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Café: extra-forte

Parece mentira, mas sim, voltamos com as Maravilhosidades semanais, com o Café de cara nova e com a inclusão de toda uma vida literária que acontecia no Medium, em português e inglês. O plano para 2019 é focar, então fica tudo agora aqui, junto, misturado e organizado. Vai dar certo (eu acho)!

As Maravilhosidades também mudaram, porque, com o trabalho, a pós, os contos, críticas e crônicas, não está sendo fácil. Continuaremos semanais, mas com três dicas especialíssimas como sempre e diversas, porque ninguém vive só de comédia romântica, documentário e grandes diretores. ;)
Agora chega de falação e segue a primeira edição deste ano desafiador:

Roma
Roma || Alfonso Cuarón - 2018 || 135 min
Cuarón estava inspirado com esse. O diretor de E sua mãe também (2001), Filhos da Esperança (2006) e Gravidade (2013), não apenas dirigiu esse, como foi co-editor, fotógrafo e roteirista. A fotografia em preto e branco impressiona, o apuro visual dos enquadramentos e suas sequências são de tirar o fôlego ao mesmo tempo que instituem um tempo diferente do olhar. E ainda, realizando o segundo desafio maior de um cineasta (o primeiro seria filmar em plano-sequência): filmar na ordem dos acontecimentos.

Estamos falando da Cidade do México no início dos anos 70, com uma turbulência social iminente e e se espalhando pelas ruas e as velhas tradições encontrando as transformações sociais em uma casa de classe média. O protagonismo está na empregada doméstica Cléo: uma mulher jovem, que vem do interior do país para morar na casa, nada diferente do que nos aconteceu por anos no Brasil. O filme é magnífico, a atriz Yalitza Aparicio havia acabado de se formar como professora e após quase um ano definindo o elenco, o diretor a encontrou. O filme é uma produção original da Netflix e acaba de levar os Globos de Ouro de melhor filme, melhor diretor e roteiro. Não tenha dúvidas, vale a experiência. Só não espere nada muito americano aqui, a pegada é outra.

Bônus: entrevista de cinco minutos em inglês, com Cuarón e vários convidados ilustríssimos.

The lobster
The Lobster || Yorgo Lanthimos - 2015 || 119 min
Não sei se todo mundo percebeu esse filme chegando em dezembro do recém-finado 2018. Ele é estranho, porque a estranheza faz parte de sua estética e de tudo o que propõe, o que o torna ainda mais interessante. Colin Farrell é um recém-divorciado que se hospeda em um hotel e precisa encontrar um novo par ou será transformado em um animal. Rachel Weisz é uma mulher cegamente apaixonada.

É o apocalipse para as pessoas solteiras, a solidão é uma ameaça à vida humana e precisa ser combatida a todo custo. Um dos filmes mais críticos, interessantes e inteligentes de 2015, levou a Palma de Ouro e outros 33 prêmios pelo mundo. Vale cada minuto e carrega grande elenco.
Ainda em dúvida? Veja o trailer!

Marie Kondo
Ordem na casa, com Marie Kondo || Marie Kondo - 2019 || 40 min/eps
Correndo o risco de apanhar aqui, a série é interessante, juro! Marie Kondo é uma escritora e consultora de arrumação (organizadora, se preferir) japonesa. Ela lançou alguns livros que viraram best sellers instantaneamente e ainda tem um canal no Youtube. Agora entra na Netflix com essa série fofa e até curta acerca do mesmo macro tema: organizar a casa para viver melhor. Parece simples e óbvio, mas levanta questões. Para quem é adepto de uma cultura minimalista, menos consumista, talvez não veja grandes novidades, mas vale pelo menos, para pegar umas dicas.

Arrisco dizer até que não precisa ver todos os episódios, mas é legal acompanhar os primeiros e entender o porquê do sucesso dessa moça, como suas ideias simples te levam a refletir sobre seu modo de viver com o que você tem - de bens a familiares e amigos. Tudo o que você tem lhe traz alegria? Antes de reclamar comigo por indicar uma série que parece auto-ajuda + qualquer outra de arrumação, dá uma chance. E, qualquer coisa, investe no documentário já indicado aqui, Minimalismo.

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— Oi… posso sentar aqui?
Disse que sim e tirei a bolsa de cima da cadeira. Acostumado a levar um livro e caderno, acabo sempre andando com uma bolsa, como se fosse um professor, mas não sei se teria paciência para isso.
Ela trazia um cappuccino com mais canela do que eu colocaria. Seus movimentos eram suaves, tranquilos, mas no rosto carregava uma expressão que eu não conseguia definir se era tensão ou tristeza, acrescida dessa calma em que já não existe desespero ou qualquer sinal de angústia. Continuei como estava, mas agora não poderia observar o ambiente, seria estranho com alguém sentado à minha frente. Decidi escrever ou fazer de conta, o caderno já estava aberto. Fingi rabiscar algo enquanto ela se acomodava, saíram palavras soltas, ainda sem conexão.

Ela trazia muitas coisas: um livro cujo título não conseguia ver, com marcador no meio, um cachecol vinho, fino, aberto e com franjas, meio solto no pescoço, uma bolsa grande marrom, o celular. Não sei como se equilibrava entre seus objetos e o fazia de forma meio desajeitada, mas parecia ser uma confusão frequente. De calça escura, blusa branca e jaqueta aberta, óculos de grau nos olhos com aro quadrado e cabelos tão desarrumados quanto o resto da cena, era uma moça de seus trinta e qualquer coisa que parecia estar sempre em cima da hora para um compromisso. Mesmo em uma manhã de sábado.

— Júlia, prazer. Como é seu nome mesmo? — Tirou a jaqueta, colocou no encosto da cadeira de madeira escura, a bolsa pendurada, manteve o cachecol. Respirou fundo, quase como um suspiro, quando finalmente se organizou.
— Pedro.

A movimentação dessa moça desconhecida contrastava com a minha imobilidade, sentado em uma cadeira, gastando tempo com a vida alheia, observando. De repente me senti velho e os senhores que jogam xadrez e dama nas praças do bairro vieram à minha mente, assim como as senhoras que tomam sol levadas por seus acompanhantes em cadeiras de rodas. Esse pensamento me incomodou um pouco — mais pelas senhoras do que pelos homens, animados, entre a gritaria das peças de dama ou o silêncio marcado pelo tempo do xadrez. Era um exagero, entre eu e Júlia haveria, no máximo, dez anos de diferença. Arrumei-me na cadeira, como quem busca uma posição mais correta, ainda que menos confortável.

A cafeteria não é meu escritório, apareço por aqui nos finais de semana, quando o trabalho, que me toma quarenta horas semanais, acaba. É pequena e, como tudo no bairro, tem mais de vinte anos e poucos funcionários, a maioria com algum tempo de casa. Não conheço todos, mas converso com alguns de vez em quando. Venho para tomar um café expresso ou duplo, a depender do que me aconteceu na semana, do estresse acumulado. Hoje é um dia de expresso, mesmo sem pressa.

— Posso conversar com você? — Ela me perguntou meio tímida, mas decidida, olhando para a xícara grande ainda com o leite em espuma pincelado de marrom, e para mim, direto nos olhos, me fazendo baixar os meus. Uma amiga me disse que no Chile, quando um homem tira uma mulher para dançar, a encara até que ela responda à altura, então ele baixa os olhos como o início de um jogo de sedução. Os homens lá não conseguem sustentar um olhar, ficam inseguros.

— Claro, mas… — e no que eu ia perguntar se havia algum assunto em particular, fui interrompido novamente.

— Eu sei que você está sempre aqui, fica observando as pessoas… eu faço um pouco disso também, mas hoje tenho uma história para contar… é para isso que você vem, não? Para ver e ouvir histórias?
Ela era imperativa. Falava com o olhar, com um jeito decidido e suave ao mesmo tempo, que me obrigava a aceitar o que quer que fosse, ainda que eu o fizesse por vontade própria. Seu sotaque soava firme, mas delicado, não criando uma imagem automática que remetia ao Nordeste dos estereótipos, mas as pinceladas da entonação e os verbos diretos acentuavam nossas diferenças.

— Normalmente eu vejo mais do que ouço, minhas conversas são com o pessoal do balcão, mas não passam muito de assuntos do dia a dia, política, notícias, esse pacote básico.
— Posso te contar algo diferente então? Como um bônus… um extra do pacote?

