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Café: extra-forte

Aproveitando a nova febre provocada por Stranger Things que já toma conta de quem assiste a Netflix, segue uma seleção especialíssima com filmes que são referência para a série e outros tão imperdíveis quanto, lançados na nossa amada década de 80. Foi uma década um tanto brega e sincera, onde a adolescência e infância ainda eram de brincar na rua e não havia tantos equipamentos eletrônicos – além dos videogames – para nos deixar trancados em nossas casas, nos impedindo de ralar os joelhos, andar de bicicleta e fazer aquelas amizades de vida inteira. Os anos 80 trouxeram muita música boa, um cinema americano forte e criativo que ainda trazia essa ousadia em conteúdos que nossa política de boa vizinhança atual impede e toda a minha infância em programações moralmente condenáveis na televisão brasileira. Não poderia ser melhor. Para homenagear este momento, eis algumas Maravilhosidades dos anos 80!

Stranger Things (2016, de The Duffer Brothers) – 50min – 8 episódios
Lançado esse mês na Netflix, Stranger Things é o novo sucesso avassalador da programadora-produtora de conteúdo não linear. Ambientada nos anos 80, com referências da cultura da época – cinema, música, televisão, moda, estilo de vida – a série de ficção científica, aventura e suspense garante entretenimento em seus oito episódios, surpreendendo com bons atores, sob a apresentação de três já consagrados: Winona Ryder, Matthew Modine e David Harbour. Will Byers (Noah Schnapp) desaparece ao voltar pra casa à noite após terminar uma partida de RPG em uma pequena e pacata cidade americana, onde todo mundo se conhece. O xerife Jim Hopper (Harbour) entra no circuito a fim de ajudar a mãe (Ryder) que se recusa a acreditar no ocorrido, enquanto os amigos de Will fazem sua própria investigação. Situações estranhas tomam conta da cidade e seus habitantes, desencavando antigos mistérios da região. Tenso e intenso até o final, nos deixa já querendo a próxima temporada e sofrendo ao perceber que só a teremos ano que vem. Dá pra ver tudo em um dia só.

Conta Comigo (1986, de Rob Reiner) – 89 min
Já indicado aqui em outra sessão, segue novamente para quem perdeu, aproveitando este grupo de amigos que têm muito em comum com os de Stranger: Rob Reiner dirigindo este nos anos 80, com River Phoenix, Kiefer Sutherland (lembra aquela série 24 Horas?) ainda crianças, e baseado em um livro de Stephen King, é uma história sobre infância e amizade, onde um grupo de amigos se envolve em uma aventura bastante perigosa. Filme com carimbo de sessão da tarde da minha infância, deve ter passado mais de 100 vezes na televisão, mas ainda acredito que nem todo mundo viu. Tem uma cena traumatizante, que me fez ter medo de água de rio durante muito tempo, mas deixo em aberto para não estragar a surpresa. Se ainda precisa de referências, Rob Reiner fez Harry e Sally (1989), que indiquei na primeira edição das Maravilhosidades e A história de nós dois (1999), além de ser ator, produtor e roteirista. Vale cada minuto.

Tubarão (1975, de Steven Spielberg) – 124 min
Um pôster na parede do quarto de Will e é tudo o que você precisa para lembrar Tubarão. Também já indicado anteriormente – clássicos são para rever – aqui funciona como uma lembrança de anos antes na vida dos garotos da série, já que este é de 75. Spielberg nos traz um suspense aterrador sobre um tubarão que ameaça uma praia e a única solução que o homem encontra para ter paz e poder mergulhar novamente é matá-lo. Mas o tubarão não é bobo nem nada, então dá bastante trabalho e literalmente toca o terror onde aparece. A sinopse é simples assim mesmo, mas o filme é maravilhoso. É um dos marcos do cinema de terror, um dos marcos na carreira do diretor que todo mundo conhece. Tem seus momentos trash, mas de forma geral é até um filme sério, considerando seu gênero. Levou três Oscars, é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e em todo mundo, e carrega um elenco de peso: Roy Schieder, Robert Shaw e Richard Dreyfuss.

