• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte

Filme de estreia do diretor iraniano Abbas Kiarostami realizado em 1970, esse curta de 10 minutos foi nosso exercício na Oficina de Crítica Cinematográfica ministrada por Jean-Michel Frodon, no Festival Varilux de Cinema Francês que acontece agora no Rio de Janeiro e em outras capitais.




Em pouco mais de dez minutos, Abbas Kiarostami cria uma história que diverte e desperta interesse em seu curta-metragem de estreia.

Uma rua pequena com cruzamento de outras duas ou três. Um garoto com um pedaço de pão e cadernos caminha distraído, chutando uma lata. Um cachorro em seu caminho e uma música dos Beatles nos abrem os olhos para o conflito: como atravessar a rua sem ser mordido por um cão feroz? Com uma ideia de simples execução e custo baixo, o diretor sustenta sua trama sem diálogos ou qualquer necessidade deles. A narrativa se impõe entre gestos, olhares e músicas que traduzem tanto o clima do que assistimos quanto suas resoluções.

Realizado com crianças e para crianças, o filme abraça todas as idades e épocas. A situação é própria da infância de uma cidade pequena ou não violenta de qualquer lugar do mundo e a ausência de idioma – ainda que o próprio pão e os créditos de abertura indiquem uma cultura específica – reafirma sua universalização.

Aparentemente e por execução feito sem maiores ambições, o filme atinge mais do que intenciona, identificando na ingenuidade própria da infância sua outra grande característica: a criatividade. Inteligente, se sustenta na duração exata do que carece e encerra bem, como o fim de um ciclo lúdico e divertido. Comédia para todos, que em cortes simples e bom uso de câmera, nos posicionam tanto  em cena quanto a assistindo; somos o garoto e sua plateia à espera de desfecho. Grande estreia de um diretor hoje consagrado e experiente.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

Quem acompanha a trajetória de Claudio Assis percebe uma gradual transformação de seu cinema sem perder autoria e qualidade. Se com Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006) a violência e o sexo imperam na caracterização de uma sociedade em declínio, é de sonho e poesia que vivem seus personagens nos últimos dois filmes, Febre do Rato (2011) e Big Jato, o último sendo lançado esse mês no país.

O filme traz a história de Chico (Rafael Nicácio), um adolescente que ajuda seu pai Francisco (Matheus Nachtergaele), desentupindo fossas no interior de Pernambuco. Eles vivem em Peixe de Pedra, uma pequena cidade de chapada com uma rádio em que trabalha seu tio Nelson, também interpretado por Nachtergaele, presente em todos os filmes do diretor. Enquanto Francisco espera que Chico se desenvolva na matemática para lhe ajudar nas contas, o garoto escolhe a poesia, se aproximando de seu tio anarquista que satiriza o irmão nas locuções radialistas. Este duelo de matemática e literatura é próprio da distinção entre sonho e realidade e é nesse ambiente que encontraremos o príncipe, em uma participação especial de Jards Macalé como uma figura quase felliniana, dando a Chico a importância de sua imaginação e criatividade para a vida.

Chico (Rafael Nicácio) e Francisco (Matheus Nachtergaele)

Logo no início percebemos que o filme transitará entre o olhar do adolescente e de seu pai e tio, quando o garoto no caminhão pipa do pai – o Big Jato – pergunta sobre os excrementos, se todo mundo faz, por mais diferente que seja. O pai segue pacientemente explicando como a uma criança que questiona o porquê das coisas, enquanto no rádio ouve seu irmão em verborragia falando sobre o rock e desqualificando o trabalho honesto sempre defendido pelo primeiro, sugerindo a anarquia como modo de vida e anunciando a chegada d’Os Betos, uma banda que haveria influenciado ninguém menos que Os Beatles. O perfil de cada personagem é construído em equilíbrio e ali percebemos a formação de um adolescente que precisa tomar seu próprio rumo, se quiser viver do sonho.

Adaptação do livro autobiográfico de Xico Sá, Big Jato era o caminhão pipa de seu pai e muito do que está no filme parece verdade. Os diálogos são inteligentes e cheios de metáforas que se traduzem em graça pelas expressões locais, com um escritor cearense e um diretor pernambucano não seria acaso. Um dos pontos fortes do cinema de Cláudio é o próprio texto, sempre ágil, direto e carregado de conceitos. Aqui é suavizado para encarar a adolescência em sua complexidade e, ainda que alguns atores pudessem carregar em força – os irmãos de Chico – conseguem sustentar a trama sem maiores prejuízos. Os Betos não existiram, a banda foi uma alternativa para a produção do filme que não podia arcar com os direitos das músicas da banda inglesa.

