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Café: extra-forte

Olá! Conforme prometido, segue a parte 2 da programação especial de Carnaval do Café!! Tem documentários, seriados de comédia, ficção e drama. Não dá pra reclamar, porque tem, de verdade, para todos os gostos. E se você perdeu a parte 1, olha ela nesse link. Sexta-feira, passo aqui de novo, com as últimas cinco pérolas para terminar bem o feriadão!

Chasing Ice (2012, de Jeff Orlowski) – 75 minutos
Imagens surpreendentes das maiores geleiras do mundo. E elas estão derretendo. Após descobrir estas formas como sua paixão, o fotógrafo James Balog fez uma pesquisa de campo para registrar literalmente, o aquecimento global a partir do degelo dos glaciares. Groenlândia, Islândia, Alasca e Montana são seus pontos de observação e acompanharemos sua pesquisa, suas fotos incríveis em lugares belíssimos, impressionantes e qualquer adjetivo desses de Ansel Adams e a comprovação que afasta qualquer dúvida sobre o impacto do progresso na natureza e, posteriormente, suas consequências em nossas vidas. Como uma viciada em imagens de natureza, especialmente daquelas brutalmente diferentes do nosso cotidiano urbano, vou assistir novamente. Levou grandes prêmios em festivais importantes, um Emmy e foi indicado ao Oscar. O filme é parte do projeto que você encontra nesse site.

Teoria de Tudo (2014, de James Marsh) – 123 minutos
Todos conhecem Stephen Hawking, aquele cientista, físico, que vive em uma cadeira de rodas e se comunica através de um computador. Hawking é um dos nomes mais importantes da ciência hoje, é um dos que a tornou acessível à população, no estudo de nada menos que o Universo. Neste filme dirigido por James Marsh, Eddie Redmayne é Stephen, e sua mulher Jane, Felicity Jones. Saberemos o início de sua carreira, o relacionamento do casal, a construção da família e, em paralelo, a descoberta de sua doença e de como suas enormes limitações não o impediram de seguir em frente e desafiar, ele mesmo, sua própria ciência. Emocionante, vale os 24 prêmios e 119 indicações que recebeu.

Melhor é impossível (1997, de James L. Brooks) – 139 minutos
Quem deixou esse filme passar na tv aberta, não tem mais desculpa para perde-lo na Netflix. Jack Nicholson é Melvin, um homem cheio de manias e preconceitos que, por acasos da vida, se envolve com pessoas completamente diferentes dele: a garçonete e mãe solteira, Carol (Helen Hunt), que trabalha no restaurante que frequenta e o vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear), que lhe pede ajuda. Poderia ser um filme besta com uma grande lição de moral, mas é muito mais do que isso, porque o faz de forma inteligente, emocionante e muito engraçada. Hunt e Kinnear estão brilhantes e Jack Nicholson dispensa comentários. Não perca! E super vale a pena ver de novo. Do mesmo diretor de Espanglês (2004), Nos bastidores da notícia (1987) e Laços de Ternura (1983).

City 40 (2016, de Samira Goetschel) – 73 minutos
Surpreendente. City 40 fala de mais um dos resquícios da União Soviética. Depois de ler Svetlana Aleksiévitch, a autora Nobel que escreveu um livro sobre Chernobyl (Vozes de Chernobyl), outro sobre a participação da mulher na Segunda Guerra (A guerra não tem rosto de mulher) e o último publicado no país sobre o final do regime soviético (O fim do homem soviético), acabei me viciando no assunto. Esse documentário amplia os temas da Rússia e seus regimes, com tudo o que a escritora relata: os segredos de Estado, os prejuízos e perigos à população e de como a paranoia é instalada com uma política bélica e coercitiva que existe até hoje. Aqui vemos um projeto de cidades secretas russas criadas no início da Guerra Fria para a produção de plutônio, matéria-prima para armas nucleares. Impressionante ouvir os relatos obtidos, entender a história por trás daquilo, as estratégias do governo, as consequências para a população. A trama é tão fantástica e mórbida, que parece ficção. E ainda ficamos sabendo de outras tantas cidades secretas espalhadas pelo mundo. Dá um pouco de medo. Para saber mais sobre Svetlana e seus livros sensacionais, passa aqui.

