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Café: extra-forte


Essa mulher independente e livre não para. Não sobra tempo, abundam ideias sobre tudo: projetos legais, textos, trabalho, caminhada, amigos, álcool, viagens e muito café. Ainda assim, sobraram uns minutos para um dever de casa, que era esse desafio de vida, escrever uma poesia. Pensou um pouco, leu um livro e saiu esse texto curtinho. Não vai embora ainda, dá uma chance pra moça:

Uma mulher livre nunca ganhou flores.
Achou que pedir seria um absurdo.
Mas sempre as quis.

Uma mulher livre ganhou flores da mãe, do pai, da amiga.
Nunca do rapaz.
Porque rapazes não dão flores.

Rapazes dão trabalho.
Uma mulher livre trabalha demais.
Preferiu plantar uma pimenteira.

Uma mulher livre com uma pimenteira foi ao mercado.
Encontrou sementes de flores perto das frutas.
Vai plantar no fim de semana.



*Foto de Chris Barbalis.
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Saí da casa do rapaz e parei nas lojas americanas, a caminho do metrô para casa. Era fim da manhã de um feriado e dessas noites de improviso, quando desejamos ser um pouco mais do que nosso dia a dia permite.

Três calcinhas de algodão, uma ampola de hidratação para o cabelo, um pacote de amendoim japonês e o para sempre aguardado liquidificador. Com jarra de vidro e base de inox. Surpreendentemente barato e até agora já foram duas palavras imensas de escrever.

A noite foi divertida e terminou conforme o esperado, justificando a escova de dente na bolsa pequena. Mas, como já aconteceu outras vezes com o rapaz, foi uma noite eventual, um reencontro animado como o bloco de carnaval que nos atravessou à noite, um equinócio. A intimidade é muita para os anos de interlúdio e amizade colorida, e nenhuma ao mesmo tempo, já que não somos frequentes no cotidiano. Deixamos a casa, ele para a bicicleta e eu para o liquidificador — como se aquele monte de confidências de horas antes estivesse arquivada para a próxima estação ou descartada, como a embalagem do queijo minas que comemos no café da manhã. Não como queijo sempre, seria mais uma exceção daquele momento, já que ainda vinha com torradas, tomate cereja e café preto. Tudo era novidade e repetição.

Cheguei em casa estranha, mas feliz, com o liquidificador de base inox e jarra de vidro, três calcinhas de algodão para lavar, o amendoim japonês para alguma visita e uma renovação capilar aguardando o próximo banho. A sensação estranha se diluiu durante as horas e terminou em um encontro de amigos no boteco de sempre.

Ainda não sei se espero o próximo equinócio, se me interessa essa vida de intervalos curtos e intensos — o clichê do palito de fósforo. O queijo, entretanto, ficou na lembrança e comprei um pedaço da mesma marca no supermercado. Pequeno, só para sentir o gosto bom e não deixar o inevitável enjoo de horas.

*Imagem de Cinzia Bolognesi
*publicado originalmente no Medium, em 2017.
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No dia dois de fevereiro de 2014 um dos meus mestres se foi. Virou luz, foi pro céu, virou poeira e terra, natureza. Não importa a crença. Ele é, ao mesmo tempo, imortal em suas obras, por suas obras, através delas. Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas de todos os tempos e do mundo, sem exagero. 

A falta foi tanta, que lhe escrevi sobre aquele mesmo dia, tão bonito e pacífico em Salvador - Dia de Yemanjá -  tão brutal foi aqui no Rio. Essa aqui é minha homenagem e saudade.

Teve também esse, depois que eu li os livros de Svetlana Aleksiévitch e acho que eles têm um trabalho que se comunica bem e busca objetivos similares com o mesmo afeto, cuidado e qualidade. Svetlana virou Nobel nos últimos anos e cada livro dela poderia ser um filme dele.

Tiveram outros textos e menções ao mestre, não seria de outra forma, mas também tem essas impressões de Canções, um de seus filmes mais gostosos. Vale a leitura.

O título é sobre dois mestres, porque lembrei de outro. Um professor que virou amigo, mas sempre foi orientador da vida, das teorias, do cinema. Mohamed Bamba também nos deixou cedo demais e hoje o facebook o trouxe como uma lembrança, uma publicação minha justamente falando de Coutinho que ele generosamente compartilhou. Muitas saudades de Bamba, daquelas que o tempo não apaga, mas deixa um sorriso das lembranças felizes.

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Qual não foi minha ilusão em achar que conseguiria dar conta da vida e da programação televisiva de forma a publicar um por semana? Agora parei e vou deixar apenas numerado aqui pra facilitar a indexação :)

Segue as dicas da ressaca de uma semana caótica no Rio de Janeiro e outra ainda mais estranha que segue começando.