Nelson :: Matheus Nachtergaele
Matheus Nachtergaele encarna os gêmeos cuja comunicação se dá em uma troca surda, já que nunca se encontram e sabem um do outro pela rádio e por Chico, que transita entre os dois. As interpretações são puro deleite e não há como não lembrar Peter Sellers e seus personagens camaleônicos de Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964). Os dois amam e cuidam de Chico, de alguma forma lhe fornecem os meios e visões distintas e radicais de mundo tão caras à própria formação de um jovem, até que seja capaz de trilhar o próprio caminho. A família de apoio ganha a força de Marcélia Cartaxo, atriz experiente e de peso, mãe de Chico que tem a paciência para manter uma casa de essência machista e, ao mesmo tempo, não se permite tolerar o alcoolismo do marido que se anuncia à esquina. Este prefere a cachaça a pensar que sua vida se resume à merda e fossas, cada vez mais escassas à medida que se constroem banheiros dentro de casa, fruto de um desenvolvimento local em uma cidade que ainda carece de sinal de celular.

É com doçura que Cláudio Assis trata das questões árduas ao sustento familiar, entre a sujeira própria que produzimos com nossos excrementos e a naturalidade de conviver e tratar deles. A perspectiva do adolescente corrobora esta nova trajetória mais lúdica e leve, rompendo quase totalmente com o formato marginal e agressivo dos primeiros filmes. Com esse, o diretor se destaca, mantendo suas inquietudes e as ampliando em público, narrativa e pertinência. É mais importante do que parece à primeira vista, é mais uma grande e relevante exibição de um nordeste puro, cultura que poucos conhecem e seguem rindo apenas por ouvir um sotaque diferente. A ampliação do olhar para um Brasil fora do litoral e da mídia e fundamental para a constituição ampla de cultura, identidade e nacionalidade, hoje quase reduzida às cidades mais caras. Grande filme.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
A Netflix dessa vez me surpreendeu. Na nova safra de filmes e séries, há mais Lars Von Trier, há filmes bem interessantes e alguns documentários muito bons, além dos animes de sempre e os filmes obscuros do pacote. Esta edição não poderia se chamar fortes emoções novamente, levando em conta nossos últimos acontecimentos e a tentativa constante de destruição dos brasileiros por parte do governo. O negócio está tão sério que a ameaça do Estado Islâmico passou batida por aqui. Em todo caso, a edição celebra muito bem a estrutura de poder com dois grandes e cultuados filmes, além de outros que tentarão nos tranquilizar, na ilusão maravilhosa da narrativa de ficção. Vamos a eles!!

Ninfomaníaca I e II (2013, de Lars Von Trier) – 117 min e 123 min.
Ninfomaníaca foi um filme polêmico, dividido em duas partes e aqui considero ambas. Lars Von Trier não é a melhor pessoa do mundo, é extremamente complicado e controverso e já deu declarações horrendas em sua vida. Ao mesmo tempo, é um grande artista, tem filmes com aquele status de arte que foge da redução que o ‘cult’ tenta construir. O filme não é sobre sexo, é sobre poder. E não é excitante, a menos que a apatia seja algo que te agrade. Nossa protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin) conta sua história a Seligsman (Stellan Skarsgard), um homem que a resgata da rua, toda machucada e quase inconsciente. Ela foi deixada ali não se sabe porque e o homem que a resgata salva sua vida. É uma história pesada e com bastante sexo, mas do tipo que envolve doença, ela não é ninfomaníaca dos títulos baratos e acrobáticos dos filmes pornôs, ela é ninfomaníaca como diagnosticada com uma doença que a domina, que ultrapassa seus sentimentos e intelecto. O filme é grandioso, tem alguns momentos que poderiam ser feitos de outra forma e é longo, se considerarmos as duas partes. Foram lançados separadamente nos cinemas. Vale muito a pena, mas precisa de estômago. O final é a própria representação da sociedade e é tudo o que eu vou falar. Além dos já citados, encontraremos Uma Thurman, Willem Dafoe, Christian Slater e Shia LaBoeuf.