Love (2016-, de Judd Apatow, Lesley Arfin, Paul Rust) – 50 min / episódio
Para relaxar, uma série mais tranquila. Não torça o nariz para Love ainda. É rápida, fácil de assistir e talvez não pegue todo mundo, mas você vai acabar vendo toda, porque não dá tempo de mudar de filme ou desligar a tv. Essa é a história de Mickey (Gillian Jacobs), uma mulher está longe de ser um padrão de comportamento e muito menos bela, recatada e do lar. Ela conhece Gus (Paul Rust), um homem meio nerd, também fora do padrão 'americano perfeito' ou do 'amigo gente boa' das comédias românticas. É só um cara com seus problemas, paranoias e nervosismos, como quase qualquer outra pessoa. Claro que eles viram amigos e se envolvem, mas não será fofinho e nem água com açúcar. Confesso que vi toda a série de uma só vez – os episódios parecem curtos – e não foi o impacto de um House of Cards, mas ficou passeando pela minha cabeça. Semana que vem estreia a segunda temporada. House of Cards já foi dica do Café nesta semana aqui, junto a outros imperdíveis!
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Chegou a semana de Carnaval e nem todo mundo está radiante com isso. Mentira, todo mundo está – mesmo não gostando da festa, há tempo de sobra para aproveitar e colocar a vida em dia, descansar, ver algum filme que preste, fazer nada, ficar de preguiça em casa lendo, de perna pro ar. Para isso, resolvi seu primeiro problema: aqui começa a lista das Maravilhosidades da Netflix – Semana de Carnaval! São três etapas, então pegue seu caderninho (ou ipad, ou tablet, ou celular, o que você quiser, enfim) e tome nota! Em dois dias, mando mais 5 dicas incríveis!
 
Chef’s Table (2015-, de David Gelb) – 50 minutos/episódio – 3ª temporada
Em sua terceira temporada, Chef’s Table é uma grande opção para começar o Carnaval em casa. Eu sei, parece estranho, mas quem não gosta da festa e não tem como viajar, precisa de uma programação deliciosa. Já no primeiro episódio vemos uma chef monge que saiu de casa porque não queria filhos e queria encontrar sua liberdade – na Coreia do Sul, isso também significa não se casar. Ela cozinha onde vive, para as outras monjas e é convidada pelo mundo inteiro para oficinas sobre sua forma de cozinhar, cultivar seus vegetais na maravilhosa e ultra orgânica horta que tem e viver. É uma lição de vida, filosofia, natureza. E é só o primeiro episódio. A série inteira é magnífica.

13ª Emenda (2016, de Ava DuVernay) – 100 minutos
Candidato ao Oscar de melhor documentário esse ano e produzido pela Netflix, 13ª Emenda é uma aula de história social, um filme provocador  e até seria polêmico, se não tratasse apenas da realidade da disparidade racial norte-americana. A 13ª Emenda da Constituição tenta abolir a escravidão com uma grande vírgula que faz toda a diferença no discurso e promove um tipo de racismo grave, criminoso e mórbido. O filme extrapola o assunto para o dia a dia de forma dinâmica e direta, quase sem deixar espaço para respirarmos, trazendo desde a criminalização do negro e sua punição, aos assassinatos de negros nas ruas – fato cotidiano. Fundamental e urgente, vale assistir em casa, chamar os amigos, levar para as universidades e escolas, discutir no trabalho. Todas as opções. Da mesma diretora de Selma (2014), Ava DuVernay. Crítica no Café!

A Casa dos Espíritos (1993, de Billie August) – 140 minutos
Lançado nos anos 90, provavelmente o assisti no final da década, ainda adolescente. O filme, baseado no romance homônimo de Isabel Allende, é um drama familiar, que conta a história da família de Clara (Meryl Streep) e Esteban (Jeremy Irons), ela uma mulher extremamente sensível e um pouco médium, ele um homem duro, fazendeiro, patriarca e machista, no interior do Chile. Eles têm Blanca (Winona Rider), a primogênita que se apaixona por Pedro (Antonio Banderas), que trabalha para Esteban, mas é socialista. Não vale contar mais, mas é um filme que, mesmo tendo passado muitas vezes na tv aberta, vale cada segundo, por toda a construção do drama, a saga familiar ainda é pincelada com toques da literatura fantástica. Do mesmo diretor de Trem noturno para Lisboa (2013), levou 12 prêmios e vale rever. O livro é sensacional.

