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Café: extra-forte

Um minissérie de total protagonismo feminino, ambientada nos anos 60, Estados Unidos, Guerra Fria e um jogo para amarrar tudo: xadrez. Com Anya Taylor-Joy, a menina inteligente de Fragmentado, O Gambito da Rainha é a nova aposta da Netflix, um sucesso garantido e eu posso provar.

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O Gambito da Rainha | Anya Taylor-Joy como Beth

Um bom roteiro

Quem me acompanha aqui sabe que eu insisto na premissa de que uma boa história pode ser sobre qualquer assunto. O que importa é a forma de contar, a narrativa. Em O Gambito da Rainha, temos uma trajetória clássica, digna da jornada do herói, que pode ser verificada na maior parte dos filmes americanos. Entretanto, não nasceu aí, mas nas tragédias gregas. Pelo menos, até onde encontramos registro. O fato é: a forma de contar é sempre a mesma, desde que o mundo é mundo.

A estrutura se concentra em um personagem principal que precisa vencer obstáculos na vida para vencer. Partindo daí, vai encontrar obstáculos menores, depois o maior de todos, se deparará com pessoas que lhe atrapalharão o caminho e outras que serão seu guia. Vai chegar em um ponto em que a mudança de rumo será necessária e assim, se cumprir o que for preciso, alcançará seu objetivo. É assim. Para qualquer história. Em qualquer obra, em qualquer lugar.

Aqui, Beth (Anya Taylor-Joy) é a mocinha que viveu um começo de vida difícil e encontrou no xadrez sua paixão. Ao lado dele, seu maior obstáculo: o vício em tranquilizantes e álcool. A ambiência ajuda: eram os anos finais da década de 50, de comportamentos rígidos e conservadores, então as drogas acalmavam as crianças e adultos a uma convivência harmoniosa ou morna, apagada e apática. Agora, é saber o que Beth precisa fazer para atingir seu objetivo maior. Com uma estrutura muito bem amarrada em sete episódios e sem querer contar muito, indico: a maratona é garantida.

crítica da série O Gambito da Rainha
O Gambito da Rainha | grandes personagens

Elenco experiente e personagens complexos

Com o bom roteiro e personagens bem amarrados - é importante o paralelo entre produções opostas deste 2020: esta minissérie e Modo avião, o filme de língua não-inglesa mais visto na Netflix até então. A comparação entre a construção de personagens nas duas obras, em profundidade, complexidade e, até mesmo, seleção de elenco é interessante. Enquanto naquele, passamos sem grandes intercorrências, com soluções rápidas demais para problemas que deveriam ser sérios, aqui, há um peso em cada história particular, os tornando figuras mais humanas. Assim, garantem o nosso envolvimento e passamos a acompanhar e torcer por eles, como fazíamos nas grandes novelas da Globo dos anos 90 e 2000.

Aqui, cada um está a serviço da protagonista e o mote é construtivo, temos Thomas Brodie Sangster, como um dos adversários de Beth, Marielle Heller, como sua mãe adotiva, Alma e Marcin Dorocinsky, seu maior adversário, Borgov. É uma série que nos leva para cima - um objetivo em comum com Modo avião. Ela nos faz compreender e provoca uma identificação com aquelas dificuldades - por mais díspares que sejam das nossas - vividas por Beth. Enquanto isso, seguimos esperando pelo retorno da amiga Jolene (Moses Ingram) e daquele que originou tudo, o professor de xadrez, Mr. Shaibel (Bill Camp).
 
A diversidade é garantida sob a forma da sutileza. Não é uma obra de denúncia, protesto ou crítica social, mas está tudo ali, nos lembrando que não dá mais para produzir peças mornas, sem crítica e pautadas na vida branca e hetero da classe média americana. Acabou. 

Com muita leveza, o filme marca a época em que se insere com uma boa 'embalagem': figurino, locações, direção de arte e musical seguem impecáveis. Os comportamentos acompanham, em uma tentativa de se quererem patriarcais, mas combatidos à medida da natureza humana, como a única forma possível de viver bem: buscando uma harmonia nas relações. Ao mesmo tempo, por viverem em um período de grande transformação social, é como se todos ali estivessem aprendendo, uma reeducação de valores e moral. Não suficiente, há o pano de fundo político: a Guerra Fria, que se cruza com a história dos famosos gênios enxadristas soviéticos em oposição aos americanos. Tem para todo mundo.

thomas brodie-sangster é um dos adversários e amigos de Beth, Mike.
O Gambito da Rainha | Thomas Brodie Sangster como Mike

O que é o Gambito da Rainha?