Sherlock (2010 -, de Mark Gattis e Steven Moffat) – 90 min
Para pararmos um pouco de pensar sobre todas as coisas que envolvem o filme acima e podem me convidar para todas as discussões sobre ele, segue uma série ótima da maravilhosa BBC para nós: Sherlock. Sim, é sobre deduções investigativas brilhantes, é sobre o cultuado e divertido Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) e Dr. Watson (Martin Freeman). Os episódios são longos, duram 90 minutos, mas as temporadas são super curtas, de 3 episódios. A produção é imensa, porque a série ganha efeitos especiais, muitas locações e personagens, sendo ambientada nos tempos de hoje. O mais divertido é ver os personagens dialogando e Benedict e Martin fazem uma dupla incrível no que parece ser um quase adolescente (Sherlock) e seu fiel escudeiro mais maduro, mas que precisava de alguma ocupação depois de uma vida tensa no Afeganistão (Watson). A estratégia de ser um seriado curto, como as minisséries da Globo funciona bem, porque quando chegamos perto de cansar, a temporada acaba e precisamos saber o que vai acontecer depois. A série ganhou 73 prêmios além das 107 indicações, acho que vale, pelo menos, dar uma olhada.

Ferrugem e Osso (2012, de Jacques Audiard) – 120 min
Pense num filme bonito? Esse pode ser sobre uma história de amor, quase dá pra chamar de romance, embora não seja o foco do filme. É sobre duas pessoas que vivem dramas fortes e distintos e o superam juntos, em uma ligação muito mais profunda de amizade do que de amor. Stéphanie (Marion Cotillard) é uma treinadora de baleias Orca, daquelas de parques aquáticos. Alain van Versch (Matthias Schoenaerts) é um jovem pai de um garoto que não tem trabalho e precisa encontrar um de qualquer forma, a fim de poder dar alguma vida para seu filho. Os dois se conhecem em uma boate e dali não sai nada, mas ele a ajuda, lhe dando uma carona para casa. Vão se encontrar mais adiante e aí então saberemos mais. É de uma fotografia magnífica em seus contrastes, na aproximação dos personagens. É de uma edição brilhante nas cenas de luta e na construção da história e, para melhorar de vez, é econômica em palavras, do jeito que muitos filmes deveriam ser. É o tipo de filme que nos provoca a conhecer toda a filmografia do diretor e roteiristas, para continuar com estes sentimentos e construções narrativas. Ganhou um milhão de prêmios e vou rever. Ah! Lembra de Piaf que indiquei aqui outro dia? Pois, é ela a protagonista. O filme é belga e vale uma atenção para a cinematografia do país – os filmes tendem a ser impressionantes.

Tubarão (1975, de Steven Spielberg) – 124 min
Continuando a saga sobre filmes de poder que tal um em que a natureza se vira contra nós e nos ameaça? Tubarão é um clássico que todo mundo já viu, mas a trilha sonora permanece em nós para sempre e nos faz querer rever. Não é da safra nova da Netflix, mas é eterno. Spielberg nos traz um suspense aterrador sobre um tubarão que ameaça uma praia e a única solução que o homem encontra para ter paz e poder mergulhar novamente é matá-lo. Mas o tubarão não é bobo nem nada, então dá bastante trabalho e literalmente toca o terror onde aparece. A sinopse é simples assim mesmo, mas o filme é maravilhoso. É um dos marcos do cinema de terror, um dos marcos na carreira do diretor que todo mundo conhece. Tem seus momentos trash, mas de forma geral é até um filme sério, considerando seu gênero. Levou três Oscars, é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos e em todo mundo, e carrega um elenco de peso: Roy Schieder, Robert Shaw e Richard Dreyfuss.

Grandes Momentos (2012, de Michael Mohan) – 97 min
Agora, como não poderia faltar, uma comédia romântica daquele tipo: boba, gostosa, não estúpida e do tipo que dá pra ver algumas vezes. Sarah (Lizzy Caplan) é a mocinha da livraria que namora Kevin (Geoffrey Arend). As coisas não estão muito bem quando ela conhece Jonathan (Mark Webber, que com esse filme me fez buscar todos os outros em que participou) e da mesma forma, nem tudo são flores. No meio disso, Beth (Alison Brie, a Trudy Campbell de Mad Men), sua irmã, está enlouquecida com os preparativos para o casamento com Andrew (Martin Starr) e tudo vira um novelo difícil de desatar. O filme é leve, despretensioso, mas com personagens bem construídos e diálogos simples e eficientes. Funciona muito bem em tudo e é um passatempo delicioso.

