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Café: extra-forte

A Netflix dessa vez me surpreendeu. Na nova safra de filmes e séries, há mais Lars Von Trier, há filmes bem interessantes e alguns documentários muito bons, além dos animes de sempre e os filmes obscuros do pacote. Esta edição não poderia se chamar fortes emoções novamente, levando em conta nossos últimos acontecimentos e a tentativa constante de destruição dos brasileiros por parte do governo. O negócio está tão sério que a ameaça do Estado Islâmico passou batida por aqui. Em todo caso, a edição celebra muito bem a estrutura de poder com dois grandes e cultuados filmes, além de outros que tentarão nos tranquilizar, na ilusão maravilhosa da narrativa de ficção. Vamos a eles!!

Ninfomaníaca I e II (2013, de Lars Von Trier) – 117 min e 123 min.
Ninfomaníaca foi um filme polêmico, dividido em duas partes e aqui considero ambas. Lars Von Trier não é a melhor pessoa do mundo, é extremamente complicado e controverso e já deu declarações horrendas em sua vida. Ao mesmo tempo, é um grande artista, tem filmes com aquele status de arte que foge da redução que o ‘cult’ tenta construir. O filme não é sobre sexo, é sobre poder. E não é excitante, a menos que a apatia seja algo que te agrade. Nossa protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin) conta sua história a Seligsman (Stellan Skarsgard), um homem que a resgata da rua, toda machucada e quase inconsciente. Ela foi deixada ali não se sabe porque e o homem que a resgata salva sua vida. É uma história pesada e com bastante sexo, mas do tipo que envolve doença, ela não é ninfomaníaca dos títulos baratos e acrobáticos dos filmes pornôs, ela é ninfomaníaca como diagnosticada com uma doença que a domina, que ultrapassa seus sentimentos e intelecto. O filme é grandioso, tem alguns momentos que poderiam ser feitos de outra forma e é longo, se considerarmos as duas partes. Foram lançados separadamente nos cinemas. Vale muito a pena, mas precisa de estômago. O final é a própria representação da sociedade e é tudo o que eu vou falar. Além dos já citados, encontraremos Uma Thurman, Willem Dafoe, Christian Slater e Shia LaBoeuf.

Sherlock (2010 -, de Mark Gattis e Steven Moffat) – 90 min
Para pararmos um pouco de pensar sobre todas as coisas que envolvem o filme acima e podem me convidar para todas as discussões sobre ele, segue uma série ótima da maravilhosa BBC para nós: Sherlock. Sim, é sobre deduções investigativas brilhantes, é sobre o cultuado e divertido Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) e Dr. Watson (Martin Freeman). Os episódios são longos, duram 90 minutos, mas as temporadas são super curtas, de 3 episódios. A produção é imensa, porque a série ganha efeitos especiais, muitas locações e personagens, sendo ambientada nos tempos de hoje. O mais divertido é ver os personagens dialogando e Benedict e Martin fazem uma dupla incrível no que parece ser um quase adolescente (Sherlock) e seu fiel escudeiro mais maduro, mas que precisava de alguma ocupação depois de uma vida tensa no Afeganistão (Watson). A estratégia de ser um seriado curto, como as minisséries da Globo funciona bem, porque quando chegamos perto de cansar, a temporada acaba e precisamos saber o que vai acontecer depois. A série ganhou 73 prêmios além das 107 indicações, acho que vale, pelo menos, dar uma olhada.

Ferrugem e Osso (2012, de Jacques Audiard) – 120 min
Pense num filme bonito? Esse pode ser sobre uma história de amor, quase dá pra chamar de romance, embora não seja o foco do filme. É sobre duas pessoas que vivem dramas fortes e distintos e o superam juntos, em uma ligação muito mais profunda de amizade do que de amor. Stéphanie (Marion Cotillard) é uma treinadora de baleias Orca, daquelas de parques aquáticos. Alain van Versch (Matthias Schoenaerts) é um jovem pai de um garoto que não tem trabalho e precisa encontrar um de qualquer forma, a fim de poder dar alguma vida para seu filho. Os dois se conhecem em uma boate e dali não sai nada, mas ele a ajuda, lhe dando uma carona para casa. Vão se encontrar mais adiante e aí então saberemos mais. É de uma fotografia magnífica em seus contrastes, na aproximação dos personagens. É de uma edição brilhante nas cenas de luta e na construção da história e, para melhorar de vez, é econômica em palavras, do jeito que muitos filmes deveriam ser. É o tipo de filme que nos provoca a conhecer toda a filmografia do diretor e roteiristas, para continuar com estes sentimentos e construções narrativas. Ganhou um milhão de prêmios e vou rever. Ah! Lembra de Piaf que indiquei aqui outro dia? Pois, é ela a protagonista. O filme é belga e vale uma atenção para a cinematografia do país – os filmes tendem a ser impressionantes.

Tubarão (1975, de Steven Spielberg) – 124 min
Continuando a saga sobre filmes de poder que tal um em que a natureza se vira contra nós e nos ameaça? Tubarão é um clássico que todo mundo já viu, mas a trilha sonora permanece em nós para sempre e nos faz querer rever. Não é da safra nova da Netflix, mas é eterno. Spielberg nos traz um suspense aterrador sobre um tubarão que ameaça uma praia e a única solução que o homem encontra para ter paz e poder mergulhar novamente é matá-lo. Mas o tubarão não é bobo nem nada, então dá bastante trabalho e literalmente toca o terror onde aparece. A sinopse é simples assim mesmo, mas o filme é maravilhoso. É um dos marcos do cinema de terror, um dos marcos na carreira do diretor que todo mundo conhece. Tem seus momentos trash, mas de forma geral é até um filme sério, considerando seu gênero. Levou três Oscars, é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e em todo mundo, e carrega um elenco de peso: Roy Schieder, Robert Shaw e Richard Dreyfuss.

Grandes Momentos (2012, de Michael Mohan) – 97 min
Agora, como não poderia faltar, uma comédia romântica daquele tipo: boba, gostosa, não estúpida e do tipo que dá pra ver algumas vezes. Sarah (Lizzy Caplan) é a mocinha da livraria que namora Kevin (Geoffrey Arend). As coisas não estão muito bem quando ela conhece Jonathan (Mark Webber, que com esse filme me fez buscar todos os outros em que participou) e da mesma forma, nem tudo são flores. No meio disso, Beth (Alison Brie, a Trudy Campbell de Mad Men), sua irmã, está enlouquecida com os preparativos para o casamento com Andrew (Martin Starr) e tudo vira um novelo difícil de desatar. O filme é leve, despretensioso, mas com personagens bem construídos e diálogos simples e eficientes. Funciona muito bem em tudo e é um passatempo delicioso.

Bonus track!!
Perdidos na Noite (1969, de John Schlesinger) – 113 min
Esse filme não sai da minha cabeça. Demorei muito para assisti-lo, mesmo com todas as suas credenciais e o resultado foi surpreendente, de fato. Vou escrever propriamente sobre ele, mas acho que se encaixa nesta lista, já que pode ser sobre amizade, sobre redenção e poder. Joe Buck (Jon Voight) é um texano que decide encontrar uma vida melhor em Nova York. Ele acha que por ser bonito e atraente vai conquistar as mulheres da cidade grande com botas de cowboy e um eterno bronzeado. De cara, claro, as coisas não funcionam assim, toda grande cidade sabe ser cruel com os ingênuos. De alguma forma, ele cruza com Ratso (Dustin Hoffman) e pode se dizer que se tornam amigos. Os dois, miseráveis e sem trabalho, seguem tentando se dar bem e enfrentando as consequências de muita pobreza e ideias românticas demais sobre ganhar a vida, para dizer o mínimo. Os dois atores, hoje já grandes nomes da cinematografia americana, aqui estão soberbos. A trilha sonora é de uma nostalgia gritante, da mesma forma que para nós é ver a Nova York de mais de 40 anos atrás com um viés urbano de sombras, sujeira, vida real. O filme é tão bem construído que trechos dele soam com documentais, tamanha composição realista daquela rotina e narrativa. É impressionante e perfeito. Até o fim. Veja com calma, se deixe levar pela história, não ache que é um filme comercial. Você vai se impressionar. E se incomodar um pouco. Levou melhor filme, roteiro e direção no Oscar de 1970, além de outros 24 prêmios e 15 indicações.
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Biluca e She-Ra
She-Ra morreu e eu não estava lá. Não estive ao seu lado nos minutos finais, não estive durante muitos outros minutos em oito anos morando longe. She-Ra foi minha cachorra, minha heroína do início da faculdade até hoje. A dálmata mais linda, com as pintinhas mais bem posicionadas que já vi, as orelhas pretas, o melhor sorriso.
She-Ra veio morar em nossa família por minha causa. Fiquei muito triste depois que Duque, o pastor alemão mais lindo e corajoso da minha vida precisou ir embora, estava ficando muito violento. Ele apanhava na minha casa quando não estávamos lá, pela empregada doméstica e não sabíamos de nada. Quando soubemos, já era tarde e o cachorro só respeitava a mim. Meu pai disse que ia entregá-lo para a polícia e é nisso que eu tento acreditar até hoje. Duque era incrível, e era bom.
bom dia na janela do quarto
Chegou de noitinha, eu ainda estava triste e quase não quis encostar nela. Era um filhote bem pequeno de poucos meses e fiquei olhando, até que me apaixonei em questão de segundos. Lá em casa os cachorros dormiam na varanda ou na garagem, mas ela chorava muito e eu ficava acordada até todo mundo dormir para levá-la pra dentro, escondida em um abraço. Dormíamos juntas e eu não ligava quando reclamavam comigo todas as manhãs.
Foi mãe de quatro: Gorpo, Esqueleto, He-man e Tila, que depois ganhou o apelido Biluca. Biluca mora lá em casa e hoje está mais triste do que qualquer outro dia de sua vida, hoje ela dormirá sozinha e há dias não come muito. Biluca nasceu com o céu da boca aberto, com uma fenda interna e toda vez que tentava mamar, engasgava e os irmãos tomavam seu lugar. O veterinário disse que sua única chance seria se a alimentássemos com mamadeira, mas ela era muito pequena e não cabia o bico em sua boca. Eu e minha irmã nos revezávamos com seringas com leite até ela se desenvolver e conseguir beber na tigela, com todo o desconforto do líquido entrando no nariz. Ela é menor do que os outros desde sempre e um pouco maluca, mas tem o mesmo coração de ouro e sorriso engraçado da mãe. Sim, dálmatas sorriem.
três meninas felizes
Eu sinto muita falta de minhas meninas, mesmo tendo sido essa a minha escolha. Seria crueldade mantê-las em um apartamento, com tão pouco tempo para dar atenção. Então, sempre que vou a Salvador passo um tempo com elas, brincamos, passeamos, matamos a saudade e quando vou embora elas não se despedem, me dizendo que tudo tem limite nessa vida. É uma saudade provisória e perene, assim, simultaneamente. She-Ra significa casa no sentido completo de aconchego, família, carinho, tranquilidade, preguiça. Ela inteira era feita de amor e isso se via em seus olhos, no jeito como encostava pedindo um afago, em como sempre me acompanhava na varanda, na rede, na grama, em como brincava com todo mundo e jamais rosnou para alguém.
Hoje está difícil, mais do que achei que seria. Histórias, imagens felizes, brincadeiras dessa moça tentam aquecer meu coração e minha memória, e me prendo em seu olhar e sorriso. Está tudo certo. Chegamos naquele momento em que o que resta de físico é sofrimento e ninguém precisa disso por muito tempo. Minha velhinha se foi e se correm hoje algumas lágrimas, são de gratidão, não essa superficial, new-new age gratuita, mas por 14 anos de amor incondicional, recíproco e de saudade, muita.
Um beijo, minha pequena. Foi uma alegria e uma honra viver com a senhorita.
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O trailer mostra um filme francês de super-herói e dá vontade de ver pela combinação das palavras mesmo: filme, francês, de super-herói. Inusitado em sua concepção e produzido sem efeitos especiais, a produção de baixíssimo orçamento do diretor, roteirista e protagonista Thomas Salvador se constrói sob a égide de um filme de gênero, quase o rompendo enquanto conceito.

Thomas Salvador é Vincent, um homem que, ao entrar em contato com água, ganha superpoderes. O que ele faz com isso? Aparentemente nada. Qual é sua missão na Terra? Ninguém sabe. Ele sequer se fantasia? Não. A graça está justamente nisso, em um cara qualquer que, quase por acaso, tem uma particularidade. E é aí que o roteiro quase se perde.

