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Café: extra-forte

A Netflix nem sabe, mas me deu um presente de aniversário, a ser entregue no dia certo, sexta que vem, 04 de março. A quarta temporada de House of Cards é aguardada ansiosamente por mim e não sei quantas mil pessoas, provavelmente. Está nessa listinha, junto com outras pérolas, às vezes escondidas naquelas estantes sem fim.

Faça sol ou faça chuva, seguem os eleitos pré-Oscar!

Best of enemies (2015, Robert Gordon e Morgan Neville) – 87 min
Comecei agressiva. A primeira maravilhosidade é o documentário Best of Enemies, sobre uma série de debates entre William F. Buckley Jr. e Gore Vidal, na ABC, a rede de tv americana, em 1968. A ideia era alavancar a audiência da emissora, na época, a quarta em popularidade. Eram as eleições de Richard Nixon e em uma época onde o interesse político era também intelectual e não apenas de auditório e circo, a emissora contratou os dois intelectuais para discutirem os partidos que apoiavam então, a eterna questão conservadora x liberal.  Só preciso dizer que esta série de dez debates culminou em uma polêmica tal e as consequências marcaram a tv ianque para sempre. Contando assim, parece quase chato, mas o filme é muito bem montado e executado de forma que ficamos comendo as unhas, de tanta tensão. A crítica detalhada está aqui.

House of Cards (2013-, Beau Willimon – criador) – 51 min / episódio
Para acompanhar a temática política, vem essa série lançada pela Netflix, uma das primeiras. A quarta temporada estreia na próxima sexta e só não assistirei toda neste fim de semana, porque preciso comemorar meu aniversário. A série é muito bem construída em torno de Frank Underwood (Kevin Spacey) e sua ambição pelo poder e sua permanência, enquanto presidente dos Estados Unidos. O que ela tem de especial além da inteligência dos diálogos e rapidez com que acontecem é a elaboração de estratégias e jogadas políticas tão absurdas quanto reais. Basta ver o que acontece em nosso país e as analogias são explícitas.  Demorei para assisti-la, achei que mais uma série em Washington seria muito chata, mas Frank e Claire Underwood (Robin Wright) provaram que sustentam personagens doentios e maquiavélicos de uma forma tal que nos apaixonamos por eles. guardadas as dimensões do bom senso, claro. A série levou dois Globos de Ouro, outros 16 prêmios e apenas 124 nomeações.

Antes só do que mal acompanhado (1987, John Hughes) – 93 min
Para trazer leveza, uma comédia de ninguém menos que John Hughes. O diretor só fez Curtindo a vida adoidado (1986), Clube dos Cinco (1985) e Gatinhas e Gatões (1984). Só. Só os melhores filmes de comédia dos anos 80. Saindo da linha adolescente, indo pra comédia familiar, Neal Page (Steve Martin) é um executivo que precisa chegar em casa para o jantar de Ação de Graças, mas tudo parece impedi-lo. Assim, conhece Del Griffith (John Candy), um vendedor falastrão e, por casualidade e necessidade, resolvem viajar juntos de NY para Chicago, em meio a uma tempestade. É desses filmes de aquecer o coração, com tiradas inteligentes e ingênuas. Dá vontade de ver algumas vezes, até para matar a saudade de Candy, um dos melhores atores de comédia que conheci, que morreu cedo demais. Acabei de ver que foi aos 43 anos, em um fatídico 4 de março, quando eu então completava 11. Coincidência doida.

Paris, Texas (1984, Wim Wenders) – 147 min
Semana passada indiquei Buena vista social club, um documentário sobre música cubana e seus artistas, dirigido por Wim Wenders. Agora é uma ficção, um dos filmes mais importantes da carreira do diretor alemão, um dos que o consagrou. Paris, Texas é um drama cujo título faz parecer outra coisa, propositalmente. É lá que encontraremos Travis Henderson (Harry Dean Stanton), que segue em busca do filho e de sua mulher, Jane (Nastassja Kinski) a fim de recuperar sua família. Lindo, terno, intenso, esse filme é daquele tipo que marca. Ry Cooder está de volta, na trilha sonora. Não espere uma narrativa americana rápida e comercial, é preciso dar tempo para alcançar os sentimentos. Não vale assistir com pressa.