ET – o extraterrestre (1982, de Steven Spielberg) – 115 min
Clássico da infância e adolescência e outro filme de Spielberg, ET marcou gerações inteiras nas milhares de vezes em que foi exibido em cinemas e canais de televisão. É o filme que traz Drew Barrymore e Henry Thomas novinhos, é o filme de contato da infância com o universo da ficção científica de forma dramática, divertida e não assustadora. É, acima de tudo, um filme que fala sobre família e amizade. Ainda que não seja dos meus favoritos, é inegável sua importância para o cinema. É, por fim, mais uma referência para a série e é lembrado em vários momentos.

Curtindo a vida adoidado (1986, de John Hughes) – 103 min
Saindo da infância e entrando na adolescência, chega outra maravilhosidade única em nossas vidas: Curtindo a vida adoidado. Pode ser que alguém tenha perdido quando foi lançado e, se aconteceu mesmo, está aí uma ótima oportunidade de ver um filme nostálgico e divertido. Matthew Broderick é Ferris Bueller, um garoto que decidiu faltar um dia de aula porque sim, porque estava a fim. E essa a aventura que acompanhamos junto com sua namorada (Mia Sara) e seu melhor amigo (Alan Ruck) pelas ruas de Nova York, enquanto sua irmã (Jennifer Grey), que nunca consegue se dar bem tenta, a todo custo, estragar os planos do nosso herói. Tem romance, intriga, comédia e aventura – para todos os gostos. Um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e reprisado ad eternum na sessão da tarde.

Bônus!!
Contatos imediatos de terceiro grau (1977, de Steven Spielberg) – 137 min
Grande referência para a série, outro filme de Spielberg (sim, ele é um dos diretores da década e seus temas acontecem fortemente na série), este tem um adicional incrível, que é a presença de ninguém menos que François Truffaut ao lado de Richard Dreyfuss, um dos maiores diretores do cinema francês, no papel de Claude Lacombe. Com John Williams compondo a trilha sonora (Tubarão, Guerra nas Estrelas) e uma equipe de peso, não preciso dizer mais nada, quando descubro este trailer incrível. Mesmo se já conhecer o filme, vale a pena o trailer.
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Assistir Freelance causa uma dupla emoção em nós: a alegria de ver um filme inteligente, com uma história que dá guinadas inesperadas e a certeza de que conhecemos muito pouco do cinema oriental. Quanto à primeira nenhum problema, mas concluir a segunda provoca grande agonia em quem vive a cinefilia, porque é muito maior do que não conhecer os filmes de Nawapol Thamrongrattanarit e seu país, é perceber que há boas produções sendo feitas e que muito provavelmente não chegam em nosso hemisfério.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) é designer gráfico freelancer. Como consegue trabalhos por demanda, precisa estar sempre disponível e garantindo a entrega do que produz, não importando o prazo. Para quem trabalha na área, é fácil perceber o desespero das agências de publicidade no cumprimento de metas para garantir a receita. Como freelancer, a qualidade de vida e o sono são menosprezados com frequência, mas a conta sempre chega. Yoon começa a ter seus problemas, alergias na pele que se transformam em pequenas feridas que coçam provocando mais irritação e ele segue para o hospital. Lá conhece a doutora Im (Davika Hoorne), uma residente em dermatologia que consegue fazer com que Yoon entenda a necessidade do tratamento como uma forma de sobreviver aos alertas de limite que seu corpo ativou. Na verdade, Yoon aceita o tratamento por ser uma garantia de encontros mensais com Im, por quem se apaixonou.
Dra. Im (Davida Hoorne): a salvação para as alergias de Yoon.
Se o trailer indica uma comédia romântica incomum, o filme sobe outro degrau e atiça nossa curiosidade e interesse com interpretações interessantes e narração subjetiva, pontuada por uma contagem de marcas no corpo do protagonista. Com texto e montagem ágeis, poucos personagens e locações que se repetem, o diretor cria um ciclo, uma rotina que a cada decisão do herói transforma toda a história com diálogos simples. Agora Yoon não pode comer frutos do mar e precisa decidir o que fazer. Agora Yoon precisa dormir, fazer atividade física e tentar equilibrar isso em sua rotina, reduzindo a carga horária de trabalho. Agora Yoon precisa cumprir seus compromissos profissionais e o problema se instaura, já que acostumou o mercado com prazos quase inalcançáveis e postergá-los implica em perder projetos ambiciosos para quem está buscando seu lugar ao sol. Os dilemas do personagem não apresentam soluções simples e nos colocamos em seu lugar, tentando decidir o que faríamos. Essa participação do espectador na obra é o ganho do filme, já que todo mundo um dia vivenciou algum tipo de pressão na vida que envolvia sacrifícios de sua própria saúde em detrimento de alguma coisa ‘urgente’ e ´fundamental´.

Aguardamos seu colapso sem querer acreditar nele, esperando que não aconteça com base na evolução da trama e atitudes do protagonista. Queremos que ele encontre a doutora, uma tímida e inteligente mulher jovem que nos aparece como um enigma, carregando o sorriso de Monalisa em olhares e gestos que pontuam uma dúvida. Mas, este não é um romance, o diretor deixa claro com o desenvolvimento da trama e seu clímax, a cena que não se pode descrever é o que faz este cinema ganhar em ousadia e coragem. Não é nada novo em termos de estética e efeitos, mas seu posicionamento na história, a forma como foi dirigida sim, nos faz pular da cadeira e prender a respiração sem tomar sustos: é uma comédia romântica com fortes pinceladas de humor negro.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) entre pílulas para dormir e deadlines.
Quando pesquisamos sobre o filme no IMDB, quase não há informações e essa é uma marca forte do quão pouco se sabe sobre esse cinema. Há um universo infinito de filmes ocidentais, escolas de cinema, teorias e estéticas mais do que conhecidas, adoradas e estabelecidas, mas há outro universo em expansão, o oriente e suas escolas, seus diretores contemporâneos e sua estética. O fato de não haver muita informação sobre Freelance e quase nada descrito no perfil da equipe técnica é a prova cabal da pouca informação e acesso que o lado de cá do globo percebe. O filme conta uma história que poderia acontecer em qualquer cidade, mas reforça as características locais de forma não turística e estereotipada, nos fazendo pesquisar a filmografia do diretor e aí sim, as conexões desta rede virtual começam a funcionar, nos permitindo um passeio breve – a ponta de um imenso e interessante iceberg – sobre o cinema tailandês.

Os filmes não estão prontos, eles partem para dentro de seus espectadores e ali garantem uma transmissão de informações que se completa com o repertório cultural de quem o assiste. Freelance se relaciona bem neste processo, primeiro fechamos a história linearmente e depois digerimos suas melhores cenas, sequências de imagens que permanecem em um processo de aceitação e apreciação estéticas. Já foi dito que a obra de arte se define quando provoca emoção e não que esta seja a obra prima do diretor, mas se firma como importante, sem dúvida. É um filme que não requer experiências prévias deste cinema, que tem um ritmo rápido que configura a própria temática da falta de tempo, da velocidade de um workaholic e cuja catarse reverte sua própria duração em um plano fixo e longo de reflexão, em um close up agoniante e narrado lentamente, logo após um movimento de choque. Choque e ruptura para a pausa. É como o silêncio e a paz que sucede uma tragédia, ao contrário da alegria de um grande sucesso, que sempre deixa uma ponta de desconfiança.

Je (Violette Wautier) e uma proposta irrecusável para Yoon.
É para rir e se surpreender, para sentir a (in)sensibilidade da publicitária Je (Violette Wautier), melhor amiga e quem consegue os trabalhos para o protaqognista, decifrar e ultrapassar o profissionalismo e a timidez de Im e tentar salvar Yoon, representação da nossa correria profissional e dos conflitos entre vida e carreira. É para nos deixar inquietos na poltrona no cinema e investigar mais o cinema tailandês e oriental de forma geral, para conhecer novos nomes e se desesperar com a graça de perceber um mundo que é similar ao nosso e, ainda assim, extremamente diferente e original. Em breve, nos cinemas.
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Esta semana estreia nos cinemas Janis: little girl blue, a mais nova biografia sobre Janis Joplin, dirigida por Amy Berg. Será a terceira sobre uma cantora mulher, mais um ícone da música internacional em dois anos, se lembrarmos de What Happened, Miss Simone? (2015) e Amy (2015). Há claras semelhanças entre os filmes e é nítida, da mesma forma, sua relevância para a cultura musical, ainda que no trato de seus personagens haja alguns questionamentos.

Para quem acompanhou ou sabe um pouco da vida e obra de Janis Joplin, não há grandes surpresas. Os depoimentos dos familiares e amigos corroboram muito do que se encontra em uma pesquisa na internet e a graça sempre estará nas imagens em que nossa musa do blues aparece cantando, vivendo e falando, por isso a importância de vê-lo nos cinemas. A dosagem entre as falas de Janis e sobre Janis é um exemplo claro do documentário biográfico tradicional, em que se fala do outro, sobre o outro, acima da voz do outro e é irônico pensar que com estas três cantoras aconteceu o mesmo: se falou tanto sobre e acima delas, que pouco restou de suas (imensas) vozes para ouvirmos.
Janis e a Big Brother and the Holding Company
O filme é bom, traça o panorama linear de sua vida em uma cidade pequena, interior do Texas, onde qualquer diferença, por mínima que fosse, qualquer traço de personalidade que diferisse daquele padrão era tido como errado. Era aí que se encaixava a protagonista e quando a ouvimos sobre sua infância e adolescência, os relatos de seus irmãos e amigos sobre o assunto, é estarrecedor perceber tanto bullying por tão pouco e como isso a afetava. As provocações típicas da infância pareciam conter mais veneno do que o habitual, em uma clara tentativa de deslocá-la ainda mais, como uma Carrie pronta para um surto. Ao invés de fogo, virou poesia, música, solidão e amor. A grande surpresa, e por isso o acerto do filme, está nas cartas, lidas por Cat Power em sua voz deliciosa, dando a pausa e a sensibilidade corretas quando Janis tentava uma comunicação com os pais, com a família e seus amores. É pena não termos conhecimento do oposto, do que se recebia em troca, que justificasse a permanência da comunicação, mas através das falas de seus irmãos mais novos, já temos uma noção do comportamento e da relação entre eles.

Janis Joplin foi – e é, levando em conta que continuamos ouvindo sua voz – uma das maiores cantoras de todos os tempos e essa qualidade surgiu ainda muito nova, entrando nos vinte anos, em plena década de 60 quando se muda para São Francisco. Era uma libertação da opressão de sua cidade com seu comportamento machista e castrador – particularmente para a mulher – era o embrião da guerra do Vietnã, era a Guerra Fria, eram os hippies e a questão racial, era a experimentação das drogas, era o auge da cultura musical no país e isso tudo, em sua própria formação enquanto mulher com sua sexualidade também diversa de seus conterrâneos, enquanto criação de uma identidade e reconhecimento no mundo. Isso tudo com uma grande voz e talento natos, uma sensibilidade absurda e uma fome de viver. Essa sempre foi a impressão maior sobre a cantora que, como Amy Winehouse – não há como deixar de incluir Jimmy Hendrix e Jim Morrison – fechou seu ciclo cedo demais, por um acidente de percurso. O filme encerra e nos deixa com um aperto no peito de que tudo poderia ter dado certo, de que ela duraria mais tempo, de que sequer foi suicídio. Saímos com este aperto, como se uma vida de possíveis alegrias e grandes músicas e performances de uma mulher doce, inteligente, sensível e brilhante havia sido interrompida bruscamente.

Howard Alk fez a primeira biografia sobre a cantora em 1974, Janis – the way she was. Neste, ao contrário do filme de Amy Berg, não há qualquer depoimento que não o seu. Todos são tirados de entrevistas e shows e vemos muito de suas performances, as maiores já feitas, os melhores shows, outro deleite. Não há entrevistas fora de contexto e a duração delas é ainda maior, nos fazendo conhecer um pouco mais sobre nossa musa. É interessante perceber a diferença no trato das sequências e imagens, já que os dois filmes utilizam o mesmo arquivo. Em 74, o que vemos é resultado de uma grande influência do cinema direto, aquela forma francesa de filmar com a menor interferência possível (graças aos novos e leves equipamentos) cujos mestres seriam Edgar Morin e Jean Rouch. Nos Estados Unidos os destaques ficam para Rihard Leacock (inglês, mas com várias produções americanas), Robert Drew, Albert Maysles e D.A. Pennebaker. Este último acompanhou os músicos desta geração e fez um documentário sobre o primeiro festival de música em que Janis se apresentou com a Big Brother and the Holding Company em Monterey (1967) e é um dos entrevistados no novo filme, aos 90 anos. Ainda que o documentário anterior indicado ao Globo de Ouro se perca nos últimos minutos em uma apresentação fotográfica – homenagem póstuma recente – o fato de a conseguirmos ouvir em grandes dimensões é um bônus.

Não se pode dar voz aos mortos e com isso, o artifício do outro parece ser a solução para criar uma linha narrativa que preencha as lacunas da edição. Aqui esta intercalação acontece de tempos em tempos e por ver as mesmas sequências nos dois filmes, há que se perguntar sobre o volume do material coletado. Com registros de 50 anos atrás, talvez não houvesse diversidade suficiente, o que não causa prejuízo, já que o uso das conversas com a Kozmic Blues Band e a Big Brother and the Holding Company, cumprem um pouco do prometido. Além deles, outros homens passaram por sua vida e deixaram sua contribuição ao filme, como seu último grande amor – este, de fato, lhe dando o devido crédito. Não vemos muito sobre os relacionamentos de Janis com mulheres, muito sutilmente parece não se dar a importância ou espaço para estes envolvimentos. Outros depoimentos soam ácidos a ouvidos mais sensíveis, não dando a correta dimensão ao relatar possíveis encontros com a cantora, não se sabe por mágoa ou pouco caso. Não fica claro o porquê, além de criar um incômodo em quem assiste com mais atenção.
Janis e a Kozmic Blues Band
Não há como se definir de que forma o entrevistado falará sobre seu objeto, mas objetificação em si seria o problema maior. No fim, ainda que seja uma obra gostosa de ver, há menos música e performance do que o esperado, à exceção da magnífica cena em que a banda discute no estúdio as variações sobre Summertime, vemos suas interpretações e temos uma visão da cantora como uma profissional que entende de seu trabalho, que sabe o que busca e a melhor forma de fazê-lo. É de cenas assim que carece a obra, tanto quanto imagens da cantora com outros artistas, como vemos uma pincelada em Woodstock e em um trem, a caminho de um festival no Canadá, com o Grateful Dead. Uma tentativa tardia e confusa está nos créditos finais, em depoimentos curtos que não aparecem durante o filme – e entende-se o porquê – mas que de alguma forma, funcionam como uma curiosidade, como um extra do dvd.

Enquanto o filme de 74 parece ser uma colagem de registros quase brutos de episódios da vida da cantora, o Little Girl é coeso em sua proposta. Há o equilíbrio narrativo e o filme funciona como os demais, sobre Amy e Nina Simone, resgatando nosso amor por estes ícones, nos fazendo buscar em nossos arquivos o momento em que as conhecemos e partilhamos da experiência transformadora que é ouvi-las, aqui até de forma ainda mais sensível do que nos das outras cantoras. De alguma maneira, há sempre mais para descobrir sobre estas grandes mulheres e suas personalidades complexas, para além das imagens de mídia. Este filme ensaia isso e faz bem, ainda que se comprometa em alguns momentos, manteve um cuidado em não classificá-la como uma garota problema, em não queimar sua imagem como as de uma possível corrosão física por uso de drogas, como apresentadas em Amy e um pouco menos em Nina, mas buscando uma sensibilidade e sua subjetividade nas cartas. É evidente que há de se fazer um comparativo com as biografias de artistas masculinos e entender do que se falava sobre eles, se se pontuam envolvimentos amorosos questões pessoais para além do talento. Em filmes sobre o outro, é fácil escavar o passado, difícil é construir uma dimensão humana, tridimensional e dar uma percepção mais ampla do que realmente importa para o público: sua qualidade, conhecimento e sensibilidade artística. Aqui, saímos com um pouco mais de Janis Joplin, com vontade de retomar seus discos e capturar uma fração dessa imensa sensibilidade e blues que levava dentro de si e que nos rasga e alenta por dentro com sua inigualável voz.


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A sessão de hoje foi, intuitivamente, de grandes personagens. De loucos a heróis, de pobres famintos a narcotraficantes megalomaníacos, tem um pouco de tudo e para todos os gostos.  Fiquem à vontade e aproveitem este inverno da forma certa: nas cobertas, com Café e grandes filmes! 

O Garoto de Liverpool (2009, de Sam Taylor-Johnson) – 98 minutos
Não precisa gostar dos Beatles ou de John Lennon para ver esse filme sobre o início da carreira do cantor, quando ainda era um garoto em Liverpool. É claro que, se gostando ou entendendo um pouco da personalidade e relevância do protagonista para a cultura, vale assistir. O filme traça sua trajetória do início do que viria a ser os Beatles, quando John (Aaron Taylor-Johnson) conhece Paul McCartney (Thomas Brodie Sangster), sua relação com a mãe até quase a vida adulta. Não será o melhor filme ainda sobre o cantor por romantizar demais sua história, mas vale como entretenimento. Com Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff.

Narcos (2015, de Carlo Bernard, Chris Brancato e Doug Miro) – 50min/eps
À espera da segunda temporada da série, dá tempo de aproveitar a primeira inteira, vendo Wagner Moura encarnar ninguém menos que Pablo Escobar. A série é baseada em fatos reais, na vida do maior narcotraficante que a América Latina já viu sob a narração do agente do FBI, Steve Murphy (Boyd Holbrook). Imperdível, garante personagens complexos e ficamos naquele dilema existencial de nos apegarmos a uma figura tão controversa como o ‘herói’ colombiano. Ao mesmo tempo, a ascensão de Pablo é intercalada com acontecimentos na política nacional e internacional, dando destaque ainda em suas megalomanias e estratégias de controle de um sistema corrupto e violento. A série alavancou a carreira internacional de Wagner, dando peso suficiente para seu sotaque ser tanto criticado quanto defendido internacionalmente. Aguardando ansiosamente a nova temporada em setembro.

Beleza Americana (1999, de Sam Mendes) – 122 minutos
Sam Mendes tem uma trajetória cinematográfica de respeito. Estreou na direção com Beleza Americana, seguindo por Estrada para perdição (2002) e vemos mais filmes de peso, em menor escala de produção, como Foi apenas um sonho (2008) e Distantes nós vamos (2009). Em parceria com Kevin Spacey, que continua até hoje, cujo último trabalho foi a turnê de Ricardo III que originou o documentário NOW – In the wingson a world stage (2014), vemos um protagonista em franca transformação e ele é quem transforma o filme de bom para surpreendente. Não seria por menos, dada a dimensão do ator. Em Beleza, há uma ideia de normalidade da vida americana de subúrbio, da classe média alta onde nada demais parece acontecer e todas as sujeiras são varridas sob tapetes. Olhando de perto, como é a proposta do trailer, há muito por trás dessa aparência de cercas brancas e jardins simétricos. Kevin Spacey, Annete Benning, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari são alguns dos nomes deste grande filme, de roteiro brilhante que marcou uma geração. Levou 5 Oscars e outros 103 prêmios.

Louca obsessão (1990, de Rob Reiner) – 107 minutos
Ainda entre os grandes personagens, que parece ser a marca desta seleção, Louca Obsessão merece pelo menos um grande prêmio, para Kathy Bates. Ela é Annie Wilkes, uma aficionada pelos livros do escritor Paul Sheldon (James Caan) que o resgata de um acidente de carro. Salvo pela sorte, acredita ele, mal sabe que por trás daquele carinho e afeição, há uma obsessão doentia que lhe custará mais do que a rápida hospedagem. Do livro de Stephen King e dirigido por Rob Reiner (Harry e Sally, 1989), você ficará tenso até o final. Um dos grandes filmes de suspense e terror sem precisar de alienígenas, casas assombradas ou espíritos possuindo corpos e nos dando (incríveis) pesadelos. Não é spoiler, mas tem uma cena em particular, que lembrou muito o Anticristo (2009), de Lars von Trier.

Os miseráveis (2012, de Tom Hooper) – 158 minutos
Encerrando esta semana corrida de grandes personagens, em Os Miseráveis, Anne Hathaway marca sua curta atuação para sempre na história do cinema, com a interpretação da música I dreamed a dream. Este filme grandioso, musical clássico, no melhor sentido da expressão, nos transporta para um mundo de revolução francesa visto de dentro, com outras grandes atuações de Hugh Jackman, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham-Carter e outras menos brilhantes como a de Sacha Baron Cohen e uma performance estranha de Russell Crowe. Não só de atuações vive esta produção, mas de uma equipe técnica extraordinária, como a de som, captando as músicas cantadas em locação e não dubladas (como acontece em todos os musicais), garantindo com a facilidade tecnológica, uma qualidade superior e não conhecida antes nos filmes do gênero. O diretor também é dos grandes, já tinha nos dado O Discurso do Rei (2010) e depois desse, A Garota Dinamarquesa (2015). É lindo, e você vai se arrepiar.
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Há uma urgência nos filmes de Jia Zhang ke que não se percebe de imediato. É uma reflexão que chega um tempo depois de ver um de seus filmes, como uma latência que se dissolve em ação, em uma curiosidade sobre o próximo e a busca por entender por que a dificuldade e proibição de serem exibidos na China. Em As montanhas se separam, esse sentimento permanece, se reafirmando com uma sutileza que pouco se percebe nos filmes de hoje.

Uma mulher, Shen Tao (Tao Zhao), em três décadas: 1999, 2014 e 2025. Dos vinte e cinco aos cinquenta anos, dividida entre dois amores, em família e sozinha, entre gerações e ciclos pertinentes à vida de qualquer um. Vemos uma China em transição a partir de dentro, de quem a conhece bem e sem firulas, sem os exageros dos filmes de ação, grandiosos efeitos especiais ou uma trama esdrúxula, que surpreenderia mais pelo espetáculo e hipérboles do absurdo do que em seus detalhes do cotidiano. É nisso que reside sua graça e aparentemente em todo o cinema de Jia Zhang ke, ao tratar da vida, da cultura e do viver chineses.


O roteiro, tal como em Em busca da vida (Still Life, 2006), ensaia uma preparação para o espectador e logo nos entrega a ele, nos deixando com nossas interpretações sobre a obra. Ali, há uma saga de um homem e depois de uma mulher – também interpretada por Tao Zhao – e buscamos as conexões possíveis, ainda que não necessariamente lineares ou literais. Se no início deste Montanhas, pensávamos que haveria três protagonistas, ao decorrer da narrativa permanecerá a dúvida, ainda que a criação de outros personagens fortes indique novos rumos. Esta libertação ficcional é própria do diretor que nos toma pela mão, mas nos deixa seguir sozinhos através de sua história.

A divisão narrativa em capítulos é reforçada pelas mudanças em cenário e tecnologias, construindo um pano de fundo, o contexto necessário à passagem do tempo. Mas esta é uma história que transcende suas marcações de era. O que se imagina hoje do futuro – e está espelhado no filme – é mero detalhe se pensarmos nos bons filmes que tratavam do tempo décadas atrás. Tecnologia é figurino, a força desta história está nas pessoas e em suas relações, sempre universais e, se for possível o jogo de palavras, atemporais. Acompanhando a transição dos anos está a montagem, fluida e pausada, dando o tempo de apreensão e entretenimento - fugindo dos cortes de videoclipes - enquanto elimina a monotonia, e a fotografia, com luz natural em boa parte da duração, reforçando seu caráter realista e exibindo um país grandioso em todos os seus aspectos. Há paisagens deslumbrantes de uma natureza marcada pelas estações do ano, há os planos que posicionam o humano com relação ao que o cerca - de grandes prédios e estruturas, construções e minas ao rio Amarelo e a discrepância que outro continente e cultura que impactam em uma tradição de hábitos milenares.


O cinema do diretor ilumina um país continental para muito além da propaganda comunista. É quase a antítese de uma política que omite seus problemas de base e esbanja um ideal de governo que não corresponde a sua realidade. É daí, provavelmente, o embargo e a dificuldade de exibição no país. Mas Jia Zhang ke ultrapassa fronteiras de tal forma que podemos saber mais dele a partir de um documentário dirigido por Walter Salles com concepção dele e de Jean-Michel Frodon. O impacto deste cinema ainda não implica em grandes bilheterias no Brasil, mas já não passa despercebido. 

Há um paradoxo nesta liberdade vigiada de produzir os filmes no país como uma jogada cruel de suas políticas ou talvez uma brecha sempre encontrada pela produção para trabalhar, e quando conseguem ultrapassar suas barreiras, tornam público algo novo e, em oposição à censura, libertador. É uma nação que enfrenta um progresso ao alto custo da fragilização e fragmentação dos relacionamentos, com a imposição do capitalismo como modelador de comportamentos e uma névoa que parece ser de poluição e poeira – ou seria a própria cegueira imposta que tenta se dissolver? – ocupando todos os vazios e remarcando um passado rígido. Talvez a urgência de seus filmes se consolide nisso, nessa impressão que adquirimos – depois de filmes como este – de que já deveríamos tê-lo visto antes, como se nossa ânsia de participar daquela história decorresse de nosso parco conhecimento sobre uma cultura tão rica, distinta e que nos é similar em sua própria humanidade. Estamos atrasados. 

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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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