Leve, divertido e interessante, o filme trata desse homem que chega a um vilarejo próximo de grandes lagos, encontra emprego e se firma. Ali conhece sua namorada Lucie (Vimala Pons) e tudo parece correr bem, até que um amigo recente, Driss (Youssef Hajdi), se envolve numa briga e ele vai ajudá-lo. Acaba perseguido pela polícia. A trama corre por caminhos como se o acaso estivesse sempre alterando sua vida e isso é interessante, já que há filmes suficientes de super-heróis querendo salvar o planeta de alguma ameaça obscura, e chegamos nos cinemas com aquela ideia clara do que vamos ver. Vincent não quer salvar ninguém de nada – à exceção deste amigo e só porque estava por ali no momento – e sua cidade é quase idílica de tão tranquila. Em tempos caóticos no Brasil, até dá vontade de morar lá.

O fato é que algo se perde no caminho. Ficamos esperando a trama se desenrolar e até nos divertimos com o romance deste homem calado e tranquilo com uma mocinha engraçada e meio circense. A quase ausência de diálogo é uma das graças do filme, recurso pouco utilizado no cinema do gênero e aqui funciona muito bem. Não há muito que dizer, de qualquer jeito. A fotografia segue os tons do verão europeu e a música corrobora para um filme cheio de gracejos. A montagem cansa um pouco; as perseguições longas demais nos fazem questionar qual é a relevância de tantas sequências e a estrutura narrativa se afrouxa. O diretor disse em entrevista recente que passou um bom tempo trabalhando no roteiro do filme, mas talvez por ser seu primeiro longa-metragem – já havia dirigido curtas – faltou uma percepção maior de ritmo e equilíbrio.

Ainda assim, o filme nasce com uma ótima premissa e nos deixa pensando sobre o que é ser um super-humano, ao invés de super-herói. As cenas de natação e seus poderes de escapar das situações são impressionantes. A construção de artefatos, dispositivos para promover os efeitos visuais não computadorizados nos deixa surpresos, pois nos fazer lembrar filmes de décadas passadas. Da mesma forma, há uma referência ou homenagem ao Homem Aranha em uma cena com Lucie que não conto aqui. As cenas de intimidade são deliciosas e pouco realistas, de uma ingenuidade ou leveza infantil. Talvez seja esta a graça dos filmes de herói.

Por um momento, esperei a grande metáfora sobre meio ambiente, poder e importância da natureza no desenvolvimento humano, mas passa longe da intelectualização. A ideia é transmitir a ilusão do gênero e seus protagonistas o fazem muito bem. Não é uma obra-prima, mas não chega a ser perda de tempo. A interpretação do diretor parece tão sutil, que não sabemos se ele está de fato interpretando ou só participando das cenas, tornando real tudo o que havia imaginado antes das filmagens. Há uma calma e brincadeiras de um filme de verão que fazem valer o ingresso, se você não estiver esperando muito. 

Veja o trailer aqui!
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E chegou o momento em que temos um novo presidente que é quase Frank Underwood. E uma semana corrida e cheia de reviravoltas em nossa política. E na última sexta, um assalto à mão armada. E a sorte de não ter morrido. Com tantas emoções ao mesmo tempo, tinha que acabar mesmo era em uma sexta-feira, 13, que prefiro pensar ser sempre de sorte. Nesta edição, filmes fortes, crimes, suspense, drama, mulheres maravilhosas, série e uma comédia romântica, para nos deixar respirar aliviados. 

O segredo de seus olhos (2009, Juan José Campanella) – 129 min
Esse um monte de gente já viu, com certeza. Um dos filmes argentinos que teve mais relevância nos últimos tempos, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro, leva 4 grandes atores: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago e Javier Godino. Um assistente de tribunal aposentado resolve escrever um livro sobre um crime não resolvido cometido muitos anos antes na Argentina. Um estupro e assassinato de uma mulher dentro de sua casa, não se sabe como e nem quem o praticou. Tendo acompanhado o caso de perto e ficado entre um transtorno e obsessão pela violência e mistério, Benjamín (Darín) inicia seu livro e, enquanto relembra a história do crime, lhe passam cenas de seu passado, quando conheceu a juíza Irene (Villamil), que acabara de entrar no tribunal e passa a ser sua chefe. Cruzando passado e presente com um roteiro sensacional e muito bem dirigido, com final surpreendente, aqui tem tudo: suspense, comédia, drama e romance.

Amante a Domicilio (2014, de John Turturro) – 90 min
De um suspense complexo para um filme tranquilo. Comédia do melhor tipo, sem catástrofes, mortes repentinas e com Woody Allen contracenando com o diretor, roteirista e protagonista, John Turturro. A partir de uma situação inusitada, um daqueles acasos da vida, Murray (Allen) convence Fioravante (Turturro) a serem cafetão e garoto de programa, respectivamente. Isso tudo muito discretamente, claro e delicadamente sem ser canastrão, como só Turturro conseguiria. Com um elenco estelar (Sharon Stone, Liev Schreiber, Vanessa Paradis e Sofia Vergara), atravessamos uma história com personagens complexos em uma estrutura clássica de roteiro. Filme para se distrair, de coração aberto. 

Dr. Fantástico (1964, de Stanley Kubrick) – 95 min
É de um grande mestre. Comédia inteligente sobre um apocalipse a la Guerra Fria, Peter Sellers se consagra – como se a essa altura de sua carreira precisasse disso – mais uma vez como um ator imenso. Sátira de tempos difíceis, um general decide detonar uma bomba atômica enquanto militares e políticos de alto escalão tentam negociar seu impedimento reunidos em um salão. Além de Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Slim Pickens e James Earl Jones marcam presença. Para quem não lembra, o diretor é o mesmo de Lolita (1962), Laranja Mecânica (1971) - tem crítica! - O Iluminado (1981), Nascido pra matar (1987), De Olhos bem Fechados (1999)... e acho que posso parar por aqui.

Trainspotting (1996, de Danny Boyle) – 94 min
Quando estava checando o elenco do filme no IMDb, vi que terá uma sequência a ser lançada ano que vem, partindo do livro Porno, de Irvine Welsh (que então tinha escrito Trainspotting). O diretor é Danny Boyle, que dirigiu 127 Horas (2010), Quem quer ser um milionário? (2008) e Cova Rasa (1994). Um grupo de amigos leva uma vida de drogas e festas sem fim, sem grana e aparentemente sem futuro. Renton (Ewan McGregor) decide sair disso e enfrenta a abstinência enquanto entra em crise com os amigos ao tentar sair da antiga rotina. O filme traz uma narrativa nervosa, coerente com sua estrutura dramática e se garante em planos e montagem extraordinários, fruto das alucinações por que passam os personagens. Um dos melhores filmes já feitos, traz também Ewen Bremmer, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle, peter Mullan e Kelly Macdonald.