Drive (2011, Nicolas Winding Refn) – 100 min
Encerrando esta jornada com outro filme de impacto, Drive vai te fazer conhecer – e para alguns – se apaixonar por Ryan Gosling. Um mecânico de dia e dublê e motorista de carros de filmes à noite se apaixona por sua vizinha Irene (Carey Mulligan), cujo marido está preso. Seu chefe na oficina Shannon (Brian Cranston, o Walter White, de Breaking Bad) se envolve em um negócio arriscado com corridas de carro e lhe pede, em desespero, ajuda. Ao mesmo tempo, após se apaixonar por Irene, descobre que seu marido está livre e é só um início de um turbilhão de acontecimentos e violências que nos deixarão sem piscar. O filme é lindo, na verdade, é sobre a descoberta do amor, dos sacrifícios que estamos dispostos a enfrentar para vivê-lo, além do senso de justiça e proteção a quem precisa.
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Semana passada coloquei um filme com Di Caprio porque ele está concorrendo ao Oscar de melhor ator. Agora segue um filme do diretor de O Regresso, Alejandro González Iñárritu. É um drama sério e duro, mas tem outros no caminho, para dar uma equilibrada. A semana passou muito rápido e me atropelou novamente, andei meio perdida no reino dos livros, então as críticas estão um pouquinho atrasadas, mas compenso esses dias. J

Enquanto isso, segue a previsão do tempo para o fim de semana:

A difícil arte de amar (1986, Mike Nichols) – 108 min

Jack Nicholson, Meryl Streep e Jeff Daniels. Pronto, pode ver. O drama conta a história do relacionamento entre Rachel (Streep) e Mark (Nicholson), de uma forma tão realista, que parece algo nosso ou a vida de alguém que conhecemos. Os anos 80 foram especiais para o cinema, trouxeram desde comédias que ficaram marcadas na infância da minha geração a outros como este, que vi anos depois e encontrei as músicas que minha mãe ouvia tanto, que passaram a fazer parte da minha vida. Mike Nichols é o diretor de Closer (2004) e Uma secretária do Futuro (1988), outros grandes filmes. O roteiro é baseado no romance de Nora Ephron, que também o adapta para o cinema. Essa era incrível, olha o currículo: Harry e Sally (1989), Sintonia de Amor (1993), Mensagem para você (1998), Julie e Julia (2009) e outros na mesma linha. São comédias românticas leves, algumas das minhas favoritas, na verdade. Mas o fato é que este filme é mais sério – menos bobo, alguns diriam – com um elenco incrível. Se você está na casa dos 30, vai ver muitas roupas, músicas, tecnologias de seus pais e familiares. É um ótimo retrato de época e do ‘reposicionamento’ da mulher em sociedade.

Biutiful (2010, Alejandro González Iñárritu) – 148 min
Aviso rápido: esse é forte. E lindo. O diretor, como disse lá em cima, é o mesmo de O Regresso...e de Birdman (2014), Babel (2006), 21 gramas (2003) e Amores Brutos (2000). Todos eles carregam atores de peso, tão bons quanto seus enredos, sua forma específica de filmar, um tipo de cinema que se transforma e evolui a cada obra. Em Birdman ele trouxe uma cinematografia especial – além de fazer renascer Michael Keaton –  graças à parceria com Emmanuel Lubezki, o diretor de fotografia que sozinho carrega 2 Oscars e outros 126 prêmios. Se estiver em dúvida sobre assistir um filme e quiser uma forma diferente de buscar – que não seja por Diretor, Ator ou Roteirista – vai atrás do Fotógrafo como esse. Me perdi: Rodrigo Prieto (O Lobo de Wall Street, Argo, Brokeback Mountain) é outro grande diretor de fotografia e é quem divide a parceria com o diretor em Biutiful. Aqui, Uxbal (Javier Bardem) está no olho do furacão: está doente, tem um dom especial, mas vive com problemas grandes demais em sua família, com a mulher e a criação dos filhos numa Barcelona que não vemos nos filmes de Woody Allen. O filme abraça grandes questões sobre vida e morte, fé, educação, moral. Vale cada minuto por todos os motivos, mas não é água com açúcar. 

Qual o nome do bebê? (2012, Alexandre de La Petellière e Matthieu Delaporte) – 109 min
Para aliviar a barra, chega este francês engraçado e leve que, como O Deus da Carnificina (2011, Polanski), se passa todo dentro de um apartamento. Vincent (Patrick Bruel) vai a um jantar na casa da irmã e lá, enquanto conversam sobre a vida, surge a questão de qual é o nome do bebê que ele e a mulher esperam. Esse é o mote para uma comédia leve e que brinca com piadas de mau gosto com diálogos divertidos, rápidos e inteligentes que se aprofundam em questões que envolvem todo o grupo. Patrick Bruel é um nome das comédias francesas. Valérie Benguigi é Elisabeth, a irmã de Vincent e com este filme, leva o César de atriz coadjuvante. Ela havia já abocanhado com o mesmo papel o Moliére, a versão do César para o teatro e nos deixou cedo demais, aos 47 anos, em 2013.  

Perfume (2006, Tom Tykwer) – 147 min
Para acelerar os batimentos cardíacos, outra adaptação, agora da literatura para o cinema. Perfume é um filme diferente. Quem me conhece, sabe que gosto de filmes estranhos.  Sendo gosto uma forma subjetiva e ‘estranho’ um adjetivo que segue a mesma linha, vou especificar: gosto de filmes que tendem um pouco pro bizarro, pro implícito, pro subliminar, para aquele olhar desconfiado que damos ao encontrar alto estranhamente atraente. Gosto, por isso, de David Lynch e Stanley Kubrick, os prefiro a Spielberg. Gosto de Polanski e Scorsese, mas entre um e outro, fico com o primeiro pela mesma razão e sensação. Tom Tykwer consegue um pouco das duas coisas. O primeiro filme que vi dele é um super famoso ‘alternativo’, Corra Lola, Corra (1998), bacana, brinca com as alternativas, naquela ideia de histórias baseadas no ‘e se’. Mas o que me prendeu mesmo foi Paraíso(2002). Esse filme tem algo diferente, uma história de amor escrita por Kieslowski, com Cate Blanchet e Giovani Ribisi e é tudo o que eu vou falar sobre ele. Perfume chega com um peso ainda maior: Jean-Baptiste (Ben Wishaw) nasceu com um dom especial, um senso olfativo acima da média e com isso, é especialista em perfumes. Sua obsessão é encontrar a essência perfeita e um mundo obscuro se descortina – como em todos os filmes sobre obsessões, esse também escorre para o sombrio. Com uma fotografia e atores em performances extraordinárias (Wishaw, Allan Rickman, Dustin Hoffman), foi um dos melhores de 2006. 