O título incomum é também do livro que foi adaptado, de Walter Tevis, de 1983. O autor faleceu um ano depois, quando já havia o interesse para adaptar a obra para o cinema. Heath Ledger também tentou e com sua morte, o projeto ficou parado. O Gambito da Rainha ou o Gambito da Dama é um movimento de abertura do xadrez. Aí vamos para o técnico: o que é uma abertura no xadrez? As aberturas ou movimentos de abertura no xadrez, são um conjunto de estratégias logo no início da partida, com uma série jogadas para conquistar o poder no centro do tabuleiro. Mais do que isso, só checando nos livros e sites sobre o assunto.

O que nos interessa aqui é entender como o título se relaciona com a obra. A Rainha está clara e o movimento para conquistar o tabuleiro acontece a duras penas. É ela quem comanda a própria história, uma criança que virou mulher à custa de muita disciplina equilibrada com descobertas e derrapadas. Com a atuação brilhante de Anya Taylor-Joy, atriz que tem se destacado e amadurecido nas produções que elege para participar, vemos o desenvolver de uma jovem à vida adulta sem amarras, mas com objetivos definidos.

Ela constroi sua estratégia à base de muito estudo, insistindo em outra máxima de que talento existe, mas não funciona como mágica. O talento é uma habilidade e, como tal, precisa ser exercitada. A prática, por sua vez, demanda disciplina e é neste contexto em meio à adolescência que acompanharemos o percurso de Beth. A protagonista faz seus movimentos de abertura para conquistar o centro, espaço masculino em que mulher alguma havia se aventurado antes. Por não haver restrições, já que não havia também precedentes, ela seguiu adiante.

O gambito da rainha, adaptação do livro de Walter Tevis
O Gambito da Rainha | Conhecimento como estratégia

Por que assistir?

Se até agora você anda não sabe porque deve assistir O Gambito da Rainha, digo um pouco mais. Cada episódio é construído com o gancho para o seguinte. Assim, a maratona é quase obrigatória e, por ter um tema que não abala nossos corações, não tem muito barulho - pelo contrário, o silêncio é solicitado - vale para quase todo mundo.

É uma série que promove a ideia do conhecimento, que busca nos estudos, na ciência, seu fim. O verdadeiro valor e tema da produção - não sei do livro, que não o li - não é o xadrez, mas a educação. O xadrez é o argumento, o objeto que funciona como ferramenta. Poderia ser um desafio de matemática, uma grande descoberta, qualquer outra coisa. A graça do xadrez é que é uma disputa, então o conhecimento é uma estratégia de vitória.

O mote de "não há outra forma de vencer que não seja através do estudo" é a graça. Como defensora da busca por conhecimento, a obra me pegou de imediato. O compartilhamento de ideias, também. O protagonismo feminino, idem. O título inusitado, que não me dizia nada, ao invés de me afastar da trama, me atraiu por curiosidade. E, para fechar, o fato de não ter atores imensos, nos faz focar mais na história do que em ver um ídolo na tela. Assim, há espaço para outros atores e para nos vermos ali, como pessoas, espectadores dos torneios, amigos dos personagens.

A minissérie vence com um argumento interessante nestes tempos em que discutimos o feminismo como uma força social, em oposição a uma disputa de poder. À medida em que encontramos uma causa comum, é importante que nos unamos por ela, independentemente de gênero e status. Assim é com o xadrez: não há adversários, mas pessoas em busca de jogar melhor, independentemente de gênero, nacionalidade, crenças, cor. Vencido este orgulho de qualquer lado, as inovações e a construção do pensamento apenas evoluem. Uma grande jogada, o Gambito da Rainha.

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Neste 2020 de pandemia, Modo avião é o filme de língua não-inglesa mais visto da Netflix. Com esse dado, resolvi assistir para entender o sucesso estrondoso de nosso cinema. A outra notícia é a de que a Globoplay superou o número de assinantes da Netflix no Brasil. Mas, o que as duas informações têm em comum?

larissa manoela e erasmo carlos juntos em modo avião, filme da netflix.
Modo avião | Larissa Manoela e Erasmo Carlos

História sem peso

Modo avião é um filme leve que carrega um elenco mediano, com destaque para Erasmo Carlos e Larissa Manoela. O primeiro todo mundo conhece, grande cantor e compositor da Jovem Guarda e fora dela, parceiro de Roberto Carlos. Erasmo tem grandes composições talvez até mais interessantes do que as do amigo, mas essa conversa é outra. Larissa Manoela é uma atriz de 19 anos que, em tempos de influenciadores digitais, faz um pouco de tudo: é cantora, influêncer, youtuber, tem produtos licenciados e grande e fiel público. O filme se aproveita do paralelo destas duas vidas e traz uma história para toda a família.

