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Café: extra-forte

Estou sem tv. Ela quebrou ontem. Liguei à noite e ouvia, mas não via. O problema de você ter a tv quebrada é quebrar a rotina com isso. Não é simplesmente o desconforto de descer um lance de escada e mais 10 andares no elevador carregando uma tv de 29 polegadas, pegar um táxi até a assistência técnica e ainda chegar tarde no trabalho, mas o fato de não assistir seus programas e nem ter como reclamar deles.

Muito ruim. Daí não posso ler livros por muito tempo senão durmo antes do programado pelo meu relógio e me lasco numa insônia madrugada adentro. Mas já decidi não me estressar com isso hoje.

É incrível como são essas coisas que fazem a diferença e que nos lembram como é morar sozinho. Ninguém reclama dos meus quatro pares de sapatos na entrada de casa, do guarda chuva pendurado ao lado da tv, da bolsa jogada no sofá, dos casacos no outro. Dos papéis na escrivaninha e da cama quase eternamente desarrumada. E normalmente até que eu sou arrumadinha, mas esses dias têm sido complexos. Muita preguiça. Lavo os pratos.

Fazendo a rotina acontecer, tentando descobrir coisas para quebrar o marasmo. Agora mesmo, estou brincando de equilibrar a tábua da mesa do computador nas coxas, equilibrando o notebook e vendo até a que ângulo ele não vira. Ainda com frio e preguiça de botar uma roupa de gente. A parte boa é que fui ao cinema e o filme era muito bom - Se beber, não case!. Depois conto.

Ah! Hoje entrei no Copa Palace. Bonito o menino. De verdade. Chique total, pé direito nos infernos. Silencioso. Vale muito um filme de terror. 4800 a mega suíte plus da Madonna, do Tom Cruzes e do Wolverine. E, no caminho de volta, ainda descobri a melhor confeitaria do Rio de Janeiro: Traiteurs de France. Comi três coisas, e se pudesse comia mais.

Nhé. Deixetá que já já acabo com isso. Em breve, cenas dos próximos capítulos.
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Há filmes que passam por nós sem que os percebamos. Vão aos cinemas, entram nas locadoras e um belo dia encontramos na capa um motivo e a surpresa é inevitável. São filmes como Respiro que devem, primordialmente, ser vistos no cinema.


filme-respiro

Infelizmente o vi apenas agora, na minha tv, numa noite de chuva. Respiro conta a história de uma família siciliana que vive em Lampedusa, uma pequena ilha. O nome da ilha só dá pra saber se você já conhecer o local ou ler a sinopse no dvd, porque o filme não indica e prescinde disso. Esta família tem uma mãe cuja natureza é distinta de todas as pessoas ali residentes e seu comportamento confunde e incomoda a vida da comunidade.

O filme tem algo que me lembra Lucía e o Sexo, de Julio Medem. Em Lucía, a protagonista também é uma mulher impetuosa e intempestiva cuja cartilha da própria vida vai escrevendo com os sentimentos e impulsos. Ainda temos fotografias e locações (no caso de Lucía, Espanha) cuja beleza natural deve espantar até os moradores. Mas as semelhanças acabam aí.

A beleza de Respiro está na ausência. Em Grazia, que diz muito em pouquíssimas palavras, que vive conforme a natureza e o mar em seu olhar. Grazia é instinto, sua paixão pela vida está, não no que seria o termo liberdade, mas numa forma de viver autônoma e independente, espontânea. E, enquanto seu marido luta para conseguir conviver com tanto amor a esta estranheza, aqueles que estão sob sua órbita percebem apenas incômodo e desconforto. Tão próximos e não menos importantes, os filhos e seu carinho, o querer de cada um e como compreendem o que têm ao seu redor. A cada um, uma expressão particular, uma relação íntima, um entendimento. Aqui a compreensão das partes, dos filhos, das funções sociais que conhecemos tão bem vão se transformando gradualmente, suavemente como se devesse ser sempre assim.

Ao mesmo tempo em que percebemos a trajetória do filme como a história de um vilarejo em que todos parecem vizinhos, embarcamos numa cultura particular de um povo que vive bem com o que acharíamos muito pouco. A cultura arraigada ali, o calor entre as pessoas e o olhar vibrante como as palavras, criam um ritmo próprio e queremos que o filme nunca acabe. De roteiro aparentemente simples, é firme a complexidade e universalização das relações. Conseguimos fazer parte de um universo que nos é distante geograficamente, culturalmente. Assim é contada uma boa história, como acontece a um bom livro.

Felizmente vi Respiro agora. O filme há que ser visto com o carinho de quem quer conhecer, ter uma experiência de beleza e emoção, a paixão, comer com olhar cada nuance da fotografia e do natural que transborda das locações. É uma pena, porque só consigo pensar em elogios e palavras que se repetem em minha cabeça e dá vontade de conversar, falar, narrar cada cena que nos marca, cada luz e fotografia, os diálogos, os personagens, o olhar de cada um, os sentimentos ali contidos e depois expostos. A impressão que dá é que os atores não mais existem, que são aqueles personagens, que não há encenação. É um filme em que o ideal é que se escreva pouco sobre ele, que se assista e sinta. Assim é mais fácil entender, sem pensar muito, ou pensando com o coração.

Título Original: Respiro
Diretor: Emanuele Crialese
Itália, 2002. 91 min.

Citado:
Título Original: Lucía y el Sexo
Diretor: Julio Medem
Espanha, 2001. 128 min.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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