Buena Vista Social Club (1999, Wim Wenders) – 105 min
Buena Vista foi o documentário que abriu as portas para a música cubana para muita gente. Ry Cooder junta um grupo de músicos e compositores brilhantes do país e juntos saem em uma turnê que toma o mundo. Com esta missão, o filme acompanha o resgate, trazendo a glória de tempos passados de volta. O filme é uma delícia não só pela música, mas por seus personagens, suas histórias, o quando a história de Cuba invade aquelas vidas e as transforma. Wim Wenders, em tese, não deve ser apresentado. O diretor faz tanto filmes de ficção quanto documentários com uma qualidade narrativa inquestionável e aqui não é diferente. Menos denso do que suas produções alemãs e mais leve pela característica tanto dos personagens que retrata quanto pela música, é o final ideal dessa lista. Para quem tem dúvidas ainda, cito os mestres presentes: Ibrahim Ferrer, Rubén González, Compay Segundo, Eliades Ochoa e Omara Portuondo. Comprei o disco, tenho o dvd e é uma alegria vê-lo na locadora, livre aí para todo mundo. É curto demais para o prazer que proporciona.
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O meu Carnaval esse ano foi bem diferente. Baiana que sou, não consegui ir a Salvador e a festa carioca não me empolga na mesma medida. Confesso que o calor dos 800 graus me desmoraliza também, então fiquei escondida em casa, nos cinemas e de vez em quando dava uma volta em um bloquinho ou outro, na casa dos amigos, só para dizer que saí mesmo. Foi ótimo, precisava desse descanso e de um tempo para colocar as leituras e filmes em dia. Em alguns momentos me achei meio louca e deslocada, mas acho que isso deve acontecer com mais gente do que eu... espero, pelo menos.

Com isso, para salvar a turma da ressaca da maior festa do Brasil, segue uma listinha bem diversa interessante para gastar no fim de semana:

Amy (2015, Asif Kapadia) – 128 min
Documentário que concorre ao Oscar esse ano, Amy trata da vida de Amy Winehouse, que infelizmente entrou para o clube dos cantores icônicos que morreram aos 27 anos (Jimmy Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Kurt Cobain). Amy ia muito além do perfil problemático de menina drogada que a mídia insistia em construir. O filme retrabalha sua imagem, não a eximindo de seus problemas, mas ampliando o perfil, nos apresentando uma personagem complexa, uma mulher extremamente talentosa que não conseguiu se sustentar, no sentido simbólico do termo. É um grande concorrente ao Oscar, senão o favorito. Você sairá triste do filme, mas é aquela coisa Romeu e Julieta, né? Não tem jeito. Vale a pena e te digo ainda mais aqui!

Apertem os cintos – o piloto sumiu! (1980, Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker)
Extremo oposto ao primeiro filme, até para aliviar a vida, chega essa comédia bocó, despretensiosa e engraçada dos anos 80. Acho que não passava na sessão da tarde, era filme de passar à noite. Tem que gostar das piadas à la Leslie Nielsen, sexistas, mas bobas e ingênuas – os anos 80 não tinham lá muita noção. É filme meio paspalho mesmo, mas os diálogos são tão nonsense que, se você baixar o senso crítico, se diverte demais. Se não gostar mesmo assim, é compreensível. Só não julga muito. Tem ótimas tiradas, como a do piloto automático. Mas ainda assim, é daqueles filmes de verão da época que hoje viraram cult.

Orgulho e preconceito (2005, Joe Wright) – 129 min
Romance romântico, texto de Jane Austen. Já assisti a esse filme umas 98394839 vezes e é lindo, não enjoável. Isso porque a narrativa clássica de uma história de amor quase de príncipe encantado aqui é contada com diálogos brilhantes e grandes interpretações de Keira Knightley (a mocinha de Piratas do Caribe) e Mathew Macfadyen, seu par. O texto da escritora preenche a produção muito bem executada, provavelmente a melhor adaptação dos romances de Austen feita. É aquele estilo clássico mesmo do cinema, que amolece nossos corações, nos faz rir, de vez em quando pinta uma lágrima envergonhada que secamos sem ninguém perceber. E ainda é Jane Austen, uma das escritoras que buscava a valorização do gênero ou, ao menos, sua percepção no mundo a colocando como sujeito, como protagonista, ainda que a época não a favorecesse. Passa direto na TV paga, mas agora tem também na nossa locadora. Aproveita o dia dos namorados gringo aí e assiste.