Jumanji (1995, de Joe Johnston) – 144 minutos
Uma aventura para toda a família! Parece chamada da programação da tv aberta, mas é a mais pura verdade. Esse filme da sessão da tarde conquistou nossos corações desde muito cedo e conta com o incrível Robin Williams como o Alan Parrish, o homem que encontrou, quando garoto, um jogo de tabuleiro chamado Jumanji. Ele está preso na floresta por 25 anos e agora, Judy (Kirsten Dunst) e  Peter (Bradley Pierce) descobrem o mesmo jogo e todos se encontrarão neste mundo meio mágico, meio real. É um grade filme para ver com crianças, mas se você for adulto, não se iniba, é super divertido e leve. Pense que é do mesmo diretor de Querida, encolhi as crianças (1989) e que tem, de novo, Robin Williams (é sempre bom lembrar).

Journey to Greenland (2016, de Sébastien Betbeder) – 108 minutos
Dois amigos parisienses, atores frustrados de trinta e poucos anos e que atendem pelo mesmo nome – Thomas – aceitam o convite do pai de um deles para visita-lo na Groenlândia. Juntos, descobrirão a cultura inuit, uma forma de vida muito mais simples do que aquela da capital francesa e aprenderão a lidar com as diferenças. É aquele filme descrito como ‘despretensioso’ e que gera boas risadas e emoção. A relação com o pai Nathan é posta à prova e seguimos encantados com o oposto de nossas vidas. Vale pela diferença, por vermos uma forma de viver – há muitos não atores e cenários realistas e reais todo o tempo, que quase poderia ser um documentário – tão oposta à nossa, de pensarmos em nossa realidade e se queremos isso para nós, e de ver um filme em um lugar novo, bastante incomum de se apresentar em qualquer tela. Talvez isso até seja bom. Vale muito a pena, vai ver!
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A história da questão racial nos Estados Unidos não é novidade para nós, como também é possível encontrar semelhanças com a nossa própria história. Essa constatação é baseada em dois fatores: o estudo na escola da História Geral – que privilegia os acontecimentos deste hemisfério e quase anula o outro – ou talvez ainda mais grave, nominando a história do mundo como aquela das Américas e Europa, com participações episódicas e inevitáveis da África e quase nada da Ásia e Oceania. O segundo fator é ainda mais óbvio: a invasão da cultura de massa estadunidense em todas as suas esferas. Cinema, tv, notícias, música, dança (todas as artes), mercado, mentalidade, ideologias e padrões de vida e comportamento chegam a nós com a mesma ou maior voltagem que a nossa própria produção cultural e intelectual.  Assim, absorvemos quase osmoticamente – há quem o faça assim mesmo, sem pensar – uma forma de ser que não nos é natural, mas assim se torna.

A parte boa é que a cultura ianque se tornou tão familiar que a podemos utilizar para cruzar dados com o que vivemos. 13ª Emenda, documentário produzido e lançado pela Netflix ano passado, dirigido por Ava DuVernay serve como uma luva para pensarmos, a partir de sua narrativa que tenta resolver a equação do mercado/sistema carcerário norte-americano associando coerentemente à histórica perseguição aos negros (e posteriormente, imigrantes) ao momento que vivemos no Brasil, do nosso próprio sistema penal como um todo – da investigação do crime à aplicação da pena em reclusão – e de suas consequências oriundas da superlotação de presídios, anulação de direitos civis de quem ali habita e sucateamento de suas infraestruturas, visando, por dedução, uma possível privatização das unidades, em sua maioria administradas pelo Estado.


A trágica coincidência se estende à própria educação e aqui se faz um parêntese a ser elaborado mais tarde – o sucateamento praticado há décadas no ensino público visaria sua falência – frente à falácia das campanhas eleitoreiras que lhe prometem prioridade – não acarretaria na privatização da educação de base, segregando ainda mais a nação desde a sua fundação (a parcela jovem da população) e assim, marginalizando quem não tem renda que lhe permita o ingresso? Essa mesma evasão escolar destinaria os jovens a duas saídas; o ingresso precoce ao mercado de trabalho, eliminando a infância e juventude ou a possibilidade de entrada para a criminalização. Retornemos aos Estados Unidos.

A Constituição dos Estados Unidos foi ratificada em Junho de 1788. A 13ª Emenda foi adotada quase um século depois, a partir de Dezembro de 1865, quando Abraham Lincoln era presidente. Seu texto segue assim:


“Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado. O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias".

