como um fio de nylon nossas vidas, transparente e firme, nos amarrando como pode, algumas vezes mais tenso, outras tantas, frouxo. Existe, infeliz ou felizmente uma expectativa meio esquecida do que não houve, uma chance como fogo fátuo para o destino, se isso existir, ou o acaso, para um futuro incerto e indefinido, como toda a história até agora.

E agora eu te pergunto: e se tudo não passar da fantasia? Quase dá medo de quebrar o encanto e a realidade, a concretude dos encontros quase futuros resultar em nada. Ou pior, em gargalhadas. Será que há, de fato, histórias a não serem vividas? Será que parte da fantasia feliz da vida é manter a fantasia viva?

Em todo caso, o tempo não segue parado, mas curioso, me atropelando em outros encontros, me distraindo com outros presentes e ainda raras promessas de futuro.


*Originalmente publicado em 28 de abril de 2018, no Medium.
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Moreré. Bahia, 2015.
Há alguns momentos que nos marcam sem que percebamos e há outros tantos que, naquele tempo-.spaço, conseguimos nos atentar e notar que ali, aquele instante ou período está sendo importante. Fui para Boipeba e Morro de São Paulo anos atrás em comemoração dos trinta anos de minha prima e de nossa amiga em comum. Era uma viagem que eu planejava fazer há anos, mas, pelos vilarejos serem relativamente perto de minha cidade natal, acabava empurrando. Foi um passeio impressionante, com pessoas que me são importantes e tive a sorte e felicidade de conhecer Boipeba, Moreré e Morro. Anos depois, viajei para uma famosa terra de águas azul piscina e preciso dizer, com medo de fazer propaganda e estragar aqueles lugares mágicos, que sigo preferindo minha Bahia. E agora, nossas dicas!

A Caça (2012)
Estamos em um bom momento para assistir este filme. Mentiras, suspeitas, esse drama dá um nó em nossas ideias sobre temas controversos. Mads Mikkelsen é Lucas, um professor de escola infantil que se torna suspeito de molestar uma criança. O resto é história e faz lembrar um importante caso semelhantes que aconteceu em uma escola do Rio de Janeiro anos atrás. De Thomas Vitenberg, é impressionante a seleção de elenco e a sinergia destes atores em um filme tão centrado em poucos espaços e dentro de uma pequena comunidade. Grande roteiro.
Modern Love (2019-)
Modern Love é baseada em uma coluna homônima do New York Times, que trata sobre comportamento e relacionamentos mais diversos, envolvendo claro, amor - em todas as suas nuances. Leve, tranquila, não é água com açúcar e mostra diversas situações interessantes que abrangem o tema. Elenco de primeira, passa o tempo que é uma beleza e faz bem para o coração e o espírito. Lembra os grandes filmes de romance / comédia romântica e sigo ansiosa para a segunda temporada. 

O discurso do rei (2010)
O filme faz impressionantes dez anos esse ano. Dirigido por Tom Hooper, de Os Miseráveis (2012) e A Garota Dinamarquesa (2015), o filme conta a história da dificuldade do rei George VI, o esposo da Rainha Elizabeth em atender às suas atividades no trono. Baseado em fatos reais e um ótimo programa para toda a família.
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Aproveitando que não vivemos apenas de filmes e séries, vou começar a ampliar o espaço com os livros  especiais para ler agora. A ideia é trazer um por quinzena, para que sirva de inspiração para começarmos algo novo, discutirmos outras ideias, navegar por outros mares. 

Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár (1907)
Quando viajo para alguma cidade ou país, procuro conhecer um pouco da história do lugar e tenho duas premissas básicas: me pergunto se eu moraria ali e levo um livro de algum autor local. Em 2016, fiz a minha primeira viagem para a Europa. Fui com uma melhor amiga e chegamos a Budapeste, na Hungria. Não só eu moraria lá e me apaixonei pela cidade para todo o sempre, como busquei um autor e saí com uma edição em inglês deste Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár. O que eu não lembrava é que já havia comprado esta edição da foto, da infelizmente finada Cosac Naify.

Levando em conta que o livro é em húngaro, decidi ler a versão em português, com a tradução de Paulo Rónai, húngaro naturalizado brasileiro quando chegou ao país, fugindo da Segunda Guerra. O tradutor sozinho já merece livros em sua homenagem, por sua contribuição com diversas traduções de livros fantásticos. A história é sobre dois grupos de meninos que brigam pelo grund, um espaço para jogarem péla, uma espécie de tênis rústico. 

O que parece infantil, na verdade se torna surpreendente e cativante, o livro é universal, ainda que se passe nas ruas da capital húngara e atemporal, ao tratar dos fundamentos de grandes amizades. Lindo, atinge todas as idades. Foi reimpresso no Brasil mais de oitocentas vezes (de verdade) e a última edição é da Companhia das Letras, de 2017. Um presente magnífico para qualquer geração e um dos livros fundamentais da vida para ler agora: os meninos da rua Paulo. De fácil acesso, coloquei em rosa links para comprar na Amazon, mas é possível encontrá-lo nas maiores livrarias e em sebos.

Última edição: Companhia das Letras, 2017.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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