Ana (Larissa) é uma jovem influenciadora digital de São Paulo que vive do instagram. Mora na casa dos pais e ilustra bem o perfil das 'blogueirinhas' que criam a rotina de seu personagem-real para a câmera-celular. Vivem aquele dia a dia tão cronometrado para a 'produção de conteúdo', que criam a ilusão de que suas vidas são o que postam nas redes. Os pais a criticam muito superficialmente e Ana vive 'sem controle', entre o trabalho, as batidas de carro por usar celular e muita marra. Um acidente muda tudo.

Com o ocorrido, é enviada à casa do avô, Germano (Erasmo), em uma cidade pequena sem sinal de celular. Ela precisa se adaptar à nova realidade e aprender um pouco sobre a vida real sem redes. É nesse momento que os personagens se encontram e vivem sua transformação. Nenhum problema até aí, a estrutura narrativa é bem definida. O que falta é peso.

O filme corre como se tudo se resolvesse organicamente e até um acidente de carro não gera graves consequências ou reflexões. Como se dirigir com o celular não fosse coisa séria. Como se adaptação a uma vida sem celular não fosse tão dramática para uma garota que vive daquilo. O que parece ser uma 'leveza' no filme, vira uma água morna e quase sem gosto. O personagem mais crível é a mãe de Ana que, mesmo assim, parece amarrada em um roteiro fantasioso demais para ser pautado 'na vida real'. Talvez seja um deslize na dramaturgia ou a própria intenção de deixa solto, talvez precisasse de mais um tratamento de roteiro ou mais complexidade aos personagens. Ainda assim, dá para entender o sucesso e é fácil de assistir.

elenco de modo avião busca a diversidade, sem explorar a diferença.
Modo avião | elenco que busca a diversidade

Filme de língua não inglesa mais visto na Netflix

Modo avião chegou no ano da pandemia. Todo mundo em casa, muita crise de ansiedade, tédio, medo. Muita gente 'de saco cheio' e navegando na netflix e nos outros streamings em busca de filmes e séries para preencher o tempo e que não ocupem muito a mente. Nada que fosse muito dolorido, nada que trouxesse mais drama mas, pelo contrário, que viesse como algo de consumo rápido e indolor. Era preciso que algo nos tirasse, por alguns minutos, daquela avalanche de informações horríveis acerca da política, situação mundial e local, economia, saúde.

Com isso, o filme vem e é bem aceito. Todos os maiores problemas se resolvem quase como mágica. Um pouco de brasilidade, mas nada que localizasse demais o país - não é um filme 'cultural' - e, assim, ele ganha mais facilmente o mundo, como uma produção americana padrão ou um pouco como os doramas mais urbanos. Acompanhamos as produções coreanas como se fossem feitas em nossa esquina, com temas universais que não apresentam tanto a cultura local, mas focam em um padrão de vida que se encontra em quase qualquer país.

Larissa Manoela puxa o público jovem para perto, traz as meninas que são influenciadoras para a grande tela, chamam a nossa atenção com uma intenção de crítica e responsabilidade quanto ao uso das redes, sem aprofundar. Ao mesmo tempo, atrai as pessoas influenciáveis, seu público fiel que mimetiza comportamentos e é estimulado para o consumo. Esse é o pulo do gato, o tema é atual, recorrente e interessante. Todo mundo segue alguém nas redes sociais. Todo mundo é influenciado por alguém ou alguma marca e sempre há a curiosidade sobre os modos de viver do outro. A confirmação vem do próprio mercado: grande parte da seleção do elenco de filmes e programas baseia-se menos em talento e mais em seu público nas redes sociais. Larissa Manoela tem 35.7 milhões de seguidores no Instagram.

Além dos jovens usuários das redes, a questão dos influenciadores atrai também seus pais para o tema. Faz com que eles se aproximem dos usuários das redes, sejam produtores ou seguidores, para a conversa do café da manhã. Além disso, encontram seu ponto de atração: Erasmo Carlos. Sempre bem aceito, o Tremendão é um cara legal, traz a nostalgia do 'no meu tempo era assim', junto com um personagem que precisa mudar, precisa conhecer a neta e melhorar a relação com o filho. É uma segunda história que corre rápido, não é o foco do filme e se resolve com duas ou três cenas para compor. Em todo caso, fica a ideia de que é sempre bom ver Erasmo Carlos aparecendo, como uma boa e inesperada notícia, um reencontro com um amigo de longa data. 

a rotina dos influenciadores digitais em modo avião.
Modo avião | influenciador digital como modo de vida

Cultura do entretenimento

O Brasil vem remodelando sua ideia de entretenimento no audiovisual. Com a Netflix forte no país desde a sua chegada em 2011, o comportamento do consumidor mudou, do mercado também. Aqui e no mundo, vemos um público mais ativo, que demanda mais determinados tipo de produção e descarta outros, com uma personalização cada vez maior. Assim, a tv paga precisou se reestruturar e repensar seu negócio, refletindo nas produções de cinema e tv e em toda a indústria audiovisual.

A parte boa é que se verificou uma abertura de visão para a oportunidade e a diversidade. Conteúdos mais leves, como o que se faz no cinema americano, começaram a ser feitos aqui. Saímos da safra de filmes estritamente culturais, históricos, de denúncia e passamos ao lazer "sem culpa". Ao mesmo tempo, com a personalização provocada pelos algoritmos, se percebeu uma diversidade maior de gostos e como esse volume que se queria homogêneo, de público, se provou diferente, interessado em uma vasta gama de assuntos. A diversidade de público ensaia uma diversidade de produção e então começamos a ver uma abertura tanto para um elenco menos padronizado em gênero e cor, quanto para temas que ampliam nosso olhar como as temáticas feministas, de gênero, comportamento, culturas.

Neste contexto, Modo avião é tímido. Ele traz um elenco que se quer diverso com um tema relevante, mas focado no entretenimento. É importante uma ressalva: os extremos não são necessários aqui. A cultura é imbuída de entretenimento e vice versa. Um não existe sem o outro e um não é o oposto do outro. Todo produto é cultural pois re-apresenta parte de nossa cultura. A diferença é o quanto disso é efetivamente um traço que nos identifica enquanto país ou região ou se apenas reproduz um comportamento sem localização. Modo avião está na segunda opção.

Voltando ao entretenimento, o filme ganha espaço. Se não insistirmos na crítica sobre sua supeficilidade, mas pensarmos na relevância do tema e abordagem, encontramos o motivo. Ele conquistou o mercado internacional em um momento econômico difícil, mas em um período de crise propício: estamos ávidos por qualquer coisa que nos tire da realidade. Seriados de comédia, filmes históricos, documentários sobre qualquer coisa. Estamos vendo tudo. Se for sobre algo que vivemos no dia a dia - as redes - é um acerto. E então, o filme merece o alcance internacional. 

eike duarte e larissa manoela em modo avião
Modo avião | a vida de influência influencia na vida real?

A Globoplay e a Netflix

A Globoplay chegou forte. Com cinco anos no mercado, em 2020 conquistou o primeiro lugar na casa dos brasileiros. Vencer a Netflix é um marco importante, tendo em vista que estamos falando de um produto Globo, uma empresa nacional, batendo em uma imensa indústria que tomou todo o mundo. O investimento foi alto e o que fez a diferença foi o acervo - além da propaganda.

Com muita produção brasileira - basicamente tudo o que foi produzido pela Globo por décadas e o que se comprou de grandes produtoras - esse cabo de guerra tem sido puxado mais para o nosso lado. Com isso e a certeza de que essa disputa de protagonismo será longa, é possível perceber que há espaço para a produção nacional. E que, com isso, a concorrência pode estimular a qualidade e favorecer o mercado.

Com a desaceleração da pandemia - e a esperança de que a segunda onda não chegue aqui - algumas produções foram e estão sendo retomadas, em uma tentativa de reaquecer a indústria cultural. A pandemia revelou para muitos o que o crescimento de todos os streamings (e lives musicais) provou com dados e base de assinantes: sem cultura não há como viver. Imagine vivermos o isolamento social sem filmes, programas, seriados, música? Sem aquele cinema bobo e leve para passar o tempo? Sem um bom programa para ver com a família, a dois, sozinho? A produção cultural é necessária não apenas como uma realização e registro de como vivemos e somos, mas como uma forma de entreter, para promover a criatividade, sociabilidade, conforto e reflexão em nossas vidas. Hoje estamos com Modo avião, querendo nos ver mais na tela, em produções que nos idenfitiquem e que encerrem de vez aquele preconceito velho quanto ao que se cria aqui. O que veremos amanhã?

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Nós estamos vivendo uma guerra populacional. Esse era o slogan na China dos anos 1980, quando iniciaram a campanha de redução da população, através do controle de natalidade: a política de filho único. Cada família poderia ter apenas um filho. Como controlar isso em um país tão grande? A documentarista Nanfu Wang é quem investiga a história, como a primeira filha de uma família que burlou a regra.

diretora nanfu wang discute a política de filho único na China.
A diretora Nanfu Wang e seu primogênito

O que é a política de filho único (one child policy)?

Exatamente o que o título diz. Na China do final dos anos setenta e início dos anos oitenta, o governo fez um cálculo de superpopulação à la Thomas Malthus (1766-1834). Com isso e muito pânico, entenderam que, com o crescimento exponencial de seu povo, o país entraria em derrocada, com escassez ainda maior de alimentos e aumento da pobreza - situação vivida por muitos anos. Assim, instituíram uma severa política em que toda e qualquer família chinesa, a partir daquela data tivesse, no máximo, um filho. 

O resultado sabemos: tragédias, crianças sendo abandonadas em feiras, mercados, esgotos. Sendo vistas morrerem à míngua ou entregues à adoção. Famílias se escondendo, grávidas fugindo. E muita gente também, entendendo que aquela política era necessária e fundamental a uma vida melhor no país. Vamos ao filme.

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One chid nation: Nanfu e família, à espera do irmão

A relevância: do particular para o universal

Os pais de Nanfu queriam, como toda família patriarcal, um filho homem. O nascimento dela foi o motivo para uma segunda e clandestina gestação. Agora adulta e mãe de um bebê, ela busca em seu país, conhecer as pessoas por trás daquela história. A diretora encontra cidadãos e cidadãs que viveram e tiveram influência na vida de tantas famílias, inclusive na sua.

Os documentários que partem de uma premissa íntima e particular e que se traduzem em uma narrativa de assunto universal, têm público garantido. Ao assumir que estamos participando de uma história pessoal, enquanto público, nos colocamos naquele lugar, nos espelhamos naquelas circunstâncias, por mais díspares que sejam da nossa realidade. Nos inserimos no filme de forma mais fluida. É o princípio de uma boa história: se bem contada, pode ser sobre qualquer coisa. Neste caso, é sobre o controle populacional por parte do Estado chinês, através de planejamento familiar, abortos e esterilizações em massa de mulheres. Sempre e apenas de mulheres.

documentário vencedor de sundance, one child nation
A diretora e a propaganda da política de único filho

Estado totalitário, propaganda e banalidade do mal

Toda política absolutista, todo governo não democrático - ainda que se intitule assim - necessita de uma massiva propaganda para se sustentar. Não precisa de um estruturado plano de governo que promova melhores condições de vida, mas precisa de um grande planejamento de marketing e controle de informação, para se fazer crível e necessário ao povo. No mundo capitalista, há um sem fim de nações assim. No comunista, também. Aqui, a dor maior é usar essa propaganda para afetar tanto o íntimo e psicológico das famílias - e, particularmente, de todas as mulheres das famílias - como toda a estrutura e pensamento do coletivo. Uma grave ofensa aos direitos humanos.

A importância desse filme reside, não apenas na denúncia de um sistema e política atrozes, mas em como a documentarista buscou diferentes perfis para discutir o assunto. Artistas, parteiras, médicos, planejadores familiares, traficantes de crianças, jovens, sua família. Pessoas que praticavam abortos contra a vontade das parturientes e que também faziam nascer seus primeiros filhos. Um poder de vida e morte acima da moral, já que eram regidos por lei. Mas, fizeram o contrário do que vimos do posicionamento de Eichmann após a Segunda Guerra Mundial. Funcionário do governo nazista que contribuiu para o extermínio dos judeus, Eichmann concretizou a banalidade do mal na omissão de responsabilidade, ao direcioná-la ao poder estatal. Nas pessoas da China, encontramos remorso, culpa e problematização.

De um lado, uma médica que fazia abortos e nascimentos assume o poder, os feitos e a culpa. Hoje, faz caridade em prol de uma remissão impossível dos assassinatos que cometeu: "Embora possam dizer que não foi maldade por ser o meu trabalho, eu fui aquela que os matou. (...) O Estado dava a ordem, mas era eu quem as cumpria." Do outro, uma planejadora populacional que faria tudo novamente, se necessário fosse, afirmando que o Estado salvou a nação. Era ela quem ganhava os maiores prêmios por serviço, enquanto perseguia mulheres que fugiam correndo para não perderem suas gestações de até oito, nove meses. 

