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Café: extra-forte

Quando Amy Winehouse morreu e a mídia noticiou, ficou um silêncio esquisito. Eu sempre gostei da voz dessa mulher muito jovem para aquilo tudo. Eu tinha essa ideia de que aquela voz maravilhosa não cabia naquele corpo tão fininho e frágil, como se precisasse de mais fibra, mais força, mais tempo. Fiquei triste de verdade, naquela tristeza que sentimos quando se perde alguém tão relevante para todos. É um luto diferente; não dói como um parente ou amigo, mas ainda assim, o peso, o vazio e uma pena de nós mesmos, de termos perdido – como se fosse culpa nossa – algo tão precioso ou de termos deixado acontecer, permanece.

Essa semana estreou na Netflix o documentário Amy, de Asif Kapadia e acabei de assistir aqui, nesse domingo de Carnaval. O filme mostra um pouco da vida da cantora, traçando a trajetória do seu início de carreira, ainda adolescente. Mesclando vídeos domésticos, entrevistas, shows, clipes, ensaios fotográficos e muito arquivo jornalístico sobre sua vida pessoal e profissional, vemos uma aparente cobertura completa de talvez seus últimos 15 anos. Quem lê assim, pensa que estamos falando de alguém que morreu velho, mas Amy sumiu aos 27 anos.
Aparente cobertura completa, porque nunca será, de fato. Os documentários biográficos de gente que não está mais por aqui sofrem ainda mais com esse olhar sobre o outro. É óbvio e certo que todo filme é uma perspectiva sobre outrem partindo de alguém. Aqui, Kapadia constrói o perfil de uma mulher bastante inteligente e indiscutivelmente talentosa, mas que se perdeu, se deixou levar por problemas grandes demais. Como aquela ideia do artista que não cabe em si, Amy parecia mesmo ser mais do que poderia suportar, mas isso é injusto de se dizer. Ela foi uma mulher corajosa em um nível que só os grandes artistas conseguem ser. Ela não fazia distinção entre vida e carreira: tudo estava intimamente relacionado e a prova disso são as letras que compôs. Ao mesmo tempo, lá longe pisca um alerta de se esse filme não seria um pouco condescendente com a cantora, se não quer defendê-la, protegê-la como o pai dela deveria ter feito.

Algumas vezes nos perguntamos durante o filme porque as pessoas ao redor dela não a ajudaram de fato. De fato mesmo, de verdade, de arrastá-la pelos cabelos e tentar ajudá-la, mas não sabemos como tudo aconteceu. Apesar da vida da cantora ter sido ganha pão dos tabloides ingleses e americanos e com isso repercutir no resto do mundo uma imagem de uma personagem problemática e, como ela não está aqui para falar por si, ouvimos dos outros, destes amigos, parentes, colegas de trabalho contando suas preocupações e participando muito pouco, talvez como um ela tem que se cuidar, tomara que ela melhore, tomara que ela perceba isso, já estou de saco cheio de tentar ajudar, de uma forma inglesa demais. Claro que a culpa de quem se acaba é de quem se acaba, mas dá vontade de se meter na história e tentar fazer alguma coisa. 
A estrutura fílmica funciona bem; o diretor deve ter coletado uma quantidade quase infinita de material e a construção deste mosaico é bastante equilibrada e dá uma noção da evolução da carreira de cantora ao mesmo tempo em que traz os bastidores de sua vida. Só sabemos que será um filme triste, história com final conhecido.

Uma das questões mais importantes – talvez a mais – foi respondida e isso é o máximo de felicidade esperada. Kapadia nos mostrou uma cantora que foi muito além do perfil artista que usa drogas e morre cedo. Esta ideia de garota-problema não se aplica a Amy. A capacidade artística dela, o conhecimento musical – isso sim, pouco explorado aqui, nos deixando com vontade de saber mais (um pouco como Ingrid Bergman) – tanto de repertório quanto de elaboração só significavam que ela foi uma artista completa, como disse Tony Bennet e que se equipara aos grandes nomes da música mundial. E tudo muito cedo. Um dos grandes problemas foi justamente a ascensão meteórica para uma pessoa que em momento algum foi preparada ou almejava isso. Claro, ela provavelmente buscava reconhecimento, mas não a este preço. A invasão absurda do jornalismo ruim, a exploração de sua vida como um folhetim, os julgamentos, o próprio pai lucrando com a exibição exploratória da filha, um namorado com o mesmo - e pior - perfil, a busca cega por mais e mais dinheiro foram fundamentais à sua derrocada.
Mas ela tentava ir adiante sempre. Se em suas letras ela se entregava, exibia suas questões com uma poesia urbana, rápida, fácil, o peso de sua voz, sua expressão no palco e a composição melódica a levaram para um outro nível. Levando 5 Grammys somente em 2008, conhecida internacionalmente e perseguida por paparazzis em cada esquina, ela já havia vivido 40 anos em 25. Nesse furor, o filme elabora a ideia de que ela só tinha que tentar viver bem, mas não conseguia. Os filmes domésticos, componentes vitais deste documentário, foram usados quase de forma abusiva, ficou na borda da invasão. Talvez o acesso e permissão de uso fossem negados por Amy, se fosse viva. Há muito de intimidade e privacidade – que já eram raros e caros à cantora – desde o uso de drogas a comentários dela com o marido, sua imagem sendo tão explorada todo o tempo por tanta gente.

Foram 127 minutos de Amy Winehouse e parecia faltar coisa. Não que o filme seja insuficiente – de forma alguma – mas a narrativa corre tão fluida e a personagem é tão carismática que fica impossível não se apaixonar por essa garota e querê-la por mais tempo. Fico pensando sobre o processo de montagem, o quão desafiador deve ter sido. Asif Kapadia é também o diretor de Senna, o documentário sobre Ayrton Senna, nosso piloto de F1 – o melhor do mundo. Aqui também havia muita imagem de arquivo, mas as domésticas eram muito mais tranquilas e em menor quantidade – fruto, claro, das épocas de vida x tecnologias disponíveis e comportamentos dos personagens. Chris King foi o montador dos dois.
Filmes com figuras emblemáticas e carismáticas carregam o peso da expectativa. Amy responde à altura, nos deixa com uma saudade dessa mulher que nunca vi ao vivo e questões para respondermos sobre nós. As que ficaram comigo são por que a pressa em viver tudo? Ainda não sei se ela estava certa, se alguma prudência pode ser equilibrada ou se nos protegemos demais de tudo todo o tempo. Isso me fez lembrar um texto delicioso e profundo de Natalia Ginzburg, uma escritora que conheci outro dia, As pequenas virtudes, do livro de mesmo nome, em que ela fala de coragem e prudência - e também me levantou outras questões do gênero. Também fiquei com quando é o momento para nos mostrarmos, para sairmos da superfície das coisas e das rotinas e vivermos ‘de verdade’? Essa é uma pergunta mais complicada em muitos sentidos e não virá uma resposta, mas uma forma de protesto e um processo de revolução íntimos. Isso porque, à primeira vista sempre diremos "agora", mas a resposta nunca poderá ter apenas uma palavra. Claro, Amy não causou tudo isso, mas é mais uma pedra em nosso sapato confortável. Não é disso que precisamos? 
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Semana de Carnaval é sempre uma loucura, né? Quem viaja pra curtir a festa não pensa em outra coisa, quem curte na própria cidade, também. Tem os sortudos que trabalham na véspera e aceitam sua condição, esperando os minutos passarem em contagem regressiva para o feriadão. Tem gente que está no meio do caminho, que queria o Carnaval ideal – no meu caso, o de Salvador – e se não tem, meio que qualquer coisa serve: vira um feriadão para aproveitar um pouco da festa da cidade, ir a praia, beber com os amigos e recuperar o tempo perdido dos filmes em cartaz nos cinemas, dos VODs da vida e de nossa maravilhosa Netflix.

Não, não ganho um centavo para fazer a propaganda, só acho que a empresa teve uma ótima sacada e que funciona muito bem para ela e para o consumidor. Neste mesmo feriadão apareço aqui novamente com as críticas de Carol e Spotlight, que estão quase prontas e talvez mais alguns do Oscar. Enquanto isso, fiz essa listinha especial com 10 filmes para passarmos o tempo, darmos um intervalo nas festas, curarmos a ressaca ou simplesmente, ficarmos de preguiça:

Embriagado de Amor (2002, Paul Thomas Anderson) – 95 min
Se você é desses que tem preconceito com Adam Sandler, só porque ele fez (fez mesmo) um monte de filme besta, assiste esse. Embriagado é um filme lindo em muitos sentidos: é engraçado, mas inteligentemente engraçado. Acho que você não vai gargalhar, mas vai rir da sutileza das coisas. O filme é lindo também porque mostra um relacionamento entre duas pessoas muito diferentes, diferentes entre si, diferentes do que costumamos ver. É lindo porque a fotografia é...um negócio. E o roteiro é muito bom. Acho que este é um desses filmes subestimados e que passam batido pela maior parte das pessoas, mas vale muito a pena. Ah, já ia esquecendo, o diretor é ninguém menos que Paul Thomas Anderson, o cara que fez Boogie Nights (1997), Magnólia (1999), Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012). E ainda leva junto: Emily Watson e Phillip Seymour Hoffman. Agora já era, né? Tem que ver.

Janela Indiscreta (1954, Alfred Hitchcock) – 112min
Hitchcock, gente. Esse é aquele filme incrível que James Stewart é um fotógrafo profissional que está se recuperando em casa de uma perna quebrada. De frente para sua janela há outros prédios, como eu, ele mora de fundos e consegue dar uma olhada na vida da vizinhança nesses momentos de tédio. Lá pelas tantas, acha que testemunha um crime, logo em frente, em uma dessas janelas. Grace Kelly é seu par romântico e co-protagonista na história. Ela é a mocinha independente que gosta e cuida deste “namorado” e vai ajuda-lo a descobrir o que está acontecendo. Muito voyeurismo, grandes diálogos e, é claro, suspense. Presta atenção: em algum momento Hitch aparece, mas sempre discretamente.

Quero ser grande (1988, Penny Marshal) – 108 min
Anos 80, Tom Hanks, comédia. Só isso já vale o filme, né? Esse filme é daqueles de magia, que de súbito você tem outra idade e tem que lidar com essa realidade alternativa, sabe? Muito bom! Nos anos 80, onde tinha aquela ingenuidade e algumas brincadeiras sérias demais para crianças, mas que nessa década, de alguma forma, poderiam acontecer. Saímos desse filme super leves, querendo ser crianças novamente (sempre quero) e viver essa vida mansa sem grandes preocupações. Vai fundo!

Gilbert Grape: aprendiz de sonhador (1993, Lasse Hallström) – 113 min
Parece que agora vai, né? Finalmente Leonardo di Caprio vai ganhar o tal do prometido Oscar. Ganhando todos os prêmios que aparecem pela frente com seu O Regresso (do mestre Iñárritu), o ator é dono de uma carreira sólida desde muito cedo. Neste filme de Lasse Hallström, Leo interpreta Arnie Grape, irmão mais novo de Gilbert (Johnny Depp) em um drama familiar adaptado do livro homônimo de Peter Hedges. Aqui, Gilbert é nosso protagonista, ele quer sair dessa vida, mas precisa cuidar de Arnie, seu irmão que vive com alguma deficiência cognitiva e sua mãe obesa, que nunca sai de casa. Com a família nas costas, vê seus sonhos de mudança cada vez mais distantes. Se você perdeu esse filme na ‘sessão da tarde’ ou naquele ‘domingo maior’, aproveita e assiste. É engraçado, terno, duro, triste e muito muito bom. Foi aqui que Leo recebeu sua primeira (de seis) nomeação ao Oscar – pra quem leva isso muito a sério.

Fargo (1996, Joel Coen e Ethan Coen) – 96min
Um crime mórbido e planejado. Personagens cruéis e algo dá errado. Uma investigadora grávida. Esse filme fantástico é como Cães de Aluguel pra mim, um dos melhores do gênero. Os irmãos Coen são responsáveis por algumas das melhores produções inteligentes do cinema americano das últimas décadas e esse, com certeza, está nesse rol. Com 69 prêmios e 2 Oscars, carrega ninguém menos que William H. Macy, Steve Buscemi, Frances McDormand em performances únicas. É engraçado, sórdido e inteligente. E meio cruel. Mas veja.

A vida de outra mulher (2012, Sylvie Testud) – 97min
Na linha de Quero ser grande, ninguém menos que Juliette Binoche é a protagonista desse romance diferente. Um dia, Marie Speranski acorda e se encontra com um perfil que não parece ser o seu, já que nesse despertar se passou uma noite desde os seus vinte e poucos e ela ainda era uma estudante sem grana. Agora, uma mega empresária com vista para a Torre Eiffel, ocupada e em um casamento em ruínas. Juliette contracena com Mathieu Kassovitz, um dos atores mais relevantes do cinema francês atual. Vale muito ver essa atriz se adaptando num duplo papel, em choque com sua 'nova' realidade.

Taxi Driver (1976, Martin Scorsese) – 113 min
Tem uns filmes que nem dão vontade de escrever nada. Dá vontade de dizer apenas: vá ver e depois a gente conversa. É o que acontece com esse aqui. Taxi Driver é sensacional. Acho que eu o vi mais nova e revi há uns poucos anos e ficou na minha cabeça de uma forma...que comprei o dvd e assisto algumas vezes por ano. É a melhor fase de Scorsese, um desses diretores que sempre acompanhamos. Para quem não liga o nome aos bois, Scorsese é diretor de Touro Indomável (1980), Alice não mora mais aqui (1974), Depois de Horas (1985) sem falar nos novos que são também bons, mas esses aí moram no meu coração há mais tempo. Robert De Niro é Travis, um motorista de táxi entediado, veterano do Vietnã, vivendo em NY, achando tudo aquilo de uma sujeira moral e física avassaladoras. Em um desses dias, se depara com Betsy (Cybill Shepherd) que lhe causa uma comoção pela beleza da moça. Mas as coisas não andam bem e Travis começa a se descontrolar. Durante o filme ainda vemos Jodie Foster fazendo uma prostituta adolescente e Harvey Keitel como seu cafetão.

Um método perigoso (2011, David Cronenberg) – 99 min
Cronenberg é conhecido por fazer filmes estranhos. Não simplesmente “cults” ou “alternativos”, mas que transmitem uma sensação de bizarro, de estranheza mesmo. Neste filme ele segue muito mais sóbrio do que no início de carreira, trazendo uma história baseada em fatos reais que conta o início do relacionamento entre Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michael Fassbender) e o desenvolvimento da psicanálise. No meio disso tudo, surge Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma paciente de Jung com distúrbios psicológicos e que depois se torna, ela mesma, uma das primeiras psicanalistas. Bem construído, com Keira se contorcendo enquanto paciente em agonia – sendo ela talvez a estranheza – nos sentimos no filme como observadores de um momento único na história moderna, evidenciando o velho clichê de que de perto ninguém é normal, mas participando das discussões nos diálogos rápidos e bem construídos sobre as teorias de cada um e como elas se contrapõem às suas vidas. Parece sério demais, mas pense que quem fez este, fez também A Mosca (1986), Mistérios e Paixões (1991), Cosmópolis (2012) e Mapa para as Estrelas (2014). De narrativa o rapaz entende.

Mad Men (2007-2015, Matthew Weiner) – 50min/episódio
Se você quiser ser agressiva(o), tem essa grande opção de série, 7 temporadas, que encerrou oficialmente ano passado me deixando órfã e triste. Mad Men trata da vida de uma agência de publicidade de Nova York que sai dos anos 50 e entra na era de transformação das comunicações, a década de 60. Tem histórias reais da propaganda, interação com marcas de verdade e as vidas no trabalho e pessoais daquela equipe, com um elenco de peso: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Joan Harris, John Slattery e tantos outros. Vencedora de não sei quantos Emmys ao longo de suas temporadas, a série é maravilhosa. O roteiro te deixa sem querer respirar e há uma complexidade de personagens pouco vista hoje, junto com o tratamento histórico real da época. Tem tudo: drama, comédia, romance e muita emoção. Direção de arte, fotografia, figurino, trilha sonora, o final de Mad Men foi, como diz seu último slogan the end of an era. É uma das melhores séries já feitas. Finalmente uma crítica! :)


Promises (2001,  B.Z.Goldberg, Justine Shapiro e Carlos Bolado) – 106 min
Para encerrar essa maratona, um documentário que traz alguma esperança. Promessas de um novo mundo (título em português) eu vi tem bastante tempo. De 2001, o filme acompanha a vida de sete crianças judias e palestinas em Jerusalém e como elas se percebem, percebem o outro e convivem. Nestes três anos, vemos as mudanças por que passam essas crianças, a inocência que vai se perdendo e como em cada família os ideais e visões políticas podem ser tão distintas. O filme é incrível porque parte do olhar da infância até uma parte da adolescência e percebemos as ingenuidades se fragmentando, ainda que permaneçam nestas idades. É um olhar que busca o complexo, sair da dicotomia de que quem se considera certo e errado em questões bastante delicadas e elas também, complexas. Fundamental.
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Não sei a de vocês, mas a minha semana foi muito corrida. Nem consegui escrever as críticas, mas chegou a bendita sexta-feira e tudo vai acabar bem! Amanhã tem bloco de Carnaval em Paquetá e tenho que acordar bem cedo, mas de tardinha já vale para assistir alguma coisa, né? Por isso, as pérolas dessa semana serão de impacto, desses filmes que não saem da cabeça, criam conversas de bar e, com sorte, alguma polêmica. Não tem essa de 'estava cansada, acabei dormindo'. Nestes aqui, não tem como! 

Noivo neurótico, noiva nervosa (1977, Woody Allen) – 133 minutos. 
Sétimo filme de um diretor de nada menos que 46 longa metragens, é sem sombra de dúvidas, um dos melhores de sua carreira. Woody Allen, com toda a polêmica bizarra sobre sua vida – fico pensando sobre ética e sobre gostar tanto de sua filmografia e não pensar ou tentar não associar isso a sua vida pessoal (um pouco como Polanski, sendo esse caso pior, ou até Michael Jackson, sendo talvez melhor) – e sobre o que muita gente pensa de sua atuação: “é sempre a mesma coisa” ou “ele nem é tão engraçado assim”, esse filme ultrapassa barreiras. É um romance entre Annie Hall (Diane Keaton jovem e complexa, em uma personagem sob medida) e Alvy Singer (Woody), duas pessoas que se conhecem por acaso e vivem uma história de amor como qualquer outra, não fossem os personagens extremamente bem construídos e os diálogos tão deliciosos e pautados na vida real. 

Feito em 1977, antecede Manhattan (outra obra prima, por mais estranho que seja chamar muitas obras de ‘primas’) e faz parte da longa fase New York do diretor. Pra quem adora comédia romântica, é um dos fundamentais, como Harry e Sally.


Making a murderer (2015, Moira Demos e Laura Ricciardi) – 60 min/episódio
Série documental sobre um homem aparentemente acusado erroneamente de ter cometido crimes bárbaros nos Estados Unidos. Condenado duas vezes à prisão perpétua, sendo inocentado pelo primeiro crime 18 anos depois de detido, passamos a conhecer a história de Steven Avery nesta primeira temporada de 10 episódios que nos deixa com vontade de ver mais. Dá muita raiva perceber as injustiças cometidas e o por vir, mas vale a pena. É interessante ver o peso da mídia em influenciar a opinião pública e como as forças locais (polícia e justiça) trabalham em conjunto e decidem por si sobre a vida de alguém pelo que parece ser pura implicância. Não suficiente, a construção da série – produção Netflix, o que significa uma preocupação forte no que diz respeito à narrativa – funciona como um crescente de expectativas e frustrações, mas sempre alimentando nossa curiosidade. Como sou compulsiva com séries, vi em uma semana.


Kramer vs Kramer (1979, Robert Benton) – 105 min
Sim, outro filme dos anos 70. E sim, outro filme sensacional. Kramer vs Kramer foi um dos filmes listados para assistir antes de ir ao curso de roteiro que fiz em NY. Sim, até eu fico pensando que foi em outra vida de tão distante, mas aconteceu, em 2012 e foi muito legal. Voltando ao filme, encontramos Dustin Hoffman e Meryl Streep, como um casal em crise. Joanna Kramer decide sair de casa e deixa Ted Kramer com a tarefa de conciliar o trabalho, a vida doméstica e a educação do filho ainda criança. O filme joga com essa relação homem x mulher, poderes e deveres, relações machistas e readaptação. É muito mais complexo do que um drama de divórcio e muito mais interessante também. Já vi mais de...sei lá, 6 vezes desde que fui ‘obrigada’. É um dos melhores filmes feitos e é muito despretensioso, o que o torna mais especial. E convenhamos: Meryl Streep e Dustin Hoffman juntos não poderiam fazer um filme ruim. Levou os principais prêmios do Oscar de 1980.


A caça (2012, Thomas Vinterberg) – 115 min
Esse é tenso. Um solitário professor de jardim de infância que está tentando conseguir a guarda de seu filho adolescente é acusado de molestar uma garotinha que acontece de ser filha de seu melhor amigo. O clima é pesado e complicado, a trama se desenvolve como uma aula de roteiro e temos Mads Mikkelsen, o novo Hannibal – da série – como aquele que é caçado. O filme levou nada menos que 35 prêmios, além de outras 62 indicações. Dinamarquês, Thomas Vinterberg tem uma forma especial de filmar, baseada um pouco no dogma, mas explorada adiante em grandes filmes, com mais experiência e dinheiro, claro. Vale do início ao fim, só não vale piscar enquanto estiver assistindo.


 Up – Altas Aventuras (2009, Peter Docter e Bob Peterson) – 96 min
E pra aliviar a barra depois dessa agonia toda que A Caça provoca, vai ter desenho! Up é uma comédia para toda a família, mas é divertida de verdade e não é babaca. Ela faz parte da geração das novas animações que conseguem, com um roteiro criativo e inteligente, servir a um grupo diverso de espectadores. O filme conta a história de um senhor que decide ir a Paradise Falls, realizar um antigo sonho e leva meio sem querer um escoteiro muito animado junto. Terno e inteligente, é imperdível mesmo. E, claro, feliz e inocente, como os filmes infantis precisam ser, para dar alguma esperança a essa humanidade.

E aí, gostou? Deixa uns comentários aqui, para eu ver se estamos no caminho certo?! :)
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E chegamos aos indicados da segunda semana! Aqui no Rio estamos vivendo um verão digno de... Gramado?, com uma frente fria que não nos deixa. Claro que com isso não temos praia, aquela vida ao ar livre, correr no calçadão, reclamar do calor dos 40 e não sei quantos graus. Reclama-se da chuva, de roupa molhada e dos incômodos de sempre, mas com certeza estamos dormindo melhor e não ligar o ar condicionado todos os dias é um ganho imenso – a companhia de luz deve estar chateada. O friozinho é sensacional para aquele momento de recolhimento, café quente e preto na caneca, edredon, televisão ligada e não sei quantos filmes e séries que nos deixam felizes confortáveis.

Segue a nova listinha que embala essa preguiça maravilhosa:

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What happened, Miss Simone? (2015, Liz Garbus) – 101 minutos.
Você pode até achar que não conhece Nina Simone e ter vergonha de falar isso por aí, já que a mulher ficou muito famosa (de novo) depois desse doc lançado ano passado. Ela reapareceu rapidinho na mídia nos últimos dias porque foi divulgado que David Bowie lhe ajudou em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Quando você assistir esse documentário, vai descobrir não só que a conhece, como a vida conturbada e difícil que esta mulher de voz maravilhosa, inteligência e força levou. Tinha seus problemas e mais dificuldades do que boa parte de nós por sofrer de uma doença mental, mas nada disso a impediu de se tornar uma diva no melhor sentido não-celebridade-fútil pode ter. O filme nos transporta para sua vida e acompanhamos seus dramas, sucessos, felicidades, tragédias e renascimentos. Concorre este ano ao Oscar de melhor documentário. A crítica está aqui!

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Cães de Aluguel (1992, Quentin Tarantino) – 99 minutos
Tarantino está em cartaz nos cinemas com seu novo Os oito odiados. Surgiu outra lenda na mídia que indica que todos os seus filmes teriam uma conexão – mas para confirmarmos, temos que revê-los, não é mesmo? Cães de Aluguel para mim é um dos melhores. Eu, inclusive, prefiro estes do início de carreira, que são menos ‘de ação’, têm roteiro com ótimos diálogos e elenco. Aqui, seis ladrões interpretados apenas por: Tarantino, Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi, Edward Bunker e Michael Madsen acabaram de assaltar uma joalheria e alguma coisa dá muito errado. Depois de todo o planejamento, o que se desconfia agora é de que um deles é um policial infiltrado. Tenso, engraçado, inteligente e ácido – além de violento, como não poderia deixar de ser – é a lição número um para conhecer a fundo a filmografia do diretor.  

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Tomboy (2011, Céline Sciamma) – 82 minutos.
Em 2014, assisti Girlhood (Garotas) no Festival do Rio. Fui ver sem saber nada do trailer, apenas porque li o nome da diretora e lembrei que era a mesma de Tomboy. Girlhood não está na Netflix, mas espero que chegue algum dia, é sensacional e confirma minha intuição de que é um presente acompanhar a carreira dessa mulher. Tomboy conta a história de Laure (Zoé Haren), de 10 anos, cuja família acaba de se mudar para uma nova casa. Aqui ela terá que se adaptar ao novo bairro, aos novos amigos. Tudo é muito recente, inclusive suas descobertas e transformações. O filme é uma delícia de assistir, é feliz e dramático ao mesmo tempo, é incrível a naturalidade da protagonista em um papel tão complexo e como a direção aborda o tema, com um olhar que nos permite desvendar e acompanhar sua trajetória. Para deixar tudo mais tranquilo nas locações e na dinâmica com atores mirins, Céline chamou os amigos reais de Zoé para participarem – o que funciona muito muito bem. Vale a pena demais. Tem crítica também!!

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A delicadeza do amor (2011, David e Stéphane Foenkinos) – 111 minutos.
Como não poderia faltar, tem romance também. A delicadeza do amor é uma comédia romântica francesa que traz Audrey Tautou (Amélie Poulain) e François Damiens (O Novíssimo Testamento) numa parceria digna do melhor café que possa existir. Natalie está se adaptando ao luto, perdeu seu marido, melhor amigo, amor da vida. No trabalho, tenta se livrar das investidas de seu chefe sem noção e, de uma forma inusitada, se encontra com Markus, um sueco sensível que trabalha alguns andares abaixo, no mesmo prédio. Não quero falar mais nada, mas para quem busca um filme engraçado, sensível, fofo e romântico sem dar enjoo, é esse.

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 Chef (2014, Jon Favreau) – 114 minutos.
Quem ainda não viu esse filme está perdendo uma das melhores comédias de 2014. Dirigido e protagonizado por Jon Favreau, esse filme independente de elenco estelar (Scarlett Johansson, Sofia Vergara, Robert Downey Jr, John Leguizamo e Dustin Hoffman) é tão divertido e despretensioso quanto literalmente gostoso. Após pedir demissão do restaurante em que trabalhava como chef, Carl (Favreau) resolve montar um food truck (bom e velho podrão que virou gourmet) de comidas maravilhosas. Essa proposta o faz repensar sua forma de viver e se relacionar com seus amigos e familiares. É um filme que dá pra ver com família, amigos, enfim, com qualquer entidade que esteja do seu lado. Arranja uma comida gostosa e senta, porque vale o ingresso!
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Os cristãos radicais que se preparem, vem muita piada pela frente. Que abram seus corações e permitam imaginar uma brincadeira criativa como esta, rodada na Bélgica. Já adianto: vale a pena até o último segundo.

O Novíssimo Testamento
Deus é mau humorado, perverso e cria leis arbitrárias para perturbar a paz de apenas toda a humanidade. Vivendo com sua filha Ea, de 10 anos, sua mulher, uma deusa que tolera as loucuras do marido e aguardando o retorno de JC – sim, Jesus Cristo – ele trabalha incessantemente em um computador, testando nossa paciência com catástrofes naturais, elaborando tragédias pessoais e leis esdrúxulas tão conhecidas entre nós, como a da torrada, que sempre cai com o recheio para baixo. A ideia aqui é que de fato, odiemos o rapaz.

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Assim que Ea é espancada por ter entrado no escritório do pai, foge de casa para viver em liberdade. Aconselhada pelo irmão e a um toque no computador, informa a todos os viventes quanto tempo terão de vida e assim, como o próprio Deus assume, agora não precisariam mais dele e levariam suas vidas como bem entendessem. Essa comédia é fantástica em todos os aspectos; sob o olhar literário, a ideia de deus, os milagres, a família, nos remetem a Borges e Cortázar, que criam universos fictícios e nos prendem em seus sistemas de coerências, tornando os absurdos verossímeis. Filmes como Delicatessen (1991, Marc Caro, Jean-Pierre Jeunet), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001, Jean-Pierre Jeunet) e Quero ser John Malkovich (1999, Spike Jonze) também fazem parte deste grupo. A fundação deste mundo fantástico se dá aqui no conjunto da obra: os cenários na casa de Deus, a forma como chegar à Bruxelas, a ambientação de época. A crítica à religião e sua história seguem o mesmo rumo, nos levando para o território seguro da comédia inteligente – jamais sairemos inertes desta sessão.

Deus é Benoît Poelvoorde o já consagrado ator de Românticos Anônimos (2010, Jean-Pierre Améris) e Coco antes de Chanel (2009, Anne Fontaine). Irritante e desengonçado, tem arroubos de grosseria que nos fazem querer amassar seu crânio, mas a falta de jeito com a própria vida e os azares que a cidade lhe propicia já o fazem pagar pelo que nos deve e rimos de sua desgraça. Yolande Moreau é a mulher de Deus e também uma deusa. Submissa ao marido, aceita todo tipo de violência moral para si e para sua filha. Com um ar inocente e, ao mesmo tempo, indiferente e ingênuo, ela nos remete àquele tipo que aceita tudo por entender que a vida é assim mesmo. Isso irrita, mas há um fundamento. E Yolande o faz magistralmente. Além deles, ainda vemos a esperta Ea (Pili Groyne) e ninguém menos que Catherine Deneuve e François Damiens (A delicadeza do amor e A família Bélier) como os novos apóstolos.

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Comédia leve, inteligente e fácil de assistir, é um adendo ao que há de melhor no cinema belga hoje. A  perseguição de Deus corre em paralelo com as transformações da população e as histórias dos apóstolos valem como episódios de um seriado. Há alguns exageros, mas nada que incomode tanto - são mais fruto de simbolismo do que escracho. Quinta ficção de Jaco Van Dormael, a fantasia já se faz característica em seus filmes. Candidato ao Globo de Ouro esse ano como filme estrangeiro, levou outros 6 prêmios e 4 indicações em outros festivais. Imperdível.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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