Gênio Indomável (1997, Gus Van Sant) – 126 min
Na categoria drama, coloquei Gênio Indomável porque alguns amigos me confessaram esses dias que deixaram o filme passar por eles. Matt Damon e Ben Affleck se tornaram quem são hoje no Cinema por causa desse filme – eles não só atuam, como o escrevem. Robin Williams é o psicólogo do problemático Will Hunting (Damon), um gênio autodidata da matemática que é descoberto por acaso ao resolver uma equação na universidade em que trabalha como servente. É uma história de redenção do melhor tipo, vencedor de 2 Oscars e completo, esse também é para ser visto de tempos em tempos. Se ainda está em dúvida, lembra que o diretor é o mesmo de Elefante (2003) e Milk (2008).

Veludo Azul (1986, David Lynch) – 120 min
Para terminar, um filme lado b americano. David Lynch é um diretor controverso e inteligentíssimo. Como acontece com Tarantino, prefiro seus primeiros trabalhos aos últimos, ainda que os dois sejam completamente diferentes um do outro. Lynch é um cara de mistérios, algum surrealismo e uma veia que poderia somar Buñuel, Salvador Dalí, Diane Arbus e qualquer coisa de Stephen King – e ainda assim, ele seria diferente. Neste filme de suspense, Jeffrey (Kyle MacLachlan) investiga um crime quando encontram uma orelha em um jardim. Isabella Rossellini é Dorothy, uma cantora que parece ter algum envolvimento no crime, a partir do que Sandy (Laura Dern) lhe informa. Dern é musa de Lynch e MacLachalan está em Twin Peaks (1990), umas das melhores séries que já vi na vida, para quem gosta desse clima sombrio/estranho, também do diretor. Esse filme levou não sei quantos prêmios e ao assisti-lo você terá uma experiência única. David Lynch é sedutoramente viciante.

Curtiu a seleção? Conte-me mais sobre isso! ;)
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Em dias muito muito quentes não consigo fazer muita coisa. Acho que sou como os cachorros, fico parada em algum canto, o lugar mais frio da casa – ou de qualquer lugar – me movendo o mínimo possível. Em um destes episódios, me peguei assistindo Best of Enemies. O filme estava há meses na lista, mas eu não estava pronta para ele. Documentário de 2015 sobre uma série de debates que aconteceram na ABC americana nos fim dos anos 60, entre Gore Vidal e William F. Buckley Jr. – o último, um perfeito desconhecido para mim – era algo que poderia esperar.

Gore Vidal eu sabia quem era. Tinha um livro dele pela casa, Kalki, que um ex deixou anos atrás. Tentei lê-lo algumas vezes, mas acabei parando no meio. O fato é que sabia que o autor era um intelectual sério e respeitado, crítico norte-americano. Não sabia da participação dele no cinema, isso veio bem depois – ele é ninguém menos que o roteirista de Calígula (1979). William F. Buckley Jr. é a novidade. Ultra conservador americano, também intelectual e fundador da revista National Review, eram claramente opostas as posições sócio-políticas e culturais dos dois. Buckley era relevante em seu meio e ganhava notoriedade à medida que galgava seu espaço televisivo. Representava a família branca e tradicional, elite econômica americana. Gore Vidal era homossexual.

A ABC, quarta emissora em audiência no país, resolve em 1968 promover uma série de debates entre eles sobre as eleições presidenciais daquele ano. A ideia era contrapor argumentos e acalorar um debate político interessante e inteligente. O detalhe é que a emissora subestimou seus protagonistas.
O documentário parte deste mote, exibindo trechos dos debates e, à medida que as trocas de farpas esquentam o clima, nossa ansiedade cresce junto e esperamos, como um novo capítulo de novela, o ‘dia’ seguinte. Ao mesmo tempo, correm em paralelo os acontecimentos daquele ano, o que provocou aquelas discussões, quem eram os candidatos à presidência, o que cada um representava. Esta postura é quase pedagógica, mas feita em bom ritmo, parecemos viver aquele 68 agora, pontuados por observações de quem conviveu com os dois protagonistas.