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As crianças abandonadas, os "órfãos" que seriam adotados por estrangeiros

A arte como marco e denúncia

Peng Wang, um artista plástico, conta a sua relação com a política de filho único que começou a criticar a partir de 1996. Seu tema então era o lixo e ele fotografava áreas de depósito irregulares. Em uma dessas imagens, embaixo de uma ponte, percebe que havia registrado um saco plástico preto, descrito lixo hospitalar e semi aberto. Não é preciso dizer o que havia nele. A partir dali, sua perspectiva mudou e ele passou a buscar e produzir imagens que retratassem a fragilidade da vida em tamanho descaso - proposital - de um governo.

O filme é duro, difícil por vezes, mas necessário. Há cenas que queremos - e podemos - evitar, mas é importante entender o todo. Que não é apenas sobre o controle de natalidade chinês. É sobre o absolutismo de um poder, mesmo irracional, injusto e criminoso, sobre uma nação. Sobre os corpos de mulheres, sobre a determinação de vida e morte do outro. E a sua permissividade local e a passividade mundial. Ainda mais, é sobre a massificação da informação e do poder do discurso, qualquer que seja. 

Tratando do último, o discurso, hoje é mais fácil percebermos sua manipulação. Com a avalanche de fake news, vem também as críticas e denúncias a elas. Mas, ainda assim, bem construídas e estrategicamente difundidas, é possível se fazer acreditar em quase qualquer coisa, como o terraplanismo, as vacinas que fazem mal, atalhos para tratar covid-19 e um sem fim de histórias absurdas que não só corrompem fatos, como ideias, pensamentos e famílias.

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As gêmeas separadas na política de filho único

Imprescindível, pessoal, feminista e intransferível

Na história familiar da diretora, ouvimos seu tio, irmão, avô. Os homens da família, cada um de uma geração e pensamento. É nisso que o filme ganha, para além da relevância histórica. O irmão sente-se culpado por ter vivido um favorecimento machista, vendo sua irmã ser relegada a segundo plano durante toda a vida. Ele só existe porque nasceu 'menino'. Se fosse uma menina, seria descartado prontamente pela família, talvez abortado, morto no parto ou deixado em qualquer lugar. Com sorte, seria entregue a um traficante ou orfanato. Foi o que aconteceu à filha do tio. E o avô, que passou fome e muito sofrimento e pobreza no país, confirma a necessidade do programa. Tudo é compreensível. Tudo é cruel.

O controle populacional do filho único durou 35 anos. Atualmente, a China é um país com poucos jovens e que envelhece rápido. Então, o Estado reverteu a política e hoje pede que as famílias se formem com duas crianças. O filme ganhou o prêmio do júri em Sundance em 2019 e é um retrato importante, quase um documento do que foi a política de filho único e como afetou a vida de milhares de pessoas. Ali, vemos as famílias que mataram ou abandonaram seus filhos, os supostos órfãos, adotados por famílias dos Estadus Unidos, Canadá e Espanha. Vemos abortos forçados, quem se arrepende e quem concorda com aquele projeto. Vemos famílias que buscam seus filhos e irmãos, gêmeos que foram separados. E hoje, com a nova política, pouco mudou. O controle não acabou, ele só mudou de ideia.

One child nation está na amazon prime vídeo.

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Venho sem desculpas e meias palavras: não gosto dessa expressão "novo normal". Explico o porquê, porque entendo como surgiu e o que significa. Além das atualizações, claro.

o novo normal e como lidamos com o dia a dia de novos comportamentos na pandemia.
balcony concerts by Catherine Cordasco, @unitednations
A proposta do lado de cá é fazer o contraponto das minhas experiências no Brasil da pandemia e do isolamento com a situação da minha comadre de primeira viagem, Camila. Ela está grávida, esperando Luquinhas e mora no outro lado do oceano, em Dublin. Do meu lado, a vida também mudou quase toda: mudei de cidade, saí do trabalho, um pouco aquelas histórias de filme, em que a vida da mocinha vira do avesso, ela tem que encontrar um novo caminho e acaba numa comédia romântica. A parte romântica da comédia ainda não está definida, mas o importante é ter fé!

Camila vive o dia a dia também afetado pelo coronavírus, que já passou por um isolamento mais fechado, a situação melhorou e agora, como sabemos, a Europa vive a segunda onda da pandemia. Não sabemos como vai ser, mas os países se preparam para um novo lockdown e ela segue um pouco descrente, tendo em vista o comportamento do cidadão irlandês. E a gente achando que só a nossa turma era indisciplinada. Enfim.

Do lado de cá, a vida segue aos atropelos. E essa história do novo normal que, junto com a pandemia, vem de todas as formas e meios. Todo mundo fala nisso, como se fosse uma coisa universal. A única coisa universal mesmo é a globalização e que, mesmo assim convenhamos, não é global. A gente não sabe o que acontece no mundo todo, não tem acesso a todo mundo. Hoje, descobri o inferno que está sendo a vida na Nigéria com uma força policial chamada SARS - com cara de milícia - brutal, talvez até mais do que a nossa. Claro, a informação e os transportes ficaram mais acessíveis, contudo, global é muito absoluto. E os algoritmos acabam nos fechando em bolhas, de qualquer jeito.

pandemia e novos hábitos. o que é o novo normal?
Erik Odiin, unsplash

Então, o novo normal está aí. A expressão indica que antes havia um normal, chamemos de velho normal. No velho normal, era tudo igual ao novo, à exceção do uso de máscaras em vários países. O álcool gel já existia. A gente não higienizava o supermercado inteiro, isso é verdade, mas o hábito de lavar as mãos sempre foi uma realidade. E o home office também. Menos frequente e intenso, mas presente. A história de deixar os sapatos na porta de casa também - especialmente se você mora sozinho e não tem muito tempo. E vamos lembrar que isso vale apenas para uma parcela da população. Mas, deixemos esse ponto sensível para outro dia.

Entretanto, apesar de ler e ouvir muita coisa genérica sobre o tema, ontem me caiu um texto que foi mais assertivo, que mostrava como o novo normal não é geral, amplo e irrestrito. Que, ao contrário, é específico, individual e particular. Sendo assim, não há um novo normal. Há uma adaptação à situação imposta e alguns pontos em comum com outros viventes, mas nada que se imponha 1. como novo e 2. como normal. A própria ideia de 'normal' já é desconstruída largamente por aí, na literatura de O Alienista, do sempre incrível Machado de Assis e em muitos estudos sobre saúde mental. Com isso, vamos parar com essa generalização, essa imposição da norma - aí sim, a origem do normal - como se tivéssemos que seguir uma cartilha que identificasse o que é novo e velho normal. Nada é normal. Aliás, nem o nada é normal.

Depois de vir aqui provocar, conto que a vida anda corrida. Muita coisa pra resolver de mudança e adaptação a Salvador, à pandemia e ao retorno de alguns hábitos. À vontade sempre crescente de encontrar os amigos, ao medo da doença e de seu espalhamento. Situações e imprevistos familiares, projetos empolgantes e até uma novidade que vou trazer aqui quando estiver mais ou menos pronta. Estou disposta a mais uma mudança porque, mesmo nesses tempos de suposta estagnação - taí um ano que está sendo diferente de qualquer outro - seguimos adiante. 

novo-normal

Já fui à praia, entrei no mar e agradeci. Por estar viva e com saúde. Por estar em Salvador, por ter a família perto e os amigos também - na distância de um aperto de mão ou aceno - ou ali, no fio do telefone, na tela do celular. Sou muito grata - sem essa agonia sem sal de #gratidão - em ter os amigos que conquistei. E esse ano, um desafio daqueles, tão difícil e doloroso algumas vezes, tem sido também tão feliz em ver novas vidas surgindo, amores crescendo e se multiplicando. Só aceito o novo normal se ele significar mais amor compartilhado, empatia e cuidado com o outro. O resto é propaganda pra vender jornal e marketing para vender coisa.

Mas, talvez eu esteja errada. O que você acha do novo normal? É novo? Normal? Me conta um pouco da sua adaptação, de como anda a vida do seu lado.

Para contribuir com esse blog maravilhoso e torná-lo permanente e atualizado com frequência, me chama para um cafezinho? =)
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Hoje é 8 de outubro, dia do nordestino. A bem da verdade, descobri isso só ontem, enquanto escrevia uma peça de trabalho sobre a data. Nordestina fuleira, meus conterrâneos diriam. A vida anda corrida, mas, hoje deu tempo de vir aqui conversar um pouquinho sobre o assunto.

8 de outubro, dia do nordestino.

A data surgiu em São Paulo, em homenagem ao poeta cearense Patativa do Assaré e a Catulo da Paixão Cearense, o compositor da maravilhosa Luar do Sertão, que Gonzagão imortalizou. Pelo que pesquisei, há indícios de que a data da celebração teria mudado para 02 de agosto, puxando sardinha para Luiz Gonzaga em seu dia de nascimento. Mas, o que importa mesmo, é saber que ser nordestino é... incrível.

Não sou muito bairrista, mas venho de Salvador e pouca gente desgosta da cidade. O pai de uma ex-colega de trabalho é uma dessas pessoas e ela mesma justifica, dizendo que ele não teria tido a impressão correta. O fato é que, não apenas os soteropolitanos, como os baianos e os nordestinos costumam ser calorosos e receptivos a seus visitantes, amigos e familiares. É de onde vem o calor humano, a intimidade que se pega no ar, o 'vem cá tomar um café comigo' e até mesmo, o 'passa lá em casa' honesto, real e sincero.

patativa-do-assaré-
O poeta cearense Patativa do Assaré
Mas, nem tudo são flores e toda a nossa pobreza também é uma marca indelével. A região, com toda a sua riqueza cultural e natural, carece de recursos e atenção politica em quase todas as esferas e a conta chega. Fome, seca, miséria, analfabetismo. A situação está um pouquinho melhor do que há 15 anos, mas ainda se encontra muito disso, além de um grande e estranho preconceito de uns e outros com nossa terra e com quem vem dela.

Já tratei disso aqui nas eleições de Dilma, já fomos taxados de ignorantes e isso retornou nas eleições do seu presidente Jair Bolsonaro (meu mesmo não é), quando a região foi a de menor receptividade ao 'capitão'. Mas, não se encerra aí, no Rio de Janeiro, há "paraíbas e baianos" para representar os nove estados. Em São Paulo, a 'baianada' é a bandalha, a 'roubadinha' que você dá no trânsito, como se fôssemos imprestáveis motoristas ou como sinônimo de coisa errada. Não me importo tanto com isso, mas há quem se incomode e nós, até onde eu sei, não perdemos muito tempo falando de quem a gente não conhece.

foto de Luiz Gonzaga para o dia do nordestino.
Outro grande mestre, Luiz Gonzaga
Eu quero é saber mais do meu nordeste, conhecer este mundo de cidades e espaços que ainda não visitei, repetir os encontros naqueles que fui e me encantei. A Bahia sozinha, meu quadrado, já é maravilhosa o suficiente, mas sei que há muito mais pra ver e comer. E ouvir e dançar. E nadar e escalar. E conversar e amar. Porque é isso, tem tudo aqui, gente. 

O nordeste é terra de aracajé, carne de sertão, cuscuz, canjica, mugunzá, moqueca, pirão, cozido, quiabada, cocada e caruru. Tem fruta que só tem aqui (a região Norte também está de parabéns nesse aspecto), tem coco verde baratinho para beber e comer a carne. Tem o maior litoral do país e de águas quentinhas e maravilhosas. Tem verão o ano inteiro e aqui em Salvador, inverno é frente fria de 23 graus.

É terra de tanta gente boa, que vou fazer uma lista curta, só para deixar na vontade: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Amado, Patativa do Assaré e Gonzagão, Maria Bethânia e Daniela Mercury, Tom Zé, Alceu Valença, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Glauber Rocha, Geraldo Azevedo, Belchior. É muita gente mesmo, mas é melhor parar por aqui, porque senão fica chato de ler. 

salvador-bahia
É terra de muito trabalho, mas tem água de coco para matar a sede
Eu não sei dessa história de dia do nordestino. Entendo que a homenagem vem de São Paulo, porque é a capital que tem mais nordestino fora da região, mas não sei se precisamos da data, na verdade. Acho que a cultura popular é forte e viva e não precisa deste compromisso fixo, como se fôssemos uma espécie diferente daquelas das demais regiões. A menos que exista o dia do nortista, do sudestino, do sulista etc. Se alguém descobrir isso, me avisa. 

Que o nordeste é terra viva, de gente retada e batalhadora, não é novidade. Que respondemos por parte da cultura e diversidade nacionais, também é falar o óbvio. Que temos uma culinária vasta e específica por cidades e estados, só vindo para conhecer e se certificar. Que somos incríveis e sinceros - posso falar por mim e por meus amigos, sim. Mas também, tem gente bizarra em tudo quanto é canto e queria eu dizer que não tem aqui. O nordeste é o coração do Brasil e não acredito que precisemos de um aniversário para confirmar isso, só precisamos que deem atenção econômica real e respeitem nosso povo e natureza. O resto é história.

E você, o que acha desta data? Compra a ideia de comemorar o dia do nordestino? Me conta! E, para me ajudar a manter este espaço vivo e crítico, me convida para um café? Ah! Não achei Luar do Sertão, mas encontrei essa coisa linda, para trazer um pouco de música para esse blog maravilhoso <3 



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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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