— Por favor, seria uma honra. — E sorri. Mas também pensei que poderia ser um suplício, se a narradora não fosse das melhores. Estava intrigado e nada de muito surpreendente acontecia em minha vida. E também não tinha compromisso para as próximas horas.
— Hoje é meu último dia na cidade. — Assim começou falando, enquanto guardava o livro na bolsa, mas mantinha o celular na mesa virado para baixo, como se precisasse estar conectada ao mesmo tempo em que não queria se distrair com aquilo. — Amanhã de manhã pego o primeiro voo para a Islândia.

Eu conhecia pouco sobre a Islândia, sabia ser um dos melhores países para viver. Sabia que o ensino superior era gratuito e de qualidade e é claro, que os índices de criminalidade não chegavam nem perto do que vivíamos no Brasil. Ainda assim, me surpreendeu, esperava algo mais padrão, Barcelona, Paris, Londres, Berlim.

— Na Islândia há uma casa me esperando, um mestrado, uma vida tranquila. — Disse quase se justificando, como se precisasse falar aquilo para si mesma. Como se já fizesse isso há um tempo, de frente para um espelho.

— E ainda tem o fato de você ser mulher, lá a equidade de gênero é a mais próxima neste globo. — E me senti citando uma reportagem ruim, depois dessa equidade. — Desculpe, continue.

— Eu sei, é um dos motivos. Quero entender o que é viver em um país assim. Vamos ver o que acontece. Mas não vim falar sobre a Islândia. Você pode escrever, se quiser. — Ela disse, quando me viu rabiscando Islândia.

— Não precisa, só achei a escolha interessante. — E fechei o caderno, marcando a página com a caneta.
Júlia se recostou na cadeira, como quem começa a relaxar. Mexia o cappuccino, deixando esfriar o suficiente para não queimar a língua.

— Demorei a gostar daqui. — Disse devagar. — Essa cidade não é fácil.
Acostumado às declarações de amor exageradas sobre a cidade maravilhosa, terra de festa, cerveja, sol e carnaval, foi bom ouvir algo diferente em um fim de semana de frente fria. Começava a chover. Agora ela tinha a minha atenção. Ela sabia que eu era carioca, eu sabia que ela não era.
— Você sempre toma cappuccinos aqui?

— Costumo tomar café preto mesmo, hoje me deu vontade de cappuccino… adoro o gosto da canela na mistura de café com leite.

— Gosto de café preto também e o daqui é especial. Por que o Rio de Janeiro? — levantei a mão em busca de Marcela, a garçonete, para mais um expresso e uma água com gás. — Quer alguma coisa?
— Biscoitos, se eles tiverem, obrigada. O Rio de Janeiro foi uma indicação para um curso, vim de primeira e já para a vida, com uma mala de sapatos e outra de roupas. Alguns livros na mochila. Problema foi essa saída agora, com poucos sapatos, uma estante imensa e a dor do desapego. — Sorriu. — Doei muitos livros, enviei algumas caixas para a casa dos meus pais.

Pedi café, biscoitos, água com gás, ela ficou calada, esperando Marcela voltar. Não demorou muito, a garçonete olhou para nós dois e trouxe tudo, talvez quisesse saber do que falávamos, já que era a primeira vez que alguém vinha à minha mesa. Sorriu cúmplice e curiosa para mim, retribuí discretamente, como quem diz ‘vai trabalhar’. Marcela saiu de cena, mas ficou de olho lá do balcão e, ainda que não comentasse nada com ninguém, parecia feliz em me ver conversando com aquela moça.

Semanas depois eu descobriria mais. Marcela me puxaria para conversar e diria que conhecia Júlia e achava que ela também era mais sozinha do que precisava. ‘Mais sozinha do que precisava’ foi a frase que ficou em mim, como quando um psicanalista interrompe a sessão para que você guarde na memória o que ele considerou relevante. Gostei de perceber que Marcela era uma observadora de peso, ela tinha uma sagacidade, uma agilidade no espírito e isso era óbvio nela, talvez por ser mais jovem. Havia esse outro lado nela que agora me parecia novo ou que não havia notado antes, de que só quem aprecia a calma consegue parar e observar o outro em detalhe.

Júlia me contou que estava passeando pelos lugares que mais gostava na cidade, mas sabia que não conseguiria ir a todos. Como eu, era viciada em café, morava perto e adorava essa cafeteria, que em si, não aparentava ser grande coisa, mas tinha seu charme. Disse que morava no Rio havia oito anos e que, quando chegou, não esperava passar mais do que dois. Não via a cidade como um lugar para morar e criar uma família, gostava, mas não se identificava a esse ponto. Agora também não encontrava em Salvador esse pouso definitivo como sempre havia imaginado, como o retorno final de uma migração. Achava que iria acontecer, mas esse tempo ainda não havia chegado. Salvador remetia a um passado tranquilo, mas a cidade tinha uma dificuldade de crescimento, de oferecer boas oportunidades profissionais e seus laços familiares seguiriam firmes aonde quer que ela fosse. A volta poderia esperar.

Viveu esse contraste de deslocamento e permanência em quase todos esses anos, chamando tanto Salvador quanto o Rio de Janeiro de casa, sem concordar com nenhum, como se precisasse falar dessa forma para não ofender ninguém, nem a ela mesma. Hoje é ‘a casa dos pais’ e ‘o Rio de Janeiro’, já que não mora mais aqui, pelo menos em pensamento.

— Logo que cheguei, tinha essa ideia de que o Rio era como São Paulo, só que com mar. — E riu.
Ri junto, porque era uma frase de alguém que não tinha a menor ideia do que estava falando.
— Quase me arrependi de ter vindo, quando vi que a cidade se parecia até mais com Salvador e isso nos aspectos ruins. Acabei a identificando com o que há de pior, as informalidades, uma intimidade imposta com quem não se conhece, os jeitinhos ou as pequenas corrupções do cotidiano de quem precisa chegar primeiro em algum lugar por atalhos tortos, cortando o caminho dos outros, passando por cima — não é à toa que o trânsito da cidade seja tão agressivo. Foi difícil, mas nunca quis ir para São Paulo, a segunda opção para quem tem essa agonia de viajar, trabalhar, crescer. Nunca levei a ideia a sério porque não sei se conseguiria viver sem mar. É tudo meio, sempre, sem horizonte. Na Islândia, pelo menos, isso não vai me faltar. E sim, eu sei, não dá pra mergulhar. Não se pode ter tudo. — Sorriu e continuou:

— Depois das primeiras impressões sobre o Rio, fui me adaptando, consegui me espalhar por aqui, conheci gente interessante e nem mencionei aquela ideia de São Paulo aos cariocas, depois que eu soube dessa briga besta entre as capitais. Nunca entendi muito bem essas rivalidades construídas sobre vaidade. E essa frase não saiu solta, te garanto, pensei um pouco sobre isso. — Sorriu novamente e pude vê-la se soltando ao tempo em que mexia no cabelo, indecisa se fazia um rabo de cavalo, um coque ou deixava todo de um lado do rosto. Ela sabia do que falava, agora já tinha a cidade na palma da mão. — É como Brasil e Argentina. E olha que namorei um argentino que é um amigo até hoje. Estou me perdendo.

Deixei-a falando, eu só aparecia aqui e ali para uma observação, um comentário de quem ouve uma boa história — tinha dado sorte. Júlia viveu romances bons e ruins, internacionais, locais, à distância. Todas as opções de uma vida jovem que não se casou. Namorou menos do que quis, nunca soube bem porque, mas não se arrepende.

Viveu a cidade com vontade. Beijou a estátua de Carlos Drummond de Andrade mais de uma vez, seu vizinho de bairro. Conversava com ele da janela do prédio em uma distância enorme e ficava com pena dele, sozinho no banquinho do calçadão em dias frios como esse. Pegou van na Lapa de madrugada, gritando os nomes dos bairros a cada parada para pegar mais gente no caminho, subiu a pé até Santa Teresa. Teve amnésia alcoólica em um Réveillon de Copacabana, correu da polícia em uma manifestação política na Estação Central do Brasil. Era frequente na Praça São Salvador, muito mais por adorar o nome do que a praça em si. Dançou no baile Charme no Centro quando tudo era seguro e parecia a Suíça, de tão tranquilo — era Copa do Mundo. Atravessou tiroteio em ônibus, foi assaltada uma vez à faca por dois garotos com metade de sua idade e outra com arma na cabeça, por dois motociclistas no final de um dia de trabalho, o último neste ano. Odiou muito a cidade, muitas vezes.