A noite de doze anos
A noite de doze anos || Álvaro Brechner - 2018 || 122 min
Uruguai, anos 70. O país é mais um que atravessou anos de chumbo na América Latina e, como tal, encontrou repressores militares e vítimas subversivas. José Mujica (se tornou um dos melhores presidentes que esse planeta viu), Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernandez Huidobro foram três militantes Tupumaros presos e encarcerados em um regime especial do período obscuro de seu país. De quando foram levados do presídio comum até sua liberdade, foram 12 anos sem paradeiro, sem sol, sem vida e à beira da loucura. O filme é imenso e não por trazer apenas os personagens, mas pela forma de contar a história, com uma beleza, relevância e honestidade dignas de prêmios. Emocionante, nos faz pensar sobre o tempo que vivemos hoje. Não deixe de ver.

Aqui seguem duas matérias, en español sobre o filme, no Hacerse la critica e no Lamás Médula

O LABIRINTO DO FAUNO
O labirinto do fauno || Guillermo del Toro - 2006 || 118 min
Do aclamado diretor de A Forma da Água (que, para mim não é grandes coisas), este é um grande filme. Carrega uma fantasia que faz parte da filmografia do diretor, com toques de crueldade condizentes com a trama. É um filme bem equilibrado, com uma fotografia esplêndida e direção de arte sem igual. Merece todo o destaque e nem parece que já vai fazer treze anos. O filme conta a história de uma garota que, ao fugir de um pai tirano na Espanha dos anos 40, se perde em meio à floresta e encontra um universo diferente e desafiador. Levou três Oscar e quase cem outros prêmios.

FIVE CAME BACK
Five came back || Laurent Bouzereau - 2017 || 60 min/eps
Baseado no livro de Mark Harris e adaptado para a tv pelo mesmo, esta minissérie de três episódios conta as histórias das participações de John Huston, John Ford, Frank Capra, William Wyler e George Stevens na produção de filmes durante a Segunda Guerra Mundial. Os cinco, os maiores diretores do cinema de ficção da época, se alistaram para o exército americano e, ao verem a potência da propaganda nazista - quem não conhece, pesquise sobre Leni Riefenstahl e seu Triunfo da Vontade (1935) - entraram em 'campanha' para alimentar o moral e impulsionar a garra pela vitória dos Aliados. Documentário interessante, traz depoimentos e imagens dos filmes de todos eles e de grandes diretores do cinema americano e mundial sobre o período, com informações que poucos teriam acesso de outra maneira. Um pouco 'para os fãs de cinema', mas bastante interessante para entender as personalidades de cada mestre, seus engajamentos, diferentes produções e alcances que seus filmes tiveram. 
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Eis a segunda semana das Maravilhosidades, agora com três indicações que, inconscientemente, trouxeram personagens importantes e marcantes em suas trajetórias. São três bons filmes, um é com certeza 'obra de arte' e pronto, chega de suspense!

Moonlight
Moonlight: sob a luz do luar || Barry Jenkins - 2016 || 111 min
Parece que 2016 foi ontem, quando esse filme vem à mente. As impressões sobre ele ainda estão latentes e o que aparece primeiro é um sentimento e depois a realização de que estamos vendo uma obra prima. Barry Jenkins conseguiu um elenco sem igual, um filme que toca em um sem fim de temas sensíveis e, por isso, universal. Eu não consigo ver um defeito nele, honestamente. É um dos melhores filmes da minha vida e em todos os aspectos: dramaturgia, fotografia, som, roteiro, direção. Se não viu ainda, vai correndo. Não dá nem vontade de ficar falando sobre ele, nem veja o trailer, tenta aproveitar em primeira mão, com uma impressão fresca e virgem.


Ícaro
Ícaro || Bryan Fogel - 2017 || 120 min
Esse é um filme inesperado. O documentário atinge uma das premissas clássicas do 'gênero', que é a imprevisibilidade. A ideia é simples: Bryan Fogel, diretor, roteirista e protagonista é também ciclista amador e quer entender de que forma o uso do doping passou, durante muitos anos, despercebido pela mídia e organizações olímpicas e de esportes. Ele treina e compara suas performances antes e depois e, usando o doping em si mesmo, e acaba descobrindo uma máfia enorme e as estratégias reais de como burlar o sistema. Impressionante, com consequências e desdobramentos que não parecem ser o mote inicial e sim a consequência do 'fazer do filme'. Tenso, polêmico e interessante. Levou o Oscar e o Sundance de documentário em 2018.


A garota dinamarquesa
A garota dinamarquesa || Tom Hooper - 2015 || 119 min
Pense que é o mesmo diretor de O Discurso do Rei (2010) e Os Miseráveis (2012). Acho difícil realmente alguém não ter visto esse, o que não inviabiliza ver de novo, aproveitando a disponibilidade na Netflix e a infeliz e quase extinção de videolocadoras. Lili (Eddie Redmayne) e Elba (Alicia Vikander) são esse casal que ultrapassa as barreiras sociais em um emaranhado de questões sobre transgênero, tolerância e sexualidade. Nos tempos quase sombrios que vivemos, vale ver esse respiro de esperança, resistência e amor, ainda que envolto em um drama. Baseado em fatos reais, levou trinta e um prêmios pelo mundo, entre eles o melhor atriz coadjuvante para Vikander.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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