Com essa premissa o filme inicia sua jornada quase didática e elucidativa, explicando a relação entre o fim da escravidão, a política de deturpação da imagem do negro livre na sociedade americana, em uma sequência de governos racistas hereditários da era Jim Crow (conjunto de leis dos estados do sul estadunidense que segregava negros e brancos. Entre 1876 e 1965) – Nixon, Reagan, Clinton, Bush – e de como sua própria marginalização criou um sistema cruel de encarceramento em massa e desproporcional para negros (e posteriormente imigrantes, ou todos os não brancos).
Hoje, é um problema que armazena 2.000.000 de pessoas em cárcere por crimes brandos e hediondos, com e sem julgamento. Esse sistema criou a superlotação dos presídios, uma indústria patrocinada pela ALEC, um conselho de políticos e corporações que formulam leis e as entregam ao Congresso para aprovação, de acordo com seus interesses econômicos. Uma destas empresas é a Wal-Mart, que vende armamentos e outra era a CCA, uma corporação de administração de presídios. Anos depois, a CCA sai de cena e o que parecia ser uma reforma visando o esvaziamento dos presídios vira uma nova moeda; as corporações passam a utilizar o trabalho do preso – mão de obra barata, para não dizer gratuita – para desenvolver sua indústria de bens de consumo. Vale reler o trecho destacado na 13ª emenda mais acima.

A solução também veio da ALEC, a partir da proposta de vigilância comunitária, escamoteada como proposta de aplicação de fiança e condicional a criminosos leves. Suas novas corporações associadas são de tecnologia de segurança e rastreamento geográfico (GPS).  A conta está feita.
DuVernay, que também dirigiu Selma (2014, sobre a marcha de Martin Luther King, em Selma, Alabama pela a equidade racial de votos em 1965), retoma a cruel questão da cor, uma vez mais posta em xeque no perigoso governo Trump, recém eleito presidente dos Estados Unidos. Daqui, pouco sabemos posto que é recente, mas há previsões possíveis, por sua campanha eleitoral xenófoba que atiça nazistas à paisana. O filme de DuVernay é fundamental para entendermos um pouco do que acontece no dia a dia da população negra americana. O que assistimos nos noticiários, o que é importado para nós é uma parcela ínfima do que acontece todos os dias – dos pequenos preconceitos que ‘apenas’ ofendem, a estatísticas aterradoras em que 1 a cada 3 negros pode ser preso em algum momento de sua vida. Para os brancos, a proporção é 1 para 17.
O filme, além de ser uma aula sobre a questão negra americana, o faz de forma magistral, com ritmo e direção precisos que não nos deixam piscar. Imagens de arquivo em contraponto com músicas ditam a cronologia e nos guiam para os debates com seus entrevistados, as relações entre as manifestações da segregação de 70 anos atrás para as das semanas anteriores refletem não apenas um regresso a tempos que pareciam mais sombrios, como a tecnologia hoje possibilita a ampliação do alcance de seus assuntos e da mobilização nacional e internacional. É um filme para ser visto em casa, em família, em sala de aula, onde for possível, para que se aprenda, reflita e discuta sobre nossos vizinhos. Ainda há muito que dizer e pensar, não só no que acontece lá, como em nosso próprio cotidiano. Não há grandes diferenças.
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Dois amigos de infância se reencontram depois de muitos anos. Adultos, o que foi para São Paulo e o que ficou em Cataguases vivem as diferenças e consequências de suas escolhas de vida. Quem tem a melhor vida ou quem fez a melhor escolha é o que tentaremos descobrir neste longa-metragem dirigido por José Luiz Villamarim.

Irandhir Santos é Luzimar, um operário da fábrica de tecidos de Cataguases, uma pequena cidade mineira cortada por um rio, uma ponte e um trilho de trem. É casado com Toninha (Dira Paes) e segue a caminho de casa para a noite de Natal. É também irmão de Hélia (Cyria Coentro) e amigo de Gildo (Júlio Andrade), que mora em São Paulo. Ao passar em frente à antiga casa do amigo, se depara com Dona Marta (Cassia Kis Magro) e o carro de Gildo, indicando que ele estava de volta. É sobre esse encontro de uma tarde e uma noite que trata o filme.