— Mas eu não sei… tem alguma coisa aqui. Não é como Salvador, onde nasci e fui criada. Salvador tem um amor no sangue, inexplicável, dessas coisas entranhadas na carne, como dendê e pimenta, como costumamos dizer. Cheguei já criada ao Rio de Janeiro, assim, crescida. Ainda era uma menina, mas não era adolescente mais, entende? Não me achava uma mulher formada e também não consegui me apaixonar cegamente por aqui, assim, de cara, como todo mundo diz. Mas hoje eu gosto e sei que vou sentir falta.

Eu concordava com ela, imagino que ela encontrava defeitos em Salvador também, mas era terra natal e isso ninguém tira, não há como mexer, comparar.
Olhei de relance para a cafeteria e notei pela primeira vez que o tempo tinha passado. A chuva estava mais fraca do lado de fora, pessoas já entravam sem guarda-chuvas, outras tinham ido embora. Até Marcela tinha desistido de prestar atenção, sabia que eu voltaria depois, talvez amanhã ou no próximo sábado e poderia esperar para matar sua curiosidade com aquelas perguntas descabidas e indiscretas. A garçonete costumava cortar os longos silêncios, sobras de assuntos acabados assim, como quem tem pressa em saber qualquer coisa e não suporta tempos mortos em sua rotina.

— Sabe o que me doeu no coração? Quando eu realmente vi que gostava daqui? Arrumei um trabalho do outro lado da cidade, na Barra, e tinha aquelas duas opções de caminho, atravessando o túnel que desembocava na Rocinha ou contornando o Vidigal. Sempre preferi o segundo, porque não tem nada de muito bonito pelo outro caminho, é uma avenida sem graça, mas ali tinha o mar todo da janela do ônibus, mesmo que demorasse mais um pouco para chegar. Logo antes da descida do morro do Vidigal, há uma curva aberta e olhando para baixo, vemos o paredão que nos sustenta com uma inclinação que se projeta para o mar, quase sem pedras na base, então as ondas batem com tudo, mas sobem e descem lambendo a encosta. É sensual até… — E ficou calada, como se tivesse dito algo sem pensar. — Não me lembro de ter contado para outra pessoa… Sensual… Não sei se você já percebeu essa quina, mas para mim, é o lugar mais bonito da cidade. Se você tiver a sorte de passar pela avenida em um dia de ressaca do mar, dá uma olhada. Sempre quis parar ali para ver um pouco, até que construíram aquela pista horrorosa de ciclismo. Cortaram a minha vista, quase chorei.
E foi bem naquele pedaço… sabia do que ela falava, porque ali, justamente, houve um acidente em dia de ressaca e a pista de ciclismo, novinha — que achei ter sido uma boa ideia para a cidade — ruiu, matando quem passava na hora.

— Sim, é bem no local do acidente. — Ela me leu instantaneamente. — Tento não me lembrar dele.
Ela não era uma pessoa de grandes gestos, mas falava um pouco com as mãos. Também não falava alto e parecia se incomodar com barulho. Às vezes a máquina do café, a porta ou o arrastar de uma cadeira a interrompia e ela não se irritava, só se perdia um pouco, como se estivesse andando distraída, alguém esbarrasse e ela esquecesse o rumo por uns instantes. Agora tomava um pouco do cappuccino, já devia estar quase frio, pelo tempo.

— Preciso ir embora daqui a pouco. Tenho que andar pelo calçadão, aproveitar que parou de chover, ia passar o dia sem fazer isso se continuasse aquele toró.

Olhou para o celular pela primeira vez. Essa interrupção me doeu um pouco, esperava ter mais tempo, ela já tinha me ganhado, queria viver a história dessa menina que ia morar sozinha em um dos lugares mais frios de que se tem notícia e, ainda por cima, vindo de uma terra sempre quente. Mesmo com todos aqueles adjetivos, todos os motivos, a Islândia não seria fácil.

— Se você quiser dar essa volta comigo, podemos ir juntos e de repente lhe conto mais.
— Se você não se incomodar, seria ótimo. — Olhei para Marcela, que passava por perto com uma bandeja cheia de xícaras e pratos sujos. Não me viu. Esperei ela se virar, já no balcão e fiz o gesto de quem pede a conta. Sorriu e assentiu, agora com uma olhar tranquilo e seguro, como se alguém tivesse te contado uma boa notícia.
— Pedi a conta, se você não tem mais tempo.
— Obrigada. Resolvi te contar porque gosto da cidade e agora não consigo dizer muito… talvez seja mais fácil dizer as coisas do entorno… de como eu decidi ir embora. — Ela parecia perdida, como se não soubesse como continuar e vi que não havia nada construído, nenhum texto pronto e isso me deu um alívio, nunca quis ser relator de biografias.
— Podemos conversar sobre outras coisas, não tem problema. — E como se não me ouvisse, seguiu falando, enquanto pagávamos a conta que fez questão de dividir, por mais que eu insistisse no contrário.

— Viajei anos atrás a Buenos Aires. Conhecia a cidade pelos outros, muitos amigos já tinham ido pra lá. Estava tudo muito barato, ainda éramos o país rico da América Latina, depois da crise deles, antes da nossa. Entrei em uma loja dessas de design, com um mundo de coisas bonitas e assinadas por pessoas que eu não conhecia e saí de lá com um abajur vermelho que imitava rosas em fitas de cetim e um caderno de cartas, cujo título era letters for your future self. Era em inglês mesmo e achei a ideia divertida. Não me aguentei quando voltei e escrevi logo a primeira de uma só vez e sem rascunhos, sem saber se suportaria a curiosidade de esperar dois anos para abri-la, mas depois me esquecendo de sua existência e conteúdo. Hoje o tempo passa mais rápido, né?

Saímos do café, ainda ventava, mas sem chuva. O céu estava carregado, prestes a desabar, mas ela parecia não ver aquelas nuvens quase pretas ou não se importar. Não tinha tempo para essas dúvidas e caminhava para o semáforo, com a certeza de que eu a acompanharia, ainda que aquele tempo aconselhasse outra coisa.

Continuou de onde parou, me disse que na época estava chateada com o Rio de Janeiro, que não conseguia se relacionar com as pessoas da cidade, que os envolvimentos amorosos eram rasos, superficiais como uma vida de propaganda e a cidade realmente sempre foi voltada para a televisão, o que acabava distorcendo as reais imagens das pessoas. Reais imagens das pessoas… as pessoas em si. Talvez estejamos contaminados por isso, pela mídia o tempo inteiro, por notícias irrelevantes sobre a privacidade de qualquer pessoa supostamente interessante. E ela reconstituía as frases de sua carta com um ímpeto quase teatral, estava se divertindo, como se uma pessoa mais jovem e idealista tivesse mais certezas do que ela, como se estivesse lendo uma carta de outra pessoa. Ela dizia que queria ir embora, para um lugar tranquilo, que a vida real fosse mais importante do que o que se criava sobre ela, que o dia a dia banal não fosse noticiado, mas que as notícias fossem tão relevantes e fundamentais quanto o café preto antes de sair de casa, de manhã. E seguia escrevendo, ela me dizia, de que não aguentava mais o calor do verão, mesmo amando a primavera e que esperava que, em dois anos, estivesse pronta para sair, se tudo estivesse na mesma.

— E assim, me lancei ao desafio. Ri muito no início da carta, quando comecei a ler, porque eu estava muito indignada, de coração partido por um rapaz e de saco cheio da cidade, do meu trabalho, de tudo. Na carta, eu me recusava a ser acomodada, mas o tempo passou e foi exatamente isso o que aconteceu. Às vezes eu achava que estava mais velha e com isso, mais tranquila, mas aquilo mexeu comigo. Mesmo mais velha. Estava acomodada e sabia que era isso, até na terapia eu falei. E então decidi. E me propus a qualquer coisa. Não queria ser vítima de bala perdida, virar estatística nem ouvir mais tiroteios, não queria essa vida de saber nomes de subcelebridades, não queria ir ao trabalho — já não queria há um tempo e isso ficou ainda mais forte — e era tão interessante e imperativo isso tudo que, sem saber, já tinha feito uma economia. Encontrei um curso, me inscrevi ano passado. E amanhã: Islândia. Tudo por causa da carta.

Entendi que ela, na verdade, não tinha nada programado, não tinha se preparado para isso e por isso repetia para si, todas as manhãs, que a Islândia era um lugar melhor para viver. E daí que fosse fazer frio? Ela compraria casacos, cafés, vodca e até aprenderia a gostar de uísque e chá, as bebidas que mais odiava na vida — além de leite puro e açaí, essas eram impossíveis. E daí que as comidas eram bizarras e assustadoras? Em qualquer lugar teria café, teria pão, queijo, frutas. Ela daria seu jeito, mas não comeria cavalo, golfinho e baleias, ah não, isso não. E daí que era longe de tudo? O problema era chegar e sair. Odiava avião, mas eram momentos, aqueles iniciais, até o sono pesado que ela nunca soube de onde vinha, se apoderar mais uma vez e ela apagar, vencendo com preguiça, o medo.

Já não sei mais se isso tudo eram reflexões dela ou minhas, se eram todas perguntas que eu não teria coragem de lhe fazer, para não deixá-la ainda mais confusa — agora não tinha mais jeito. Percebi assim, que mesmo sem calcular e sem certeza, ela era como eu, pesava prós e contras, até que se cansava e, por fim, decidia. Era nesse verbo final que residia nossa diferença fundamental e que ela ganhava um novo admirador.

— Chega uma hora em que é preciso parar de pensar, de calcular. — Disse e mais uma vez ela parecia ouvir meu pensamento. — Se eu acreditasse em signos, assim, de verdade, deveria mergulhar no meu próprio e viver um tanto só de emoções, me deixar levar pela correnteza, como já fiz em relacionamentos. Mas nunca dá muito certo né? É preciso ser um pouco racional, mas só um pouco, na medida do mínimo. Senão, não saímos do lugar, afogamos a coragem.

E então ela sorriu de forma diferente. Sorriu como quem tem certeza de que está fazendo a coisa certa, por mais clichê e duvidosa que pareça. Sorriu como quem encontrou um destino, como quem esperava algo, como quem tinha se decidido por mais uma aventura. Só se vive uma vez e me martirizo por mais essa frase conhecida. Escrever é difícil. E, como se não bastassem todos os clichês já ditos, recomeçava a chover. Estávamos na orla, caminhando pelo calçadão de Copacabana e ventava. Era uma chuva fina, fria, do tipo que molha devagar. Sabia que ela iria embora, não poderíamos ficar na chuva a esmo, quando todos abriam seus guarda-chuvas e seguiam, cada vez mais rápido, para o outro lado da avenida. Paramos.

— Boa sorte. Vai dar tudo certo. — Disse, sem saber o que dizer e lhe estendi a mão, não éramos íntimos, sequer nos conhecíamos.

— Vai sim. Até mais. Vou sentir falta disso. — E me abraçou. Saiu como esses abraços desajeitados, quando um não espera e é pego de surpresa, uma mão fica no meio do caminho, quando deveria chegar às costas do outro e encontra a barriga no lugar. Foi engraçado, mas não rimos. Ela se desfez do abraço e se enrolou no cachecol, fechou a jaqueta e seguiu andando pela orla, quando eu achava que atravessaria a rua. Fiquei parado, sem entender. Ela parou mais à frente, como se lembrasse de algo e pegou um guarda-chuva rosa na bolsa. Olhou para trás e sorriu ao me ver, como se tivesse certeza da minha presença ali, a mesma certeza que tinha quando saímos do café, agora aguardando o sinal abrir. — Preciso me acostumar a isso, não? — Falou pra mim, um pouco mais alto, já que agora estava mais distante. Concordei com a cabeça e ela seguiu andando, sem pressa em direção ao final da praia.

Na verdade eu estava enganado. Não era tensão ou tristeza. Era saudade. Respirei fundo. Atravessei a rua quando o sinal abriu. Agora chovia mais forte, como antes. Um ônibus freou em cima da faixa de pedestres e o barulho me distraiu mais do que o susto. Estanquei como quem perde o rumo por um momento. Olhei na direção que Júlia seguia e acompanhei, ao longe, um guarda-chuva rosa que já não olhava pra trás e se confundia com outros, todos mais escuros. Sorri e apressei o passo para não perder o sinal.
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1.

Com catapora em casa, Pedrinho não sabia mais o que fazer. Já tinha visto todos os filmes da locadora, a mãe tinha passado lá dois dias atrás e pediu pelo amor de deus que lhe fizessem um pacote especial criança em casa, para que ela tivesse algum sossego enquanto o menino se ocupava. Pedro já viu tudo, cinéfilo desde sempre, com seus longos 11 anos de experiência de vida. Em plena semana de aulas, não conseguia estudar de agonia e como era contagioso, ficava em casa fazendo tudo repetido. Falava com João pelo telefone.
— Velho, não aguento maaais, já zerei Super Mario, já brinquei de Tangram, até as revistas da turma da Monica li 3 vezes cada uma. Vi todos os lançamentos da locadora, mandei minha mãe ir lá de novo pra pegar alguma coisa velha e chata.
— Rapaz, para de reclamar, que cê tá em casa na vida boa e eu tenho que ir pras aulas e ainda copiar tudo pra você. Só reclama.
— Ah tá, porque não é você que tá todo se coçando sem poder se coçar, tudo arde, uma agonia danada. Cê nunca teve isso não?
— Catapora?
— Sim.
— Não, só tive sarampo, nem vem com esse negócio.
— Oxe, mas você deveria vir logo pegar isso, diz que tem que ficar doente, criança mesmo, pra criar defesa, aquele negócio, como é que chama…
— Anticorpos.
— Lá vai ele com a medicina de ouvir falar, mas é isso mesmo, anticorpos! Vou falar pra minha mãe ligar pra sua e mandar ce vir me visitar.
— Oxe e eu lá quero doença? Que praga de amigo ruim é você?
— Oxe, sou o melhor que você já viu, estou, na verdade, salvando sua vida, meio de volta para o futuro.
— Ah tá, tá sim, salvando minha vida me deixando doente. Aonde, vou aí é nunca.
— Oxente, velho, venha ajudar seu amigo aqui, deixe de ser ruim.
— Vou nada.
Mais uma tarde e a conversa se repetia: Pedro entediado até o último cascão que teimava em tirar com a unha, tentando convencer João a passar lá, pelo menos pra dar um oi, saber da vida, do futebol. João, que não contava nada em casa, vai que a mãe tem mesmo a ideia de levá-lo para se contaminar de graça, ia pra escola e sempre voltava com mais papeis, as apostilas dele e de Pedro que, em algum momento, entregaria. Na tarde seguinte, a mãe desconfiou:
— João, que tanto papel é esse que você vive carregando agora?
— Nada não mãe, dever só.
— Mas esse tanto? Desde quando a escola exige isso tudo em uma semana?
A mãe, que sempre acompanhava as tarefas do filho, logo viu as apostilas duplicadas com o nome de Pedro em cima, anotado de caneta. Era a letra da professora de português.
— E por que tem o nome de Pedro aqui? Ele não tá indo?
Cabisbaixo e já com medo, quase num sussurro, o pequeno responde:
— Está em casa, com catapora, tenho que levar pra ele os deveres.
— Catapora, é?
Em desespero, João percebeu o olhar intrigado da mãe, como se lembrasse da própria infância naqueles milésimos de segundos, a catapora coletiva, os primos e a irmã em casa, no mesmo quarto, uma quarentena até engraçada, não fosse tanta coceira. Na certeza de que o filho só tivera sarampo, sentenciou:
— Vamos passar lá mais tarde para visitar o pobre. Vou ligar para Júlia.


2.