Best of Enemies é um grande titulo, literalmente falando. Quando pensamos em debates presidenciais, vêm à mente aquela palhaçada que vivemos a cada quatro anos, muito mais um programa de entretenimento do que um serviço de utilidade pública, como deveria ser. O problema dos nossos programas está nos candidatos que não se preparam para discutir política. Ficamos sem conhecer seus projetos, suas ideias para o desenvolvimento do país e vemos um bate boca sem fim de injúrias tão rasas quanto àquelas que praticamos na infância. Não temos os melhores adversários possíveis, não ficamos em dúvida por suas propostas, não continuamos a conversa entre nós, em casa ou na rua. Os nossos são sobre a superfície dos argumentos, o disse-me-disse, quem bate no palanque, quem grita mais alto e quem rouba menos. Não digo com isso que os daqui são piores do que os de lá, mas a ideia da emissora de colocar intelectuais ao invés de presidenciáveis se torna mais interessante porque em tese, ouvimos as opiniões embasadas sobre os assuntos e não uma corrida por medalhas.

Mas, somos de carne e osso e assim são nossos oponentes e as pessoas da televisão. O filme passa uma ideia de que Buckley de fato estava lá para discutir e defender seu candidato e supostamente Gore Vidal deveria fazer o mesmo. Mas sua ideia era outra: ele encarava Buckley como seu inimigo, com ideias perigosas para a nação, quase um Donald Trump e isso é bastante assustador, queria desmoralizá-lo combatendo seus argumentos com outros melhores e contundentes. Era sim, uma batalha ideológica.
A ABC, agora líder de audiência no horário nobre, não sabe o que fazer além de se manter firme em sua proposta, deixando o mediador tonto, sem conseguir barrar as trocas mais violentas. À medida que o programa corria ao vivo, a crise política avançava – a questão racial entrou em foco e manifestações violentas tomaram o país, os Estados Unidos insistiam na Guerra do Vietnã – os ânimos se acirravam em todos os meios de comunicação. O filme transmite bem essa efervescência nos encaminhando para um final imprevisível.

Os diretores, Robert Gordon e Morgan Neville nos dizem mais: os debates se tornam, eles mesmos, notícias. As outras emissoras e meios de comunicação passam a acompanhar a trajetória ao longo dos dez dias que marcaram de vez a televisão americana. A tv não existia há muito tempo, mas já havia construído um padrão jornalístico e de entretenimento e aqueles embates eram novidade, como uma troca de tapas com luvas de pelica. Após este, diversos outros programas foram criados com esta base, programas de debates com personagens fortes – mas nunca seriam como o primeiro.

Mandei um recado para um amigo phd em política internacional que mora em São Paulo, para que me ajudasse com informações sobre Buckley, Vidal e lhe pedi uns textos para iniciantes, para trocar umas figurinhas sobre esses caras tão importantes para os Estados Unidos de então. Terminei de ler um livro sobre documentários que falava que o espectador assíduo está sempre em busca de conhecer mais, de exercitar sua curiosidade. Talvez seja isso mesmo, essa febre que me acontece e me deixa carente de pessoas tão doentes quanto eu. Quem me dera o amigo de fora estivesse aqui para ver comigo essa pérola escondida da Netflix e me aturar nas perguntas de base. Vale cada minuto.

*Caso alguém se interesse, não será tempo perdido e estarei esperando para trocarmos ideias.
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Há determinados assuntos que se repetem em filmes tantas vezes me pergunto se as histórias originais não acabaram. Ao mesmo tempo, quando os filmes são bons, fica clara a necessidade daquela abordagem e que sim, ainda há o que dizer sobre o tema repetido, por incrível que pareça. É isso o que acontece em Spotlight.

O título remete a um núcleo dentro do Boston Globe, um grande jornal em Boston, responsável por reportagens longas, investigativas, aquelas que duram meses para ficarem prontas. Com a chegada do novo editor-chefe, recebem uma demanda difícil: denunciar a omissão da Igreja Católica e suas tentativas de sublimar a existência de padres pedófilos e suas vítimas. É aí que começa o filme.