Roteiro de George Moura, que trabalhou com o diretor em diversos seriados da TV Globo, é uma adaptação do conto de Luiz Ruffato, Amigos, do livro Inferno Provisório. O livro trata de Cataguases e seu entorno, da vida na cidade pequena, de pessoas como quaisquer outras, mas com uma profundidade que o autor destaca e aprofunda em uma narrativa que cruza o regional com o universal. A adaptação do conto ganha fragmentos de outras histórias do livro, a dar corpo e ação aos menores personagens. Aqui, estas histórias dos que cruzam a vida de Gildo e Luzimar ganham peso e força, intensificando a ideia de redemoinho presente também na obra do escritor, como se aqueles que orbitam os protagonistas fossem também responsáveis pela complexidade da trama.

Luzimar e Gildo são bastante diferentes. Quando menores, deviam ser garotos de uma infância comum, estudavam e jogavam futebol, ajudavam em casa. Por um acidente na infância que deixou traumas em seu grupo na época, se separaram; Gildo e seu irmão Gilmar seguiram para São Paulo, o outro continuou por ali. Luzimar parece ter uma vida tranquila e sem grandes novidades até encontrar Gildo mas, o encontro com o carro do amigo antes mesmo de vê-lo lhe causa um incômodo, uma angústia que vai se remoendo à medida que a história se desenvolve. Gildo, por outro lado, chega como aquele que se foi, seguro e vaidoso, que se acha especial por ter enfrentado a cidade grande e ter aquele tipo de sucesso. A construção destes e de todos os personagens é a riqueza do filme, que se equilibra entre silêncios e diálogos com o mesmo peso e tensão, se apropriando dos ruídos da cidade, na composição de uma trilha sonora sem música.


A montagem deixa uma reflexão; em algum momento a instalação do redemoinho se alonga, não gerando tédio, mas reforçando a repetição e o agravamento da tensão quase por tempo demais. A ideia do redemoinho se firma, um movimento circular que segue se fechando, cada vez com mais intensidade em direção ao centro, cada vez mais fechado e profundo. Para sair dali, há que imprimir uma força maior que siga pela tangente ou que rompa de alguma forma esse raio que tende a se encurtar. Toninha reforça esta ideia, aguardando com ansiedade o marido nos preparativos da casa, da ceia e dela mesma, para o Natal. Sua expectativa, a busca por Luzimar, não gera impaciência, mas uma resignação insatisfeita que reflete em nós. As mulheres do filme – Toninha, Dona Marta e até Dona Bibica (Camila Amado) – estão sempre a esperar, mais uma vez resignadas, por alguma coisa. Nenhuma delas é feliz, todas vivem sob uma frustração persistente e submissa, cada uma por uma razão.

Enquanto o nó do filme se desata sobre nós, assistimos a cidade nos invadir, a fotografia de Walter Carvalho reforça a impressão desde a primeira cena na fábrica, às imagens de chuva, a noite, o trilho do trem, as casas à beira dele. A câmera se concentra, ao mesmo tempo, no minimalismo da ação, é um filme que trata de passado, todos os personagens transparecem o que já foram, guardam suas histórias cujas camadas vão se descascando sobre nossos olhares em planos próximos, buscando os olhares deles. A proximidade da câmera nos rostos dos atores não chega a seus poros, mas parece buscar seus silêncios, reafirmando uma naturalidade nas performances que só os grandes sustentam.


Primeiro filme de um diretor experiente em audiovisual, com uma equipe forte técnica e artisticamente, Redemoinho reforça o bom cinema nacional, imprime um retrato de Brasil, daquele clichê de Brasil profundo, que capitais e cidades litorâneas costumam esquecer, em uma narrativa densa, sofisticada e complexa que prende através de olhares, esperas e silêncios. Tudo o que se diz, da preparação para o clímax quase não requer diálogos, tamanha a força das interpretações – particularmente de Irandhir Santos, Julio Andrade e Cassia Kis. Ao mesmo tempo, não há nada supérfluo, as falas são carregadas de sentido e colaboram para o abismo que os protagonistas tentam escapar e se agarram em qualquer coisa para não caírem. Seguimos junto com eles em suas lembranças e histórias pela metade, recortadas de presente e expectativa em direção ao inevitável e verdadeiro, sem piscar e, ao mesmo tempo, sem querer chegar ao fundo. Deixando seus espectadores com a agonia de ver o filme chegar nos seus finalmentes, sentindo a mesma danação e participando dos destinos de seus personagens, Villamarim se tornou, na estreia, um dos grandes nomes do nosso cinema. 
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Em junho de 1963, Valentina Tereshkova foi a primeira mulher lançada ao espaço, com a missão de rodar nosso planeta 48 vezes. Ela era soviética. Em plena Guerra Fria, quando as duas maiores potencias globais – União Soviética e Estados Unidos – brigavam por um (primeiro) lugar ao sol, a primeira tomou fôlego e abriu uma prerrogativa jamais conquistada por sua oponente. Nunca uma mulher americana foi ao espaço – mas, pelo menos, estiveram nos bastidores e foram fundamentais para qualquer homem americano ir.

O filme se passa no início da década de 60, neste mesmo momento de Valentina, quando três matemáticas negras trabalham na NASA, a agência espacial americana. Para elas terem seus direitos plenos enquanto mulheres demorou provavelmente uma vida, mas conseguiram – ao menos naqueles escritórios – vencer um pouco a barreira da melanina. A algum custo, claro.


Hidden Figures, cuja tradução literal seria perto de ‘números/figuras escondidos(as)’, faz todo o sentido, é mais sofisticado e menos piegas do que nossa criativa versão brasileira e conta a história de Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três matemáticas que trabalham nos escritórios menores da NASA como ‘computadoras’. São elas e mais uma grande equipe de mulheres negras, que realizam os cálculos e auxiliam as equipes mais especializadas da engenharia espacial. Mas, elas podem muito mais, suas inteligências e capacidades são surpreendentes. Assim, ultrapassando as barreiras sociais a fórceps galgam, cada uma, seu espaço.

As três grandes atrizes – considerando que Monáe ainda é brilhante como cantora e este é seu primeiro grande filme – dominam qualquer cena, poderiam todas ser protagonistas das histórias, cuja carga dramática se centra em Katherine, que trabalha diretamente com Al Harrison (Kevin Costner) na maior missão, que é levar o primeiro homem para fora do planeta. Além de Kevin, encontraremos Kirsten Dunst como Vivian, a colega de Dorothy em igual ou menor demandas, cujos privilégios são superiores por ser branca, e Jim Parsons (Sheldon Cooper, de The Big Bang Theory), fazendo uma espécie de rival ainda nerd e irritante de Katherine, ao se sentir ameaçado pela eficiência da heroína. 


Há um paralelo constante entre suas vidas no trabalho e como ele se reflete em casa com suas famílias, nos relacionamentos e na batalha por uma educação de qualidade, sempre relegada aos brancos e, mais precisamente no campo da engenharia, homens. É um filme americano, hollywoodiano e como tal, dá pesos e medidas sem atingir as sensibilidades e políticas da grande indústria. Sua estrutura dramática é leve, fluida e mexe nas questões raciais, de gênero e sociais muito bem, trazendo comédia a situações que hoje nos pareceriam surreais – se ainda não acontecessem de fato. Agora em tempos de Trump, boa parte das intolerâncias podem bater à porta com mais frequência e gravidade novamente.

As indicações a prêmios são devidas, dificilmente levará a estatueta de melhor filme no Oscar, mas o fazer político da Academy Awards resolveu dar voz aos negros e os creditou devidamente em justas indicações que não devem ser medidas pelos contrastes, melhor seria dizer brilhos, de suas peles à luz. O que melhora a história é o fato de ser baseada em fatos reais. É uma adaptação do livro de Margot Lee Shetterly, (uma mulher incrível com um projeto de resgatar as identidades das mulheres computadoras), feita juntamente com o diretor, Theodori Melfi e Allison Schroeder, nomes agora em ascensão pela indicação de melhor roteiro adaptado. Octavia Spencer também concorre, como atriz coadjuvante.


As premiações (um detalhe, cujas seleções servem mais à indústria e ao público que acredita em rótulos sem saber da política por trás) valem para lhe dar o destaque de termos uma narrativa sobre três mulheres negras, escrita por uma mulher negra, todas protagonistas, profissionais e ótimas. Fica a curiosidade de conhecer as mulheres da história real e ver o quão brilhantes e cheias de outras histórias devem ser. Elas ainda não foram ao espaço, nenhuma mulher americana foi. Talvez, com a "nova" política, não irá tão cedo, mas nos bastidores, não há desenvolvimento científico sem elas. Emocionante, inteligente e relevante, o filme é uma delícia.

*Estreia na primeira semana de fevereiro.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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