Antecipando o martírio, João inventou toda e qualquer desculpa para não ir. Dor de barriga, de cabeça, até fez exercícios escondido pra simular um suor de febre, mas nada aconteceu. Enfermeira, Marta conhecia todas as artimanhas das crianças para fingir doença. A ideia, no caso, era justamente essa: levar o filho pra uma contaminação e passar logo pela fase — essas doenças são sempre piores na fase adulta.
Às 15h, o carro para na porta de Pedro. Campainha, muito feliz, Júlia abre a porta e recebe a dupla: uma mãe entre a preocupação e a adrenalina e uma criança com cara de quem estava indo para a forca. As duas eram cúmplices no crime: para Júlia era um alento tê-los ali, João distrairia Pedro nos próximos dias, poderiam ficar os dois no mesmo quarto, se divertindo e, com sorte estudando, enquanto ela tentava terminar o doutorado. Para Marta, o mesmo, além de se livrar temporariamente do filho, se livraria também dessa fase de doenças da infância, já passara pelos terríveis e intermináveis piolhos, o sofrimento do sarampo e a catapora era até mais controlável. Acordo firmado em silêncio, vamos ver o garoto.
— Gente, vamos fazer uma surpresa pra Pedro, que ele não sabe que vocês viriam.
Júlia abre a porta devagar e encontra o filho abrindo a embalagem do pega varetas. Era o brinquedo que faltava, ele nunca tinha jogado e a mãe pensou no tempo que levava para se jogar sozinho e na concentração necessária: vale o teste.
— João?
Quase chorando e grudado na porta, Pedro murmura:
— Oi, Pedro.
— Eta! Mudou de ideia, foi? — ainda tentando se livrar do saco plástico que envolvia as varetas agora fora do tubo.
— Não exatamente…
— Oi Pedro! Tá melhor, meu bem? Trouxe uns lanchinhos pra vocês e João trouxe as apostilas das aulas, de repente vocês conseguem adiantar alguma coisa, né?
Meio sem graça, porque a última coisa que ele queria era fazer dever, concordou num aceno enquanto soltava as varetas em cima da cama.
— Entra, meu filho, que nem parece ser nada sério, olhe como João já está se recuperando!
— Pois é, mulher, até trouxe pra ele um pega varetas, para passar o tempo nessa reta final aí.
— Então ótimo, hoje vocês ganham folga dos deveres e ficam brincando.
Em polos opostos de emoção, a excitação em ter do companheiro de volta e a presença ameaçadora do outro, as mães os deixaram ali, cobaias e vítimas das tradições da infância brasileira. Passaram a tarde juntos.



3.

Dois dias depois, dito e certo: João sucumbira à catapora. Conforme combinado, passara umas tardes na casa de Pedro que ainda se recuperava e juntos criaram campeonatos de todos os jogos. Entre tosses e coceiras, se distraíam e as duas semanas iam passando em menor sofrimento.
Agora acontecia o Campeonato Internacional de Pega Varetas, com o Brasil x China — porque era o fabricante do brinquedo — Pedro e João, respectivamente, se preparavam para o novo embate. Será que a suposta democracia tupiniquim venceria o regime comunista? Há muito em jogo e eles seguiam criando rivalidades e brincadeiras entre os dois países de um habitante.
O jogo sempre corria em silêncio e agora que estavam melhorando, João ainda fraco e Pedro já indo pra aula no dia seguinte, era quase a final do campeonato. A concentração era tanta, que nem a coceira era permitida, criando uma tensão dupla, do desafio físico das intempéries do corpo e o do oponente, secando cada movimento e fiscalizando milimetricamente qualquer derrapagem.
— Já disse que não pode deixar mexer a outra. É UMA de cada vez, João!
— Eu sei que é, e não to mexendo, pode ver, mas às vezes é maldade, porque eu ainda to me coçando e você tá aí todo bom. E tudo culpa sua!
— Minha nada, sua mãe te trouxe porque quis, reclame com ela!
— Reclamo sim, mas é sua também, quero saber não. Vou jogar.
Tudo era motivo pra aumentarem as vozes e de vez em quando Marta subia para ver como estavam e se precisavam de algo.
— João, tá tudo bem? Tá se sentindo melhor? Qualquer coisa, fique com vergonha não, me chame, viu.
— Para mãe, sai daqui que é a semi-final! Tchau, fecha a porta, beijo.
Rindo, Marta fechava a porta, não sem antes trocar um olhar de concordância com a visita-mártir. Na hora seguinte ela subiria de novo para levar os lanches.


4.

Pedrinho finalmente volta às aulas e é recebido com carinho por uns e medo por outros, mas os professores informam a todos que ele já está curado. Agora é dele a função de levar as apostilas para João que, mais uma vez, estará em sua casa à tarde para a grande final de todos os tempos do primeiro Campeonato Internacional de Pega Varetas. Pedro mal consegue se concentrar, o que quer mesmo é aproveitar este restinho de ‘férias’, de ter o amigo todo o tempo do lado, brincando e falando besteira.
João já está quase bom, mas vão esperar até o fim da semana por garantia, já não tem coceiras e se sente melhor. Ansioso mais do que nunca, está disposto a vencer Pedro no Campeonato e deixar o Comunismo tomar conta do planeta.
Nem bem escuta a campainha tocar, Pedro já está na porta de casa:
— Bora, sobe logo! Vamos começar o maior desafio de todos os tempos.
— Oi João, está melhor? — Júlia assoma à porta enquanto acena para Marta que segue para o carro.
— Oi tia, estou sim, minha mãe disse que semana que vem já vou para aula.
— Ah que ótimo! Também, amanhã já é sexta, não faz sentido ir um diazinho só agora, não é?
— Booora, Joããão… tchau mãe!
Pedro agoniado, puxa o amigo pelo braço enquanto se despede da mãe, que sorri e volta para o escritório.
Sentados um de frente pro outro no chão do quarto, os dois de pernas abertas formam um círculo que se fecha com os pés. Ali é o espaço do campeonato e os dois seguem à caráter: Pedro com a camisa da seleção tetracampeã e João com uma camisa vermelha que achou em casa e colou um adesivo com estrelas douradas. No par ou ímpar, João começa.
Concentrados e sem dar um pio, os dois vão colecionando as varetas, com as punições devidas — devoluções de acordo com os pontos — quando mexem outras varetas que não aquela que deverá sair. O jogo fica acirrado e agora João segue um pouco à frente de Pedro, tabelinha nas mãos e é o momento da virada. Pedro derrapa e precisa devolver 10 pontos. Pelas contas, João não precisa jogar mais e é o vencedor.
— De jeito nenhum, eu perdi o ponto sim, mas você precisa continuar jogando, porque também pode perder ponto se errar.
— Oxe, mas eu não preciso não, porque de qualquer jeito, já tenho ponto suficiente. Se você pegar todas as varetas agora, eu ainda ganho.
— Mas não interessa, o negócio é que você ainda corre risco.
— Não corro nada.
— Jogue!
Os meninos agora estavam exaltados, até que João, na gritaria, esbarra com o pé no campo do jogo e desarruma as varetas. Pedro, na fúria de achar que foi proposital enquanto João já gritava China Vencedora, os Vermelhos Virão!, parte pra cima dele com uma vareta vermelha, se desequilibra e fura a mão de João, que no susto, dá um grito. Júlia sobe correndo e abre a porta, Pedro tá sério quase chorando e João da mesma forma, com um círculo vermelho vivo no meio do punho, umas gotinhas de sangue.
— O que aconteceu aqui?
— Pedro me furou com a vareta, tia!
— Foi sem querer, mãe, ele não queria mais jogar!
— Eu ganhei o jogo, tia e ele não aceitou e me furou!
— Foi sem querer, Pedro, eu caí em cima de você!
— Chega, gente! Calma! Pedro, pega o merthiolate, algodão e band aid, na cômoda do meu quarto, por favor. João, calma, não tem nada demais aqui, foi superficial, como um arranhãozinho. A catapora bem deve ter sido pior do que isso. — Julia tentava acalmar os ânimos, entre um filho cheio de remorso e o colega sofrendo do susto, mais do que da dor.
— Precisa de merthiolate não tia, que arde.
— Ô meu bem, precisa sim, já já sara e nem vai doer, vou soprar pra você.
Júlia faz o curativo em João que quase não sofre. Quando termina, Pedro está sentado na ponta da cama, olhos fixos no chão.
— Meu amor, você sabe que isso é só um jogo e que faz parte da brincadeira perder.
— Mas mãe, ele não queria mais…
— Mas eu já tinha ganhado!
— Calma, meninos, que eu estou falando. Não importa quem ganhou ou perdeu, no fim, olhem o que aconteceu. Os dois estão aí, melhores amigos, emburrados. Já tá na hora de levar João pra casa mesmo, meu bem, pegue suas coisas, vai se arrumando. Pedro, arrume o quarto e esse jogo, por favor. E leve o pega varetas lá para baixo quando estiverem prontos. Estarei esperando.
Os meninos se preparam calados, Pedro coloca as varetas de volta no tubo, João fecha a mochila com as apostilas novas da aula. Os dois descem as escadas da sala lado a lado.
— Prontos? Vamos pro carro, Pedro, me dá o jogo.
— Mas mãe, por quê? Deixa eu deixar ele aqui, pra quê você quer ele?
— Pedro, o jogo. Pronto, vai ficar comigo por enquanto.
Pedro entrega o jogo, como se deixasse o coração com a mãe. Havia sido o melhor brinquedo de todos os tempos, dava pra brincar sozinho, em dupla, com outras pessoas, até o pai tinha brincado com ele depois do trabalho junto com a mãe, que explicara as regras.
Entram no carro, os dois no banco de trás.


5.

Porta da casa de João, Júlia toca a campainha. Marta abre, os dois meninos seguem calados.
— Oi Júlia, tudo bem? Já estão de volta? Que caras são essas?
— Oi Marta, tudo certo — diz entrando — uma briga aí Brasil e China se desentenderam, parece que o Brasil está mal acostumado depois do tetra e acha que pode ganhar todas na base do grito.
As mães sorriem.
— Fica um pouquinho, que estou passando um café.
Marta vai à cozinha, Júlia segue para a sala com os meninos.
— Mãe, me dá o pega varetas.
— Pedro, fique calmo, meu bem, sente aí com seu amigo.
João segue calado, a mãe volta com o café, chocolate quente e bolo para todos.
— Mas Marta, para que isso tudo, mulher?
— Júlia, cê me ajudou tanto esses dias, que nem imagina. Cuidando de João, aguentando essa jogatina aí, adiantei aquelas coisas todas, organizei os plantões, agora pode deixar eles comigo para todo o sempre, quase. — diz rindo.
Aproveitando que os meninos se distraíam com o lanche, as mães conversavam animadamente e, após uns instantes, pareciam concordar com o olhar sobre algo.
— Agora que estamos todos aqui, vamos terminar essa questão do pega varetas. Vocês são melhores amigos e não podem se matar por conta de um jogo. Meu filho, você precisa entender que nem tudo na vida é competição e que vale mais a partida do que a medalha. Assim, aproveitando que João ainda está se recuperando…
Pedro tomava ar de horror, imaginando o pior. João, que ainda se distraía com o bolo, ao ouvir seu nome, começou a prestar atenção e esboçava um sorriso de vitória. Os dois sentados no chão, João se esticava enquanto Pedro se encolhia com a ideia de um futuro tenebroso.
— …vamos fazer o seguinte: vou dividir as varetas em duas partes iguais…
— Mas mãe! Não tem como ser em partes iguais, só tem uma preta! — Pedro se manifestava.
— Pedro, por favor. Em duas partes iguais sim, com preta ou sem preta, não importa. E deixarei uma parte pra cada…
— Mas assim ninguém joga direito, mãe.
Com um olhar, Pedro entendeu que a mãe ainda estava falando e se calou. A outra dupla observava, ela séria, para dar o peso das coisas e ele tenso, segurando o sorriso.
— E cada um ficará com um pouco. Assim, vocês entendem que não precisa guerra, que diplomacia é encontrar a concordância para o que é melhor aos dois países.
— Só assim teremos desenvolvimento justo, mantendo as diferenças. — Completou Marta.
— Vou separar as varetas agora, misturá-las aqui e, sem ver, alguém ficará com a preta. Isso não significa vantagem, porque terão apenas metade dos pontos, da mesma forma. Ninguém ganha, ninguém perde.
Pedro e João se olharam e cada um torceu como pôde. Para eles, a preta era a vitória da batalha, mas não da guerra.
— Assim — Júlia continuava agora sentada de lado no sofá, enquanto separava as varetas em montinhos aleatórios e prendia com elásticos — vocês praticam durante a semana no intervalo dos deveres e se encontram no fim de semana, se quiserem.
Júlia entregou os montes e os dois se olharam a ver de quem era a vantagem. Não era suficiente encontrar a preta, era preciso ter as varetas de maior pontuação, conta complicada para se fazer no calor do momento. Guardando as varetas de um lado, selaram o acordo de não-violência em um aperto de mãos, muito sérios.
— Até sábado. — disse um.
— Até sábado. — disse o outro.
As mães já estavam de pé, sorrindo. Se despediram, cada um com seu monte. Nas contas, a diferença era pouca ou nada entre as varetas coloridas e quem tinha o bastião da diferença. O outro teria que se virar para fazer um coringa — artifício de criatividade em meio ao caos. Depois de amanhã, o campeonato recomeçaria, selando o pacto de jogarem quando estivessem juntos, como um ímã que se completa com seu oposto. Ao fim de cada partida, um voltaria para casa e deixaria o outro, duas metades, esperando ansiosos, o próximo fim de semana. O campeonato agora anual garantia um prêmio: a guarda da vareta preta — com a perda de uma vermelha, a mais valiosa.

***
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‘Hi… may I sit here?’

I said yes and removed my bag from the chair in front of me. I usually carry a book and a notebook wherever I go, always with a bag like a professor, although I don’t think I would have the patience for teaching.

She had a cappuccino with more cinnamon on the top than I would normally put if it was mine. Her movements were smooth, calm. Her face however had an expression that I couldn’t define. Maybe apprehension or sadness but mixed with the tranquility of those that possess no more anguish or despair.

I stayed as I was, seated, waiting for her to arrange herself. Now I couldn’t observe the place anymore; it would seem weird to do that while someone sited opposite to me. I decided to write something, or at least pretend to, since the notebook was already open. It resulted in loose words, still without connection.

She was carrying many items: a book which title I couldn’t see with a marker in the middle, a thin wine colored scarf around her neck, a big brown leather purse and her cell phone. I do not know how she managed to balance all her stuff, and she did it a little clumsily, but it seemed to be a frequent confusion. She wore dark pants, white shirt and an open gray jacket, square rim eyeglasses, her hair as messy as the whole picture. She looked about thirty and passed the impression that she was always late for some appointment, even on a Saturday morning.

‘Julia, nice to meet you. What’s your name again?’ She took off the jacket, put it over the chair’s back, hanged her purse there as well and kept the scarf on her neck. She took a deep breath, almost like a long sigh, when she was finally organized.
‘Pedro. Nice to meet you too.’

The way this stranger moved was a contrast to my immobility, quiet, wasting time with other people’s lives, observing them at the coffee shop. Suddenly I felt old. Those elderly men playing chess and checkers at the neighborhood’s squares, and bored old ladies taking a morning sun bath on their wheelchairs led by caretakers came to my mind. These thoughts made me uncomfortable — more those about the ladies than the ones regarding the men, always excitedly shouting at each other while playing board games or heavily concentrated with the strategies of chess. I knew I was exaggerating, of course, as I was ten years older than Julia, at most. I straightened up my posture as someone younger and felt sorry for myself.

The coffee shop is not my office. I come here in the weekends; when the job at the real office, 40 plain hours per week, sets me free. The place is small, cozy as every shop in the area. It was established more than 20 years ago and has a few employees, mostly with several years working here. I don´t know all of them, but sometimes I engage in those small conversations with a few, in order to pass time. I come for the coffee, espresso or double, depending if I had a heavy week or just want to release the stress. Today is a day for an espresso, even though I have nothing to do later.

‘Can we talk a little?’ She asked a bit shyly, looking at first to the large cup of coffee in front of her, foam milk tainted with brown still intact, then directly into my eyes, making me blush and look away.
A friend told me once that in Chile, when a man invites a woman to dance, he has to stare at her directly in the eye waiting for her to do the same. Then he will look away, the beginning of a seductive game. ‘There, men can’t hold their look toward women’, she said, they are a little insecure and timid.

‘It would be my pleasure, but…’ And as I was going to ask if there was a particular subject in her mind, I was interrupted again.
‘I know you are always around, having coffee and observing people’s lives, what they are doing… I do that too from time to time, but today I have a story to tell… That is why you come here, right? To listen and witness stories?’

Her tone was imperative, direct. She communicated with her eyes, assertive and soft at the same time, giving me no choice but to accept whatever she was telling me, although I was being led voluntarily.
Her accent was nuanced, but noticeable. It did not remit to the stereotypical thick intonation of the northeast, but the strokes on her speech pattern were very different than mine, carioca — born and raised.

‘Usually I see rather than hear; and when I do talk to people, is with the ones that work here.’ I pointed to the counter with a few seats. ‘And it is always about the same issues, politics, news, daily routine.’
‘Can I offer you a different routine? Like a bonus… one of those extras that came on boxes of dvd films.’
‘Sure, I would be very pleased, if you feel like sharing.’ I smiled, but also realized that it could be a bad idea, a torture if she was not a good storyteller. Nonetheless, I was intrigued, had nothing going on in my own life those days. Plus, I had time.

‘Today is my last day in Rio.’ She started with this bomb, while she put her book — which title’s I was never able to see — in her purse, kept the cell phone on the table, the screen facing down as if she needed to be connected even if didn’t want to be disturbed. ‘Tomorrow morning I fly to Iceland. I am moving there.’

I knew almost nothing about Iceland only that it was one of the best places to live in the world; they have amazing universities and education was tuition free. I knew that it is a peaceful country, opposite of what we have here in Brazil. Nevertheless I was surprised. I was expecting something standard like Barcelona, Paris, London, Berlin.

‘There is a house, a Ph. D, a peaceful life in Iceland waiting for me.’ Julia said more like she was justifying it to herself, almost if I was not there — as if she did that often, in front of a mirror.
‘There is the gender issue. Iceland is the less sexist place on earth.’ I regretted for that sentence as soon as it came out of my mouth. I felt ridiculous, quoting a statistic that probably she already knew. ‘Sorry, continue.’

‘I know; this is one of the reasons why I am going. I want to see how it is to live in a place like that. But I didn’t come to talk to you about Iceland. You can write it down if you want to.’ She said when she saw me scribbling the country’s name on my notebook.

‘There is no need, I just thought about your interesting choice of place to live.’ I said, closing the notebook leaving the pen inside it marking the page.
Julia laid back in the chair starting to feel at home. She moved the spoon around the cinnamon, dissolving it in the milk, letting it get cold enough not to burn her lips.

‘It took a while for me to enjoy living here.’ She said slowly. ‘This city is not for amateurs.’
Now she had me. I was used to hear declarations of love, poems, people screaming about how beautiful the city was, land of party, beer, sun and carnival. It felt refreshing and intelligent to hear something different in this already unusual cold and rainy weekend. She knew I was born here. I knew she was not.

‘Do you always drink cappuccinos?’
‘Actually no, I always have black coffee, but today I felt like having a cappuccino… I love the taste of cinnamon in the coffee and milk blend.’

‘I prefer black coffee as well and they have a very good one here. But tell me, why did you choose to live in Rio de Janeiro?’ I raised my hand to call Marcela, the waitress, for another espresso and a bottle of sparkling water. ‘I will ask for another coffee, do you want something?’

‘Cookies, if they have them, thanks. Rio de Janeiro was a suggestion; a teacher at the university told me they had a good master’s programme here, so I came. I had never been in the city before; I came for good with one bag of shoes, another for clothes, a backpack with some books. Now, as I am packing to leave the city, I noticed that I have a few shoes and a huge bookshelf. It was a hard and painful separation, I have to tell you.’ She laughed. ‘I gave a lot of books to my friends and had to send a few boxes to my parents’ house in Salvador. You know, you can’t get rid of all your books. They become your family; they are part of who you are!’ And laughed again. I knew it, of course.
I asked Marcela for cookies, coffee and water. She left and Julia stood in silence, while waiting for the waitress to come back. It did not take long, Marcela brought all at once; maybe she wanted to know what we were talking about — it was the first time she saw someone sitting with me. She smiled at me in complicity and I could see in her eyes the curiosity shining. I smiled back at her as if I was saying, go to work. Marcela left and kept her eyes on us. She seemed happy with the presence of that girl near me.

Weeks later I would find out more about that day. Marcela would call me on the corner of the counter and would say that she met Julia before and thought that the girl was also more alone than someone should be. More alone that someone should be — was the phrase that I kept in mind; the same way a psychoanalyst does when closes the session abruptly. I was glad to see in Marcela a fine observer with the sagacity and celerity of a young spirit — she was in fact younger than me — but with my new perspective on her thoughts, I discovered someone who was also able to appreciate calm and peace, so one can see the other in silence and detail.

Julia told me she was walking around, to what she called special places in town, but she knew it was not possible to go to all of them. She was like me, addicted to coffee, living nearby and a frequent costumer of the coffee shop, a place like any other of its kind. Although this one had a charisma, she would say. She was living in Rio for eight years and she had not expected to stay here more than two. Julia did not see the city as a place to spend the whole life, start a family. No, she liked, she admitted, but something inside her always said that it was not here, that Rio was not her city.

Now, neither was Salvador. She always pictured herself living there, two or three kids, two dogs in a house, never an apartment, but she never knew when it was going to happen. Salvador was as a nice city with great people, but the place had a problem that she could not comprehend: it stopped growing. There was never a good job opportunity, especially in her working field. But that future could wait another couple of years. Her family, her parents and her sister would be hers anywhere in the world and they would be together forever. Salvador could wait.

Julia was aware of the contrast she was facing; living transitorily in one place and the idea of starting a family in another. During all of those years she called both Salvador and Rio ‘home’ without fully agreeing to any of them. She had this need to say it to believe in it, even if she knew deep inside her that neither was right. Today she would say ‘her parents’ home’ about Salvador and ‘Rio’ as if she did not live here anymore..

‘As soon as I came here to live, I had this idea that Rio was just like São Paulo, but with the sea.’ She blushed and started to laugh.
I laughed with her, because it was certain that at that time she did not know what she was talking about.

‘I nearly regretted coming to the city when I realized that here seemed more like Salvador than São Paulo, and by that I mean the worse aspect of my hometown. The informalities, the forced intimacy with someone you barely knew, the routine of little corruptions, twisted shortcuts to get what you want. It is no shock to realize how aggressive the traffic is. At the same time, I never wanted to go to São Paulo, the second choice for anyone who left northeast looking for better jobs, to travel, to grow. I never took that possibility seriously; I don’t think I could live in a city without the ocean. When you don’t have it, seems to me that everything is in the middle; there is no horizon, just endless buildings. At least in Iceland I won’t have that problem. And yes, I know I can’t swim there. You can’t have it all, right?’ She smiled and kept talking:

‘After the first impressions about Rio, you start to adapt to that reality. I met good, interesting people and forgot to tell them my comparison with São Paulo. I knew about their stupid rivalry. I never understood why people don’t get along. For me it is built under vanity and nothing else.’ She smiled again and I could see her feeling more comfortable with me; she was messing with her hair, deciding for a ponytail, leaving it on one side or making a bun. Julia learned all about her subject, she knew the city by heart. ‘It is just like Brazil and Argentina, same fuss for nothing. And I had an Argentinean boyfriend who lived here and is still a friend. I am digressing.’

I let her talk, was an interesting story with a unique voice about my city and I only interfered for an observation, a small comment or question, to get some lost detail. I was lucky; after all, she was a great storyteller. Julia had lived good and bad romances, internationals, locals, long distance. All options of a free spirit, never married. She had fewer boyfriends than she wanted, never knew why, but had no regrets.

That young woman lived the city intensely. She kissed the statue of the poet Carlos Drummond de Andrade more than once, her neighbor near the beach. She talked to him through her apartment window and felt sorry for the statue alone in the bench in cold wet days. She took a minivan in Lapa, downtown, late at night, screaming the name of every bus stop to get more people in until she got at home. She went up the hill to Santa Teresa, walking at night and did a few more things you do not do at those hours. She had alcoholic amnesia during a New Year’s Eve in Copacabana Beach; ran from the police in a political riot near the City Hall. Julia was a frequent guest at São Salvador Square, more for its name than the place itself. She danced black music in a street when it was only safe — Switzerland levels of security — because Rio was hosting the World Cup. She crossed a gun shooting on a bus; got robbed once by two teenagers with knives years ago and again with a gun pointed to her head, by two men in a motorcycle this year. Julia also hated the city — many times.

‘But I don’t know… there is something in this city, something different. You know, it’s not like Salvador, where I was born and raised. For Salvador I have this inexplicable love that runs in my veins; it is in the flesh, just like our dendê seed oil and pepper as we are used to say there. I came to Rio almost a woman, a young one though. I couldn’t see myself as a complete adult the same way I didn’t fall in love with city right away… I wasn’t that naïve. But in the end, I grew up and was happy here. And I will miss it.’

I agreed with her, I imagined Salvador had its problems, but it was her homeland and this is something you cannot take it away from the person or compare with any other place.
I glanced at the coffee shop and noticed for the first time that we had been there for a while. The rain was thinner, people were coming inside without umbrellas and others had left. Even Marcela was distracted by some small activity and had lost interest on us. She knew I was coming back later, maybe tomorrow or next weekend and she could wait to ask me about Julia with her out of the blue questions, fast and indiscrete, without time to prepare a reasonable answer. Marcela was used to cut long silences as if she had a sharpe knife, slicing unfinished subjects, like someone who is always in a rush to know every little thing and cannot stand boredom.

