
Ao assistir o novo Batman – O Cavaleiro das Trevas, sentimos que estamos vendo mais do que uma superprodução. O herói conhecido por todos retorna numa nova seqüência e, talvez também pelo falecimento daquele que faz seu principal oponente, saímos sem saber direito como digerir o filme. Há um misto de sensações de bem-estar, pela qualidade e entretenimento e mal-estar, por seu caráter sombrio e pela morte de um magnífico ator em seu melhor momento.
Mas, ainda assim, não é só isso. Ficamos extasiados com a qualidade das imagens, com as seqüências em velocidade, com os figurinos exatos e com o ritmo do filme. Vemos a face do Bem em crise: Batman não é um herói; ele salva as pessoas, mas com um preço a pagar à sociedade. Batman não é o perfil do Bem nos Estados Unidos. Batman, resumindo, não é o Super-Homem. O Coringa, por outro lado, é a exemplificação do mal insano, não sabemos seus motivos para os crimes, ele é um psicopata onde todos, até a vilania, o temem.
A estória se resume com a luta do Batman contra o Coringa, para livrar Gotham City deste mal e a polícia continuar seu cerco às máfias que controlam partes da cidade. Ficou confuso? Batman está sendo procurado pela polícia de Gotham, para que vá preso por seus danos à cidade, entretanto, o Comissário Gordon não o prende porque conta com ele para a dissolução dos crimes. As máfias diversas dominam a cidade e, ao se perceberem ameaçadas, fazem um acordo com o Coringa, que conhece bem e é o único oponente real do Cavaleiro das Trevas.
O homem-morcego é interpretado por Cristian Bale, que fez também o primeiro e bom, Batman Begins, mas a novidade e todas as atenções do filme estão concentradas no Coringa, cuja interpretação de Heath Ledger transformou para sempre a idéia que tínhamos deste personagem. Sombrio, com um sorriso sardônico fixo no rosto pela maquiagem, esquecemos que ali é o mesmo ator que fez Brokeback Mountain, anos antes. A perversidade do Coringa prende o espectador por três motivos: inevitabilidade, imprevisibilidade e consciência. Sabemos que ele virá em algum momento, não sabemos como e nem o que ele vai fazer e, o mais importante, ele traz questões para o espectador.
O roteiro busca transmitir uma identidade humana ao Batman, firmada na realidade ali construída com raízes em nossa sociedade ocidental. Batman é o mal necessário, é o humano comum, ancorado nas tecnologias que lhe garantem supremacia física e alguma defesa. Coringa se compara a Batman, introduzindo no espectador a luta de gigantes, o clássico Bem e Mal, em que o Bem não é o que a sociedade espera ou, sequer, aceita. É o ideal do Bem desconstruído numa versão de necessidade e não, de desejo. E o Mal existe para contrapor o Bem e, também, porque é divertido. Essa relação se torna ainda mais tênue e preocupante, quando o Coringa renega alguns valores e põe outros em xeque: ele não luta por dinheiro e responsabiliza a própria sociedade em sua organização, em sua conduta moral.
Este Coringa é o pior antagonista das HQs adaptadas ao cinema. Sem o ar infantil ou apenas espalhafatoso, Heath Ledger traz um homem cuja face assusta naturalmente e extrapola a cada olhar, caminhar, movimento. O Coringa é o filme, ainda que Comissário Gordon(Gary Oldman), Duas Caras (Aaron Eckhart), Alfred (Michael Caine), Lucius Fox (Morgan Freeman) e Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) tenham seu peso. Comprovado por todos os espectadores do mundo, o filme se justifica a cada fala do Coringa, a cada duelo verbal. O Coringa é o psicopata cuja empatia – renegada em entrevista por seu ator – se faz à primeira vista. A maquiagem esconde uma cicatriz, que a cada momento, é explicada em novas versões às suas vítimas. Acreditamos na primeira e, ao ouvir uma outra completamente diferente, ficamos surpresos e apreensivos. O sorriso perfeito numa boca escancarada e com batom vermelho borrado nos assusta ainda mais, se somamos aos olhos negros em um fundo de pasta branca que toma todo o rosto. Sua maquiagem, assim como o cabelo são montados para dar uma preocupação estilística que define o personagem criado pelo próprio vilão: o Coringa cria seu personagem, à medida que assume em diálogo no filme a maquiagem e o terno roxo. São detalhes que constroem o personagem dentro do personagem e introduzem um novo olhar ao espectador atento. Não há limites para o mal e não há medo, essa é a característica do vilão.
Com a tecnologia das câmeras IMAX, utilizadas com película de 70mm, só lamentamos não poder assistir nas telas apropriadas. Ainda assim, é possível notar a qualidade artística da fotografia soturna e brilhante. Cristopher Nolan acertou em cheio na direção do filme, bem como no roteiro, com grandes diálogos em cenas bem recortadas. Até agora, a questão imposta pelos críticos se dá com uma possível indicação ao Oscar póstumo para Heath Ledger, entretanto, acredito que o filme pede outras indicações. Ao que tudo indica, muitos sairão das projeções como eu saí: feliz por ter experienciado mais um grande filme e triste, por perder para sempre uma possível e brilhante carreira artística de um ator agora consagrado. O desafio de Nolan é maior: caso continue a saga de Batman, terá que reconstruir um Coringa à altura, já que ao menos o personagem continua vivo.