Orange is the new black (2013-, ) – 59 min
Produzida por Jenji Kohan, com uma equipe imensa que até hoje carregou 18 diretores em 4 temporadas (a última estreia 17 de junho), já levou 6 Globos de Ouro e mais não sei quantas premiações. Piper Chapman (Taylor Schilling) é presa por transportar dinheiro para sua namorada (Laura Prepon, de That 70's Show), atuante em uma quadrilha internacional de tráfico de drogas e pega 15 meses de prisão. Vivendo uma vida tranquila e tendo cometido o delito 10 anos antes, enfrenta o choque de uma realidade de conviver com mulheres de todos os ‘tipos’. Ali terá preconceitos, raivas, risos e uma mudança de vida e pensamento, uma transformação total. Ainda estou na primeira temporada, mas já entrei no modo vício. É imperdível, uma das séries mais completas que já vi. É aproveitar enquanto há poucas temporadas e dá para acompanhar.
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Fim de semana do dia das mães chegando e por que não falar um pouco sobre elas? Essas moças que são responsáveis por nossa existência (não que os pais não sejam, calma Brasil!), nos trazem a vida, educação, carinho e amor eternos. Nada mais justo que lhes dar uma sessão de filmes variados e especialíssimos. Se por alguma infelicidade você estiver longe da sua, sem problemas, os amigos e a família estão aí pra isso. É diversão garantida!

Tudo sobre minha mãe (1999, de Pedro Almodóvar) – 101 minutos
Vamos de Almodóvar no dia das mães? Além do Oscar de filme estrangeiro, esse levou outros 54 prêmios e 37 indicações. Olha o elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz, para ficar com as mais conhecidas. Essa é a história de várias mulheres ao mesmo tempo, mas a linha narrativa corre sobre a de Manuela, que sofre com a morte do filho. Além disso, o filme fala sobre mulheres e suas vidas, diversas maternidades, amizades, preconceitos, histórias ficcionais que bem poderiam ser reais. Com um roteiro impecável e a direção de ‘você sabe quem’ (Fale com ela, Má educação, A pele que habito, Volver, etc), é filme obrigatório para a vida.

Tudo pode dar certo (2009, de Woody Allen) – 92 minutos
Woody Allen em sua melhor forma e para quem não gosta do homem atuando, ainda serve de alívio. Aqui ele chama outro comediante de peso, Larry David, para falar sobre as complicações da vida a dois e como conviver com as diferenças. O filme é uma delícia, Larry David – que criou a série Seinfeld junto com Jerry – é Boris, um homem separado e cheio de manias, medos e com toda essa inteligência e insegurança colossais, surge um humor único, um pouco da voz do próprio Woody. A seu lado, uma Lolita fofa e nada boba (ou talvez um pouquinho) de nome Melody, por Evan Rachel Wood. Além da dupla, ainda temos Patricia Clarkson em um papel maravilhoso como a mãe de Melody. Imperdível, leve e divertido.

Forrest Gump (1994, de Robert Zemeckis) – 144 minutos
Outro dia uma amiga me disse que não tinha visto Sociedade dos poetas mortos, um desses filmes de tempos atrás que a gente acha que todo mundo conhece. Levando isso em conta e como volta e meia aparece um clássico que perdemos por alguma razão, eis Forrest Gump. Tom Hanks encabeça um ótimo elenco nesta história de vida e amor tão terna quanto linda. O filme é um desses clássicos modernos, com Robin Wright (sim, Claire Underwood de House of Cards), Sally Field e Gary Sinise que a partir dos acasos, encontra uma alternativa para viver, ultrapassando grandes momentos da história norte americana (e em alguma instância, mundial). Ainda duvida? Zemeckis dirigiu a trilogia De volta para o futuro. E Náufrago.
 
Preciosa (2009, de Lee Daniels) – 110 minutos
Primeiro papel da vida de Gabourey Sidibe, Preciosa é um soco no estômago. A moça negra, pobre e obesa parece ter vindo ao mundo para sofrer. Vindo de um lar disfuncional – que soa até eufemismo, perto das barbaridades que vive – não parece haver escapatória para a moça e em algum momento a história que já parece ruim, piora absurdamente. Passando por esses nós que constroem a vida de nossa heroína, dê tempo e verá porque é uma das grandes atrizes de nosso tempo, já em sua estreia. Lee Daniels é o diretor de O Mordomo da casa branca (2013) e traz junto com Sidibe, Lenny Kravitz, Mariah Carey e Mo’Nique em uma interpretação que nos dá vontade de socar a tela, como a odiosa mãe de Preciosa.

Juno (2007, de Jason Reitman) – 96  minutos
Pronto, agra acabou a sessão tortura do dia das mães e veio a bonança. Juno é um drama que lançou Ellen Page. A garota, ainda na escola, engravida do namorado (Michael Cera) e entende que não tem maturidade suficiente para criar a criança, ainda que descarte o aborto como opção. Assim, esse drama-comédia nos leva neste misto de maturidade e adolescência, na convivência familiar e na quebra de paradigmas. É muito bom.  Aqui você ainda encontra Jennifer Gardner e Jason Bateman. Dá pra ver em família e ainda rende grandes e interessantes debates.   
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Ambientado nos anos 80, Os inimigos da dor traz uma estranha fábula sobre um homem torto na vida que tenta resolver um problema pessoal e esbarra em outros um tanto maiores do que ele próprio.

Um alemão (Félix Marchand) está perdido em uma Montevidéu suja, desolada, vazia e eternamente escura, mesmo quando é dia. Ele não fala espanhol e tudo o que lhe resta são garranchos do idioma e gestos de desespero com que tenta se comunicar. Em busca da mulher que lhe abandonou na Alemanha e sem um tostão, rouba a carteira do segurança da rodoviária (Lúcio Hernández) que vive uma crise conjugal. Suas histórias se cruzarão mais tarde, somando-se a de um adolescente abusado sexualmente por outros homens, um sujeito depressivo e deprimente (Pedro Dalton) que pouco fala e tenta ajudar a todos, ainda que se lamente ou preveja um futuro ainda pior do que o presente e um culto religioso ao estilo Igreja Universal meio sem propósito.