No fim de semana anterior a este, consegui finalmente assistir Birdman – ou a inesperada virtude da ignorância (2014, Alejandro González Iñárritu). Eu sei, atrasado e depois de todo mundo, de toda a discussão sobre a ressurgência de Michael Keaton e a qualidade inquestionável do cinema de Iñárritu. De fato, Michael Keaton retorna aos cinemas em um papel que qualquer grande ator sonharia em fazer, em um filme que se tenta ser um plano-sequência como só os grandes mestres conseguem, com encenações frenéticas e únicas de Naomi Watts, Edward Norton – vai ser sempre pra mim um dos melhores atores de sua geração – e Emma Stone, que está chegando e fazendo nome. Fazer este roteiro não deve ter sido brincadeira e muito menos a cenografia. Um exercício de um cinema educado, extremamente calculado e bem preparado que traz críticas e estereótipos da própria indústria. E Michael Keaton, ainda que não considere um artista brilhante, aqui se sobressai.
É justamente ele o redator chefe de Spotlight, Robby. É quem defende a reportagem ao mesmo tempo em que é quem mais se relaciona com a cidade, com a alta classe, com políticos, com todo mundo. É um filme de muitos personagens fortes, mas talvez seja ele o protagonista, novamente. Mark Ruffalo, Stanley Tucci, John Slattery - matando as saudades desde Mad Men - Rachel McAdams, Liev Schreiber e Brian d’Arcy James reforçam o elenco. Ruffalo é o repórter que levará a reportagem, com uma relevância maior que os demais, ainda que toda a equipe – McAdams, Keaton e James – seja tão fundamental quanto. Angustiante, é uma escavação sobre os crimes dos padres e seu envolvimento com crianças, particularmente aquelas mais vulneráveis, nos deixando com cada vez mais raiva da instituição.

O filme também fala de paixão. A construção do roteiro em torno do desenvolvimento da investigação, dos confrontos dos jornalistas com o poder local, a relação deles com a Igreja e religião, o descobrimento que uma sociedade aparentemente tranquila e saudável que esconde sujeira debaixo do tapete evidencia uma persistência, uma busca pela verdade que ultrapassa esse bem viver e se relacionar. O entorno de sorrisos e cafés perde seu conforto – a imagem que eu tinha de Boston era um tanto diferente, maior e mais diversa do que ela se apresenta ali - ainda que se considere décadas atrás. Os jornalistas vão além, nos mostram sua função no mundo, a relevância de seu trabalho e o choque a cada nova descoberta. Ficamos com vontade de ir atrás junto com eles e de seguir com afinco e amor o que acreditamos, talvez seja isso.
Direto do Festival de Toronto, os jornalistas 'reais' e os atores que os interpretam.
Dirigido por Tom McCarthy e escrito por ele e Josh Singer, parece ter sido até mais pelo currículo do segundo a busca por uma produção com um tema polêmico e político. McCarthy é também produtor e ator de filmes de gêneros diversos, mas ainda assim, garantiu um trabalho bem executado. A fotografia e o figurino contextualizam a época, apesar de ser uma história, infelizmente, recorrente. Concorrendo nas maiores categorias do Oscar deste ano, acredito que poderia levar roteiro e edição – mas ainda não encerrei minha lista para elencar meus favoritos.

Assisti a este acompanhada de um amigo jornalista que ama seu trabalho. Conversamos um pouco sobre isso, tanto sobre esta paixão como sobre os tipos de reportagens e a vontade de se fazer um trabalho relevante. Mas, mais do que isso, o filme se constrói, e por isso acho que merece o prêmio de edição numa crescente, ampliando nossa ansiedade num nível quase insuportável, de roer as unhas mesmo – e olha que nem é suspense. Esse gradual, a complexidade da trama, o novelo que parece cada vez mais se enrolar enquanto tentamos puxar o fio é o que torna esse filme um dos grandes. E, para que se torne ainda mais relevante, caso persista alguma hesitação: é baseado em fatos reais. Vale gastar um dinheiro e ver no cinema em uma tela de respeito.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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