‘Do you know what hurted me the most here? When I really realized how much I loved the city? I got a job across town, at Barra da Tijuca and I had two options to get there; through the tunnel below Rocinha or bypassing Vidigal hill through Niemeyer Avenue. I always preferred the second one; there is nothing to see near Rocinha, it is just a huge favela with an avenue below its tunnel. On the other route you have all the sea view through the bus windows and, even if it takes a few more minutes to get there, it was worth it. When you are going down the hill, there is an open curve and looking to the sea you see a the cliff sustaining the street, an inclination that projects itself to the ocean, so the waves collide there, moving up and down slowly as if they are licking the wall. It is kind of sensual…’

I felt like she was telling me a secret, confessing something without thinking properly, leaving any censorship she went ahead. ‘I’ve never told anyone about this… sensual… I don’t know if you had noticed this place before, for me it is the most beautiful spot in the town. If you have to pass there in a stormy day with a violent sea, take a look. I’ve always wanted to stop there to contemplate. I didn’t and now they built that horrible cycling track. They cut my view, I almost cried.’

I knew where it was. A couple months ago in a stormy day that very horrible bikeway — which I thought was a great idea for the city — did not resist the huge waves, crashed and fell down to the sea, killing the ones who where passing on it.

‘Yes, it is the place of the accident.’ She read me instantly. ‘I try not to remember it.’
She was not a person of great gestures but she spoke with her hands. She also had a low voice and seemed to be disturbed by noises. Sometimes the coffee machine, the door opening or even the drag of chairs and tables distracted her; she did not complain about it, but lost track of her thoughts for a few seconds and then went back on her words. Julia finished the cappuccino, probably cold at that time.

‘I have to go soon. I am going to take a walk by the promenade across the street, now that stopped raining. It is on my list.’

She picked up the cell phone and looked at it for the first time since we started to talk. That interruption bothered me a little, I was jealous having to divide her attention. I wish we had more time, as I already was immerse in her words. I hoped I could live a little more of this girl’s story through her voice, someone who was going to live by herself in one of the coldest places on earth. She barely experienced real cold, coming from a tropical city, living in Rio, almost the same weather. Even with all its qualities, for all the reasons, Iceland would still be challenging.
‘If you want to walk with me, we can talk a little longer.’

‘If it is not inconvenient for you, I would like to.’ I looked around, searching for Marcela who was passing by, with all the used plates and cups in her hands. I waited until she was at the counter and waved for the check. She smiled at me with a serene look in her eyes as if had received good news recently.

‘I asked Marcela for the check, since you don’t have time.’
‘Thank you. I came here to tell you about my impressions of Rio and now I can’t say a word… not a very good storyteller as you can see… maybe it is easier if I tell you something else, like… why I decided to leave.’ She seemed lost as if she did not know how to proceed with the story. It gave me a relief. I have never wanted to be a biography writer.

‘We can talk about anything, it’s up to you. And you are a good storyteller.’ She was not listening to me and resumed talking while we were paying the check. I tried to pay it all and she did not let me.
‘Once, I travelled to Buenos Aires with a friend. Everything was cheap, we were the rich country of South America; it was during their economic crisis and before ours. So, there we were in this decoration store, a world of beautiful objects signed by some designer I didn’t know. I left the place with a lamp that had roses made of red cetin and a notebook letter. It was a series of envelopes with paper to write letters for yourself and the title of was just like that: letters for your future self, in English; was an American product. I though how interesting that was and bought it. When I came home, I was anxious and wrote my first letter to myself, without knowing if I could wait two years to open it, as I was supposed to do. Somehow I waited.’

We left the coffee shop. Outside was windy but without rain. However, the sky had these apocalyptical heavy dark gray clouds as if in the following minute they were going to melt and pour down on us. She did not care or pretend she did not see it. Julia did not have time for doubts and kept walking towards the traffic lights with the certainty that I was behind her. I was, even if the rain about to come advised me to go back.

She continued, telling me that back then she was upset with Rio, that she could not relate with people, her relationships were always superficial and empty as those tv commercials faking lives with the complexity of a cartoon. The city was all about television, we knew, and that ruined the real image of people. Real image of people… the people, themselves. Maybe we were haunted by this idea, having the media all the time, spreading irrelevant news about irrelevant people.

Julia told me the words she wrote years ago. She remembered most of them, as if she was reading the letter, words of an idealist strong person with more certainties than her current self. She wrote that she wanted to leave soon, to a quieter place where real life was more important than what people created about it, where the daily news were more important than the banal stories about nothing, news would be as fundamental as the black coffee you would take every early morning. She could not stand the summer even if she loved intensely the spring and in the end, she expected that in two years, if nothing had changed, she was going to leave the town for good.

‘And then… I decided to try. I laughed a lot when I started to read the letter because I was so angry and remembered I had my heart broken for a guy, hating my job, the city, everything. In the letter I refused to sit down and do nothing. Time has passed and that was exactly what happened. Even now I’m not satisfied with my life. I wasn’t sad anymore or didn’t have the weight I carried two years before, but I wasn’t lighter either. I even talked to my therapist about it. I decided to try. I didn’t want to be a victim of the violence in Rio and become a statistic, a number with no purpose; I didn’t want to know the names and lives of celebrities. I didn’t want to work where I did anymore and everything became clear for me. Without knowing, I was saving money. I found a good excuse; a Ph. D in a field I’ve always wanted to study. I applied last year and tomorrow: Iceland. All because of the letter.’

While she was talking I could see the light, the happiness in her eyes. Julia did not have all figured out, she did not prepare herself enough for it and that was why she kept repeating that Iceland was a great place to live. So what if it was a very cold place? She could buy clothes, coffee, vodka and even try whisky and tea, drinks she did not like — alongside milk and açaí, those were impossible to drink. So what if the food was bizarre and creepy? Where there is coffee, there is bread and pie, cheese, fruits. She could try everything but horse, whale and dolphin. So what if Iceland was far away from Brazil? The problem was coming and going, she hated airplanes but she knew they were just for a moment and even there, she was going to sleep magically as she always did when she got into airplanes. Julia was, once and again going to beat the fear with laziness and sweet dreams.

I do not know if those were all her thoughts and words or mine, questions I could not ask her. She made her mind and plans. I realized that, even without much planning and calculation in advance, she was just like me; always weighing pros and cons until it was time to take action and she did act. It was there, in that final word, in that verb that we were so fundamentally different. And because of that same verb she had found a new admirer.

‘There is a time when you have to stop wondering if it is going to work out, if it is the right choice and just do it.’ Julia said and again she was seeing through me. ‘If I believed in horoscope, I mean, really believe in it, I should dive in and live by emotions, like my zodiac sign, letting the water take me as I already did once or twice, in relationships. But it never work like that, right? We have to be rational, just a little, in the minimum level. Otherwise, we stand still and drown ourselves in fear.’

That was about it. Julia smiled at me in a way she did not smile before or I was looking at her in a different way. She smiled as someone who was sure about her actions, who knew that that was the right thing to do and this is a cliché. She smiled as someone who found her destiny and had a new adventure to live. You only live once and now I am suffering for adding this other much known sentence. Writing is hard. And, if all the clichés were not enough, it started to rain. We were at the promenade, walking and looking at the beach; the wind started to come accompanied by raindrops. It was a thin cold rain, the kind that gets you wet slowly and then you are cold without having notice. I knew she had to leave; we could not stay in the rain when everybody was opening their umbrellas and going to warmer places. We stopped.

‘Good luck, it is going to be an amazing journey.’ I said when I knew didn’t have to and then reached out my hand.

‘I know it will. I am going to miss this.’ And then she hugged me. It came out as this awkward moments, when one was not expecting and is caught by surprise, one hand stays in the way when they should reach the person’s back and ends up finding their stomach. It was funny but we did not laugh. She broke the embrace and straightened the scarf, closed the jacket and went away, walking in the promenade towards the end of the beach. I did not expect that, but that she would cross the street like everybody else. She stopped again and opened her purse. She had a pink umbrella. I was still standing, looking at her. Julia stared at me and smiled, it was the last time she knew I was still there, the same certainty she had before, when we left the coffee shop.

Now I was waiting for the traffic lights, my hair already wet; starting to feel cold.
‘I have to get used to it, haven’t I?’ She talked to me louder than before as she was a little far away. I nodded and she started to walk again, with all the time in her hands.

I know now I was wrong all the time. She was not sad or tense. She was already missing the city. I took a deep breath and began to cross the street when the lights turned green. It was raining stronger than before, when we met at the coffee shop. A bus stopped abruptly almost over the crosswalk and the noise distracted more than scared me. Suddenly, I lost my way and looked at the direction where Julia was going. I could see afar, a pink umbrella among others, all darker than hers. I smiled and started to walk again.

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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