Nada parece ir bem para os quatro e mesmo assim nos apegamos a eles, porque juntos conseguem se defender e tentarão resolver a vida do alemão, que agora quer ajudar o infeliz garoto. Com interpretações um pouco exageradas mas pertinentes ao clima de estranhamento, ótima fotografia e trilha sonora, o filme parece ter tudo, até que algo começa a incomodar: sua estrutura narrativa.
O roteiro é a mãe de qualquer produção, é de onde parte a história e o motivo para filmá-la, ainda que se desconstrua sob improvisos no futuro. Em Inimigos, há um grave problema de foco, há uma crise no direcionamento, a trajetória dos personagens seguem sem rumo, como se houvesse uma dificuldade em definir seus destinos e ficamos à mercê de desdobramentos forçados. Por um momento pensei que seria como Depois de Horas (Martin Scorsese, 1985), quando Paul Hackett (Griffin Dunne) não consegue chegar a sua casa depois de uma longa noite cheia de acontecimentos insólitos. Na obra de Scorsese há uma razão para cada sequência e o próprio protagonista não entende as loucuras em que consegue se meter, atravancando seu caminho. Tudo ali funciona, tem sua razão, inclusive a onda de situações por que passa nosso herói. Neste primeiro filme de Arauco Hernández, o alemão nunca consegue falar ao telefone com sua mulher para reencontra-la, mas de repente o foco está no garoto ou no segurança da rodoviária (ou seria aeroporto?), ou no fato do protagonista não estranhar uma cidade onde nunca pisou e esta lhe parecer quase corriqueira, não fosse a dificuldade da língua. Ele sempre parece mais irritado do que espantado com aquilo tudo.

Como filme de diretor estreante, é bem feito tecnicamente e chama a atenção. É preciso aguardar uma nova produção para entender sua forma de contar uma história e confirmar se essa dissociação é fruto desta narrativa em particular ou será uma marca de estilo, apesar de falho. O fato é que assistimos muito tempo de introdução, conhecemos os personagens, mas o clímax parece nunca chegar. Em seu ápice há outra história, um desdobramento de um personagem secundário e um desfecho à fórceps com a construção de uma relação de amizade pouco plausível para ser duradoura.
É um filme possível, mas passa a impressão de estarmos sempre nos primeiros capítulos de um livro policial que tenta desvendar um crime, mas no final nem sabemos se o delito foi realmente cometido. Sua montagem lembra um pouco a agilidade da televisão e as transições e efeitos de tempos atrás. Esse ritmo completa o clima do filme e traduz a década em que a história se passa. Não chega a ser um tempo perdido no cinema, mas vá sabendo que há falhas em estrutura e motivação dos personagens para tantas situações desconexas. Pelo humor ácido e estranho, pela dificuldade do idioma e suas alternativas e por alguns silêncios, de repente vale o ingresso.
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Winter is coming aqui no Rio de Janeiro... ou será que já atingiu o Brasil todo? O fato é que nesta capital está muito frio, uma frente fria veio nos salvar – e talvez me deixar resfriada – do calor absurdo de um verão maior do que o normal. E nesse friozinho, vocês me desculpem, mas minha baianidade só me permite ficar em casa, entre livros e filmes, sendo feliz na minha cabana de edredon, a base de café. Para contribuir com esse momento aconchegante de preguiça, pijama e meia, sozinho ou acompanhado, seguem as dicas para esta semana feliz:

Chef’s Table (2015, de Clay Jetter, Brian McGinn, Andrew Fried, David Gelb) – 50 min
Poderia ser mais uma série sobre comida, dessas que abundam nos canais de tv por assinatura, mas esta parece ter algo especial. Como fã de comida e tudo o que a envolve, essa trata dos chefs, um retrato conciso e interessante que dá importância e nos traz o conhecimento sobre algum grande mestre da culinária internacional. O primeiro episódio é sobre Massimo Bottura, este da foto, e de repente estamos em Módena, conversando e conhecendo um homem que modernizou a culinária italiana, que já nos parecia ótima em sua forma tradicional. A fotografia ajuda enormemente e aí temos vontade de morder a tela. Este mês estreia a segunda temporada totalizando doze episódios em sequência de uma das coisas mais gostosas da Netflix.

Thelma & Louise (1991, de Ridley Scott) – 130 min
Estaria na estante dos clássicos modernos, filme que fala sobre amizade, sobre mulheres, sobre machismo e liberdade. Quando estudava roteiro na faculdade, meu professor costumava dizer que este é um filme completo; sua estrutura é perfeita, seus pontos de narrativa e virada funcionavam no padrão clássico e ainda era híbrido em gênero. Eu concordo com tudo, mas você nem precisa intelectualizar e tentar explicar demais. Vai assistir as performances de Geena Davis, Susan Sarandon e Harvey Keitel, vai encontrar Brad Pitt em início de carreira e corre para ver os desdobramentos de um filme fácil de ver e que, ainda assim, toca em questões universais e relevantes ainda hoje. Se ainda precisar de mais referências, Ridley Scott é diretor deste e de Alien, Gladiador e Blade Runner.  

Manhattan (1979, de Woody Allen) – 96 min
Bem achei que já tinha indicado este, mas me parece que só escrevi a crítica. Este é um dos trabalhos que deu relevância a um Woody Allen de quase quarenta anos atrás, antes de rodar pela Europa, mas já consagrado, escalando Meryl Streep, Diane Keaton e Mariel Hemingway, todas bastante jovens e já grandes atrizes. Ele já seguia fazendo filmes em Nova York e esse aqui é de uma beleza sem igual. Ele está no filme então se você o odeia ou não gosta dele atuando, talvez encha o saco, mas é realmente bonito e inteligente. Tem outra questão polêmica, que é o relacionamento dele com uma garota e aí entram questões delicadas e difíceis de digerir, pensando na própria história de vida do diretor. Em todo caso, o filme tem uma beleza fotográfica, é uma ode a Manhattan, tem aquele velho jazz maravilhoso de todos os seus filmes e grandes diálogos. Eu acho uma delícia para esse inverno súbito. A crítica está aqui!

Bonequinha de Luxo (1961, de Blake Edwards) – 115 min
E já que estamos em Manhattan, por que não um clássico da cidade? Bonequinha de Luxo traz Audrey Hepburn como essa moça que tenta ganhar a vida em uma das cidades mais caras do mundo e sonha com luxo e vida fácil enquanto esbarra no dia a dia de encontros vazios, festas e assédios. Dirigido por Blake Edwards – o pai daqueles clássicos da Pantera Cor de Rosa, com Peter Sellers – e baseado no livro homônimo de Truman Capote é uma versão da cidade de mais de cinquenta anos atrás e em muitos momentos não conseguimos entender como uma garota frágil como Holly Golightly consegue sobreviver naquela cidade de homens – mas ela também não é boba nem nada. É uma comédia romântica, gostosa e leve para uma tarde fria. Lembra daquela música Moon River? Está aqui.
 
Johnny e June (2005, de James Mangold) – 136 min
Pulando pra música, Johnny Cash. Este drama conta um pouco da história de um dos cantores mais importantes dos Estados Unidos e foca precisamente na relação com June Carter, que depois de muita novela, virou sua mulher e parceira. A história é linda, traz Joaquin Phoenix em uma caracterização que daria para dizer incorporação do cantor. Ele não somente interpreta muito bem – para quem não lembra, é o ator de Her (2013, de Spike Jonze) – como canta muito bem, dando voz à trilha sonora do filme. Reese Witherspoon não fica atrás e juntos eles têm uma química que faz gosto de ver na tela. Filme grande, americano clássico, provavelmente terá algumas diferenciações da vida real do cantor e algum fã super fiel pode reclamar, mas se você quer só se divertir e conhecer um pouco da vida e carreira de Johnny Cash, vem ver.

Conta comigo (1986, de Rob Reiner) – 89 min
O filme extra da sessão, porque me empolguei hoje, é Conta Comigo. Rob Reiner dos anos 90, com River Phoenix (o irmão de Joaquin, da dica anterior), Kiefer Sutherland (lembra aquela série 24 Horas?) ainda crianças, e baseado em um livro de Stephen King, é uma história sobre infância e amizade, onde um grupo de amigos se envolve em uma aventura bastante perigosa. Filme com carimbo de sessão da tarde da minha infância, deve ter passado mais de 100 vezes na televisão, mas ainda acredito que nem todo mundo viu. Tem uma cena traumatizante para mim, que me fez ter medo de água de rio durante muito tempo, mas deixo em aberto para não estragar a surpresa. Se ainda precisa de referências, Rob Reiner fez Harry e Sally (1989), que indiquei na primeira edição das Maravilhosidades e A história de nós dois (1999), além de ser ator, produtor e roteirista. Vale cada minuto.
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Há muito tempo atrás, quando havia locadoras, dvds e filmes em vhs, os feriados eram sempre uma emoção a ser compartilhada. Estantes esvaziando, gente perdida passeando pelos corredores, entre as prateleiras sem saber que filme ver, que ator era legal, qual era o nome daquele diretor estranho, será que um filme estrangeiro seria uma boa... e nós ali, aguardando nosso momento de opinar, indicar, quem sabe nosso gosto combina ou nossos argumentos ajudam... Mas agora seus problemas acabaram! A listinha da Netflix está mais eclética do que nunca!

Em uma semana conturbada para o país em que ainda patinamos sobre previsões quanto ao nosso futuro sombrio, segue uma lista diversa e interessante, com uma pegada mais internacional do que de costume:

Meus 533 filhos (2011, de Ken Scott) – 109 min
Esse foi indicação de meses atrás de Catarina Rangel, fotógrafa, amiga e também baiana residente no Rio. De molho em casa no último fim de semana, consegui me atualizar e esse filme é uma delícia de ver. Dirigido por Ken Scott que também escreveu o roteiro junto com Matin Petit, a mesma dupla fez um remake americano em 2013, com Vince Vaughn. O original franco-canadense é ótimo. Leve, carrega Patrick Huard como David Wozniak, um cara do bem e enrolado, entrando nos 40 anos e sempre com problemas de dinheiro. Tempos atrás, para ajudar a sanar as dívidas, frequentou uma clínica para vender seu esperma e assim, anonimamente, é pai de 533 filhos. Destes, 142 decidem entrar na justiça a fim de saber suas origens.  A trama gira em torno de um dilema moral que parte de uma situação absurda, mas o filme ultrapassa o fantástico e ganha nosso coração, em situações engraçadas e cativantes. É uma boa forma de começar o feriado.

Master of None (2015, de Aziz Ansari e Alan Yang) – 30min
Aziz Ansari é um comediante em ascensão nos Estados Unidos. Junto com Alan Yang, são criadores de Master of None e já haviam trabalhado juntos em Parks and Recreation. Master trata da vida de um jovem ator tentando seu lugar ao sol em NY, vivendo com os mesmos dilemas de qualquer ser humano entre os vinte e tantos e trinta e poucos anos. A série vai além de Friends, How I met your mother ou Girls. Ela atravessa diversos temas de forma inteligente, crítica e algumas vezes irônica, incrementando em qualidade o interesse de um público diverso. Racismo, sexualidade, carreira, relacionamentos, amizade, está tudo aí e dá vontade de ver mais. Vale muito a pena. Das melhores séries que há hoje na Netflix. Vi em dois dias.

Winter on Fire: Ukraine's fight for freedom (2015, de Evgeny Afineevski ) – 102min
Lembra da crise política da Ucrânia, que se alastrou e se transformou em uma questão internacional, envolvendo a anexação da Criméia pela Rússia? Aqui é o início de tudo, o estopim, a escalada da violência policial e o levante popular, influenciado pelos acontecimentos anos atrás na praça Tahir, no Cairo. Agora tudo acontece na praça Maidan e vemos um pouco do que se pode fazer pelo país e as consequências políticas e sociais das manifestações. É imperdível, pertinente pelo momento que vivemos e já falei sobre isso, sobre o Cairo e sobre nosso Brasil no Medium.