Bonus track!!
Perdidos na Noite (1969, de John Schlesinger) – 113 min
Esse filme não sai da minha cabeça. Demorei muito para assisti-lo, mesmo com todas as suas credenciais e o resultado foi surpreendente, de fato. Vou escrever propriamente sobre ele, mas acho que se encaixa nesta lista, já que pode ser sobre amizade, sobre redenção e poder. Joe Buck (Jon Voight) é um texano que decide encontrar uma vida melhor em Nova York. Ele acha que por ser bonito e atraente vai conquistar as mulheres da cidade grande com botas de cowboy e um eterno bronzeado. De cara, claro, as coisas não funcionam assim, toda grande cidade sabe ser cruel com os ingênuos. De alguma forma, ele cruza com Ratso (Dustin Hoffman) e pode se dizer que se tornam amigos. Os dois, miseráveis e sem trabalho, seguem tentando se dar bem e enfrentando as consequências de muita pobreza e ideias românticas demais sobre ganhar a vida, para dizer o mínimo. Os dois atores, hoje já grandes nomes da cinematografia americana, aqui estão soberbos. A trilha sonora é de uma nostalgia gritante, da mesma forma que para nós é ver a Nova York de mais de 40 anos atrás com um viés urbano de sombras, sujeira, vida real. O filme é tão bem construído que trechos dele soam com documentais, tamanha composição realista daquela rotina e narrativa. É impressionante e perfeito. Até o fim. Veja com calma, se deixe levar pela história, não ache que é um filme comercial. Você vai se impressionar. E se incomodar um pouco. Levou melhor filme, roteiro e direção no Oscar de 1970, além de outros 24 prêmios e 15 indicações.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Biluca e She-Ra
She-Ra morreu e eu não estava lá. Não estive ao seu lado nos minutos finais, não estive durante muitos outros minutos em oito anos morando longe. She-Ra foi minha cachorra, minha heroína do início da faculdade até hoje. A dálmata mais linda, com as pintinhas mais bem posicionadas que já vi, as orelhas pretas, o melhor sorriso.
She-Ra veio morar em nossa família por minha causa. Fiquei muito triste depois que Duque, o pastor alemão mais lindo e corajoso da minha vida precisou ir embora, estava ficando muito violento. Ele apanhava na minha casa quando não estávamos lá, pela empregada doméstica e não sabíamos de nada. Quando soubemos, já era tarde e o cachorro só respeitava a mim. Meu pai disse que ia entregá-lo para a polícia e é nisso que eu tento acreditar até hoje. Duque era incrível, e era bom.
bom dia na janela do quarto
Chegou de noitinha, eu ainda estava triste e quase não quis encostar nela. Era um filhote bem pequeno de poucos meses e fiquei olhando, até que me apaixonei em questão de segundos. Lá em casa os cachorros dormiam na varanda ou na garagem, mas ela chorava muito e eu ficava acordada até todo mundo dormir para levá-la pra dentro, escondida em um abraço. Dormíamos juntas e eu não ligava quando reclamavam comigo todas as manhãs.
Foi mãe de quatro: Gorpo, Esqueleto, He-man e Tila, que depois ganhou o apelido Biluca. Biluca mora lá em casa e hoje está mais triste do que qualquer outro dia de sua vida, hoje ela dormirá sozinha e há dias não come muito. Biluca nasceu com o céu da boca aberto, com uma fenda interna e toda vez que tentava mamar, engasgava e os irmãos tomavam seu lugar. O veterinário disse que sua única chance seria se a alimentássemos com mamadeira, mas ela era muito pequena e não cabia o bico em sua boca. Eu e minha irmã nos revezávamos com seringas com leite até ela se desenvolver e conseguir beber na tigela, com todo o desconforto do líquido entrando no nariz. Ela é menor do que os outros desde sempre e um pouco maluca, mas tem o mesmo coração de ouro e sorriso engraçado da mãe. Sim, dálmatas sorriem.
três meninas felizes
Eu sinto muita falta de minhas meninas, mesmo tendo sido essa a minha escolha. Seria crueldade mantê-las em um apartamento, com tão pouco tempo para dar atenção. Então, sempre que vou a Salvador passo um tempo com elas, brincamos, passeamos, matamos a saudade e quando vou embora elas não se despedem, me dizendo que tudo tem limite nessa vida. É uma saudade provisória e perene, assim, simultaneamente. She-Ra significa casa no sentido completo de aconchego, família, carinho, tranquilidade, preguiça. Ela inteira era feita de amor e isso se via em seus olhos, no jeito como encostava pedindo um afago, em como sempre me acompanhava na varanda, na rede, na grama, em como brincava com todo mundo e jamais rosnou para alguém.
Hoje está difícil, mais do que achei que seria. Histórias, imagens felizes, brincadeiras dessa moça tentam aquecer meu coração e minha memória, e me prendo em seu olhar e sorriso. Está tudo certo. Chegamos naquele momento em que o que resta de físico é sofrimento e ninguém precisa disso por muito tempo. Minha velhinha se foi e se correm hoje algumas lágrimas, são de gratidão, não essa superficial, new-new age gratuita, mas por 14 anos de amor incondicional, recíproco e de saudade, muita.
Um beijo, minha pequena. Foi uma alegria e uma honra viver com a senhorita.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários

O trailer mostra um filme francês de super-herói e dá vontade de ver pela combinação das palavras mesmo: filme, francês, de super-herói. Inusitado em sua concepção e produzido sem efeitos especiais, a produção de baixíssimo orçamento do diretor, roteirista e protagonista Thomas Salvador se constrói sob a égide de um filme de gênero, quase o rompendo enquanto conceito.

Thomas Salvador é Vincent, um homem que, ao entrar em contato com água, ganha superpoderes. O que ele faz com isso? Aparentemente nada. Qual é sua missão na Terra? Ninguém sabe. Ele sequer se fantasia? Não. A graça está justamente nisso, em um cara qualquer que, quase por acaso, tem uma particularidade. E é aí que o roteiro quase se perde.

Leve, divertido e interessante, o filme trata desse homem que chega a um vilarejo próximo de grandes lagos, encontra emprego e se firma. Ali conhece sua namorada Lucie (Vimala Pons) e tudo parece correr bem, até que um amigo recente, Driss (Youssef Hajdi), se envolve numa briga e ele vai ajudá-lo. Acaba perseguido pela polícia. A trama corre por caminhos como se o acaso estivesse sempre alterando sua vida e isso é interessante, já que há filmes suficientes de super-heróis querendo salvar o planeta de alguma ameaça obscura, e chegamos nos cinemas com aquela ideia clara do que vamos ver. Vincent não quer salvar ninguém de nada – à exceção deste amigo e só porque estava por ali no momento – e sua cidade é quase idílica de tão tranquila. Em tempos caóticos no Brasil, até dá vontade de morar lá.

O fato é que algo se perde no caminho. Ficamos esperando a trama se desenrolar e até nos divertimos com o romance deste homem calado e tranquilo com uma mocinha engraçada e meio circense. A quase ausência de diálogo é uma das graças do filme, recurso pouco utilizado no cinema do gênero e aqui funciona muito bem. Não há muito que dizer, de qualquer jeito. A fotografia segue os tons do verão europeu e a música corrobora para um filme cheio de gracejos. A montagem cansa um pouco; as perseguições longas demais nos fazem questionar qual é a relevância de tantas sequências e a estrutura narrativa se afrouxa. O diretor disse em entrevista recente que passou um bom tempo trabalhando no roteiro do filme, mas talvez por ser seu primeiro longa-metragem – já havia dirigido curtas – faltou uma percepção maior de ritmo e equilíbrio.

Ainda assim, o filme nasce com uma ótima premissa e nos deixa pensando sobre o que é ser um super-humano, ao invés de super-herói. As cenas de natação e seus poderes de escapar das situações são impressionantes. A construção de artefatos, dispositivos para promover os efeitos visuais não computadorizados nos deixa surpresos, pois nos fazer lembrar filmes de décadas passadas. Da mesma forma, há uma referência ou homenagem ao Homem Aranha em uma cena com Lucie que não conto aqui. As cenas de intimidade são deliciosas e pouco realistas, de uma ingenuidade ou leveza infantil. Talvez seja esta a graça dos filmes de herói.

Por um momento, esperei a grande metáfora sobre meio ambiente, poder e importância da natureza no desenvolvimento humano, mas passa longe da intelectualização. A ideia é transmitir a ilusão do gênero e seus protagonistas o fazem muito bem. Não é uma obra-prima, mas não chega a ser perda de tempo. A interpretação do diretor parece tão sutil, que não sabemos se ele está de fato interpretando ou só participando das cenas, tornando real tudo o que havia imaginado antes das filmagens. Há uma calma e brincadeiras de um filme de verão que fazem valer o ingresso, se você não estiver esperando muito. 

Veja o trailer aqui!
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Setembro amarelo no Cinema | 20 filmes sobre saúde mental
    Setembro amarelo no Cinema | 20 filmes sobre saúde mental
  • 8 melhores streamings de filmes e séries gratuitos online para conhecer em 2020
    8 melhores streamings de filmes e séries gratuitos online para conhecer em 2020
  • Nova Coluna: Amigos que escrevem
    Nova Coluna: Amigos que escrevem
  • Livro | Futuro Ancestral, Ailton Krenak
    Livro | Futuro Ancestral, Ailton Krenak

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose