• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte


Ao assistir o novo Batman – O Cavaleiro das Trevas, sentimos que estamos vendo mais do que uma superprodução. O herói conhecido por todos retorna numa nova seqüência e, talvez também pelo falecimento daquele que faz seu principal oponente, saímos sem saber direito como digerir o filme. Há um misto de sensações de bem-estar, pela qualidade e entretenimento e mal-estar, por seu caráter sombrio e pela morte de um magnífico ator em seu melhor momento.

Mas, ainda assim, não é só isso. Ficamos extasiados com a qualidade das imagens, com as seqüências em velocidade, com os figurinos exatos e com o ritmo do filme. Vemos a face do Bem em crise: Batman não é um herói; ele salva as pessoas, mas com um preço a pagar à sociedade. Batman não é o perfil do Bem nos Estados Unidos. Batman, resumindo, não é o Super-Homem. O Coringa, por outro lado, é a exemplificação do mal insano, não sabemos seus motivos para os crimes, ele é um psicopata onde todos, até a vilania, o temem.

A estória se resume com a luta do Batman contra o Coringa, para livrar Gotham City deste mal e a polícia continuar seu cerco às máfias que controlam partes da cidade. Ficou confuso? Batman está sendo procurado pela polícia de Gotham, para que vá preso por seus danos à cidade, entretanto, o Comissário Gordon não o prende porque conta com ele para a dissolução dos crimes. As máfias diversas dominam a cidade e, ao se perceberem ameaçadas, fazem um acordo com o Coringa, que conhece bem e é o único oponente real do Cavaleiro das Trevas.

O homem-morcego é interpretado por Cristian Bale, que fez também o primeiro e bom, Batman Begins, mas a novidade e todas as atenções do filme estão concentradas no Coringa, cuja interpretação de Heath Ledger transformou para sempre a idéia que tínhamos deste personagem. Sombrio, com um sorriso sardônico fixo no rosto pela maquiagem, esquecemos que ali é o mesmo ator que fez Brokeback Mountain, anos antes. A perversidade do Coringa prende o espectador por três motivos: inevitabilidade, imprevisibilidade e consciência. Sabemos que ele virá em algum momento, não sabemos como e nem o que ele vai fazer e, o mais importante, ele traz questões para o espectador.

O roteiro busca transmitir uma identidade humana ao Batman, firmada na realidade ali construída com raízes em nossa sociedade ocidental. Batman é o mal necessário, é o humano comum, ancorado nas tecnologias que lhe garantem supremacia física e alguma defesa. Coringa se compara a Batman, introduzindo no espectador a luta de gigantes, o clássico Bem e Mal, em que o Bem não é o que a sociedade espera ou, sequer, aceita. É o ideal do Bem desconstruído numa versão de necessidade e não, de desejo. E o Mal existe para contrapor o Bem e, também, porque é divertido. Essa relação se torna ainda mais tênue e preocupante, quando o Coringa renega alguns valores e põe outros em xeque: ele não luta por dinheiro e responsabiliza a própria sociedade em sua organização, em sua conduta moral.

Este Coringa é o pior antagonista das HQs adaptadas ao cinema. Sem o ar infantil ou apenas espalhafatoso, Heath Ledger traz um homem cuja face assusta naturalmente e extrapola a cada olhar, caminhar, movimento. O Coringa é o filme, ainda que Comissário Gordon(Gary Oldman), Duas Caras (Aaron Eckhart), Alfred (Michael Caine), Lucius Fox (Morgan Freeman) e Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) tenham seu peso. Comprovado por todos os espectadores do mundo, o filme se justifica a cada fala do Coringa, a cada duelo verbal. O Coringa é o psicopata cuja empatia – renegada em entrevista por seu ator – se faz à primeira vista. A maquiagem esconde uma cicatriz, que a cada momento, é explicada em novas versões às suas vítimas. Acreditamos na primeira e, ao ouvir uma outra completamente diferente, ficamos surpresos e apreensivos. O sorriso perfeito numa boca escancarada e com batom vermelho borrado nos assusta ainda mais, se somamos aos olhos negros em um fundo de pasta branca que toma todo o rosto. Sua maquiagem, assim como o cabelo são montados para dar uma preocupação estilística que define o personagem criado pelo próprio vilão: o Coringa cria seu personagem, à medida que assume em diálogo no filme a maquiagem e o terno roxo. São detalhes que constroem o personagem dentro do personagem e introduzem um novo olhar ao espectador atento. Não há limites para o mal e não há medo, essa é a característica do vilão.

Com a tecnologia das câmeras IMAX, utilizadas com película de 70mm, só lamentamos não poder assistir nas telas apropriadas. Ainda assim, é possível notar a qualidade artística da fotografia soturna e brilhante. Cristopher Nolan acertou em cheio na direção do filme, bem como no roteiro, com grandes diálogos em cenas bem recortadas. Até agora, a questão imposta pelos críticos se dá com uma possível indicação ao Oscar póstumo para Heath Ledger, entretanto, acredito que o filme pede outras indicações. Ao que tudo indica, muitos sairão das projeções como eu saí: feliz por ter experienciado mais um grande filme e triste, por perder para sempre uma possível e brilhante carreira artística de um ator agora consagrado. O desafio de Nolan é maior: caso continue a saga de Batman, terá que reconstruir um Coringa à altura, já que ao menos o personagem continua vivo.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
E ela resolveu sair pra dançar. Morria de frio em terra de amiga, se reconstruindo de mais um clichê desses que nos aparece na vida. Com meias rosa-choque até o joelho, escondidas numa justa calça jeans, blusinha leve por dentro, manga comprida e gola alta por fora, botas e casaco, desceu a rua, atravessou a praça e seguiu pro forró.

Lá dentro, nada acontecia. As amigas conversavam animadamente, analisando o circo ao redor: como em todos os lugares dançantes do mundo, uns dançavam, outros olhavam e comentavam os dançantes e outros apenas caçavam, olhavam, buscavam um primeiro contato pra se dar bem até o final da noite.

As amigas, como de costume, só queriam conversar, beber, dançar e rir. Sempre foi assim, desde que são amigas. O tempo de convivência é tão raro, que apenas o encontro delas é suficiente. O forró havia começado e os rapazes que já olhavam as duas estranhas na cidade, ameaçavam uma aproximação. Elas, cujo interesse era apenas esquentar os ossos nos seis graus da noite serrana, aceitariam qualquer oferta razoável.

Depois de ensinarem, cada uma, uma média de cinco rapazes afoitos por um canto da boate, elas desistiram. A primeira, já de saco cheio por seus próprios clichês, postou-se ao lado da banda que tocava músicas gostosas. Não ia dançar com mais ninguém, mas gostava de olhar quem sabia dançar e se esbanjava acompanhado no meio do salão. A amiga teve mais sorte: encontrou outros amigos e descolou uma conversa de interior.

A sina que perseguia a dona dos clichês era ainda mais cruel do que o hábito de gostar de dançar. Eles, certamente acima dos 45, a encarava como se ela estivesse ali, única e disponível para mostrarem-se bem sucedidos e ela aceitar. Mas ela não aceitava nem começo de conversa àquela altura do campeonato. No primeiro ‘oi’, cansada de ser simpática, virava a cara. Com a continuação da perseguição, sucessivos ‘não’ eram ouvidos secamente. Quando estava à beira de uma grosseria educada de menina esnobe, o rapaz a chamou para dançar. Com o sorriso de que finalmente teria sua noite salva, num ar de vingança, olhou para o cinqüentão e saiu para o centro com o menino de quase 30. Ela, de 25, finalmente iria dançar, rir, esquecer. Rodou, abraçou, apertou, gargalhou. A dança não parava e eram só eles dois naquele momento, no mundo. Uma felicidade a inundou como se precisasse ser salva e houvesse encontrado seu príncipe.

Brigada, você é ótimo. E você dança muito bem! Vai na minha peça amanhã, ver a gente. Vou sim. Ele era ator, mas foi ela quem fingiu por último.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários

Dias atrás...

Agora estou num avião. Enquanto o vôo não acontecia, minha tensão aumentava a cada segundo de atraso. Passei a não gostar de aviões.

Agora que estou no avião em vôo, a coisa muda de figura. Há um mar de nuvens abaixo de nós e acima um céu azul que não se vê lá da terra. O Rio estava nublado e frio, são estas aí, as nuvens dele. Estou indo a Salvador, que também tem nuvens, só que em menor quantidade.