LFO (2013, de Antonio Tublen) – 94min
LFO é uma sigla em inglês para Oscilação de Baixa Frequência, que significa um sinal de áudio que não se ouve, mas ainda assim emite uma vibração. Patrik Karlson – em grande atuação – é Robert, um homem que vive trancafiado em casa pesquisando variações de LFO e trocando experiências sobre o assunto com pessoas ao redor do mundo, via internet. Vive sozinho e descobre uma modulação que é capaz de hipnotizar pessoas e ele passa a usar isso em seus vizinhos (Izabella Jo Tschig e Per Löfberg) como um experimento, sem seu consentimento e em benefício próprio. É o início de uma série de acontecimentos permeados de humor negro e um clima frio que segue se intensificando à medida que as situações parecem próximas a fugir de seu controle. O roteiro e seus atores sustentam a trama que se maquia de lentidão, mas segue de acordo com uma rotina cada vez mais perversa e perigosa. Alemão, com poucos cenários e bastante criatividade, é daquelas comédias inteligentes que não dão pra gargalhar, mas ficamos de cara com o que vemos. 
 
Romance de Manhattan (2015, de Tom O'Brien) - 94 min
Estou correndo risco com esse aqui. Simples, despretensioso, mas me fisgou com essa pegada de câmera na mão, filme independente, baixo orçamento. Tenho uma identificação com filmes pequenos porque eles costumam ser inventivos. É a velha regra da crise econômica: se não há dinheiro e tem que fazer bonito, puxa na criatividade. Costuma funcionar, é só pensar na medida certa contando com a realidade do orçamento. Voltando: é uma ficção que conta a história de Danny (Tom O’Brien, que dirige e escreve, além de ser o protaognista), um cara que decide fazer um documentário sobre relacionamentos em Manhattan, a partir de seus próprios relacionamentos com amigos, familiares etc. Essa investigação ganha cores com um bom elenco (Katherine Waterston - uma das minhas atrizes favoritas, Caitlin Fitzgerald e Gabby Hoffman, incrível em Girls) e seguimos sem muito esforço. É um pouco como gente como a gente e é dos assuntos que me interessa normalmente, comportamento, gênero, pessoas. É como uma comédia romântica, mas menos boba que o costume. Tenta e me fala! ;)
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Demon é um filme de expectativas. Toda a sua narrativa, seu ritmo é um crescente em suspense que nos prende minuto a minuto, com fotografia, enquadramentos, trilha e atores que juntos garantem nossa ansiedade, nossa vontade de entender o que está acontecendo com aquelas pessoas em uma festa de casamento. Até que algo dá errado.

A proposta de um filme de terror é, obviamente, nos causar medo. Pode ser aquele de momento, que vem em uma sequência de sustos e vemos o assassino ou, que me parece mais interessante, o que trata do sobrenatural. Cada religião é composta de não sei quantos milagres e mitos, lendas que pelo medo e pela fé nos mantêm firmes em tudo o que é inexplicável. Assim, nos prendemos a elas, por acreditar que há algo além de nossa compreensão e, mais simples e importante, há algo além.
Peter :: Itay Tiran
É do sobrenatural que trata a história, com Peter (Itay Tiran) e Zaneta (Agnieszka Zulewska), um casal que se conhecem há pouco tempo, ele inglês, ela polonesa. Apaixonados, decidem se casar e ele se muda para a Polônia, para a pequena cidade natal da amada. Nos preparativos do casamento se hospeda em sua futura casa, a fim de iniciar as obras para adaptá-la à nova vida e lá encontra uma ossada humana no quintal. Sem saber o que fazer, resolve tocar a vida e resolver esse detalhe depois da celebração. É quando tudo se complica para seu lado. 

Hitchcock já dizia que um bom filme de suspense – era seu gênero, mas se aplica também ao terror – deve fazer sofrer ao máximo sua audiência. E seu diretor, Marcin Wrona*, constrói uma grande base: um forasteiro que pouca gente conhece, um mito judaico de possessão, a transformação do protagonista, a reação de sua mulher, um estranho concorrente ao amor da noiva e um professor, que parecem ver uma história se repetir – e talvez deem alguma dica, eu diria que está tudo com estes dois últimos – um padre com medo. Em paralelo, o casamento em si, uma grande festa e a decadência que se promete numa falsa elegância à base vodca suficiente para causar amnésia alcoólica coletiva no dia seguinte, sob um humor obscuro e refinado que os grandes filmes têm. O objetivo é esse mesmo, fazer com que todos esqueçam o que viram ali, aquele espetáculo esquisito, um noivo se comportando como qualquer coisa, uma imagem de vaidade de uma família abastada frente uma ameaça do passado, incontrolável, incontornável.
Zaneta :: Agnieszka Zulewska
Há um ponto em toda a narrativa dramática de resolução da trama que sentimos quando se aproxima. Ele pode tanto ser clímax como aquele momento logo depois, que começamos a ensaiar mentalmente o que entendemos ser o final. A crise aqui é que essa é justamente sua fraqueza. Com a grave situação instaurada, não parece haver saída e o que esperamos dos atores, quase impondo a eles as falas que estão em nossas cabeças, não acontece. Ficamos como órfãos indefesos e angustiados ao perceber que dali não virá muito mais, que ficaremos sem um grand finale. E se em qualquer obra isso é extremamente importante, no terror é fundamental.

A base do terror e do suspense implica em não requerer grandes explicações a respeito de seus acontecimentos. Ao mesmo tempo, se se deixa tudo como está o filme termina aberto demais, de forma que o espectador não consegue encerrar a trama. Há algumas possibilidades aqui e o filme é lindamente construído, Turan e Zulewska são grandes atores que seguram as cenas, especialmente o primeiro, que traduz um personagem torturado em manifestações viscerais e inteligentes, mas todas as conclusões que pensamos são frágeis, com peças soltas no terceiro tempo da narrativa.
Ronaldo (Thomasz Zietek) e Jasny (Tomasz Schuchardt)
Com um início promissor e um desenvolvimento irretocável, o filme peca e desfaz seu novelo sem encontrar uma boa ponta, como acontece com as expectativas frustradas. Sua construção funciona como elaboramos nossas ideias sobre alguém, algum projeto, alguma viagem e não sabemos o que vai acontecer, se dará certo, não importa o tempo de planejamento e empenho. Sentimos-nos reconhecendo um terreno no tempo de sua duração, em um filme obscuro que desperta interesse e curiosidade e seguimos encantados com seus personagens, com uma fotografia linda e um grande trabalho de arte, do figurino aos cenários. É um filme de produção madura e de qualidade, que se garante em seus aspectos técnicos e equipe, mas há algo ali que não funciona. Em qualquer história há uma certeza clara – não de sucesso – mas de coerência, verossimilhança, estudo da trama que precisa garantir sua plausibilidade até o fim. E aqui falha de uma forma estranha de tão rasa, nos deixando sofrendo, imaginando que estava tudo indo muito bem, até esquecerem que havia um roteiro a terminar e amarraram tudo solto demais, quase à espera de alguma sequência que fatalmente diluiria o original e estragaria a boa ideia. Vale a pena ainda assim, desde que se assista com isso em mente.

++++

*A triste curiosidade reside em seu diretor, Marcin Wrona, que cometeu suicídio durante o planejamento de lançamento do filme ano passado, na Polônia. Jovem de 42 anos, sem motivo aparente, o diretor, roteirista, professor de cinema e PHD em estudos sobre cinema nos deixou seus filmes como herança e já uma falta reconhecida no cinema europeu. 
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Com ar de comédia romântica boba como a grande maioria costuma ser, A três vamos lá, traz outros contornos e questões que revelam muito do comportamento e cultura contemporâneos em casais jovens.

Micha (Félix Moati) e Charlotte (Sophie Verbeeck) são um casal que se conhece há alguns anos e vive junto em uma nova casa em Lille. Lá, são amigos de Mélodie (Anaïs Demoustier), uma advogada em início de carreira que atende clientes de difícil defesa. Há alguns meses, Mélodie e Charlotte mantêm um relacionamento escondido, até que o mesmo começa a acontecer entre Micha e Mélodie. Confusa, sem tempo e tendo que montar um cronograma que não interrompa seus compromissos profissionais ou entregue seus relacionamentos com cada parte do casal, Mélodie vive em tensão e confusão constantes.


O filme é leve e gostoso de assistir, é desses de domingo à tarde em algum cinema de bairro, sem compromissos ou pretensões de qualquer obra prima. As comédias românticas têm o propósito de fazer passar o tempo e nos deixar saudosos de alguma coisa que até podemos nem ter tido, mas que não chega a machucar os corações e A três segue essa cartilha. Há, contudo, alguns exageros de roteiro que beiram o absurdo, quase escapando à verossimilhança, mas não chegam a inviabilizar a estrutura básica da trama. O importante é ver o desenrolar dos diversos enlaces amorosos e sua conclusão que me deixou dividida, pensando inicialmente se faltou uma melhor saída para o roteiro ou se, na verdade, é esta a melhor forma de fazê-lo, levando em conta a construção gradual de seus personagens. 
Sophie Verbeeck (Charlotte) e Anaïs Demoustier (Mélodie)
Acreditando que a segunda opção é a mais coerente, o filme reforça um comportamento que reflete o que vivemos hoje, das liberdades e múltiplas visões nos relacionamentos. Hoje, importa muito pouco a opção sexual ou opções como marcadores e rótulos definitivos para as pessoas. O desejo é o principal motivador e ele se define enquanto se instaura, no momento de seu despertar. Da mesma forma, a manutenção das relações é tão fluida ou mais, sobrevivendo como um equilibrista sob um cabo extremamente fino que pende agressivamente para qualquer lado que o vento soprar. Os três personagens são construídos sobre essa base, assim Charlotte é aquela que consegue se manter em um relacionamento, mas, ao mesmo tempo é inatingível, sob uma barreira de proteção para si mesma ela se firma e, ainda que se envolva com um ou outro, não se permite a vulnerabilidade de uma entrega mais profunda. Não é que ela deixe de gostar de alguém, mas ela provavelmente não acredita ainda ter encontrado alguém que lhe desequilibre.

Neste sentido, Micha e Mélodie são semelhantes, não é à toa que ambos se relacionam com Charlotte: há sempre o pêndulo que pesa mais para o lado mais forte, mais controlador e falha para o sensível. Os dois aqui são os sensíveis, que se identificam, se envolvem e preferem a entrega total à entrega nenhuma. São os românicos de nossos tempos, cada vez mais raros, marcados como bobos e que, talvez, vivam de forma mais sincera com eles mesmos e seus pares. No filme, não são os bobos de um possível esterótipo, tocam suas vidas, tomam decisões e é essa a graça do filme. Seus exageros de roteiro se concentram muito mais nas cenas de 'acaso', algumas bastante supérfluas, mas que funcionam como pano de fundo, ilustrações de um entorno onde os protagonistas se encontram.

Hoje são poucos os casais jovens que, em um relacionamento monogâmico permanecem juntos por longo tempo, atravessando situações difíceis antes de desistir à primeira crise. Se nada é tão consistente, se tudo pode ser testado, estão todos disponíveis ou em vias de, e assim, os envolvimentos acabam superficiais, já que o aprofundamento exigiria tempo, escolha - portanto indisponibilidade - e dedicação, como aponta e faz contraponto a personagem de Charlotte. Quanto menor o envolvimento, menos crises, menos aprofundamento, menos cuidado.
A trois: Charlotte, Micha e Mélodie
Essa fluidez é marca do que nos é contemporâneo e não está de todo errado se adequado a seus interesses, mas nem sempre é compreendido, racionalizado desta forma. Uma versão honesta e evidente em todo o filme acontece à Micha e Melodie, considerando a história de cada um deles e as consequências de seu posterior envolvimento. Os personagens são atropelados por suas histórias, quase não dão conta das consequências  de suas ideias. Mas nada que se transforme em tragédia, ao contrário, o filme rende bons momentos e nos faz refletir em meio a um caos, que, ainda bem, não é nosso.


À parte seus exageros, o filme é relevante e divertido, com sequências cuidadosamente elaboradas das cenas de expectativas e sua grande e bonita conclusão. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês que estuda a sociedade contemporânea, encontra em sua teoria o conceito de amor líquido, aquele modo de se relacionar em que sempre estamos buscando alguém com quem dividir os momentos, mas nunca achamos ser suficiente quem encontramos. Em um rápido e simplista resumo, permanecemos numa constante busca por alguém, estando sempre satisfeitos por um tempo, até que o encanto inicial se dissolva e no momento da construção da intimidade, se revolva em uma nova busca, no descarte do anterior. É um ciclo vicioso que culmina em histórias fugazes, como marca de nossos tempos fluidos, sem fixações, bases sólidas de qualquer coisa que requeira tempo para se desenvolver. Aqui, cada personagem põe em prática um tanto desta liquidez à sua maneira e veremos gente como a gente, com uma sinceridade sutil, escondida na leveza que o gênero promete e que passa suas questões mais delicadas quase sem percebermos, nos tropeços de alguns exageros, mas com cuidado na construção de seus protagonistas.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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