É sempre a mesma história: um drama pra voar, contido e fingindo que tudo está indo muito bem e estou muito segura de mim. Tudo mentira. Eu sempre sei que vai dar tudo certo, mas sempre me lembro de todas as histórias em que aconteceu tudo errado. E passei uma semana de filmes não muito benéficos para o momento, até que vôo e fico tranqüila.

Neste mar de nuvens. Primeiro vemos as nuvens de baixo pra cima, cinzas e ameaçadoras. Depois entramos no meio de campo, tudo branco, parecendo aquelas metáforas de Céu... depois subimos ao paraíso dos relevos brancos e macios. Dá vontade de mergulhar nas nuvens, de se prender no avião com uma corda e deixar ele te levar por entre elas, porque as nuvens são também mar.

Uma criança brinca no fundo do avião, pra dar graça ao vôo, após uma hora e meia de atraso. Lá na frente, uma mulher a cara da Maria Bethânia, mas acho que ela é muito chique pra pegar um vôo desse... mas é a cara... o mesmo cabelo, pelo menos.

É engraçado, a gente voa e voa e parece que vai tão devagar... eu sempre quero chegar logo. Uma hora e meia de vôo, o piloto falou. Passaram-se 20 minutos até agora. Daqui a pouco é a hora do suco com amendoins condimentados e barra de cereal: a pior refeição que um avião poderia nos servir.

A única coisa a lamentar da beleza das nuvens, é perder a vista da terra. Mas não se pode ter tudo. Apenas relances de um pouco de cada coisa. Pelo menos dá pra saber que não viajamos por mar, mas por terra de fato.

Só para calar a minha boca infame, nos serviram sanduíche com suco. Creio que seja por causa do almoço e pra nos alegrar, depois de tanto atraso. Ainda mais: como é meu dia de sorte, consegui ver bastante terra e ainda um rio, que não tenho idéia de qual seja. Agora nuvens e nuvens.

Há uma senhora ao meu lado, com idade de ser minha mãe. Bem vestida, ela pediu sanduíche light, que não tinha. Aceitou o que tinha, que nem é esse macdonald's todo de gorduras, pelo contrário: queijo branco e peito de peru. Depois do sanduíche normal com suco de caju light, uma trufa de chocolate, pra fazer valer logo tudo de vez. Vai entender... ela bem quer saber o que tanto escrevo, tenta ler com o Ray Ban preto, mas finjo que não é comigo. Ela disfarça, olhando pra minha janela. Bobinha...

Como sempre, estou com frio. Mas isso é só uma anotação sem muito sentido no texto. Estou chiquerésima com meu casaco comprido, jeans escuro e salto preto. Óculos tão chiques quanto o de minha vizinha e me tremendo de frio. Acho que as pessoas chiques não sentem muito frio... droga. Todos os meu pêlos estão arrepiados e é claro que meus pés, nos saltos pretos, congelados. Minhas unhas vermelhas de esmalte, possivelmente estão arroxeadas na vida real. Coisa de nordestino quente. E olha que lá fora tá 27 graus e é meio-dia e quarenta e dois.

O piloto informa: chegaremos em Salvador às 13:50, que me dá ainda mais de uma hora de vôo. A única meta é segurar a bexiga até lá e evitar as besteiras no texto.

Agora estamos em cima do mar. Eu vi a passagem acontecer... eu reparei, e não é a primeira vez, que quando vemos a costa, a orla mesmo, bem do alto, dá a impressão de que está tudo parado, né? Como uma fotografia dessas de iamgens aéreas. Vemos a faixa branca das ondas quebrando, vemos as ondulações do mar e vemos as nuvens... tudo parado... e agora estamos descendo e eu peso 250 quilos. Faltam mais ou menos trinta minutos para pousarmos... fiquei tentando descobrir que praias eram as da costa. Certamente já estamos na Bahia. Pense comigo: um vôo Salvador-Porto Seguro dura aproximadamente 50 minutos. Tendo isso em mente e entendendo que falta mais ou menos meia hora pra chegar na terra, já passamos por Porto Seguro, certo? Achei uma boa dedução...

Eta! Tripulação, preparar para o pouso. Temperatura de 27 graus.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose